Eco-Mitologia

Sofia Batalha

A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.

  1. O Tecido Vivo das Histórias

    29M AGO

    O Tecido Vivo das Histórias

    Hoje, exploramos uma ideia radical e, ao mesmo tempo, ancestral: o que acontece quando as histórias nos leem, em vez de sermos nós a lê-las? Crescemos a aprender que as histórias são fantasias para crianças ou, na melhor das hipóteses, entretenimento. Mas e se os contos fossem, na verdade, mapas, medicina e espelhos vivos? E se guardassem uma sabedoria complexa e ecológica que se recusa a ser encaixotada pela nossa lógica linear? O convite de hoje é uma peregrinação cósmico-ctónica das narrativas, um mergulho nas camadas subterrâneas e estelares da imaginação, para relembrar como nos envolver profundamente nas histórias, não apenas com a mente, mas com todo o nosso corpo e com o território que habitamos. Num tempo de múltiplos colapsos, políticos, sociais, ecológicos, talvez a pergunta não seja “como salvar o mundo?”, mas “como voltar a escutá-lo?”. As histórias podem ser uma das últimas tecnologias de escuta profunda que ainda nos restam. Quando um sistema político se fragmenta, quando as instituições perdem credibilidade, quando o clima se desregula e o solo se exaure, também as narrativas dominantes entram em crise. O mito do progresso infinito, da separação entre humano e natureza, da competição como lei suprema, tudo começa a ranger. É precisamente aí que os contos antigos reaparecem. Eles não oferecem soluções técnicas. Nem prometem garantias. Mas ensinam-nos a atravessar florestas, a dialogar com monstros, a reconhecer o valor do aparentemente inútil, a honrar o limiar entre morte e transformação. Relacionarmo-nos com as histórias como entidades vivas pode ajudar-nos a: – Recuperar a imaginação como músculo político e ecológico.– Tolerar a ambiguidade sem cair no cinismo.– Reconhecer que o colapso também é um rito de passagem.– Reencontrar o sentido de pertença a uma trama maior do que o indivíduo isolado.– Cultivar resiliência não como dureza, mas como capacidade de metamorfose. Quando uma história nos lê, ela revela as nossas zonas de negação, os nossos medos colectivos, as nossas fantasias de controlo. Ela mostra onde estamos desalinhados com o território. E, ao mesmo tempo, sussurra possibilidades de recomposição. Talvez precisemos de menos opinião e mais mito.Menos reação e aceleração, e mais iniciação e escuta. Neste episódio, abrimos espaço para essa escuta radical. Não para escapar ao mundo em crise, mas para aprofundar a nossa presença nele. Porque talvez a verdadeira transformação não comece nas grandes reformas estruturais, mas na qualidade do vínculo que estabelecemos com as histórias que nos habitam — e que, silenciosamente, nos estão a reescrever. Adaptado do livro: Contos da Serpente e da Lua Ilustrações de Carolina Mandrágora.

    16 min
  2. Psique Mítica

    FEB 23

    Psique Mítica

    Hoje seguimos a questão: Como podemos mesmo viver, experienciar, praticar a Psique Mítica? Desfazemos ideias feitas, pois a Psique Mítica não é um arquivo de histórias antigas ou símbolos exóticos para colecionar. É uma qualidade de atenção. Uma maneira de escutar. É uma atenção que acolhe o mundo não a partir da separação analítica a que estamos habituados, mas por uma porosidade encantada. Praticar a Psique Mítica é um gesto profundamente político num mundo que nos treinou para ver a Terra como recurso, o corpo como máquina e o mito como fantasia inofensiva. É recusar a domesticação do sensível, a amputação da imaginação, a ideia de que só o que é mensurável é real. A Psique Mítica devolve-nos à conspiração viva entre corpo, paisagem, sonho e matéria, onde a escuta não serve para interpretar, mas para incorporar. Não é escapismo nem nostalgia arcaica, é uma ética de presença que desafia a lógica colonial da separação, da hierarquia e do controlo. É um gesto de desobediência num mundo moldado pela colonialidade da mente, pela normopatia emocional e pela dissociação moderna. Recusamos a ideia de que o real se esgota no que é útil, produtivo ou explicável; partimos o feitiço que separou psique de território, corpo de mundo, imaginação de responsabilidade. A Psique Mítica não adorna a vida com símbolos …devolve agência ao que foi silenciado, à terra ferida, ao corpo que sente, às imagens que insistem em sonhar apesar do colapso. Num sistema que treina a anestesia, a escuta porosa torna-se política porque reabre a capacidade de ser afetado, implicado e transformado. Ao afinar esta porosidade encantada, deixamos de habitar o mundo como observadores exteriores e voltamos a caminhar como parentes, implicados, atravessados e responsáveis pela teia viva que nos sonha enquanto a sonhamos. Referências de artigos deste episódio: ⁠Psique . Corpo . Terra⁠ ⁠A Psique Mítica como prática de escuta porosa⁠ ⁠Psykhē Ecossistema⁠

