Uma palavra no seu caminho

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

  1. Sep 20

    XXV Tempo Comum - Homilia

    O Senhor coloca hoje diante de nós uma parábola que, em termos de gestão, parece não fazer grande sentido. Um proprietário contrata trabalhadores para a sua vinha em diferentes horas do dia: uns de manhã cedo, outros ao meio-dia, outros já ao fim da tarde. E, na hora de pagar, dá a todos o mesmo salário. À nossa lógica, isto parece injusto: trabalho diferente, pagamento igual. Mas a primeira leitura ajuda-nos a entrar no coração da parábola: «Tanto como o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos». Eis o desafio: entrar no Reino de Deus não significa apenas fazer determinadas coisas; significa aprender a ver, julgar e interpretar a realidade com os critérios de Deus. A conversão cristã é também conversão da mentalidade. A primeira coisa que a parábola nos revela é que Deus chama todos, seja a que hora for. E chama também aqueles que ninguém chamou. Quando o proprietário pergunta aos últimos porque ficaram todo o dia sem trabalhar, eles respondem: «Porque ninguém nos contratou». Quantos estão hoje afastados de Deus porque ninguém os convidou, ninguém os considerou, ninguém lhes mostrou que também para eles há um lugar na vinha do Senhor? Depois, a parábola mostra-nos que a salvação não é um salário que conquistamos; é um dom. Na nossa lógica, quem trabalhou mais deveria receber mais. Mas no Reino de Deus ninguém pode dizer que mereceu a salvação. Cristo deu-nos, na cruz, aquilo que não poderíamos conquistar pelas nossas próprias forças. A salvação é graça, é presente, é amor oferecido gratuitamente. Por isso, os trabalhadores da primeira hora não recebem menos porque os últimos recebem o mesmo. O problema está no olhar com que veem os outros. Também nós podemos pensar: «Sempre fui cristão, sempre fui à Missa, cumpri os mandamentos, procurei fazer tudo bem; e agora aquele que viveu longe de Deus converte-se no fim e recebe a mesma salvação?» Sim. Porque Deus quer salvar todos. Aqui está talvez o ponto mais exigente para nós, cristãos de longa data: podemos ser cristãos nas práticas e ainda não o ser inteiramente no coração. Podemos cumprir tudo e conservar uma mentalidade distante da de Deus. As práticas, as regras e os mandamentos são importantes, mas não são um fim em si mesmos; são mediações para conhecermos, saborearmos e acolhermos o amor de Deus. Se os trabalhadores da primeira hora tivessem vivido o dia com gratidão, ter-se-iam alegrado com a chegada dos últimos. Teriam pensado: «Que bom que também eles descobriram a alegria de estar na vinha do Senhor!» É esta a atitude de quem compreendeu o Evangelho: agradecer por ter chegado cedo e alegrar-se por quem chega depois. Vale, então, a pena perguntarmo-nos: porque somos cristãos? Por obrigação? Por medo? Para “ganhar” o céu? Se for apenas isso, a fé torna-se pesada e triste. Mas, se somos cristãos porque descobrimos quanto Deus é bom, quanto nos ama, nos perdoa e nos chama à sua presença, então tudo muda. A prática cristã deixa de ser um fardo e torna-se resposta agradecida. E quem vive assim não julga quem regressa. Alegra-se. Se Deus perdoa, quem somos nós para não perdoar? Se Deus acolhe, quem somos nós para fechar a porta? Peçamos, por isso, ao Senhor a graça de nos deixarmos converter não apenas nas ações, mas também no coração e na mentalidade. E agradeçamos por estarmos na sua vinha, seja qual for a hora a que chegámos. Quanto mais descobrirmos a alegria de estar com Deus, mais felizes ficaremos por cada pessoa que encontra, mesmo no último instante, esse mesmo amor que nós já tivemos a graça de conhecer.

    XXV Tempo Comum - Homilia
  2. Sep 13

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Homilia

    No Antigo Testamento encontramos a chamada lei de talião: «olho por olho, dente por dente». À primeira vista, pode parecer uma lei violenta; na verdade, pretendia limitar a violência. Se alguém me causasse um dano, eu não poderia responder com um mal maior. Era já uma forma de travar a espiral da vingança. Jesus, porém, vai mais longe. Não nos pede apenas que não retribuamos o mal com um mal maior: pede-nos que perdoemos. Pedro pergunta-Lhe: «Se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Sete já parece muito. Mas Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete». Isto é: sempre. Dizê-lo é fácil; vivê-lo é muito mais difícil. Há pequenas contrariedades que rapidamente ultrapassamos. Mas há ofensas que nos ferem por dentro: uma traição, uma calúnia, uma injustiça profunda. Perante essas feridas, perdoar pode parecer humanamente impossível. E talvez seja. Há perdões que só são possíveis com Deus. É por isso que Jesus conta a parábola dos dois devedores. Um servo devia ao rei dez mil talentos: uma quantia absolutamente incomportável, uma dívida que jamais conseguiria pagar. Pede apenas tempo, mas o rei faz muito mais: perdoa-lhe toda a dívida. Pouco depois, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia cem denários. Também este lhe pede tempo. Mas ele recusa, manda-o prender e exige que pague tudo. A desproporção é o coração da parábola. Jesus não está a dizer que as ofensas que recebemos são insignificantes. Algumas doem profundamente. Está a dizer-nos que o perdão começa quando tomamos consciência do perdão que nós próprios recebemos de Deus. O rei diz ao servo: «Não devias também tu compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?» Talvez aqui esteja o segredo. Se eu me concentrar apenas na obrigação de perdoar, posso sentir-me ainda mais frustrado: sei que devo perdoar, mas não consigo. O caminho começa noutro lugar: reconhecer quanto Deus me perdoa, quanto me ama, quanta compaixão tem de mim. É dessa experiência que pode nascer, pouco a pouco, a capacidade de perdoar os outros. E perdoar não é esquecer. A memória é um dom; não precisamos de fingir que nada aconteceu. Perdoar é impedir que uma ferida do passado continue a governar o nosso futuro. É deixar de permitir que aquela ofensa determine as nossas escolhas, alimente a vingança, o medo, a angústia ou o ressentimento. Atribui-se a Nelson Mandela uma frase muito expressiva: se, depois de sair da prisão, continuasse dominado pelo ódio aos que o tinham prendido, teria saído da prisão, mas a prisão não teria saído dele. A imagem é verdadeira para nós. Também podemos viver em pequenas prisões interiores: «não vou ali porque está aquela pessoa»; «não falo desse assunto para não me lembrar»; «não faço isto porque tenho medo de voltar a sofrer». A ofensa continua, assim, a produzir efeitos muito depois de ter acontecido. O perdão rompe essa cadeia. Não torna bom aquilo que foi mau, não chama justo ao que foi injusto, nem dispensa a verdade ou a justiça. Mas impede que o mal recebido continue a ter poder sobre nós. Por isso, quando nos for difícil perdoar, talvez devamos começar não por olhar para quem nos feriu, mas para Deus. Recordar quanto Ele nos perdoou, quanto nos ama e como tem compaixão de nós. E pedir-Lhe a graça de fazer em nós aquilo que, sozinhos, não conseguimos fazer. Porque perdoar é uma obra profundamente humana, mas há momentos em que só se torna possível quando deixamos Deus agir em nós.

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Homilia

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