RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. HÁ 1 DIA

    Entre mares e encontros: Carlos Cavallini apresenta seu universo musical em Paris

    O cantor, compositor e etnomusicólogo Carlos Cavallini, capixaba radicado em Lisboa há 18 anos, vem se destacando cada vez mais na cena luso‑brasileira contemporânea. Em Paris, ele apresenta o show “O Tamanho do Tempo”, no clube Sunset-Sunside, em formação acústica ao lado de Rapha Braga (guitarra), Walter Areia (contrabaixo) e com participação da cantora portuguesa Inês Viterbo. As canções de Cavallini misturam MPB com texturas contemporâneas e trazem uma forte marca autoral. Cavallini começou a compor muito cedo, ainda adolescente no Espírito Santo. A mudança para Portugal, inicialmente motivada pelo mestrado em etnomusicologia após um curso de jornalismo, remodelou seu caminho. “A vida acadêmica acabou me levando e as músicas foram ficando ali guardadas”. Essas composições silenciosas por tantos anos viriam a formar o núcleo de seu primeiro álbum, “O Tamanho do Tempo”, lançado em 2024, com produção de Ricardo Dias Gomes e Domenico Lancellotti. O disco também reúne contribuições de guitarristas como Pedro Sá e Davi Moraes, artistas cujas trajetórias incluem colaborações centrais na MPB, em projetos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, Marisa Monte e Maria Rita. Uma geografia afetiva dos sons A formação musical de Cavallini vem de casa. “Cresci numa casa com muito samba, muito chorinho, muita MPB, com Chico, Caetano, Maria Bethânia”, conta. Essa base brasileira se desdobrou, já em Lisboa, em diálogos com artistas portugueses, entre eles Celina da Piedade, que participa do álbum, e Luísa Sobral, com quem criou o single “Um Milhão”. O artista valoriza esse diálogo cultural. “Portugal tem essa grande vantagem de ser um lugar de encontros, de vários países de língua portuguesa. A gente consegue trocar, se conhecer e ter essas parcerias.” A etnomusicologia como lente e inspiração A pesquisa acadêmica atravessou diretamente seu trabalho musical. Para o mestrado, Cavallini investigou como a mídia portuguesa retratava a música brasileira e, nessa jornada, mergulhou profundamente na Nova MPB. “Passei seis meses no Rio, seis meses em São Paulo, entrevistei diversos compositores da nova cena. Isso me abriu muito os olhos”, conta. Esse percurso criativo-científico também trouxe um encontro inesperado: os produtores de seu álbum, Domenico Lancellotti e Ricardo Dias Gomes. “Eu falava sobre eles na minha pesquisa. E, de repente, eu estava ali gravando com eles. Foi muito especial.” O mar como memória e matéria musical A crítica observou que seu álbum é “banhado pelo mar”. Cavallini não nega, mas diz que não foi proposital. Para compor o repertório, ele vasculhou todos os seus arquivos, desde as primeiras canções. “Eu sou de Vitória. O mar sempre esteve na minha vida. Depois fui para Portugal, e mais tarde vivi na Irlanda do Norte, onde o mar também tem uma importância gigante.” A presença desse elemento em sua música acabou se revelando como um eixo natural. “Fico feliz que tenham ressaltado essa questão do mar, que realmente tem uma importância muito grande para mim.” Literatura e encontros decisivos Entre seus trabalhos mais comentados está o single “Um Milhão”, produzido por Luísa Sobral e inspirado em uma crônica do escritor António Lobo Antunes. A canção nasceu num retiro de composição no Alentejo organizado pela autora e intérprete portuguesa, que depois o convidou para produzir a faixa. “Foi uma alegria enorme quando ela me convidou para gravar com a produção dela. É uma artista que eu já admirava e admiro demais.” Cavallini também lançou três singles mais recentes, produzidos com Rapha Braga. Um deles nasceu de uma história contada por Letrux, nome artístico da cantora, compositora, atriz e escritora carioca Letícia Novaes, uma das figuras mais marcantes da música independente brasileira contemporânea. Ela relatou sua antiga tendência a se curvar para parecer menor em fotos, hábito que Maria Bethânia corrigiu ao aconselhá-la: “Não, não, fique do seu tamanho.” A frase virou canção e encontrou eco nos ouvintes. “Recebo mensagens de pessoas dizendo que levaram essa canção para a terapia”, conta Cavallini. “Fiquei muito feliz com essa receptividade tão linda.” O show no Sunset marca seu retorno à cidade onde viveu em 2013 e carrega um forte componente emocional. “É muito emocionante voltar com esse disco, com essas histórias para contar agora, com as minhas músicas”, diz Cavallini.

