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RFI Português

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

  1. 12시간 전

    250 anos depois, Estados Unidos são cada vez mais uma terra de desigualdades

    A igualdade nos Estados Unidos, tal como preconizada pelos pais fundadores há 250 anos, é cada vez mais uma miragem. A proximidade dos mais ricos com a actual administração e decisões de precedentes administrações leva a que as assimetrias estejam a colocar em risco o funcionamento da democracia no país. Os Estados Unidos festejaram este fim-de-semana os 250 anos da sua independência, numa festa com pompa e circunstância assegurada por Donald Trump, mas perturbada desde logo pelas condições meteorológicas, mas também micro-escândalos como a ingerência do Presidente no Mundial de Futebol e as ameaças iranianas durante as cerimónias funerárias de Ali Khamenei, em plenas negociações de paz. Nos discursos oficiais, Donald Trump afirmou que os norte-americanos devem estar "mais orgulhosos que nunca" com os feitos do país, mas não mencionou as desigualdades e assimetrias vividas na prática entre estados, mas também entre zonas rurais e urbanas ou até mesmo entre bairros vizinhos, tendo em conta a cor da pele dos habitantes. Nos Estados Unidos, a classe mais rica possui 71 vezes mais riqueza que a classe média, com a Oxfam a estimar que há actualmente quase 44 milhões de norte-americanos pobres, entre eles quase 10 milhões de crianças, um dos números mais elevados nos países da OCDE. Ao mesmo tempo, há quase 24 milhões de milionários nos Estados Unidos. João Pedro Ferreira, economista e director de Economia e Políticas Públicas do Centro Weldon Cooper, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, explicou em entrevista à RFI que os Estados Unidos são, desde o início, uma manta de retalhos e que muitas garantias da Constituição, que visam desde a fundação a coesão no país, estão hoje em perigo. "Quem está de fora tem muita ideia de uma construção, de uma América que é coerente, que quer dizer qualquer coisa. Mas de facto, quando chegamos aos Estados Unidos e num quadro em que hoje estamos ainda mais despertos para as diferenças culturais e identitárias que existem, então os Estados Unidos parecem, de facto, uma manta de retalhos. Os pais da Constituição perceberam exactamente isso e fizeram uma Constituição - que importa lembrar que na altura foi de facto revolucionária, mesmo se hoje podemos levantar muitas questões sobre a forma como funciona a democracia americana - que era uma Constituição que tinha separação de poderes e um conjunto de coisas a que nós nos Estados Unidos chamamos de 'checks and balances'. E é basicamente para garantir que há quase uma vigilância entre os diferentes níveis da organização do Estado e do poder. E isso hoje está-se a perder. [...] E é importante também reconhecer que a democracia americana está a atravessar uma crise porque, de alguma forma, pela primeira vez, estes checks and balances e estes equilíbrios não estão a ser vistos e não estão a ser seguidos em muitos casos", explicou o economista. De 13 colónias iniciais que se revoltaram para criar um país, os Estados Unidos passaram a hoje 51 Estados e alguns sem continuidade territorial como o Havai ou o Alasca, mas mesmo em estados vizinhos, as realidades podem ser muito diferentes, como explica João Pedro Ferreira. "Os Estados Unidos são de facto uma construção muito complexa, onde as zonas urbanas e zonas rurais são completamente distintas, onde os níveis de pobreza nas zonas rurais são altíssimos, mas o nível de segregação das zonas urbanas também é relativamente importante. Que há zonas dos Estados Unidos, por exemplo, que se fossem um país, seriam dos países mais ricos do mundo, com um PIB superior ao do Luxemburgo, à Suíça, e há zonas dos Estados Unidos que, se fossem um país, teriam um PIB inferior ao da Albânia. Não é, de facto, um país homogéneo. E é importante reconhecer isso", detalhou. Desde o regresso ao poder de Donald Trump, mas também em anteriores administrações nas últimas décadas, os mais ricos encontram-se cada vez mais próximos da esfera do poder e, muitos deles, ocupam mesmo lugares de destaque como representantes dos Estados Unidos. Trump conta com 12 bilionários, entre eles Howard Lutnick, secretário do Comércio, com uma fortuna estimada de 3,2 mil milhões de dólares e que construiu a sua fortuna a partir de serviços financeiros, ou ainda Linda McMahon, secretária da Educação e mulher de Vince McMahon, que detém a WWE, uma organização de wrestling com difusão em todo o Mundo e que está avaliada em três mil milhões de dólares. Para além de uma classe privilegiada, estes multimilionários têm hoje acesso ao poder legislativo e a instâncias de decisão que desequilibram ainda mais a balança entre os pobres e os muito ricos nos Estados Unidos, colocando a democracia em risco. "Quando se tem um sistema económico que, por exemplo, nos últimos anos tem privilegiado os 1% mais ricos e os 99% restantes estão cada vez mais pobres, não se pode ter uma democracia na prática, porque isso significa que há pessoas que têm o poder de fazer coisas que estão muito acima do que o resto do comum dos mortais pode fazer. Isso tornou-se mais evidente com esta última administração federal, com esta administração Trump, com um conjunto de oligarcas que têm acesso privilegiado a leis e à ausência de regulação. E isso distorce a democracia, porque a democracia foi feita para o povo, para a maioria. E está claramente em causa agora. Por exemplo, quando olhamos para os dados da segregação racial e da pobreza, percebemos que há comunidades inteiras com determinado tipo de identidade, que são as que mais sofrem com as questões da pobreza. E percebemos que ela não está igualmente distribuída entre as zonas rurais e as zonas urbanas. Percebemos que não está igualmente distribuída entre brancos, afro-americanos ou asiáticos, por exemplo. Percebemos que há desequilíbrios importantes e é importante que a democracia formal continue a funcionar para permitir resolver estes desequilíbrios. Neste momento não está a funcionar", concluiu João Pedro Ferreira.

