Operação Mar Verde: quando Portugal invadiu Conacri

RFI Português

Uma noite que marcou a história ! Em Novembro de 1970 Portugal invadiu Conacri, por algumas horas numa operação secreta até hoje envolta em mistério. Mais de meio século depois a RFI falou com ambos os lados. Acompanhe aqui, nomeadamente, os relatos de responsável da marinha portuguesa, por detrás do ataque, e o da viúva de Amílcar Cabral, testemunha dos factos. "Operação Mar Verde" é uma série de 3 episódios de Miguel Martins.

Episodes

  1. 09/19/2024

    3/3: Desfecho e consequências da "Agressão portuguesa" de Conacri

    Perante um sucesso muito relativo da operação a Conacri choveram as reacções. Como Sékou Touré e Portugal geriram o choque desta operação relâmpago e que consequências teve ela em relação à luta pela independência da Guiné-Bissau ? Acompanhe aqui as respostas. Terminamos aqui a série de três episódios consagrados à Operação Mar Verde. Começámos por ver como os dissidentes da Guiné francófona se aliaram ao regime colonial português em Bissau para tentar precipitar o fim do regime de Sékou Touré e como o plano secreto foi preparado e executado há mais de meio século. Destaque agora para o desfecho e as consequências desta operação lendária levada a cabo em Conacri a 22 de Novembro de 1970. Na linha de mira de Lisboa estavam os apoios de que o PAIGC beneficiava na capital daquela que tinha sido no passado a Guiné francesa. O Partido Africano para a independência da Guiné e Cabo Verde tinha, aí efectivamente, a sua base, em Conacri. Ana Maria Cabral, viúva de Amílcar Cabral, o líder do PAIGC, que viria a ser assassinado em Janeiro de 1973, viveu na primeira pessoa o ataque. Ela admite ter escapado por um triz e revela-nos aqui um testemunho exclusivo sobre como tudo aconteceu. Estivemos por um triz e só não morremos por sorte ! Estávamos a dormir e eu acordei com aquele barulho ! Fui acordar os meus filhos e já tinham bombardeado, atirado um obus para nossa casa. E o obus caiu na casa de banho. A casa toda tremeu ! Então estava eu sozinha em casa com os meus filhos. Só tive tempo de chamar os meus camaradas, os guardas que foram por trás e disseram: "Apanhe os seus filhos e sai. Sai, sai, sai, sai, sai"! Saímos e andámos ali pelo mato até que de manhãzinha. E alguns camaradas, como a Embaixada do Vietname ficava ali perto, foram pedir à Embaixada do Vietname para lá ficar. Mas depois acabámos...porque naquela altura existia ainda a União Soviética e tinha uma enorme embaixada que chamavam de "Petit Moscou". Acabámos por nos refugiar ali porque os vietnamitas, coitados, não podiam. Era uma coisa muito simples, a embaixada deles não tinham possibilidade. Ficámos lá até ao regresso do Amílcar Cabral, que nos tirou de lá. A nossa casa ficou completamente danificada. Houve muitos estragos e rebentaram com pelo menos a parte da frente da nossa casa. Ao lado ficava o secretariado. Era tudo a mesma coisa. Era só um prédio. Aquilo foi mesmo... Nós não morremos por sorte porque eles bombardearam... Se tivessem bombardeado mais para a frente, tinham-nos apanhado no quarto. E então um obus... Até quando se reconstruiu a casa, o Amílcar pediu que deixassem lá aquele buraco que entrou na casa de banho como recordação do obus, porque caiu mesmo ao lado do meu quarto.  