Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. há 22 h

    Copenhague quer criar carteira de motorista de bicicleta para turistas

    Turistas que quiserem alugar bicicletas elétricas poderão ter que aprender as leis de trânsito do país. A proposta surge diante das crescentes reclamações de moradores de Copenhague sobre visitantes que não conhecem as regras de circulação nas ciclovias. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Copenhague quer criar uma espécie de “carteira de motorista” para turistas que alugam bicicletas elétricas compartilhadas. A proposta da prefeita Sisse Marie Welling prevê que os visitantes recebam uma introdução às principais regras de trânsito antes de poderem desbloquear uma bicicleta. A ideia surgiu depois de um verão marcado por reclamações sobre turistas que circulam de maneira insegura pelas ciclovias da capital dinamarquesa. Welling também defende a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas e o uso de capacete pelos visitantes. Novas medidas A proposta foi discutida em uma reunião entre representantes do setor turístico, empresas de aluguel de bicicletas, organizações de ciclistas e especialistas em segurança. Segundo Andreas Keil, secretário municipal de Emprego, Integração e Negócios de Copenhague, os participantes concordaram que é necessário agir para melhorar a segurança nas ciclovias. “É preciso que seja seguro para os turistas e para os habitantes de Copenhague, e é isso que estamos tentando fazer, encontrando muitas ideias e propostas”, afirmou. Entre as medidas discutidas, estão a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas, melhorias na sinalização de trechos considerados perigosos, mais informações para turistas nos hotéis e a possibilidade de um pequeno quiz ou vídeo sobre as regras de trânsito antes que o usuário possa desbloquear uma bicicleta. Atualmente, cerca de 13 mil bicicletas elétricas compartilhadas circulam em Copenhague. Em 2024, eram 8 mil. A prefeitura, no entanto, não tem sozinha os instrumentos legais necessários para estabelecer limites. Por isso, os representantes municipais querem buscar o apoio de uma maioria no Parlamento dinamarquês. Klaus Bondam, diretor de mobilidade, cultura e destinos da Wonderful Copenhagen, participou da reunião e afirmou que o primeiro passo é chegar a instrumentos legais. “A primeira e mais importante coisa a fazer, e houve ampla concordância sobre isso no grupo, é que, juntos, pressionemos o governo”, disse Bondam a uma emissora de TV. Turismo em alta A discussão acontece em meio ao crescimento do turismo na capital dinamarquesa. Em 2025, Copenhague registrou mais de 12 milhões de pernoites turísticos, um recorde. O aumento do número de bicicletas compartilhadas também coincide com uma percepção crescente de insegurança entre os ciclistas locais. Uma pesquisa realizada pelo instituto Epinion para o Conselho Dinamarquês de Segurança no Trânsito mostrou que cerca de oito em cada dez ciclistas de Copenhague consideram que turistas pedalando representam algum grau de problema para a segurança no trânsito. O levantamento ouviu 565 ciclistas. A preocupação não é apenas com quem está sobre a bicicleta. As bicicletas elétricas compartilhadas são frequentemente criticadas por ocuparem espaços de estacionamento e serem deixadas de maneira inadequada nas ruas. Setor turístico questiona A HORESTA, organização que representa hotéis, restaurantes e empresas do setor turístico na Dinamarca, apoia a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas e defende regras mais rígidas para as empresas responsáveis pelo aluguel. A entidade, no entanto, ressalta que o problema não envolve apenas turistas, já que as bicicletas também são utilizadas por moradores, incluindo jovens. A Wonderful Copenhagen também questiona a viabilidade de uma “carteira” obrigatória. Para Klaus Bondam, seria difícil controlar quem realmente fez o treinamento e quem poderia desbloquear uma bicicleta. Orientação ao ciclista Antes mesmo da proposta da prefeita, o Conselho Dinamarquês de Segurança no Trânsito já vinha promovendo ações para ensinar aos visitantes como circular pelas ciclovias de Copenhague. Neste verão, a entidade lançou uma campanha em vários idiomas com orientações como permanecer à direita, sinalizar antes de virar ou parar e evitar os horários de maior movimento. As informações são divulgadas nas redes sociais e em locais frequentados por turistas que alugam bicicletas. O Visit Copenhagen, mantém informações sobre as regras para pedalar na cidade e oferece um quiz para que os visitantes testem seus conhecimentos antes de sair de bicicleta. A Cruz Vermelha dinamarquesa oferece ainda treinamento gratuito para adultos que querem aprender ou melhorar suas habilidades de bicicleta. O treinamento começa em uma área fechada e segura e depois passa para o trânsito, onde os participantes aprendem as regras de circulação.

  2. há 1 dia

    Nova liderança da direita radical italiana cresce nas pesquisas e preocupa coalizão do governo Meloni