    14분
  2. 1일 전

    "Visita de Emmanuel Macron à Síria assinala importante compromisso diplomático"

    O segundo dia da visita do Presidente francês, Emmanuel Macron, à Síria ficou marcado por uma dupla explosão nas imediações do hotel onde estava hospedado. Apesar do incidente, o programa oficial decorreu sem alterações, incluindo a realização do fórum empresarial franco-sírio. Macron tornou-se o primeiro líder de um grande país da União Europeia a deslocar-se à Síria desde o início da reaproximação diplomática entre Paris e Damasco. Para além da dimensão política, a visita evidencia também um forte interesse económico: a França procura assegurar uma posição de destaque no futuro mercado da reconstrução síria, estimado em mais de 216 mil milhões de dólares. João Henriques, vice-presidente do Observatório do Mundo Islâmico, em Portugal, considera que esta visita, marcada por uma forte componente económica, traduz igualmente o compromisso diplomático da França e, em sentido mais amplo, da Europa para com a Síria. O Presidente francês tornou-se o primeiro líder de um grande país da União Europeia a deslocar-se à Síria. Qual é a importância desta visita? A visita de Emmanuel Macron à Síria assinala um importante compromisso diplomático, desde logo por parte da França. A intenção passa por envolver também a Europa neste compromisso com o novo Governo sírio, promovendo a estabilidade regional e criando condições para uma maior abertura à cooperação económica e à reconstrução do país. Ao mesmo tempo, esta visita pode ser entendida como um gesto simbólico de reforço da legitimidade e da liderança do actual Presidente sírio. Este segundo dia da visita de Emmanuel Macron a Damasco ficou marcado por duas explosões, que fizeram vários feridos. Estes acontecimentos demonstram que a Síria continua a enfrentar graves problemas de segurança? Sem dúvida. A segurança interna continua a ser uma enorme preocupação na Síria. Ainda não existem muitos detalhes sobre estas explosões, mas tudo indica que possam ter tido também uma dimensão simbólica. Contudo, o principal desafio continua a ser a presença do Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, que mantém capacidade para desestabilizar o país e fragilizar os seus alicerces de segurança. Este episódio demonstra igualmente que Damasco continua a ser um ponto vulnerável, o que representa uma preocupação permanente para as actuais autoridades sírias. No passado mês de Março, peritos da ONU afirmavam que o país continua a enfrentar desafios no caminho para uma governação inclusiva e para o Estado de direito. Em que ponto se encontra actualmente a Síria? Se a Síria pretende alcançar uma verdadeira normalização diplomática com a Europa e, eventualmente, com os Estados Unidos, terá de apresentar garantias credíveis por parte das autoridades de Damasco. Essas garantias passam, sobretudo, pelo respeito pelos direitos humanos, pelo funcionamento da justiça e pelo fortalecimento do Estado de direito. São precisamente estas questões que continuam a alimentar as reservas de muitos sectores europeus e norte-americanos relativamente ao restabelecimento pleno das relações diplomáticas. Ainda há muito trabalho a fazer a nível interno antes que esse progresso possa reflectir-se positivamente nas relações da Síria com os países que pretendem apoiar a sua reconstrução. Essa falta de garantias continua também a dividir os países europeus? Sim. No seio da Europa continuam a existir posições muito diferentes. Há quem não acredite que um antigo dirigente ligado a grupos classificados internacionalmente como terroristas tenha alterado verdadeiramente o seu percurso e possa hoje assumir-se como um factor de estabilidade interna e regional. Essa desconfiança mantém-se e continua a influenciar o debate político europeu. Muitos consideram que as mudanças não podem ser avaliadas apenas pelas declarações das novas autoridades e que será necessário tempo para comprovar a sua consistência. A França parece acreditar mais nessa evolução. Emmanuel Macron afirmou que pretende reforçar a cooperação económica e apoiar a reconstrução do país, fazendo-se acompanhar por representantes de várias empresas francesas, nomeadamente CMA CGM e ToltalEnergies. Que oportunidades oferece actualmente a Síria aos interesses franceses? A Síria oferece um potencial significativo para o desenvolvimento de relações económicas e comerciais. No entanto, esse potencial só poderá concretizar-se plenamente se a situação interna evoluir para um cenário de maior estabilidade. É precisamente esse o argumento utilizado pelos sectores que se opõem a esta aproximação: consideram prematuro investir, enquanto persistirem dúvidas sobre a segurança e a evolução política do país. Essa oposição existe também em França e reflecte igualmente as reservas que continuam presentes noutros países europeus. Que impacto poderá ter a participação francesa na reconstrução de sectores como o turismo, a agricultura, a indústria, a energia ou as obras públicas? Naturalmente que Emmanuel Macron não avançou para esta missão sem ter presente essa dimensão económica. A reconstrução da Síria representa uma oportunidade importante para empresas francesas em vários sectores estratégicos. Ao mesmo tempo, Macron enfrenta dificuldades políticas internas e procura também afirmar a influência internacional da França. Esta aproximação à Síria permite-lhe reforçar o papel francês na região, mas também procurar benefícios económicos para o país. Trata-se, por isso, de um desafio simultaneamente diplomático, económico e político. Nesta visita, com uma forte componente económica, são esperados acordos com empresas francesas, incluindo nos sectores dos transportes, da energia e da aviação. Emmanuel Macron procurou antecipar-se ao encontro entre o Presidente sírio e o Presidente dos Estados Unidos? Em parte, sim. A visita de Emmanuel Macron reforça um processo que já vinha sendo desenvolvido através da reabertura de canais diplomáticos com Damasco. Os Estados Unidos continuam cautelosos relativamente à situação de segurança e às garantias políticas oferecidas pelas novas autoridades sírias. Ainda assim, esta iniciativa francesa poderá abrir caminho a um maior envolvimento norte-americano, sobretudo numa altura em que Washington já admitiu aliviar ou levantar parte das sanções impostas à Síria. Para os Estados Unidos, esta poderá também representar uma oportunidade para reforçar a sua influência no Médio Oriente, numa estratégia que já tem sido visível através do aprofundamento das relações com vários países do Golfo. Julgo que Donald Trump tenderá a privilegiar uma lógica de custo-benefício e, nesse contexto, poderá considerar que uma aproximação à Síria serve os interesses estratégicos norte-americanos. Nesse sentido, os Estados Unidos parecem estar, por agora, a acompanhar uma dinâmica que foi iniciada sobretudo pelos europeus. E nomeadamente pela França... Exactamente. A França está, neste momento, a assumir a dianteira desse processo de reaproximação diplomática.

