Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. HÁ 11 H

    Israel: ONGs pedem anulação de lei sobre pena de morte visando palestinos

    Aprovada pelo Knesset, o Parlamento de Israel, por 62 votos a 48, a lei que institui a pena de morte por enforcamento para condenados por terrorismo continua a causar discussões no país. Partidos da extrema direita da coalizão de governo alegam que a medida poderá evitar novos ataques contra civis, enquanto organizações de direitos civis e grupos da sociedade israelense argumentam que a lei se destina apenas aos palestinos.  Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Fora de Israel, a decisão foi criticada pela ONU, União Europeia, por países aliados de Israel, e por organizações de direitos humanos, aumentando ainda mais o isolamento do país na comunidade internacional.  A aplicação da pena de morte já estava prevista na legislação, por exemplo, como punição a indivíduos envolvidos em situações consideradas de extrema gravidade, como “provocar uma guerra contra Israel para ajudar o inimigo”, “ajudar um inimigo durante uma guerra” e para os “crimes cometidos pelos nazistas”.  Apesar disso, a pena de morte foi aplicada a um civil apenas uma vez, contra o criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1962, em um julgamento que marcou a história de Israel. Eichamann foi capturado pelo Mossad, o serviço secreto israelense, na Argentina e trazido a Israel. O julgamento em Jerusalém foi transmitido pela TV e se transformou também num momento chave para os sobreviventes do Holocausto em Israel, que enfrentavam dificuldades de lidar com a própria história e de dar o seu testemunho. Organizações de direitos civis israelenses entram com petição Pelo menos oito organizações de direitos civis apresentaram uma petição à Suprema Corte pedindo a anulação da nova lei, em um movimento liderado pela Associação pelos Direitos Civis de Israel (ACRI). Integrantes da entidade ouvidos pela RFI disseram acreditar na possibilidade de que a Suprema Corte derrube a legislação. Outras fontes consultadas pela reportagem também avaliaram o mesmo. O argumento da ACRI é que a lei adiciona um novo crime, punível com pena de morte ou prisão perpétua, para aqueles que agiram "com o objetivo de negar a existência do Estado de Israel". Este é um ponto considerado fundamental sob o aspecto legal israelense porque, em tese, é um critério que exclui terroristas judeus que cometam os mesmos atos.  A petição argumenta também que o Knesset não tem autoridade para legislar sobre a Cisjordânia porque Israel não detém a soberania da região. “O gabinete do procurador-geral, o conselho jurídico do Knesset, o Ministério da Justiça, os consultores jurídicos do exército, antigos chefes do Shin Bet (o serviço de segurança interna de Israel) e uma ampla coalização de juristas e organizações da sociedade civil levantaram objeções sérias quanto ao projeto. Todas elas foram ignoradas”, afirmou a ACRI em comunicado.  Outro argumento é que a lei seria inconstitucional. Israel não tem uma constituição formal, como o Brasil, mas um conjunto de 14 leis básicas com poder análogo ao de uma constituição. Uma das leis básicas é definida como “Dignidade Humana e Liberdade”. Segundo as associações israelenses, a lei viola este princípio constitucional do país.  Manifestantes contra a lei Nesta semana, ocorreu em frente ao prédio do Knesset, em Jerusalém, o primeiro protesto contra a nova lei, organizado pelo Movimento Reformista e pelo Conselho Rabínico Reformista de Israel. Em meio à mobilização, duas ativistas israelenses ouvidas pela RFI criticaram duramente a legislação. “É um projeto de destruição do povo palestino. A lei me envergonha, é a assinatura final deste projeto. Ela não se aplica a um cidadão israelense ou a um habitante de Israel, apenas aos palestinos. O país não entende o significado da palavra ‘lei’ como o resto do mundo”, disse Abigail Szor, 26 anos, ativista dos direitos humanos ligada à esquerda radical. “Após a aprovação revoltante da lei de execução, muitos de nós sentimos a necessidade de expressar nossa objeção e revolta. Esperamos que os países que ameaçaram sancionar Israel por causa deste projeto de lei finalmente cumpram suas promessas”, afirmou Sahar Vardi, 35, militante do movimento de esquerda Free Jerusalem.

