RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 2시간 전

    Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa

    A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis". Luiza Ramos, da RFI em Paris A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora. "O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz. O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas. Identidade Indígena e o direito à cidade Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua. "Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá. "Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora. Desafios da tradução para o francês A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa. "Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que implicam uma inferioridade. Então aqui politicamente a gente adotou como palavra autochtone e peuple, para reconhecer a soberania plurinacional e também uma forma mais respeitosa de se referir a eles", explica Trudruá Dorrico. Em Paris, Trudruá Dorrico também assina a curadoria da exposição 'Passeurs' no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, em cartaz até 18 de julho. A mostra propõe um diálogo sensível entre artistas indígenas contemporâneos e a relação com a natureza. Ao convidar o público a reconhecer as cosmovisões indígenas como saberes vivos, a curadoria de Trudruá articula memória ancestral e presente histórico, afirmando territórios, existências e lutas no campo das artes. Dia 19 de maio, em função da divulgação de seu livro na versão em francês, a autora participa de um encontro literário na livraria feminista Un Livre et Une Tasse de Thé, no 10° distrito de Paris. Já no dia 30 maio, ela e outros autores estarão na Maison de l’Amérique Latine, em uma mesa redonda dedicada à literatura latino-americana. Todas as informações estão disponíveis no Instagram de Trudruá Dorrico.

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  2. 1일 전

    'Carnaval é política', diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí

    O documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”, dirigido por Saullo Farias Vasconcelos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro. “O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro”: diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcelos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de “o Carnaval Popular do Rio”. Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco. Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de “griô” (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. “Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado”, afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. “Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela”, diz. Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. “Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até”, conta. A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. “Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação”, diz. Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. “O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa”, observa. Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. “Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba”, diz. Aumento dos feminicídios no Brasil No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. “Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades”, declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista.   “Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. “Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: ‘meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão’”, relembra. “Depois que acabou a sessão [no festival], várias mulheres vinham falar comigo e com ela, agradecendo a fala dela e também a denúncia. O percurso de Maria Moura sempre foi de denúncia. Ela nunca foi de ficar calada. Ela mesmo diz que só chegou até aqui porque teve que falar muito, teve que insistir muito no que queria, porque senão ela não ia conseguir conquistar o que conquistou”, aponta. Segundo Saullo, o filme fará sua estreia no Brasil em outubro, no Festival do Rio. O diretor também inscreveu o documentário em outros festivais, como o de Biarritz, no sudoeste da França, e no de Xangai, na China. “Eu gostaria muito de levar o filme para lá, porque acho que é um país muito interessante dentro da tradição, principalmente do carnaval. Eles dialogam muito com a gente e acho que eles vão se reconhecer um pouco na nossa tradição”, diz. Associação La Terreirada Saullo também é o fundador da associação La Terreirada, em Paris. O espaço promove a cultura brasileira e acolhe artistas vindos do Brasil. Na programação do local, está um evento dedicado ao Super 8 em 24 de maio, com a presença do cineasta pernambucano Ivan Cordeiro. Em 27 de junho, a Terreirada acolhe uma festa junina. Nos dias 11 e 12 de julho, a associação promoverá um festival de verão, com a previsão de projetar, durante o evento, “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”.

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  3. 4월 21일

    Brasileiros no exterior têm até 6 de maio para regularizar título e votar nas eleições presidenciais

