O Mundo Agora

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

  1. há 5 dias

    Copa do Mundo de 2026 revela choque entre a integração do futebol e política migratória de Trump

    Entre vistos negados, controles migratórios reforçados e tensões diplomáticas, o Mundial de 2026 expõe o contraste entre a promessa de integração do futebol e a política de fronteiras de Donald Trump. Thomás Zicman de Barros, analista político Na próxima quinta-feira (11), será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026. Como todo brasileiro, parto do pressuposto de que o hexacampeonato é apenas uma questão de tempo. Mas não é por isso que menciono o torneio. Alguém pode perguntar, de fato, o que uma competição de futebol está fazendo numa crônica de política internacional. A história, porém, não deixa mentir: competições esportivas são permeadas por política. Das Olimpíadas de Berlim em 1936 ao boicote ocidental aos Jogos de Moscou em 1980, passando pelas ditaduras sul-americanas que buscaram legitimidade em grandes torneios, o esporte sempre refletiu disputas que o ultrapassam. Poucas Copas ilustram tão bem essa realidade quanto a que começa agora. Pela primeira vez, o torneio será compartilhado entre três países da América do Norte. O primeiro jogo será na Cidade do México, haverá partidas em Vancouver e Toronto, no Canadá, e o maior número de duelos – inclusive a final, nos arredores de Nova York – acontecerá nos Estados Unidos governados por Donald Trump. A ideia de dividir a Copa entre diferentes países se explica, em parte, pelo tamanho do novo formato da competição, assim como pela perda de atratividade de sediar grandes eventos esportivos que implicam custos elevados e frequentemente provocam protestos – como se viu inclusive no México nesta edição. Mas havia também o desejo de superar fronteiras. O lema da candidatura conjunta era “United 2026”. Muito além dos “United States”, a proposta era simbolizar a integração entre os povos. Ocorre que esse discurso entra cada vez mais em choque com a retórica anti-imigrante do presidente americano. Desde sua primeira campanha republicana, há dez anos, Trump tem atacado imigrantes latino-americanos, e mexicanos em particular. Segundo ele, seriam “bad hombres”, responsáveis por trazer drogas, crime e violência para os Estados Unidos. “Alguns poucos, eu acredito, devem ser boas pessoas”, dizia então o candidato. Seu grande mote de campanha era construir um inexpugnável muro na fronteira mexicana, alimentando fantasias de uma supremacia branca americana supostamente ameaçada pela substituição demográfica por um povo que fala espanhol e que, por coincidência, também gosta de futebol. Restrição à imigração De volta ao poder, Trump tem adotado políticas ainda mais restritivas em relação à imigração. E não apenas contra mexicanos. Vistos têm sido negados, e muitos viajantes veem sua entrada barrada pelos serviços de imigração com base em critérios frequentemente arbitrários. Estrangeiros nos Estados Unidos vivem preocupados com o fortalecimento do ICE, a temida polícia migratória, que por vezes detém e deporta até imigrantes em situação regular. Houve queda no número de viajantes para o país, numa combinação entre dificuldades para obter autorização de entrada e a simples desistência de visitantes diante dos inconvenientes. Como receber o mundo inteiro para uma Copa do Mundo em um ambiente assim? Os Estados Unidos criaram o chamado FIFA PASS, que prometia priorizar entrevistas para concessão de vistos a torcedores com ingressos. Ao mesmo tempo, porém, a própria administração americana deixou claro que não hesitaria em vetar rigorosamente visitantes considerados indesejáveis. Em especial, torcedores de países sujeitos a restrições, como Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim, têm enfrentado obstáculos. Em tese, haveria exceções para atletas e delegações. Mas mesmo aqui os incidentes se multiplicam. A seleção do Irã só obteve seus vistos na última semana e decidiu realizar sua concentração no México para evitar mais dores de cabeça. No último fim de semana, o atacante da seleção do Iraque foi detido e interrogado por sete horas no aeroporto de Chicago. Enquanto isso, a FIFA segue acusada de complacência com Trump, cujo ego o presidente da entidade, Gianni Infantino, parece empenhado em massagear. Um exemplo foi a criação do Prêmio FIFA da Paz, feito sob medida para agradar o presidente americano, primeiro e único agraciado com tão distinta honraria. Como se vê, futebol e política são inseparáveis. E as próximas semanas prometem deixar claro o contraste entre um evento que prometia união e integração e um governo que transformou o controle das fronteiras na sua principal bandeira.

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  2. 1 de jun.