    13min
  2. HÁ 2 DIAS

    Christiane Tricerri fala sobre seu trabalho em filme que expõe os riscos e dilemas do 'chemsex'

    A atriz e diretora paulista Christiane Tricerri, figura marcante do teatro, do cinema e da televisão brasileira, acaba de integrar o elenco do longa-metragem “A Paixão Segundo G.H.B.”, que estreou mundialmente no Festival de Cinema de Roterdã, encerrado em 8 de fevereiro. A produção foi exibida em uma sessão dedicada a obras de linguagem ousada e experimental – um território artístico no qual Christiane transita com grande naturalidade. De passagem por Paris após a estreia mundial do filme na Holanda, Christiane Tricerri contou à RFI que, ao receber o convite para o projeto, deparou-se com um universo até então desconhecido por ela: o chemsex, ou sexo químico, prática que envolve o uso de substâncias psicoativas durante o ato sexual para ampliar o prazer ou reduzir inibições, e que hoje se tornou um desafio de saúde pública em diversos países. “O filme trata de uma questão muito importante, que é o chemsex. Na Europa, sobretudo, virou um problema muito grave. Na América Latina e no Brasil também, com jovens que entram em depressão profunda após o uso ou chegam mesmo ao suicídio ou à overdose. É preciso dar atenção especial a isso”, destaca a atriz. O longa-metragem, ainda sem data para estrear no Brasil, tem direção de Gustavo Vinagre e Vinícius Couto, este último performer brasileiro radicado em Lisboa cuja própria trajetória inspira o filme. “O Vinícius viveu essa realidade do chemsex, saiu disso e decidiu expor a gravidade do tema. O filme nasce dessa vivência.” O título do longa dialoga diretamente com o livro “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, e com o GHB, uma das substâncias usadas em ambientes de sexo químico. No filme, o personagem Mathias – interpretado pelo próprio Vinícius – revisita momentos de sua vida e passa a dialogar com a figura de G.H., vivida por Christiane. Ela conta que esse encontro, construído em grande parte por meio de improvisação, foi atravessado por forte carga emocional. “Num determinado momento, o personagem revê toda a sua trajetória e começa a conversar com a G.H., que é a personagem que eu faço.” A atriz recorda que, no romance de Clarice Lispector, G.H. come uma barata, gesto interpretado como um mergulho radical na própria humanidade. No set, essa referência ganhou um novo corpo. “Ele me pergunta: ‘O que é isso, comer uma barata?’