cacaidisse.

Clarissa Medeiros

Pensamentos aleatórios, opiniões e risadas da jornalista Clarissa Medeiros por aí à fora. Atualmente em Portugal. | @cacaikki | Primeira mão sempre às sextas-feiras, no "Café com Ciro Pedroza", 7:30 da manhã na www.95maisfm.com.br .

Episodes

  1. Manjericos

    06/18/2020

    Manjericos

    Quem gosta de cultura, adora uma tradição. As tradições são sustenção que não deixam os costumes se perderam ao longos dos anos. Algumas, são tão fortes e interessantes, que mesmo que não descendendo delas, às vezes, às absorvemos. Eu gosto muito de observa-las, e adoto as que me agradam.  Até hoje faço biscoitos de Natal, aprendi quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos. Sempre como comida de côco na Páscoa, coisas da minha mãe é pernambucana, e só passo o ano novo de roupa branca, pulando as 7 ondas, mesmo se não tiver mar hahahha, é minha alma brasileira. Acredito que os costumes constroem nossa personalidade. Portugal tem costumes a tradições para todo lado.   Agora, por exemplo, estamos na época dos Santos populares, é hora de presentear Manjericos de Santo Antônio.  A erva do amor. Aqui, em vez de armarem o pobre do santo de cabeça para baixo até aparecer um pretendente, a ideia é dar um pezinho de Manjerico ao seu bem querer. Com um cravinho de papel colorido enfeitando e uma quadrinha pro santo. "Lisboa, és meu amor, Quero contigo dançar Cantar cheia de fulgor A tradição popular. De manjerico na mão Uma quadra a namorar E com arquinho e balão Vamos todos a bailar.""    O manjerico é uma ervinha sensível, precisa ser muito bem cuidada, pois morre fácil. E a duração do amor é supostamente a mesma que  a da planta. Ela precisa sobreviver até pelo menos Junho do ano seguinte, quando pode ser substituída por uma nova, mantendo o mesmo amor. Dizem as lendas, que não se pode nem cheirar a plantinha, que ela não aguenta de tão frágil. E não será assim o amor? Quando a gente não cuida dele, ele definha e morre. Em tempos de tanto desamor, que mais manjericos sejam entregues, e bem cuidados até ano que vem

    2 min
  2. Sardinha

    06/16/2020

    Sardinha

    É só Junho chegar, e os portugueses estão todos bem animados. É época das festas dos Santos. Começando por Santo Antonio de Lisboa. As ruas do centro se enchem de cores e enfeites, e é hora de comer Sardinha assada. O cheiro da iguaria na brasa inunda as ladeiras e sacadas da capital. O Covid cancelou os festejos e as marchinhas, mas a Sardinha sobreviveu. E onde tiver uma brasinha, tem uma sardinha assando. Tanto quanto o bacalhau, a Sardinha é considerada outro símbolo português, só mas irreverente, mais colorido, mas festeiro. Está em tudo, nos cardápios, no fados, na arte, nas toalhas de mesa. Para se ter ideia de como os portugueses gostam de sardinha, em 1456, o alimento só podia ser pescado aos domingos e em dias santos. Mas o costume é ainda mais antigo, acredita-se que quando Portugal ainda era território Feníncio, a sardinha já era apreciada, seguindo pelo Império Romano, onde a salgavam e levavam do mundo ibérico para Africa, Itália e Galícia.   No período muçulmano, bem a Sul do Tejo, a pesca de sardinhas era feita em grande abundância também. Hoje, com menos esforço, encontra-se em qualquer mercado, o tempero ideal é simples, sal grosso apenas. Aqui em casa, o chef é profundo apreciador, e vira e mexe elas estão na brasa. Um passeio imperdível quando em Lisboa, é a loja o Fantástico Mundo das Sardinhas, no Rossio. Parece um circo, e o lúdico faz viajar na cultura lusitana.  As latas estão numeradas de 1917 a 2017. E a brincadeira é encontrar o seu ano de nascimento. Todas são conservas deliciosas. Terminando o assunto e honrando à tradição, assim nomeamos nosso filho patudo Português, Sardinha. Um jack Russel fofíssimo. Vai lá meu instagram para ver as fotinhas dele.

