Eco-Mitologia

Sofia Batalha

A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.

  1. Sonhar com o Younger Dryas

    MAR 23

    Sonhar com o Younger Dryas

    Resiliência moderna ou adaptação em sintonia com a Terra? O Younger Dryas foi um período da história geológica da Terra que ocorreu entre 12.900 e 11.700 anos atrás, caracterizado por rápidas glaciações e temperaturas congelantes, que alteraram os padrões climáticos, impactando profundamente os ecossistemas e os modos de vida. Há algum tempo, tenho pensado e imaginado a diferença entre a adaptação das culturas durante as profundas mudanças ambientais do Younger Dryas, em contraste com a expectativa atual de resiliência de que a tecnologia, numa exigência antropocêntrica e arrogante, irá salvar-nos — ou, pelo menos, alguns de nós, afirma o pensamento reducionista colonial moderno. Estou a tentar identificar elementos contrastantes na psique moderna ao comparar a «resiliência moderna» com a «adaptação em sintonia com a Terra». Isto é importante porque revela vulnerabilidades nas atitudes emocionais e institucionais em relação à atual policrise e colapso. O que é preciso desaprender aqui não é apenas a ideia de que a tecnologia nos salvará — é a necessidade mais funda de que algo nos salve sem nos transformar. A “resiliência moderna” alimenta-se dessa fantasia: a de que podemos atravessar o colapso mantendo intactos os nossos modos de vida, apenas mais eficientes, mais inteligentes, mais controlados. Mas isso é recusar ouvir o gelo a rachar. Desaprender, neste contexto, é abandonar a adição ao controlo, à previsibilidade e à centralidade humana; é largar a crença de que o mundo é um sistema a gerir e não um campo vivo ao qual pertencemos. É também encarar que aquilo que chamamos colapso pode ser, para a Terra, apenas mudança — e que o verdadeiro perigo talvez não seja a instabilidade, mas a nossa incapacidade de nos tornarmos outros com ela. Desaprender, então, não é adquirir novas respostas, mas suportar a perda de chão suficiente para voltar a escutar — não como engenheiros da sobrevivência, mas como corpos em relação, dispostos a ser ensinados por aquilo que não controlam.

    18 min

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A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.