Um dos principais alvos da operação lusa acaba por fracassar. Amilcar Cabral nem se encontrava em Conacri na altura e por isso não foi apreendido. Ele não estava. Ele estava na Europa. Nessa altura a Europa estava dividida. Havia os países capitalistas e os países chamados socialistas. Então e ele estava num desses países a solicitar ajuda ou quê.Porque nós não fabricávamos armas, não é?   As seis embarcações portuguesas deixam rapidamente Conacri sem conseguir derrubar Sékou Touré, nem prender Amílcar Cabral. O relato da retirada é-nos feito por Costa Correia, o comandante da lancha de desembarque Montante, uma das seis embarcações portuguesas que protagonizaram a "Mar Verde". Não tínhamos consciência se havia ou não aviação militar. O facto é que realmente houve pelo menos um voo de um dos aviões da Guiné-Conacri que sobrevoou Conacri e ainda disparou contra navios mercantes, um navio mercante, creio eu. Já estávamos nós a navegar e isso ocorreu. Poderia, eventualmente, efectivamente ter sido contra um dos navios invasores, digamos assim. Isso não aconteceu. Não se sabe bem porquê. Dizem que os pilotos dos aviões ainda tinham pouco treino, mas o facto é que houve realmente uma sobrevoo, talvez cerca das 10 horas da manhã, já estavam os navios em formação de retirada. Mas houve ainda um avião que sobrevoou Conacri e que disparou. Não se sabe bem como nem porquê contra um navio mercante e fez até alguns danos, segundo creio.   Se falharam várias das metas definidas por Lisboa naquela operação, obteve-se, porém, naquela noite, a libertação dos presos portugueses nas instalações do PAIGC em Conacri, como admite Ana Maria Cabral. A única coisa que eles conseguiram foi libertar os fuzileiros portugueses.  Porque tínhamos uma casa que ficava, assim, numa colina. Como na Guiné praticamente não há montanhas, a nossa gente chamava aquilo "A montanha", mas aquilo era mais uma colina do que uma montanha. Mas enfim, pronto !   No entanto, os presos portugueses soltos recebem instruções sobre a versão que podem contar. E isto por causa do carácter secreto da operação. Como testemunha do novo, o comandante de Mar e guerra luso Costa Correia. Houve instruções para os prisioneiros dizerem que tinham sido eles mesmo que tinham fugido da prisão. A versão oficial que eram obrigados a dar às famílias, etc.: Que tinham fugido da prisão e tinham chegado à fronteira ! Evidentemente que ninguém acreditou nisso. E, naturalmente, pelas declarações dos prisioneiros, dos comandos africanos que ficaram prisioneiros... A Comissão de Investigação da ONU, que foi logo lá, foram claras, dando os pormenores todos e referindo que a operação tinha sido feita com os meios fornecidos por Portugal. Como é evidente. Portugal até hoje nunca admitiu ter sido o responsável pela Operação Mar Verde. O comandante Costa Correia duvida de que essa posição venha a ser alterada mais de 50 anos após os acontecimentos. Portugal formalmente, duvido que vá tomar a iniciativa de dizer: "Sim, senhor, fomos nós." Não é porque é despropositado. Se Portugal fosse interrogado formalmente por um organismo internacional sobre isso... Naturalmente até tinha que socorrer-se dos documentos publicados na própria Organização das Nações Unidas. Eram suficientes para se confirmar que Portugal tinha conseguido a operação. E que se a operação não tinha tido mais sucesso também foi por falha dos serviços de informações militares da polícia política portuguesa. A Direcção-Geral de Segurança (DGS) que também era conhecida por PIDE [Polícia internacional e de