    2 min
  3. i g u a i s

    06/08/2020

    i g u a i s

    Hoje não trago entretenimento. Desculpem.  Essa foi uma semana difícil. Acho que talvez uma das mais difíceis nos últimos tempos, tão difíceis. Uma semana onde além das mortes por um virus que atinge a todos sem preconceitos, o preconceito racial, que deveria ser algo extinto, se fez mais presente do que nunca. Quando eu morava em Atlanta, casa vez que passava pelo artístico Old Fourth Ward, bairro que cresceu e viveu Martin Luther King, sempre me pegava pensando, como pode? Há 50 anos apenas, isso aqui era divido.  Entre negros e brancos. Tudo me parecia tão absurdo, tão distante... e tão próximo, sempre me doía o coração. Ver Downtown ATL queimando essa semana me doeu mais ainda. Não pela destruição em si, isso há sempre dólares para reconstruir, mas pelo desespero, das pessoas urgindo por igualdade, por visibilidade a coisas tão cruéis, por humanidade. E não só lá, mas em todo o país. E uma dor tão reprimida, tão grande, que os mais 1000 mortos por COVID que seguem diários, tornaram-se o problema secundário. Assim como no Brasil, que com as mesmas 1000 mortes diárias, a preocupação maior é escolher se devemos ser facistas, ou comunistas, enquanto João Pedro morre na favela. Será que não hora de ser humanista? E olhar pro povo? O racismo é a característica mais rasa do ser humano. Como nasce um racista? Como deixam as crianças crescerem racistas? Será que os Europeus, lá em 1500, quando começaram a escravidão dos negros em suas colônias, tinha noção do monstro que estavam criando? Como é que tudo isso começou? Porque tudo isso continua? O que os brancos tinham e os negros não? Só consigo pensar em uma resposta: conhecimento. Acadêmico. Essa era a única coisa que o branco tinha e o negro não. O conhecimento dava poder ao branco. E o conhecimento, que foi o veneno, passa a ser o soro. A única coisa que irá acabar com o racismo e a desigualdade social é a educação. Igual e para todos, e a Educação em casa. No nosso próprio ciclo. Eduquem-se, eduquem seus filhos, eduquem sua família e sua comunidade para a igualdade. Quando se deparar com uma atitude racista, reprima. Tome partido, explique porque não. Eduque. Se todos formos difusores dessa ideia de humanidade e igualdade, uma hora ela pega.

    3 min
  4. Água Fria

    05/29/2020

    Água Fria

    Surfista tropical tem medo de água fria. Fato. Nasci em Natal, na Maternidade Januário Cicco e em Natal cresci. Natalense da gema, meu primeiro pé na areia foi em Ponta Negra, e todos, digo TODOS, os meus verões, até a vida adulta,  foram no eixo Buzius-Pirangi. Da época que nem a Rota do Sol existia, a estrada ainda era de barro, e tinha uma paradinha estratégica na curva de Pirangi do Sul para comer um pastel de camarão. O veraneio sempre foi minha época favorita do ano, ganhava até para o Papai Noel. Assim sendo, apesar de minha vida de viajante ter começado na adolescência, nunca viajei para tempos de verão no local de destino. Aproveitava as saídas para conhecer algo completamente incomum ao nosso habitat: o frio. Viajar era sinônimo de usar casacos e ver fumacinha saindo pela boca. Todo nordestino que se preza, faz viagem de inverno, até pq praia, por praia, a nossa é a melhor. No meu conceito, Verão sempre teve sol quente, areia quente e água morna. Ou melhor, tinha. Até semana passada. Quando tomei coragem, surfista que sou, e encarei o mar de Cascais. Lindo, de filme. Rochoso, água turquesa transparente… e fria. Não teve roupa de borracha que desse jeito. Água fria da muléstia. Aliás, fria não, CONGELADA.  Eu, surfista de marola de Black Point, não estava preparada praquilo. O primeiro tombo da prancha foi um misto de pavor, desespero, frio e paralisia. Não sei como consegui sentir tudo isso em 3 segundos, porque foi esse o tempo que fiquei dentro da água. Meu marido e companheiro de remadas relata que eu parecia um gato escaldado com os olhos arregalados. A praia inteira me olhou. Todos tinha certeza que estava sendo atacada por uma orca, mas foi só um caldo. Enfim. Meu batizado. Todos os dias acordo e penso, hoje vai ser mais quentinho… não. Talvez, em julho. Pq estamos em final de maio, e segue frio. Mas cada dia me dói menos, aquela velha estória de que a gente sempre se acostuma com tudo, é só insistir.  Pois tem sido assim meu princípio de verão ibérico. Todo dia (quase) vou lá e insisto mais um pouquinho, acostumou mais um pouquinho com o frio e começo a gostar da praia. Até me contento, pelo menos é o mar. Mas, jamais, jamais chegará aos pés do cantinho mágico de Ponta Negra, jamais.