    Programa eleitoral de Roberto Vannacci defende propostas polêmicas, como o “patriarcado mediterrâneo”, restrições a conteúdos de gênero na TV e o fim da tipificação do crime de feminicídio. Por outro lado, descendentes de italianos no Brasil são vistos como uma alternativa para atrair novos trabalhadores ao país. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A Itália já começa a olhar para as eleições parlamentares, previstas para o ano que vem. Nesse cenário, um nome da direita radical vem chamando a atenção pelo crescimento nas pesquisas: Roberto Vannacci, eurodeputado e uma das figuras mais controversas da política italiana neste momento. Ele afirma que o atual governo, considerado de extrema direita, não é suficientemente de direita.         O partido de Vannacci, o Futuro Nazionale, começou a divulgar, em etapas, um programa ideológico e eleitoral para as eleições de 2027. Na segunda parte, publicada nesta segunda-feira (22), o partido foca no conceito de família e em questões de identidade. Em um dos trechos mais polêmicos, há uma proposta de proibir a exibição na televisão de conteúdos ligados a gênero e homossexualidade entre as 6h e as 23h. O programa também questiona o apoio de governos a eventos e iniciativas de orgulho LGBTQIA+. O documento classifica os valores familiares e cristãos como “não negociáveis” e defende a chamada família tradicional, formada por um homem e uma mulher. Além disso, contesta que exista na Itália um “direito ao aborto” e questiona a formulação da legislação atual, que permite a interrupção voluntária da gravidez nos primeiros 90 dias. Há duas semanas, o partido de Vannacci havia divulgado a primeira parte do programa, que teve grande repercussão na Itália, por exemplo, ao defender um “patriarcado mediterrâneo”. Para o Futuro Nazionale, o conceito define a ideia de formar homens fortes, com o papel de proteger as mulheres e a sociedade. Ainda no campo das posições antifeministas, o partido quer acabar com a recente tipificação do feminicídio como crime autônomo. A medida entrou em vigor em dezembro e prevê prisão perpétua para esse tipo de crime. Leia tambémBrasil e Itália enfrentam desafios comuns no combate à violência contra mulheres Partido quer atrair descendentes de italianos no Brasil Um dos pilares do Futuro Nazionale é a imigração, tema em que o partido apresenta semelhanças com posições já defendidas pela atual direita italiana. A legenda fala em “tolerância zero” à imigração irregular e defende a chamada “remigração”, com políticas para incentivar e facilitar o retorno de imigrantes aos países de origem. Em contrapartida, quer atrair para a Itália descendentes de italianos que vivem no exterior. O programa propõe incentivos fiscais para estimular trabalhadores que tenham direito à cidadania italiana pelo ius sanguinis, ou seja, pelo direito de sangue, e menciona especificamente descendentes de italianos no Brasil, na Argentina e na Venezuela. O programa eleitoral, no entanto, não explica como essa proposta se encaixaria nas restrições que o governo Meloni impôs, no ano passado, ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência. Leia tambémQuem tem direito à cidadania italiana após aprovação da nova lei proposta pelo governo Meloni? Futuro Nazionale preocupa atual coalizão de governo O Futuro Nazionale vem ganhando espaço nas pesquisas de intenção de voto. Segundo levantamento da Ipsos Doxa divulgado no fim de julho, o partido de Roberto Vannacci aparece com 7,1%, uma alta de 1,1 ponto percentual em relação à pesquisa anterior, superando inclusive sua antiga legenda, a Lega, que aparece com 5,1%. Já o Fratelli d’Italia, de Meloni, segue na liderança, com 26,5%.              Nos bastidores, o governo discute a possibilidade de antecipar as eleições parlamentares para abril do ano que vem. O pleito deve ser realizado até outubro de 2027, quando Meloni completa cinco anos no cargo. Um dos motivos para essa antecipação seria aproveitar um momento ainda favorável à atual coalizão de governo e evitar dar mais tempo para que o Futuro Nazionale cresça e acabe dividindo os votos que hoje sustentam a aliança, já que Vannacci se coloca fora da coalizão e disputa diretamente parte do mesmo eleitorado. Além disso, de forma prática, uma eleição em abril daria ao novo governo mais tempo para preparar a lei orçamentária do ano seguinte, uma das principais tarefas do governo italiano no segundo semestre. Roberto Vannacci: do Exército à política Roberto Vannacci é um nome relativamente novo na política italiana. Militar de carreira, chegou ao posto de general e participou de missões em vários países, como Somália, Afeganistão e Iraque. Ele se tornou conhecido no país em 2023, quando publicou o livro “O Mundo ao Contrário”, que vendeu milhares de cópias online e causou forte controvérsia por passagens consideradas homofóbicas e racistas. Em um dos trechos mais polêmicos, por exemplo, ele diz diretamente aos homossexuais que eles “não são normais”. Em outro momento, fala da jogadora de vôlei Paola Egonu, filha de nigerianos, e diz que, apesar de ela ter cidadania italiana, seus traços físicos não representariam a “italianidade”. Com a repercussão do livro, Vannacci decidiu trocar a carreira militar pela política. Em 2024, aproximou-se da Lega, partido de direita radical liderado pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, e foi eleito para o Parlamento Europeu. A parceria com Salvini, no entanto, durou pouco. Em fevereiro deste ano, Vannacci rompeu com a Lega e fundou o Futuro Nazionale, com o objetivo de ocupar um espaço ainda mais à direita no cenário político italiano.