. Fomos entrando num lugar muito emocional. A barata é o chão, é onde você vai mais baixo do seu estado como ser humano.” Do set às questões de saúde pública O filme combina cenas ficcionais, improvisos e depoimentos reais. “No final, há uma entrevista verdadeira, um documento mesmo”, afirma Christiane, com um brasileiro que entrou e saiu diversas vezes do ciclo das drogas. O fenômeno do chemsex ganhou forma no início dos anos 2000, quando começaram a surgir registros do uso sexualizado de drogas em festas voltadas ao público gay. A partir de 2010, a prática se expandiu e se tornou mais visível para serviços de saúde e pesquisadores. Nos últimos quinze anos, especialistas observam um crescimento significativo de casos, mudanças nos contextos de uso e um aumento dos problemas de saúde associados. Reações em Roterdã A estreia em Roterdã foi bem acolhida pela imprensa especializada. “As críticas foram excelentes. Uma delas disse que o filme é um ‘pornô didático’. Achei muito interessante”, comenta a atriz, que aproveita para lembrar sua relação com a educação sexual em outros momentos da carreira. Ela recorda quando participou do programa de Jô Soares nos anos 1980 e, em rede nacional, ensinou a colocar camisinha de maneira erótica e natural, como forma de prevenção num período crítico da epidemia de Aids. “Era um momento em que você precisava alertar sobre essas questões. Hoje existe tratamento, mas em festas de chemsex ninguém está protegido. É uma perda total de referências e até de consciência”, observa. Sobre o público do festival, ela acrescenta: “A recepção foi incrível. O público aplaudiu muito, se emocionou. O filme tem momentos intensos, mas tratados com grande delicadeza.” Um curta sobre Marguerite Duras Em Paris, Christiane se dedica agora à direção de um novo curta-metragem inspirado no cinema de Marguerite Duras. Ela explica que sempre admirou a forma como Duras concebia uma narrativa baseada em imagem e texto num momento em que o cinema privilegiava a ação. Seu ponto de partida será o livro “Escrever”, no qual a autora francesa reflete sobre a solidão – real ou simbólica – como condição essencial do processo criativo. O projeto reunirá a atriz e escritora Viviane Fuentes, com quem Christiane trabalhou durante a pandemia, e terá fotografia de sua filha, Isadora Tricerri, diretora de fotografia e embaixadora da Canon no Brasil. As filmagens incluem locações no Cemitério de Montparnasse, onde Duras está sepultada. Christiane conta que pensou inicialmente em trabalhar com diretores homens, mas a falta de interesse dos colegas a levou a outra conclusão. “Nenhum diretor se interessou. Então pensei: essa direção tem que ser de uma mulher. Ela [Duras] falava muito sobre como diretores homens a colocavam de escanteio.” Paralelamente a todos esses projetos, Christiane mantém em circulação, há seis anos, o monólogo “Frida Kahlo – Viva la Vida”, dirigido por Cacá Rosset e escrito pelo dramaturgo mexicano Humberto Robles, o autor vivo mais montado do país. “É um texto incrível, extremamente teatral. Tenho viajado bastante com o espetáculo”, conta a atriz paulista. Após apresentações na Bahia, ela se prepara para duas sessões no espaço Arena B3, em São Paulo, nos dias 21 e 22 de fevereiro.

