Radar econômico

Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

  1. HACE 3 DÍAS

    Após reunião com secretário dos EUA, ministro da Fazenda diz estar 'confiante' em acordo no prazo

    Onze dias depois de os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump terem acertado 30 dias para chegar a um acordo sobre a aplicação de tarifas aos produtos brasileiros importados pelos americanos, o ministro da Fazenda do Brasil, Dario Durigan, disse estar “confiante" de que prazo será cumprido. Ele se encontrou com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, na manhã desta terça-feira (19), em Paris. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A reunião ocorreu à margem da agenda oficial das reuniões dos ministros das Finanças do G7, em preparação para a cúpula do grupo em junho, na cidade francesa de Évian-les-Bains. Além de tentar evitar um novo tarifaço, a negociação inclui outros temas comerciais sensíveis, como a investigação que os Estados Unidos estão realizando sobre o sistema brasileiro de pagamentos PIX. "Eu disse para ele que gostaria que a gente avançasse nos acordos bilaterais. Ele mesmo se colocou à disposição e falou: 'Olha, se a gente precisar, enquanto ministros da Fazenda, entrar no jogo para ajudar na negociação, nós dois estaremos à disposição. Então foi uma reunião muito fluida, muito boa e bem consensual, eu diria”, relatou Durigan, em uma coletiva de imprensa.  "A gente não entrou em detalhes. Mas ele disse: 'vocês seguem confiantes no prazo de 30 dias, determinado pelos dois presidentes?' Eu disse que sim, que isso estava sendo tratado pelo Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil, com o Jamieson Greer, que é a contraparte [nos EUA], e que nós dois deveríamos ajudá-los na condução.” Os dois ministros abordaram o tema da segurança, mencionado na reunião entre Trump e Lula, com foco no combate ao crime organizado e operações conjuntas nas aduanas dos dois países. Os impactos da guerra no Irã sobre os preços do petróleo também estiveram na pauta. Subsídios aos combustíveis  Este foi um dos principais tópicos das reuniões ministeriais do G7, das quais o Brasil participou como país convidado, ao lado do Quênia, da Índia e da Coreia do Sul. Dario Durigan indicou que vê o Brasil em uma posição “privilegiada” para enfrentar o aumento dos preços dos combustíveis, em meio bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã. "O que tem entrado a mais de receita em razão do Brasil ser exportador líquido de óleo cru, a gente tem direcionado para mitigar o impacto para os caminhoneiros, para as famílias que têm que comprar comida, e para ajudar os Estados a garantir escoamento de safra e outras atividades econômicas importantes. Eu acho que é muito compatível", alegou. "E quando eu olho para o lado no mundo, a situação brasileira é uma situação privilegiada.” O ministro ressaltou que os subsídios e desonerações adotados no país para combater o aumento dos preços internacionais do petróleo serão reavaliados a cada dois meses, conforme o andamento do conflito no Oriente Médio. Durigan reafirmou o compromisso da pasta com a neutralidade fiscal das medidas e rejeitou a acusação de que seriam motivadas pela campanha eleitoral.  "Os países aqui estão falando em racionamento de combustível. No Brasil, não. No Brasil, a gente tem dito que o excedente de recurso vai ser utilizado para moderar, para diminuir o impacto nas pessoas. Essas medidas todas têm que ser adotadas com cuidado para não prejudicar a situação fiscal do país”, ressaltou. Os ministros do G7 discutiram formas de atenuar os efeitos da alta de preços do petróleo e de fertilizantes sobre os países mais vulneráveis, principalmente africanos. Os contornos ainda serão debatidos na cúpula de chefes de Estado e de Governo, no mês que vem, mas o plano contaria com o suporte de bancos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Pressão sobre a Rússia  Ao final dos dois dias de reuniões em Paris, os ministros ressaltaram a determinação de “manter a pressão” sobre as exportações de petróleo russo, em um tema que gerou atrito entre as delegações europeias e americana. Para atenuar o impacto doméstico, Washington suspendeu as restrições ao produto de Moscou no começo do mês. "Quero deixar bem claro que a Rússia não pode se beneficiar da guerra no Oriente Médio. Isso não é uma opção. E sobre isso, todos os membros do G7 concordam”, afirmou o ministro francês da Economia, Roland Lescure, ao final do evento. "Nós estamos firmemente comprometidos em manter e prosseguir com as sanções e pressões sobre a Rússia para impedi-la de obter receitas cruciais e financiar o esforço de guerra.” Os ministros também decidiram estender a aliança de minerais críticos criada no Canadá no ano passado, para melhorar o planejamento de estoques internacionais, a rastreabilidade da cadeia de valor e o compartilhamento de informações. O tema é prioritário para o Brasil, dono das segundas maiores reservas mundiais dessas matérias-primas essenciais para a economia digital e a transição energética. "Nós estamos à disposição para abrir um diálogo, mas nós temos as nossas exigências, as nossas condições como país soberano. Há um interesse comum em minerais críticos, e acho que se a gente tiver uma legislação que dê segurança jurídica a partir desses dois pilares, soberania e industrialização no Brasil, dará segurança jurídica”, frisou Durigan.  "Eu percebo que há um interesse muito grande dessas empresas em irem para o Brasil, por isso eu digo: não precisa de benefício fiscal. Há uma demanda instalada no mundo. Os países do G7 são os países mais ricos do mundo e têm interesse enorme por minerais críticos”, reiterou. Durigan ainda deve se reunir com o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, antes de retornar a Brasília na noite desta terça-feira (19).

