GUINHO Eu sempre fui atirado, perguntador. Lá no primeiro dia da creche lembro-me que estava eu a um tanto já de minha mãe que assuntava qualquer coisa com uma outra que eu nunca tinha visto. Eu corria o olho e anotava tudo, tão novo aquilo. Atrás de uma mulher alta, muito alta que vestia calças que não eram de jeans estava o outro menino. Outro além de mim entre tantos. Mas esse me chamou a atenção, fitava-me com um terço só de um olho pela perna cumprida da mãe. - Como você se chama? O terço de olho se arreganhou e na sequência derrubando a beiçolinha rubi desenhada na cara redondinha e branca que só pão descansando, esperando pra ir ao forno. “O nome é Wagner.” Acudiu a mãe vara pau. Wagner! Não podia ser. O pai da Natalia do andar de cima ao nosso era Wagner. Wagnão segundo a Cida, mulher dele que sempre esquecia a chave e o chamava em baixo da nossa lavanderia. “Wagner não é nome que uma criança possa ter”, encaraminholei. Cheguei a cobra-lo disso na estreia do lanchinho na creche. Mas o que ele podia fazer! Não foi consultado. “E o seu?” - Fábio!. Tá certo lá que se tinha adulto com esse nome que era até cantor. Mas servia, funcionava. Wagner não. Ele me deixou de canto e foi sofrer na outra ponta. Como uma criança improvisada com o agasalho do avô que lhe roubava as mãos. Na mesma semana tinha lá com a gente, a filha da dona Mirtes, dona da escolinha. Tinha os olhos verdes vivos e o cabelo curto e loiro perfeitamente desarrumado. Coisa que eu só fui encontrar de novo no cinema depois de grande. O caso é que ela, mesmo adolescida, ajudava no pastoreio da meninada. E por estar entre nós, os pequenos e os adultos na idade, fazia algumas pontes interessantes. Para minha surpresa ela também se surpreendeu quando leu na lancheira do garoto “Wagner”. - Wagner! Nossa, pesado esse nome pra criança. Eu não tinha esse recurso na época mas entendi bem e concordei na hora. Foi daí, como uma fada de filme de desenho americano que ela fez sua mágica. O rebatizou-o. Sacudiu o condão e proferiu: Wagner, wagninho... gninho... Guinho! Pronto, estava salvo. Agora corria feliz e solto no pátio, com os coleguinhas gritando” Guinho, guinho, guinho..” Até passar a bola. Lembrei disso porque na fila do caixa do banco lá estava eu anotando tudo e anotei o nome na targeta de plástico que tinha o nome do funcionário. Wagner. O caixa que me atendeu foi o do lado. Vanessa. Devia dez, dei cinquenta, a gaveta não deu conta. Vanessa se estica e solicita ao vizinho. - Guinho, troca pra mim, uma de dez, duas de vinte. FBarella