  3. há 3 dias

    Dois meses após os terremotos na Venezuela, famílias ainda buscam por parentes desaparecidos em La Guaira

    Nesta segunda-feira (24), o terremoto duplo que devastou o estado de La Guaira, na Venezuela, completa dois meses. Nas áreas mais afetadas, sobraram pilhas de concreto e entulho. O movimento diminuiu, mas algumas localidades ainda mantêm operações de busca por vítimas que permanecem soterradas sob os escombros. Até o momento, o governo venezuelano indica que a tragédia deixou aproximadamente 6.500 mortos. Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela Em Caraballeda, um dos municípios mais atingidos pelos sismos de magnitude 7,2  e 7,5, famílias observavam, neste domingo (23), debaixo das sombras das barracas posicionadas às margens das montanhas de concreto que restaram dos edifícios que desabaram, o andamento dos trabalhos. “Estou buscando minha irmã”, disse Deisy Rodríguez, que há dois meses deixou de procurar emprego para tentar encontrar Carmen Rodríguez, uma das tantas desaparecidas que não são contabilizadas pelos números oficiais divulgados pelo governo Venezuelano. “Eu venho para cá todos os dias. Chego às seis da manhã e fico até umas seis da tarde. É terrível, mas vou ficar aqui até conseguir o corpo da minha irmã”, relata Deisy. Não se sabe ao certo quantos corpos ainda permanecem debaixo dos escombros. Neste domingo, Hernán José Paredes, trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, tentava quebrar o concreto para acessar uma possível vítima. Ao seu lado, agentes do serviço funerário venezuelano, vestidos com macacão de proteção descartável, aguardavam a remoção de um corpo encontrado mais cedo. Para José Paredes, que diz estar trabalhando nas operações de busca e resgate desde o início da tragédia, os trabalhos de remoção dos corpos podem durar meses. “Vai levar tempo. Aqui se está retirando laje por laje. Se a gente entrar com máquina, não vai ser possível reconhecer os corpos”, disse o trabalhador que contou já ter extraído nove corpos de vítimas da tragédia. Vítimas não identificadas Nem todos os corpos localizados, no entanto, são identificados pelas famílias das vítimas. Na semana passada, os corpos de 40 crianças e adolescentes que estavam no necrotério improvisado montado em uma zona portuária de La Guaira foram encaminhados ao Cemitério da Esperança, onde foram sepultados junto a outras vítimas não identificadas. Todas as lápides contêm informações que podem ajudar possíveis familiares a reconhecer os corpos posteriormente. Retirada de escombros O volume de escombros deixado pelos terremotos de 24 de junho em La Guaira chega a 2,1 milhões de toneladas, segundo estimativa do ministro do Ecossocialismo, Nelson Rodríguez. A remoção e o processamento desse material poderiam levar cerca de um ano. “Estimamos que pode ser cerca de um ano de trabalho, de classificação, de trituração, para reduzir o volume [dos escombros]. Cada vez que trituramos reduzimos o volume em cerca de 80%. Fazemos essa estimativa de um ano para poder acabar [todo o trabalho]”, afirmou Rodríguez, em entrevista ao canal estatal VTV, na semana passada. Segundo o ministro, em 57 dias de operação, mais de 500 mil toneladas foram retiradas dos locais dos desabamentos. Desse total, cerca de 40 mil foram trituradas. A operação recolhe atualmente entre 280 e 300 toneladas de escombros por dia. Onde as operações de extração de vítimas já terminaram, resta o silêncio e montanhas de concreto. A paisagem é irreconhecível. Nas primeiras semanas após os terremotos, esses locais eram ocupados por familiares em busca de notícias, equipes de resgate e, depois, máquinas pesadas que retiravam os escombros. Com o fim das operações, também diminuiu a presença de voluntários e de equipes de assistência. Muitos voluntários que iam diariamente para essas áreas deixaram de aparecer. Até alguns pontos administrados por agências da ONU, onde havia distribuição diária de alimentos, foram desmobilizados. Famílias que vivem em regiões mais afastadas dos locais dos desabamentos caminhavam todos os dias até os pontos de distribuição de alimentos. Desde os terremotos, parte dos moradores está sem emprego e passou a depender das doações. Com a redução da ajuda, a dificuldade agora é outra: encontrar o que comer.

  4. há 6 dias

    Endividamento recorde leva argentinos às ruas contra juros abusivos e política econômica de Milei