    Da soja ao petróleo: como viramos o plano B de Pequim e por que isso deveria nos deixar em alerta

    Existe um tipo de elogio que devia acender o sinal amarelo de quem o recebe. O Brasil acaba de ganhar um desses. Em abril, segundo o levantamento do PRC Leader sobre a estratégia chinesa para o sul global, o país virou o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Não por mérito comercial nosso. Foi porque o Estreito de Ormuz estava bloqueado, o Golfo travado, e Pequim precisava de barril rápido vindo de um lugar que não dependesse do humor de Washington, nem de Moscou. Thiago de Aragão, analista político Some a soja a isso. Desde que a China reativou o boicote aos grãos americanos, ela realocou pedidos para o Brasil e para o resto da América Latina e fez o trabalho burocrático fino de garantir que nossos exportadores cumprissem as exigências fitossanitárias para vender em escala. O resultado é um Brasil que, em 2026, acumulou duas funções ao mesmo tempo: o posto de gasolina e o celeiro de emergência da segunda maior economia do planeta. Para o investidor, o número de curto prazo seduz. A demanda chinesa firme sustenta o preço das commodities, o superávit comercial e o fluxo que mantém o real ancorado. Petrobras, as graníferas, o agronegócio do Centro-Oeste, todos colhem o prêmio de serem o fornecedor que apareceu quando o resto do mundo fechou a porta. O problema mora numa palavra: reposição A China não comprou petróleo brasileiro em abril porque escolheu o Brasil como parceiro estratégico de longo prazo. Comprou porque o fornecedor preferido estava indisponível. Reposição é o que se usa enquanto a peça original não chega. No dia em que Ormuz reabrir, e Ormuz sempre reabre, a pergunta é se o barril brasileiro continua na cesta de compras de Pequim no mesmo volume ou se volta a ser a segunda opção que era antes da crise. A Venezuela já viveu esse filme, e convém olhar para o final dele. Durante a Segunda Guerra, Caracas se tornou o grande supridor de petróleo dos Aliados, a ponto de expandir a produção em 42% só entre 1943 e 1944 para cobrir o que a guerra exigia. Parecia consagração. Durou enquanto durou a escassez alheia. Quando o petróleo do Oriente Médio entrou no mercado em peso na metade dos anos 1950 e os Estados Unidos impuseram cotas de importação, a Venezuela viu o preço desabar e descobriu que tinha construído um país inteiro sobre uma demanda que era circunstancial. A resposta veio em 1960, quando Juan Pablo Pérez Alfonzo ajudou a fundar a Opep justamente para não depender mais da bondade de comprador nenhum. O fornecedor de emergência tem poder de barganha exatamente enquanto dura a emergência. Depois, ele negocia do chão. Aqui está o ponto que Brasília celebra e não examina. Ser indispensável numa emergência alheia não é a mesma coisa que ser estratégico. O fornecedor de ocasião manda no preço enquanto o fogo está aceso. Apagado o fogo, sobra a capacidade que ele instalou, a logística que ele montou e a dependência fiscal que ele criou em cima de um pedido que nunca foi para ficar. E a dependência é a parte que ninguém quer discutir. Quanto mais o orçamento da Petrobras, a balança comercial e a arrecadação passam a contar com o comprador chinês, menos margem o Brasil tem para dizer não a Pequim em qualquer outra mesa, seja 5G, seja porto, seja a próxima licitação de metrô que uma estatal chinesa vai ganhar, como ganhou a Linha 1 de Bogotá. O comprador que te salva numa crise é o mesmo que apresenta a fatura política depois. Repare no padrão, porque a estatal chinesa não improvisa. Ela compra petróleo quando precisa de petróleo, compra soja quando precisa contornar Washington e financia infraestrutura quando precisa de presença. Cada movimento chega ao lado brasileiro com cara de oportunidade isolada. Vistos juntos, formam uma arquitetura de dependência que o Brasil ajuda a erguer, um contrato de cada vez. O governo Lula trata a aproximação com a China como contrapeso aos Estados Unidos, e há lógica nisso enquanto Trump mantém a tarifa de 40% e a investigação da Seção 301 sobre a mesa. Mas contrapeso pressupõe que você consiga equilibrar os dois lados. Quem vira peça de reposição de um deles perde exatamente o equilíbrio que dizia procurar. Fica então a pergunta para quem olha o Brasil de fora com o cheque na mão. Você está comprando um país que diversificou seus compradores ou um país que está trocando uma dependência por outra e chamando isso de soberania? A China sabe a diferença. Falta saber se Brasília também sabe.

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  3. 25 de mai.

