Convidado

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

  1. 1 GIỜ TRƯỚC

    Albino Carlos: “A música constitui um dos mais saborosos ingredientes da cultura angolana.”

    História da Música de Angola é a obra que o escritor, professor e jornalista Albino Carlos lançou recentemente em Lisboa. O livro consolida o elo entre identidade, cultura e história. Abordando a produção musical feita nos diferentes géneros e em diferentes línguas nacionais, Albino Carlos contribui para promover a “definição de quem é o angolano e de quem é Angola.” História da Música Angolana é o livro que faltava para um melhor entendimento do manifestar musical de angolanas e angolanos. O mais recente trabalho de Albino Carlos proporciona uma viagem pela alma musical de Angola, pela essência do povo angolano. Estabelecendo a relação entre história, cultura e identidade, o livro História da Música Angolana torna-se essencial para pintarmos um mais elucidativo quadro de uma sociedade onde o cantar e dançar são forma de viver e podem fazer um país evoluir nas diferentes relações dentro da imensa comunidade formada por todos aqueles que fruem da música angolana.  A RFI aproveitou a presença do Albino Carlos na capital portuguesa para uma conversa sobre a singularidade da cultura musical de Angola e o livro recentemente editado em Portugal pela Oficina da Escrita. Albino Carlos começa por revelar que a ausência de bibliografia produzida por académicos e estudiosos angolanos foi um dos elementos que espoletou a obra agora lançada. Albino Carlos, autor do livro História da Música de Angola: Este livro nasceu de um questionamento existencial e intelectual. Intelectual por quê? Porque fui percebendo, ao longo do tempo, que a maior parte da bibliografia, dos estudos académicos sobre a música angolana eram feitos por académicos e estudiosos estrangeiros. São conhecidos os estudos profundos do professor Mesquitela Lima, são conhecidos os estudos profundos que a antiga Companhia Nacional de Diamante fez sobre a produção musical da região do Leste, são conhecidos estudos que muitos estudiosos, ainda no século XVIII, alemães fizeram sobre a música angolana. Portanto, havia esta dúvida, este questionamento intelectual: qual a razão pela qual Angola, sendo um país musical, tem tantas músicas, tanto quanto tem de povos e nações, não era objeto de estudo nas universidades, não era objeto de aprofundamento académico por parte dos intelectuais e por parte, sobretudo, da classe académica angolana. Esta foi a perspectiva do questionamento intelectual. Depois, houve também um certo questionamento existencial. O Luis sabe que nós somos a música que produzimos e que fazemos. Os povos definem-se muito pela música, porque a música é a arte das artes, é a expressão da nossa alma. Em qualquer parte do mundo, se disser que estou a cantar um fado, as pessoas remetem logo para Portugal. Basta falar no samba, as pessoas remetem logo para o Brasil, e assim sucessivamente. Tendo em conta que a música, no caso particular da Angola, é um dos mecanismos que os angolanos mais se socorrem para falar de si, para contactar o outro, para chorar, para dançar, para... . Enfim, tendo em conta a importância que esta mesma música desempenhou, quer na resistência contra o colonialismo, quer para suportar as agruras da escravatura, e até na guerra civil que aconteceu, que dilacerou o nosso país, foi graças ao canto, foi graças ao batuque, que os angolanos e Angola resistiram a esses momentos tremendos que nós passávamos e que queremos esquecer. Portanto, a música desempenhou um papel muito, mas muito importante na definição de quem é o angolano e de quem é Angola, quem a Angola é. É esta questão existencial. Quer dizer, eu sempre me bati para que o semba também fosse reconhecido como o símbolo do nosso fazer musical, a simbologia daquilo que o angolano gosta de ser. Então, é por aí que eu decidi começar a fazer um estudo sobre a nossa música. Nos últimos 15 anos da minha vida, mesmo passando pela política, pela docência universitária, fui fazendo os meus estudos, mas também fiz um desafio pessoal, eu não queria fazer um livro sobre música angolana, como eram feitos os livros sobre música. RFI: Então, qual foi o desafio que se colocou? Albino Carlos: Fazer difrente, contar a história da Angola através da sua música. Ver como é que a música caracterizou o angolano. Como é que nós cantamos o amor, como cantamos o infortuno, como vivemos o luto, qual é a força que tem o comboio na simbologia tradicional angolana, como é que cantamos a escravatura. Eu fiz esse estudo profundo e daí resultou num livro enormíssimo que eu chamo de Trilogia da Música Angolana. Este é o primeiro livro, História da Música Angolana, e dei muito destaque à nossa tradição oral, ao cancioneiro tradicional, que é a origem de toda esta musicalidade, sobretudo popular e moderna. Quis fazer também uma recolha de todas as letras das músicas mais emblemáticas angolanas, porque eu via que tínhamos dificuldades. Por exemplo, Muxima, a letra de Muxima, tinha dificuldade em encontrar. Quem quer a letra de Umbi-Umbi, que é uma música de tradição oral, uma música que é muito local, mas tornou-se um hino universal. Era difícil encontrar a letra. Então, fiz também um trabalho de recolha daquelas músicas mais emblemáticas, quer na língua nacional Quimbundo, que é uma das línguas mais preponderantes, como naquelas línguas que também são, de certa forma, subalternizadas. Mas há registros musicais muito fortes nessas línguas. Então esse é o desafio que eu me propus. Este é apenas uma parte deste desafio, porque a trilogia é composta pela História da Música Angolana, que é praticamente o início da música, quais são os temas fundamentais da música, quais são os elementos constitutivos do discurso musical angolano. RFI: História da Música Angolana é o livro que foi recentemente apresentado. Há, então, mais dois a serem publicados? Albino Carlos: Sim, faz parte de uma trilogia sobre o fazer musical angolano. Há um livro que é só sobre o semba. Mas não é um livro, ao contrário dos outros livros, que são muitas cronologias históricas, nasceu no dia tal, o grupo... Não, eu fiz uma análise do discurso musical. O que o semba canta e como canta. A fome, a miséria, a guerra, o ciúme, a paixão. Enfim, eu fiz uma análise semiótica do discurso musical. Ao invés de preocupar-me em falar sobre os grupos, o historial cronológico dos fenómenos musicais, não. Eu fiz uma coisa um pouco mais difícil. Eu queria fugir um bocadinho daquilo que são normalmente os livros sobre história das músicas, quer em Portugal, quer no Brasil. RFI: O Semba que está, neste momento, em processo de candidatura para que venha a ser considerado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Albino Carlos: Eu penso que neste momento há condições objetivas e subjetivas que nos permitem estar mais animados neste processo. Porquê? Porque o Fado já foi reconhecido, o Samba de Roda já foi reconhecido, a Coladera foi reconhecida, muito recentemente o Reggae foi reconhecido, a Rumba foi reconhecida. São todas musicalidades que bebem, intercambiam, têm subsídios com o Semba e são parecidos com o Semba. Há, digamos assim, elementos que se cruzam entre o Semba e o Samba. Há uma influência muito forte da musicalidade africana no Fado. O Reggae não preciso mais dizer, o Reggae vem da África, se bem que tem uma essência muito forte daquela região, do Caribe. E nesse contexto, o Semba, pelo fato de ser uma música nacional, mas muito aberta ao mundo, da mesma forma que é o angolano, é um povo africano, mas muito aberto ao mundo. Nós herdamos um bocadinho esta particularidade dos portugueses. Portugal é um pequeno país que dominou o mundo, não é? Espalhou-se por mares nunca antes navegados. Herdamos esta abertura, esta pluralidade, esta multiplicidade, este diálogo com o outro, este intercâmbio, esta miscigenação. É isto que nos faz fortes e é isto que faz forte o Semba, porque o Semba é uma música urbana. Obviamente que as raízes vêm da Ambaca, daquela região do Cuanza Norte, mas passou a ser Semba, como Semba, a partir do momento em que o N'gola Ritmos fez dele um ritmo mais urbano. Já tem viola, é uma música popular, é moderna. Mas também neste Semba tem influência portuguesa, do Fado e outras sonoridades portuguesas e europeias. Tem muita influência também latino-americana, tem muita influência da Rumba congolesa, sendo certo que a Rumba também tem alguma origem em Angola, mas é daquela região. Portanto, o Semba é, digamos assim, o melhor espaço que o angolano encontrou para se definir a si mesmo, para expressar aquilo que vai na alma, para se relacionar com o mundo. O Semba, por intermédio de algumas derivações, como o Kuduro e a Kizomba, tem dado sons aos sons do mundo. Hoje a Kizomba conquistou o mundo, hoje toda a gente quer dançar Kizomba, mas a Kizomba não é só mais uma derivação do semba.   RFI: O que é que se pode encontrar neste livro? Albino Carlos: É um livro que faz uma viagem pelas práticas musicais angolanas. É um livro que dá muito ênfase à identidade musical de Angola, às línguas nacionais e como é que essas línguas nacionais, estando mais próximo daquilo que são os rumores do nosso pensamento e da nossa alma, expressam melhor o nosso pensamento, os nossos sonhos e as nossas frustrações. É um livro que também faz muita referência ou dá grande destaque à música de intervenção. O Luís sabe bem que a música de intervenção jogou um papel muito importante na nossa independência e também jogou um papel muito importante no 25 de abril. Zeca Afonso é uma figura emblemática. Zeca Afonso marcou a música de intervenção angolana. Os grandes trovadores portugueses, sobretudo daquele período quente do 25 de abril, marcaram profundamentalmente a música de intervenção e esta música de intervenção teve um papel extraor

