O Salão de Bailes, tal como a maioria das coisas que as minhas falangetas e neurónios dão à luz, nasce da necessidade. Resume-se a isto: pôr a fome em discurso. Careço de pachorra para o inferno do mesmo instalado na comédia e em outros tantos ateliers onde nem sequer há vontade de semear bigodes nas convenções. A Mona Lisa atravessa com o vagar de personagem de acção numa cena de explosões um corredor prenhe de artistas contemporâneos e sai imaculada. Talvez até mais penteada do que entrou. Tudo se assoma à mão do artista como se saísse de uma fábrica. O iconoclasta tornou-se uma lenda; a emancipação da obra, conto de fadas. Recebemos o mundo e as notícias sobre o mesmo de joelhos, confundimos a coisa e a sua representação em virtude de a nossa cosmovisão ser de origem ciclópica, quer dizer, literal. Vergamo-nos com prontidão, receosos de que, se exibíssemos a verticalidade — coisa rara em todas as épocas —, nos cortariam a ração, a razão e as rimas fáceis. O humor que se baba por todos os lados, sem dentes e sem garras, mais manso que fera, fugindo do incómodo como o Diabo da cruz, seca-me, em vez de me vivificar. Cada vez me interessa menos essa via. Releio obras de Swift, Rabelais, Cervantes, Sterne e envergonho-me do meu século. Estou em crer que Apolo e a razão foram congeminações de Dioniso (basta ler na diagonal A História da Loucura de Foucault), o deus da embriaguez, do vinho, da tragédia, comédia e insânia e, não esqueçamos, da orgia. Dioniso deu à luz uma ninhada de olímpicos numa câmara anecóica quando o sangue o invadiu, assumindo-se como a única música verdadeira. Chegamos ao amor cansados, sem idioma à altura de explicar o nosso atraso. E isso nota-se na comédia. Quando muito, legendamos o outro e o mundo enfadonhamente. Gostava de experimentar outra senda. Permitam-me esta ousadia. Urge regressar ao inferno acompanhado de Dionísio (outra forma de o grafar) — não me importo de ser seu escravo se este for o labor — como sucede na peça de Aristófanes. Desta vez resgataríamos não os tragediógrafos (felizmente os mestres da tragédia abundam no nosso tempo), mas os maiores comediógrafos, bobos, bufões, rufias com verve, quiçá nos recordassem que a comédia sempre foi sinónimo de liberdade. Eis o primeiro episódio. Estará disponível no Spotify e em breve noutras plataformas. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com