    Cuba, Estados Unidos e os 'Estados delinquentes

    Ao chamar Cuba de “Estado delinquente”, Donald Trump convida o mundo a desconstruir essa expressão – e a refletir também sobre a delinquência na própria ação dos Estados Unidos. Thomás Zicman de Barros, cientista político Na última quarta-feira, 20 de maio, as relações entre Cuba e os Estados Unidos voltaram aos holofotes. Donald Trump recorreu a uma expressão antiga, mas que continua funcionando como uma espécie de senha moral da política internacional: “Estado marginal”, “Estado bandido”, “Estado delinquente”. Em inglês, se diz rogue state. A fórmula sugere uma oposição binária: existiriam países civilizados, responsáveis, defensores da ordem mundial, e outros que viveriam fora dela, como criminosos internacionais. Cuba, segundo Trump, pertenceria ao segundo grupo. A expressão foi mobilizada pelo presidente americano para justificar o indiciamento, pela Justiça dos Estados Unidos, de Raúl Castro. O antigo revolucionário cubano, hoje nonagenário, governou a ilha socialista entre 2008 e 2018 e é irmão de Fidel Castro, líder histórico da revolução cubana. A acusação soa estranha por retomar o já esquecido caso de dois pequenos aviões de ativistas anticastristas abatidos no Caribe há quase trinta anos. O episódio torna-se mais preocupante por ocorrer em meio à mobilização de embarcações de guerra americanas na região. Cresce, assim, o temor de que Cuba possa se tornar alvo de uma escalada semelhante às intervenções recentes na Venezuela e aos bombardeios contra o Irã. “Os Estados Unidos não tolerarão que um Estado delinquente abrigue operações estrangeiras de caráter militar, de inteligência e terrorista a apenas 150 quilômetros do território americano”, declarou o presidente americano. Cuba volta, assim, ao velho repertório geopolítico dos “Estados delinquentes”. À primeira vista, a frase pode parecer banal. Afinal, regimes autoritários existem. Ditaduras existem. Estados repressivos existem. Mas a questão mais interessante talvez seja: quem possui o poder de decidir quem é um “Estado delinquente”? Foi exatamente essa a questão colocada pelo filósofo francês Jacques Derrida, conhecido sobretudo como o grande pensador da desconstrução. Em um livro menos conhecido do grande público, Voyous, publicado em 2003, logo após o 11 de Setembro e o início da “guerra ao terror”, Derrida interrogava justamente aquilo que a ideia de “Estado delinquente” apresenta como evidente. Ele desconfiava profundamente de expressões que reproduzem um simplismo moral. E poucas lhe pareciam tão suspeitas quanto rogue state. Segundo Derrida, o problema não era apenas a existência de Estados violentos ou autoritários. A questão era outra: quem tem o poder de nomear os outros como “delinquentes”? Ao observar a política internacional, Derrida percebia que as grandes potências tendiam a se colocar, ao mesmo tempo, dentro e acima da lei internacional. Por um lado, apresentavam-se como guardiãs da ordem global, com autoridade para denunciar adversários como “delinquentes”, como um policial que dá voz de prisão ou um juiz que pronuncia uma sentença. Por outro, reivindicavam para si o direito de suspender essa mesma ordem quando considerassem necessário. É justamente aí que Derrida identifica a lógica do “Estado delinquente”. Ele nos convida a reparar na delinquência precisamente daquele Estado que, pela força, se coloca no direito de nomear os outros como delinquentes. Após o 11 de Setembro, Derrida via os Estados Unidos como essa potência em delinquência. O filósofo morreu em 2004 e não viveu para ver Trump dar nova atualidade às suas análises. A captura de Nicolás Maduro em janeiro deste ano, sob a acusação bastante oca de comandar um esquema narcoterrorista, e os ataques recentes realizados em coordenação com Israel contra o Irã, à revelia das Nações Unidas e também a partir de acusações de terrorismo, ilustram como Trump e seus aliados transformam a linguagem da luta contra os “Estados delinquentes” em justificativa para contornar a própria ordem internacional que afirmam defender. No caso de Cuba, há pouca dúvida de que a ilha rebelde enfrenta uma série de desafios. Os avanços em direitos sociais como saúde e educação não apagam a existência de presos políticos, mesmo que coexista um sistema local de assembleias e conselhos que em algum grau oxigenam a gestão da ilha. A crise econômica também se arrasta. Ela decorre em parte das limitações do próprio modelo cubano e do governo de Miguel Díaz-Canel. Mas o peso de décadas de embargo americano tampouco pode ser ignorado. Trump resolveu apertar o torniquete, levando ao desabastecimento total de combustível da ilha – outra vez, contra o direito internacional. Derrida nunca afirmou que todos os Estados são equivalentes, nem que democracias e ditaduras funcionam da mesma forma. Ele perguntava o que acontece quando uma potência – e, no caso americano, podemos falar de uma potência em vias de autocratização – passa a ocupar ao mesmo tempo o papel de juiz, polícia e carrasco global. O sistema internacional foi moldado para acomodar os interesses das grandes potências, e dos Estados Unidos em particular. Ao longo do último século, a delinquência dessas potências nunca deixou de se manifestar. Mas, com o enfraquecimento dos fóruns multilaterais, vemos avançar cada vez mais uma lógica em que cada país proclama sua própria lei internacional – e decide sozinho quando ela deve deixar de valer.

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  4. 18 de mai.

    Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

    Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta. Thiago de Aragão, analista político Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo. Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável. Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores janelas da sua história recente, e essa janela se abriu quase por acidente. A guerra tarifária aberta por Trump no segundo mandato fechou o mercado chinês para a soja americana, e nós entramos nesse vácuo com a velocidade de quem encontra a porta destrancada e simplesmente passa. Em 2016, antes da primeira guerra comercial, os Estados Unidos forneciam 41% da soja consumida pela China. No ano passado, esse número despencou para 15%. A diferença, em larga medida, é brasileira: foram quase US$ 37 bilhões em soja exportada em 2025, com mais de 60% desembarcando em portos chineses. A tentação imediata diante de números desse tamanho é interpretá-los como conquista, como se o Brasil tivesse finalmente descoberto uma vocação que sempre esteve ali esperando, como se houvesse uma estratégia coordenada por trás de tudo isso. Não há, e talvez seja melhor falar isso em voz alta antes que mais alguém suba em um palco para fazer discurso bonito sobre o assunto. De Iowa ao Mato Grosso O que aconteceu não foi vitória brasileira, foi penalização americana, e essa distinção parece pedante até o momento em que deixa de ser. O produtor de Iowa apanhou da política tarifária do seu próprio presidente e o produtor de Mato Grosso colheu o que não plantou. A vitória construída pertence a quem construiu, enquanto janela aberta pela imprudência alheia fecha no instante em que a imprudência cessa. Foi exatamente isso que saiu de Pequim na semana passada, com o acordo que Trump e Xi costuraram prevendo a retomada das compras chinesas de soja americana em volume crescente até chegar a 25 milhões de toneladas anuais em 2028, o que corresponde a mais de um terço de tudo que o Brasil exporta hoje para o mercado chinês. O compromisso pode não se cumprir por inteiro porque a história das relações sino-americanas é uma coleção generosa de promessas que evaporam no caminho, mas o vetor político mudou, e mudou contra o nosso interesse. Quem acompanha o setor mais de perto sabe que existe ainda uma segunda camada, mais lenta e mais profunda, e que tem a ver com a decisão chinesa de reduzir gradualmente a dependência de proteína vegetal importada para ração animal. Não é que vão comer menos carne, é que vão produzir essa carne com uma matriz proteica menos dependente de soja, dentro daquela obsessão crescente de Pequim com soberania alimentar que atravessa todos os planos quinquenais recentes. Para o Brasil, é uma curva que se desenha no horizonte de 2030. Quando se soma essa curva à reaproximação americana o quadro fica difícil de ignorar: o pico da nossa exposição à demanda chinesa de soja talvez já tenha ficado para trás sem que a gente tenha percebido. Nada disso configura tragédia iminente, porque o Brasil continua sendo fornecedor central e a sazonalidade da safra sul-americana garante mercado entre fevereiro e agosto independentemente do humor de Washington ou Pequim. O problema não é o colapso, é a complacência, e ela tem nome no vocabulário diplomático brasileiro: pragmatismo, uma palavra que ficou perigosa de tão usada e que do jeito que aplicamos virou eufemismo educado para ausência de estratégia. Vendemos para a China o que ela precisa enquanto ela precisa, sem verticalizar indústria, sem diversificar destinos com a agressividade que o momento exige, sem montar uma diplomacia comercial proporcional ao tamanho do nosso superávit agrícola, tratando uma posição privilegiada conjuntural como se fosse paisagem permanente quando ela nunca foi mais do que um momento. Aviso entre rosas O que aconteceu em Pequim na semana passada foi, no fundo, um aviso entregue entre rosas. Os dois maiores compradores e produtores de commodities do planeta sinalizaram com sorrisos largos que pretendem voltar a fazer negócios um com o outro. Isso não destrói o Brasil mas reduz drasticamente a folga que o país vinha tendo para confundir sorte com mérito. Brasília que entender essa diferença antes de outubro chegará mais preparado para a década que vem. O país que não entender vai continuar celebrando recordes anuais sem perceber que qualquer um deles pode ter sido o último.

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  5. 12 de mai.