    Os brasileiros que vivem no exterior e desejam participar das eleições presidenciais de outubro no Brasil precisam ficar atentos: o prazo para emissão de título, transferência do domicílio eleitoral, atualização de dados cadastrais ou regularização de pendências termina no dia 6 de maio. Para esclarecer dúvidas e orientar a comunidade brasileira residente na França, o embaixador Fabio Mendes Marzano, cônsul-geral do Brasil em Paris, e o cônsul adjunto Murilo Vieira Komniski falaram à RFI sobre os procedimentos. O segredo é não deixar para a última hora. Maria Paula Carvalho, da RFI O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno acontece no dia 26 de outubro. Embora o pleito seja de eleições gerais – com escolha de governadores, deputados e senadores – , no exterior o voto é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República. Ainda assim, estar em dia com a Justiça Eleitoral é fundamental.   Segundo o embaixador Fabio Marzano, o prazo de 6 de maio (até as 23h59 pelo horário de Brasília) é único e vale para todos os serviços eleitorais, desde a emissão do primeiro título até a transferência para o exterior ou a regularização de pendências.  “Vale para todos os tipos de serviços. Essas solicitações têm que ser feitas diretamente na página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É um processo bastante simples, e nós colocamos instruções passo a passo também nas nossas mídias sociais”, explicou.  Após o envio, o pedido é analisado pela Justiça Eleitoral no Brasil, e o andamento pode ser acompanhado pelo próprio sistema. Uma vez aprovada a solicitação, o eleitor passa a ter acesso ao novo título pelo aplicativo e‑Título.  Caso haja pendências no Brasil, como ausência em votações anteriores, o sistema pode apontar erro. Nesses casos, basta quitar a situação. “A multa é pequena. O TSE disponibiliza um boleto, e o pagamento pode ser feito por banco brasileiro ou transferência. Até o dia 6 de maio, dá tempo de regularizar tudo”, reforçou o cônsul-geral.  Voto é obrigatório; irregularidade traz consequências  Diferentemente da França, o voto no Brasil é obrigatório. Quem não vota nem justifica a ausência fica em situação irregular perante a Justiça Eleitoral. “Isso afeta muitos brasileiros que procuram o consulado para renovar passaporte, porque é obrigatório apresentar a certidão de quitação eleitoral”, alertou o embaixador.  A justificativa de ausência não pode ser feita presencialmente em Paris por quem está inscrito no Brasil. Ela deve ser realizada exclusivamente pelos canais digitais do TSE – seja por quem está viajando, seja por quem mora em outra cidade da França e não consegue comparecer ao local de votação.  Os dois turnos são considerados eleições independentes: mesmo quem não votou no primeiro pode votar no segundo. A justificativa pode ser feita no dia da eleição ou até 60 dias após cada turno, inclusive pelo aplicativo e‑Título.  Imigrantes em situação irregular também podem votar  Um ponto pouco conhecido é que a situação migratória na França não interfere no direito de voto nas eleições brasileiras. “Imigrantes em situação irregular na França têm plenos direitos do ponto de vista da legislação brasileira. Se estiverem com a situação eleitoral regularizada, podem votar sem problema algum”, explicou Murilo Komniski.  O processo foi significativamente simplificado desde as eleições de 2022, ainda durante a pandemia de Covid-19. Para a regularização eleitoral, basta enviar pelo site do TSE uma selfie com documento oficial brasileiro – como RG, passaporte ou CNH – e um comprovante de residência no exterior, como conta de água, luz ou telefone.  Para os homens entre 18 e 45 anos, é necessário também estar em dia com as obrigações militares, exigência que já aparece no próprio formulário do TSE.  Cresce o número de eleitores brasileiros na França  O número de eleitores brasileiros inscritos para votar na França vem crescendo de forma significativa. Em 2022, eram pouco menos de 23 mil. Atualmente, já são mais de 27 mil, e a expectativa é ultrapassar 30 mil eleitores até o fim do prazo, em 6 de maio. “O brasileiro tem certa tradição de deixar para a última hora”, observou o embaixador.  Esse crescimento reflete o aumento do número de brasileiros residentes no país. A estimativa mais recente é de cerca de 100 mil brasileiros vivendo na França, entre estudantes, trabalhadores e famílias. "É uma pressão considerável em termos de prestação de serviços", destaca Murilo Komniski. Onde será a votação?  Tradicionalmente, as eleições ocorrem em Paris, mas o local exato ainda não foi confirmado. Em 2022, a votação registrou longas filas. Diante do aumento do eleitorado, o Consulado propôs um novo espaço, maior e igualmente bem localizado, mas a decisão final cabe ao Tribunal Superior Eleitoral. “Não posso ainda divulgar o endereço definitivo. Estamos aguardando a confirmação do TSE”, disse Marzano. "Da última vez, o TSE resolveu concentrar todas as sessões aqui em Paris. Então nós tivemos 57 ou 59 sessões eleitorais. Por isso o local estava com muito movimento", explica. A novidade quase certa para este ano é a abertura de seções eleitorais em Marselha, no sudeste da França, onde o novo consulado brasileiro já está em funcionamento e atenderá aos eleitores que moram na região. Mesários e voluntários  A organização das eleições no exterior depende fortemente de trabalho voluntário. O consulado já iniciou a divulgação de convites para mesários e equipes de apoio. “Talvez precisemos de mais de 300 mesários este ano. Cada sessão precisa de três a quatro pessoas, além de apoio de retaguarda”, explicou o embaixador.  Também há espaço para a atuação de observadores eleitorais, nos mesmos moldes das eleições no Brasil.  Atendimento consular e aumento da demanda  Questionado sobre as reclamações quanto à dificuldade de atendimento no Consulado em Paris, Fábio Marzano afirmou que a equipe tem conseguido atender cerca de 99% das demandas, apesar do aumento expressivo da procura. “Para mim, todo pedido de brasileiro é prioritário. A casa do brasileiro aqui é o consulado”, afirmou.  Segundo ele, o crescimento da comunidade brasileira se reflete nas estatísticas de emissão de passaportes, registros de nascimento e outros serviços.  Convite à participação  Para encerrar, o embaixador deixou um convite à comunidade brasileira na França: “Participar das eleições é participar da festa da democracia. Quem quiser ou puder, transfira o título, regularize sua situação e vote. O processo é simples, rápido e a multa, quando existe, é irrisória,” concluiu.  A transferência do título para a França é opcional. Quem pretende votar no Brasil pode manter o domicílio eleitoral original.  Contatos para dúvidas eleitorais: Telefone: +55 61 3048 1770  E-mail: eleitor.exterior@tre-df.jus.br