    8분
  3. 2일 전

    Guiné-Bissau: "Mais de 50% da população não tem acesso à água potável"

    Os direitos humanos estão consagrados na lei, mas continuam fora do alcance de grande parte da população da Guiné-Bissau. O novo relatório Observando os Direitos na Guiné-Bissau revela um país marcado por profundas desigualdades no acesso à água, saúde, educação, justiça, energia e habitação. Para o presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Bubacar Turé, a ausência do Estado está a empurrar a população para o limite da sobrevivência. Na Guiné-Bissau, os direitos humanos continuam, muitas vezes, a existir apenas no papel. Embora a Constituição e a legislação reconheçam um vasto conjunto de direitos económicos, sociais, culturais e cívicos, a realidade diária de milhares de famílias continua marcada pela falta de acesso aos serviços mais básicos. É esta a principal conclusão do relatório Observando os Direitos na Guiné-Bissau, elaborado pelo Observatório dos Direitos Humanos a partir de um inquérito realizado em todo o país junto de 632 famílias, escolas, centros de saúde, estabelecimentos prisionais e outras instituições. O estudo conclui que a pobreza, a fragilidade das instituições públicas e as desigualdades territoriais continuam a impedir que uma parte significativa da população exerça direitos que já lhe são reconhecidos por lei. "O relatório mostra que tem havido uma proclamação formal dos direitos humanos ao nível constitucional e legal, mas, do ponto de vista prático, há uma grande distância e os cidadãos têm um acesso deficiente aos serviços sociais básicos", resume Bubacar Turé, presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos. Para o responsável, o documento pretende também "interpelar as autoridades nacionais sobre a necessidade de inverter esse rumo". Água imprópria, hospitais degradados O acesso à água potável surge como um dos indicadores mais preocupantes. Bubacar Turé afirma que "mais de 50% da população não tem acesso à água potável" e depende de água retirada de poços que, "na sua esmagadora maioria, não têm condições higiénicas". Uma situação que, segundo o dirigente, está associada ao aumento de doenças de origem hídrica e da mortalidade materno-infantil. As dificuldades repetem-se no sector da saúde. Apesar dos progressos registados nas últimas décadas, o acesso aos cuidados continua condicionado pela escassez de profissionais, pelos custos suportados pelas famílias e pela distância aos centros de saúde. "Há regiões em que os cidadãos percorrem mais de 30 quilómetros para ter acesso aos primeiros cuidados médicos", refere Bubacar Turé, acrescentando que muitos estabelecimentos de saúde continuam a funcionar sem acesso regular à água potável ou à energia eléctrica. "São situações extremamente preocupantes." O nascimento continua a determinar oportunidades O relatório mostra, ainda, que o acesso aos direitos varia entre regiões. O Sector Autónomo de Bissau e Biombo apresentam os melhores indicadores, enquanto Gabú, Bafatá e Quinara continuam entre as zonas mais desfavorecidas. Para Bubacar Turé, não existem "cidadãos de primeira e de segunda", mas sim uma profunda falta de coesão territorial. "O Estado não consegue cumprir a sua função de proporcionar o bem-estar social", afirma. Segundo o dirigente, a concentração de investimentos públicos e de projectos das organizações não governamentais em determinadas regiões acaba por aprofundar as desigualdades existentes, quando deveria existir uma estratégia nacional que garantisse um desenvolvimento mais equilibrado. A resiliência já não é suficiente Apesar das dificuldades, o relatório destaca a capacidade de resistência das famílias e das comunidades, que continuam a criar mecanismos próprios de solidariedade para responder à ausência dos serviços públicos. Mas Bubacar Turé alerta para o risco de transformar essa capacidade de adaptação numa desculpa para a inacção do Estado. "O povo guineense tem travado uma luta titânica pela sua própria sobrevivência, mas essa resiliência tem limites. O povo está neste momento no limite dos seus esforços", afirma. Na sua perspectiva, esse desgaste já está a produzir consequências visíveis. "As pessoas entram em desespero", diz, apontando a crescente emigração de professores, médicos e outros quadros qualificados, que procuram melhores condições de vida no estrangeiro, agravando ainda mais a fragilidade dos serviços públicos. Questionado sobre as causas desta realidade, Bubacar Turé aponta directamente à instabilidade política crónica. "A classe política não tem correspondido às expectativas do povo", afirma. Apesar de a Guiné-Bissau realizar eleições consideradas livres e pacíficas, o dirigente lamenta que estas sejam frequentemente seguidas por "má governação, corrupção, instabilidade, golpes e violações sistemáticas dos direitos humanos". Na sua opinião, apenas uma governação transparente, estável e respeitadora da Constituição permitirá transformar os recursos naturais do país em desenvolvimento efectivo e reduzir a pobreza. Para Bubacar Turé, não existe uma prioridade única, porque os défices se acumulam. "Temos urgência de colocar milhares de crianças na escola, de transformar o sistema de saúde, de garantir água potável, energia eléctrica e de reduzir drasticamente a pobreza extrema", enumera. Sem esse investimento, conclui, continuará a existir uma Guiné-Bissau onde os direitos são amplamente reconhecidos na lei, mas permanecem inacessíveis para uma grande parte da população.