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  2. 2 NGÀY TRƯỚC

    Crise energética “é um problema crónico” em São Tomé e Príncipe

    A crise energética volta a complicar o quotidiano das pessoas em São Tomé e Príncipe. Esta quinta-feira, o primeiro-ministro, Américo Ramos, pediu desculpas à população pela crise que dura há 10 meses e prometeu que a situação será resolvida nas primeiras semanas de Maio. Este “é um problema crónico” no país, alerta o sociólogo Olívio Diogo, numa entrevista em que analisa as causas e o possível impacto desta crise. Em São Tomé e Príncipe, o primeiro-ministro, Américo Ramos, pediu desculpas à população pela crise energética que dura há 10 meses no arquipélago e prometeu que a situação será resolvida nas primeiras semanas de Maio. A declaração foi feita depois de uma reunião convocada pelo Presidente da República, Carlos Vila Nova, com participação do ministro das Infraestruturas e a direcção da Empresa de Água e Eletricidade para analisar a situação energética no país. A crise energética voltou a instalar-se no país com cortes constantes e prolongados de electricidade desde Agosto do ano passado, quando a empresa Tesla STP, de investidores turcos, suspendeu o contrato, alegando dívidas acumuladas pelas autoridades são-tomenses. A chegada, em Janeiro, de seis novos grupos de geradores ao país não resolveu o assunto. A crise energética “é um problema crónico do país”, alerta o sociólogo são-tomense Olívio Diogo, avisando que a população continua às escuras literal e simbolicamente, estando “zangada e estupefacta com a situação energética”, o que pode ter impacto nas eleições deste ano. “A situação catastrófica energética em São Tomé e Príncipe tem produzido problemas graves na vida da população e das pessoas que não conseguem ter os seus bens alimentares conservados, por um lado. Por outro lado, os hotéis, a restauração e todos estes equipamentos de desenvolvimento económico do país estão a sofrer consequências. Também têm aumentado dificuldades para as crianças que vão à escola porque isto tem pesado também ao nível dos pais”, descreve Olívio Diogo. A guerra no Médio Oriente deverá piorar a crise energética em São Tomé e Príncipe, acrescenta Olívio Diogo: “Se nós já estamos a ter problemas de energia antes mesmo de começarmos a enfrentar aquela situação do Médio Oriente, a população tem que se preparar porque quando as consequências da guerra no Médio Oriente começarem a fazer peso na situação de fornecimento de combustível são-tomense a situação vai piorar.”