defesa do Estado], o seu nome anterior... Que não teve capacidade suficiente para dar informações apropriadas que levassem à ponderação cuidada sobre as vantagens e inconvenientes de uma operação daquele tipo. Sékou Touré não caiu, pois, nesta intentona fomentada entre Lisboa e os opositores guineenses da FLNG. O homem forte de Conacri, o único dos antigos territórios africanos franceses, a ter dito não no referendo de de Gaulle, precipitando a independência da República da Guiné, vai mesmo descartar qualquer compensação pelos estragos causados pela intervenção portuguesa de Novembro de 1970. Como relatou ao comandante português Costa Correia, um dos elementos da oposição guineense da FLNG. Sékou Touré aproveitou aquela circunstância e não só. Até para uma eventual missão da ONU que tinha recebido a incumbência do Conselho de Segurança de se dirigir à Guiné-Conacri para estabelecer os valores das indemnizações a reclamar a Portugal por aquele ataque. Sékou Touré disse em carta ao secretário-geral que não desejava indemnizações nenhumas. O que ele desejava, sim, era que Portugal fosse obrigado a conceder a independência aos territórios portugueses todos. E, portanto, essa carta, aliás, nunca circulou muito em Portugal. Hassan Assad, por acaso, em Paris, deu-me conhecimento da existência dessa carta. Era um argumento que se dizia em Portugal, nos meios militares e políticos também... Que Portugal deveria sempre dizer oficialmente que nunca tinha participado na operação, apesar de ter havido a sua carta de Sékou Touré que não teve publicidade em Portugal praticamente nenhuma.   Esta operação secreta validada pelo general Spínola, governador da vizinha então Guiné Portuguesa e obviamente pelo regime de Marcello Caetano da altura, poderá ter permitido ao PAIGC obter maiores apoios para a sua luta contra o exército de Lisboa. Do novo o testemunho de Ana Maria Cabral. Há anos que o Cabral pedia as suas listas, nas suas conversas e eu assisti alguma vez. Algumas vezes fui testemunha em Moscovo, pedia esses mísseis, não sei o quê. Mas eles ficavam, os militares, diante do mapa da Guiné e argumentavam "'Não sei quê, não sei quê." Mas quando foi o Sékou Touré mexeu-se ! Sempre conseguiu que uma delegação da ONU fosse lá constatar. Porque eles conseguiram destruir um dos palácios do Sékou Touré. Só que ele não estava lá. O objectivo era destruir também o regime do Sékou Touré e derrubar o presidente e tal. Como não conseguiram o Sékou Touré fez muito barulho. A ONU teve de mandar uma delegação do Comité de descolonização. Agora tem graça uma das pessoas que era membro dessa delegação era o Abdelaziz Bouteflika. Que foi presidente da Argélia ainda há pouco tempo e de maneira que me lembro dele, ainda jovem, extremamente jovem. Estou a ver o rosto dele.   O PAIGC vai intensificar a guerra com meios mais sofisticados, nomeadamente mísseis. Lisboa ficará, ainda assim, numa aposta exclusiva na via militar para lidar com a luta de libertação do PAIGC. José Matos é um dos autores do livro "Ataque a Conakry História de um golpe Falhado", publicado em Março de 2021 em Portugal pela editora Fronteira do Caos.   O [general português] Spínola, a partir de 1970, com o resultado da Operação Mar Verde, claramente vê-se que muda de opinião. Aliás, o livro tem um capítulo sobre o pós operação, onde claramente há uma reunião no Conselho de Defesa Nacional de 71, poucos meses depois da operaç