    22 min
  3. A Velha da Montanha e as Sete Senhoras

    FEB 16

    A Velha da Montanha e as Sete Senhoras

    Hoje, trago o eixo vertical que nos conecta, explorando a Montanha, a sentinela terrestre, e as Plêiades, o calendário celestial. E como estas paisagens moldaram a memória profunda e a cartografia ancestral da humanidade. Numa perspetiva cosmológica, a montanha serve como um axis mundi (eixo do mundo), representando a ligação entre o Céu e a Terra, e os reinos superior e inferior. Desvendamos também como o mito das ⁠Sete Irmãs⁠ no céu se reflete nos mitos da ⁠Velha⁠ e das Sete Senhoras no solo português, um diálogo ancorado em alinhamentos megalíticos que remontam à Pré-História. Há uma violência subtil que não começa na terra, mas no céu. Quando as Plêiades deixam de ser calendário vivo e passam a ser objeto astronómico; quando a Montanha deixa de ser Orada e se torna recurso, cenário ou propriedade. Quando as Sete Irmãs são convertidas em Sete Senhoras sob o verniz mariano, não estamos apenas perante continuidade simbólica, mas também perante um deslocamento. O império não colonizou apenas territórios: colonizou cosmologias. O patriarcado não reorganizou apenas instituições: reorganizou o eixo vertical entre céu e terra. O epistemicídio não apagou apenas saberes escritos, dissolveu cartografias corporais, calendários agrícolas, memórias de transumância e mitologias matrilineares que orientavam comunidades através do brilho das estrelas e da respiração da montanha. Este episódio é um gesto de reparação cosmológica. Não para rejeitar o que veio depois, mas para ler as camadas e escutar o que persiste sob a cristianização, sob o Estado-nação, sob a ciência dissociada. Os alinhamentos megalíticos, o nascimento heliacal de Aldebaran sobre a Serra da Estrela, as lendas da Velha granítica e das Sete Senhoras falam de uma intimidade anterior à separação moderna entre natureza e cultura. Escutar estas histórias é desafiar a narrativa linear do progresso e reconhecer que o Habitat sempre nos habitou. Não se trata de nostalgia, mas de reatar parentesco com o eixo cósmico-ctónico que ainda pulsa entre o granito e o céu. Referências de artigos e livros: ⁠Entre o Linho e a Constelação⁠⁠Calendários de Penas e Mantos Roubados⁠Sete Encantadas SenhorasA Mulher que se Esqueceu de Voar⁠O Santuário – Ensaios sobre Eco-Mitologia⁠Nossa Senhora da Orada — Linhagem Eco-Mitológica da Montanha⁠(Des)Formação Eco-Mitologia

    15 min
  4. Descer da Posição de Juiz Moral – Conversa Aberta sobre o Ecofeminismo Europeu

