Uma família de classe média cercada pela fome, um hipopótamo bem alimentado no zoológico ao lado e motos negras que espalham terror pelas ruas: a Venezuela distópica de Zafari é mesmo ficção? O que faz uma sociedade chegar ao ponto de caçar animais de zoológico para não morrer de fome? E o que isso diz sobre populismo, autoritarismo e o fim de qualquer ética possível? Neste episódio de La Mezcla, eu converso com a cineasta Mariana Rondón, diretora de Zafari, filme que usa a história de um hipopótamo esquartejado em Caracas para encarar de frente o colapso venezuelano – sem caricatura, sem panfleto e sem poupar ninguém. Falamos sobre: Como quase 30 anos de chavismo e madurismo desmontaram a vida cotidiana, a cultura e o cinema na Venezuela. A escolha de acompanhar uma família branca de classe média, num prédio quase vazio, para mostrar que o desespero iguala todas as classes “no pior dos lugares”. O hipopótamo que come enquanto a cidade passa fome – metáfora de um poder que se alimenta do colapso coletivo. As motos negras e os “colectivos”: milícias em duas rodas usadas para amedrontar quem ousa protestar ou votar diferente. A experiência de fazer cinema em diáspora, sob ameaça de ser chamada de “traidora da pátria” e de enfrentar até 30 anos de prisão. O que é ser latino-americana hoje, entre Bad Bunny no Super Bowl, governos autoritários e guionistas da vida real que fazem Black Mirror parecer conto de fadas. É um papo político, feminista e profundamente latino-americano, que incomoda porque nos obriga a perguntar: o que você faria em uma situação de barbárie? Julgaria de fora ou reconheceria que qualquer um de nós pode ser quebrado pela fome e pelo medo? Dicas culturais do episódio Para você que quer se aprofundar nesse universo distópico (e real) da América Latina, anota aí: 🎬 Filme Zafari – longa de Mariana Rondón, sobre uma família de classe média cercada pela crise, um hipopótamo bem alimentado e uma cidade que pode ser Caracas ou qualquer metrópole latino-americana em colapso. Em cartaz em salas selecionadas; confira programação local ou plataformas de cinema independente. 🎬 Filme Pelo Malo – outro trabalho marcante de Mariana Rondón, em que ela já confronta racismo, corpo e autoritarismo na Venezuela, a partir de um menino de cabelo “ruim”. Disponível em plataformas de VOD especializadas em cinema latino-americano (procure por “Pelo Malo streaming”). 🎬 Filme Postales de Leningrado – homenagem à sua família de esquerda e despedida de uma certa ingenuidade política, em que guerrilha, memória e infância se misturam numa narrativa lúdica e dura ao mesmo tempo. 🍽️ Ceviche peruano – Mariana vive hoje no Peru e descreve o ceviche como uma das experiências mais democráticas e inclusivas que existem: simples, acessível e possível mesmo sem gás e sem luz, só com peixe, limão, sal e cebola. Se tiver por São Paulo, vale buscar cevicherias peruanas da nova leva; se estiver em Lima, mergulhe sem medo na cena local. Se esse tema mexe com você, compartilhe o episódio, marque aquele amigo que só fala “vai virar Venezuela” sem nunca ter escutado um venezuelano, e vamos aprofundar o debate para além dos estereótipos de direita e de esquerda. Siga La Mezcla em todas as plataformas e ajuda a espalhar essa conversa: Instagram: @lamezclapodcast Ouça em: Spotify, Amazon Music, YouTube e principais plataformas de áudio. Apoie em: apoia.se/lamezclapodcast – com qualquer valor você fortalece essa mistura e ainda entra numa lista exclusiva no WhatsApp com notícias e dicas culturais latino-americanas. Agradecimentos Agradecimentos especiais: Música gentilmente cedida por La Soleá. Voz da vinheta de abertura: Carol Romano. Edição: Miriam Soares. Vinhetas do episódio: Jarabe de Palo.