  2. 09/19/2024

    2/3: Objectivo Conacri, visar o PAIGC e SékouTouré

    O objectivo da operação comandada por Portugal era visar o PAIGC e SékouTouré. Acompanhe aqui o relato das operações de 22 de Novembro de 1970 com todos os lados implicados nesta operação relâmpago secreta a Conacri, uma noite lendária que ficou para a História. A RFI continua a explorar os meandros da Operação Mar Verde e a invasão a 22 de Novembro de 1970 de Conacri numa operação militar secreta portuguesa com o apoio de dissidentes da República da Guiné.Para além de se visar o regime de Sékou Touré na linha de mira de Lisboa estava o PAIGC que beneficiava em Conacri da sua principal base de actuação. É verdade que desde 1963 os portugueses não têm tréguas com os ataques da guerrilha. Alexandre Carvalho Neto, secretário do governador da então Guiné portuguesa, o general Spínola, no final dos anos 60, testemunhava à RTP, a dimensão que a guerra contra o PAIGC tinha vindo a assumir. Eu cheguei a Bissau e ouvia-se regularmente, não direi todos os dias, mas pelo menos todas as semanas,  ataques a Tite, que era do lado de lá do rio Geba. Nós ouvíamos os ataques. Do outro lado dessa guerra, o PAIGC, na voz de Francisca Pereira, admitia que a frente Sul, contígua à Guiné Conacri, era palco das maiores operações da sua guerra de libertação e a respectiva repressão pelos portugueses. Não foi nada fácil. Foi o período de grande bombardeamento, grande assalto na Frente Sul. Eu assisti a assaltos terríveis que fechava a nossa entrada da fronteira da Guiné-Conacri, onde nós nos abastecíamos. Prender o brilhante engenheiro agrónomo que lidera o PAIGC, Amílcar Cabral, através de uma incursão a Conacri que permitiria aniquilar os meios navais do movimento e libertar os presos portugueses ali detidos torna-se uma ideia que acaba por seduzir o general Spínola. 26 presos portugueses estavam detidos em Conacri pelo PAIGC, incluindo o sargento-aviador António Lobato, o preso mais antigo da guerra dita colonial, detido há sete anos, um verdadeiro símbolo. Numa entrevista a Carol Valade ele descrevia as condições da sua detenção em Conacri. É indescritível. A minha cela tinha um bloco de cimento com um colchão de palha em cima e dois baldes: um balde com água que servia para me lavar e, se eu quisesse, para beber, e um outro balde exactamente igual, para fazer as minhas necessidades. O general Spínola, não obstante a sua política “Por uma Guiné melhor” como governador do território não consegue nem convencer Lisboa de qualquer negociação com Cabral nem tão pouco dizimar o PAIGC que granjeia cada vez mais apoios internacionais, adquirindo cada vez mais armamento sofisticado. O comandante de mar e guerra português Costa Correia, que comandou um dos seis navios que vão participar na operação, comenta o que terá acabado Spínola por se deixar convencer perante uma operação como a Mar Verde.   Em 1969 houve uma tentativa do general Spínola de, verificando que era muito difícil obter uma vitória militar plena na Guiné-Bissau, tentou chegar à fala com o PAIGC, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. E, inclusivamente, encarregou três majores e um alferes do Exército português de entrarem em contacto com dirigentes do PAIGC, no sentido de obter um acordo militar que neutralizasse uma parte dos opositores ao regime. Simplesmente, houve, talvez intenções subjacentes nas cúpulas do PAIGC que levaram a que os majores fossem assassinados quando se dirigiam para o local do encontro. E o general Spínola, que era grande amigo deles e que os considerava excelentes oficiais, ficou realmente indignado. E a partir daí, assim, a atitude dele ao chegar a uma solução pré-política terá mudado e então tornou-se mais receptivo à ideia que Alpoim Calvão lhe apresentou. No sentido de se concretizar um golpe de Estado na Guiné-Conacri, que apoiava muito mais o PAIGC do que propriamente o Senegal. E que nele estivesse incluída a libertação dos prisioneiros portugueses que estavam numa prisão em Conacri. Terá sido isso que, psicologicamente e politicamente, levou à mudança de atitude do general Spínola.   Enquanto isso o próprio Léopold Sedar Senghor, presidente do vizinho Senegal, teria recebido os opositores a Sékou Touré da FLNG a quem teria, mesmo, sugerido, que se entendessem com os portugueses para tentar derrubar o chefe de Estado da Guiné Conacri. A revelação consta do livro de José Matos “Ataque a Conakry: história de um golpe falhado” da editora Fronteira do caos. Eu encontrei aqui nos Arquivos Portugueses um documento que nos mostra uma reunião entre dois dirigentes importantes da Frente que vão a Dacar e que têm, de facto, uma reunião com o presidente Senghor. Onde claramente o presidente Senghor lhes diz que compreende a acção que vai ser tomada, ou pelo menos compreendem as intenções que existem de derrubar o Presidente Sékou Touré. E até chega mesmo