    9분
  4. 3일 전

    Maria de Medeiros sopra o desassossego num dos palcos do Festival OFF Avignon

    A peça “L'Intranquillité” leva para um dos palcos do Festival OFF Avignon uma das obras mais singulares da literatura portuguesa, o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. O espectáculo é um mergulho onírico nas dúvidas e inquietações que habitam a condição humana e um convite para explorar os nossos mundos interiores. Além dos dois actores em palco, há uma voz que nos transporta para o lugar do desassossego de Pessoa: a voz da actriz portuguesa Maria de Medeiros, com quem conversámos sobre a peça. O desassossego é uma forma de olhar o mundo e as palavras de Fernando Pessoa continuam a ecoar com o tempo presente e a inspirar os artistas. É o caso do encenador Jean-Paul Sermadiras que criou a peça “L'Intranquillité”, uma viagem poética ao universo do “Livro do Desassossego”, guiada pelo diálogo entre dois intérpretes em palco e a voz de Maria de Medeiros. Em cena, há pó de estrelas como pano de fundo e espalhado pelo chão, uma caixa, dois dandies bem vestidos, lampiões, champanhe e um grande amor pelas palavras. A peça está no Théâtre Le Petit Chien, no Festival Off Avignon, até 25 de Julho, mas foi em Paris que conversámos com a actriz e realizadora portuguesa porque a sua participação na peça é feita apenas através da sua voz. Uma voz que é o sopro que desperta as personagens que ela descreve como “vagabundos cósmicos que se encontram para dizer os textos do ‘Livro do Desassossego’”. Maria de Medeiros conta-nos que Fernando Pessoa sempre a habitou e que é um autor ao qual ela volta “com muito afecto, com muito amor, com muito júbilo também”. Este ano, ela volta não só a Fernando Pessoa como a Avignon, ainda que não esteja fisicamente presente. Em 1988, na estreia do teatro português no coração do Festival, conhecido como o IN, Maria de Medeiros e Luís Miguel Cintra apresentaram “A Morte do Príncipe”, a partir do texto de Fernando Pessoa, que depois foi adaptado a filme, um dos primeiros que ela realizou. Em 2025, com o encenador Robert Wilson, outro nome histórico de Avignon, ela também interpretou e cantou textos de Pessoa e dos seus heterónimos em “Since I’ve been me” que estreou no Théâtre de La Ville de Paris e, em Junho último, a peça regressou ao mesmo palco. Agora, é a sua voz gravada que desperta as reflexões dos dois actores em palco em “L’Intranquillité”. Para Maria de Medeiros, o desassossego ecoa - e de que maneira - com o grande tema de Avignon este ano: o questionamento. Para ela, “tudo é desassossego neste momento” e “não há criatividade sem desassossego e sem questionamento”, sobretudo numa época em que vê “expandir um vírus terrível de literalidade, de binarismo, de discursos feitos de mentiras forjadas, mas categóricas”.  Só com o desassossego se pode tentar “um bocadinho de poesia”, confidencia-nos, sublinhando que, afinal,“a obra de Pessoa é como se tivesse sido escrita hoje”. Fernando Pessoa "é sempre um autor ao qual eu volto com muito afecto, com muito amor, com muito júbilo" RFI: Como é que nos pode descrever esta adaptação do “Livro do Desassossego”? Maria de Medeiros, Actriz: “De alguma forma, eu acho que ele fez uma leitura quase beckettiana do Pessoa porque as personagens são como vagabundos cósmicos que se encontram para dizer os textos do ‘Livro do Desassossego’. E está muito certo porque, no fundo, tanto na peça do Bob Wilson, como na do Jean-Paul Sermadiras, o que ressalta é um certo lado lúdico do Pessoa e como ele, de alguma forma, organiza dramaturgias ao redor. Tem os seus heterónimos, que são praticamente como amigos imaginários de uma criança, e ele está constantemente a organizar dramaturgias interiores. Há um lado teatral e de personagens que vão mudando porque ele fala muito da máscara, mas justamente o vagabundo permite esse assumir de várias máscaras. Essa vagabundagem interior tem muito a ver com a essência da escrita do Pessoa.” Enquanto actriz, há uma proximidade entre o seu trabalho e a ideia dos heterónimos? É como um jogo de espelhos? Como é trabalhar Fernando Pessoa? “Para mim, é também uma espécie de poção mágica do Obélix porque tenho a sensação de, como muitos portugueses, ter nascido na linguagem e nos textos do Pessoa. É sempre um autor ao qual eu volto com muito afecto, com muito amor, com muito júbilo também. Então, fiquei muito feliz, de alguma forma nesse espectáculo que é tão masculino, de ter trazido uma voz: a minha voz.” Fale-nos dessa voz. Como é que foi a criação, a composição e porquê musicar Pessoa? “Na verdade, eu achei muito bem essa proposta. Depois, foi muito interessante porque a Pascale Salkin fez a música e foi uma fantástica coincidência porque nós contracenámos num dos primeiros filmes que eu fiz em França, acho que foi o primeiro filme que fiz em França, o ‘J'ai faim, j'ai froid’, uma curta-metragem da Chantal Akerman, integrada numa longa-metragem que se chama ‘Paris vu par’. Somos duas miúdas muito parecidas com o que éramos, eu tinha 19 anos, andava um bocadinho também vagabundeando pela cidade de Paris. E eu nunca mais tinha encontrado a Pascale e é justamente neste projecto tão lindo sobre o ‘Livro do Desassossego’ em que ela fez a música e fez a música com muita sensibilidade. Então, foi muito bom reencontrá-la e fazer esse trabalho.” Como foi a escolha dos textos? “Já me foram propostos porque os textos fazem parte da dramaturgia da peça e estão lá em eco com os textos que os actores dizem em cena.” Este ano, no Festival de Avignon, no IN, a linha de força é o questionamento. O desassossego parece ecoar com estes questionamentos que o Tiago Rodrigues quer trazer ao festival. Como é que o desassossego alimenta também essa liberdade criativa dos artistas? “Sim, sim, eu acho que não há criatividade sem desassossego e sem questionamento, sobretudo numa época em que vivemos como um expandir de um vírus terrível, de literalidade, de binarismo, de discursos feitos de mentiras forjadas, mas categóricas. E esse desassossego é que nos permite sair do discurso categórico e criar alguma coisa e, sobretudo, fazer um bocadinho de poesia.” Neste mundo com tanta falta de poesia, há algum desassossego neste momento que a inquiete mais? “Tudo é desassossego neste momento. O avanço da estupidez, do não questionamento, do autoritarismo, de um monte de ideias retrógradas, tudo isso é motivo para estarmos muito desassossegados.” O “Livro do  Desassossego” é uma obra que continua a inspirar artistas, encenadores, actores. O que é que este livro e esta obra têm de tão transversal ao tempo e à sociedade? “Realmente, quando voltamos à obra do Pessoa é como se tivesse sido escrita hoje. Há uma actualidade absoluta e uma universalidade também porque é muito bonito para nós, portugueses, ver também como estes textos tão importantes se deixam traduzir sem perder nada da sua força, do seu encanto, da pertinência. É muito bom também ver os franceses apoderarem-se desses textos que são extremamente generosos. Talvez por serem também tão universais e tão actuais.” No Théâtre de La Ville, em Paris, este ano voltou a estar em palco com a peça de Robert Wilson “Since I’ve Been Me” que já tinha estreado no ano passado também sobre Fernando Pessoa. Qual é a  relação que tem com Fernando Pessoa e é uma relação que está muito presente? “Sim e há muitos anos porque, realmente, um dos meus primeiros filmes como realizadora foi ‘A Morte do Príncipe’ de Pessoa, que é uma peça que é formada por fragmentos dramáticos de Pessoa. Quando esses textos foram revelados pela Teresa Rita Lopes, o Luís Miguel Cintra fez uma montagem magnífica que apresentámos no Festival de Avignon há muitos anos, no final dos anos 80. E depois estivemos também no Théâtre de la Bastille. Essa encenação era do Luís Miguel Cintra, mas depois o Joaquim Pinto, que era um produtor muito activo na época, arranjou financiamento para se fazer o filme e eu fui a realizadora desse filme. Esse filme acabou de ser restaurado pela Cinemateca Portuguesa e ficou uma maravilha o restauro.  Somos o Luís Miguel Cintra e eu a contracenarmos sobre esses textos magníficos de ‘A Morte do Príncipe’. Então, pronto, lá bem no início já estava o Pessoa para mim.” E continua. “E continua.” O facto de ser portuguesa e de continuar a ser convidada por encenadores de várias nacionalidades para interpretar as palavras de Pessoa reveste algum significado especial? “Eu tenho muito orgulho em representar Pessoa, em representar a literatura portuguesa, a poesia portuguesa sempre. Adoro voltar a reviver e a dar voz a esses textos, não só Pessoa, mas também Sophia de Mello Breyner e tantos outros autores portugueses. Eu faço-o com muito gosto e com muito orgulho.”