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  3. 5 DE FEV.

    Embratur leva Amazônia ao público e a profissionais no maior festival de curtas-metragens do mundo

    Pela primeira vez, a Embratur marca presença no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, no centro da França, com uma sessão pública de filmes financiados pela agência no segundo edital do programa Brasil com S – uma vitrine que aposta no cinema como motor de curiosidade turística e janela de descoberta do Brasil.  O Brasil com S vai além do financiamento: ajuda a formar e a lapidar os filmes que apoia. Christiano Braga Lima, coordenador de audiovisual e economia criativa da agência, resume bem a lógica: “Não é só um edital que a gente dá um recurso e o produtor se vira.” O programa desenha uma trajetória completa para os selecionados, do roteiro à distribuição internacional, e faz isso por meio de mentorias técnicas que envolvem parceiros estratégicos. Entre eles está o Projeto Paradiso Multiplica, iniciativa que difunde conhecimento no setor audiovisual conectando profissionais experientes a novos realizadores. E há ainda o olhar de Denise Jancar, consultora com longa atuação em mercados e festivais, conhecida por orientar projetos em circulação global e por representar filmes brasileiros no exterior. “É um edital em que a gente, além de fazer o fomento, faz um trabalho de mentoria”, reforça Christiano. A aposta da Embratur é simples: usar o cinema para emocionar, seduzir e informar. “A gente entende o audiovisual como uma janela para promoção do Brasil, para o despertar do interesse internacional pelo Brasil”, afirma o coordenador. Ele lembra que, dentro da agência, a proximidade entre turismo e cinema não é improviso – é estratégia. “A Embratur entendeu a importância do turismo dialogar com o audiovisual e construir uma relação orgânica entre esses dois segmentos”, diz o economista, que tem trajetória nas políticas culturais. Nesta edição, o recorte tem endereço: a Amazônia. “Aconteceu a COP no Brasil, então a gente queria chamar a atenção para aquele território, para sua potência.” Das 170 propostas inscritas, surgiram cinco filmes, cada um com uma forma de traduzir o Norte. “Amassunu”, com direção de Juliana Boechat e Venusto, aposta no sensorial da culinária e da paisagem amazônica; “O Retorno”, de César Meneghetti com Mario Gianni, revisita memória e ética documental entre os Yanomami; “Te Vejo na Próxima Saída do Boi”, da realizadora Keila Sankofa, mergulha no imaginário popular do Pará; “Beira”, dirigido por Marcela Bonfim, evoca ancestralidade em Porto Velho; e “Bici”, única animação assinada por Otoniel Oliveira, transforma uma bicicleta em símbolo de resiliência em Afuá, na Ilha de Marajó. Histórias para superar estereótipos Os curtas tentam desmontar clichês. “A gente sabe que o mundo conhece ainda pouco a Amazônia, ou se conhece, conhece a partir de estereótipos”, observa Christiano. A seleção busca justamente apresentar outras camadas: “Criar uma percepção positiva em relação a esse território e toda a sua riqueza cultural, sua diversidade natural, sua riqueza urbana”. A experiência da primeira edição do Brasil com S já mostrava que havia fôlego para uma trajetória internacional, mesmo antes da criação das mentorias. “Na primeira edição, a gente teve 400 inscrições e escolhemos cinco curtas, quando a gente ainda não tinha uma mentoria.” Ainda assim, um dos selecionados, “Entre Sinais e Marés” – filmado na Ilha do Mel com elenco e direção formados inteiramente por profissionais surdos – percorreu mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, conquistando prêmios, incluindo um festival dedicado ao público surdo no Canadá. Para Christiano, o desempenho desse curta é a prova de que o programa já nascia com potencial de voo próprio: “Sem a mentoria, você já teve ali curtas que tiveram uma carreira, viajaram internacionalmente.” O cinema brasileiro experimenta um alcance internacional pouco habitual, com títulos como “Ainda Estou Aqui“ e “O Agente Secreto“ abrindo portas e reacendendo o interesse estrangeiro por produções do país. “É um momento importante para o Brasil aproveitar”, conclui Christiano – e Clermont-Ferrand, com seu público de programadores, curadores e distribuidores, parece ser um bom lugar para isso.

    6min
  4. 4 DE FEV.

    Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand

    O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema. Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma. Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta. Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri. Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado. “Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.” Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.” O poder do curta: paixão como ponto de partida Antes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.” Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras: “Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.” Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado. O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa. “É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.” Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.” A experiência como ator em “O Agente Secreto” Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.” Em Clermont-Ferrand, Graziosi foi surpreendido ao ser apresentado ao público, inicialmente, como ator – embora seus filmes tenham sido exibidos ali como diretor. Ele recebeu a situação com bom humor e alegria. “Sou fã do Kleber. Estou torcendo para que ele receba todos os prêmios do Oscar. Vou ficar orgulhosíssimo como alguém que participou do filme e como apaixonado por cinema brasileiro.” Filme brasileiro em competição Sem poder emitir opinião como jurado, Graziosi comenta apenas a reação da plateia ao curta brasileiro “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova, que concorre na mostra Labo. “Foi o filme mais aplaudido. Lida com uma injustiça violentíssima, é de partir o coração. O público teve uma emoção muito forte.” Graziosi diz que não se surpreenderia se o filme conquistasse um prêmio do público.

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  5. 3 DE FEV.

    Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França

    Filmes de quatro cineastas brasileiros disputam prêmios no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, que acontece até sábado (7) no centro da França. A paulista Daniella Saba é a única mulher do grupo de contemplados. Ela concorre com o curta-metragem “Mira”, uma produção francesa integralmente filmada no Brasil e que foi selecionada para a competição nacional, ao lado de outros 50 filmes franceses. “Mira” acompanha a história de uma menina de 14 anos que cresceu em uma área de descanso de caminhoneiros. Criada entre motoristas, ela sempre sonhou em dirigir caminhão. Mas a chegada da adolescência transforma a forma como ela é vista naquele ambiente majoritariamente masculino. Segundo Saba, “ela vai entender o que significa ser mulher num espaço que não é reservado a nós, mulheres”. A diretora conta que quis explorar esse momento de ruptura: a passagem da infância à adolescência num espaço onde o corpo feminino passa a ser observado de outra maneira. Radicada na França há 16 anos, Saba comemora a primeira seleção de um filme seu em uma mostra competitiva. “É uma honra, porque é um dos festivais de curta mais importantes do mundo, então é um reconhecimento. Só a seleção para mim já é um prêmio”, afirma. Para a realizadora e roteirista, estar em Clermont-Ferrand é também uma oportunidade de continuidade profissional: “É uma vitrine, uma forma da gente continuar trabalhando e dar continuidade para esse trabalho que foi feito, que no caso é o ‘Mira’, e que agora vai virar outros filmes no futuro.” A diretora explica que festivais funcionam como porta de entrada para novos projetos, especialmente para realizadores de curta-metragem. “O festival acaba sendo o lugar onde a gente mostra o nosso trabalho. Quando a gente faz um compromisso para trabalhar num longa, são muitos anos trabalhando no mesmo projeto”, observa. Longa-metragem no sertão de Alagoas Além da promoção de “Mira”, Daniella Saba está atualmente dedicada ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem, uma coprodução franco-brasileira. “A gente já tem o roteiro, ele está no final da captação de recursos. É um filme que é necessariamente filmado no Brasil”, explica. O longa será um road movie sobre uma mulher francesa que acompanha o ex-marido em uma viagem pelo sertão de Alagoas na busca por sua família biológica após uma adoção ilegal. “É uma comédia dramática”, resume. A cineasta também comenta as condições de financiamento nos dois países onde atua. Ela destaca que “Mira” contou com ajuda regional francesa, mas não recebeu apoio brasileiro. Ainda assim, enfatiza a importância de políticas públicas no setor: “É muito importante a gente poder desenvolver os curtas-metragens. Dá uma possibilidade desses filmes existirem, até para propulsar a nossa produção para os longas-metragens também.” Para Saba, o interesse internacional por obras brasileiras está em alta: “A gente tem uma cultura muito forte, a gente tem um olhar muito singular e eu acho que eles se interessam.” Especialista em ficção, a diretora também fala de sua relação com o gênero: “Eu adoro trabalhar os diálogos, adoro trabalhar o universo dos personagens. Na minha filmografia tem um documentário, mas a minha especialidade é a ficção.” Desigualdades persistentes para mulheres cineastas Sobre a presença feminina no cinema, Daniella Saba considera a desigualdade gritante: “Uma mulher cineasta tem muito mais dificuldade. Quando a gente lê os relatórios, com os números, com os gráficos, é incomparável.” Segundo a diretora, apenas uma parcela muito pequena das produções tem mulheres no comando. “A gente ainda tem muito trabalho pela frente como cineasta.”

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  6. 2 DE FEV.

    'Democratizar o acesso é um dos principais desafios para tratar o câncer no Brasil', diz oncologista

    Nesta quarta-feira (4) é comemorado o Dia Mundial de Luta contra o Câncer, doença que cresce em todas as faixas etárias e atinge cada vez mais jovens. A incidência de novos casos pode chegar a cerca de 35 milhões de pessoas em 2050, um aumento de aproximadamente 77%, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).  Apesar do crescimento da doença, o câncer deixou há algum tempo de ser uma sentença de morte, diz o oncologista clínico Thiago Kaike, do Hospital Mater Dei, em Salvador. Segundo ele, com os novos tratamentos e diagnósticos cada vez mais precoces, hoje o paciente diagnosticado com um câncer tem maior possibilidade de remissão e cura, em função do acesso aos tratamentos. Mas é preciso democratizar o atendimento no Brasil, ressalta o especialista. “A oncologia vem evoluindo e todos os dias saem novos estudos, mas a gente tem uma discrepância entre o atendimento no hospital público e no privado e um abismo entre os pacientes atendidos nos dois sistemas.” De acordo com ele, é preciso também possibilitar o acesso – hoje concentrado nas capitais – aos pacientes que residem no interior. A luta contra a desinformação, que prejudica os pacientes, é outra prioridade. “Hoje as fake news são uma grande rival. O que percebemos é que o paciente oncológico se sente vulnerável, e percebemos que as pessoas agem de má-fé, explorando essa fragilidade. Isso é muito cruel”, ressalta.  Ouça a entrevista completa clicando no player.