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  3. 3 NGÀY TRƯỚC

    Guiné-Bissau: Defesa de Domingos Simões Pereira denuncia “sequestro”

    O advogado Roberto Indeque, membro do colectivo de defesa de Domingos Simões Pereira, afirmou que o dirigente político está privado da liberdade sem base legal e sem qualquer processo judicial em curso. Em entrevista, denuncia ainda isolamento há três semanas, restrições impostas a Fernando Dias da Costa e critica a inacção da comunidade internacional perante a crise na Guiné-Bissau. A Guiné-Bissau volta a mergulhar num ambiente de tensão política, marcado por versões opostas sobre o estado do país. Por um lado, o Governo de transição insiste numa mensagem de normalidade institucional, crescimento económico e diálogo entre actores políticos, e do outro a oposição denuncia restrições de direitos, detenções arbitrárias e controlo apertado sobre figuras políticas. No centro da controvérsia está a situação de Domingos Simões Pereira. Em entrevista, o advogado Roberto Indeque, integrante do colectivo de defesa do antigo primeiro-ministro, faz acusações directas: “Estamos perante uma detenção política ou, se quiser dizer de forma mais precisa, estamos perante um sequestro”, declara. A escolha das palavras não foi casual. Questionado sobre os fundamentos jurídicos dessa afirmação, o jurista respondeu de forma categórica: “O senhor Domingos Simões Pereira nunca teve processo no Tribunal Militar e hoje não tem processo em nenhum tribunal do país.” Nome citado num relatório sem consequências processuais Segundo a defesa, a origem de toda a narrativa oficial reside apenas numa menção ao nome do dirigente político num relatório de inquérito relacionado com a alegada tentativa de golpe de Estado de Outubro de 2015. “O que aconteceu simplesmente é que o seu nome aparece num parágrafo no relatório de inquérito do suposto caso tentativa de Estado de Outubro de 2015. É só isso”, afirma Roberto Indeque. O advogado acrescenta que, por se tratar de uma figura pública e líder de um dos principais partidos do país, as autoridades entenderam pedir esclarecimentos. “Por ser uma figura pública e por ser líder do maior partido político, a promotoria militar achou por bem que havia necessidade de se esclarecer em que circunstâncias teria aparecido o seu nome no relatório.” Ainda assim, sustenta que nunca foi dado qualquer passo formal para abertura de processo. “Ele foi no dia 13 de Fevereiro, quando a promotoria o convocou para ir esclarecer. Foi lá, declarou tudo o que havia para declarar.” E prossegue: “A promotoria achou-se satisfeita com a declaração e ele saiu da promotoria tal como entrou.” Para a defesa, esse detalhe é juridicamente decisivo. “Não houve despacho de suspeito, muito menos despacho de acusação. A figura de declarante não é sujeito processual. Não sendo sujeito processual significa que não há nenhum processo contra ele.” “Prisão domiciliária não existe no nosso sistema” Outro eixo da argumentação do advogado prende-se com as restrições impostas ao antigo governante, descritas como uma forma de reclusão informal. “Vamos admitir hipoteticamente, ainda que remota, que houvesse um processo judicial contra ele. Se se falasse de prisão domiciliária, não seria o caso aplicável”, afirma. A razão, explica, é simples: “No nosso ordenamento jurídico, entre as medidas de coacção existentes no Código de Processo Penal, não está prevista a prisão domiciliária.” Daí a conclusão: “Isto não é detenção, não existe detenção domiciliária. Não é prisão porque também não existe prisão domiciliária. Por isso eu chamei isso de sequestro.” E reforçou a acusação: “Quando um órgão judicial ou qualquer órgão administrativo utiliza um expediente que não esteja previamente regulado, está a cometer uma ilegalidade.” Para o advogado Roberto Indeque, o caso ultrapassa o plano jurídico e inscreve-se numa estratégia política. “O regime está a construir essa narrativa em volta do senhor Domingos Simões Pereira”, afirma. Três semanas sem acesso de médicos e advogados As denúncias tornam-se mais sensíveis quando o advogado descreve o actual regime de isolamento do seu cliente. “A única pessoa que tinha acesso ao Domingos Simões Pereira era o seu médico pessoal, que também é irmão, e o colectivo dos advogados”, explicou. Mas, segundo relata, essa situação alterou-se recentemente. “De há três semanas para cá, nem o médico, nem os advogados têm acesso ao engenheiro Domingos Simões Pereira.” Na interpretação da defesa, trata-se de uma situação grave. “Isto significa que está num isolamento absoluto.” Questionado sobre o que motivou a mudança, responde: “Confesso, senhora jornalista, que não sei explicar, porque também não nos deram explicação. Simplesmente disseram que era ordem superior.” Fernando Dias da Costa também alvo de restrições As críticas do colectivo de defesa não se limitam ao caso de Domingos Simões Pereira. O advogado afirma que Fernando Dias da Costa, apresentado pelos seus apoiantes como vencedor das presidenciais contestadas, enfrenta igualmente limitações severas. “O Fernando, na sua residência, também está sob forte vigilância”, declara. Descrevendo o dia-a-dia do dirigente, acrescenta:  “Para se deslocar, a viatura está sujeita a revista. Para entrar, quando volta de onde saiu, está novamente sujeita a revista.” E lança uma interrogação: “Como é que podemos interpretar isso numa pessoa livre?” Na sua óptica, o problema reside na diferença entre o discurso oficial e a realidade. “Talvez tenhamos pontos de vista diferentes da interpretação do que significa liberdade entre o colectivo dos advogados e o regime.” Depois esclareceu a sua definição: “Do ponto de vista do colectivo dos advogados, liberdade significa que o senhor pode deslocar-se livremente em qualquer parte do território, sem prévia autorização, sem prévio anúncio ou permissão de qualquer outra pessoa.” Governo insiste na normalidade Do lado oficial, o executivo de transição liderado por Ilídio Vieira Té continua a defender uma imagem de estabilidade, diálogo político e sinais positivos na economia, incluindo previsões de crescimento e contactos com o Fundo Monetário Internacional. Mas Roberto Indeque rejeita frontalmente essa leitura: “Só o Governo pode explicar como controla essa narrativa quando, na realidade, estamos a assistir exactamente ao oposto.” E acrescenta: “Quem está cá, mesmo estando fora mas acompanhando a actualidade, sabe que não há liberdade como se diz. Não existe de forma alguma.” Desilusão com a comunidade internacional O advogado mostrou frustração perante a ausência de reacção regional e internacional. Dirigiu críticas à CEDEAO, à CPLP e à União Africana. “Estou a ficar decepcionado”, acrescentando que já tinham sido anunciadas medidas para responder à crise, sem resultados visíveis. “Foi adoptada uma série de medidas e, até hoje, se não estou em erro, nenhum ponto foi cumprido.” Perante esse quadro, avança com uma explicação possível: “Talvez a comunidade internacional esteja cansada e queira virar as costas.” Apesar do cenário traçado, Roberto Indeque rejeita a ideia de resignação interna. “Os guineenses não podem estar cansados”, respondeu, confrontado com a pergunta e clarificou: “Estão desanimados, mas não estão cansados. Vamos batalhar até que haja legalidade", concluiu.

