Opinião João Paulo Cunha

Brasil de Fato MG

João Paulo Cunha é jornalista e colunista do jornal Brasil de Fato MG. Trabalhou em jornal, rádio e TV em Belo Horizonte. Este podcast tem aproximadamente 3 minutos e é uma produção do jornal Brasil de Fato MG. Ouça também nossos outros podcasts: Nossos Direitos, Amiga da Saúde, Giro Esportivo, Boletim do JN, Com Ciência e Programa Brasil de Fato MG.

  1. 01/21/2022

    Imprensa quer Lula antipetista

    Para vencer Jair Bolsonaro nas urnas vale tudo. Ou quase tudo. A mídia corporativa se rendeu ao cenário inevitável da única alternativa para impedir a reeleição do presidente, mas já começa a apresentar suas condições. Lula é melhor que o monstro no poder - não pelo tipo de poder que exerce, mas pela monstruosidade com que o faz -, mas desde que não seja Lula de verdade. O pacto que vem sendo estabelecido desenha um candidato que, para ser aceito pelos barões da mídia, precisa escrever cartas e mais cartas ao povo brasileiro, se render a conversas civilizadas com o setor financeiro, acenar para o agronegócio, escolher um vice palatável (ainda que, contraditoriamente, sem sabor), mostrar indiferença respeitosa aos militares e, principalmente, não interferir no mercado. Um Lula antipetista. O que parece contradição em termos, na realidade, é um método. É preciso esvaziar o conteúdo socialista do projeto do candidato petista, impedir que retome o crescimento econômico com distribuição de renda e a valorização dos recursos estratégicos. Que não tenha intenção de revisar os direitos extirpados pela reforma trabalhista em curso e que não reconstrua a porteira civilizatória no meio ambiente. Lula não deve se meter em questões como ampliação das instâncias de democracia participativa, inclusão social e realinhamento diplomático independente, retomando o protagonismo em fóruns multilaterais e o respeito internacional. E, que não venha com essa conversa de valorização da mídia popular e controle econômico dos meios de comunicação. O que é liberalismo nos EUA por aqui é censura. Pode defender o SUS, desde que não venha de novo com médicos cubanos, reforma psiquiátrica e direitos reprodutivos. O programa de imunização, a defesa de critérios epidemiológicos, a ação independente da Anvisa e a atenção básica são valores que não devem, entretanto, entrar em choque com os interesses do mercado e das corporações.  Não é preciso avançar na reforma sanitária, um Mandetta quebra o galho.

    3 min
  2. 01/14/2022

    Um governador sem brio

    As chuvas que caem sobre Minas Gerais, com seu saldo de destruição, mortes e dezenas de milhares de desabrigados, não fez Romeu Zema (Novo) assumir suas responsabilidades. Quem acompanha as declarações recentes do governador do estado percebe que ele retoma seu conhecido repertório: a culpa é sempre do outro (por vezes até mesmo da vítima), enaltecimento das empresas privadas (mesmo as com passivo criminoso de destruição ambiental) e criação de comitês. Zema é o tarado dos comitês. Na sua obsessão em se safar das responsabilidades do cargo, está sempre criando uma instância burocrática entre os problemas do mundo real e suas atribuições constitucionais. Assim, suas palavras prediletas em todas as crises são sempre monitorar, levantar danos, criar protocolos, solicitar ajuda do governo federal. Foi o que fez com a pandemia, com os crimes ambientais e agora com as chuvas. Não abriu leitos, não contratou médicos e enfermeiros, não testou, não multou empresas devastadoras e ainda reduziu investimento nas ações de fiscalização. Seu discurso era sempre o da correia de transmissão: repasse de vacinas e insumos, transferência de responsabilidades, edição de protocolos, afago às mineradoras e apetite em gerir os resultados financeiros obtidos na justiça. Ao terceirizar suas funções de forma tão explícita, vem construindo uma carreira administrativa feita de fugas, desculpas e projeções. Com a criação do Comitê Gestor de Medida de Prevenção e Enfrentamento das Consequências do Período Chuvoso, o governador reuniu dezenas de órgãos do Executivo, assessores e consultores com o intuito de não agir. A atribuição do grupo, de acordo com o decreto que o criou, é a de articular ações e levantar problemas. Não fala em recursos, em investimento, em criação de forças-tarefas, em apoio aos responsáveis pelas medidas de enfrentamento na ponta. Uma espécie de anteparo, uma barreira, um guarda-chuva imaginário.

