Uma estranha aliança implicando, de um lado, o regime de Lisboa, com dificuldades em lidar com os ataques das tropas do PAIGC, na então Guiné portuguesa, e, do outro lado, a oposição a Sékou Touré, presidente da República da Guiné, dá corpo à Operação "Mar Verde". A RFI em Português levou a cabo uma investigação que permitisse levantar um pouco o véu sobre uma noite lendária na história da capital da jovem República da Guiné. E isto tendo como base, para além de documentos de arquivo, de alguns trabalhos anteriores alusivos da RFI, tanto em português, como em francês, de Carol Valade e de Laurent Correau. Porém este trabalho articulou-se, sobretudo, em torno das entrevistas realizadas ao comandante português de mar e guerra, Costa Correia, que chefiou uma das seis embarcações lusas na operação, e a Ana Maria Cabral, viúva do líder do PAIGC. Um e outro foram testemunhas, em lados opostos, dos acontecimentos de Conacri. Uma operação com mais de meio século que mereceu desde 2014 uma obra de Bilguissa Diallo em França, entretanto reeditada em 2021. Nesse mesmo ano, mas em Portugal uma outra obra alusiva foi lançada. “Ataque a Conakry: história de um golpe falhado” de José Matos e Mário Matos Lemos. José Matos que partilhou connosco as revelações a que chegou no decurso da sua investigação. Este foi, pois, o quadro da série de três episódios que realizámos, com difusão na RFI em Português em 2021, cujo texto aqui anexamos. 1° Episódio: Operação Mar Verde : Portugal e a oposição a Sekou Touré unem-se para levar a cabo "Mar Verde" A RFI começa aqui uma série de reportagens sobre a Operação Mar Verde. Mar Verde foi o nome de código de uma operação secreta levada a cabo pelas forças portuguesas contra o poder da Guiné Conacri a 22 de Novembro de 1970 e que conta, pois, com pouco mais de meio século. Começamos aqui por tentar penetrar nas redes tecidas entre Portugal e a Guiné Conacri para consumar o plano. Em foco, antes de mais, a vertente relativa à Guiné Conacri. Esta foi uma operação lendária, que foi alvo da publicação recente de dois novos livros, aliás, um em França de Bilguissa Diallo, outro em Portugal de José Matos. Este último, co-autor do livro “Ataque a Conakry: história de um golpe falhado”, publicado pela editora Fronteira do Caos, alega que esta é uma operação ímpar. "A Mar Verde é, no contexto da Guerra de África, uma operação única." A Mar Verde é, no contexto da Guerra de África, uma operação única porque é a única vez, na longa História da guerra, que Portugal invade um país vizinho. Neste caso a capital de um país vizinho, com um objectivo estratégico em mente. Não era o único, mas era, digamos, o objectivo mais importante da operação que é promover um golpe de Estado, e tentar substituir o regime que existia nesse país. Neste caso na República da Guiné, liderada pelo presidente Sékou Touré. E portanto esta operação é também uma operação lendária e é uma operação que, no contexto daquela guerra, não tem outra igual, noutro sítio. Nem em Angola, nem em Moçambique aconteceu algo de parecido, com uma operação desta dimensão e com este tipo de características! José Matos, que é um investigador português em História militar e autor de uma série de obras, inclusive em inglês, sobre as guerras do antigo Ultramar português em Angola e Moçambique, e, sobretudo, na actual Guiné-Bissau. Ele que colaborou também com Bilguissa Diallo, antiga jornalista em França, que publicou em 2021 junto da editora L’Harmattan o livro “Guinée, 22 novembre 1970, opération Mar Verde”. Bilguissa Diallo, em entrevista a Laurent Correau, acerca da Operação Mar Verde, descartava o facto de que os opositores da Guiné Conacri, que nela participaram, estivessem a soldo do regime colonial português. A autora editou uma nova edição de um livro sobre o caso. Eram pessoas que gostavam do seu país e que não estavam de todo à mercê nem do neo-colonialismo nem do imperialismo. Ela que é também a filha de Ibrahima Thierno Diallo, mentor de um partido de dissidentes guineenses. A FLGN, Frente de libertação nacional da Guiné, que esteve por detrás deste golpe com o regime português. Se o golpe tivesse sido bem sucedido, com o derrube do presidente Sékou Touré, da Guiné, vigente desde 1958, seria Diallo a suceder-lhe no cargo. Ibrahima Thierno Diallo, num registo de arquivo da RTP, Rádio e televisão de Portugal, compilado, como os demais neste trabalho, por Carol Valade, explicava que o seu combate se prendia com a defesa da liberdade do seu país e denunciava de forma contundente o regime de Sékou Touré. No que diz respeito à causa pela qual me bato, junto da Frente de libertação nacional, luto para que todos os cidadãos da Guiné possam viver livremente, dentro do meu país. E queremos demolir a ditadura de Sékou [Touré], queremos demolir esta