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  4. 4 NGÀY TRƯỚC

    Angola: Visita do Papa expõe feridas e levanta receios sobre eleições

    A visita do Papa Leão XIV a Angola terminou sem incidentes e deixou um balanço globalmente positivo. A posição é do padre Celestino Epalanga, secretário-geral da Comissão Episcopal de Justiça, Paz e Integridade da Criação da CEAST, que lembra que “as palavras do Santo Padre não são mágicas, caberá agora à sociedade civil, academia, e igreja apropriarem-se dessas palavras e começarem a fazer pressão ao Governo”. Celestino Epalanga considera que, sem esse envolvimento, o impacto da visita tenderá a esvaziar-se com o tempo. “Depois de alguns dias de alguns meses já ninguém se lembra”, defendendo a necessidade de “arregaçar as mangas” para transformar as mensagens do Papa em mudanças concretas. Em Angola, Leão XIV abordou temas sensíveis, como as desigualdades sociais, a corrupção e a concentração da riqueza, além de ter apelado aos jovens para a construção de “um mundo melhor, mais acolhedor, onde não haja guerra, nem injustiça, nem miséria, nem desonestidade”. Para o padre Celestino Epalanga, estas intervenções reflectem problemas concretos do país: “Tudo o que o Papa disse é o que nós vivemos neste país”. O sacerdote aponta indicadores preocupantes, como a pobreza e o acesso limitado à educação. “Um terço da população angolana vive abaixo do limiar da pobreza num país extremamente rico em recursos minerais, em água, terras aráveis. Não se compreende”, acrescentando que “temos por volta de nove milhões de crianças fora do sistema de ensino”. Referiu ainda fenómenos como a malnutrição infantil e a prostituição de menores, sublinhando que “se não podem estudar, o seu futuro está comprometido à partida”. A crítica estende-se à gestão dos recursos e à actuação das elites, que “por causa da ganância de querer acumular tudo para si, não deixa absolutamente nada para os demais”. Celestino Epalanga defende que as receitas provenientes de recursos naturais deveriam ser aplicadas em infra-estruturas básicas como escolas, hospitais e estradas, em vez disso, “o dinheiro é tirado de Angola, obviamente, e depois muitas vezes vai parar aos paraísos fiscais”. O religioso questionou também os resultados do combate à corrupção anunciado pelo Presidente João Lourenço. “Tentou combatê-la, mas não deu passos significativos”, sustentando que houve apenas “uma substituição de um grupo” beneficiário e criticou o peso da dívida pública: “metade do Orçamento Geral do Estado, todos os anos, praticamente vai para pagar a dívida pública. Chama-se dívida odiosa”. A proximidade das eleições gerais levanta preocupações quanto à transparência e estabilidade. O sacerdote admite o risco de instrumentalização da visita papal, comparando a situação a uma encenação temporária: “Os meus pais brigaram, mas sempre que viesse uma visita a casa, eles tinham uma paz momentânea e o mesmo diria de Angola”. Enquanto secretário-geral da Comissão Episcopal de Justiça e Paz, afirma estar empenhado em promover o diálogo e prevenir tensões futuras. “O sentimento que tenho é que se nós não trabalharmos agora, poderemos ter muitos problemas, muitas tensões e muita violência em 2027”. “O MPLA não quer sair do poder, não quer sair do poder e nem sequer pensa em sair do poder”. Mas, “a sociedade, a população já não acredita no MPLA. O MPLA caiu em descrédito. E há uma juventude sobretudo ávida de mudança, que quer novas coisas, que quer efectivamente que o MPLA saia do poder.” Celestino Epalanga fala nesta “via que perdeu o medo e que já não tem nada a perder” e que pede “pela primeira vez eleições livres e justas. Mas eu não creio que isto vai acontecer.” “Portanto, já paira esta tensão no ar. Em 2022, estivemos à beira de um conflito, sangrento, diria mesmo. Em 2027, se não nos precavermos, então não teremos como escapar desta hecatombe”, acrescenta.  Por fim, abordou o papel dos jovens activistas, que não foram visíveis durante a visita papal. “Alguns dos jovens foram presos antes mesmo que o Papa viesse. E outros estão fora do país”, disse, acrescentando que o silêncio actual não significa resignação: “penso que no devido momento, na devida altura, estes jovens voltarão a erguer as suas vozes”.