    3 min
  3. Fotógrafo de Lula salva Globo de vexame

    11/22/2021

    Fotógrafo de Lula salva Globo de vexame

    A imprensa familiar brasileira é capaz de tudo para fugir dos fatos. A não cobertura da viagem de Lula à Europa foi um exemplo de como, para não fazer seu trabalho, cometeu pelo menos três pecados mortais do jornalismo: foi furada por jornalistas independentes, segurou a opinião de seus colunistas até o limite da mentira e rendeu-se a pedir apoio aos assessores do ex-presidente para recuperar o tempo perdido. Curto e grosso: chegou tarde, censurou e pediu arrego. Ao mesmo tempo, a mesma mídia empresarial esteve atenta à viagem de Bolsonaro ao Oriente Médio, frente a uma comitiva nababesca e uma pauta chinfrim, em que o único destaque foi uma conversa sobre troca de prisioneiros. Isso mesmo, troca de prisioneiros. Um indicativo dos interesses do presidente e do que antevê para seu futuro. Não se sabe de acordo comercial firmado ou de conversas com interesse geopolítico expressivo. Por não querer fazer jornalismo, a Globo teve seu dia de assessoria de imprensa do PT O contraste com a viagem de Lula é significativo. O petista foi recebido por presidentes e lideranças eleitas de democracias consolidadas, como França, Alemanha, Espanha e Bélgica. Bolsonaro teve como interlocutores ditadores e adversários dos direitos humanos. Lula recebeu prêmios e homenagens de um dos mais importantes centros de pensamento político do continente. Bolsonaro ganhou jantar dos empresários brasileiros que saíram daqui para puxar saco e fritar bife no deserto. Nas conversas de Lula, temas como crise climática, emergência sanitária, desigualdade, ameaças à democracia, pobreza, combate à fome, futuro da União Europeia e integração da América Latina. Foi recebido com honras de chefe de Estado pelo presidente francês Emmanuel Macron, que passa longe da esquerda, aplaudido no Parlamento Europeu e ganhou espaço nos mais importantes jornais do continente. Contraste entre a viagem de Lula e Bolsonaro é significativo Já Bolsonaro, antes de passear de motocicleta, falou de grafeno e bateu no peito para dizer que o Enem é a cara do governo, comemorando mais uma crise na política educacional.  Emendou o chorrilho de asneiras dizendo que a floresta Amazônica é úmida e por isso não pega fogo.  Ou seja, viajou para longe e gastou muito dinheiro para não sair do lugar onde sempre esteve. Para se sentir em casa, tinha até o governador de Minas, Romeu Zema, ao seu lado. Seu giro não teve repercussão na imprensa internacional e não eclipsou o vexame de sua recente viagem para a reunião do G-20. Simbolismo das duas viagens Não é o caso de insistir na lógica da divisão entre dois mundos inconciliáveis que vem dominando o cenário, mas há algo de simbólico nas duas viagens simultâneas dos nomes mais fortes, no momento, para as eleições de 2022. Bolsonaro procurou nos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar seus semelhantes políticos: autoritarismo, apreço por lideranças autocratas e isolamento internacional. Num momento de redefinição das alianças políticas e econômicas, uma agenda que fortalece a posição de pária que parece orgulhá-lo. Lula, ao abrir espaço para diálogo em espectro político ampliado e em torno dos temas mais sensíveis da pauta mundial, se apresenta como interlocutor confiável para a esquerda, para o bloco socialdemocrata e para os democratas da centro-direita. E até mesmo indispensável, quando se pensa na América Latina, na preservação ambiental e no papel a ser desempenhado pelas economias emergentes num cenário de grandes transformações tecnológicas e na composição de um novo mercado mundial.