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  2. HÁ 1 DIA

    Portugal avalia mudanças na Lei da Nacionalidade e critérios de perda da cidadania

    O futuro da Lei da Nacionalidade em Portugal, que afeta diretamente milhares de imigrantes em situação irregular no país, será avaliado pelo Parlamento nesta quarta-feira (1º). Discussões sobre o tempo necessário para obter o benefício da cidadania e sobre a questão da criminalidade serão destaque. O debate sobre as alterações no texto após o veto do ex-presidente Marcelo Rebelo de Sousa será oficializado em plenário. No final do ano passado, a legislação foi revisada pelo Tribunal Constitucional do país. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Em dezembro passado, o Tribunal Constitucional de Portugal declarou que quatro pontos da chamada Lei da Nacionalidade, que restringe o acesso à cidadania portuguesa, eram inconstitucionais. Agora, o Parlamento terá que ajustar os trechos vetados do texto antes da lei ser submetida a uma nova votação. A norma mais polêmica considerada ilegítima pelo tribunal previa a perda da nacionalidade portuguesa para imigrantes que fossem condenados a penas de prisão superiores a dois anos. Esta questão da criminalidade está dividindo os partidos políticos do país. O PSD, partido de centro-direita liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, quer alterar o prazo de tolerância e deve propor a perda da cidadania apenas para quem for condenado a mais de seis anos de prisão. Para os sociais-democratas, a sanção ainda deixaria de ser aplicada – como previa a versão original - a crimes como tráfico de drogas, posse de armas proibidas, imigração ilegal e lenocínio - exploração da prostituição. André Ventura, líder do Chega, partido de extrema direita, rejeitou qualquer acordo e acusou a coalizão governamental de não estar preocupada com os riscos de segurança provocados pela imigração. Analistas políticos lembram que foi o Chega que fez emergir esses debates sobre imigração e criminalidade na história recente do país e que a discussão na Assembleia da República nesta quarta-feira não deixa de ser uma clara concessão do PSD à agenda do Chega. Vida em suspenso A advogada Ana Pacheco Araújo, especialista em imigração e direito internacional, conversou com a RFI e explicou que “as alterações na Lei da Nacionalidade deixam em suspenso a vida de milhares de pessoas que requereram esse direito ou a possibilidade desse direito baseada na segurança jurídica de uma lei, que vive sendo alterada inúmeras vezes ao longo de anos”. “Não temos a estabilidade jurídica da Lei da Nacionalidade. Ela é sistematicamente alterada e usada como política pública para angariar voto. Então, os impactos da imigração passaram a ser voto, e se tornou um debate político. Esta situação de politizar, praticamente anualmente, a Lei da Nacionalidade afeta a vida de milhares de pessoas, que muitas vezes só querem viver em um país onde possam se tornar cidadãos. E neste contexto, as pessoas acabam absolutamente perdidas sem saber como será o futuro”, concluiu Araújo. Mais restrição menos imigração Com as tempestades que atingiram Portugal no início do ano, a construção civil - que conta com 35% de trabalhadores estrangeiros, muitos deles brasileiros - ganhou uma pressão suplementar para reerguer as zonas destruídas pelas chuvas. Apesar do apelo de empresários e representantes patronais sobre a escassez de mão de obra e a absoluta necessidade dos imigrantes para os seus setores de atividade, as discussões para restringir a imigração seguem em pleno vapor. O endurecimento crescente da política migratória em Portugal é resultado da coalizão de centro-direita que governa o país com o apoio do partido Chega, de extrema-direita e segunda maior força no Parlamento português. O Partido Socialista, que governou o país de 2015 a 2024, manteve uma das políticas migratórias mais abertas da Europa; mas no momento, os socialistas são oposição e criticam o endurecimento das regras. No ano passado, o Conselho de Ministros estendeu o tempo obrigatório em território nacional para pedir a nacionalidade portuguesa de cinco para sete anos para brasileiros e cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e da União Europeia, e em até dez anos para outros imigrantes. Foi ainda determinado que as crianças que nascerem em Portugal só terão direito à cidadania se um dos pais viver legalmente no país há pelo menos cinco anos.

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  3. HÁ 2 DIAS

    Trump oscila entre escalada e recuo na guerra contra o Irã em meio a riscos políticos e estratégicos

