Ilustríssima Conversa

A equipe de jornalistas da Ilustríssima, da Folha, entrevista autores de livros de não ficção ou de pesquisas acadêmicas.

  1. 3d ago

    Marilena Chaui: Jovens enxergaram futuro sob a extrema direita e garantiram virada de Lula

    Existe um debate essencial a ser travado hoje, defende Marilena Chaui, 85: a luta contra um novo tipo de totalitarismo, o neoliberal. Neste episódio, a professora emérita da FFLCH-USP diz que o neoliberalismo tenta transformar todas as instituições sociais em empresas, além de reduzir as pessoas a empresárias de si mesmas, empobrecendo a nossa existência. Para ela, como a extrema direita está enraizada nessa ideologia, os dois combates precisam se combinar. Chaui é conhecida por repetir o quanto odeia a classe média e diz aqui que essa é uma das coisas que passou a vida fazendo. A filósofa vê a classe média, em uma chave marxista, como a correia de transmissão dos valores que garantem o privilégio da burguesia e a dominação dos trabalhadores —daí tanto horror. Esses temas são discutidos no livro "Democracia e Populismo", que também tem ensaios sobre as raízes do autoritarismo brasileiro e a subjetividade depressiva e narcisista do mundo digital. Na entrevista, Chaui esboça uma interpretação da vitória de Lula (PT) no segundo turno, que ela atribui a uma avalanche de jovens que tomaram as ruas do país por perceber tanto os riscos da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) quanto os contornos do futuro do Brasil sob a extrema direita. A autora também aborda a fuga do candidato derrotado, que, para ela, não surpreende considerando a trajetória da família e a proximidade dos Bolsonaro com o universo da ilegalidade. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  2. Oct 17

    Sérgio Abranches: Regime político vai sofrer ruptura e Judiciário não é saída para crise

    Em um artigo publicado em 1988, Sérgio Abranches cunhou o termo presidencialismo de coalizão para nomear o sistema político-partidário brasileiro. Abranches argumentou que, em um cenário com um grande número de partidos e em que nenhum deles obtém maioria no Congresso, o presidente precisa negociar com forças políticas muito heterogêneas e sem enraizamento ideológico para conseguir governar. A distribuição de cargos e emendas parlamentares passam a ser as principais armas à disposição do chefe do Executivo. No livro “Presidencialismo de Coalizão”, lançado em 2018, ele analisa a evolução do regime político do país desde a Constituição de 1988, análise que agora alcança, com a publicação de uma edição revista e ampliada da obra, os governos Jair Bolsonaro e Lula 3. Neste episódio, Abranches discute os contornos da crise atual do sistema político-partidário brasileiro, indicando uma ruptura nas eleições de 2018 e o aprofundamento da crise em 2022. O autor discute o crescimento da instabilidade nas relações entre a Presidência e o Congresso desde o impeachment de Dilma Rousseff —ele diz que, se antes as coalizões eram móveis, elas se tornaram líquidas— e o risco de o país ficar ingovernável sem um redenho das instituições e do próprio funcionamento da sua democracia. Abranches também aborda o que chama de mentalidade da casa-grande entranhada na sociedade brasileira e do pêndulo entre democracia e autoritarismo que marca a história do país, temas que ele em outro livro recém-lançado, “A Terceira Margem do Ipiranga”. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  3. Oct 3

    Letícia Cesarino: Big techs aceleram radicalização intoxicando fantasia e imaginação

    É comum que se diga que o Discord e outras plataformas não são mais que ferramentas tecnológicas, como um carro: se um motorista matar alguém atropelado, a culpa é de quem dirige, não do veículo, que não passaria de um meio de transporte. Para a antropóloga Letícia Cesarino, essa comparação é absurda. O que as big techs oferecem, ela diz, são ambientes, cada vez mais tóxicos, que moldam formas de socialização e identidades —e nesses espaços, crianças e adolescentes, particularmente vulneráveis, estão sendo seduzidos pelo extremismo. Em "Ecologias de Crise", a autora investiga como as plataformas digitais impulsionam espirais de radicalização. O livro discute o papel delas desde o recrutamento de novos membros por comunidades extremistas até a realização de atos de violência. A ideia de ecologia de crise se inspira na obra do antropólogo Gregory Bateson, um dos grandes nomes da teoria cibernética, e concebe o extremismo como uma teia de que participam o modelo de negócio das big techs, o funcionamento dos algoritmos e as trajetórias individuais das pessoas que se radicalizam. Neste episódio, a pesquisadora explica o que a internet plataformizada contemporânea tem a ver com a ascensão de um extremismo que não quer mais implodir uma sociedade vista como degenerada para criar outra das suas cinzas: em muitos casos atuais, o horizonte é só acelerar o fim e produzir ruínas —um cenário de violência pela violência. Cesarino é professora do Departamento de Antropologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e foi assessora do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em 2023 e 2024. Em 2022, publicou "O Mundo do Avesso". Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  4. Sep 19