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  4. 4월 20일

    Premiada na França por 'Menos que Um', Patrícia Melo foi destaque no Salão do Livro de Paris

    A escritora brasileira Patrícia Melo foi uma das convidadas do Salão do Livro de Paris. Ela esteve no evento para falar de "Menos que Um", seu mais recente romance traduzido para o francês. A obra denuncia a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua em São Paulo. O romance recebeu, na França, o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, em janeiro, logo após seu lançamento no país. "Menos que Um" foi traduzido por Élodie Dupau e publicado pela editora Buchet Chastel com o título "Ceux qui ne sont rien". Segundo a própria Patrícia Melo, o livro é uma rapsódia da vida e dos sonhos que se cruzam, formando um caleidoscópio da miséria brasileira. Este é o 12° romance de Patrícia Melo e o 12° a ser traduzido para o francês. Ao analisar a publicação, as críticas brasileira e francesa evocam "Os Miseráveis", de Victor Hugo, revisitados e retirados da invisibilidade à brasileira. O prêmio conquistado por "Menos que Um" foi a segunda recompensa literária de Patrícia Melo na França. Em 2024, a tradução do livro "Mulheres Empilhadas", que em francês recebeu o título "Celles qu’on tue", venceu o prêmio da revista Madame Figaro. Patrícia Melo, que atualmente mora em Lisboa, veio a Paris participar do Salão do Livro para falar de sua literatura, que ficou muito mais engajada nos útimos anos. "Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem", afirma nessa entrevista à RFI. RFI: Patrícia Melo, com esse prêmio você participou do Salão do Livro de Paris já coroada de sucesso. Patrícia Melo: Pois é, foi uma surpresa para mim esse prêmio, fiquei muito feliz. Isso dá mais visibilidade ao livro, e eu acho muito importante esse reconhecimento que a gente ganhou para colocar a obra mais em evidência. RFI: O que você achou da comparação entre "Menos que Um" e "Os Miseráveis", o grande romance do século XIX, de Victor Hugo? P.M.: Victor Hugo é uma grande paixão. Ele foi uma inspiração no sentido de registrar a miséria e, ao mesmo tempo, mostrar o movimento político, a organização e a revolta. Foi inspirador. É claro que foi muito lisonjeiro para mim que as pessoas percebam essa referência. Mas não é só Victor Hugo. Tem também Jorge Amado. Outro livro que me inspirou muito foi "Capitães da Areia". RFI: Você participou da tradução. O que achou do título em francês? "Menos que Um" virou "Ceux qui ne sont rien". P.M.: Eu gostei muito. Achei que ele tem uma sonoridade mais poética. Faz também uma espécie de eco com o título do romance anterior. Achei muito interessante. Aqui na França, minha editora fez uma observação da qual eu não tinha me dado conta. Talvez tenha a ver com meu afastamento do Brasil, mas ela acha que esses dois últimos livros funcionam como um registro dos anos terríveis que a gente viveu recentemente, quando a direita tomou o poder no país. RFI: Você acerta contas com o governo Bolsonaro? P.M.: Acho que ali fica registrado o quanto foi um período pesado. RFI: Desde o seu primeiro romance, "O Matador", você denuncia a violência brasileira. Você diria que, com o tempo, sua obra ficou mais explícita e engajada? P.M.: Acho que sim, houve uma guinada política. Não foi uma decisão voluntária. Foi uma emoção, uma indignação, um espanto diante do que estava acontecendo, que entrou na minha literatura. Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem. RFI: O fato de morar fora do Brasil facilita essa análise? Esse distanciamento ajuda? P.M.: Acho que sim. Em termos de forma, comecei a querer compor grandes painéis, fazer grandes panorâmicas do Brasil. Isso não era um desejo consciente desde o início. A gente percebe quase no final da escrita, quando o livro já está com uma forma definida. Eu tinha a ideia de criar um livro coral, com muitos personagens, e ele acabou se tornando um grande retrato da miséria. RFI: Para quem ainda não leu o livro, "Menos que Um" é um romance polifônico, com muitos personagens, ambientado no centro de São Paulo, especialmente em uma praça. Também há poesia e solidariedade. P.M.: Sim. A gente costuma pensar que a vida nas ruas é só feita de dificuldades, mas fiquei muito surpresa ao perceber a solidariedade que existe entre essas pessoas. Elas precisam se unir para se defender, para conseguir dormir, porque são vulneráveis 24 horas por dia e invisíveis quase sempre. Só se tornam visíveis quando sofrem violência. Há muita organização, companheirismo, amizade, amor, poesia e sonho. Uma das coisas que mais me marcou na pesquisa foi perceber o quanto o sonho estrutura a vida dessas pessoas. É uma espécie de colchão amortecedor para aguentar as quedas constantes. RFI: No Salão do Livro, você participa de uma mesa com o escritor haitiano James Noël, intitulada Haiti–São Paulo: da raiva à revolta. Os dois países têm em comum a violência como herança? P.M.: Acho que sim. A violência está profundamente enraizada na cultura dos dois países. Ela faz parte do tecido da vida. É muito perceptível tanto na realidade brasileira quanto na haitiana. São países com uma história de violência contínua, que nunca foi devidamente revisitada ou reparada. O Brasil, por exemplo, nunca lidou bem com sua história da escravidão. RFI: No final de "Menos que Um", o personagem escritor começa a escrever o livro que acabamos de ler. Como ele afirma, escrever é mais fácil do que viver? P.M.: Acho que sim. Esse escritor tem um pouco de mim ali. Sempre fui uma pessoa medrosa. A vida imaginada, da fábula e do sonho, é mais fácil. Não sei como essas pessoas, como meus personagens, aguentam o tranco. A realidade de quem vai para a rua é uma sequência de perdas que nunca acabam. RFI: Você é uma das escritoras brasileiras de maior visibilidade, com todos os livros traduzidos para o francês e vários idiomas. Você teme esse recuo de leitores no mundo? P.M.: Acho que isso faz parte da revolução tecnológica que a gente vive. Houve uma história da leitura que acompanhou a humanidade e que agora está se perdendo. As pessoas estão menos aptas à introspecção, ao silêncio e à concentração. A leitura exige um tempo que muita gente já não tem mais. Essa queda de leitores é real e global. Acontece no Brasil, na França, na Alemanha. É um fenômeno mundial, consequência direta dessa revolução tecnológica. RFI: A inteligência artificial é preocupante? P.M.: Acho que sim. Não sabemos exatamente o que estamos criando nem como isso vai ser utilizado. O mais grave é que as bases éticas que sustentam nossa civilização talvez não deem conta dessa revolução. Ainda nem começamos a pensar seriamente em legislação para a inteligência artificial. Vamos ter que produzir muita filosofia e muitos códigos éticos para lidar com essa realidade. Vivemos uma revolução sem perceber, e ela é muito mais veloz do que qualquer outra. RFI: Isso tudo já modificou ou vai modificar sua prática como escritora? P.M.: Em parte, sim. Uso a inteligência artificial para pesquisa, para levantar dados e estatísticas. Ela agiliza bastante. Mas não substitui o olhar do pesquisador. Meu modo de escrever, de pensar a literatura, isso não mudou. RFI: Seu último livro é tão sombrio quanto os dois anteriores? P.M.: Acho que ele fecha esse ciclo sombrio dos últimos anos. É um livro ambientado na floresta, levemente inspirado na história de Bruno Pereira e Dom Phillips. Minha editora francesa diz que estou encerrando uma espécie de trilogia dos anos Bolsonaro. Acho uma leitura muito sensível do que venho tentando fazer nesses romances. Clique na foto principal para ouvir a entrevista na íntegra.