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  2. 13 MAY

    ‘Presente’ do Brexit: Paris se consolida como principal praça financeira na União Europeia

    Seis anos após a consolidação do Brexit, Paris se firmou como o principal destino de bancos e fundos de investimento na União Europeia. A chegada de tradicionais instituições financeiras, como a britânica Barclays, e de fintechs de peso, como o banco online Revolut, confirma que o caminho traçado pelo governo francês para atrair o setor financeiro deu resultados – apesar da imagem do país ter sido abalada por sucessivas crises políticas, impasses fiscais e orçamentários. Londres continua sendo a maior praça financeira da Europa, porém desde que o Reino Unido formalizou a saída do bloco europeu, milhares de instituições financeiras foram obrigadas a buscar um destino dentro das fronteiras da UE. Uma concorrência se estabeleceu entre Paris e Frankfurt, em primeiro plano, mas também Dublin, Milão, Luxemburgo e Amsterdã, as outras praças fortes em euro. Indicadores como a atividade de mercado e a capitalização da bolsa mostram que a França foi a opção mais escolhida para a gestão de ativos, a instalação de filiais europeias e por empresas de tecnologia. Já a Alemanha foi preferida para as atividades ligadas à regulamentação e supervisão bancária, devido à presença do Banco Central Europeu em Frankfurt. “Paris não substitui Londres, e também não domina tudo, mas está com vantagem na concorrência entre as grandes praças financeiras da Europa continental”, resume Pascal de Lima, economista-chefe da consultoria Novaminds, em Paris. “Nem seria do interesse da Europa concentrar tudo em Paris. Uma grande praça financeira europeia é útil para fazer frente a Londres, Nova York e Cingapura, mas uma concentração excessiva criaria riscos. A melhor lógica europeia é uma rede de praças especializadas.” Metade das novas autorizações Os mais recentes números da Autoridade de Controle Prudencial e de Resolução (ACPR), órgão de supervisão bancária e de seguros do Banco da França, indicam que, em 2025, Paris recebeu cinco vezes mais pedidos de autorização de instituições de crédito do que no ano anterior, e a metade de todas as solicitações feitas na zona do euro. Entre elas, está o maior banco online da Europa, o Revolut, que fará da sede francesa o seu hub de operações em todo o continente. A gigante de stablecoins Circle também quer se estabelecer em Paris. As escolhas não foram um acaso. A iminência do Brexit motivou uma série de reformas fiscais e trabalhistas na França para aumentar a atratividade da Cidade Luz, que em 2025 ultrapassou Tóquio e ficou na quarta posição no ranking de referência da Open Financial Ecosystem Index (OFEX). O índice estabelece as melhores praças internacionais, com base em 53 critérios. Estratégia de atração “As reformas ajudaram claramente, embora não expliquem tudo”, avalia Lima. “A queda do imposto sobre as empresas de 33% para 25%, a criação de um regime fiscal único sobre os rendimentos do capital, a reforma do Direito do Trabalho, a estratégia Choose France e o próprio discurso de Emmanuel Macron, mais favorável às empresas, melhoraram a imagem e a previsibilidade do mercado francês junto aos bancos e investidores internacionais”, indica. Antes dessa movimentação, Paris já dispunha de uma presença sólida de bancos sistêmicos, na gestão de ativos e infraestruturas de mercado em torno da sua bolsa de valores, com grandes empresas cotadas. Também oferece um ecossistema de novas tecnologias dinâmico, além de ser um polo de formação de talentos financeiros e tecnológicos de alto nível. O dinamismo do setor financeiro nos últimos anos beneficia a economia francesa, com efeitos como aumento da arrecadação e atração de investimentos – nos últimos seis anos, a França foi o principal destino de investimentos estrangeiros na Europa, segundo a EY. A criação de postos de trabalho qualificados é outra vantagem, com traders, juristas, auditores, profissionais de dados e de cibersegurança encontrando um mercado favorável na França. O banco americano JP Morgan Chase hoje tem 1.000 colaboradores em Paris, quatro vezes mais do que antes do Brexit.