    6min
  7. 29 DE JAN.

    Elogiado pela crítica, Diogo Strausz lança 'Dance para se Salvar' no New Morning

    Produtor, DJ e multi-instrumentista carioca, Diogo Strausz tornou-se, nos últimos anos, um dos nomes mais comentados da cena groove franco-brasileira. Seu novo álbum, “Dance para se Salvar”, lançado pela francesa Favorite Recordings, já vinha cercado de entusiasmo da crítica especializada, que destaca a fusão de disco-funk brasileiro com música eletrônica em arranjos luminosos. Críticos descrevem o disco como um “retrato coerente”, “ensolarado” e “movido por uma filosofia da dança como gesto vital”. O show de lançamento no mítico New Morning, em Paris, onde Strausz se apresenta no dia 31 de janeiro, reforça seu bom momento – a própria sala o define como “uma das figuras mais criativas da cena groove internacional”. O álbum, reconhecido por sua alma “quente” e “polida”, fruto do uso de fita analógica e equipamentos vintage, impõe o desafio de levar esse universo ao palco. A RFI perguntou a Strausz como isso se transforma ao vivo. “É a diferença entre a fantasia e a realidade. Cada escolha que você faz em estúdio, em algum momento você quer ver aquilo ser dividido com um número grande de pessoas e você quer transformar aquilo num momento de coletividade”, diz, explicando que será acompanhado por uma banda no palco, diferente do formato solo que fez com frequência até agora. “Seremos seis músicos no palco. A gente está formatando um show superespecial só para essa ocasião”, conta o multi-instrumentista. Ele dividirá a cena com músicos dos grupos Aldorande, Gin Tonic Orchestra, Jéroboam e a cantora Gabriella Lima.  O conceito da dança como resistência A crítica internacional destacou o caráter filosófico do álbum, visto como um “manifesto de sobrevivência” e uma ode ao movimento como cura coletiva. Quando perguntado sobre quando essa ideia virou o eixo do disco, Strausz disse: “Acho que a partir do momento em que a gente se percebe virando consumidores zumbis na atual conjuntura (...), acho que o dançar é um gesto de recuperação desse presente, da nossa consciência do corpo.”  A França como impulso Strausz começou a fazer música aos 4 anos de idade. “Acho que era uma fuga para mim de qualquer situação desconfortável.” Sobre o que tem ouvido ultimamente, ele cita os últimos discos de Zeca Veloso, Dora Morelenbau e as criações do produtor francês de funk carioca Weal Starcks. A crítica francesa apresenta o carioca como renovador da estética groove e ponte entre cenas. Perguntamos o que a França lhe deu de diferente: “A estrutura de suporte à cultura que existe aqui te dá um tônus e um eixo para você botar uma fé em si próprio. (…) Ter me tornado 'intermittent du spectacle' foi uma coisa que me deu uma coragem para apostar em mim mesmo que eu nunca tinha tido antes.” Strausz se refere a um sistema de apoio a artistas e técnicos do espetáculo em que o Estado francês garante uma remuneração aos cotistas durante o período de criação e produção, não apenas quando estão em cena. Segundo ele, “isso pode ter definido a minha carreira. Provavelmente definiu o lugar que eu estou hoje.” Com o álbum recém-lançado na França, elogiado como um tributo contemporâneo ao disco-funk dos anos 70-80 e celebrado por sua energia dançante e detalhismo sonoro, Strausz diz estar totalmente concentrado nas próximas turnês.

    9min
  8. 27 DE JAN.