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  5. 4월 16일

    De Cuiabá aos festivais internacionais: Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio-São Paulo

    Fora do eixo tradicional Rio–São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Maria Paula Carvalho, da RFI Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação. “A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro”, afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. “Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso”, comemora. Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro. “Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público”, explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. “Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias”, afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos. Um quebra-cabeça narrativo A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme. “Eu considero uma forma inteligente de engajar o público”, diz. “O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas.” Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. “Ele se sente parte da construção do filme.” A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. “São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa”, explica. O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos. Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção. “O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades, então a dureza vem”, afirma. “Mas vem também a leveza, vem a esperança.” No filme, os personagens enfrentam perdas profundas, mas encontram no outro a possibilidade de reconstrução. “Isso conversa muito com as características do nosso país.” Do periferia de Cuiabá para o mundo Após Gramado, "Cinco Tipos de Medo" iniciou uma trajetória internacional que já passou por Havana, Barcelona, Manchester e Paris, com exibição prevista em Chicago ainda este mês. Para Bruno Bini, mais do que reconhecimento artístico, essa circulação abre caminhos concretos para a comercialização do filme e para novas parcerias. “Está sendo uma experiência incrível perceber como uma história da periferia de Cuiabá encontra ressonância no coração de pessoas com origens tão diversas”, reflete. “A gente percebe que tem muito mais pontos em comum do que diferenças”, acrescenta. Na França, parte da crítica classificou o filme como um exemplo de cinema de ação latino-americano, associado ao thriller social – definição que o cineasta acolhe sem reservas. “É assumidamente um filme de ação, um filme de gênero. E aceito a definição de thriller social porque ele insiste em lidar com temas socialmente relevantes”, pontua. Um novo momento do cinema brasileiro O sucesso de "Cinco Tipos de Medo" se insere em um contexto mais amplo de visibilidade internacional do cinema brasileiro, com produções recentes ganhando destaque em festivais como Cannes e no Oscar. Para Bini, esse movimento é resultado de mudanças estruturais no setor. “Hoje existe um ajuste de olhar do poder público federal em relação à distribuição e à democratização do acesso aos recursos”, afirma. Segundo ele, essas políticas têm impacto direto nas regiões fora do eixo Rio–São Paulo. “O Brasil está se redescobrindo através das telas de cinema”, continua. O resultado é um panorama mais diverso, com histórias vindas do Amazonas, do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sul ganhando espaço ao lado das produções dos grandes polos tradicionais. “O cinema brasileiro está voando, indo cada vez mais longe, e isso puxa toda uma cadeia produtiva junto”, avalia. Próximos projetos Em meio ao reconhecimento internacional, Bruno Bini já se prepara para os próximos passos. Entre eles, está o longa de ficção científica "Três Tempos", atualmente em fase de captação de recursos, com filmagens previstas para o próximo ano. O cineasta também atua como produtor em um novo filme do diretor Fábio Baldo e desenvolve o projeto "Antes que a Música Pare", um drama investigativo. Com uma filmografia firmemente ancorada em seu território de origem, Bruno Bini segue ampliando o alcance do cinema brasileiro – mostrando que, longe dos centros tradicionais, também se produzem histórias capazes de atravessar fronteiras.

