entre marolinhas

nina

tenho certas conjunturas presas na garganta, e eu as escrevo, outras vezes, declamo o que existe de tão bonito nesse mundo.

  1. 09/09/2022

    uma flecha me atravessa o coração

    eu prevejo, eu sinto a tua presença, mas não mais que a tua ausência, esta que perdura por cada canto de mim. sei que tenho a mania de ser um pouco estapafúrdia, sabes que em mim sempre restou essa parte excêntrica, essa coisa de não deixar de te amar. mas já é hora, não é? tenho lido bastante sobre seguir em frente quando a gente não sabe outra direção para ir. é sobre nos agarrar na única pontinha de esperança que nos aparece. e foi no nosso amor que me segurei firme. me mantive dias sem comer ou beber, me mantive intacta, inamovível. qualquer que fosse o movimento, eu tinha medo de te perder. porque tu sempre foi quem partia primeiro, não importava quantas vezes chegou em minha casa e pediu morada no meu coração. incabível. tu não cabe mais aqui. é hora de partir de vez antes que tu quebre o meu coração em pedaços sem se preocupar em recolher parte por parte outra vez. nós dois juntos somos a ponta do precipício. já era a época em que tu deitava ao meu lado e beijava meus ombros antes de adormecer. já era a época em que dizias 'amo-te'. e agora, o que eu faço com todos os seus discos, nossas fotografias, aquele vinho barato guardado, o que se faz com toda a bagunça que se fez em meu peito? seguir em frente. um passo de cada vez, a um passo de me recair e ir atrás de ti. todavia, não seria recíproco nada que sinto. um passo para frente, três para trás. ainda piso com cuidado para ver se dá pé em todo amor que entro de cabeça. me afogo no raso, e eu não trouxe um bote salva vidas. eu estou aqui, nua, os cabelos esvoaçantes e curtos, o peito do avesso e aberto caso resolva voltar. uma flecha me atravessa o coração. é hora. não consigo mais. adeus.

  2. 07/31/2022

    olha-se para o espelho, veja o encanto

    por cada canto eu enxergo um encanto. talvez meu pai tenha me ensinado, através das atitudes dele, que existe beleza em tudo que é canto. inclusive, em nós. observo o mundo como uma pequena exploradora, e, aos pouquinhos, vou desvendando na palma da mão e vou sentindo cada vez mais o quanto nós e chão somos a mesma coisa - já dizia ana caetano. estou tão grudada e vidrada em viver intensamente que acabo esquecendo de quem eu sou - que acabo esquecendo de como se vive, e acredito que essa é uma grande incógnita constante na vida da gente. estou tão desesperadamente em busca do amor que não vejo que ele está bem ali, bem debaixo do meu nariz, nas flores que compro no caminho pra casa, no sorriso desconhecido trocado, no abraço que dou em minha mãe ao acordar, na voz de sono do meu pai através do telefone. não percebo, estou cega pela tentativa de provar que sou uma boa pessoa a cada segundo que passa e isso me deixa exausta. me assusta o fato de que há uma vida inteira diante dos meus olhos e que a todo instante eu tenho uma nova onda para pular ou atravessar de cabeça. porque, se não te atravessa o peito, é difícil reconhecer a vida nos ensinando nas minúcias do dia a dia. tem um mar salgado nos meus olhos, e não deixo ninguém chegar perto por medo de alguém se afogar. mas é tudo ao contrário, eu que me afogo em mim mesma. talvez eu devesse chamar um bote salva vidas, sinalizar com fumaça aos céus de que eu preciso de ajuda. urgentemente preciso de ajuda. porque insistir em caminhar sozinha nesse labirinto que sou talvez não tenha sido uma boa ideia - lindo mesmo é a gente dar as mãos e apesar dos pesares, não ter medo de encarar o próprio eu. lindo mesmo é a gente se amar, por mais distante que esteja e inconstante seja. lindo mesmo é a gente entender que nem tudo vai estar sub controle, e está tudo bem. nem sempre caberá conchas do mar nas mãos o suficiente, nem sempre estaremos certos se queremos mesmo mergulhar de cabeça na próxima onda que vem. nem sempre estaremos seguros de que nosso coração está bem, e está tudo bem também, eu acho. olha-se para o espelho, veja o encanto.

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