    André Singer: Esquerda deve continuar em frente democrática sem deixar de ser esquerda

    Resistir à onda reacionária que avança no Brasil e no mundo, diz o cientista político André Singer, depende de novas formas de organização de classe. Sem o engajamento político dos trabalhadores, o regime democrático tende a se esvaziar e a esfera pública, se dissolver. Essa interpretação é desenvolvida no recém-lançado "Impasse", que propõe que a coalizão formada ao redor de Lula (PT) na última eleição vive uma contradição: a construção de uma frente democrática ampla foi indispensável, mas, por reunir grupos sociais com interesses antagônicos, pode se fraturar. Do lado de cima, estão elites econômicas que defendem um programa de austeridade fiscal e diminuição do tamanho do Estado. Do lado de baixo, trabalhadores que esperavam uma melhoria nas condições de vida como nos primeiros mandatos de Lula, o que demanda mais investimento social, e se frustam com os resultados do governo. Para Singer, o melhor que a esquerda pode fazer nessa conjuntura é se opor à política econômica neoliberal —defendendo a revisão do arcabouço fiscal e a queda dos juros, por exemplo— sem deixar a frente democrática. Nesta entrevista, o pesquisador também aborda os desdobramentos desse impasse na campanha eleitoral, como a oscilação do grupo com renda familiar de 2 a 5 salários mínimos entre Lula e o Flávio Bolsonaro (PL). André Singer é professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e foi porta-voz e secretário de imprensa da Presidência da República entre 2003 e 2007, nos primeiros mandatos de Lula. Ele é autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo", de 2012, uma das obras mais influentes sobre os governos do PT e as transformações da base social do partido. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  5. Sep 5

    Renato Meirelles: Mulheres pobres adoram Lula, mas só Michelle fala de igual para igual

    A classe C abarca 107 milhões de pessoas e expressa como nenhum outro grupo as dinâmicas da sociedade brasileira, não só por ser a maioria da população ou por estar no meio da distribuição de renda. Renato Meirelles apresenta esse argumento no seu novo livro, que discute as transformações da classe C nos últimos 25 anos e explora, entre outros temas, os seus hábitos de consumo, as suas inclinações políticas e os seus valores sociais. Em "Brasil da Maioria", ele diz que o conservadorismo da classe C é real, mas muito mais empático com quem tem que lidar com os reveses do dia a dia e avesso a soluções punitivistas. Meirelles, que pesquisa o comportamento das pessoas de baixa renda no Brasil desde o começo dos anos 2000, destaca o pragmatismo político da classe C: a divisão ideológica entre direita e esquerda, ele afirma, é muito menos importante que conseguir encontrar uma creche para os filhos ou ser atendido no posto de saúde. Neste episódio, o pesquisador fala sobre como a classe C concebe a sua prosperidade material, explica o que esse grupo espera do Estado e diz que tanto a direita quanto a esquerda têm dificuldades em entender os desejos dessas pessoas. Para Meirelles, o mau humor atual de boa parte da classe C com a economia brasileira é mais capturado pelo bolsonarismo que por Lula na campanha eleitoral. Por outro lado, pautas como o fim da escala 6x1, que dialogam com a ideia de empoderamento do trabalhador, e o voto das mulheres, que tendem a rejeitar o radicalismo e são mais sensíveis à qualidade dos serviços públicos, favorecem o campo do presidente. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  6. Aug 22