    Moderação trabalhista impulsiona extrema direita e regionalismos na Grã-Bretanha

    As eleições locais britânicas revelaram o colapso da estratégia moderada dos trabalhistas, o avanço da extrema direita de Nigel Farage e o fortalecimento de forças regionalistas que colocam em xeque a própria unidade do Reino Unido. Thomás Zicman de Barros, analista político Menos de dois anos separam o momento de consagração de Keir Starmer, ainda primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, daquele que pode marcar sua danação política. As eleições locais realizadas na última quinta-feira na Inglaterra, Escócia e País de Gales poderiam passar despercebidas fora desta ilha do norte, não fosse a dimensão da derrota trabalhista. Já há vozes pedindo a renúncia do premiê. Se não mudar de rumo, Starmer pode entrar para a história como o homem que abriu as portas do poder para a extrema direita britânica, ao mesmo tempo em que fortaleceu forças regionalistas que ameaçam a própria unidade do Reino Unido. Há menos de dois anos, os trabalhistas comemoravam uma vitória histórica. Após catorze anos na oposição, conquistaram uma supermaioria em Westminster, o parlamento britânico, e voltaram ao poder sob a liderança de Starmer. Na quinta-feira passada, porém, o partido perdeu mais de 1.400 conselheiros locais nas eleições regionais inglesas e sofreu graves reveses na Escócia e em Gales, em uma das piores derrotas desde a sua fundação. Starmer chegou à liderança do Partido Trabalhista após derrubar Jeremy Corbyn do comando da legenda. Corbyn, representante da ala esquerda do partido, era um líder que mobilizava multidões, mas acusado pelos adversários internos de ser radical demais e, por isso, incapaz de reconduzir os trabalhistas ao poder. Starmer representa o oposto. Muito mais moderado, entusiasmou menos eleitores, mas venceu graças ao desgaste dos conservadores e à fragmentação da direita britânica, já dividida pelo avanço do partido de extrema direita Reform UK, de Nigel Farage. Como não há segundo turno no sistema britânico, os trabalhistas colheram os frutos da cizânia direitista. Uma vez no poder, porém, a extrema moderação de Starmer cobrou seu preço. Apesar da ampla maioria parlamentar, o governo manteve a austeridade herdada dos conservadores. Para tentar conter o crescimento da extrema direita, Starmer chegou a evocar discursos racistas contra imigrantes. A frustração não demorou a aparecer, e os trabalhistas passaram a despencar nas pesquisas. A grande beneficiária desse processo não foi a direita conservadora tradicional, ela própria mergulhada em crises internas, mas sim a extrema direita do Reform UK. O partido de Farage conquistou 1.450 cadeiras locais na Inglaterra, além de tornar-se a segunda força na Escócia e sobretudo em Gales. Hoje, lidera com folga boa parte das pesquisas nacionais. Farage já havia transformado a política britânica dez anos atrás ao impor a agenda do Brexit, mesmo quando tinha apenas um único deputado em Westminster. Agora, pela primeira vez, sua extrema direita parece próxima de açambarcar a política institucional do país. Ao mesmo tempo, parte do eleitorado trabalhista parece buscar à esquerda a radicalidade perdida. O Partido Verde, frequentemente apresentado como uma esquerda mais radical e combativa, teve bons resultados e segue consolidando presença em regiões urbanas e universitárias. Ainda assim, talvez o aspecto mais impressionante das eleições locais da semana passada tenha sido o avanço das forças regionalistas e nacionalistas fora da Inglaterra. Na Escócia, o independentista Partido Nacional Escocês, de centro-esquerda, continua sendo a principal força política local e permanece à frente do governo regional. A surpresa maior veio do País de Gales, antigo bastião trabalhista onde o nacionalismo galês historicamente teve menos força. Nas eleições da semana passada, o partido independentista Plaid Cymru, também de linha progressista, alcançou seu melhor desempenho eleitoral em um século, chegando às portas do poder. Considerando que a Irlanda do Norte já é governada pelo Sinn Féin, defensor da reunificação da ilha sob a bandeira da República da Irlanda, o quadro que emerge é inédito: enquanto a Inglaterra parece cada vez mais dominada pelo nacionalismo inglês e pela extrema direita, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte aprofundam movimentos centrífugos. A desunião parece se tornar o traço dominante da política britânica. Os trabalhistas seguem com sua supermaioria em Westminster, o que lhes garante estabilidade para governar até 2029. A permanência de Starmer na liderança do partido e do governo, porém, já é menos evidente. Sem reatar com a radicalidade perdida, os trabalhistas correm o risco de assistir a um duplo desaparecimento: o seu, no horizonte político britânico, e o do próprio país que ainda governam.

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  6. 4 de mai.

    Saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep tem efeitos geopolíticos

