Alberto de Oliveira Martins foi um anónimo que se deixou levar pelos ventos da história e que, no final da sua vida, decidiu contar o que viveu com a ajuda de uma velha máquina de escrever que o filho lhe ofereceu. Alberto nasceu em Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, viveu a chegada da ditadura, combateu o franquismo na guerra civil de Espanha, foi preso num campo de internamento em França na Segunda Guerra Mundial e esteve detido nas prisões salazaristas em Portugal. Tudo isso escreveu nas suas memórias no final dos anos 80. Quarenta anos depois, o seu filho, Joaquim, partilhou o texto com o historiador Victor Pereira que foi à procura dos rastos desta história invulgar. O resultado é um livro intitulado “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” [“Os Cadernos de Alberto. Do Porto à Guerra de Espanha”] que vai ser publicado em Maio em França, pela editora Chandeigne & Lima, e sobre o qual estivemos à conversa com Victor Pereira. RFI: Do que fala o livro “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” ? Victor Pereira, Autor e historiador: “Há mais de um ano, Joaquim de Oliveira Martins veio ter comigo dizendo que o pai tinha combatido durante a Guerra de Espanha e que tinha combatido na coluna Durruti, uma coluna dirigida pelo próprio Durruti, que foi um dos mais célebres anarquistas espanhóis. Disse-me que o pai dele tinha combatido lá e que no fim da vida, isto é, no fim dos anos 80, ele tinha escrito não propriamente um livro, mas umas Memórias que, depois, ele me emprestou para eu ler. É um relato fantástico de uma vida que começa em 1915 no Porto e cujas Memórias acabam em 1943,1944, quando regressa a Portugal. O que eu fiz foi convencer - e não foi muito difícil -a Anne Lima da editora Chandeigne & Lima para publicar este texto, que é inédito e há muito poucas obras sobre a participação de portugueses na Guerra de Espanha. O que eu fiz foi ir aos arquivos em Portugal, em Espanha e em França para tentar encontrar rastos da vida dele, pensando que ele tinha vivido várias aventuras pouco comuns. Encontrei documentos, nomeadamente no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca, e fui encontrando várias coisas sobre ele. Muitas vezes, eram coisas que não parecem importantes, como recibos de consulados portugueses em Espanha, e fui conseguindo conferir o que ele dizia porque ele escreveu 40, 50 anos depois e a memória distorce um pouco os eventos. Então, o livro é feito das memórias dele e de uma introdução minha que é bastante longa que é uma introdução biográfica com o que eu consegui encontrar nos arquivos nos vários países para compreender o percurso pouco comum dele.” Há dois textos no mesmo livro: o texto de Alberto de Oliveira Martins, que ele escreveu como testemunho autobiográfico, e a investigação do historiador Vítor Pereira sobre este anónimo... “É isso mesmo. São dois textos. Começa com o meu, mais ou menos 200 páginas, baseado no texto dele, nos arquivos, nas memórias de pessoas que combateram na Guerra de Espanha. Ele combateu numa frente em Aragão, com milicianos que vinham de Barcelona. Li muitas coisas sobre esse combate à volta de Saragoça, onde ele esteve mais. Depois, ele tem o que aconteceu com milhares de espanhóis quando os republicanos foram perdendo a guerra e houve a Retirada, isto é, a entrada de 475.000 pessoas que atravessaram a fronteira entre a Catalunha espanhola e a francesa. Ele faz parte desse milhares de pessoas e é internado num campo de internamento em França. Depois regressa a Portugal e é preso no Aljube. Então, eu vou também contando a história dele, a história de outras pessoas, nomeadamente portugueses, que combateram na Guerra de Espanha e também das pessoas que foram presas durante os anos 1940, 41 em Portugal - no Aljube e em Caxias. Depois, há o texto dele, que começa na infância até quando ele tem mais ou menos 30 anos.” A história de Alberto de Oliveira Martins também ilustra um ângulo morto da História? A história dos portugueses que lutaram na guerra civil de Espanha não é uma história muito conhecida, pois não? “Não é muito conhecida. Foram menos de dez portugueses que escreveram sobre a guerra que eles fizeram e, muitas vezes, são Memórias muito politizadas, o que é bastante normal. Há Memórias de um comunista, há Memórias de um anarquista, alguns textos biográficos de pessoas republicanas. São pessoas mais cultas que contam isto do ponto de vista da mobilização política.” Pode dizer-nos nomes? “Por exemplo, o anarquista Manuel Firmo, o comunista Francisco Ferreira, o Jaime Cortesão, o Jaime de Morais. Foram textos que foram publicados desde os anos 70 até há pouco tempo, como o texto de Jaime de Morais que foi publicado pela Cristina Clímaco e Heloísa Paulo. Mas, no caso de Alberto, ele já está em Espanha e é bastante por acaso que ele vai começar a