Estoicismo 2.0

João Zarco

Doma as tuas ideias.

  1. 21/07

    071 Protege a tua atenção

    Protege a tua atenção Vivemos na era da economia da atenção. Uma economia onde o bem mais valioso já não é o dinheiro, nem o petróleo, nem sequer a informação. É a nossa atenção. A nossa atenção é limitada. Cada minuto que dedicamos a uma coisa é um minuto que deixamos de dedicar a outra. Para Herbert Simon, "a riqueza da informação cria pobreza de atenção." Nunca tivemos tanto conteúdo disponível, mas nunca foi tão difícil manter a concentração. Todos os dias travamos milhares de pequenas batalhas na nossa mente. Vídeos, mensagens, notificações, e-mails, publicações, notícias e anúncios competem pelo mesmo recurso: o nosso foco. Quando milhares de estímulos disputam a atenção, só tem foco quem tem disciplina interior. Atualmente, na era digital, se uma aplicação é gratuita é porque o produto somos nós. Todas as redes sociais vivem do tempo que lhes oferecemos. Captam a nossa atenção, mantêm-nos ligados o maior tempo possível e vendem esse tempo aos anunciantes. Quanto mais tempo permanecemos no ecrã, maior é o lucro que geram. Nada disto acontece por acaso. O scroll infinito impede-nos de sentir que chegámos ao fim. As notificações interrompem o nosso dia precisamente quando estávamos concentrados. Os algoritmos aprendem aquilo de que gostamos, o que nos revolta e o que nos prende, oferecendo sempre mais um vídeo, mais uma publicação, mais uma razão para não largarmos o telemóvel. O resultado é silencioso, mas profundo.

  2. 21/07

    068 Ser indiferente às coisas indiferentes

    Ser indiferente às coisas indiferentes. Grande parte do que nos acontece na vida são coisas indiferentes, que recebem demasiada atenção e prejudicam o nosso bem-estar. São leves gotas que caem e, de repente, transformam-se num dilúvio. No entanto, muitas dessas gotas são insignificantes, não merecem atenção nem energia. São partes da vida, aspetos menos positivos que sempre nos irão acontecer. Se estas insignificâncias nos incomodam e são recorrentes, há todo o interesse em lhes sermos indiferentes, para desfrutar dos dias com mais tranquilidade. Queremos paz, mas alimentamos tempestades. Culpamos o mundo pelas amarguras, mas não é ele o causador do desconforto. Somos nós que lhe damos força, somos nós que alimentamos o mau estar com uma imaginação infantil, que não compreende nem domina os contratempos da vida. Se uma criança parte a janela da nossa sala, esse acontecimento é inerte, não tem a capacidade de nos incomodar. Somos nós que nos concentramos no preço do vidro, no tempo que demora a trocar, no frio que irá entrar e produzimos julgamentos sobre a janela partida. Somos nós partimos a mente ao desencadear emoções amargas, no entanto, também somos nós que temos a capacidade de diminuir a importância deste acontecimento. Marco Aurélio ensina-nos a evitar o massacre mental gerado por coisas insignificantes, ao afirmar que para viver da melhor maneira, basta que sejamos indiferentes às coisas que são, por natureza, indiferentes.

  3. 9/04

    066 Notícias parte 2 - um mundo em alerta

    Viver no mundo moderno, sem barreiras protetoras contra a avalanche de negatividade é como andar de olhos vendados. A qualquer momento o telemóvel vibra e rouba-nos a paz interior. Para evitar sermos atropelados pela atualidade, o estoicismo ensina-nos a criar filtros.  A biologia dispara o alarme, através da química do medo, mas é a consciência que permite pausar e não alimentar essa resposta química com pensamentos catastróficos.  O alarme do nosso corpo está descalibrado. O cérebro lança água para todo o prédio só porque detetou uma torrada queimada.  Já que a nossa genética não acompanha o ritmo tecnológico, a intervenção mental é a única ferramenta que nos pode ajudar. Perante uma notícia alarmista, a filosofia, antes que o pânico inunde todo o edifício, dirige-se ao painel de controlo, insere o código e silencia a sirene. Compreende que é apenas uma torrada queimada e não uma ameaça real.  O estoico não tenta impedir o susto inicial de uma má notícia, pois não controla o primeiro pensamento, mas é responsável pelo segundo e pelo terceiro. Aplicar filtros no momento certo não é fácil. É como aprender uma nova língua, correr uma maratona, perder peso de forma saudável ou falar em público com confiança. Exige grande controlo emocional. Contrariar impulsos requer treino constante, esforço diário e muita atenção sobre os próprios pensamentos. O mundo pode ser difícil, mas governar a própria mente é que exige verdadeiro esforço. Ao nos deparamos com uma má notícia, perguntamos: Esta informação tem um impacto relevante na minha vida? Posso fazer algo para melhorar a situação?

  4. 9/04

    065 Notícias parte 1 - um mundo em alerta

    Porque acolhemos o ruído constante do exterior, enquanto a paz interior se torna distante? A resposta reside na mistura entre biologia antiga e tecnologia moderna. O nosso cérebro foi desenhado para o perigo.  Quando vivíamos nas cavernas, o stresse vinha dos predadores, da fome e das catástrofes naturais. Atualmente, podemos estar no sofá, a ler notícias no telemóvel, e desencadear a mesma resposta química do homem das cavernas a ser perseguido por um predador. Relaxados, no conforto de casa, perante um pensamento, uma notícia ou uma mensagem, o coração acelera, as pupilas dilatam e a corrente sanguínea é inundada de cortisol. Um alarme físico toca e nenhuma resposta é dada ao perigo. Grande parte do stresse atual surge de ameaças imaginárias, levando a que a ansiedade faça parte do dia a dia humano. A mente tenta prever o futuro e sobrecarrega-se desnecessariamente. Por que razão valorizamos tanto o negativo? Porque é que não existe um telejornal dedicado a boas notícias? Emissões que relatem os avanços da medicina ou o desenvolvimento de projetos que reduzem a poluição? Não existe porque estaria condenado ao fracasso. O nosso sistema nervoso desenvolveu-se para detetar o perigo, não foi desenhado para vivermos felizes.   Se um nosso antepassado pensasse que um farfalhar num arbusto era uma brisa, e fosse um tigre dentes de sabre, a sua linhagem genética acaba ali, mas se julgasse ser um predador e fosse o vento, sobrevivia.

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