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  5. 5 NGÀY TRƯỚC

    Amnistia Internacional afirma que a "humanidade está sob ataque"

    O relatório da Amnistia Internacional sobre a situação dos Direitos Humanos no mundo, divulgado nesta terça-feira, 21 de Abril, em Londres, denuncia ataques constantes ao multilateralismo, ao direito internacional e à sociedade civil liderados por Estados poderosos e alerta para a degradação dos direitos humanos em 144 países. Em entrevista à RFI, João Godinho Martins, director executivo da Amnistia Portugal, comenta as conclusões do relatório e afirma que a humanidade está sob ataque. Qual é a situação dos direitos humanos no mundo? O que a Amnistia documenta é o colapso em curso, o colapso de uma sociedade, de um mundo que viveu durante 80 anos sob uma ordem internacional, sob um multilateralismo e que agora vemos extinguir-se. O que a Amnistia vem aqui dizer é que a humanidade está sob ataque: ataque de movimentos transnacionais anti-direitos humanos, ataque de predadores, de autocratas como Vladimir Putin, como Benjamin Netanyahu, como Donald Trump, que querem afirmar o seu domínio e o seu poder sobre todo o mundo e sobre toda a gente. No relatório fazem referência às ferramentas de inteligência artificial. De que forma vieram as novas tecnologias contribuir para a deterioração dos direitos humanos? As novas tecnologias e as redes sociais, nomeadamente a inteligência artificial, e a falta de regulação no espaço digital são, sem dúvida, um problema e um factor que potencia o crescimento destes movimentos anti-direitos. Mas não é o único. São também os nossos decisores políticos, os líderes mundiais, que têm o poder de fazer as leis, de as mudar e de definir as práticas. É verdade que a inteligência artificial, bem como o facto de as grandes empresas tecnológicas estarem resguardadas à volta destes líderes autoritários e destes predadores dos direitos humanos, contribuem para esta situação. A Amnistia, ao longo de 2025, também chamou a atenção para diferentes questões, nomeadamente a utilização do TikTok, por exemplo, e de que forma influencia as nossas crianças, mas também para a inteligência artificial a outros níveis. Por exemplo, quando fizemos a investigação sobre o ataque ilegal dos Estados Unidos contra uma escola no Irão, que matou mais de 100 crianças, falámos também sobre a inteligência artificial e sobre o seu papel nos serviços de informação norte-americanos e nas Forças Armadas norte-americanas. E perguntamos: qual é a responsabilidade e qual foi o peso destas novas tecnologias no assassinato que testemunhámos? A Amnistia Internacional faz referências aos Presidentes Donald Trump, Vladimir Putin e ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. O que diz o relatório sobre estes líderes políticos? Em 2025, vimos claramente como estes governos poderosos se transformaram em veículos de movimentos anti-democráticos e anti-direitos humanos. Por um lado, Putin e Netanyahu - já vínhamos, ao longo de muitos anos, a observar a sua actuação - tal como vínhamos a observar o Presidente Maduro na Venezuela e o regime chinês. O que vemos hoje, e o que sublinhamos, é que juntamos a nomes como Putin e Netanyahu o nome do Presidente norte-americano, um aliado de Portugal e da Europa, a administração de um país que queríamos democrático e defensor dos direitos humanos e que agora, em 2025, não o demonstra. Por outro lado, não são só estes três líderes: há também quem lhes permite existir, quem permite que continuem a fazer negócios em todo o mundo e a fazer guerras em todo o mundo. Os líderes europeus têm-se demonstrado demasiado submissos a estes ataques à ordem internacional e à actuação destes autocratas, destes predadores. Muitos governos, incluindo Portugal, têm apaziguado os ataques dos Estados Unidos, de Israel e de outros Estados poderosos ao multilateralismo, ao direito internacional e às protecções dos direitos humanos. A secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, fala numa “ordem predatória”, alertando para o afastamento de um sistema político baseado em regras internacionais firmes e sublinhando que os países que continuam comprometidos com a democracia e o Estado de direito parecem impotentes. Como se explica este posicionamento? Sem dúvida, vivemos momentos, ao nível internacional, em que estes movimentos antidemocráticos ganham força. Isto é disseminado pelas redes sociais e pelas novas tecnologias, tem impacto nos conflitos de que falamos, mas também na política interna de cada país. Vemos o surgimento de novos partidos e de novos movimentos anti-direitos humanos - movimentos discriminatórios, racistas, patriarcais, conservadores - que procuram fazer regredir os direitos para dimensões em que beneficiam dessa nova situação. O que temos aqui é um efeito em cascata desta erosão da ordem internacional, com reflexos ao nível doméstico, e tudo o que isso significa para as pessoas e para as populações em toda a Europa e em todo o mundo. O documento assinala a degradação dos direitos humanos em 144 países no ano passado. Quais são os conflitos mais urgentes? Se falarmos de conflitos, o genocídio em curso em Gaza, sem dúvida. Os actos de agressão dos Estados Unidos na Venezuela e o assassinato extrajudicial de mais de 150 pessoas em embarcações vindas da Venezuela. A invasão contínua da Rússia na Ucrânia; os protestos no Irão, massivamente reprimidos pelo regime; a participação dos Emirados Árabes Unidos na guerra do Sudão, através de armamento chinês; o envolvimento no Ruanda no Congo; o Líbano, também, obviamente. São todos contextos internacionais de conflito que nos preocupam bastante. Mas também ao nível interno: temos deportações em massa nos Estados Unidos da América; autoridades britânicas que prenderam mais de duas mil pessoas por se oporem pacificamente à proibição de uma ONG; o governo da Sérvia a utilizar software espião; o Quénia a recorrer a tácticas de repressão facilitadas pela tecnologia. Eventos que, há pouco tempo, nos pareceriam extremos e extraordinários e que agora se disseminam por todo o mundo. No relatório fazem igualmente referência a Angola e Moçambique. O que se pode dizer sobre estes dois países? Angola e Moçambique, em 2025, tiveram características bastante comuns, especialmente no que diz respeito ao comprometimento do direito à reunião pacífica e da liberdade de expressão. Em Moçambique, tivemos eleições altamente contestadas que levaram a protestos, os quais foram violentamente reprimidos, causando pelo menos 277 mortos. Houve depois uma repressão pós-eleitoral contínua contra a oposição, com recurso à força excessiva, detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados. Um pouco à semelhança do que temos vindo a observar em Angola nos últimos tempos: detenções de activistas, jornalistas e membros da oposição, e forças de segurança que fazem uso ilegal da força em manifestações. Há aqui uma série de ataques ao direito à reunião, ao protesto e à liberdade de expressão, comuns aos dois países. Estes ataques ocorrem em paralelo com outros problemas. Angola enfrenta pobreza extrema, baixos salários e elevado desemprego, especialmente entre os jovens. Moçambique continua a lidar com o conflito no Norte, com o Al-Shabaab, tendo registado dezenas de mortos civis e deslocações massivas de população ao longo de 2025. Quais são as recomendações deste relatório? Os governos têm de resistir e combater o retrocesso na protecção dos direitos humanos. É especialmente importante que combatam os ataques a comunidades racializadas, povos indígenas, refugiados, migrantes, mulheres, meninas e pessoas LGBTI. É necessário enfrentar a discriminação crescente e desenvolver regulamentações mais eficazes para os actores empresariais. As grandes empresas tecnológicas têm de ser reguladas. Todos os Estados, todas as pessoas, em todo o mundo, têm de continuar a fazer tudo o que está ao seu alcance para resistir a estes ataques predatórios. Há uma necessidade urgente de criar alianças globais mais fortes, que juntem diferentes actores e reforcem o sistema multilateral baseado em regras. Sim, há problemas no sistema multilateral - as Nações Unidas têm dificuldades e fraquezas -, mas a solução não é menosprezá-las. A solução é reforçá-las, melhorá-las e dotá-las de melhores meios para defender os direitos humanos das gerações presentes e futuras.