    As explosões que deixaram áreas de Teerã sem eletricidade nesta terça-feira (31) voltam a expor o impasse estratégico no qual o presidente dos Estados Unidos se encontra. Mesmo após ameaçar “destruir” a infraestrutura energética iraniana caso as negociações não avancem, Trump teria dito a assessores que está disposto a encerrar a guerra contra o Irã. A manobra, no entanto, implicaria o risco político de parecer recuar diante de Teerã. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Entre autorizar operações terrestres de alto custo, como as discutidas na Ilha de Kharg, ou interromper uma ofensiva que inquieta mercados e aliados, Trump se vê cada vez mais limitado por uma guerra cujas consequências estratégicas se tornam difíceis de controlar. Segundo o Wall Street Journal, Trump poderia interromper sua campanha militar por acreditar que forçar a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, prolongaria o conflito "além do prazo de quatro a seis semanas" que ele imaginou ao embarcar na ofensiva aérea ao lado de Israel. Caso a diplomacia falhe, Trump planeja pedir a seus aliados na Europa e no Golfo que forcem a reabertura, disseram autoridades americanas ao jornal. Diante da imprevisibilidade do americano, a diplomacia internacional se reorganiza fora de Washington. Segundo apuração do site Político, o Japão tem atuado como canal indireto de comunicação com o Irã. O ministro das Relações Exteriores japonês, Toshimitsu Motegi, e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, já conversaram ao menos duas vezes desde o início da guerra. O movimento reflete preocupações diretas com energia. O Japão depende do Estreito de Ormuz para cerca de 90% do petróleo que consome e já iniciou a maior liberação de reservas estratégicas de sua história. A primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que pode avançar diplomaticamente. “Vou avaliar o momento adequado para abrir negociações com base no interesse nacional, de forma abrangente”, disse ao indicar que considera dialogar diretamente com Teerã. Outro ator que entra nesse cenário é o Paquistão, que afirmou estar disposto a sediar negociações entre Estados Unidos e Irã nos próximos dias, após reuniões com líderes regionais. A iniciativa reforça a percepção de que os principais canais de diálogo estão se deslocando para fora da Casa Branca. Trump envia mensagens contraditórias Apesar dessas movimentações, o discurso do presidente Donald Trump segue marcado por idas e vindas, alternando sinais de negociação com ameaças de escalada. No domingo à noite, falando a jornalistas a bordo do Air Force One, Trump chegou a afirmar que já haveria uma espécie de mudança de regime no Irã. Segundo ele, “o regime foi destruído, eliminado, todos estão mortos” – uma declaração que não se confirma na prática. Já em entrevista ao Financial Times, o presidente elevou o tom e disse que considera inclusive assumir ativos estratégicos iranianos. “Talvez a gente tome a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções”, afirmou, ao mencionar o principal polo de exportação de petróleo do país. Em uma publicação nas redes sociais, Trump foi ainda mais direto ao ameaçar destruir infraestrutura energética iraniana caso não haja acordo, incluindo usinas, campos de petróleo e a própria ilha de Kharg. Desconfiança em Teerã Do lado iraniano, o discurso é de desconfiança. Em um comunicado, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que há um descompasso entre discurso e prática. Segundo ele, “o inimigo fala em negociação em público, mas em segredo planeja um ataque terrestre”. O impasse também aparece nas propostas formais. Os Estados Unidos apresentaram um plano com cerca de 15 pontos que inclui o desmantelamento do programa nuclear iraniano, limites ao desenvolvimento de mísseis e a redução da atuação regional de Teerã, em troca do alívio de sanções. O Irã rejeitou a proposta e exige o fim imediato dos ataques, compensações pelos danos e garantias contra novas ofensivas, ampliando a distância entre as posições. Enquanto isso, a presença militar americana continua a crescer. Milhares de tropas foram mobilizadas para a região, incluindo cerca de 3.500 militares adicionais nos últimos dias. Ainda assim, analistas avaliam que uma invasão por terra seria altamente complexa e arriscada, com grande potencial de baixas.

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  4. HÁ 3 DIAS

    Crise energética: Venezuela antecipa feriado e suspende atividades para reduzir consumo

    Começa nesta segunda-feira (30) o feriado prolongado na Venezuela, decretado pela presidente Delcy Rodríguez como parte de um plano de economia de energia. A medida, que vai durar até o fim da Semana Santa, determina a suspensão das atividades do setor público e educacional. Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela. “Quero anunciar que decretei folga de segunda a sexta-feira para todo o setor de educação. Nossas crianças não devem ir à escola. Também haverá folga para os ministérios, porque isso faz parte do plano de economia de energia elétrica”, afirmou Rodríguez. O anúncio foi feito durante uma visita ao estado de Nueva Esparta, transmitida pela VTV, a emissora estatal. Segundo a presidente, a suspensão não se aplica a setores considerados essenciais, responsáveis pela prestação de serviços básicos. Rodríguez declarou, sem apresentar os dados, que o país registrou recentemente a “demanda [energética] mais alta em anos”, o que seria resultado do crescimento econômico do país. Plano de economia de energia A decisão ocorre após o anúncio, na semana anterior, de um programa de economia energética com duração prevista de 45 dias. Segundo Rodríguez, o período deve coincidir com um aumento das temperaturas em todo o país, por conta da “passagem perpendicular de raios solares de sul a norte, o que, na prática, significa que os raios do sol incidirão diretamente sobre a Venezuela”. Ainda de acordo com a presidente, o fenômeno deve pressionar o consumo de energia no país. Diante desse cenário, o governo recomendou a redução no uso de eletricidade, com orientações para moderar o uso do ar-condicionado e reduzir o uso desnecessário de aparelhos eletrônicos. Ao lado de autoridades do setor, Rodríguez afirmou que as sanções econômicas contra o país caribenho comprometem a recuperação do sistema elétrico e defendeu a retirada das restrições. “O bloqueio econômico impactou negativamente um serviço essencial para a população e, por isso, fazemos um pedido pelo fim das sanções contra nosso país, para que possamos recuperar plenamente esse serviço.” Crise energética e apagões Embora não tenha feito referência direta aos apagões, o anúncio ocorre após o aumento de relatos de falhas no fornecimento de energia em diferentes estados venezuelanos. As interrupções têm sido mais frequentes fora da capital, mas também há registros de interrupções em Caracas. No dia 20 de março, véspera do anúncio do plano de 45 dias, opositores denunciaram uma falha elétrica de grande escala que teria atingido diversos estados do oeste do país. “Novamente ocorre um apagão generalizado que afeta, até onde há informação, os estados de Táchira, Mérida, Trujillo, Barinas, Portuguesa, Lara e, obviamente, Zulia”, disse Juan Pablo Guanipa, do partido Primeiro Justiça, em suas redes sociais. Após o apagão, a deputada Nora Bracho, do partido Um Novo Tempo, defendeu o aumento de investimentos no setor e afirmou que “a crise do sistema elétrico nacional não pode continuar sendo tratada como um tema secundário". Na semana passada, novas denúncias foram apresentadas pela oposição. O partido Primero Justicia afirmou que a crise se intensificou nos últimos meses, com cortes de até oito horas por dia no estado de Zulia. Além da falta de investimentos no setor, a oposição também responsabiliza pelos apagões no país o que classifica como má gestão da Corpoelec, a estatal responsável pelo sistema elétrico

