A atriz e diretora paulista Christiane Tricerri, figura marcante do teatro, do cinema e da televisão brasileira, acaba de integrar o elenco do longa-metragem “A Paixão Segundo G.H.B.”, que estreou mundialmente no Festival de Cinema de Roterdã, encerrado em 8 de fevereiro. A produção foi exibida em uma sessão dedicada a obras de linguagem ousada e experimental – um território artístico no qual Christiane transita com grande naturalidade. De passagem por Paris após a estreia mundial do filme na Holanda, Christiane Tricerri contou à RFI que, ao receber o convite para o projeto, deparou-se com um universo até então desconhecido por ela: o chemsex, ou sexo químico, prática que envolve o uso de substâncias psicoativas durante o ato sexual para ampliar o prazer ou reduzir inibições, e que hoje se tornou um desafio de saúde pública em diversos países. “O filme trata de uma questão muito importante, que é o chemsex. Na Europa, sobretudo, virou um problema muito grave. Na América Latina e no Brasil também, com jovens que entram em depressão profunda após o uso ou chegam mesmo ao suicídio ou à overdose. É preciso dar atenção especial a isso”, destaca a atriz. O longa-metragem, ainda sem data para estrear no Brasil, tem direção de Gustavo Vinagre e Vinícius Couto, este último performer brasileiro radicado em Lisboa cuja própria trajetória inspira o filme. “O Vinícius viveu essa realidade do chemsex, saiu disso e decidiu expor a gravidade do tema. O filme nasce dessa vivência.” O título do longa dialoga diretamente com o livro “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, e com o GHB, uma das substâncias usadas em ambientes de sexo químico. No filme, o personagem Mathias – interpretado pelo próprio Vinícius – revisita momentos de sua vida e passa a dialogar com a figura de G.H., vivida por Christiane. Ela conta que esse encontro, construído em grande parte por meio de improvisação, foi atravessado por forte carga emocional. “Num determinado momento, o personagem revê toda a sua trajetória e começa a conversar com a G.H., que é a personagem que eu faço.” A atriz recorda que, no romance de Clarice Lispector, G.H. come uma barata, gesto interpretado como um mergulho radical na própria humanidade. No set, essa referência ganhou um novo corpo. “Ele me pergunta: ‘O que é isso, comer uma barata?’. Fomos entrando num lugar muito emocional. A barata é o chão, é onde você vai mais baixo do seu estado como ser humano.” Do set às questões de saúde pública O filme combina cenas ficcionais, improvisos e depoimentos reais. “No final, há uma entrevista verdadeira, um documento mesmo”, afirma Christiane, com um brasileiro que entrou e saiu diversas vezes do ciclo das drogas. O fenômeno do chemsex ganhou forma no início dos anos 2000, quando começaram a surgir registros do uso sexualizado de drogas em festas voltadas ao público gay. A partir de 2010, a prática se expandiu e se tornou mais visível para serviços de saúde e pesquisadores. Nos últimos quinze anos, especialistas observam um crescimento significativo de casos, mudanças nos contextos de uso e um aumento dos problemas de saúde associados. Reações em Roterdã A estreia em Roterdã foi bem acolhida pela imprensa especializada. “As críticas foram excelentes. Uma delas disse que o filme é um ‘pornô didático’. Achei muito interessante”, comenta a atriz, que aproveita para lembrar sua relação com a educação sexual em outros momentos da carreira. Ela recorda quando participou do programa de Jô Soares nos anos 1980 e, em rede nacional, ensinou a colocar camisinha de maneira erótica e natural, como forma de prevenção num período crítico da epidemia de Aids. “Era um momento em que você precisava alertar sobre essas questões. Hoje existe tratamento, mas em festas de chemsex ninguém está protegido. É uma perda total de referências e até de consciência”, observa. Sobre o público do festival, ela acrescenta: “A recepção foi incrível. O público aplaudiu muito, se emocionou. O filme tem momentos intensos, mas tratados com grande delicadeza.” Um curta sobre Marguerite Duras Em Paris, Christiane se dedica agora à direção de um novo curta-metragem inspirado no cinema de Marguerite Duras. Ela explica que sempre admirou a forma como Duras concebia uma narrativa baseada em imagem e texto num momento em que o cinema privilegiava a ação. Seu ponto de partida será o livro “Escrever”, no qual a autora francesa reflete sobre a solidão – real ou simbólica – como condição essencial do processo criativo. O projeto reunirá a atriz e escritora Viviane Fuentes, com quem Christiane trabalhou durante a pandemia, e terá fotografia de sua filha, Isadora Tricerri, diretora de fotografia e embaixadora da Canon no Brasil. As filmagens incluem locações no Cemitério de Montparnasse, onde Duras está sepultada. Christiane conta que pensou inicialmente em trabalhar com diretores homens, mas a falta de interesse dos colegas a levou a outra conclusão. “Nenhum diretor se interessou. Então pensei: essa direção tem que ser de uma mulher. Ela [Duras] falava muito sobre como diretores homens a colocavam de escanteio.” Paralelamente a todos esses projetos, Christiane mantém em circulação, há seis anos, o monólogo “Frida Kahlo – Viva la Vida”, dirigido por Cacá Rosset e escrito pelo dramaturgo mexicano Humberto Robles, o autor vivo mais montado do país. “É um texto incrível, extremamente teatral. Tenho viajado bastante com o espetáculo”, conta a atriz paulista. Após apresentações na Bahia, ela se prepara para duas sessões no espaço Arena B3, em São Paulo, nos dias 21 e 22 de fevereiro.