Didascália

Luís M. Figueiredo Rodrigues

O substantivo “didascália”, no Novo Testamento, significa “ensino”. Entendido quer como ensino ou instrução em geral (cf. Mt 15, 9); quer como ensino conforme à doutrina dos Apóstolos (cf. 1Tm 15, 7). Foi este último caso que mais nos inspirou. Atualmente, “didascália” significa também as anotações que numa peça ou guião, não fazendo parte do diálogo, servem para dar instruções aos atores, encenador, cenógrafo ou outros intervenientes na produção. É este o objetivo deste podcast: sendo fiel ao verdadeiro ensino, ajudar os diversos atores a viver o seu discipulado cristão.

  1. Oct 17

    A sabedoria de escolher

    Aceitar um trabalho noutra cidade pode melhorar a vida de uma família. Mas também pode tornar mais difícil acompanhar um pai que envelhece. Ficar pode preservar essa proximidade, mas fechar uma oportunidade importante. Antes de sabermos qual é a escolha mais prudente, há algo a reconhecer: nem sempre decidimos entre um bem e um mal. Por vezes, dois bens pedem-nos coisas que não conseguimos cumprir ao mesmo tempo. Precisamos de informação rigorosa para compreender estas situações. Conhecer os recursos disponíveis, antecipar consequências e procurar alternativas pode desfazer dilemas que pareciam inevitáveis. Uma decisão também amadurece quando descobrimos que a escolha foi mal formulada. Repartir os cuidados, alterar um horário ou negociar outras condições talvez permita conciliar o que julgávamos incompatível. O discernimento exige este trabalho. Invocar a complexidade não o substitui. Há, contudo, conflitos que resistem ao melhor esclarecimento. Podemos conhecer razoavelmente as consequências e continuar sem uma solução que preserve tudo. A dificuldade já não resulta apenas do que ignoramos. Nasce da pluralidade dos bens que reconhecemos e dos limites concretos da nossa vida. A inteligência continua a ser necessária. Mas a decisão pede uma sabedoria capaz de ponderar o que cada possibilidade realiza e aquilo a que obriga a renunciar. É tentador resolver essa inquietação desvalorizando o caminho abandonado. Quem parte pode convencer-se de que a presença familiar era dispensável. Quem fica pode declarar que a oportunidade profissional nada valia. Assim, a escolha parece deixar de ter custos. Mas a serenidade obtida à custa dessa falsificação empobrece o juízo. O bem a que renunciamos não perde necessariamente o seu valor por termos escolhido outro. A sabedoria começa por suportar esta verdade, sem fazer dela uma condenação. Reconhecer uma perda não demonstra que decidimos mal. Pode revelar que compreendemos melhor o alcance da decisão. Também não basta ter sofrido para adquirir justeza de juízo. A experiência pode ensinar ou endurecer. E os afetos tanto esclarecem como encobrem. Os afetos precisam de ser interrogados, sobretudo quando nos oferecem razões demasiado convenientes para aquilo que já desejávamos. Esta exigência impede que nos atribuamos a qualidade de sábios para encerrar a discussão. Quem vive as consequências de uma escolha pode reconhecer nela algo que nos escapou. Escutar essa pessoa permite rever os pressupostos e identificar sacrifícios que poderiam evitar-se. Permite também perceber se distribuímos os encargos de forma justa. Uma renúncia pode parecer mais leve quando é outro a suportá-la. Importa, porém, não transformar qualquer injustiça num conflito respeitável entre valores. Há direitos que uma vantagem coletiva não autoriza a ignorar. E há perdas apresentadas como inevitáveis que resultam apenas de não se terem procurado alternativas. A prudência precisa de razões que possam ser discutidas. E precisa de atenção ao que efetivamente acontece. A palavra «sabedoria» não dispensa essa prova. Também as instituições precisam desta lucidez. Uma reorganização pode melhorar um serviço. Mas pode também reduzir a proximidade de que algumas pessoas beneficiavam. Se a apresentação dos resultados só admitir ganhos, essa perda desaparece da discussão antes de desaparecer da vida. Reconhecê-la não invalida automaticamente a reforma. Permite avaliar melhor o seu custo e procurar modos de preservar algo do bem sacrificado. A sabedoria ajuda-nos, assim, a escolher sem fingir que dispomos de uma vida ilimitada ou de uma escolha sem perdas. Não promete a tranquilidade de acertar sempre. Sustenta a atenção ao bem que uma escolha necessária deixou por realizar. Quem partiu continuará a procurar formas de estar presente. Quem ficou poderá abrir outros caminhos para o seu futuro. A decisão foi tomada, mas permanece alguma coisa por cuidar.

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O substantivo “didascália”, no Novo Testamento, significa “ensino”. Entendido quer como ensino ou instrução em geral (cf. Mt 15, 9); quer como ensino conforme à doutrina dos Apóstolos (cf. 1Tm 15, 7). Foi este último caso que mais nos inspirou. Atualmente, “didascália” significa também as anotações que numa peça ou guião, não fazendo parte do diálogo, servem para dar instruções aos atores, encenador, cenógrafo ou outros intervenientes na produção. É este o objetivo deste podcast: sendo fiel ao verdadeiro ensino, ajudar os diversos atores a viver o seu discipulado cristão.