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  5. HÁ 6 DIAS

    META e YouTube anunciaram que vão recorrer das recentes decisões da justiça americana

    Vereditos históricos nos Estados Unidos colocam gigantes da tecnologia no centro de um debate global sobre responsabilidade digital. Em Los Angeles, um júri concluiu que a Meta e o YouTube devem pagar US$ 6 milhões a uma jovem que alegou desenvolver dependência das redes sociais ainda na adolescência, prejudicando sua saúde mental. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles A decisão ocorre logo após outro processo relevante: no estado do Novo México, a Meta foi condenada a US$ 375 milhões por permitir a exposição de conteúdos prejudiciais a menores. Agora, a grande questão é o que esses resultados podem significar para a transformação de todo um sistema de plataformas digitais e como a Justiça passa a analisar a responsabilidade das empresas. Nesta quinta-feira (26), o procurador-geral do estado de Maryland, Anthony G. Brown, emitiu um comunicado no qual destacou que vivemos um momento histórico com os resultados dos júris da Califórnia e do Novo México, embora as empresas ainda possam recorrer. “Esses veredictos são um acerto de contas há muito esperado para uma indústria que passou anos explorando as vulnerabilidades das crianças enquanto dizia aos pais que não havia motivos para se preocupar”, disse o procurador. Ele ainda ressaltou que o veredito é importante na luta para proteger as crianças de plataformas de redes sociais que são projetadas para explorá-las. “A ansiedade, a depressão e o vício que milhões de jovens estão enfrentando não são acidentes, são o resultado de escolhas deliberadas de design feitas por empresas que colocam o lucro acima da saúde mental dos jovens", escreveu o procurador-geral. Apoio bipartidário No Congresso dos Estados Unidos, cresce a pressão por uma regulamentação das plataformas digitais. Há apoio bipartidário no Senado, com parlamentares agora usando os dois casos como argumento para avançar no Kids Online Safety Act - projeto de lei dos Estados Unidos que busca aumentar a proteção de crianças e adolescentes na internet. Alguns senadores destacam a responsabilidade das empresas de tecnologia, comparando a situação à de indústrias historicamente questionadas, como a do tabaco, enquanto outros reforçam que é urgente proteger a saúde mental e o bem-estar dos jovens. Há uma mudança importante em curso. Durante muito tempo, as plataformas foram tratadas como intermediárias neutras. Agora, o foco começa a se deslocar: em vez de olhar apenas para o conteúdo publicado, a Justiça passa a examinar como essas plataformas são estruturadas, como seus sistemas são desenhados e de que forma esse modelo contribui para comportamentos de risco e isso representa um novo tipo de responsabilização. A resposta das empresas As empresas já anunciaram que vão recorrer, o que pode prolongar essas disputas e discussões por anos. Especialistas já estão prevendo que elas devem seguir alguns pilares como:  Alegar que a lei federal (Seção 230) protege plataformas de responsabilidade pelo conteúdo de terceiros e que responsabilizá-las pelo design das plataformas abre um precedente perigoso;    Argumentar que decisões sobre design e algoritmos podem ser interpretadas como restrição editorial, violando a Primeira Emenda da Constituição;   Além de ainda contestar que não ficou comprovado que o design das plataformas causa diretamente problemas psicológicos. Independentemente do resultado final, esses casos já criam pressão, trazem discussões sobre o assunto, incentivam ações semelhantes e aumentam o custo reputacional para as plataformas. Também podem acelerar discussões legislativas sobre limites e obrigações no ambiente digital, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo. O que está em jogo Mais do que indenizações, o que está em discussão é o próprio modelo das plataformas digitais e até que ponto é aceitável estruturar um serviço para capturar a atenção de forma intensiva, sabendo que isso pode ter efeitos negativos. Esses casos colocam em evidência uma tensão central do mundo digital e o equilíbrio entre inovação, lucro e responsabilidade social. Esses casos da Califórnia e do Novo México não são isolados. Há centenas de processos pendentes contra a Meta, YouTube e também Snapchat e TikTok relacionados a vício e danos à saúde mental, incluindo mais de 1.600 ações consolidadas. Espera-se que novas ações civis continuem surgindo, tanto nos EUA quanto internacionalmente, além de outras investigações regulatórias sobre segurança infantil, publicidade direcionada e proteção de dados. No entanto, é importante destacar que a proximidade do presidente Donald Trump com os magnatas das big techs traz ao mesmo tempo uma percepção de que essas empresas operam acima das regras. reforçando a percepção de que, apesar das críticas e dos processos, elas dificilmente enfrentarão consequências reais pelos impactos que causam, principalmente durante esse governo.