    Nesta semana, uma série de protestos contra bancos e carteiras virtuais tem levado às ruas um problema que ganhou proporções históricas: 20,8 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa, estão endividados. Destes, seis milhões estão inadimplentes, equivalente a 30%. Por trás do problema, a perda acelerada do poder de compra dos argentinos que recorrem ao crédito para comer e pagar contas de serviços básicos. O presidente Javier Milei diz que “o problema é da esfera privada” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça dos devedores”, mas não impede juros de até 1.375% ao ano, um número 40 vezes maior do que a inflação anual. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares. O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, seis milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada “irrecuperável”. Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número que multiplica por sete o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos. Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência. Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro. Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas. No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais, sobem a 260%, mas há custos financeiros encobertos e elevam as taxas para 400%, 700% e até de 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a Fintech argentina MercadoPago, que também atua no Brasil. Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas. Quando se engloba os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Como comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial. Protestos crescem  Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais. Por isso, nesta sexta-feira (21), às 15 horas, haverá um protesto no depósito de mercadorias da empresa MercadoLivre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do MercadoPago. A manifestação é convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro. “Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente”, explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia. A Mercado Livre e a MercadoPago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil. O dono é Marcos Galperín, que se tornou a cara do problema ao cobrar taxas anuais mais de 40 vezes superiores à inflação do país que, embora seja alta, acumula 33,8% nos últimos doze meses. Nesta quinta-feira (20), centrais sindicais e movimentos sociais foram até a Praça de Maio para pressionar o governo por uma solução. O protesto foi também contra o plano econômico do presidente Javier Milei, apontando como a origem do problema. O alvo inicial da manifestação era o Ministério da Economia, ao lado da Casa Rosada, mas o governo colocou barreiras para impedir o protesto. Na quarta-feira (19), o coletivo político Libres del Sur foi até a MercadoPago para expor a empresa líder das carteiras virtuais e o seu dono. No protesto na Praça de Maio, Silvia Amarilla, de 46 anos, empregada doméstica desempregada, convocada pela Libres del Sur, explica à RFI que a família depende do baixo salário do marido, um trabalhador informal. “Antes de o presidente Milei assumir o cargo, podíamos reformar a casa, podíamos comer, podíamos comprar roupa e sobrava para comprar um cachorro-quente para os meus filhos. Não sobrava muito, mas chegávamos ao final do mês. Agora, a renda só dura até o dia 12 de cada mês. Nossos três filhos menores de idade não entendem de dívida. Perguntam o que há para comer e, por mais que expliquemos a situação, continuam com fome”, descreve Silvia. Há um ano, Silvia pediu 200 mil pesos argentinos ao MercadoPago, o equivalente a 650 reais. Já pagou o equivalente ao capital inicial, mas ainda deve 400 mil pesos e acaba de se tornar inadimplente ao entrar no terceiro mês sem pagamento do crédito. Os 200 mil pesos originais se triplicaram e a dívida continua a subir. “Provoca tristeza, raiva e muita frustração porque você vive o dia-a-dia sem saber se terá o suficiente para comer no dia seguinte”, lamenta. A família cortou o jantar como refeição diária, cortou elementos de higiene pessoal e de limpeza da casa. “Suprimimos o jantar, a higiene pessoal e a da casa. É desesperador perder coisas necessárias”, desabafa Silvia à RFI. Carolina Daniel, de 33 anos, perdeu o emprego numa cooperativa há nove meses, quando passou a trabalhar como doméstica. O marido mantém o emprego, mas a renda é insuficiente para cobrir os gastos até final do mês. “Para sobreviver, abrimos uma venda de comida na porta de casa e compramos um carrinho de cachorro-quente para vender na praça. Temos dois filhos. Tivemos de nos endividar para comprar alimentos e para pagar o colégio das crianças”, conta Carolina à RFI. Há um ano, Carolina pediu um milhão e meio de pesos, equivalentes a 500 reais. Hoje deve três milhões e meio de pesos e caiu na inadimplência. A dívida é com o Banco Patagonia, controlado pelo Banco do Brasil na Argentina. “Queremos pagar as dívidas, que o salário aumente, que as tarifas de luz, gás e água diminuam e que o presidente preste atenção no bolso dos trabalhadores e não no negócio dos empresários”, pede. Silvia e Carolina esperam que o governo ajude a refinanciar as dívidas, aumentando prazos e contendo as taxas de juros.  Governo, mero analista do mercado  O governo mostra-se insensível ao problema que o próprio presidente Javier Milei gerou ao liberar as taxas de juros, que passaram a não ter teto. Salários dos servidores públicos e aposentadorias foram diluídos. Os salários do setor privado, em geral, também perderam para a inflação.No ano passado, para conter uma corrida ao dólar, Milei subiu as taxas de juros de referência a 95%, mas, antes, para incentivar o crédito, disse que “o pior do ajuste fiscal já tinha passado” e que “o futuro seria melhor”. Confrontado com o problema, Milei disse que a inadimplência é um “problema entre privados” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça (dos devedores) para tomarem um crédito”. Já o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que “empatia não pode ser confundida com política pública” e “que taxas de juros de 400% ou de 700% são abusivas”, mas “nada impede que sejam cobradas”. Ou seja: o governo comenta a realidade como um mero espectador. “Se o Estado sabe que milhões de trabalhadores estão endividados e que as carteiras virtuais concentram níveis de inadimplência superiores aos dos bancos, não pode lavar as mãos, permitindo que empresas como MercadoPago façam um negócio extraordinário com a necessidade das famílias”, criticou Gabriel Solano. A origem do endividamento pessoal  Desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, os salários registrados perderam para a inflação. No caso do setor privado, a média é de 6,5%, mas com perdas de até 12,6% em determinados setores. Para os funcionários públicos e aposentados, as perdas foram de 36,5%. Mais de 20% dos funcionários públicos foram demitidos por Milei. São pessoas que ficaram sem renda formal. O “salário disponível”, ou seja, o montante que sobra depois de pagar as tarifas públicas, perdeu 20% do poder aquisitivo. As tarifas de serviços públicos representavam 6% dos salários médios; hoje, representam 15%. Uma pesquisa da consultora Zentrix indica que, para seis de cada dez argentinos, o salário termina antes do dia 20 de cada mês. São 61% que não passam do dia 20. Outros 24,3% não chegam até o dia 30, totalizando mais de 85% da população, um número em linha com a quantidade de devedores totais do sistema.

  5. 20 de ago.