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  3. 6 MAY

    Impacto da guerra nos combustíveis faz disparar as vendas de carros elétricos na Europa

    A guerra no Oriente Médio tem dado um impulso inédito à venda de carros elétricos nos países europeus. A alta dos preços dos combustíveis opera como o gatilho que faltava para muitos motoristas passarem dos motores térmicos aos elétricos, mais econômicos. Na França, o aumento da gasolina chega a € 0,50 por litro, a um total de cerca de € 2. Enquanto isso, nas concessionárias, a busca por alternativas disparou: as vendas de veículos elétricos novos e usados subiram 48% desde janeiro, apesar do contexto de recuo do setor automotivo como um todo, nos últimos anos. O vendedor Alexandre Pires, gerente da loja JPA Autos na região parisiense, está neste mercado há 10 anos e constatou a virada: “faz vários anos que estamos em aumento constante, mas desde o início do ano, ela é bem maior devido ao problema dos combustíveis”, disse. “Como o carro elétrico praticamente não precisa de manutenção, ele é de três a cinco vezes mais econômico.” Para enfrentar o aumento do diesel e da gasolina, em vez de subsidiar o valor do litro, o governo francês prorrogou um plano de ajuda para a compra de um veículo elétrico novo, com a expectativa de beneficiar 50 mil famílias de baixa renda. A França não é um caso isolado: o movimento na direção de carros que dispensem combustível se repete na maioria dos países europeus. A alta das vendas é semelhante no Reino Unido e na Alemanha e até superior na Itália, onde o crescimento nesse segmento chegou a 67%. Novos modelos populares Na Europa, a Tesla segue a marca preferida na linha premium de automóveis. Mas a chegada de modelos pequenos e mais acessíveis, como o Renault Zoe, o Dacia Spring e o BMW i3, ajuda a explicar a maior procura nas lojas. “Temos muita demanda de carros médios e pequenos, para circular na cidade. O volume cresceu muito e agora está mais fácil encontrar modelos usados e recentes, com pouca quilometragem”, frisa Pires. “Os clientes ficam tranquilos, do ponto de vista técnico, afinal a garantia da bateria em geral é de oito anos.” Em entrevista à RFI, a presidente da Câmara Sindical de Importadores de Automóveis e Motocicletas (Ciam) da França, Athina Argyriou, salientou que a indústria automotiva do bloco “está em mutação” desde que compreendeu a oportunidade que representa a transição energética. Hoje, 10 anos depois do Acordo de Paris sobre o Clima, a oferta europeia representa mais de 80% do mercado interno de veículos. “Hoje, a nossa dependência petroquímica do Oriente Médio, da China e dos Estados Unidos é de cerca de 90% e a cada vez que tem tensões geopolíticas, tem impactos nas nossas economias. A Europa viu que, ao mesmo tempo, a sua indústria estava em declínio e foi uma forma de recuperar competitividade”, afirmou Argyriou. “Fizemos essa virada e hoje a Europa é precursora no mundo, no sentido de que ela fixou objetivos extremamente ambiciosos e coloca essa transição econômica no foco das suas preocupações sociais, econômicas e geopolíticas. É uma realidade.” Concorrência chinesa As barreiras adotadas pela União Europeia contra os carros chineses seguraram, num primeiro momento, a entrada de marcas como BYD, MG e Chery no continente. Entretanto, graças aos modelos híbridos, que conseguem contornar o pacote antidumping em vigor contra Pequim desde outubro de 2024, a venda de veículos da China teve uma alta espetacular no primeiro trimestre: chegou a 170% no caso da BYD. “A China tem um avanço considerável nas baterias, mas não nos carros em si. Eles começaram a investir muito cedo, há mais de 10 anos, portanto estão na frente”, comentou a representante setorial. “A China produz mais modelos pequenos, enquanto a competitividade europeia focou na oferta premium. Essa é a diferença.” Na concessionária, o mercado de usados está tenso. Segundo Alexandre Pires, a demanda é maior do que a oferta. “Estamos sempre no limite, em termos de volume. Assim que surge um carro na faixa de até € (E) 20 mil, ele é vendido quase imediatamente”, garante. “Antes, eu precisava explicar, convencer. Agora, são os clientes que pedem. Não tenho dúvida de que, nos próximos anos, os carros chineses também vão ocupar esse espaço.”