    Anita Prestes: Como o anticomunismo deturpou a trajetória de Luiz Carlos Prestes

    Luiz Carlos Prestes foi acusado de mandonismo, incompetência —incluindo mediocridade como estrategista militar— inabilidade política, agressividade, vaidade, personalismo e dogmatismo, além de agente de Moscou. As qualificações são citadas em "Entre Memória e História", o livro mais recente de Anita Prestes, filha do líder comunista e professora aposentada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A historiadora, que completa 90 anos em novembro, nasceu em uma prisão nazista antes de Olga Benário, a sua mãe, ser assassinada em um campo de concentração e passou a infância no México e a adolescência na URSS. Depois de um período de exílio na URSS durante a ditadura militar, Anita passou a pesquisar a trajetória política de Prestes e a história do PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual foi uma das dirigentes. Prestes ganhou status de personagem de peso da política nacional muito jovem, nos anos 1920, por ter comandado a coluna que percorreu o interior do país e virou um marco do movimento tenentista. Já a partir da década de 1930, Anita diz, o pai passou a ser perseguido pela adesão ao comunismo e pela filiação ao PCB. Para a autora, as representações do líder comunista costumam distorcer os fatos —ou falsificando ou silenciando a trajetória de Prestes, morto em 1990—, algo que atribui à força do anticomunismo no Brasil. Neste episódio, a pesquisadora fala sobre alguns episódios controversos da biografia de Prestes, como a participação na Intentona de 1935, e discute as concepções equivocadas do PCB sobre a realidade brasileira. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  7. Aug 8

    Ronaldo Lemos: IA captura coração, corpo e mente e pode nos emburrecer

    A inteligência artificial e plataformas de big techs tentam capturar a nossa mente, e tantas pessoas —hipnotizadas pela rolagem infinita e pela montanha-russa emocional criada pelas telas— perdem o controle das próprias vidas. No recém-lançado "O Monge, o Iogue e o Faquir", Ronaldo Lemos discute esse cenário a partir da metáfora de uma carruagem desgovernada, em que as suas partes —o corpo, as emoções e a mente— são cooptadas pela tecnologia, o que rompe o equilíbrio necessário para ser bem conduzida. Neste episódio, Lemos fala sobre os três arquétipos do título do livro, inspirados em tradições espirituais da China, da Índia e do Ocidente, e aponta caminhos para cultivar o faquir, o monge e o iogue no interior de toda pessoa. O autor defende que é preciso resistir à guerra do Vale do Silício contra a introspecção e se opõe às ideologias que prometem, por exemplo, que a IA vai criar um mundo de abundância universal. Lemos sustenta que não existem trocas reais entre a IA e os humanos, por mais que as máquinas sejam ótimas ilusionistas e tentem convencer do contrário. Por isso, não ache que uma IA pode ser a sua namorada ou a sua terapeuta. Também não é bom pensar em terceirizar o raciocínio para elas: em vez de virar um super-herói da produtividade, ele diz, é mais provável fritar o cérebro e ficar burro. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  8. Jul 25

    Dora Kaufman e Giselle Beiguelman: Criatividade brasileira pode reinventar IA

    A IA  vai dizimar o trabalho dos artistas e acabar com a arte? Ou nunca vai ser capaz de substituir os humanos porque as nossas mentes são, supostamente, excepcionais? Para Dora Kaufman e Giselle Beiguelman discutir as relações entre arte e IA nesses termos não faz sentido. Em "Tecnologias da Invenção", as autoras se recusam a contrapor pessoas e máquinas. Em vez disso, propõem que uma análise mais sofisticada deve levar em consideração que, há décadas, é impossível separar criatividade humana e tecnologia no terreno da criação artística e que a IA, com uma lógica de funcionamento e vieses próprios, muda os termos desse entrelaçamento. O livro traz conversas com artistas e o psicanalista Christian Dunker —os entrevistados falam sobre como usam chatbots e outras aplicações em seu processo criativo—, e as pesquisadoras defendem que a arte com IA não é só uma possibilidade, mas uma realidade atual. Kaufman e Beiguelman lembram que as bases de dados usadas para treinar IAs carregam as marcas do colonialismo e que big techs dos Estados Unidos e da China dominam o desenvolvimento da tecnologia. Ao mesmo tempo, indicam que a IA abre espaço para práticas artísticas que contestam essa ordem social e repensam o mundo de hoje. Na entrevista, as autoras também destacam o horizonte de precarização do trabalho e o papel do Brasil nesse cenário: o país, afirmam, pode se tornar uma fazenda de data centers ou virar a chave para produzir soluções que impulsionem a nossa diversidade cultural. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

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