guerra. Então, ele não tem uma visão muito politizada e, por exemplo, quando se compara com outros textos de memórias de espanhóis, franceses ou de outras pessoas que combateram na guerra, eles têm uma visão muito ideológica. Alberto conta muito a vida quotidiana dos combatentes, o esforço para comer não muito mal, as brincadeiras entre soldados, como eles ouviam a rádio. É o relato da guerra por um homem, isto é, ele não faz um grande discurso sobre a guerra, ele conta o seu quotidiano de combatente. Então, são muito poucos os relatos [de portugueses] sobre esta guerra, ainda menos por pessoas não politizadas e que não estão a tentar legitimar o que eles fizeram ou não fizeram. É um relato do quotidiano.” Na introdução, o Victor Pereira escreve que “ele não parte para Espanha em nome de um ideal antifascista”, mas “é apanhado pela guerra quando já está em Espanha”. Por outro lado, quando está na guerra, ele não faz dos soldados heróis e até fala da confraternização com soldados do campo adversário. Isto vai ao encontro do que acaba de dizer, não é? “Sim, sim. Muitas vezes há muito essa imagem da Guerra de Espanha que foi uma guerra que mobilizou as opiniões públicas ocidentais em França, Portugal. Na minha introdução, falo sobre como é que a Guerra de Espanha também foi uma guerra quase interna a Portugal. Podemos realçar quando, em Julho de 1937, há uma tentativa de atentado a Salazar que falha e o objectivo das pessoas que tentaram matar Salazar era para tentar enfraquecer o campo nacionalista espanhol porque Salazar foi um grande apoio desde o início aos insurrectos espanhóis e a Franco. O Alberto de Oliveira Martins não tem essa visão politizada. Por exemplo, há uma parte onde ele escreve que quando começou a guerra civil, havia uma aldeia que estava do lado nacionalista e a aldeia ao lado estava do lado republicano e os combatentes dos dois lados conheciam-se pessoalmente. Por vezes, odiavam-se há vários anos, até há várias décadas, mas o que ele conta é que, por vezes, há jovens soldados que estavam muito perto uns dos outros e o que eles fizeram foram pactos dizendo: ‘Olha, não vamos matar ninguém. Vamos atirar para o ar. Assim, os nossos oficiais pensam que nós estamos a combater’. Às vezes, até falavam uns com os outros e faziam estes pactos de paz muito localizados. Isso não aparece tanto nos outros textos porque o que aparece é uma luta de vida e de morte entre o fascismo e antifascismo. Então, ele foca coisas que muitas vezes não são focadas nas memórias da Guerra de Espanha.” Mas de que lado lutou Alberto de Oliveira Martins? “No início, quando ele está em Espanha, ele não tem sorte, como aconteceu a milhares de pessoas. Ele encontra-se num comboio que vai até Saragoça. Saragoça foi tomada pelos militares rebeldes que depois vamos chamar os franquistas. Eles querem imobilizá-lo no campo dos franquistas e ele foge. Algumas semanas depois, ele encontra-se com o próprio Durruti, um dos chefes dos anarquistas que impediu os militares de tomarem o poder em Barcelona. Em 19 e 20 de Julho de 1936 há luta nas ruas de Barcelona, o Durruti e outros camaradas da CNT (do Movimento Anarquista) conseguem domar a tentativa de golpe de Estado e, a partir de 24 de Julho vão milhares de catalães e anarquistas até Saragoça para tentar libertar Saragoça, que tinha sido ocupado pelos militares. Ora, ele estava numa aldeia onde chega o Durruti e o Durruti dá-lhe uma arma e ele vai seguir e vai combater durante quase três anos. A coluna Durruti vai ser uma das mais conhecidas da guerra de Espanha e ele vai combater durante três anos em Aragão, depois na Catalunha. Como é um jovem de 1m80, bastante esperto, bastante ágil, que toda a gente considera que espanhol, ele vai participar em acções de sabotagem no curso de guerrilhas. Então, ele vai combatendo, ainda que ele não tenha ido para combater. Foi a guerra que foi ter com ele. Estando na guerra, ele combate até ao fim, até Janeiro de 1939.” Temos noção de quantos portugueses participaram nesta Guerra Civil Espanhola? “Isso é muito difícil. Há, desde os anos 80, alguns estudos, nomeadamente do César Oliveira, também de Cristina Clímaco sobre o exílio português em França e em Espanha. Há vários números, por vezes 500, vai subindo até 2.000, alguns estudos até falam em mais, e estou a falar do lado dos republicanos, aqueles que ajudaram a República espanhola a lutar contra as tropas franquistas. Muitas vezes fala-se em alguns milhares, 2.000, talvez mais. Um dos grandes problemas - como no caso do Alberto que nunca é referido como português e o nome dele aparece em castelhano nos arquivos - nas listas de nomes ninguém pode saber se são portugueses. Talvez muitos mais portugueses tenham combatido durante a Guerra de Espanha, mas eram considerados espanhóis e havia antes da guerra mais de 20.000 até 30.000 portugueses que