    3 min
  4. A história não dá descanso

    11/17/2021

    A história não dá descanso

    Para alguns, a maior dificuldade é entender como o país se meteu na aventura fascista de Bolsonaro e companhia, a partir de fatos cada vez mais revoltantes do dia a dia. A tarefa dada frente à incessante onda de monstruosidades é a da vigilância máxima, a partir dos eventos autoritários que vão se somando, impedindo, na medida do possível, sua escalada inevitável. Enquanto isso, outros pensam que o momento é de juntar forças, mesmo discordantes, para dar conta do enfrentamento urgente ao presidente e da retomada da via democrática que vinha sendo construída. Com a ameaça explícita de autoritarismo de Estado e de retrocesso das políticas populares, o maior desafio é interromper o projeto de poder incorporado por Bolsonaro em nome de seus patrocinadores, como laranja do neoliberalismo injusto em economia, autoritário nas relações sociais e reacionário em costumes. O pior dos mundos possíveis. Já para um terceiro grupo, é preciso pensar grande, resgatar projetos mais ambiciosos e construir uma alternativa socialista desde já, considerando que o trabalho destrutivo do atual governo não é um acidente de percurso, mas a materialização ardilosa de um projeto de longo prazo. Que começa com a aniquilação de conquistas em várias áreas, para depois edificar estruturas orgânicas de manutenção do poder político e econômico voltado para o interesse do mercado e da minoria que domina suas engrenagens. O francês Fernand Braudel (1902-1985), considerado um dos grandes historiadores do século 20, talvez possa ajudar nesse momento. Além de autor de trabalho clássico sobre o Mediterrâneo na época de Felipe II, escrito quando estava preso num campo de concentração, durante a Segunda Guerra, ele contribuiu para a criação da Universidade de São Paulo, onde chegou a lecionar entre 1935 e 1937. Seus estudos levaram a uma nova forma de relacionar a ciência da história com diferentes configurações do tempo. Para Braudel, assim como o tempo pode ser entendido a partir da duração dos acontecimentos, a história precisa estar atenta a essa dimensão variável. Para um tempo curto, uma história que abarca eventos de curta duração. Para o tempo médio, a história deve contribuir com reflexões que levem em conta a conjuntura e sua maior complexidade. Já para o tempo longo, entra em cena a história das estruturas da sociedade. Na vida e na política, não é incomum confundir as três esferas. O Brasil hoje tem problemas nas três durações do tempo. Bolsonaro a cada dia oferece um evento destrutivo, seja na educação, na saúde, no meio ambiente e na extinção do Bolsa Família, para ficar nas crises mais recentes. Os exemplos são vergonhosos. A desconfiança sobre o Enem com a demissão em massa de técnicos que denunciam aparelhamento ideológico na área da educação. A corrupção, a inépcia, o negacionismo e os crimes contra a humanidade no combate à pandemia.

    2 min
  5. 10/01/2021

    Doentes atrapalham a economia

    Em meio a tantos absurdos que se somam a cada dia, foi revelado de forma quase natural a raiz de tanto horror no combate à pandemia pelo governo federal: doentes fazem mal à economia. Depois de uma sequência de inépcia, descaso, militarização, charlatanismo, falta de empatia, desprezo à ciência, crueldade, corrupção e outros crimes, a verdade final foi dita com todas as letras. Havia um pacto, uma aliança, uma estratégia ditada a partir da economia. Ou melhor, como foi explicitado, do Ministério da Economia. As digitais de Paulo Guedes não estão apenas nas planilhas dos péssimos. Todos devem se lembrar da antiga e insensata disputa apresentada entre a dimensão sanitária e econômica da pandemia. Parecia que havia se estabelecido um dilema entre sanitaristas e economistas, sobre a melhor forma de enfrentar a doença e suas consequências para a sociedade. Na falsa contraposição, um lado não se importava com as baixas para os negócios e empregos; o outro não tinha sensibilidade para a dor das famílias. O desprezo pelas ciências da vida se escorava numa preocupação com a vida material. Chegou-se a dizer que padeceríamos de mais mortes por desemprego e suicídio do que pelo vírus. Na verdade, a divisão foi apresentada pelo governo federal como anistia para sua ação negacionista no combate à doença, que apostava na morte como saída biológica inevitável, travestida na ideia de imunidade coletiva ou de rebanho. Por isso não cabia investir em testes, vacinas, atendimentos e medidas não farmacológicas. Era só deixar a morte fazer seu trabalho saneador e suspirar um desumano: “e daí, todo mundo morre um dia”. Há um componente sadomasoquista no fascismo. De um lado, defende-se o extermínio dos fracos; de outro, submete-se ao poder como forma de se sentir próximo a ele. O fascista é antes de tudo um covarde.

    3 min

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