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  6. 6 NGÀY TRƯỚC

    “1001 Noites Irmã Santomense” encerra a tetralogia do Teatro O Bando

    “1001 Noites Irmã Santomense” é o espectáculo que valoriza a cultura de São Tomé e Príncipe e encerra a tetralogia colocada em cena pelo Teatro O Bando desde 2023. Depois de Irmã Persa, encenada por Suzana Branco, Irmã Palestina, encenada por Olga Roriz e João Brites, e de Irmã Mapuche, encenada por João Neca, agora coube a Miguel Jesus encenar Irmã Santomense. A cada nova Irmã, um novo olhar sobre o mundo que contém o desafio de um convite a outros públicos, um novo questionar sobre violência e poder. Irmã Santomense é elo de conexão com São Tomé e Príncipe. A actriz Adozia Cristo trás a experiência pessoal, trás a preservação do Tchiloli, a valorização da língua Forro e da cultura de São Tomé e Príncipe O espectáculo “1001 Noites Irmã Santomense” estreia a 8 de Maio, na Quinta do Teatro O Bando, em Palmela, 40 quilómetros a sul da capital portuguesa. A RFI esteve no espaço onde decorrem os ensaios, falou com o actor e músico Mick Trovoada, com a actriz Adozia Cristo (muito popular entre santomenses pela personagem Saco de Boxe), e falou também com o encenador Miguel Jesus, do Teatro O Bando, e com Isabel Mota, da Ilhéu Portátil, que começam por nos revelar como surgiu o espectáculo “1001 Noites Irmã Santomense”. Isabel Mota, Ilhéu Portátil: É um projecto do Teatro Bando, e a Irmã de Santomense surge aqui um pouco da relação que eu tenho com São Tomé, do meu trabalho na Ilhéu do Portátil e nas questões da literatura para crianças e de ter um dia chegado ao Bando com o vídeo de uma actriz de santomense, a Dozia Cristo. Mostrei ao João Brites e ao João Neca o trabalho daquela actriz de santomense, estive-lhes a falar um bocadinho da língua, do Forro, da sonoridade que esta língua tem, que é tão bonita, e a lembrar também a relação que o Teatro Bando tem com São Tomé, com o Tchiloli, com o facto de já terem estado em São Tomé. Entretanto, O Bando convidou a Adozia a vir cá em Dezembro do ano passado para passar uma semana lá no Bando, para conhecer as pessoas, para eles a conhecerem, e no final dessa semana decidiram que iriam fazer o projecto As Mil e Uma Noites e a Irmã Santomense. Agora ela está, neste momento, no espaço d’O Bando a fazer ensaios para esta peça que vai estrear agora em Maio. RFI: O trabalho da Isabel não ficou por aí, fez questão de juntar outros nomes de São Tomé e Príncipe. Isabel Mota: De facto, eu entusiasmo-me um bocadinho. Quando o Miguel Jesus me pediu nomes de músicos, porque queria também aqui algumas referências de músicos ligados a São Tomé, eu falei-lhe de vários músicos, nomeadamente o Mick Trovoada e o DJ Marfox. O Miguel Jesus gostou bastante do trabalho deles e, portanto, falou também com eles. Eles aceitaram participar desta peça. O Mick Trovoada participa como intérprete e também toca música ao vivo, e tivemos a grande sorte de conseguir que o DJ Marfox tivesse disponibilidade para ir ao Bando, conhecer O Bando, e fez um tema para esta peça. RFI: Depois há também a vertente das artes plásticas de São Tomé. Isabel Mota: Sim, eu convidei-os a irem conhecer o trabalho de alguns artistas plásticos. Havia artistas com exposições em Lisboa, exactamente naquela altura em que andavam a fazer pesquisas e a tentar perceber qual seria o ambiente da peça e o que iria entrar na peça. Nessa altura, o Emerson Quinda tinha a sua primeira exposição individual em Lisboa, ali no Camões, no Marquês de Pombal. Então, lá foi o Emerson Quinda passar três dias ao Bando, onde esteve a desenhar, a trabalhar, a fazer as suas figuras, que depois a Clara e o João Brites e o Miguel Jesus adaptaram às três carroças que fazem parte do cenário desta peça e que foram construídas pelo João Brites e que agora vão ter desenhos e trabalhos do Emerson Quinda. O que faz com que neste momento já tenhamos o Emerson Quinda na parte visual plástica do cenário, o Mick Trovada e o DJ Marfox na música e a Adozia Cristo, que é uma actriz muito conhecida em São Tomé por uma personagem que ela criou que é a Saco de Boxe, como uma das protagonistas da peça. Miguel Jesus, encenador: O Bando começou uma tetralogia há cerca de quatro anos. São quatro espectáculos encenados por quatro encenadores diferentes, todos a partir do texto das Mil e Uma Noites, pensando que este texto permite várias abordagens, permite vários pontos de vista, várias leituras. Logo desde o início, o João Brites estabeleceu esta ideia de que cada espectáculo, para além da Xerazade e do Xariar, que são digamos os personagens pivô, os personagens centrais, cada um dos espectáculos teria uma irmã vinda de um país diferente. No sentido de dizer que as Mil e Uma Noites são um livro que faz parte do património da humanidade, não é específico da cultura persa ou da cultura árabe, é de toda a humanidade