Hoje é o tema é o discurso do Estado da Nação 2026 de Ursula von der Leyen. Ursula von der Leyen arranca a dizer que só “a Europa” consegue providenciar “verdadeira” soberania aos Europeus – e este federalismo será uma constante de todo o seu discurso. No mercado único e simplificação, anuncia medidas para reduzir burocracia, e contra o gold-plating. E a Comissão pede aos Estados que deixem de acrescentar regras às suas regras, e no mesmo discurso anuncia Housing Act, Quality Jobs Act, KIDS Act, Digital Fairness Act e um pacote bancário. Nem de propósito imediatamente a seguir um conjunto de 13 estados-membros escreveu a Von der Leyen exigindo que a União É impressionante. Fala em objectivos para a energia, mas esquece-se de dizer que Europa tem energia cara porque decidiu tê-la cara: fechou centrais nucleares, tributou o carbono, vários Estados proibiram o fracking, e agora a fatura é atribuída ao Estreito de Ormuz. Na política comercial, com enfase na China, fala de défices comerciais, uma conversa mercantilista do século XVII, aqui obviamente usada para proteger indústria instalada, à custa do consumidor. Anuncia uma nova Corporação Europeia para comprar e armazenar matérias-primas – ou seja, uma entidade pública a especular em lítio e terras raras. A Europa até tem jazidas, e só não as explora porque os seus próprios licenciamentos costumam demorar mais de uma década. No Orçamento e financiamento, então, é a festa! Novos recursos próprios; pacote bancário “para o crescimento”; União de Poupanças e Investimentos; Scaleup Europe Fund. Ora, “Recursos próprios” é a palavra euro-burocrática para impostos europeus, cobrados sem passar pelos parlamentos nacionais e depois obviamente sabiamente aplicados em capital de risco. No clima e resiliência, continuamos com a mesma estafada agenda do Climate Change, e agora com a União Europeia a intrometer-se cada vez mais em temas locais, com estruturas continentais. Na Inteligência Artificial, a palavra de ordem é travar. Ou seja um continente sem laboratórios de fronteira propõe-se fixar o ritmo da fronteira. No emprego e direitos sociais, Von der Leyen estica-se para lá dos seus poderes. Fala do right to stay, e toda um burocracia para assegurar igualdades - toda uma agenda populista que devia corar de vergonha alguém supostamente de centro-direita. Em particular na Habitação, propõe um Housing Act, contra oarrendamento de curta duração e aespeculação. Primeiro, a escassez foi fabricada por licenciamentos bizantinos, rendas controladas, impostos sobre construção, irresponsabilidade monetária – durante anos - e a resposta é agora culpar o turista e o investidor. E claro isto não se enquadra minimamente nos tratados. No comércio livre, anunciou acordos com a Índia, Mercosul, México, Austrália e Indonésia - de louvar, mas também logo um “estatuto de membro associado para o Canadá, um absoluto WTF porque tal não existe nos Tratados. Na Segurança e Defesa, novas capacidades estratégicas. Certamente necessárias pelo estado do mundo. Tal como prometidas, perigosas, porque atropelando procedimentos de consenso. No conflito da Ucrânia, novos apoios à Ucrânia e sanções à Rússia. De notar a incrível falta de proactividade da Europa, quando mais de quatro anos depois do início da Guerra, ainda não tomou acção decisiva. Na Migração e fronteiras, muitas medidas, a contrastar com a retórica fraca, tanto nos fenómenos crónicos de imigração, como nos episódios dramáticos da “invasão” de Ceuta, por exemplo. No Desinformação e “resiliência democrática”, o Centro para a Resiliência Democrática, identificando forças antidemocráticas e antieuropeias como ameaça interna. Que existem, existem. Mas que isto seja assim implementado, um Euro Ministério da Verdade, é sinistro. No Estado de direito, um desvio algo parvo para a Hungria, e condicionalidade de fundos. Pouca referência aos escândalos e casos que pendem sobre as instituições europeias, incluindo sobre si, Ursula von der Leyen. Nos Menores e redes sociais, o EU Kids Act, para proteger os miúdos, que belo, isto vai obrigar todos os europeus a identificarem-se na Internet. Absurdo. No alargamento e identidade europeia. Muita conversa de valores, e muito pouca acção. Em resumo, uma mão cheia de nada. E onde não é nada, chega a ser perigosa. Isto porque von der Leyen demonstra ter pouco apreço sobre os limites que pendem sobre si, sobre a Comissão, sobre os órgãos e instituições da União Europeia. E está disposta a ultrapassá-los, ou atropelá-los, em nome de coisas boas. Isto tem um nome. Populismo. São os populistas que defendem que as regras não se aplicam a eles. Que o “bem comum” justifica as suas infrações. Uma nota, é muito triste que o nosso comentariado, com Paulo Portas à cabeça, tenha ficado tão embevecido com todo este populismo. Em suma, este discurso foi um discurso muito revelador da falta de discernimento que afecta a liderança da União Europeia. Por fim, link na descrição, uma opinião de Miguel Morgado sobre von der Leyen. E sobre isto, estamos conversados. Links * 2026 State of the Union Address by President von der Leyen * Miguel Morgado sobre von der Leyen * 13 EU countries call for ‘deep cleaning’ of European laws This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit antoniocostaamaral.substack.com