    3 min
  5. Líderes

    05/22/2020

    Líderes

    Toda nação tem o governo que merece. O conde Joseph-Marie de Maistre, um contra revolucionário, falou isso no século 18, num período pós Revolução Francesa. E acho que ele tinha toda razão. E gostei desse contra-revolucionário, bem fora do quadrado.  Mas enfim, não estou aqui para falar de metralhas ou minions, mas de um cara chamado Marcelo Rebelo. Para quem não sabe quem é, é o presidente de Portugal.  A cada dia que passa na minha estada lusitana, mais me encanto. Não só com o pão, as praias, e os vinhos. Mas com a comunidade. Com a forma com que tudo funciona organicamente. Com a disciplina com que estão lutando contra o virus, lidando com a quarentena e o fim dela, e respeitando o próximo. E volto pro Marcelo. Essa semana foi destaque em todas as redes sociais uma foto dele, de bermuda, sandálias…  e mascara, aguardando sua vez na fila do supermercado. Sim, do supermercado. Por que ele é gente, como todos os outros 10 milhões de cidadãos do país que lidera. Porque ele está lutando para sairmos dessa, como cada um dos seus cidadãos. Por que qualquer líder sabe que se o pobre adoece, o rico também morre. Todo líder sabe que se o pobre não tem segurança, o rico também está inseguro. Então, o Marcelo anda pelo meio do povo, toma café no mercado, conversa com o pessoal na praça. De mascara, de bermuda, por que ele era assim antes, e segue assim depois. Se é é popular? Dizem as más línguas que nem oposição terá nas próximas eleições.  A Reeleição não me preocupa minimamente, nem preocupa os portugueses. Agora que resolvemos o vírus, estamos preocupados como iremos resolver a economia.  - Foi sua última declaração pública.  Será que um dia o Brasil terá um Marcelo? Talvez se Chico começar a se comportar como Manoel.