    10분
  5. 5일 전

    Da Praia às estrelas Michelin: o percurso de Cláudio Semedo Borges

    No coração de Paris, no Hotel Príncipe de Gales, a cozinha é liderada por um cabo-verdiano que fez da alta gastronomia francesa a sua casa. Chama-se Cláudio Semedo Borges, nasceu na cidade da Praia e construiu um percurso que o levou das ilhas de Cabo Verde aos mais prestigiados hotéis da capital francesa. Entre memórias de infância, ambição e criatividade, o chef revela como as suas raízes continuam presentes, ainda que discretamente, nos pratos que cria. Encontramos o chef cabo-verdiano à conversa com os últimos clientes. Acabam de terminar a refeição e despedem-se com elogios a um "menu delicioso". Cláudio Semedo Borges recebe-nos de sorriso rasgado e com uma energia contagiante que abre caminho à descoberta de um dos hotéis "mais bonitos de Paris". É ali que dá forma a uma cozinha que define como "refinada", sem nunca perder de vista as suas origens. "É uma cozinha que tem gosto, muitos sabores", explica. Cresceu habituado a pratos intensos e cheios de personalidade, uma marca da cozinha cabo-verdiana que procura manter, mesmo trabalhando num restaurante assumidamente francês. "Os meus pratos, no dia-a-dia, não têm muitos elementos cabo-verdianos, porque estamos num restaurante 100% francês", conta. Ainda assim, de vez em quando, deixa escapar pequenos detalhes da sua identidade. A manga verde e os torresmos surgem, discretamente, em algumas criações, despertando a curiosidade dos clientes. "Eles ficam sempre surpreendidos. Há sempre uma pergunta no fim da refeição: 'Havia aqui qualquer coisa diferente... mas o que era?'. Quando digo qual é o ingrediente, ficam fascinados." A ligação a Cabo Verde vai muito além dos ingredientes. Está nas memórias de infância, na liberdade com que cresceu e na forma como encara a criatividade. "Saía de casa de manhã e só voltava à noite. Comia em casa dos vizinhos, brincava na rua, toda a gente se conhecia. Essa liberdade faz falta aqui na Europa." Essa sensação de liberdade continua a influenciar a forma como cozinha : "quando faço um prato nunca penso que está terminado. Acho sempre que posso fazer mais. Estou sempre aberto ao inesperado."   Antes da cozinha, porém, havia outro sonho. Durante vários anos, Cláudio acreditou que o seu futuro passaria pelos relvados. "Desde que saí de Cabo Verde vivi para o futebol. Joguei em Portugal, fui selecionado para a seleção portuguesa e acreditava mesmo que podia ser jogador profissional." A mudança para França, aos 19 anos, alterou completamente o rumo da sua vida. A cozinha surgiu primeiro por necessidade, tornando-se mais tarde numa paixão. "Em casa, com uma mãe solteira e quatro rapazes, todos tínhamos de ajudar. Cozinhava para aliviar o peso da minha mãe. Não há nada mais gratificante do que ouvir a minha mãe dizer: 'Filho, está muito bom.' Hoje, quando um cliente me diz que adorou a refeição, sinto exactamente a mesma emoção." Sem meios para frequentar uma escola privada de gastronomia, iniciou a formação numa escola pública francesa. Depois vieram as primeiras oportunidades profissionais e, pouco a pouco, o contacto com a alta cozinha. Passou por cozinhas de referência em Paris, trabalhou em restaurantes distinguidos pelo Guia Michelin e integrou equipas de hotéis de luxo, como o Ritz e o Península, antes de assumir a cozinha do Hotel Príncipe de Gales. "Quando cheguei às cozinhas de três estrelas Michelin percebi o verdadeiro significado da excelência. Ali nada é ignorado. Tudo tem um detalhe." Apesar do ambiente exigente da alta gastronomia, Cláudio procura liderar de forma diferente. " Trabalho é muito stressante, mas acredito que a melhor forma de aprender é com um sorriso. Talvez seja a morabeza cabo-verdiana." Em 2025 decidiu colocar-se novamente à prova ao participar no programa Top Chef em França. Cláudio refere que experiência abriu-lhe novas portas e reforçou o reconhecimento do seu trabalho. "Sempre gostei de competição. Talvez venha do futebol. Queria perceber até onde podia ir, testar a minha criatividade. A experiência abriu-me muitas portas".   Hoje, depois de alcançar objetivos que um dia lhe pareceram distantes, os sonhos mudaram de direção. "O meu sonho já não é tanto para mim. Quero despertar nas pessoas a vontade de conhecer Cabo Verde, interessarem-se pela nossa cozinha e inspirar outros a cozinhar com um sorriso." No futuro, admite que gostaria de abrir um restaurante com assinatura própria, sublinhando o desejo de ter um espaço onde possa dizer "esta é a minha cozinha, este é o meu modo de vida." No final da conversa, o chef regressa simbolicamente à infância através de um prato de verão. A protagonista é a manga verde, um sabor que o transporta para os dias em que saía da escola, na Praia, e apanhava as primeiras mangas ainda verdes das árvores. "Era um sabor ácido, mas ficou para sempre na minha memória." É precisamente essa memória que transforma num prato fresco de caranguejo, manga verde, manjericão, citrinos e ervas aromáticas. Uma criação onde a sofisticação da cozinha francesa encontra, de forma subtil, as recordações de Cabo Verde. É, talvez, a melhor definição da cozinha de Cláudio Semedo Borges: uma viagem entre dois mundos, servida com técnica, emoção e identidade.