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  6. 26 DE MAR.

    Amistoso entre Brasil e França é também um teste para a estrutura da Copa 2026 nos EUA

    O amistoso entre Brasil e França, disputado nesta quinta-feira (26) em Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos, acontece em um momento de preocupação com a infraestrutura do país para a Copa do Mundo de 2026, que começa no dia 11 de junho. Leandra Felipe, correspondente da RFI em Boston. O confronto entre as duas seleções também funciona como um ensaio geral para a Copa, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Na cidade de Boston, autoridades já colocam em prática medidas para simular a operação do torneio, com mudanças nas rotas de transporte, reforço no número de trens e ajustes logísticos para lidar com o aumento do fluxo de torcedores. Trens extras estão sendo disponibilizados saindo da estação central de Boston diretamente para o Gillette Stadium, em Foxborough, que fica a cerca de 40 quilômetros da capital. O estádio, com capacidade para 64 mil pessoas, costuma enfrentar trânsito intenso em dias de grandes eventos, o que ainda levanta dúvidas sobre a eficiência das medidas adotadas. Comunidade brasileira organiza festa Fora de campo, o jogo movimenta a comunidade brasileira na região. Massachusetts abriga a segunda maior população brasileira dos Estados Unidos, o que contribui para a grande expectativa em torno da partida. Desde o início da semana, brasileiros vêm se organizando por redes sociais e grupos de WhatsApp para encontros próximos ao Gillette Stadium — sede do time de futebol americano New England Patriots. A torcida brasileira está preparando um "esquenta" no estilo americano de pré-jogo, o chamado “tailgate”, quando torcedores se reúnem nos estacionamentos para comer, beber e socializar antes da partida. Mas com um toque brasileiro: sai o hambúrguer e entra a picanha. O evento, que começa ao meio-dia, deve reunir torcedores com música, bandeiras e camisas da seleção, criando um ambiente festivo. França chega como favorita Dentro de campo, a França chega como favorita. É uma seleção mais consolidada, com resultados recentes fortes. O Brasil vem em fase de ajustes, e o amistoso também serve como teste para a equipe. Ainda assim, em um confronto desse nível, há expectativa de equilíbrio. O duelo também coloca frente a frente dois companheiros de Real Madrid: Vinícius  Júnior e Kylian Mbappé, que protagonizam uma disputa por protagonismo dentro e fora de campo. Desafios logísticos e políticos preocupam A preparação para a Copa, no entanto, não se limita à organização dos jogos. Um impasse político em Washington levou a um shutdown parcial — quando parte do governo reduz serviços por falta de orçamento e mantém apenas atividades essenciais, mesmo sem pagamento. Nesse contexto, agentes da TSA, responsáveis pela segurança nos aeroportos, continuam trabalhando sem salário, e mais de 480 já deixaram o cargo desde o início da crise. Agora, faltando menos de três meses para a Copa, a chefe interina da TSA, Ha Nguyen McNeill, alertou em uma sessão do Congresso, nesta semana, que pode faltar pessoal a ponto de áreas de controle — como o raio-x antes do embarque — nem abrirem. A preocupação aumenta diante da expectativa de até 10 milhões de passageiros extras, enquanto o treinamento de novos agentes pode levar de quatro a seis meses.

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  7. 25 DE MAR.