    Espanha realoca migrantes em Ceuta e prepara transferência de 500 menores para o continente

    O governo espanhol começou nesta quinta-feira (20) a transferir migrantes que permaneciam em acampamentos improvisados ou nas ruas de Ceuta para espaços temporários de acolhimento. A ação acontece quase três semanas depois da entrada em massa registrada nos dias 30 e 31 de julho. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI na Espanha A primeira operação teve início com as pessoas que estavam na praia de El Trampolín e na região de Loma Colmenar e está sendo realizada de forma voluntária, segundo o Ministério da Inclusão, Segurança Social e Migrações. Dois espaços foram habilitados nesta primeira fase, em Loma Margarita e El Embolsamiento, com capacidade conjunta para cerca de 1.800 pessoas. A Polícia Nacional, outras forças de segurança do Estado e autoridades de Ceuta participam do dispositivo, cujo objetivo declarado é retirar pessoas que estavam dormindo ao ar livre e oferecer condições de alojamento mais seguras. Até o fim da manhã, cerca de 1.500 pessoas haviam sido realocadas, segundo a Radiotelevisión Española (RTVE). Durante a operação, os migrantes foram organizados de acordo com o idioma para receber informações, com o apoio de entidades que atuam no acolhimento. Fontes do dispositivo disseram ao El País que a retirada de grupos que estavam em El Trampolín também teve motivação humanitária, já que as pessoas que dormiam ao ar livre estavam expostas ao mau tempo. A movimentação ocorre depois de semanas em que milhares de pessoas permaneceram espalhadas pela cidade autônoma. Ceuta, território espanhol situado no norte da África e na fronteira com Marrocos, também faz parte da fronteira externa da União Europeia. As estimativas mais recentes do governo espanhol apontam para cerca de 80 mil entradas nos dias 30 e 31 de julho. A maior parte dessas pessoas já retornou a Marrocos, mas milhares continuam em Ceuta. Segundo autoridades locais, entre 5 mil e 8 mil migrantes ainda permaneciam na cidade nos últimos dias.  Crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade Uma das grandes dificuldades na gestão da crise é determinar quantas crianças e adolescentes ainda permanecem em Ceuta e definir as medidas de proteção para esse grupo. Na terça-feira pela manhã, a Polícia Nacional havia identificado 2.168 menores, segundo dados publicados pela RTVE. Nesta quinta-feira, porém, o secretário de Estado de Juventude e Infância, Rubén Pérez Correa, apresentou uma referência mais atual e admitiu que o governo não conhece o número exato de menores migrantes que continuam na cidade autônoma. Em entrevista à rede Cadena SER, o secretário afirmou que os dados dos sistemas de proteção indicam entre 2.400 e 2.500 menores, mas ainda haveria outros menores nas ruas que não foram contabilizados. A ministra da Juventude e Infância Sira Rego já havia chamado a atenção para uma mudança no perfil dos migrantes em comparação com a crise de 2021: desta vez, segundo a ministra, chegaram mais meninas desacompanhadas e também crianças muito pequenas sem acompanhamento adulto. Governo trabalha no traslado de cerca de 500 menores Dentro desse grupo, o governo trabalha em uma solução específica para os perfis considerados mais vulneráveis. Na quarta-feira, a RTVE, citando fontes do Ministério da Juventude e Infância, informou inicialmente que cerca de 500 menores, meninos e meninas, poderiam ser transferidos com urgência para a Espanha continental. Outros meios, como a Cadena SER e o jornal El País, noticiam especificamente um plano para cerca de 500 meninas. Nesta quinta-feira, Rubén Pérez Correa confirmou à SER que o Ministério trabalha com o departamento de Infância de Ceuta em um plano para levar meninas à Espanha continental e afirmou que essa transferência é legalmente possível. A cifra de 500 continua sendo uma referência aproximada, e a fórmula definitiva para a transferência ainda está sendo definida. Entre as alternativas estudadas estão a distribuição entre comunidades autônomas, o acolhimento familiar e o atendimento por organizações especializadas em proteção da infância. A prioridade declarada pelo Ministério é a reunificação familiar quando ela for possível e compatível com o interesse superior da criança ou adolescente. A ministra Sira Rego defende que qualquer retorno seja feito com garantias, escuta do menor e respeito aos seus direitos, e rejeita a possibilidade de repatriações automáticas ou coletivas. Oposição defende o retorno de adultos e menores O plano abriu um confronto direto entre o governo central e o Partido Popular (PP), maior sigla da oposição. Em uma aparição conjunta em Ceuta, o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, e o presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, defenderam que as pessoas que entraram irregularmente nos dias 30 e 31 de julho devem deixar Ceuta, incluindo adultos e menores, e rejeitaram o envio de parte das crianças para a Espanha continental enquanto a situação é resolvida. Há, além disso, uma divergência pública sobre o próprio plano das 500 meninas. Vivas afirmou que não havia recebido uma proposta do governo central para esse traslado. O ministério da Juventude e Infância respondeu que havia mantido a administração local informada sobre as diferentes possibilidades e, nesta quinta-feira, Pérez Correa foi ainda mais explícito e disse que Ceuta “conhece o plano”. A situação de meninas e mulheres desperta preocupação particular por razões de segurança. O ministério da Igualdade alertou durante a crise para o risco de violência física e sexual e de captação por redes de tráfico e exploração entre as mulheres migrantes que permaneciam nas ruas de Ceuta. A Reuters informou nesta semana que pelo menos 15 denúncias de agressões sexuais foram registradas desde a chegada em massa, a maioria envolvendo menores. No caso específico das menores, fontes sanitárias disseram à Cadena SER que pelo menos seis meninas receberam atendimento após agressões sexuais. Entre os quatro primeiros episódios divulgados, duas relataram tentativas de estupro e, nos outros dois, foram observados indícios de que as menores haviam sido estupradas. Enfermagem denuncia colapso do sistema de saúde A permanência de milhares de pessoas em condições precárias também pressionou o sistema sanitário. O Colégio Oficial de Enfermagem de Ceuta considera que existe uma situação de colapso. Em entrevista ao diário Dicen, a presidente da entidade, Rosa María Fuentes Rosas, afirmou que os profissionais estão sustentando o sistema com uma “sobrecarga imensa” e que as equipes de enfermagem já estavam reduzidas antes da crise. Segundo os registros apresentados por Fuentes Rosas, o Hospital Universitário de Ceuta recebe entre 252 e 356 atendimentos por dia, dependendo do dia da semana. A dirigente afirma que a sobrecarga leva as equipes a ter que concentrar a atenção nos casos mais graves e relata problemas relacionados à administração de medicamentos e à transmissão de informações clínicas entre os turnos. O periódico El País informa que foram registrados mais de 200 casos de gastroenterite aguda, 20 de sarna, 21 de impetigo (infecção bacteriana superficial e muito contagiosa da pele) e quatro de tuberculose. Profissionais que trabalham no terreno também relatam doenças respiratórias e agravamento de condições crônicas, como diabetes e asma. O ministério da Saúde rejeita a existência de colapso sanitário e afirma que, apesar da forte pressão gerada pela crise, o sistema manteve sua atividade. Entre 31 de julho e 14 de agosto, o Instituto Nacional de Gestão Sanitária realizou 5.801 atendimentos. Segundo o ministério, mais de 60 profissionais foram incorporados como reforço e a pressão assistencial caiu 72%, de 1.149 atendimentos em 31 de julho para 322 em 14 de agosto. Com essa redução, a prioridade passou a ser melhorar as condições fora do hospital, especialmente água, higiene, saneamento e alojamento.