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  6. 4월 15일

    'Precisamos Falar' coloca famílias diante de um dilema moral: proteger os filhos ou assumir a verdade

    Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o longa apresentado por Emílio de Mello e Leonardo Monteiro de Barros lança um olhar incômodo sobre privilégio, impunidade e responsabilidade moral em uma sociedade polarizada. Proteger os próprios filhos ou dizer a verdade à Justiça, custe o que custar. É a partir desse dilema ético fundamental que se constrói “Precisamos Falar”, longa-metragem brasileiro que tem percorrido festivais internacionais antes de sua estreia no Brasil, prevista apenas para o segundo semestre de 2026. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme acompanha dois casais da elite urbana cujas certezas morais entram em colapso quando descobrem que seus filhos adolescentes participaram juntos da agressão a uma mulher em situação de rua – um ataque que resulta em morte. Os jovens envolvidos no crime são filhos de dois irmãos. Um deles é um político em ascensão; o outro, um professor universitário em crise pessoal e profissional. A revelação da agressão fatal transforma um encontro familiar em um embate ético profundo, no qual entram em confronto não apenas visões distintas de mundo, mas também a relação entre poder, responsabilidade, impunidade e consciência moral. Quando o poder e a família entram em conflito “O que eu acho que é interessante no filme é que a questão não é o crime, é como a sociedade lida com o crime. Essas famílias, na verdade, são um espelho de uma sociedade”, disse à RFI o ator Emílio de Mello, um dos protagonistas do longa, que esteve em Paris ao lado do produtor Leonardo Monteiro de Barros, sócio da Conspiração Filmes. “Não importa se o agressor é seu filho, você tem que agir conforme manda a lei, de acordo com a moral, com a ética. Eu acho que o filme discute isso de uma maneira muito boa, muito bonita”, destaca Emílio de Mello. Ele interpreta Celso, um político em plena campanha ao governo do Rio de Janeiro, cuja ascensão nas pesquisas coincide com a revelação do violento ataque cometido por seu filho e pelo primo. “O filme é uma gangorra nesse sentido. Ele começa com ele passando à frente nas pesquisas para ganhar o governo do Rio. E o crime acontece nessa noite”, conta o ator. A partir daí, estabelece‑se um embate entre dois núcleos familiares em posições opostas: de um lado, Celso e sua mulher, no auge social e político; de outro, o irmão de Celso, professor afastado da universidade, mergulhado em uma crise existencial e lidando com a depressão. Pai de dois filhos, o ator e diretor de teatro paulista admite que o conflito extrapola a ficção. “Só de me imaginar numa situação como essa, já me dá um certo arrepio”, confessa. Para ele, o filme toca em algo essencial. “O futuro do nosso mundo são os nossos filhos. A maneira como a gente lida com a nossa família interfere diretamente na construção de uma nova sociedade.” Polarização inviabiliza reflexão Esse debate, segundo o ator, ganha ainda mais urgência em um mundo atravessado pela polarização. “A gente vive uma polarização pelo mundo inteiro. E a gente não pode falar disso. Então o cinema abre espaço para essa discussão”, afirma, citando experiências recentes vividas também fora do Brasil. A escolha da vítima, uma mulher em situação de rua, estrangeira, acrescenta camadas decisivas ao conflito. “É muito importante ser uma mulher. Na cadeia da importância social, ela realmente é relegada à última categoria. E acontece com esta pessoa”, diz Emílio. “Ela ainda é uma estrangeira. Quer dizer, isso tudo está nas entrelinhas do filme.” Leonardo Barros complementa que essa alteração em relação ao livro original foi uma decisão consciente do roteiro. “A ideia de ser uma moradora de rua e uma refugiada foi uma ideia do roteirista Sérgio Goldenberg, porque no livro original isso era um pouquinho diferente”, explica. Para o produtor, essa escolha reforça a dimensão ética da narrativa e a discussão sobre impunidade. Um dilema universal, com ecos locais Leonardo lembra ainda que “Precisamos Falar” é uma adaptação do livro “O Jantar”, do escritor holandês Herman Koch, publicado há cerca de 15 anos e que se tornou um sucesso internacional. “Esse livro integrou a lista dos dez mais lidos do New York Times quando foi lançado nos Estados Unidos”, destaca o produtor. Segundo ele, o longa brasileiro é a quinta adaptação cinematográfica da obra, que já ganhou versões na Holanda, na Itália, nos Estados Unidos – com Richard Gere – e na Coreia do Sul. “Isso mostra como esse drama é universal e local, porque cada um desses filmes é bastante diferente um do outro na forma de abordar o problema, embora seja a mesma história. Isso é fascinante para um produtor de cinema”, afirma. Longe de simplificações morais, “Precisamos Falar” evita maniqueísmos ao retratar um embate ético cheio de nuances entre pais colocados diante de escolhas extremas. “Não é um filme maniqueísta, tem o bom e tem o mau. Ele mostra uma série de nuances, quase à la Dostoiévski, de dramas humanos profundos”, afirma Leonardo. Em um contexto em que o cinema brasileiro se reestrutura após períodos de crise institucional, Leonardo destaca a vitalidade atual da produção nacional. “O Brasil está produzindo cerca de 200 filmes por ano. Produzir cinema não é fácil em lugar nenhum do mundo. É um trabalho coletivo, caro, complexo”, afirma. Para Emílio de Mello, apresentar o filme em Paris tem um significado especial. Antigo morador da cidade, ele se emociona ao reencontrar o público francês. “Paris é minha segunda cidade. Eu me sinto em casa aqui”, afirma. “Mostrar um filme em que eu realmente acredito, numa cidade que eu amo tanto, é um prazer enorme.” “Precisamos Falar” propõe um debate incômodo e urgente: até que ponto princípios éticos resistem quando atravessados pelo amor, pelo poder e pela desigualdade social. Um filme que, como sugerem seus realizadores, não oferece respostas fáceis, mas insiste na necessidade de enfrentar as perguntas.