    10분
  6. 6일 전

    Alerta sobre violência contra imigrantes na África do Sul "tem de vir da SADC e União Africana"

    As manifestações anti-imigração na África do Sul já levaram à saída de mais de 25 mil estrangeiros do país. Por enquanto, as autoridades têm tolerado estas manifestações, mas a amplitude da violência, com várias mortes registadas, merece a intervenção das organizações regionais e continentais. Milhares de pessoas estão a fugir diariamente da África do Sul devido às marchas anti-imigração que já duram há quatro meses, com grupos organizados a perseguir, incendiar casas e matar estrangeiros um pouco por todo o país. Os moçambicanos constituem a maior comunidade estrangeira que reside no país e todos os dias a fronteira de Ressano Garcia acolhe centenas de pessoas que fogem à violência na África do Sul. Para José Gomes, jornalista e analista político angolano instalado em Pretória, os imigrantes são o bode expiatório dos problemas do país, uma situação que parece não desagradar às autoridades sul-africanas que assim se desresponsabilizam de flagelos como a enorme taxa de desemprego na África do Sul. "O que acontece é que os imigrantes tem sido um bode expiatório, porque sempre que há eleições ou ano eleitoral, esta narrativa anti-imigrantes tende a aumentar e há também aproveitamento de alguns partidos políticos. Nós tivemos as últimas eleições gerais, que houve um partido político que usou a bandeira mesmo da xenofobia. Agora, este ano, como vamos ter as eleições autárquicas no final do ano. A África do Sul tem problemas sociais, tem problemas económicos e taxas altas de desemprego. Cerca de 60% da juventude está no desemprego. Quando esta mesma população invoca que os seus problemas de desemprego são os estrangeiros, isso desafoga o poder político. Então ele vai para as eleições, já não tem muito trabalho para fazer como promessas de empregos. Porque o próprio povo, a própria população, já elegeu um culpado que são os imigrantes. Então eles vão culpar os imigrantes e vão desresponsabilizar, neste caso, o próprio governo do ANC e o governo de coligação em vigor no país. Então, isto é uma vantagem para o poder político", indicou José Gomes, que acrescenta que não tem havido grandes discursos para desencorajar esta violência. Para este jornalista angolano, esta violência pode degenerar e generalizar-se mesmo entre sul-africanos. De forma a permitir o restabelecimento da ordem no país, José Gomes considera que as organizações regionais e continentais têm se exprimir para proteger todos os estrangeiros em solo sul-africano. "Há governos como o de Moçambique, do Botswana, mas sobretudo Moçambique está muito activo. Porque Moçambique é um dos países que tem a maior comunidade estrangeira na África do Sul. É um país que tem cerca de cinco consulados em todo o território sul-africano, então tem uma presença forte. É o mais activo. Agora, esta é uma agenda que já se deveria levar a nível da SADC, a nível da União Africana e não está a acontecer. Isso devia acontecer para a África do Sul tomar posição de preservar a vida das pessoas que estão no seu território, porque embora só estejam a atacar um determinado número de estrangeiros que são moçambicanos, os zimbabueanos, alguns somalis ou etíopes, mas isso depois vão começar a atacar todo mundo porque o discurso está a ser usado por esses manifestantes é contra aqueles que não têm os documentos com que estão ilegais, mas bem, nessa altura de euforia, ninguém vai ter tempo de ver quem está ilegal ou não. Este é um assunto africano, porque isso está a mexer com a imagem da África Austral, está a mexer com a imagem também de África e isso não está a ser muito bom", garantiu. Nos últimos meses já terão saído da África do Sul cerca de 25 mil pessoas, originárias do Malawi, Zimbabwé, Moçambique, Gana ou ainda Nigéria. Dezenas de pessoas terão sido mortas pelos manifestantes nos últimos meses e na terça-feira, data limite dada pelos manifestantes para todos os imigrantes ilegais abandonarem o país, foram detidas 900 pessoas que participaram nos motins xenófobos.

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  7. 6월 30일

    Venezuela: “Enquanto continuarem as buscas, acreditamos que é possível encontrar pessoas com vida”