  6. 19 de ago.

    Portugal enfrenta alta recorde nos aluguéis e discute pacote para conter crise habitacional

    Os aluguéis em Portugal voltaram a subir em julho, com o valor médio por metro quadrado 5,3% maior do que no mesmo período de 2025. No mês anterior, a variação para cima tinha ficado em 5,2%. Estes aumentos mostram que a pressão no mercado das casas para alugar se mantém elevada, num contexto de oferta escassa e procura forte, sobretudo nas grandes cidades e regiões turísticas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), todas as regiões do país registaram aumentos. Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa A tendência não é exatamente um problema recente. Há 5 anos, o preço médio no país era de € 10,7 por metro quadrado. Agora está em € 17,7. Uma elevação de 65% de 2021 para cá, sendo que a inflação geral acumulada no período ronda os 20%. No intervalo de dez anos, o valor dos aluguéis mais do que dobrou - só na época da pandemia que deu uma estabilizada, mas a partir de meados de 2021 voltou a subir. Apesar do preço alto, as casas e apartamentos que são colocados no mercado para alugar recebem muitas propostas. No site Idealista, o maior de Portugal no ramo, 7% das unidades para aluguel não ficam nem 24 horas no ar. Essa corrida acontece porque a procura continua alta enquanto a oferta de novas casas para alugar até caiu. Segundo o Idealista, foram anunciadas 22% a menos de imóveis no segundo trimestre de 2026, em relação a 2025. Para muitas famílias, as contas não fecham, sobretudo nas grandes cidades. O salário mínimo em Portugal é de € 920 (cerca de R$ 5.500) e, com esse valor em Lisboa, o máximo que dá para alugar é um apartamento de um quarto, com menos de 60 m². Muitos jovens continuam morando com os pais por mais tempo do que gostariam, já que não conseguem pagar um aluguel. O alto preço é intensificado pela gentrificação, quando comércios locais e tradicionais de bairros populares dão lugar a estabelecimentos mais sofisticados, como cafés, galerias de arte, lojas de grife e restaurantes gourmet. O fenômeno atrai uma população de maior poder aquisitivo e empurra aos poucos os moradores mais pobres para longe das zonas centrais. Esse é um movimento comum em quase toda a Europa, mas em Portugal é mais importante porque a população é pouco distribuída pelo território e os salários são baixos, tornando difícil para os trabalhadores competir com os valores de aluguéis de curta temporada para turistas. Imigrantes sofrem mais Embora seja um problema para todo mundo que busca habitação, para os imigrantes a situação costuma ser ainda mais complicada, porque é mais difícil ter fiador, ou cumprir outras exigências dos proprietários, como comprovar estabilidade no emprego ou mostrar que pagava aluguel em dia anteriormente. Várias famílias acabam compartilhando um mesmo apartamento, para dividirem os custos. E há quem prefira comprar trailers e viver como se fosse em um acampamento permanente para não gastar praticamente tudo o que ganha na moradia. Em uma tentativa de resposta ao problema, o governo quer alterar algumas das regras do aluguel de imóveis. O pacote original de medidas, que ainda precisam ser discutidas no Parlamento, prevê que os proprietários possam exigir três meses de pagamentos adiantados (em vez dos atuais dois), acaba com o teto para pedido caução, e facilita os despejos. A ideia incentivar os proprietários, tornando o aluguel de seus imóveis uma opção mais atraente, como uma maneira de aumentar a oferta de bens disponíveis. Críticos do governo alegam que as medidas apenas fragilizam o lado dos inquilinos. Alguns especialistas na área até se mostram abertos à proposta, mas lembram que a escassez de oferta não nasce de um único ponto: não é só porque os proprietários não querem pôr seus imóveis no mercado. Construir é caro, o processo de aprovação de projetos é lento, a carga fiscal sobre o setor é alta, o acesso ao financiamento é difícil. As mudanças teriam que ser muito mais amplas para conseguir pôr um freio nos aluguéis.

  7. 18 de ago.