    2 min
  6. Tugas x Zucas

    05/19/2020

    Tugas x Zucas

    Quando chegamos num novo habitat, instintivamente, a primeira coisa feita por nós, seres humano, é a comparação. E existindo uma relação ancestral, digamos que essa comparação fica ainda mais interessante. E divertida, se for não levada para o lado pessoal. Aqui em Portugal, os TUGAS,  nos chamam de ZUKAS. E pronto, já sentiu o drama né? Enfim… aproveitando a aceitação mútua, resolvi fazer um lado a lado, pra gente ver quem é quem. Começaremos pela SIMPATIA. Zukas - Já disse Jorge, Salve simpatia, o povo animado. Bateu uma caixinha de fósforo, já vira samba, dança no meio rua e todo mundo é melhor amigo. Os TUGAS, bom… quando mais velho, mais ranzinza. Talvez tenha sido a guerra, a ditadura, a recessão, sei lá… mas resmungam. Se for do sexo feminino, e acima da sexta década então, Jesus. Uma dia desse, quase mato uma engasgada. Era a vizinha. Batia o tapete na varanda, enquanto eu voltava da caminha. Joguei da calçada um "BOA TARDE", bem sorridente. Me olhou de cara feia, aí, realizou o que eu tinha dito, engasgou, tussio, e abriu um sorriso de volta. Boa taaaaarde, boa taarrde. Acho que fiz uma amiga. Segundo round. DISCIPLINA. Hummm, os ZUKAS, já viu né? ZERO. Não seguem uma regra, nem aqui, nem em lugar nenhum. E ainda criam caso, querem pular a cerca, passar por debaixo do pano. Temos muuuito o que mudar e melhorar em relação a isso. Eu já melhorei um bocado, mas ainda tenho recaídas às vezes. OS Tugas. São exemplares. O que é, é. O que não é, não é. Às vezes, parece que é, mas na lógica deles, não é. Então não é. E aqui, concordo. Pode ser que a lógica deles seja meio sem lógica, mas é a lógica deles, e o país deles. Então a gente respeita. Ponto. Ontem, numa rotatória com quatro saídas, haviam quatro guardas. Um em cada. Os quatros me pararam. Aos quatro, dei a mesma justificativa. Os quatro me deixaram passar. Entendeu? A CRIATIVIDADE Zukas são imbatíveis. Há quem diga que deveriam ser estudados pela NASA. Digo que tudo isso vem da escassez. Quando menos tem, mais precisa inventar para ter. Acho Brasileiro genial. Fresh. Inovador. Tira leite de pedra, dá nó em pingo d’agua. E isso só é possível com criatividade. Os Tugas, também tem suas idéias. E gosto do aproach, um pouco mais contido e conservador, de quem tem milênios a frente, mas interessante. Sabem lidar com o mar como poucos que já vi. São ótimos no aproveitamento de pequenos espaços e na combinação de sabores. E eles inventaram os pastéis de nata. Não preciso dizer mais nada. Nosso placar está empatado. 2 a 2. Zukas e Tugas, ambos gente boa. Seja cá, o d’alem mar. Parentes distante, com muito em comum. Só um oceano a separar.

    3 min
  7. Inquietude

    05/19/2020

    Inquietude

    Cada vez que saio para uma caminhada no calçadão e me deparo com esse imenso oceano à minha frente, impossível não pensar em Cabral, e em como há mais de 500 anos, sua inquietude o levou a descobrir o Brasil. E tantas outras terras. No mundo, existem 2 tipos de pessoas, as que têm raízes, e as que têm asas. Nessa segunda espécie, a inquietude é tão latente que chega a ser perceptível aos olhos. Opostos aos centrados, equilibrados e enraizados, são normalmente meio malucos e inesperados. Eu me enquadro nesse tipo. Minhas asas me tiram de casa há mais de 20 anos, mas nos últimos 4, deixei a terra Natal em definitivo. Escolhi choques culturais à almoços de domingo, em família (para a tristeza de minha mãe!). Abracei os ônus e bônus dessa escolha. Primeiro, me joguei na América, no olho da besta. Onde aprendi a ser gentil, bom dia, com licença, por favor, obrigado, I like your shirt, sempre, e para qualquer um. Aprendi a ter de tudo, muito. Aprendi a delícia da abundância.  Tive uma vida confortável, com um poder de consumo que nunca imaginei. Fui feliz. Mas, as asas bateram, e voei, do NOVO para o velho mundo. A vida decidiu que era hora de me ensinar a querer menos, ter menos, viver com menos. A ser mais sustentável. A cuidar do meu próprio lixo. Atraquei num pequeno reino lusitano, onde o país é proporcional em tamanho e em gente à última cidade onde morei. Era hora de novamente apertar o Botão de Reset. Recomeço e inquietude são melhores amigos, um sempre apoiando o outro. Trocamos Amazon prime pela feirinha no mercado, highways por comboios. Ganhamos o mar, o surf e as caminhadas. Mudamos não só de Pais, como de continente. Tudo novo, de novo. Um ecossistema inteiro para descobrir, a inquietude está que não se aguenta. Uma língua que parece a mesma, mas nem sempre é... um desafio de falar o que você já sabe. Nessa jornada portuguesa, convido você, a um passeio na minha inquietude. Todas às sextas-feiras, descobriremos um lugar, um sabor ou um sentimento. Sempre inquieto. Sempre divertido. Garanto pastéis de Nata, calçadas desniveladas, e casas coloridas com roupas penduradas na janela (meu lado natalense reprova totalmente o costume - na minha casa tem máquina de secar.) Mas, vamos descobrir como portugal é fixe, comer sardinha e beber muito vinho verde. Até mais.

    3 min

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