ditadura desumana e satânica. Queremos estabelecer uma democracia real à escala do nosso país. Bilguissa Diallo, a autora de dois livros em França, sobre esta operação levada a cabo por Portugal, com a participação activa de opositores ao regime de Sékou Touré, explica quem foram os autores daquela que na Guiné Conacri passou a ser conhecida em 1970 como a “Agressão portuguesa”. Uma parte destes homens eram dissidentes guineenses, outra parte eram militares portugueses e afro-portugueses. Na altura Portugal estava em guerra contra a rebelião do PAIGC e o comando do PAIGC estava implantado em Conacri. Alpoim Calvão, capitão de mar e guerra, foi o estratega da operação a partir de território da então Guiné portuguesa. Ele conta como é que a FLNG se juntou a uma operação de Lisboa visando, sobretudo, beliscar a base de retaguarda do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, activo a partir da Guiné Conacri. Na altura foi-me dado conhecimento de que havia um grupo de exilados guineenses, que constituíam a Frente nacional de libertação da Guiné, que já estavam em contacto com o governo português há bastante tempo, e que pediam o apoio para fazer uma acção militar contra o Sékou Touré. Íamos fazer uma operação numa tentativa de golpe de Estado à qual demos treino e armamento.No entanto, durante anos, Portugal faz orelhas moucas aos contactos dos opositores a Sékou Touré, revelações que constam do livro de José Matos ! Nós constatámos, pelos documentos consultados, que, desde os primeiros contactos em 1966, e que são contactos que são estabelecidos até com autoridades da Guiné portuguesa, na altura, em Bissau… Há uma grande reserva das autoridades portuguesas e até do governo português, nomeadamente do Ministério dos negócios estrangeiros, que estava mais… e do Ultramar também, relativamente à verdadeira capacidade do “Front” [da Frente] fazer uma acção bem sucedida contra o presidente Sékou Touré. Constatámos depois que, em 1969, há uma mudança de opinião. Ou seja, de repente, nós constatámos que aquelas reservas que existiam, quanto a um apoio desse movimento, mudam. E há de facto, claramente, um apoio que chega à operação Mar Verde. Como é que foram estabelecidos estes contactos até Lisboa se deixar convencer pela FLNG para tentar, simultaneamente, neutralizar o PAIGC, para se procurar inverter o curso da guerra na então Guiné portuguesa ? Um dos actores deste ataque numa noite de sábado de Novembro de 1970 a Conacri foi o comandante português de mar e guerra Costa Correia. Ele comandava uma das seis embarcações que invadiram a capital da República da Guiné e conta como decorreram os preparativos desta operação. A ideia terá surgido, talvez em 1968, aproximadamente. Foi, depois, sendo preparada com algumas incursões: viagens de alguns navios de guerra portugueses, a recolher opositores da FLNG , ou também outros… mas, de qualquer maneira, sob o chapéu da FLNG. E, transportá-los, então, para a Ilha de Soga, na então colónia da Guiné-Bissau, para receberem alguma formação, adestramento, equipamento, material, etc. E isso já num prazo relativamente mais curto, antes de Novembro de 1970. Houve duas fases: uma fase de preparação e concepção da operação, outra preparação dos elementos necessários. Dos quais era muito importante para o desencadear da operação a colaboração da FLNG e, depois, na parte imediatamente anterior, talvez dois ou três meses, a reunião do material, os equipamentos, tudo isso… Conjuntamente, talvez, com dois meses de preparação do pessoal recrutado para a operação. Lisboa, na altura, lutava em três frentes simultâneas: Angola, Moçambique e Guiné para manter os seus territórios ultramarinos em África, não obstante a queda dos territórios de Goa, Damão e Diu, recuperados em 1961 pela Índia. No entanto é este mesmo regime que consegue como aliado a FLNG apostada no derrube do regime de Sékou Touré. Como se organizavam os opositores ao senhor todo poderoso de Conacri ? Eis as respostas de novo com Bilguissa Diallo: A FLNG é um partido que se compunha, na realidade, de quadros da diápora guineense radicados, na sua maioria em Dacar, mas também em Abidjã, alguns dentre eles em Paris. Eles organizam-se, pois, a partir dos países limítrofes. José Matos comenta o perfil daquele que pretendia assumir a chefia do poder em Conacri derrubando o emblemático Sékou Touré. Touré que, recorde-se, foi o único que em África disse “não” ao general francês de Gaulle que propunha uma comunidade franco-africana, precipitando a independência da Guiné francófona em 1958. O comandante Diallo, pai da Bilguissa, de facto, era um homem que tinha, relativamente ao seu país, uma grande vontade de mudança. Era um homem que, de facto, detestava o regime do presidente Sékou Touré, e era um homem que queria mudar o regime a