e portanto pode ser adequado a qualquer contexto e nós podemos e temos irmãs teatrais em todos os cantos do mundo. Isto levou a que O Bando em 2023 trabalhasse com uma actriz de origem iraniana, num espectáculo que se chamava Irmã Persa, dirigido pela Susana Branco, que estabelecia um pouco o início da narrativa, o porquê do Xariar todas as noites escolher uma mulher para ter relações e depois de manhã mandá-la matar. Depois, no ano seguinte, o segundo espectáculo foi encenado pelo João Brites em conjunto com a Olga Roriz, com uma actriz vinda da Palestina, a Maria Dali, que por acaso vai estar agora no Bando a fazer uma residência artística para apresentar um outro trabalho. E o ano passado, em 2025, o João Neca dirigiu a Irmã Mapuche, com uma actriz e música e um actor músico vindo de uma zona do Uruguai, mas em que ela tem ainda origens também do povo Mapuche de cultura indígena. E este ano estamos aqui com a nossa Irmã Santomense. Irmã Santomense porquê? Porque estamos a trabalhar com a actriz Adozia Cristo, conhecida em São Tomé sobretudo como Saco de Boxe, uma personagem famosa, que ficou conhecida num programa televisivo de comédia. A vinda da Adozia trouxe-nos também ao encontro com outros artistas de São Tomé, portanto tivemos a sorte de poder ter connosco Emerson Quinda a fazer algumas pinturas, temos a sorte de ter connosco o músico Mick Trovoada, que apesar de não ser de São Tomé, ser angolano, tem forte influência e forte conhecimento daquilo que é também a música e os ritmos das danças de São Tomé. Portanto estamos aqui influenciados por uma diversidade de pessoas, de conhecimento, de cores, de ritmos, de texturas, que queremos que permeabilizem estas 1001 noites tão específicas, em que neste espectáculo, para além de ser a Irmã Santomense, é também o encerrar desta tetralogia. Portanto, agora temos mesmo de arranjar uma solução para o que é que se faz à Xerazade e ao Xariar. RFI: Adozia Cristo, o que é que, enquanto actriz, traz de São Tomé e Príncipe para esta peça? Traz a língua? O que é que traz? Adozia Cristo: Eu trago São Tomé e Príncipe. Trago a bandeira de São Tomé e Príncipe, a língua, os objectos, na peça há passagens em que eu falo o crioulo-forro, o crioulo de São Tomé, há objectos que nós vamos usar numa cena que são objectos que vêm de São Tomé, há gastronomia porque fala-se dos pratos típicos de São Tomé, a música de São Tomé, tem a dança, nós depois vamos dançar, dança de São Tomé, e também os nomes mais conhecidos das pessoas, principalmente as pessoas mais idosas de São Tomé, então, é muita coisa de São Tomé que está no espectáculo, a Irmã Santomense. RFI: E, enquanto actriz, como é que está a ser o trabalho com os outros atores que não são santomenses? Adozia Cristo: É fixe! As técnicas parecem semelhantes, mas não são. Então, há sempre uma troca. Eu, de alguma forma, transmito alguma coisa que é de lá e também aprendo muito com eles. Estou a trabalhar com encenadores, com atores formados. Então, está a ser bastante bom. RFI: O Mick Trovoada é um homem mais da música, mas aqui assume o papel de actor. Como é que foi abraçar esta experiência? Mick Trovoada: Fui convidado pelo Bando, através de uma terceira pessoa que está ligada a São Tomé, que é Isabel Mota. Fizeram essa ponte e eu vim cá com todo o gosto e com todo o prazer dar o meu contributo e também poder aprender, que é uma das coisas que eu abraço e que me leva por todo o mundo, a vontade de aprender e querer fazer coisas diferentes e que me enriquecem. RFI: Com a vontade de fazer coisas diferentes, aqui sobe ao palco na peça 1001 Noites Irmã Santomense. Mas depois há também o lado mais conhecido do MicK Trovoada, como é que foi trabalhar o som, a música para esta peça? Mick Trovoada: Durante o espectáculo há muitas 'nuances'. Portanto, procurei trazer esse lado de São Tomé, que eu também carrego em mim, e tentei transportar também um pouco da minha experiência do lado da música de São Tomé e Príncipe para aqui. Mas também trazer uma inovação, porque nós estamos constantemente a aprender e constantemente a absorver diversas sonoridades. Então, tentei trazer para aqui também outras sonoridades. Em São Tomé não se utiliza o steel drum, não se utiliza a kalimba, a sazula, mas eu tentei transportar também esses sons para aqui e eu penso que estão a se adaptar bem. Para além destes sons, vou criando também outras atmosferas que se enquadrem com o projecto. RFI: Tudo isso é apresentado ao vivo? Mick Trovoada: Sim, sim, sim! Os sons todos que eu faço são todos ao vivo, na hora, no momento. Não há inteligência artificial nem nada nisso. RFI: Voltamos a falar com Miguel Jesus… Miguel, então, para quem tiver a hipótese de ver este espectáculo, o que é que podes esperar? Miguel Jesus: Eu gostava que quem viesse ver este espectáculo, aquilo que viesse à espera, não encontrasse, mas que encontrasse aquilo que não esta