a sugerir esses dois dirigentes do "Front" que procurem o apoio português para isso. E, portanto, há claramente uma cumplicidade grande do presidente Senghor com uma iniciativa deste género. Dado que também sabemos historicamente que o Presidente Senghor não morria de amores pelo presidente Sékou Touré. E, portanto, até é compreensível essa cumplicidade. O presidente disse que estava completamente alinhado com os regimes de Leste e nomeadamente com a União Soviética, e o presidente Senghor não tinha esse tipo de alinhamento. O secretismo vai imperar e o estratega da operação, o comandante Alpoim Calvão, obtém luz verde de Lisboa, do regime de Marcelo Caetano, apenas escassos dias antes. O relato é do comandante Costa Correia ! Foi a ideia, depois que o comando Alpoim Calvão conseguiu fazer passar não só ao general Spínola, como inclusivamente ao presidente do Conselho, o chefe do Governo português, Marcello Caetano. Creio que mesmo dois dias antes da operação, a luz verde, sinal afirmativo do governo para que essa operação secreta se concretizasse, foi obtido apenas dois dias antes da operação. Quando Alpoim Calvão foi a Lisboa procurar convencer o chefe do Governo, Marcello Caetano, das vantagens da operação. A partir da ilha de Soga, arquipélago dos Bijagós, na então Guiné portuguesa, seis navios camuflados com as cores do PAIGC, movimento armado que luta pela independência, comandados pelo estratega luso Alpoim Calvão fazem-se ao mar para invadir a capital da República da Guiné. Uma operação de um secretismo absoluto, a bordo circula só dinheiro da Guiné Conacri, todo e qualquer vestígio que pudesse permitir identificar os navios é destruído. O comandante Costa Correia dá-nos o detalhe da frota que tem como objectivo Conacri. Seis navios, quatro deles são lanchas de fiscalização grandes e dois lanchas de desembarque grandes. Eu comandava uma das lanchas de desembarque grandes, a Montante. São vários os alvos do punhado  de 250 homens: militares portugueses com rosto pintado de preto, comandos africanos do exército luso, mais os militantes da FLNG, da oposição da Guiné Conacri. Destruir os meios navais do PAIGC e da República da Guiné, bem como os aviões MIG da força aérea guineense, ocupar a central eléctrica para mergulhar Conacri na escuridão, libertar os presos portugueses detidos pelo PAIGC, prender Amílcar Cabral e levá-lo para Bissau, derrubar Sékou Touré e anunciar o golpe na rádio são alguns dos objectivos da operação. Os seis navios aguardam pela noite daquele sábado para intervir. Sékou Touré nem estava na sua residência que o grupo tem dificuldade em localizar, a rádio também não é tomada. O campo Boiro, esse sim, fica sob controlo dos assaltantes e os presos portugueses como António Lobato são soltos. Foi algo do surreal ! Fui alertado a meio da noite por um tiroteio que se aproximou rapidamente do local. E quase de imediato uma granada abriu um buraco numa janela condenada da sala onde me encontrava. Ouvi gritar o meu nome, tive a certeza absoluta de que estava ali a nossa gente ! Ismaïl Condé foi testemunha ocular do ataque naquela madrugada e conta a Carol Valade a surpresa dos habitantes de Conacri. O ataque ao campo Boiro começou com o explodir de granadas ofensivas, como se costuma dizer. Com o detonar das armas e os gritos que se ouviam. Depois alguém... não sei se ele tinha binóculos ?...Alertou. "Há aí uns barcos, há aí uns barcos !" Um dos grandes fiascos da operação prendeu-se com o facto de os MIG, os aviões da força aérea guineense, que se pretendia neutralizar, para ficar a salvo de qualquer perseguição eventual, não estarem estacionados no aeroporto. Comandante Costa Correia   Seria essencial se os meios tivessem sido destruídos ! Que os comandos africanos, nomeadamente e a FLNG, tivessem continuado em terra mais algum tempo ! O tempo suficiente para que a ocupação do poder se concretizasse. O grupo de combate invasor, digamos assim, que tinha como missão encontrar e destruir os MIG, os aviões de combate, da República da Guiné. Quando chegou ao aeroporto e viu que não estavam a partir daí, assim, o conceito da operação mudou logo. Obviamente teve que ser uma operação a assegurar uma retirada. Porque seria um grande desastre se os MIG estivessem operacionais, noutra base, e capazes de aniquilar algum dos navios ainda enquanto estivesse perto das águas territoriais, de modo a poderem ser capturados pessoal, etc, etc. A partir desse momento, o Comandante Galvão não teve outra alternativa que não fosse reorientar o conceito de operação para uma retirada, naturalmente procurando pelo menos salvar ou recolher os prisioneiros portugueses.   Muitos dos objectivos não serão alcançados. Na rádio Sékou Touré promete que a batalha só agora começou ! Barcos estrangeiros ainda se encontram estacionados nas nossas águas territoriais. Centenas e centenas de mercenários europeus, de múl