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  7. 4월 14일

    'É gratificante demais': Alaíde Costa canta em Paris aos 90 anos

    Paris recebe esta semana uma artista excepcional. Aos 90 anos, Alaíde Costa, uma das grandes vozes fundadoras da bossa nova, sobe ao palco do Teatro da Aliança Francesa nesta quarta‑feira (15), em Paris, para um concerto histórico. Ela canta para o público francês e também para os brasileiros que vivem na cidade, um reencontro que acontece num momento especial, de reconhecimento amplo de sua trajetória. “Eu estou muito feliz por estar aqui”, disse Alaíde em entrevista à RFI, com a timidez que nunca abandonou fora do palco. “E poder falar um pouquinho da minha vida”, completa, quase como quem pede licença para ocupar o centro da cena. A vinda à capital francesa se dá também por ocasião da exibição do filme de animação “A Noite de Alaíde”, da diretora baiana Liliane Mutti, apresentado no encerramento do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. O documentário revela uma artista que esteve presente nos primórdios da bossa nova, embora, por muito tempo, tenha ficado à margem da chamada história oficial do movimento. Cantar em Paris acrescenta algo à sua trajetória? A resposta não vem em análise fria, mas em sentimento. “Traduzir isso em palavras é complicado”, confessa. “É um sentimento que eu não sei explicar, mas é gratificante demais. Depois de 70 anos de carreira, agora, no finalzinho da vida, vêm os convites e o reconhecimento.” Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome Ainda nos anos 1950, quando a bossa nova começava a tomar forma, Alaíde Costa já ajudava a moldar um modo moderno de cantar no Brasil, mais contido, mais íntimo, influenciado pelo jazz e pela canção norte‑americana. “Eu sempre quis cantar músicas que não tinham nada a ver com o que acontecia no momento”, contou à RFI. Ela ouvia Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Chet Baker e outros nomes do jazz que dialogavam diretamente com a estética que se desenhava no Rio de Janeiro. Foi nessa época que conheceu o pianista e compositor Johnny Alf. “Eu conheci o Johnny aos 16 anos. Na minha cabeça, a música dele era feita para eu cantar.” Ainda assim, seu nome, assim como o de Alf, ficou fora do panteão consagrado da bossa nova. Uma exclusão silenciosa, marcada por preconceito racial e estético, da qual Alaíde só tomou plena consciência muitos anos depois, ao ler o livro “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, de Ruy Castro, publicado em 1990. “Foi ali que eu percebi por que eu e o Johnny (Alf) ficamos de fora”, diz. “Na época, eu não percebia que aquilo era preconceito. Não com o canto, nem com a voz, mas com a cor da pele. A ficha demorou a cair.” Reconhecimento tardio e a emoção preservada Houve tristeza. “É triste, né?” Mas não ressentimento. Alaíde seguiu cantando, gravando, resistindo. Décadas depois, a reparação começou a acontecer: o retorno aos grandes palcos, a ovação no Carnegie Hall, o reencontro com o público internacional. “Eu agradeço muito a Deus por ter conservado a minha voz”, afirma. Em casa, ela não canta. “Não canto, não.” A voz é guardada para o momento essencial: o palco. “Quando eu termino de cantar e vêm aqueles aplausos sinceros, é muito bom. Fico muito feliz.” Vieram também as parcerias com músicos mais jovens, em discos como “O que meus calos dizem sobre mim” e “O tempo agora quer voar”. Ao falar das colaborações com Emicida, Marcus Preto e outros, Alaíde demonstra confiança e serenidade. “Eu pensei: ele é muito inteligente. Não vai me propor nada que eu não faça.” E não propuseram. “Nada saiu fora do que eu faço.” O projeto mais simbólico dessa fase madura é o álbum “Uma estrela para Dalva”, homenagem à cantora Dalva de Oliveira, sua grande musa desde a adolescência. “Eu pensava nesse disco há 50 anos”, revela. “E finalmente chegou a hora.” Dalva era diferente dela. “A extensão de voz dela é inigualável. A minha vozinha é assim…”, diz, com modéstia. “Mas a emoção, acho que aprendi bastante com ela.” Em Paris, Alaíde se apresenta acompanhada do pianista Philippe Powell, filho de Baden Powell, parceiro de tantos anos. No repertório, obras de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Johnny Alf, pilares de um movimento musical que marcou profundamente a cultura brasileira e o mundo.