    JAN 26

    Descer da Posição de Juiz Moral – Conversa Aberta sobre o Ecofeminismo Europeu

    Hoje, fazemos um convite para olhar com muita atenção e mudar o modo como pensamos sobre o que é certo e errado. O tema é o ecofeminismo, um campo de estudo e ação muito importante. Em particular, vamos partilhar notas críticas que expressam um profundo desconforto perante os pontos que o movimento branco europeu não vê ou não reconhece. O ecofeminismo europeu, com a sua longa história de lutas femininas pela igualdade, traz ideias importantes e tem boas intenções. Mas o problema está aqui: a maioria das propostas continua a usar as ideias e maneiras de pensar antigas que dizem querer mudar. Seguimos por várias dobras: O LUXO DE SE SENTIR INOCENTEQUE MULHER? QUE NATUREZA? O PERIGO DE ACHAR QUE É TUDO IGUALOLHAR DE CIMA E A ABSTRAÇÃO MORALCUIDADO PRÁTICO E MUDANÇA PROFUNDAPodes ler as Notas Soltas de Ecofeminismo. Referências (resumidas): Plumwood, Val (2003). Decolonizing Relationships With Nature. In: Adams, W. & Mulligan, M. (Eds.), Decolonizing Nature: Strategies for Conservation in a Postcolonial Era. Earthscan.Ferdinand, Malcom (2021). Uma Ecologia Decolonial: Pensar a partir do mundo caribenho. Bazar do Tempo.Flores, Bárbara Nascimento (2021). Mulheres e Povos Rumo ao Bem-Viver: Por um ecofeminismo comunitário. Susana de Castro. (2022). “Origem e ideias centrais”. In: Revista Cult, edição 262 – O que é o feminismo decolonial. São Paulo: Instituto Cult. Disponível em: https://revistacult.uol.com.brTzul Tzul, Gladys. (2021). Textos sobre autogoverno indígena e feminismo territorial. Disponíveis em plataformas de saberes indígenas e feminismos comunitários.Marim, Caroline (2022). Decolonizando o olhar. In: Revista Cult, edição 262 – O que é o feminismo decolonial. Instituto Cult.Davis, Angela. (1981). Women, Race and Class. Vintage Books.Ghosh, Amitav. (2021). The Nutmeg’s Curse: Parables for a Planet in Crisis. University of Chicago Press.hooks, bell. (1981). Ain’t I a Woman: Black Women and Feminism. South End Press.hooks, bell. (1984). Feminist Theory: From Margin to Center. South End Press.Vergès, Françoise. (2021). A Decolonial Feminism. Verso Books.Ahmed, S. (2007). The phenomenology of whiteness. Feminist Theory, 8(2), 149–168. https://doi.org/10.1177/1464700107078139Andreotti, V., Stein, S., Ahenakew, C., & Andreotti, J. (2021). Hospicing modernity: Facing humanity’s wrongs and the implications for social activism. North Atlantic Books.Bailey, A. (2007). Privilege: Expanding on Marilyn Frye’s “Oppression”. Journal of Social Philosophy, 38(3), 521–542. https://doi.org/10.1111/j.1467-9833.2007.00395.xMills, C. W. (1997). The racial contract. Cornell University Press.Tronto, J. C. (1993). Moral boundaries: A political argument for an ethic of care. Routledge.Tronto, J. C. (2013). Caring democracy: Markets, equality, and justice. New York University Press.Wekker, G. (2016). White innocence: Paradoxes of colonialism and race. Duke University Press.Yunkaporta, T. (2019). Sand talk: How Indigenous thinking can save the world. Text Publishing.Machado de Oliveira, Vanessa. Outgrowing Modernity. North Atlantic Books, 2025.Simpson, Leanne Betasamosake. As We Have Always Done: Indigenous Freedom Through Radical Resistance. University of Minnesota Press, 2017.Lorde, Audre. Sister Outsider. Crossing Press, 1984.de la Cadena, Marisol, & Blaser, Mario (Eds.). A World of Many Worlds. Duke University Press, 2018.Stengers, Isabelle. Another Science is Possible: A Manifesto for Slow Science. Polity Press, 2018.Butler, Judith. Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence. Verso, 2004.Ahmed, Sara. The Promise of Happiness. Duke University Press, 2010.

    20 min

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A Eco-Mitologia entrelaça Ecologia, Mitologia, Ecopsicologia e crítica cultural. Aqui falamos da forma como contamos histórias, pessoais, sociais ou políticas, e de como moldam mundos. Os áudios não são perfeitos: tropeço, hesito, erro. Falo como pessoa, não como máquina. Que estas conversas despertem as sabedorias esquecidas, que nos ligam à Vida com escuta, memória e responsabilidade, no meio de falhas e encantamentos. Em múltiplas vozes e sabedorias, das sombras, negligenciadas, esquecidas e mutiladas, que se continuem a desdobrar.