  3. 09/19/2024

    1/3: Portugal e a oposição a Sekou Touré unem-se para levar a cabo "Mar Verde"

    Uma estranha aliança implicando, de um lado, o regime de Lisboa, com dificuldades em lidar com os ataques das tropas do PAIGC, na então Guiné portuguesa, e, do outro lado, a oposição a Sékou Touré, presidente da República da Guiné, dá corpo à Operação "Mar Verde". A RFI em Português levou a cabo uma investigação que permitisse levantar um pouco o véu sobre uma noite lendária na história da capital da jovem República da Guiné. E isto tendo como base, para além de documentos de arquivo, de alguns trabalhos anteriores alusivos da RFI, tanto em português, como em francês, de Carol Valade e de Laurent Correau. Porém este trabalho articulou-se, sobretudo, em torno das entrevistas realizadas ao comandante português de mar e guerra, Costa Correia, que chefiou uma das seis embarcações lusas na operação, e a Ana Maria Cabral, viúva do líder do PAIGC. Um e outro foram testemunhas, em lados opostos, dos acontecimentos de Conacri. Uma operação com mais de meio século que mereceu desde 2014 uma obra de Bilguissa Diallo em França, entretanto reeditada em 2021. Nesse mesmo ano, mas em Portugal uma outra obra alusiva foi lançada. “Ataque a Conakry: história de um golpe falhado” de José Matos e Mário Matos Lemos. José Matos que partilhou connosco as revelações a que chegou no decurso da sua investigação. Este foi, pois, o quadro da série de três episódios que realizámos, com difusão na RFI em Português em 2021, cujo texto aqui anexamos. 1° Episódio: Operação Mar Verde : Portugal e a oposição a Sekou Touré unem-se para levar a cabo "Mar Verde" A RFI começa aqui uma série de reportagens sobre a Operação Mar Verde. Mar Verde foi o nome de código de uma operação secreta levada a cabo pelas forças portuguesas contra o poder da Guiné Conacri a 22 de Novembro de 1970 e que conta, pois, com pouco mais de meio século. Começamos aqui por tentar penetrar nas redes tecidas entre Portugal e a Guiné Conacri para consumar o plano. Em foco, antes de mais, a vertente relativa à Guiné Conacri. Esta foi uma operação lendária,  que foi alvo da publicação recente de dois novos livros, aliás, um em França de Bilguissa Diallo, outro em Portugal de José Matos. Este último, co-autor do livro “Ataque a Conakry: história de um golpe falhado”, publicado pela editora Fronteira do Caos,  alega que esta é uma operação ímpar. "A Mar Verde é, no contexto da Guerra de África, uma operação única."   A Mar Verde é, no contexto da Guerra de África, uma operação única porque é a única vez, na longa História da guerra, que Portugal invade um país vizinho. Neste caso a capital de um país vizinho, com um objectivo estratégico em mente. Não era o único, mas era, digamos, o objectivo mais importante da operação que é promover um golpe de Estado, e tentar substituir o regime que existia nesse país. Neste caso na República da Guiné, liderada pelo presidente Sékou Touré. E portanto esta operação é também uma operação lendária e é uma operação que, no contexto daquela guerra, não tem outra igual, noutro sítio. Nem em Angola, nem em Moçambique aconteceu algo de parecido, com uma operação desta dimensão e com este tipo de características! José Matos, que é um investigador português em História militar e autor de uma série de obras, inclusive em inglês, sobre as guerras do antigo Ultramar português em Angola e Moçambique, e, sobretudo, na actual Guiné-Bissau. Ele que colaborou também com Bilguissa Diallo, antiga jornalista em França,  que publicou em 2021 junto da editora L’Harmattan o livro “Guinée, 22 novembre 1970, opération Mar Verde”. Bilguissa Diallo, em entrevista a Laurent Correau, acerca da Operação Mar Verde, descartava o facto de que os opositores da Guiné Conacri, que nela participaram, estivessem a soldo do regime colonial português. A autora editou uma nova edição de um livro sobre o caso. Eram pessoas que gostavam do seu país e que não estavam de todo à mercê nem do neo-colonialismo nem do imperialismo. Ela que é também a filha de Ibrahima Thierno Diallo, mentor de um partido de dissidentes guineenses. A FLGN, Frente de libertação nacional da Guiné, que esteve por detrás deste golpe com o regime português. Se o golpe tivesse sido bem sucedido, com o derrube do presidente Sékou Touré, da Guiné, vigente desde 1958, seria Diallo a suceder-lhe no cargo. Ibrahima Thierno Diallo, num registo de arquivo da RTP, Rádio e televisão de Portugal, compilado, como os demais neste trabalho, por Carol Valade, explicava que o seu combate se prendia com a defesa da liberdade do seu país e denunciava de forma contundente o regime de Sékou Touré. No que diz respeito à causa pela qual me bato, junto da Frente de libertação nacional, luto para que todos os cidadãos da Guiné possam viver livremente, dentro do meu país. E queremos demolir a ditadura de Sékou [Touré], queremos demolir esta ditadura desumana e satânica. Queremos estabelecer uma democracia real à escala do nosso país. Bilguissa Diallo, a autora de dois livros em França, sobre esta operação levada a cabo por Portugal, com a participação activa de opositores ao regime de Sékou Touré, explica quem foram os autores daquela que na Guiné Conacri passou a ser conhecida em 1970 como a “Agressão portuguesa”. Uma parte destes homens eram dissidentes guineenses, outra parte eram militares portugueses e afro-portugueses. Na altura Portugal estava em guerra contra a rebelião do PAIGC e o comando do PAIGC estava implantado em Conacri. Alpoim Calvão, capitão de mar e guerra, foi o estratega da operação a partir de território da então Guiné portuguesa. Ele conta como é que a FLNG se juntou a uma operação de Lisboa visando, sobretudo, beliscar a base de retaguarda do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, activo a partir da Guiné Conacri. Na altura foi-me dado conhecimento de que havia um grupo de exilados guineenses, que constituíam a Frente nacional de libertação da Guiné, que já estavam em contacto com o governo português há bastante tempo, e que pediam o apoio para fazer uma acção militar contra o Sékou Touré. Íamos fazer uma operação numa tentativa de golpe de Estado à qual demos treino e armamento.No entanto, durante anos, Portugal faz orelhas moucas aos contactos dos opositores a Sékou Touré, revelações que constam do livro de José Matos ! Nós constatámos, pelos documentos consultados, que, desde os primeiros contactos em 1966, e que são contactos que são estabelecidos até com autoridades da Guiné portuguesa, na altura, em Bissau… Há uma grande reserva das autoridades portuguesas e até do governo português, nomeadamente do Ministério dos negócios estrangeiros, que estava mais… e do Ultramar também, relativamente à verdadeira capacidade do “Front” [da Frente] fazer uma acção bem sucedida contra o presidente Sékou Touré. Constatámos depois que, em 1969, há uma mudança de opinião. Ou seja, de repente, nós constatámos que aquelas reservas que existiam, quanto a um apoio desse movimento, mudam. E há de facto, claramente, um apoio que chega à operação Mar Verde. Como é que foram estabelecidos estes contactos até Lisboa se deixar convencer pela FLNG para tentar, simultaneamente, neutralizar o PAIGC, para se procurar inverter o curso da guerra na então Guiné portuguesa ? Um dos actores deste ataque numa noite de sábado de Novembro de 1970 a Conacri foi o comandante português de mar e guerra Costa Correia. Ele comandava uma das seis embarcações que invadiram a capital da República da Guiné e conta como decorreram os preparativos desta operação. A ideia terá surgido, talvez em 1968, aproximadamente. Foi, depois, sendo preparada com algumas incursões: viagens de alguns navios de guerra portugueses, a recolher opositores da FLNG , ou também outros… mas, de qualquer maneira, sob o chapéu da FLNG. E, transportá-los, então, para a Ilha de Soga, na então colónia da Guiné-Bissau, para receberem alguma formação, adestramento, equipamento, material, etc. E isso já num prazo relativamente mais curto, antes de Novembro de 1970. Houve duas fases: uma fase de preparação e concepção da operação, outra preparação dos elementos necessários. Dos quais era muito importante para o desencadear da operação a colaboração da FLNG e, depois, na parte imediatamente anterior, talvez dois ou três meses,  a reunião do material, os equipamentos, tudo isso… Conjuntamente, talvez, com dois meses de preparação do pessoal recrutado para a operação. Lisboa, na altura, lutava em três frentes simultâneas: Angola, Moçambique e Guiné para manter os seus territórios ultramarinos em África, não obstante a queda dos territórios de Goa, Damão e Diu, recuperados em 1961 pela Índia. No entanto é este mesmo regime que consegue como aliado a FLNG apostada no derrube do regime de Sékou Touré. Como se organizavam os opositores ao senhor todo poderoso de Conacri ? Eis as respostas de novo com Bilguissa Diallo: A FLNG é um partido que se compunha, na realidade, de quadros da diápora guineense radicados, na sua maioria em Dacar, mas também em Abidjã, alguns dentre eles em Paris. Eles organizam-se, pois, a partir dos países limítrofes.  José Matos comenta o perfil daquele que pretendia assumir a chefia do poder em Conacri derrubando o emblemático Sékou Touré. Touré que, recorde-se, foi o único que em África disse “não” ao general francês de Gaulle que propunha uma comunidade franco-africana, precipitando a independência da Guiné francófona em 1958. O comandante Diallo, pai da Bilguissa, de facto, era um homem que tinha, relativamente ao seu país, uma grande vontade de mudança. Era um homem que, de facto, detestava o regime do presidente Sékou Touré, e era um homem que queria mudar o regime a

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