Salão de Bailes

Roberto Gamito

Farto de estar engaiolado nas convenções da comédia. Não tentem domesticar o apetite de um homem. Podcast de comédia e improviso. robertogamito.substack.com

Episodes

  1. 2d ago

    Baile 10 - Farto da raiva de classe alta do Bill Burr

    Considerandos de jaez colérico sobre os émulos do Bill Burr em terras lusas. A necessidade de resgatar do fundo do raio estagnado, atulhado de rostos de narciso, uma raiva que nos sirva, conduziu-me a este episódio. Neste império de rebranding incansável nas bordas do qual o Salvador Martinha é apenas um micro-evangelizador, onde as palavras são sempre a caricatura do que poderia um discurso rigoroso, só músculo e disponível para rija zaragata, não há comédia capaz de vivificar quem anda a fazer piscinas entre a vida e a morte ou, se preferirem termos mais canónicos, casa-trabalho, trabalho-casa, supondo que, neste smog neoliberal amiúde confundido com nevoeiro do qual nem restos de Salvador nos escutam as preces, são dois apeadeiros indiscerníveis. Fartinho de iconoclastas de esplanada que vêem em cada martelinho o martelo do Thor, justificando assim a impossibilidade de o manejar. Avanço por aí em várias frentes, semeando rastilhos antes que tudo arda. Encontram-me, caso queiram ou não haja ocupações para neurónios acamados, desnorteados de tanto estímulo açucarado, no Spotify disseminado numa fauna luxuriante de podcasts. Algum há-de estar conforme o vosso apetite. Dêem o próximo passo, não me obriguem a recrutar um tipo de marketing a fim de nos fantasiar um encontro criador-público. A arte é a perturbação nas águas estagnadas ou não é nada. Enquanto o marasmo não regressa — e ele só sabe regressar —, o homem singra. O humorista é, por definição, insubornável. Nunca menos que a cabeça do Rei, esse é o verdadeiro legado dos bobos, os derradeiros regicidas. * Roberto Gamito This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

    Baile 10 - Farto da raiva de classe alta do Bill Burr
  2. May 16

    Baile 1 - A convenção é uma finta vossa

    O Salão de Bailes, tal como a maioria das coisas que as minhas falangetas e neurónios dão à luz, nasce da necessidade. Resume-se a isto: pôr a fome em discurso. Careço de pachorra para o inferno do mesmo instalado na comédia e em outros tantos ateliers onde nem sequer há vontade de semear bigodes nas convenções. A Mona Lisa atravessa com o vagar de personagem de acção numa cena de explosões um corredor prenhe de artistas contemporâneos e sai imaculada. Talvez até mais penteada do que entrou. Tudo se assoma à mão do artista como se saísse de uma fábrica. O iconoclasta tornou-se uma lenda; a emancipação da obra, conto de fadas. Recebemos o mundo e as notícias sobre o mesmo de joelhos, confundimos a coisa e a sua representação em virtude de a nossa cosmovisão ser de origem ciclópica, quer dizer, literal. Vergamo-nos com prontidão, receosos de que, se exibíssemos a verticalidade — coisa rara em todas as épocas —, nos cortariam a ração, a razão e as rimas fáceis. O humor que se baba por todos os lados, sem dentes e sem garras, mais manso que fera, fugindo do incómodo como o Diabo da cruz, seca-me, em vez de me vivificar. Cada vez me interessa menos essa via. Releio obras de Swift, Rabelais, Cervantes, Sterne e envergonho-me do meu século. Estou em crer que Apolo e a razão foram congeminações de Dioniso (basta ler na diagonal A História da Loucura de Foucault), o deus da embriaguez, do vinho, da tragédia, comédia e insânia e, não esqueçamos, da orgia. Dioniso deu à luz uma ninhada de olímpicos numa câmara anecóica quando o sangue o invadiu, assumindo-se como a única música verdadeira. Chegamos ao amor cansados, sem idioma à altura de explicar o nosso atraso. E isso nota-se na comédia. Quando muito, legendamos o outro e o mundo enfadonhamente. Gostava de experimentar outra senda. Permitam-me esta ousadia. Urge regressar ao inferno acompanhado de Dionísio (outra forma de o grafar) — não me importo de ser seu escravo se este for o labor — como sucede na peça de Aristófanes. Desta vez resgataríamos não os tragediógrafos (felizmente os mestres da tragédia abundam no nosso tempo), mas os maiores comediógrafos, bobos, bufões, rufias com verve, quiçá nos recordassem que a comédia sempre foi sinónimo de liberdade. Eis o primeiro episódio. Estará disponível no Spotify e em breve noutras plataformas. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit robertogamito.substack.com

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