    Na semana passada, enquanto o mundo se concentrava no Estreito de Ormuz, em Comey e no possível encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, os Emirados Árabes Unidos anunciaram, numa nota de imprensa, a saída da Opep, encerrando 58 anos de associação em três parágrafos, com vigência em 1º de maio. Thiago de Aragão, analista político A cobertura foi modesta. As agências noticiaram, os analistas escreveram seus relatórios, e em 48 horas o assunto saiu da circulação. E é essa indiferença que me interessa, porque o que ocorreu em Abu Dhabi não é uma disputa de cotas, mas algo mais profundo, e que diz respeito também a nós, brasileiros, que vendemos minério, soja e estamos quase vendendo terras raras a um mundo cuja arquitetura energética acabou de mudar. Os economistas estão certos quando dizem que os Emirados saíram porque as cotas da Opep não cabiam mais na ambição da ADNOC, a estatal petrolífera de Abu Dhabi. Os números são públicos: a capacidade instalada do país é de 4,85 milhões de barris por dia, mas a Opep autorizava cerca de 3,6 milhões. Trinta por cento de capacidade ociosa, paga e disponível, gera frustração a cada trimestre, e a meta da ADNOC de chegar a 5 milhões de barris por dia até 2027 simplesmente não cabe num cartel desenhado em torno das exigências fiscais de Riad. Durante mais de uma década, Riad e Abu Dhabi foram tratados como sinônimos no vocabulário das chancelarias ocidentais. Os "monarquistas pragmáticos do Golfo", a "dupla MBS-MBZ", numa simplificação conveniente para diplomatas que não tinham tempo para entender as diferenças entre dois países que, na superfície, faziam coisas parecidas. Essa simplificação morreu em 29 de dezembro do ano passado, quando aviões sauditas bombardearam, em Mukalla, um carregamento de armas com destino a separatistas iemenitas apoiados pelos Emirados. Foi a primeira vez na história recente que dois aliados nominais do Golfo se atacaram militarmente. A imprensa cobriu o caso como mais um capítulo da guerra do Iêmen, mas os emiratis entenderam outra coisa: entenderam que aquele vizinho com quem haviam dividido Opep, Conselho de Cooperação do Golfo, política externa e foto oficial nas cúpulas por 30 anos estava disposto a usar a força aérea contra eles. Some-se a isso o seguinte: durante a guerra do Irã, mísseis iranianos caíram em território emirati e Riad ficou em silêncio. Para Abu Dhabi, foi a confirmação de que o guarda-chuva de segurança do Golfo, supostamente coletivo, era na prática uma cortesia que cada um cobrava do outro quando bem entendesse. Divórcio anunciado Sair da Opep, neste contexto, não é decisão econômica. É um divórcio anunciado em comunicado: os Emirados estão dizendo, com a elegância protocolar do Golfo, que não se sentem mais obrigados a coordenar política de preços com um país que os bombardeou. Há um detalhe que merece atenção. Os Emirados não saíram da Opep numa hora qualquer. Saíram exatamente no momento em que a administração Trump vem afirmando, pública e privadamente, que considera a Opep+ um cartel funcionalmente alinhado à Rússia. Disciplina de preços altos significa receita alta para Moscou, e receita alta para a Rússia significa mais drones em Kiev. É uma equação que Washington enuncia sem cerimônia. Ao sair, Abu Dhabi entrega exatamente o que Washington queria: capacidade emirati de derrubar o preço do barril a qualquer momento, sem precisar consultar Riad ou Putin. É um voto antirrusso disfarçado de reenquadramento de portfólio energético. E há um detalhe adicional. Dias antes do anúncio, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, defendeu no Senado a abertura de linhas de swap de dólar para os Emirados em meio à crise de Ormuz. Não para a Arábia Saudita. Para os Emirados. Quem viveu o suficiente em Washington sabe que essas coisas não são coincidência. São combinação prévia. Os Emirados estão comprando garantia americana com barris. A Arábia Saudita perde o monopólio de parceiro de referência dos EUA no Golfo, e Abu Dhabi assume o papel. Uma frase do ministro Mazrouei, de 2022, vale ser relida: segundo ele, o petróleo está "em modo de declínio", e supor que sua centralidade seria permanente era "wishful thinking". Repare quem diz isso: o ministro de Energia de um país que vive de exportar petróleo. A leitura emirati é a seguinte: se a demanda global por petróleo entrar em platô e depois em queda nas próximas duas ou três décadas, a estratégia racional é extrair tudo o que se puder agora, monetizar enquanto há comprador, e usar essa receita para construir uma economia que não dependa do barril. O que fazem internamente, em documentos da ADNOC, é o 'pump it before it's worthless': bombear antes que perca valor. Permanecer dentro de um cartel cujo objetivo é restringir oferta, num momento em que se fecha a janela para vender petróleo, é irracional do ponto de vista deles. A Opep foi moldada para um mundo em que o petróleo era escasso e a demanda crescia para sempre, e esse mundo está acabando. Abu Dhabi foi o primeiro Estado-membro a admitir isso publicamente, com gestos. Consequências concretas Vale traduzir este episódio em consequências concretas para o cotidiano de qualquer pessoa que lê e escuta esta coluna. Primeiro, a volatilidade do barril vai aumentar. Sem a disciplina coletiva da Opep+ funcionando integralmente, episódios de queda brusca de preço (quando os Emirados decidirem inundar o mercado) e de alta brusca (quando houver crise no Golfo) ficarão mais frequentes. Para o Brasil, que é exportador líquido de petróleo pela Petrobras mas importador de derivados, o resultado é assimétrico e incômodo. Segundo, e esse é o ponto mais sutil: a Opep era também uma instituição de coordenação política do Sul Global, o único cartel de commodities em que países em desenvolvimento conseguiam, juntos, exercer influência real sobre o preço de um produto estratégico. Sua erosão indica que a era das instituições coletivas do Sul está em declínio. O Brasil, agora discutindo se cria uma estatal de terras raras, deveria observar com atenção: cartéis funcionam apenas quando há disciplina política, e a disciplina política do Golfo já não existe. 'Países médios sobrevivem melhor sozinhos' Por fim, e talvez o mais relevante: o que os Emirados acabam de fazer é uma demonstração pública de que, na era da competição entre potências, países médios sobrevivem melhor sozinhos, alinhados bilateralmente com Washington ou Pequim, do que dentro de blocos coletivos. É uma mensagem que vale para Jacarta, Brasília, Buenos Aires e Pretória. Há um detalhe que me chama a atenção: o comunicado saiu numa manhã de terça-feira, e a saída foi marcada para sexta. Em diplomacia do Golfo, três dias equivalem a pedir o divórcio na manhã do casamento. A Opep não morreu esta semana, mas a ideia de que o Golfo era uma unidade política, energética e militar coordenada acabou. Daqui a dez anos, quando alguém escrever a história do fim da ordem energética que organizou o século XX, a data de 1º de maio de 2026 vai aparecer numa nota de rodapé importante. Por enquanto, está apenas no rodapé das nossas conversas.

