Eco-Mitologia

Sofia Batalha

A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.

  1. Psique Mítica

    5D AGO

    Psique Mítica

    Hoje seguimos a questão: Como podemos mesmo viver, experienciar, praticar a Psique Mítica? Desfazemos ideias feitas, pois a Psique Mítica não é um arquivo de histórias antigas ou símbolos exóticos para colecionar. É uma qualidade de atenção. Uma maneira de escutar. É uma atenção que acolhe o mundo não a partir da separação analítica a que estamos habituados, mas por uma porosidade encantada. Praticar a Psique Mítica é um gesto profundamente político num mundo que nos treinou para ver a Terra como recurso, o corpo como máquina e o mito como fantasia inofensiva. É recusar a domesticação do sensível, a amputação da imaginação, a ideia de que só o que é mensurável é real. A Psique Mítica devolve-nos à conspiração viva entre corpo, paisagem, sonho e matéria, onde a escuta não serve para interpretar, mas para incorporar. Não é escapismo nem nostalgia arcaica, é uma ética de presença que desafia a lógica colonial da separação, da hierarquia e do controlo. É um gesto de desobediência num mundo moldado pela colonialidade da mente, pela normopatia emocional e pela dissociação moderna. Recusamos a ideia de que o real se esgota no que é útil, produtivo ou explicável; partimos o feitiço que separou psique de território, corpo de mundo, imaginação de responsabilidade. A Psique Mítica não adorna a vida com símbolos …devolve agência ao que foi silenciado, à terra ferida, ao corpo que sente, às imagens que insistem em sonhar apesar do colapso. Num sistema que treina a anestesia, a escuta porosa torna-se política porque reabre a capacidade de ser afetado, implicado e transformado. Ao afinar esta porosidade encantada, deixamos de habitar o mundo como observadores exteriores e voltamos a caminhar como parentes, implicados, atravessados e responsáveis pela teia viva que nos sonha enquanto a sonhamos. Referências de artigos deste episódio: ⁠Psique . Corpo . Terra⁠ ⁠A Psique Mítica como prática de escuta porosa⁠ ⁠Psykhē Ecossistema⁠

    22 min
  2. A Velha da Montanha e as Sete Senhoras

    FEB 16

    A Velha da Montanha e as Sete Senhoras

    Hoje, trago o eixo vertical que nos conecta, explorando a Montanha, a sentinela terrestre, e as Plêiades, o calendário celestial. E como estas paisagens moldaram a memória profunda e a cartografia ancestral da humanidade. Numa perspetiva cosmológica, a montanha serve como um axis mundi (eixo do mundo), representando a ligação entre o Céu e a Terra, e os reinos superior e inferior. Desvendamos também como o mito das ⁠Sete Irmãs⁠ no céu se reflete nos mitos da ⁠Velha⁠ e das Sete Senhoras no solo português, um diálogo ancorado em alinhamentos megalíticos que remontam à Pré-História. Há uma violência subtil que não começa na terra, mas no céu. Quando as Plêiades deixam de ser calendário vivo e passam a ser objeto astronómico; quando a Montanha deixa de ser Orada e se torna recurso, cenário ou propriedade. Quando as Sete Irmãs são convertidas em Sete Senhoras sob o verniz mariano, não estamos apenas perante continuidade simbólica, mas também perante um deslocamento. O império não colonizou apenas territórios: colonizou cosmologias. O patriarcado não reorganizou apenas instituições: reorganizou o eixo vertical entre céu e terra. O epistemicídio não apagou apenas saberes escritos, dissolveu cartografias corporais, calendários agrícolas, memórias de transumância e mitologias matrilineares que orientavam comunidades através do brilho das estrelas e da respiração da montanha. Este episódio é um gesto de reparação cosmológica. Não para rejeitar o que veio depois, mas para ler as camadas e escutar o que persiste sob a cristianização, sob o Estado-nação, sob a ciência dissociada. Os alinhamentos megalíticos, o nascimento heliacal de Aldebaran sobre a Serra da Estrela, as lendas da Velha granítica e das Sete Senhoras falam de uma intimidade anterior à separação moderna entre natureza e cultura. Escutar estas histórias é desafiar a narrativa linear do progresso e reconhecer que o Habitat sempre nos habitou. Não se trata de nostalgia, mas de reatar parentesco com o eixo cósmico-ctónico que ainda pulsa entre o granito e o céu. Referências de artigos e livros: ⁠Entre o Linho e a Constelação⁠⁠Calendários de Penas e Mantos Roubados⁠Sete Encantadas SenhorasA Mulher que se Esqueceu de Voar⁠O Santuário – Ensaios sobre Eco-Mitologia⁠Nossa Senhora da Orada — Linhagem Eco-Mitológica da Montanha⁠(Des)Formação Eco-Mitologia