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  7. 6 NGÀY TRƯỚC

    Muxima: “Pedi que melhorasse a vida da minha família e que rezasse por nós”

    No segundo dia da sua deslocação a Angola, o Papa Leão XIV deslocou-se à vila da Muxima, na província de Icolo e Bengo, onde foi recebido por uma multidão de fiéis que há vários dias aguardavam a sua chegada junto às margens do rio Kwanza, no emblemático Santuário da Muxima. A visita do Sumo Pontífice ao santuário mariano, este domingo, 19 de Abril, ficou marcada por um ambiente de grande júbilo e emoção. No local, o Papa presidiu à oração do Santo Rosário, onde destacou a centralidade da figura de Maria como exemplo de amor e proximidade. Perante uma multidão de fiéis, o Papa sublinhou que a oração do terço não pode ser separada da vida concreta nem da responsabilidade de cuidar dos mais vulneráveis: “Rezar o terço é comprometer-nos a amar cada pessoa com coração maternal, especialmente os mais pobres. Amá-los a todos da mesma forma, empenhando-nos, sem limites, para que a ninguém falte amor e a comida necessária para viver com dignidade e ser feliz.” O Sumo Pontífice referiu-se também ao projecto em curso de construção de um novo santuário na Muxima, apresentado como sinal de abertura ao futuro e de acolhimento, especialmente para os jovens. “Neste lugar, está em curso um grande projecto: a construção de um novo santuário, capaz de acolher todos os que aqui vêm em peregrinação. Especialmente os jovens. Tomai isso como um sinal.” E aos jovens deixou um apelo à construção de uma sociedade mais justa: “A vós, a Mãe do Céu confia o grande projecto de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade.” Leão XVI insistiu que a fé cristã deve traduzir-se na vitória do amor sobre todas as formas de violência e divisão. “O amor deve triunfar, não a guerra. É isso que nos ensina o coração de Maria.” A celebração terminou com o líder da Igreja Católica a expressar-se em kimbundu, língua angolana, “Mama Muxima Tueza Kukue, Mama Muxima tutambulule” (“Mãe do Coração, viemos até Vós para oferecer-Vos tudo.”), para júbilo dos fiéis que o aplaudiram vivamente. Após a cerimónia, a RFI ouviu vários peregrinos que partilharam com emoção o impacto da visita papal. Dizem ter recebido a mensagem do Santo Padre “com muito amor”, apelando para que as autoridades nacionais também a acolham profundamente. Muitos referiram também dificuldades sociais e económicas, como o desemprego, a fome e a falta de condições de vida digna. Em declarações à RFI, o padre Mpindi Alberto, reitor do Santuário da Muxima, destacou o andamento das obras de requalificação do espaço, que incluem a construção de uma futura basílica. Segundo o responsável, o projecto, concebido com apoio das autoridades estatais, deverá estar concluído dentro de dois a três anos. O sacerdote sublinhou, ainda, que a transformação do santuário poderá ter um impacto significativo no desenvolvimento da região, através do turismo religioso, à semelhança de destinos internacionais como Lourdes, em França, Fátima, em Portugal, ou Aparecida, no Brasil. Sobre as mensagens sociais do Papa Leão XIV, incluindo críticas às desigualdades e aos modelos económicos extractivistas, o reitor do santuário considerou que o objectivo não é confrontar governos, mas promover uma reflexão espiritual e humana: “O Papa não vem para atacar, mas para lembrar que somos irmãos”, acrescentando que a mensagem papal é um convite à responsabilidade individual e colectiva na construção de uma sociedade mais justa e solidária.

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    Papa Leão XIV recebido com euforia em Luanda

    Luanda viveu este sábado, 18 de Abril, momentos de grande entusiasmo com a chegada do Papa Leão XIV ao Aeroporto 4 de Fevereiro. O avião papal aterrou cerca de 15 minutos antes da hora prevista, sendo recebido por milhares de fiéis que aguardavam há horas sob um sol intenso para ver de perto o Sumo Pontífice. Entre cânticos, aplausos e acenos, o Papa seguiu pelas principais artérias da capital angolana, desde o aeroporto até à Presidência da República. Já no Palácio Presidencial, Leão XIV manteve um encontro privado com o Presidente João Lourenço, antes de discursar perante autoridades governamentais, representantes da sociedade civil e diplomatas acreditados em Angola. No seu primeiro discurso em território angolano, o Papa apontou o dedo hoje em Luanda àquilo que descreve como uma “cadeia de interesses” que “reduz a realidade e a própria vida humana a uma mera mercadoria”. O Sumo incidiu sobre o modelo extractivista, assente na exploração intensiva de recursos naturais sem retorno proporcional para as populações locais. E questionou: “Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarretam esta lógica extractivista?”. O Presidente João Lourenço, por sua vez, destacou a importância da colaboração entre o Estado e a Igreja Católica, sublinhando o papel da instituição religiosa na formulação de políticas sociais em áreas como saúde, educação, habitação, energia e combate à pobreza. O chefe de Estado defendeu ainda um envolvimento mais activo da Igreja como parceira no desenvolvimento do país. Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita integra um périplo de dez dias ao continente africano, com passagens pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.

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Giới Thiệu

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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