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  7. 27 de abr.

    Encontro da esquerda em Barcelona: ponto de inflexão?

    Em Barcelona, a esquerda global ensaiou sair da defensiva e voltar a ousar. Resta saber se o encontro marcará um verdadeiro ponto de inflexão ou se ficará apenas no diagnóstico de uma crise que já dura tempo demais. Thomás Zicman de Barros, analista político Em 18 de abril, Barcelona sediou o encontro da Mobilização Progressista Global. Mais de cem organizações, oriundas de 72 países, reuniram-se na capital catalã sob os auspícios de Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol. O evento se inscreve na continuidade de encontros realizados em Nova York e Santiago, agora ampliados por iniciativa de Sánchez e do presidente Lula, em parceria com a aliança social-democrata europeia, com o objetivo de incorporar mais atores da sociedade civil. Muitos celebraram Barcelona como um ponto de inflexão. E, ao menos no diagnóstico que a esquerda faz da política global, há algo de novo. Ao longo do último ano, critiquei diversas vezes o estado da esquerda no mundo. Disse aqui que partidos e lideranças progressistas têm se tornado, paradoxalmente, forças conservadoras. Sim, conservadoras: enquanto a extrema direita ocupa o lugar da ruptura, da transgressão, impondo uma espécie de revolução reacionária, a esquerda quer proteger as instituições, muitas vezes sem enfrentar seus limites estruturais. Num contexto de erosão democrática, em que se coloca em xeque a luta pela igualdade, o pilar básico da democracia, a esquerda parece apenas atuar na redução danos. É como se administrasse cuidados paliativos a um paciente terminal: a própria democracia. Líderes da esquerda latino-americana em destaque  O encontro de Barcelona foi, por assim dizer, plural. Dos Estados Unidos, por vídeo, participaram vozes tão diversas quanto a moderadíssima Hillary Clinton e figuras "radicais" como Bernie Sanders e Zohran Mamdani. A presença de muitos representantes da África, como o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, também mostrou como a iniciativa buscou se abrir ao Sul Global. E foi precisamente no Sul Global, notadamente na América Latina, que o evento encontrou seu centro de gravidade: Claudia Sheinbaum, do México, Gustavo Petro, da Colômbia, e, sobretudo, Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, foram estrelas do evento. Foram eles, ao lado de Sánchez, que deram a linha. A mensagem ficou explícita no discurso de Lula: é preciso que a esquerda saia da defensiva. Em certo sentido, em Barcelona se viu a social-democracia assumir que precisa voltar a ousar. Isso dito, para saber se o evento será o tal ponto de inflexão para a esquerda global, resta descobrir se conseguirão transformar diagnóstico em ações. É fácil dizer que falta imaginação política. Muito mais difícil é produzir novas ideias. O próprio Sánchez talvez sugira caminhos nesse sentido. No governo, ele conseguiu recompor a esquerda incorporando pautas e práticas que vinham de forças mais à esquerda, como Podemos e Sumar, hoje minoritárias diante de PSOE hegemônico neste campo. O espanhol denuncia o genocídio em Gaza, regulariza centenas de milhares de imigrantes em meio a uma onda de histeria racista na Europa e avança em reformas trabalhistas que ampliam direitos.  Cúpula de Barcelona atacou as formas contemporânea do capitalismo Transformar a vida das pessoas também passa por definir com clareza o adversário. A cúpula de Barcelona não atacou o capitalismo em si, mas suas formas contemporâneas. A defesa da taxação dos super-ricos como forma de enfrentar a concentração extrema de renda foi um ponto de destaque, assim como crítica às Big Tech. Essas empresas não apenas amplificam discursos de ódio e fragilizam o espaço público, como também aprofundam a precarização do trabalho, dissolvem formas de organização coletiva e corroem vínculos de solidariedade. Uma política emancipatória passa, portanto, pela reconstrução de um tecido social comum. Isso envolve voltar a engajar as pessoas em torno de um horizonte compartilhado: uma vida sem exploração, num planeta habitável, que inclua aqueles que até hoje permanecem sem voz, invisíveis. Esse novo mundo comum só poderá surgir numa luta global. Na última década, a extrema direita se organizou em redes internacionais, enquanto dinamitavam fóruns internacionais.  Em Barcelona, talvez tenhamos visto uma importante resposta. Mas se será, de fato, esse ponto de inflexão, só saberemos quando – e se – esse diagnóstico se transformar em transformação concreta na vida das pessoas.