    Artista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres

    Artista visual mineira Laura Lima abre sua maior exposição solo no Instituto de Arte Contemporânea em Londres com obras jamais vistas em três décadas de carreira. The Drawing Drawing instiga o público a questionar normas, expectativas, espaço e tempo ao interagir com suas obras. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Para Laura Lima, arte é movimento, e assim começa a entrevista, com a artista de costas, sentada em uma plataforma giratória. A mineira de Governador Valadares, que já foi dançarina, explica que o título la mostra, que ocupa dois andares do Instituto de Arte Contemporânea, com trabalho comissionado especialmente para o espaço, pode ser traduzido em português como "Desenho em Desenho", "Desenho sobre Desenho", mas também como "Desenho Desenhando", reforçando essa ideia de movimento. A primeira reação ao entrar na exposição é perceber que há uma pessoa nua na sala - um modelo vivo profissional - deitada em uma das plataformas redondas de madeira que se movem suavemente em todas as direções. Mas como toda instalação de Laura Lima, o público não está aqui apenas para observar ou participar de uma aula tradicional de modelo vivo. A brasileira desconstrói essa prática artística do século dezesseis ao nos convidar a ocupar outras plataformas rotatórias. Cada uma tem um banco de madeira, um cavalete e material artístico à disposição para desenhar o modelo nu presente na sala. “Tem uma coisa só distinta:  não só o modelo pode estar virado para qualquer direção como também aquele que o desenha. E aí a gente se pergunta - esse que desenha, ele foca? Foca em quê se tudo se move? Que tipo de perspectiva ele vai construir no seu desenho? O desenho pode ser um instrumento de autêntica radicalidade”, explica a artista à RFI. Os desenhos do público podem ser levados para casa ou colocados em uma caixa na galeria para depois serem expostos no corredor central do Instituto de Arte Contemporânea (ICA). O centro cultural, com salas de cinema e áreas de exposição, fica em um endereço central de Londres, o Mall, que liga o Palácio de Buckingham a Trafalgar Square. O ICA nasceu em 1948 dedicado à arte experimental na capital britânica. Francis Bacon, Pablo Picasso e Steve McQueen já apresentaram suas obras nesse mesmo espaço hoje ocupado pela brasileira convidada pela curadora do Instituto a montar essa exposição. “Esse é um lugar absorvente de uma certa experimentação que sempre é necessária, porque mesmo artistas clássicos já propunham coisas interessantes", analisa. "Essa é uma instituição que passou a ser um histórico de radicalidade. Eu ouvi dizer que o ICA foi criado em contraposição aos processos trabalhados na Royal Academy. Eu fui lá olhar uma aula de desenho, ver a forma como eles trabalhavam para poder me inspirar a fazer alguma coisa aqui”, relata.  Londres não foi inspiração para tudo. Laura Lima traz para a cidade materiais já vistos no Brasil, em Barcelona, na Espanha e em Nova York. De seu Balé Literal, está presente um grande para-sol vermelho dançante de cabeça para baixo movido por controle remoto e acompanhado de artistas - ou trabalhos vivos como ela se refere - que interagem com a obra. Para a mostra The Drawing Drawing, Laura resgata um projeto do início da carreira que nem o público brasileiro conhece. Em um grande freezer, há bandejas com imagens congeladas que, ao derreterem, se transformam e se revelam diante dos olhos do público. De novo, a ideia da arte em movimento é presente.  “Uma pintura dentro de um museu também está em movimento, uma vez que uma pintura a óleo está se oxidando. A gente acha que as coisas são estanques, mas não são. Como então a gente mantém obras que são feitas de gelo? É claro que estou falando muito em movimento, isso está sempre no meu trabalho. Esse é quase um recado de que, apesar de tentar conter as coisas, é preciso sempre repensar que tipo de ética você constrói ao redor disso”, explica.   Ao lado da geladeira, há uma obra do futuro, porque tempo também é movimento. Suspensa em frente a uma janela, onde vemos lá fora a vida passar, há uma instalação feita de um entrelaçado de matéria orgânica - linhas de algodão e pedaços de carvão. A obra tem data estimada para ser concluída - daqui a 58 anos! “Essa obra é de 2084. Aí o público pergunta, como assim, Laura, se estamos em 2026?  Porque a obra é uma tecitura feita com algodão cru muito sensível com pedaços de carvão que vão tingindo esse tecido. Eu então retomo uma coisa tão tradicional que é a palavra em francês vernissage, ou seja, quando o pintor vai lá e diz que a obra está pronta e passa o verniz (na tela). É e aí eu digo que essa obra me parece que vai estar pronta em 2084.” Laura Lima nos convida a abraçar essas provocações e a entrar na dança da sua arte em movimento. The Drawing Drawing fica em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea de Londres até o dia 29 de março.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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