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  4. 29 ABR

    Copa nos Estados Unidos vira desafio de orçamento para torcedores: 'está todo o mundo revoltado'

    Assistir aos jogos de uma Copa do Mundo nunca foi barato, mas o Mundial nos Estados Unidos parece estar extrapolando  os limites. Ingressos que podem chegar à casa dos milhões de dólares, custos elevados para conseguir um visto, conforme o país de origem, e agora a gota d’água são os valores do transporte público para chegar aos estádios, que podem chegar a US$ 100, ou mais de R$ 500. Para o público brasileiro, a Copa nas Américas – com jogos também no México e no Canadá – facilita em relação às sedes das últimas competições. O preço de passagens aéreas é menor do que foi para o Catar e a Rússia. Entretanto, todo o resto da conta corre o risco de sair mais alto: hospedagens, transportes e restaurantes, além da tradicional gorjeta nos serviços, que chega a 20% nos Estados Unidos. Muitos torcedores desistiram da viagem. “Quando é uma pessoa sozinha, ela se vira, vai no amor e fica no sofá de alguém. Mas quando é para quatro pessoas, a gente viu que muita gente não vai conseguir ir porque o custo aumentou muito”, afirma Fernanda Zaguis, consultora em planejamento e gestão do Movimento Verde e Amarelo, que desde 2008 organiza a ida de brasileiros para as Copas. Ao contrário de 2022 e 2018, quando o transporte público para os estádios era gratuito, desta vez os gastos com o trajeto terão de ser considerados. Em Boston, o valor do trem para o Estádio Gillette, em Foxborough, a cerca de 50 quilômetros da metrópole, estará quase 10 vezes mais caro que o normal, num total de US$ 80. A viagem de ida e volta no ônibus Express, reservado para portadores de ingressos, custará US$ 95. Em Nova York, o valor é semelhante (US$ 100 ida e volta) para ir de Manhattan ao MetLife Stadium, em East Rutherford. “Está todo mundo revoltado. Acho que vai ser até mais caro do que no Catar, que era um país caro, mas a gente não tinha que ficar mudando de lugar. Não tinha voos internos e economizamos nisso”, lembra Zaguis. “Estamos juntando a galera para chegarmos ao máximo de pessoas possível e reduzir o preço.” Final por pelo menos R$ 54 mil Os ingressos são outro problema. A partida final, em 19 de julho, não sai por menos de US$ 11 mil (R$ 54 mil) na plataforma oficial da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Os mais caros disparam para US$ 2,3 milhões). Essa tem sido a realidade desde que a entidade adotou um sistema de preços dinâmicos para aumentar os seus lucros, explica Pim Verschuuren, especialista em gestão do esporte e professor-associado da Universidade de Rennes 2, na França. “Quatro anos de futebol são financiados em um mês de Copa do Mundo, mas existe o problema de manchar o discurso da Fifa de que o futebol deve ser o esporte mais popular do mundo, universal”, pondera. “É verdade que essas tarifas excessivas permitem financiar o futebol, mas também financiam a própria Fifa, onde temos problemas antigos de governança. O dinheiro infelizmente não vai todo para os praticantes de futebol e a todos os que se envolvem com o esporte”, constata. Vistos e caução Outro ponto delicado é a própria entrada nos Estados Unidos, que preocupa os torcedores dos países pobres e em desenvolvimento, alvos prioritários da polícia anti-imigração americana nos últimos meses. Restrições de entrada são aplicadas a países como Haiti, Senegal e Costa do Marfim, mas podem ser contornadas com o pagamento de uma caução que vai de US$ 5 mil a US$ 10 mil. O Brasil não está nesta lista, que inclui 47 países, a maioria africanos. Mas, mesmo assim, o torcedor que precisa de visto teve de desembolsar a quantia de US$ 435 para a obtenção do documento – e ainda muitos tiveram o pedido recusado. “Muita gente teve o visto negado. Muita mesmo, principalmente músicos, profissionais liberais, e já estavam com tudo comprado, passagem, voo”, aponta Fernanda Zaguis. “Não teve o que fazer.” O maior sindicato do estádio de Los Angeles exige garantias de que todos os torcedores com ingressos poderão cruzar as fronteiras americanas – do contrário, ameaça fazer greve durante as competições. “É um jogo político, e a Fifa está presa na sua própria armadilha porque o seu modelo econômico depende de os países anfitriões administrarem todos os aspetos de segurança e hospitalidade, enquanto as receitas vão diretamente para os cofres da Fifa”, indica Verschuuren. “Infelizmente, agora este modelo está sendo desafiado porque a federação não tem controle real sobre o que é feito.” O receio de enfrentar problemas na imigração e a perspectiva de gastos afetam os planos de torcedores pelo mundo, inclusive nos países ricos. Na França, uma pesquisa divulgada pela BetFirst apurou que para assistir aos três primeiros jogos dos “bleus” na Copa, é preciso gastar em média € 4,8 mil. Em março, a Organização dos Torcedores Europeus (FSE, na sigla em inglês), entrou com uma queixa contra a Fifa para denunciar os preços “exorbitantes” do Mundial, além de um procedimento considerado “opaco e desleal” de venda de ingressos.

