Este podcast sobre crimes em Portugal é particularmente bem narrado e conduzido com o profissionalismo que lhe é reconhecido, distinguindo-se das enxovias que passaram pelas crónicas criminais da SIC e, mais recentemente, da TVI. O trabalho das jornalistas é sério e cuidado, e a capacidade da Júlia Pinheiro para contar uma história continua intacta.
Ainda assim, do ponto de vista do conteúdo, o episódio pouco acrescenta ao que já era conhecido. É relevante ouvir o testemunho em primeira mão dos advogados de defesa e da acusação, bem como do psiquiatra que esteve com o criminoso, mas não surgem novas pistas de leitura nem um verdadeiro aprofundamento do contexto. Fica por explicar, aliás, a opção por um psiquiatra que não fala português para avaliar um doente que, pelo que era referido na altura, não dominava bem o inglês, num caso profundamente marcado por códigos culturais, linguísticos e sociais muito específicos.
Sente-se também a falta de um contraditório mais robusto na narrativa construída. Pela própria admissão de Carlos Castro, tal como citado no podcast, ele não gostava de “bichas”, mas de homens. Quantos desses homens admitiriam ter-se envolvido com ele? Quantos reconheceriam que o fizeram porque tinham algo a ganhar? Essas vozes continuam ausentes, e a história é novamente contada a partir de um ângulo confortável, pouco incómodo e já muito explorado. Fica a sensação de que outras testemunhas relevantes poderiam ter ajudado a clarificar se existia, ou não, um padrão de abuso de poder.
Por fim, a enumeração dos bens materiais que Renato perdeu durante o período em que esteve na prisão parece-me desajustada. Independentemente de qualquer simpatia ou antipatia pessoal, e sem nunca relativizar a gravidade do crime nem o sofrimento da vítima, o que alguém perde numa situação destas vai muito além de Instagram, PlayStation, iPhones ou uma banda pop. Reduzir a perda a esse inventário é simplificador e empobrece a reflexão, sobretudo quando, no próprio podcast, os advogados sugerem que o arguido sofreria de bipolaridade e que o crime poderá ter ocorrido no contexto de um surto. Mesmo sem o estado de Nova Iorque ter aceite esse argumento, numa era em que existe uma preocupação crescente com todas as dimensões da doença mental, perdeu-se aqui uma oportunidade para discutir esse tema de forma séria e enquadrada, em vez de o deixar suspenso ou reduzido a nota de rodapé narrativa.