    Após ameaçar Omã, Donald Trump quer transformar Estreito de Ormuz em território norte-americano

    Com o fim do prazo de 60 dias previsto no memorando, que ruiu poucos dias após sua assinatura, Washington dobra a aposta contra o Irã e amplia a pressão sobre seus aliados árabes. Patrícia Vasconcellos, de Washington especial para a RFI Depois de ameaçar Omã, aliado histórico dos Estados Unidos no Oriente Médio, o presidente Donald Trump elevou ainda mais o tom e disse que gosta da ideia de transformar o Estreito de Ormuz em “território norte-americano”. As declarações acontecem depois do fim dos 60 dias previstos no memorando assinado entre Estados Unidos e Irã, um prazo que, na prática, funciona apenas como marco temporal, já que o cessar-fogo estabelecido pelo documento ruiu poucos dias depois de entrar em vigor. Com a guerra próxima de completar seis meses, Washington amplia a pressão econômica e militar sobre Teerã e endurece o discurso contra países árabes que tentam negociar saídas para a crise. No centro da disputa está o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde normalmente transita cerca de 20% do petróleo negociado no mundo. Em uma sequência de perguntas e respostas no Salão Oval na tarde de segunda-feira (16), Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos controlam o estreito por causa do bloqueio marítimo imposto na região — uma afirmação contestada pelo Irã e que contrasta com a redução do tráfego marítimo. O presidente foi além ao defender a possibilidade de domínio territorial americano sobre a passagem. “Nós o controlamos com o bloqueio, e gosto da ideia de declará-lo um território”, afirmou Trump. O presidente dos Estados Unidos também minimizou a capacidade de reação iraniana. “Eles podem ser um incômodo”, disse sobre o Irã. Em seguida, acrescentou que os iranianos poderiam colocar minas na água e atingir “navios de um bilhão de dólares”. Apesar do discurso de controle da Casa Branca, o movimento de embarcações pelo Estreito de Ormuz continua diminuindo. Segundo o MarineTraffic, serviço global de rastreamento de embarcações, foram confirmadas 95 travessias na semana passada, contra 118 na semana anterior. Pressão sobre Omã O endurecimento de Washington não se limita ao Irã. Donald Trump voltou a falar sobre Omã, país aliado dos Estados Unidos que há décadas desempenha papel de mediador entre Washington e Teerã. Questionado sobre a ameaça anterior de bombardear Omã, o republicano respondeu apenas que a questão “vai ser resolvida”. Antes, em entrevista a uma emissora norte-americana, o presidente havia usado um palavrão ao ameaçar bombardear o país caso os omanitas não agissem da maneira considerada correta por Washington. A ameaça ocorre enquanto Omã e Irã trabalham em uma negociação para abrir novas rotas de navegação diante do impasse no Estreito de Ormuz. A posição de Omã é particularmente delicada. O país mantém uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, preserva canais históricos de comunicação com Teerã. Essa condição permitiu aos omanitas atuarem durante décadas como intermediários em momentos de tensão entre americanos e iranianos. A ameaça de Trump, portanto, revela uma dimensão mais ampla da atual estratégia americana: Washington aumenta a pressão sobre o Irã e, ao mesmo tempo, tenta limitar a margem de atuação de aliados árabes que buscam negociar diretamente com Teerã. Memorando já havia ruído O fim do prazo de 60 dias previsto no memorando entre Estados Unidos e Irã não representa o vencimento de um cessar-fogo ainda em vigor. O documento, assinado em junho, previa uma trégua e uma janela de dois meses para negociações. O cessar-fogo, porém, foi rompido poucos dias depois. Os Estados Unidos acusaram o Irã de disparar mísseis e drones, dando início a uma nova sequência de ataques e contra-ataques. Israel também permanece nesse tabuleiro militar com o enfrentamento contra o Hezbollah no Líbano, acompanhado de perto por Teerã. Os 60 dias servem agora principalmente para medir o que aconteceu desde aquela tentativa diplomática e o cenário é praticamente o oposto do pretendido pelo memorando: a guerra continua, não existe acordo permanente, o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece comprometido e Washington intensifica a pressão econômica sobre Teerã. Donald Trump afirmou não estar preocupado com o fim do prazo. Disse que não trabalha com um cronograma e que “não tem pressa” para chegar a um acordo permanente com o Irã. O presidente norte americano também afirma que seu governo mantém um canal reservado de comunicação com autoridades iranianas. Teerã, porém, contesta a versão de Washington sobre contatos diretos com integrantes da Guarda Revolucionária. As versões contraditórias sobre a existência e o alcance dessas conversas têm se repetido ao longo do conflito. Teerã não dá sinais públicos de recuo Do lado iraniano, não há até agora sinais evidentes de que o governo esteja disposto a ceder. O comandante-chefe do Exército iraniano, Amir Hatami, classificou o Estreito de Ormuz como “um ativo geopolítico concedido por Deus à nação iraniana” e afirmou que o país protegerá essa capacidade “com todo o poder”. A estratégia de Teerã é resistir à pressão militar e econômica dos Estados Unidos e preservar sua capacidade de interferir no tráfego marítimo. O controle da navegação é uma das principais formas de pressão iraniana e continua sendo um desafio para o Pentágono e para a Casa Branca. A vulnerabilidade iraniana está na economia. A inflação anual no país chegou a 66% em julho, segundo o Centro de Estatísticas do Irã. Trump voltou a explorar o tema ao afirmar que o Irã enfrenta um problema econômico grave e chegou a citar uma inflação de 300% — número muito superior ao dado oficial iraniano. Autoridades de Teerã também demonstram preocupação com a deterioração da economia e com a possibilidade de novos protestos internos. A aposta de Washington é que o bloqueio e o agravamento das condições econômicas acabem obrigando o governo iraniano a fazer concessões. Petróleo e gasolina pressionam Washington A disputa no Estreito de Ormuz também tem consequências para o mercado internacional de energia e para o consumidor americano. O petróleo Brent subiu 2,58%, chegando a US$ 91,10 o barril. Nos Estados Unidos, a gasolina custa em média US$ 4,06 por galão, segundo a Associação Americana de Automóveis. O valor é cerca de 93 centavos superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Donald Trump reconhece o impacto econômico da guerra, mas argumenta que o aumento dos combustíveis é consequência de um objetivo maior. O presidente disse que, se os americanos tiverem de pagar “um pouquinho a mais” pela gasolina, devem lembrar que o esforço tem como objetivo impedir que o Irã desenvolva uma arma nuclear. A frase resume um argumento repetido pela Casa Branca desde os primeiros ataques contra Teerã, no fim de fevereiro: a meta declarada por Washington é impedir que o Irã obtenha armas nucleares. Faltam menos de três meses para as midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, e pesquisas recentes apontam insatisfação com a inflação e com a condução da guerra. O conflito transforma-se, assim, em uma disputa de resistência. Washington aposta que o bloqueio e a deterioração da economia farão o Irã ceder. Teerã tenta resistir tempo suficiente para que a alta do petróleo, da gasolina e o desgaste provocado pela guerra aumentem a pressão política sobre Donald Trump antes das eleições.