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  8. 4월 13일

    “Malês”: em filme, Antônio Pitanga leva ao mundo a revolta negra que o Brasil ocultou

    A exibição integral do filme “Malês” no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, diante de uma sala com 400 lugares lotados, marcou mais do que a estreia francesa do novo filme de Antônio Pitanga. Tornou visível, mais uma vez, a força de um projeto que atravessa décadas, continentes e camadas de memória. Em entrevista à RFI, o ator e diretor de 86 anos falou do levante de africanos muçulmanos escravizados ocorrido em Salvador em 1835, mas também falou de si, do Brasil e de um passado que insiste em não caber nos livros escolares. “Malês” retoma um episódio central e ainda pouco conhecido da história brasileira: o levante dos malês, organizado por africanos muçulmanos letrados, em sua maioria falantes de árabe, sequestrados no norte e no oeste da África e escravizados na Bahia. Homens e mulheres que, nas fazendas e nos engenhos vizinhos, começaram a se reconhecer pela oralidade, pela escrita, pela fé comum e pela convicção de que era possível resistir. A decisão de transformar esse levante em filme consolidou‑se, como contou Antônio Pitanga em Paris, com a leitura de “Rebelião escrava no Brasil”, de João José Reis, obra que lhe deu base histórica e impulso definitivo para levar “Malês” às telas. No filme, Pitanga reconstrói esse processo de reconhecimento lento e subterrâneo. Antes do levante, há um sonho: a construção de uma mesquita na fazenda de um colonizador europeu, um espaço de oração, encontro e sustentação espiritual diante da brutalidade cotidiana da escravidão. A repressão portuguesa destrói esse projeto e, ao tentar apagar a possibilidade de união, acaba acelerando o caminho para a insurreição sangrenta. O levante de 1835, o maior do século 19 no Brasil, nasce dessa fratura. Pitanga insiste: a história dos malês não é “história do negro”, mas história do Brasil. E justamente por isso foi silenciada. “Ela não está no ensino fundamental, não está nas universidades, não está na formação do brasileiro”, diz. Na Bahia, primeiro grande entreposto de escravizados do país, ao lado de Pernambuco, essa memória sempre circulou pela oralidade. E é dessa circulação popular que o diretor parte. “Quando chego a entender que é hora de fazer 'Malês', ele não caiu de repente, de paraquedas. É uma infância, é uma vivência, é uma história que acontece na Bahia, no Brasil – e a Bahia se lembra de tantas histórias que o Brasil não conhece, já que foi a primeira capital do país.”  Cinema e resistência Quando afirma que o projeto levou 29 anos para se concretizar, Pitanga não fala apenas de dificuldades de produção. Ele fala de uma constante histórica do cinema brasileiro: a inexistência de uma política de Estado para a cultura. “Sai governo, entra governo, e seguimos sempre correndo de pires na mão.” Desde “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, passando por “Barravento”, de Glauber Rocha, sua trajetória se confunde com a formação do Cinema Novo, um cinema que pensava o país a partir de suas fraturas sociais. “Malês” é herdeiro direto dessa tradição. Mas o filme se ancora ainda mais fundo. Ao falar do século 19, Pitanga traz o século 21 para o centro da discussão. Para ele, o levante dos malês permite revisitar não apenas a escravidão, mas também a independência, a abolição, a República, a industrialização. O ator questiona, inclusive, a narrativa oficial da Independência. “7 de setembro foi um acordo. Independência de verdade aconteceu em 2 de julho de 1823, quando os portugueses são expulsos da Bahia.” Esse deslocamento de perspectiva explica por que “Malês” tem encontrado forte ressonância fora do Brasil. O filme já foi apresentado para debate nas universidades americanas de Princeton, Universidade da Pensilvânia e Harvard, além de ter sido exibido em uma sessão na Columbia University, durante um festival da diáspora africana. No exterior, sobretudo, ele quebra uma leitura simplificada segundo a qual apenas o Haiti teria produzido uma revolução negra organizada nas Américas.  