    Munique elege primeiro prefeito gay em meio a aumento da homofobia na Alemanha

    O resultado da eleição municipal em Munique, na Alemanha, veio cercado de ineditismos. A terceira maior cidade e também capital do estado mais rico do país elegeu seu primeiro prefeito do Partido Verde. Dominik Krause, de 35 anos, quebrou uma hegemonia do partido de esquerda SPD que já durava 42 anos. Ele também se tornou o primeiro prefeito assumidamente gay da capital da Baviera em um contexto de aumento de casos de homofobia em toda a Alemanha. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha A eleição de Dominik Krause chama a atenção pelo fato de que sua sexualidade e vida privada em nenhum momento se tornaram um assunto durante a campanha. Krause nasceu em 1990 e pertence a uma geração que cresceu em um país muito mais favorável à diversidade sexual. Ele é formado em física pela Universidade Técnica de Munique e se assumiu gay aos 11 anos. Ele está noivo do médico Sebastian Müller, que conheceu ainda na adolescência, em uma aula de dança. No domingo à noite, quando a vitória de Krause já era certa, eles se beijaram no palco da festa de comemoração da vitória, protagonizando uma foto que estampou os portais de notícias em toda a Alemanha. Mas toda essa vida pessoal ficou de fora da campanha, mesmo sendo informações públicas e amplamente conhecidas. Krause era vereador na cidade desde 2014 e, em 2023, se tornou vice-prefeito na coalizão que governa a cidade. Ele parece ter se beneficiado de uma espécie de fadiga de materiais das gestões do Partido Social Democrata (SPD), que comandava a cidade há décadas, particularmente do prefeito Dieter Reiter, que estava no poder já há 12 anos. Na campanha, o prefeito eleito deu ênfase às ideias de ampliar áreas verdes e ciclovias na cidade, além de investir em moradia popular. Vale lembrar que Munique, ao contrário da maior parte da Baviera, é uma cidade com uma inclinação liberal de centro esquerda. Prefeitos gays de Berlim e Hamburgo Eleger um candidato gay já deixou de ser um tabu na Alemanha há muito tempo, mas nem sempre foi assim. O colunista do jornal Welt Rainer Haubrich propõe uma comparação com os primeiros prefeitos gays nas outras duas maiores cidades do país: Berlim e Hamburgo. As duas cidades elegeram homossexuais para seu cargo máximo ainda no começo do século, em um contexto bastante diferente, embora faça apenas 25 anos. Em Berlim, em 2001, Klaus Wowereit foi praticamente obrigado a sair do armário nos dias antes da eleição, quando soube que um jornal estaria prestes a publicar a informação. Foi quando, em um discurso, ele proferiu a frase que ficou conhecida: "Ich bin schwul, und das ist auch gut so." (“Eu sou gay, e isso é uma coisa boa”). Em Hamburgo, o prefeito Ole von Beust já estava em seu segundo ano de mandato, lá em 2003, quando foi chantageado pelo próprio vice-prefeito, ameaçando expor publicamente sua homossexualidade. O caso veio à tona e von Beust acabou obtendo apoio da população, que reelegeu seu partido para seguir na prefeitura. Como podemos ver, a homossexualidade de Dominik Krause, eleito neste domingo prefeito de Munique, teve contornos bem menos dramáticos e preconceituosos. Casos de homofobia em alta A Alemanha vive um paradoxo. Se tornou ao longo das últimas décadas um dos países mais tolerantes do mundo na questão da sexualidade, a ponto de isto não ser mais uma questão relevante nas eleições, mas 2025 registrou 2.048 crimes homofóbicos na Alemanha, o maior número da série histórica e que só aumenta desde 2017, com crescimento acentuado em 2023 e 2024. Desde o ano de 2010, o número de crimes homofóbicos aumentou 10 vezes em toda a Alemanha. O aumento de crimes homofóbicos acompanha o crescimento de popularidade de movimentos e partidos de extrema-direita no mundo e também na Alemanha. O discurso violento contra gays é comum nestes grupos. O secretário-geral do Partido Social Democrata alemão, Kevin Kühnert, disse em uma entrevista ao canal de TV Welt que evita andar de mãos dadas com seu parceiro em Berlim, justamente por causa deste aumento da violência. A própria chefe da polícia da capital alemã, em uma polêmica entrevista de 2024, aconselhou casais gay a terem cuidado em alguns bairros específicos da cidade. Em 2025, duas paradas do orgulho gay tiveram que ser canceladas por motivos de segurança, tanto em Regensburg quanto em Gelsenkirchen, onde havia ameaças de um islamita radical. E tem também movimentos políticos do governo conservador que está no poder. O plano de ação "Vida Queer" que visava melhorar a vida das pessoas LGBTQIA+ foi encerrado pelo atual chanceler Friedrich Merz. Este era o único projeto de financiamento nacional voltado para questões LGBTQIA+.

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  8. 24 DE MAR.