    Uma semana depois do duplo sismo que abalou a Venezuela, socorristas de todo o mundo tentam ajudar o país a enfrentar a emergência provocada pelos terramotos. Oficialmente, mais de 1.700 pessoas morreram, mais de 5.000 ficaram feridas e cerca de 50 mil continuam desaparecidas. A NASA estima que cerca de 58.870 edifícios tenham sido danificados ou destruídos em toda a zona afectada, com base em imagens de satélite. No estado de La Guaira, no norte do país e o mais duramente atingido pela catástrofe, “a escassez de alimentos é generalizada, os serviços básicos colapsaram e as comunicações encontram-se, em grande parte, interrompidas. As tensões entre as comunidades estão a aumentar, enquanto o acesso à ajuda continua limitado”, alertou esta terça-feira, 30 de Junho, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). "Quase todo o estado de La Guaira ficou destruído. Há centenas de edifícios, casas, negócios e espaços públicos afectados. É uma verdadeira tragédia", afirmou Marcos Ramos Jardim, jornalista luso-venezuelano. A dimensão da destruição levou à mobilização de dezenas de países. Segundo as Nações Unidas, 27 países já enviaram mais de 40 equipas de socorro para o terreno, num total superior a dois mil operacionais e mais de 160 cães de busca e salvamento. Portugal enviou uma missão humanitária composta por elementos dos bombeiros, Protecção Civil e GNR, que se encontram a colaborar nas operações de resgate e assistência às populações afectadas. A tragédia atingiu particularmente a numerosa comunidade portuguesa residente em La Guaira, onde vivem milhares de emigrantes e luso-descendentes. Carlos Pestana, dirigente associativo luso-venezuelano, descreve um cenário dramático: "Em La Guaira viviam muitos portugueses. Há famílias inteiras que perderam as suas casas, os seus negócios e, em alguns casos, familiares próximos. A maioria ficou sem habitação. É uma catástrofe". Um dos espaços afectados é o Centro Luso Venezuelano de La Guaira. Freddy Quintal relatou danos estruturais significativos e várias vítimas mortais entre os sócios: "O clube sofreu bastantes danos na estrutura do salão, muitas fendas. Na parte de cima, tínhamos as duas salas onde eram leccionados os cursos de português, isso tudo desabou, as televisões, as carteiras, o videoprojector... tudo isso caiu. Mais de 20 sócios morreram. Estou à procura do meu sobrinho, cuja mãe também morreu. Não o encontramos em lado nenhum.” Carlos Pestana, membro da associação “Os parceiros da Nau sem Rumo” testemunhou momentos de enorme aflição durante os sismos: "Abracei a minha esposa e gritámos. Pensámos que era o nosso fim. Foi algo muito forte. Depois veio outro problema: durante horas não conseguimos contactar familiares nem amigos. Foi terrível". Apesar das dificuldades, destaca a mobilização da comunidade portuguesa, do consulado e da embaixada de Portugal. "A comunidade portuguesa está a fazer tudo o que pode para ajudar. Existem vários centros de recolha de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Estamos a apoiar-nos uns aos outros". Marcos Ramos Jardim refere igualmente que instituições portuguesas, incluindo o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, a Missão Católica Portuguesa e várias associações luso-venezuelanas, têm servido de pontos de apoio para os afectados. Enquanto as equipas de resgate continuam a procurar sobreviventes, cresce também a contestação à resposta das autoridades venezuelanas. Muitos habitantes denunciam a lentidão das operações de socorro, sobretudo em localidades mais afastadas de Caracas e La Guaira, onde durante horas os próprios moradores foram obrigados a procurar vítimas entre os escombros apenas com as mãos. "A população está dividida entre a esperança de encontrar mais sobreviventes e a incerteza sobre o destino de milhares de desaparecidos", explica Marcos Ramos Jardim. "Mas a solidariedade do povo venezuelano tem sido extraordinária. Estudantes, empresários, igrejas e associações estão a unir-se para ajudar quem mais precisa." A situação agravou-se ainda mais com uma réplica de magnitude 4,6 registada na segunda-feira, que voltou a provocar momentos de pânico entre os sobreviventes. Apesar da devastação, a esperança mantém-se viva entre as famílias que continuam à espera de notícias dos seus entes queridos. "Tenho amigos de quem ainda não sei nada", afirma Carlos Pestana. "Mas a esperança é a última coisa que se perde. Enquanto continuarem as buscas, acreditamos que ainda será possível encontrar pessoas com vida."

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  8. 6월 29일

    Onda de calor em França: "O governo não vai poder mudar as coisas tão rapidamente"

