O Senhor coloca hoje diante de nós uma parábola que, em termos de gestão, parece não fazer grande sentido. Um proprietário contrata trabalhadores para a sua vinha em diferentes horas do dia: uns de manhã cedo, outros ao meio-dia, outros já ao fim da tarde. E, na hora de pagar, dá a todos o mesmo salário. À nossa lógica, isto parece injusto: trabalho diferente, pagamento igual. Mas a primeira leitura ajuda-nos a entrar no coração da parábola: «Tanto como o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos». Eis o desafio: entrar no Reino de Deus não significa apenas fazer determinadas coisas; significa aprender a ver, julgar e interpretar a realidade com os critérios de Deus. A conversão cristã é também conversão da mentalidade. A primeira coisa que a parábola nos revela é que Deus chama todos, seja a que hora for. E chama também aqueles que ninguém chamou. Quando o proprietário pergunta aos últimos porque ficaram todo o dia sem trabalhar, eles respondem: «Porque ninguém nos contratou». Quantos estão hoje afastados de Deus porque ninguém os convidou, ninguém os considerou, ninguém lhes mostrou que também para eles há um lugar na vinha do Senhor? Depois, a parábola mostra-nos que a salvação não é um salário que conquistamos; é um dom. Na nossa lógica, quem trabalhou mais deveria receber mais. Mas no Reino de Deus ninguém pode dizer que mereceu a salvação. Cristo deu-nos, na cruz, aquilo que não poderíamos conquistar pelas nossas próprias forças. A salvação é graça, é presente, é amor oferecido gratuitamente. Por isso, os trabalhadores da primeira hora não recebem menos porque os últimos recebem o mesmo. O problema está no olhar com que veem os outros. Também nós podemos pensar: «Sempre fui cristão, sempre fui à Missa, cumpri os mandamentos, procurei fazer tudo bem; e agora aquele que viveu longe de Deus converte-se no fim e recebe a mesma salvação?» Sim. Porque Deus quer salvar todos. Aqui está talvez o ponto mais exigente para nós, cristãos de longa data: podemos ser cristãos nas práticas e ainda não o ser inteiramente no coração. Podemos cumprir tudo e conservar uma mentalidade distante da de Deus. As práticas, as regras e os mandamentos são importantes, mas não são um fim em si mesmos; são mediações para conhecermos, saborearmos e acolhermos o amor de Deus. Se os trabalhadores da primeira hora tivessem vivido o dia com gratidão, ter-se-iam alegrado com a chegada dos últimos. Teriam pensado: «Que bom que também eles descobriram a alegria de estar na vinha do Senhor!» É esta a atitude de quem compreendeu o Evangelho: agradecer por ter chegado cedo e alegrar-se por quem chega depois. Vale, então, a pena perguntarmo-nos: porque somos cristãos? Por obrigação? Por medo? Para “ganhar” o céu? Se for apenas isso, a fé torna-se pesada e triste. Mas, se somos cristãos porque descobrimos quanto Deus é bom, quanto nos ama, nos perdoa e nos chama à sua presença, então tudo muda. A prática cristã deixa de ser um fardo e torna-se resposta agradecida. E quem vive assim não julga quem regressa. Alegra-se. Se Deus perdoa, quem somos nós para não perdoar? Se Deus acolhe, quem somos nós para fechar a porta? Peçamos, por isso, ao Senhor a graça de nos deixarmos converter não apenas nas ações, mas também no coração e na mentalidade. E agradeçamos por estarmos na sua vinha, seja qual for a hora a que chegámos. Quanto mais descobrirmos a alegria de estar com Deus, mais felizes ficaremos por cada pessoa que encontra, mesmo no último instante, esse mesmo amor que nós já tivemos a graça de conhecer.