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  5. 22 ABR

    Inteligência artificial já reduz emprego de jovens e ameaça a formação dos profissionais do futuro

    Um estudo realizado no Brasil confirma que a inteligência artificial já afeta o emprego e a renda dos jovens. Universidades como a prestigiosa Stanford previam que os recém-ingressos no mercado de trabalho estariam entre os mais atingidos pelo desenvolvimento da IA generativa. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas, verificou que os jovens de 18 a 29 anos que atuam nos setores mais vulneráveis aos impactos da chegada da tecnologia têm quase 5% menos chances de conseguir um emprego do que antes da IA. As áreas consideradas mais expostas são serviços de informação, comunicação e financeiros. “Eles estão, justamente, em trabalhos que trabalhadores mais seniores usam para tomar as suas decisões. Você precisa de um jovem para montar uma tabela, um gráfico, escrever um resumo”, aponta Daniel Duque, pesquisador-associado do Ibre. “São trabalhos que podem até ser qualificados e exigir algum tipo de qualificação, mas são um tanto mais burocráticos e são os mais facilmente substituídos pela IA, que pode fazer as coisas mais rápido, mais barato e, muitas vezes, melhor.” Os profissionais com mais experiência e na etapa final da carreira parecem poupados – pelo menos por enquanto. A ánalise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou que as faixas de 30 a 44 anos e de 45 a 59 anos foram pouco ou nada afetadas. Os cargos “sêniores” envolvem mais responsabilidade, capacidade de análise e tomada de decisão que, mesmo nas áreas mais vulneráveis, estão menos suscetíveis à substituição pela IA, salienta Duque. Já para os jovens, os impactos começaram a ser sentidos no ano seguinte ao surgimento da inteligência artificial generativa de massa, com o chatGPT, no fim de 2022, e se aprofundaram em 2024 e 2025, com a aparição de outros robôs, como Claude e Gemini. “Provavelmente só vai piorar”, aposta. “Um dos aspectos dessa grande mudança que a gente está vendo é que a adoção da IA está sendo mais rápida do que a adoção de várias outras tecnologias no passado. Tanto o computador, quanto a internet foram sendo adotadas muito mais lentamente do que a IA está sendo, e é por isso que o efeito no mercado de trabalho está sendo muito rápido.” Impacto imediato nos países desenvolvidos Nos países desenvolvidos, onde a automatização do trabalho é mais acelerada, o recrutamento de jovens desenvolvedores já chegou a cair até 20%, constataram pesquisadores do Laboratório de Economia Digital de Stanford, no Estados Unidos, em novembro de 2025. Em média, a queda da empregabilidade foi de 16% nos setores mais expostos. Na França, um estudo publicado em março pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (Insee) revelou números semelhantes, mostrando que as empresas europeias já delegam à IA uma parte do trabalho que costumava ser realizado pelos “júniores”, como tratamento de dados e redação. “O Brasil está um pouco menos exposto do que os países desenvolvidos, mas existem as questões da substituibilidade, que é o quanto a pessoa é altamente substituível pela IA, e da complementaridade, ou seja, o quanto o trabalho dela é complementar ao da IA. Nisso, o Brasil está um pouco pior, porque entre as ocupações expostas, há