    50 anos do golpe na Argentina: a ditadura que mais matou na América do Sul foi a que teve mais condenados

    Em 24 de março de 1976, teve início a ditadura mais sanguinária da região com requintes de crueldade como o desaparecimento maciço de pessoas, voos da morte e roubo de bebês. A reação da sociedade civil também foi a mais veemente com uma rede poderosa de organismos de direitos humanos, incluindo Mães e Avós da Praça de Maio e mais de 1.200 condenados. Nesta terça-feira, organizações sociais, movimentos de direitos humanos e partidos políticos de esquerda fazem uma gigantesca manifestação por Memória, Verdade e Justiça, mas também contra o governo de Javier Milei, acusado de bloquear acesso aos arquivos, desmantelar políticas públicas que permitem justiça e de promover uma reinterpretação do período. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Oficialmente denominada “Processo de Reorganização Nacional”, a ditadura militar que governou a Argentina entre 24 de março de 1976 e 10 de dezembro de 1983 aplicou um plano sistemático para sequestrar, torturar, roubar bebês, roubar bens, matar pessoas e desaparecer corpos até hoje procurados, vítimas de um terrorismo de Estado. O golpe militar foi justificado pela luta contra o comunismo no contexto da guerra fria, apoiado por setores conservadores e amparado pela doutrina da Segurança Nacional ditada pelos Estados Unidos. O plano sistemático contra opositores incluiu 814 centros clandestinos de prisão, tortura e morte, equivalentes a campos de extermínio, sendo o maior de todos a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), hoje um museu da memória, onde entraram cerca de cinco mil pessoas e saíram em torno de 250. Ricardo Coquet, de 73 anos, é um dos sobreviventes. Foi sequestrado em 10 de março de 1977 ao sair da famosa confeitaria Las Violetas de Buenos Aires. “Fui me encontrar com um primo que me daria roupa e algum dinheiro. Todos os nossos camaradas estavam a ser capturados. Ao sairmos, quando caminhávamos ao carro dele, passou um caminhão com vários armados que me sequestraram. Eu tinha uma pastilha de cianureto, como muitos de nós, para o caso de sermos presos. Tomei a pastilha e avisei-lhes que não me venceriam. Além de vários golpes, deram-me injeções para evitar o efeito. Estavam preparados”, recorda Ricardo à RFI, então militante da Juventude Trabalhadora Peronista. Ele foi levado para a ESMA, onde ficou até 3 de dezembro de 1978, quando ganhou “liberdade vigiada” após um acidente que lhe amputou quatro dedos na carpintaria do centro clandestino, onde realizava trabalhos sob regime de escravidão. “O pior de ser um sequestrado sob tortura é a loucura de viver a cada minuto sem saber se você estará vivo no minuto seguinte. As torturas eram choque elétrico e golpes. Uma semana na solitária; outra semana de golpes. Sempre queriam que eu entregasse os demais militantes”, conta. As vítimas denominadas pelos militares como “subversivos” eram, na sua maioria, militantes de movimentos e partidos de esquerda, estudantes universitários e sindicalistas. “O caso argentino baseou-se no desaparecimento forçado como método modalidade mais comum, mas teve modalidades únicas como os voos da morte e o roubo sistemático de bebês”, aponta à RFI o historiador e escritor uruguaio, Aldo Marchesi, autor de “Hacer la Revolución”, sobre grupos armados durante as ditaduras dos países do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai). Voos da Morte A Junta Militar que governava o país era consciente que não poderia manter milhares de pessoas presas, que não poderia fuzilar e enterrar tamanha quantidade de pessoas sem que o movimento ganhasse estado público e recebesse críticas internacionais, sobretudo do Vaticano. Já havia o exemplo de fuzilamentos por parte do regime de Franco, na Espanha, e de Pinochet, no Chile. Era preciso desaparecer com os corpos e, para isso, a modalidade criada logo no primeiro ano do regime foram os “voos da morte”. Os militares chamavam a modalidade de “traslados” porque os prisioneiros achavam que seriam transferidos para outro centro clandestino. Também eram conhecidos internamente como “voos de portas abertas”. Com a redemocratização, foram descobertos os voos nos quais aviões das Forças Armadas lançavam pessoas vivas, mas drogadas, ao rio da Prata e ao mar. Cada voo transportava entre 25 e 30 pessoas às quais se injetava pentotal sódico, uma substância que as deixava em estado de sonolência. Eram lançadas nuas para que, uma vez decompostos os corpos e comidos por peixes, não deixassem rastros. No entanto, vários corpos mutilados apareceram na margem uruguaia do rio da Prata, na costa atlântica do Uruguai e também em praias de localidades argentinas, sendo enterrados como desconhecidos em cemitérios locais. As primeiras autópsias em restos humanos recuperados foram feitas pelo médico legista Roberto León Dios em 1977. Quando trabalharia sobre o terceiro