    15 min
  3. Descer da Posição de Juiz Moral – Conversa Aberta sobre o Ecofeminismo Europeu

    JAN 26

    Descer da Posição de Juiz Moral – Conversa Aberta sobre o Ecofeminismo Europeu

    Hoje, fazemos um convite para olhar com muita atenção e mudar o modo como pensamos sobre o que é certo e errado. O tema é o ecofeminismo, um campo de estudo e ação muito importante. Em particular, vamos partilhar notas críticas que expressam um profundo desconforto perante os pontos que o movimento branco europeu não vê ou não reconhece. O ecofeminismo europeu, com a sua longa história de lutas femininas pela igualdade, traz ideias importantes e tem boas intenções. Mas o problema está aqui: a maioria das propostas continua a usar as ideias e maneiras de pensar antigas que dizem querer mudar. Seguimos por várias dobras: O LUXO DE SE SENTIR INOCENTEQUE MULHER? QUE NATUREZA? O PERIGO DE ACHAR QUE É TUDO IGUALOLHAR DE CIMA E A ABSTRAÇÃO MORALCUIDADO PRÁTICO E MUDANÇA PROFUNDAPodes ler as Notas Soltas de Ecofeminismo. Referências (resumidas): Plumwood, Val (2003). Decolonizing Relationships With Nature. In: Adams, W. & Mulligan, M. (Eds.), Decolonizing Nature: Strategies for Conservation in a Postcolonial Era. Earthscan.Ferdinand, Malcom (2021). Uma Ecologia Decolonial: Pensar a partir do mundo caribenho. Bazar do Tempo.Flores, Bárbara Nascimento (2021). Mulheres e Povos Rumo ao Bem-Viver: Por um ecofeminismo comunitário. Susana de Castro. (2022). “Origem e ideias centrais”. In: Revista Cult, edição 262 – O que é o feminismo decolonial. São Paulo: Instituto Cult. Disponível em: https://revistacult.uol.com.brTzul Tzul, Gladys. (2021). Textos sobre autogoverno indígena e feminismo territorial. Disponíveis em plataformas de saberes indígenas e feminismos comunitários.Marim, Caroline (2022). Decolonizando o olhar. In: Revista Cult, edição 262 – O que é o feminismo decolonial. Instituto Cult.Davis, Angela. (1981). Women, Race and Class. Vintage Books.Ghosh, Amitav. (2021). The Nutmeg’s Curse: Parables for a Planet in Crisis. University of Chicago Press.hooks, bell. (1981). Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism. South End Press.hooks, bell. (1984). Feminist Theory: From Margin to Center. South End Press.Vergès, Françoise. (2021). A Decolonial Feminism. Verso Books.Ahmed, S. (2007). The phenomenology of whiteness. Feminist Theory, 8(2), 149–168. https://doi.org/10.1177/1464700107078139Andreotti, V., Stein, S., Ahenakew, C., & Andreotti, J. (2021). Hospicing modernity: Facing humanity’s wrongs and the implications for social activism. North Atlantic Books.Bailey, A. (2007). Privilege: Expanding on Marilyn Frye’s “Oppression”. Journal of Social Philosophy, 38(3), 521–542. https://doi.org/10.1111/j.1467-9833.2007.00395.xMills, C. W. (1997). The racial contract. Cornell University Press.Tronto, J. C. (1993). Moral boundaries: A political argument for an ethic of care. Routledge.Tronto, J. C. (2013). Caring democracy: Markets, equality, and justice. New York University Press.Wekker, G. (2016). White innocence: Paradoxes of colonialism and race. Duke University Press.Yunkaporta, T. (2019). Sand talk: How Indigenous thinking can save the world. Text Publishing.Machado de Oliveira, Vanessa. Outgrowing Modernity. North Atlantic Books, 2025.Simpson, Leanne Betasamosake. As We Have Always Done: Indigenous Freedom Through Radical Resistance. University of Minnesota Press, 2017.Lorde, Audre. Sister Outsider. Crossing Press, 1984.de la Cadena, Marisol, & Blaser, Mario (Eds.). A World of Many Worlds. Duke University Press, 2018.Stengers, Isabelle. Another Science is Possible: A Manifesto for Slow Science. Polity Press, 2018.Butler, Judith. Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence. Verso, 2004.Ahmed, Sara. The Promise of Happiness. Duke University Press, 2010.

    20 min

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A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.