    Depois de quase quinze dias de forte onda de calor pela Europa e nomeadamente aqui em França que conheceu o segundo episódio deste tipo desde Maio, o governo faz um primeiro balanço da gestão desta crise, numa reunião interministerial nesta segunda-feira. De acordo com dados provisórios da Agência de Saúde Pública francesa, foram registados cerca de mil mortos suplementares comparativamente à média registada no mesmo período em anos anteriores. Ao longo destes dias, foram numerosas as unidades de saúde a encontrar dificuldades perante o afluxo massivo de utentes com problemas provocados ou agravados por temperaturas que rondaram ou ultrapassaram os 40 graus. Perante esta crise que reaviva a lembrança ainda muito presente dos mais de 10 mil mortos da onda de calor de Agosto de 2003 aqui em França, o governo tem sido acusado pela oposição de não ter sido suficientemente proactivo no domínio da saúde, com um investimento nesse sector a diminuir de ano para ano. Foi neste contexto que Paulo da Silva Moreira, médico e antigo eleito local na região da Yonne, a sul de Paris, fez um primeiro balanço destes últimos dias. RFI: Qual é o primeiro balanço que faz da gestão desta crise? Paulo da Silva Moreira: Durante estes últimos dias, o Estado ainda não contabilizou completamente as pessoas que faleceram, porque há sempre um tempo entre o momento em que as declarações são feitas e em que elas são analisadas. Mas pode-se dizer que por já houve mortos, Não houve tantos mortos como nas anteriores fases de calor. O que foi feito ao nível da saúde foi anular tudo o que era concertos, exposições, manifestações de rua, e também prevenir a população, o que aconteceu efectivamente desde o princípio, com 'spots' na televisão e no rádio, informando as pessoas sobre as boas práticas com ondas de calor. Estamos informados que vai repetir-se três ou quatro vezes no ano com a mudança do tempo. Temos que repetir essas medidas cada vez. Vai haver sempre mortes, porque essa fase é sempre difícil para pessoas que estão em fases de doenças crónicas mal estabilizadas. Mas também os jovens não têm cuidado. Por exemplo, as pessoas que vão mergulhar numa água fria e vão ter uma paragem cardíaca, pessoas que ficam muito tempo ou que vão correr ao sol ou andar de bicicleta. Há sempre pessoas que falecem. RFI: Há já alguns dados que começam a sair. Em termos oficiais e em termos provisórios, calcula-se que houve pelo menos mais 1000 mortos do que no mesmo período no ano passado. Há quem considere que estas mortes eram evitáveis. Paulo da Silva Moreira: Quando se conta as pessoas que morreram, na realidade, quando se vê que são pessoas que são frágeis, que têm doenças crónicas, instáveis, a probabilidade de terem morrido nos meses seguintes é forte. O que conta é ver quem é que morreu. Pessoas que estavam em estabelecimentos, isso reduziu muito, porque os estabelecimentos que fazem acolhimento de pessoas idosas estão preparados para essas situações. As câmaras têm todas uma "lista branca", que é uma lista das pessoas que estão sozinhas e que não têm ajuda, ou que vão ter falta de água ou estimulação, para que alguém se ocupe delas, e também, claro, as crianças, as pessoas que estão a trabalhar nas obras e trabalhar nos campos e estão todas informadas com essas situações. O mais importante é não só dizer '1000 mortos', é preciso ver o que é que vai acontecer nos 15 dias que se seguem. Talvez os números de mortos fiquem abaixo da média habitual. RFI: O governo tem sido alvo de ataques por parte da oposição relativamente a tudo o que tem a ver com a activação de planos para efectivamente fazer frente a esta situação. Pensa que estas críticas são injustas? Paulo da Silva Moreira: Penso que são manobras políticas e que estes ataques são injustos porque os meios de combater os efeitos da onda de calor existem. Eles são postos em movimento quando são precisos. Mas infelizmente, há sempre manobras políticas para recuperar essas situações. Vai sempre morrer pessoas não devem morrer, milhares e milhares e milhares, mas vão sempre morrer pessoas com problemas crónicas, da mesma forma que pessoas que morrem no fim do período do inverno. Às vezes há períodos do ano em que há pessoas que morrem mais do que outros. Portanto, são fases que temos que aceitar. As ondas de calor agora são muito focalizadas, são muito contabilizadas. Agora, acusar o governo de que pessoas mais uma vez com doenças crónicas tenham falecido agora, em vez de falecerem daqui a dois ou três ou seis meses, É preciso ser justo. RFI: Ao fim de quase duas semanas de onda de calor em França, o Primeiro-ministro anunciou encomendar alguns dispositivos de climatização para os hospitais. Julga que isto não foi uma medida um pouco tardia, que isto podia ter sido antecipado? Paulo da Silva Moreira: É preciso saber que nem no meu estabelecimento é equipado de sistemas de refrigeração, porque não era o clima que nós tínhamos antes. Essas medidas que foram anunciadas, claro que são insuficientes e é preciso equipar todos os hospitais franceses, porque o problema existe em todos os estabelecimentos, por toda a França. RFI: Qual é a situação neste momento dos hospitais perante esta onda de calor e os efeitos que tem sobre a saúde das pessoas que vão parar às urgências à conta desta situação? Paulo da Silva Moreira: É complicado, as urgências, porque já há sempre muita gente que vem nesse período, sem falar da temperatura do ar no hospital ou nas urgências. É preciso hidratá-las. É preciso fazer uma selecção do que é urgente e não é urgente. É preciso examiná-las, é preciso instalá-las em qualquer sítio. O problema é não ter lugar, nem ter instalações próprias para poder receber tanta gente. De repente, é evidente que todas as pessoas que têm doenças crónicas, estão mais inquietas e vão consultar mais facilmente, porque todos os anúncios do Estado dizem 'se tiver vertigens, dores, alucinações, cansaço anormal, inchaço de pernas, vá às urgências'. E o problema também não é só a temperatura. Têm que se manter num sistema sem refrigeração. Estas pessoas todas podem passar seis, sete ou oito horas sem ser tratadas, por exemplo. E também há o problema dos serviços de reanimação com aparelhos eléctricos que produzem imenso calor. Portanto, as temperaturas chegam a estar relativamente altas nesses serviços. E o problema é sempre de refrescar o ar. E não é o mais fácil de fazer, porque muitas vezes os hospitais têm arquitecturas modernas. Pensa-se mais no frio, e não no calor, na arquitectura dos hospitais em França. RFI: Há gente suficiente nos hospitais em França para fazer frente a esta situação? Paulo da Silva Moreira: Não há gente suficiente. Quando há situações assim, em que há um monte de gente que chega às urgências, há falta de gente nas urgências, não há capacidade de recolher tanta gente. É o efeito dos anúncios que alertam e que enviam as pessoas às urgências. Tem um efeito preventivo, mas também tem um efeito assustador. E há muita gente que vem às urgências e que não são necessárias de lá irem porque, por exemplo, o inchaço das pernas, tem as pernas um pouco inchadas, mas têm a impressão que o inchaço é importante. Estão cansados, mas não estão assim tão cansados. Podem respirar correctamente e têm a impressão que não podem. Há sempre também muita gente que está em pânico e que vai às urgências com medo. RFI: Apesar da forte onda de calor e apesar de, por exemplo, ter havido eventos que foram cancelados por causa da onda de calor, houve uma série de outras actividades que foram mantidas, por exemplo, exames escolares. Nestes últimos dias, o ministro do Trabalho disse que 'o país não pode parar quando se chega aos 30 graus'. Como é que se pode conciliar o imperativo de proteger a saúde dos cidadãos e, ao mesmo tempo, continuar a actividade? Paulo da Silva Moreira: Acho que há uma diferença entre passar um exame numa sala de exames, num estabelecimento, seja num liceu ou colégio, e um sistema de saúde que recolhe pessoas doentes ou frágeis, fisicamente ou mentalmente. Eu acho que temos também de estar a par do sistema económico e não se pode parar completamente de viver assim que há uma onda de calor. Tem que se continuar a passar exames, tem que se continuar a ir à escola. Talvez modificar os horários, como se faz nos países quentes. Mas não se pode parar. Efectivamente, não é a solução. RFI: O governo reúne hoje a sua célula de crise para fazer um balanço destes últimos dias e, eventualmente, antecipar, já que se prevêem altas temperaturas novamente já a partir da próxima semana. O que é que espera do governo enquanto médico? Paulo da Silva Moreira: O governo vai fazer anúncios como sempre. Vai ser também ocasião de se mostrar e dizer que está a ocupar-se do assunto, mas não vai mudar nada entre hoje e a semana que vai vir. O governo não vai poder mudar as coisas tão facilmente e tão rapidamente. Mas bom, é importante que o governo mostre que toma consciência do problema e que está a tentar a melhorar a situação. RFI: Não espera, por exemplo, que haja um maior investimento na qualidade dos hospitais ou, eventualmente, no equipamento, ou eventualmente reforço em termos de pessoal nos hospitais? Paulo da Silva Moreira: Por já, quanto ao pessoal nos hospitais, é preciso encontrar pessoal para trabalhar nos hospitais. E quando se vê a importância das obras que são necessárias nos hospitais para modificar os sistemas, é um custo e é uma organização muito complicada. Portanto, é preciso ser realista. Não sei quando é que vai acontecer.

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소개

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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