  8. 17 de ago.

    Campanha no Brasil começa em clima de tensão com EUA, comparações entre governos e até chamado 'divino'

    Está oficialmente aberta a temporada de caça ao voto numa das campanhas mais desafiadoras para a direita e para a esquerda no Brasil, em meio a um momento delicado nas relações comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos. Com dois candidatos consolidados na dianteira, mas com indefinição quanto ao resultado final, Lula usa da estratégia de comparar seus governos à gestão de Jair Bolsonaro, enquanto Flávio diz que herdou "missão divina" do pai. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília No embate pessoal, a votação vai dizer como Lula encerrará sua carreira política e até quando o ex-presidente Jair Bolsonaro cumprirá pena. Sobre aspectos gerais, estão na mesa visões divergentes sobre meio ambiente, política social, armamento e soberania. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a largada de sua campanha em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, onde morou e foi líder sindical. Ele destacou a trajetória pessoal de vida, preocupação com a educação de jovens e a questão da violência. O petista mostrou que uma das estratégias é comparar seus anos de governo com os de Jair Bolsonaro. “Quanto eu era presidente, nós queimamos quase 500 mil armas do povo, armas que o povo devolveu. Sabe o que eles fizeram? Eles distribuíram, venderam mais de um milhão de armas. E venderam um bilhão de balas. Essa gente fala de segurança. Mas quem ficou com esse um bilhão de balas? Foi o crime organizado, que travestido de boa vontade foi comprar revólver, pistola, fuzil para continuar matando gente”, discursou o candidato do PT. Flávio Bolsonaro em Copacabana Já Flávio Bolsonaro escolheu a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, berço político da família, para abrigar seu primeiro evento de campanha. O candidato do PL disse que está diante de uma "missão divina" e tentou mostrar que é a encarnação da figura do pai. “Eu estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país. Eu não sei qual é o medo que eles têm dessa palavrinha mágica chamada Bolsonaro. Porque hoje todo mundo vê que Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Nós sempre fomos o último obstáculo para que esse país não virasse uma ditadura de uma vez por todas. Volta, Bolsonaro”, pregou o nome do PL. Para afastar críticas que o clã Bolsonaro atuou pelo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, Flávio Bolsonaro afirmou que é o único que tem condições de negociar com outros países acordos favoráveis para o Brasil. Tarifaço de Trump na campanha Em meio à disputa política, vários setores são diretamente afetados como calçados, madeira, derivados de alumínio e aço, ainda que a lista de exceção seja muito mais ampla nesse novo tarifaço de Trump. O economista e professor do IBMEC, Gilberto Braga, disse à RFI que a reciprocidade, anunciada pelo Brasil, é uma estratégia de defesa que na prática é construída gradativamente. “Essa negociação é como se fosse um jogo de xadrez, em que os Estados Unidos jogam com as peças brancas no tabuleiro, ou seja, eles fazem os primeiros movimentos. E o Brasil joga com as peças pretas, reagindo e se defendendo ao movimento das brancas.” O analista afirmou que uma certa distensão poderia ser obtida com uma conversa direta entre os dois mandatários, Lula e Donald Trump. O novo diálogo já foi aventado pelo chefe brasileiro, mas o economista ressalta que isso também é afetado pelo clima eleitoral. “O que é diferente nesse momento é que nós estamos em plena corrida eleitoral no Brasil. E há um interesse norte-americano deflagrado e confessado de apoiar o candidato de oposição ao governo atual. Isso dá um contorno especial que não existia nas conversas bilaterais anteriores. Por isso a gente não sabe ainda se uma conversa vai ser tão efetiva quanto as anteriores, mas há a sensação de que um contato não prejudica o ambiente econômico e que poderá eventualmente trazer algum grau de melhora”, analisa Braga.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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