cadáver, recebeu a ordem militar de interromper o estudo. Misteriosamente, o médico faleceu 40 dias depois. As freiras francesas Alice Domond e Leonie Duquet e as Mães da Praça de Maio, Esther Ballestrino, María Eugenia Ponce e a fundadora, Azucena Villafor, foram vítimas de um voo da morte em 14 de dezembro de 1977, depois de torturadas, por indagarem sobre desaparecidos. O ex-repressor da ESMA, Adolfo Scilingo, reconheceu ao jornalista Horacio Verbitsky, em 1995, que 4.400 pessoas foram lançadas. Os organismos de direitos humanos calculam em cinco mil. Estupros Com frequência, as mulheres presas eram sexualmente violentadas. “No meu caso, não houve penetração, mas sofri abusos sexuais. Em outros casos, mulheres foram estupradas. Ficávamos todos nus. Recebia choques elétricos nas genitais e na boca. Recebi tantos golpes que perdi uma gravidez de dois meses. Se eles soubessem que eu estava grávida, não me soltariam e teriam roubado o meu bebê, como fizeram com todas. Não me roubaram o bebê, mas mataram-no com tantos golpes e choques”, descreve à RFI Betina Ehrenhaus, de 68 anos, presa na ESMA quando tinha 21 anos. Betina era uma militante peronista. Foi sequestrada em agosto de 1979 junto com o marido, Pablo Lepiscopo, de 24 anos, também peronista. Os dois tinham um táxi, fonte de trabalho do casal, roubado pelos militares. Devido à dupla nacionalidade de Betina (alemã), ela foi libertada três dias depois de sessões de tortura. “Pablo nunca apareceu. Acreditamos que tenha sido jogado no rio num voo da morte”, lamenta Betina. Roubo de bebês A ditadura aplicou um plano sistemático de roubo de bebês, filhos dos torturados e mortos. Os bebês eram destinados a famílias de militares e de policiais. As Avós da Praça de Maio ainda procuram 392 netos, tendo recuperado 140 até agora, incluindo quatro no ventre das mães, mortas quando estavam grávidas. O plano sistemático e perverso de roubo de bebês foi uma exclusividade da ditadura argentina. Na ESMA, funcionou uma maternidade clandestina que serviu como centro de rapto de bebês das prisioneiras. Durante os anos de 1990, após duas leis que garantiram a impunidade dos envolvidos, o roubo de bebês foi o único crime que levou uma dezena de repressores à prisão, incluindo os ex-ditadores Reynaldo Bignone e Jorge Videla, embora com mais de 70 anos de idade gozassem de prisão domiciliária. Mães e avós da Praça de Maio Assim como a ditadura argentina foi a mais sangrenta também gerou uma reação social como nenhuma outra na América do Sul.  Quase um ano após o golpe, em abril de 1977, mães de desaparecidos começaram a reunir-se na Praça de Maio, em frente à sede do governo e a escassos quarteirões dos prédios públicos por onde as mães percorriam em busca de respostas sobre o paradeiro dos seus filhos. As reuniões estavam proibidas pelo estado de sítio, motivo pelo qual as mães tinham de circular. Por isso, rondavam o centro da praça, enquanto trocavam informações. Até hoje as poucas Mães da Praça de Maio ainda vivas rodam a praça, religiosamente, às quintas-feiras, havendo completado 2.501 rondas. Em outubro de 1977, começaram a usar um lenço na cabeça como elemento comum para se reconhecerem. Também naquele mês, algumas mães perceberam que também tinham de procurar pelos seus netos, derivando num segundo grupo, as Avós da Praça de Maio. Os anos de 1990 foram marcados pela impunidade proporcionada por duas leis. Em 1995, os filhos que procuravam os seus pais fundaram H.I.J.O.S (acrônimo de FILHOS): Filhos e Filhas pela Identidade e pela Justiça contra o Esquecimento e contra o Silêncio, na sigla em espanhol. O objetivo desse terceiro coletivo era promover a memória e a restituição da identidade dos filhos de desaparecidos. Com o fim da impunidade a partir de 2005, a dinâmica priorizou o acompanhamento dos processos judiciais. Ao tentar eliminar opositores, os militares argentinos acabaram criando um exército de parentes dispostos a continuar a luta das vítimas.  Um filho e um neto Miguel Santucho foi levado para Roma quando completou um ano de idade, em 29 de outubro de 1976. O pai já estava na Itália. Em 13 de julho de 1976, quando Miguel tinha oito meses, a mãe dele, uma tia e uma companheira, as três militantes do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, foram sequestradas. A mãe, Cristina Navajas, estudante de Sociologia, de 26 anos, estava grávida de dois meses. Segundo testemunhas, passou por três centros clandestinos. Foi vista pela última vez em 25 de abril de 1977 já sem o estado de gravidez. Teria perdido o bebê ou teria parido? Miguel teria um irmão? Para reconstruir a sua história e para procurar esse eventual irmão, Miguel retornou a Buenos Aires, aos 17 anos, em 1993. Integrou o grupo HIJOS. “Sabíamos que a minha mãe estava grávida e que tinha mantido a gravidez por vários meses. Supúnhamos que podia ter dado à luz, mas também existia a possi

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