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  8. 21 de abr.

    Pacotes de IA expõem dilema do Brasil na disputa entre EUA e China

    Em 23 de julho de 2025, Donald Trump assinou ordem para exportar “pacotes completos” de inteligência artificial, colocando o Brasil entre destinos prioritários ao lado de Egito e Indonésia. A medida intensifica a disputa com a China por influência tecnológica global. No mesmo período, o Brasil firmou memorando com Pequim e negocia com Washington, enquanto amplia dependência de infraestrutura digital estrangeira. Thiago Aragão, analista de geopolítica O Brasil está nominalmente na lista de destinos prioritários. Ao lado do Egito e da Indonésia, o país figura entre os mercados emergentes onde a presença americana precisa ser consolidada, antes que a influência chinesa se torne irreversível. Para entender o que isso representa na prática, vale olhar o que aconteceu com o Japão. Em outubro de 2025, durante a visita de Trump a Tóquio, os dois países assinaram um “Technology Prosperity Deal”, um acordo de alinhamento em política de IA que vai muito além da compra e venda de hardware. O documento inclui compromissos sobre padrões técnicos, frameworks de governança, fluxo de dados e cooperação em segurança digital. O Japão passou a integrar estruturalmente a órbita tecnológica americana, não apenas como parceiro comercial, mas como parceiro normativo. Washington quer replicar esse modelo em escala. Leia tambémPossível uso de inteligência artificial em ataques no Oriente Médio levanta questões, diz especialista A lógica americana é clara e, num certo sentido, legítima. A China exporta tecnologia de IA num modelo que analistas descrevem como “full-stack com condições embutidas”: hardware subsidiado, software com lógica de caixa preta e frameworks de governança que replicam o modelo regulatório de Pequim. Washington entendeu que competir chip a chip não é suficiente. É preciso exportar o ecossistema inteiro e, com ele, a arquitetura normativa que o acompanha. Para o Brasil, o problema é que os dois modelos chegam com política externa no rodapé do contrato. Leia tambémNa Índia, Lula diz que IA sem regulação ameaça a democracia e aprofunda desigualdades Em 2025, o governo Lula assinou um memorando de entendimento com a China para aprofundar a colaboração em inteligência artificial. No mesmo período, Brasília avançava nas conversas com Washington sobre o programa de exportação de IA e recebia anúncios de bilhões de dólares em data centers da Microsoft, Amazon e Oracle. Do ponto de vista diplomático, é um malabarismo admirável. Do ponto de vista tecnológico, é uma contradição estrutural que vai cobrar seu preço mais cedo do que se imagina. A questão central não é quem vende o chip. É quem treinou o modelo. Os grandes sistemas de linguagem e tomada de decisão que o setor público e privado brasileiro já usa, na análise de crédito, na triagem de políticas, na recomendação de conteúdo e na gestão de contratos foram desenvolvidos majoritariamente por empresas americanas, segundo padrões americanos, com dados que refletem realidades americanas. O viés não é necessariamente malicioso. Mas é estrutural. E tende a se aprofundar na medida em que o Brasil sustenta sua infraestrutura cognitiva sobre servidores sujeitos ao CLOUD Act americano, a lei que autoriza o governo federal dos EUA a requisitar dados armazenados por provedores americanos em qualquer jurisdição do mundo, independentemente de onde o servidor esteja fisicamente localizado. Leia tambémInteligência artificial: China alerta para cenário apocalíptico ao estilo 'O Exterminador do Futuro' O próprio debate regulatório revela a ambiguidade. O Senado brasileiro tem acompanhado de perto o AI Act europeu como referência normativa para sua legislação nacional, e o projeto em discussão cria um sistema de governança de IA sob a responsabilidade da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Na teoria, é soberania. Na prática, o discurso regulatório aponta para autonomia, mas a implementação é operada por corporações multinacionais americanas. O Brasil faz a lei, mas quem comanda a infraestrutura sobre a qual essa lei incide são outros. Isso não é uma acusação. É uma descrição de como o poder funciona no século 21. Brasil é maior mercado de dados da América Latina A boa notícia é que o Brasil tem cartas genuínas nessa mesa. É o maior mercado de dados da América Latina, tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o que importa imensamente para data centers, e produziu o Pix, um dos sistemas de pagamentos digitais mais sofisticados em operação no planeta. Quando Washington e Pequim disputam o Brasil como parceiro de IA, não o fazem por generosidade. É porque o país tem o que ambos precisam: escala, energia e população conectada. A dependência, se vier, será escolhida, não imposta. A pergunta que o debate público brasileiro ainda não fez com a seriedade necessária é esta: ao aceitar o pacote completo de IA americano, com seus chips, seus modelos, seus padrões de governança e suas obrigações de compliance, o que o Brasil está abrindo mão em troca? Não em termos comerciais, mas em termos de autonomia sobre decisões que, daqui a dez anos, serão tomadas por sistemas que alguém, em algum lugar, já programou.

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Sobre

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa. 

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