Colonialismo e pertencimento Na França, Pitanga afirma que o filme permite deslocar a discussão para além do Brasil ao levar essa história “não só para os jovens franceses, mas aos africanos” e ao dar visibilidade a “como se deu esse sequestro, essa escravidão”. Ele insiste em situar a revolta dos malês dentro de um processo mais amplo de dominação colonial, lembrando que foram “os colonizadores europeus que, de maneira trágica, fatiaram, nesse continente africano de 54 países, fronteiras inimigas, de várias nações”. Para ele, essa fragmentação desconsiderou religiões, costumes e organizações sociais distintas – “muçulmanos, candomblés, quer dizer, a questão da religiosidade, as questões dos costumes” – e estabeleceu um modelo de imposição cultural cujos efeitos persistem. “O colonizador não respeitou e fatiou o país com várias fronteiras”, afirma, ao mesmo tempo em que “rouba a língua pátria e diz: ‘agora você vai falar francês, agora você fala alemão, agora você fala inglês’”. Daí, segundo Pitanga, a contradição contemporânea: “Os imigrantes que chegam aqui, eles falam francês e não são reconhecidos como franceses”, apesar de terem sido historicamente “dominados”. Para ele, “Malês” existe para trazer essa história “à luz do dia” e lembrar que esses sujeitos “não são uma pessoa desconhecida”. No filme, essa reflexão ganha forma narrativa. Pitanga e a roteirista Manuela Dias optaram por humanizar os personagens e evitar a abstração histórica. Os malês do filme vêm de Daomé, Benin, Togo, Senegal, da nação haúça. São muçulmanos, mas dialogam com outras tradições religiosas. Um dos momentos centrais une um líder do Islã e Iyá Nassô, figura histórica do candomblé, numa aliança simbólica contra a intolerância, a invisibilidade e a violência. As mulheres, ressalta o diretor, são lideranças e estrategistas, embora quase sempre apagadas pelas narrativas oficiais dos séculos 18 e 19. A África pessoal A travessia pessoal de Antônio Pitanga ecoa essa busca coletiva. Durante a ditadura militar, ainda jovem, ele deixou o Brasil decidido a compreender sua própria origem. “Eu quis saber de que África eu tinha vindo”, afirma. “Não bastava achar que eu sou afrodescendente.” Ele admite não conhecer os avós nem saber exatamente de que lugar veio sua família, mas sustenta uma convicção íntima, construída pelas tradições familiares, pela comida e pelos rituais, de que suas raízes estão na região de Daomé, no atual Benin. Essa inquietação era partilhada em conversas com Mãe Menininha do Gantois: “Eu dizia: mãe, eu queria saber de que África eu vim.” Entre os 23 e 24 anos, percorreu por quase dois anos essa região do oeste africano, uma experiência que, como insiste, “não vem dos livros, é história vivida”. Esse mesmo princípio orientou a criação de seus filhos, Camila e Rocco, que atuam em “Malês”. Pitanga define sua família como um “quilombo”, uma nação em movimento. Nas conversas com os filhos, transmitiu histórias fora do currículo escolar, fundadas na oralidade. No filme, essa ideia se desdobra: um quilombo chama outro quilombo, como fizeram os malês ao convocar africanos de diferentes nações. Hoje, afirma, “Malês” provoca um novo levante, não armado, mas um levante do conhecimento, na “cenografia mundial”. O presente em confronto Ao ser confrontado com a permanência da violência policial contra a população negra, Pitanga não faz analogias suaves. Para ele, não mudou nada – ou piorou. A polícia repressiva nasce com Dom João VI, há mais de 200 anos. A lógica permanece: “Um negro correndo é ladrão; um branco correndo é atleta.” A diferença é que hoje existem meios de comunicação que poderiam servir ao diálogo, mas frequentemente alimentam a barbárie. Violência policial, feminicídio, estupros, guerras. Pitanga fala com perplexidade de um mundo que, munido do poder da palavra, parece regredir a uma dimensão ainda mais cruel do que a Idade da Pedra. Ao final, “Malês” se impõe não apenas como um filme histórico, mas como um gesto político no sentido de recontar a história a partir de quem foi silenciado, devolver ao presente aquilo que foi roubado da memória coletiva. “Caixão não tem gaveta”, lembrava a mãe do ator. Nada se leva. Resta decidir que herança ficará para as futuras gerações.

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예고편

소개

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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