um maior grau de exposição por substituição”, aponta Daniel Duque. “É um problema que o país vai enfrentar.” Formação dos profissionais do futuro em risco  A razão é a baixa qualificação da mão de obra no país: para ser complementar à IA, é preciso ter o domínio da tecnologia. Na França, a Associação Nacional de Recursos Humanos (ANDRH) notou, ainda, que algumas empresas têm optado por diminuir o número de estagiários e, no lugar, incentivar os funcionários a aumentar o uso da inteligência artificial. O risco, nestes casos, é que a longo prazo os futuros empregados sêniores tenham menos competências. “É um problema grande, porque é muito bem documentado que essas primeiras experiências no mercado de trabalho vão determinar, em grande parte, a sua trajetória toda no mercado de trabalho. Se você tira os trabalhadores do mercado nesse momento mais cedo da carreira, eles não vão formar experiências, não vão ter uma liderança em quem se espelhar depois e, com isso, não vão aprender a tomar as decisões que os sêniores estão tomando”, explica o pesquisador. “No futuro, talvez a gente vá criar melhores modelos de IA que vão acabar podendo tomar decisões tão boas ou melhores que as dos humanos e, de fato, a gente não vai precisar de mais trabalhador nenhum.” É por isso que a democratização do acesso à IA e a distribuição dos seus benefícios para a produtividade em todas as camadas da sociedade estão entre os principais desafios para o futuro do mercado de trabalho, salienta o pesquisador brasileiro.

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  6. 14 ABR

    Estudo constata explosão da concentração de renda dos ricos na América Latina e sugere imposto mínimo

    Um estudo divulgado nesta terça-feira (14) pelo Observatório Fiscal Internacional, em Paris, verificou que a América Latina é a segunda região mais desigual do mundo em termos de concentração de riqueza, e que os mecanismos para tornar mais equilibrado o sistema tributário de sete países da região são insuficientes. O relatório foi encomendado pelo governo do Brasil, que exerce a presidência rotativa da Plataforma Tributária Latino-Americana e do Caribe (PTLac). Lúcia Müzell, da RFI em Paris Os países analisados foram Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, México, Colômbia e Peru. Em comum, todos adotam pouca progressividade nos impostos e diminuição da carga tributária efetiva sobre os ultrarricos. A concentração da riqueza nas mãos de poucos é ainda mais evidente no topo da pirâmide, entre o 1% mais rico da população. “Nos últimos 25 anos, a riqueza dos bilionários na região aumentou seis vezes e, no caso do Brasil, sete vezes, o que representa um aumento de mais de três vezes o crescimento da economia no mesmo período”, salienta Vicente Silva, um dos coordenadores do estudo. “Sabemos que a concentração econômica não só afeta o crescimento dos países, como também tem efeitos muito adversos sobre a própria democracia.” Os pesquisadores, ligados à Paris School of Economics e sob a supervisão do economista Gabriel Zucman, concluíram que os sistemas tributários em vigor são incapazes de corrigir as desigualdades, ao serem projetados para taxar principalmente o consumo e o trabalho, em vez do capital. O resultado é que os 50% mais pobres pagam mais impostos do que o 1% mais rico. “No caso do Brasil, essa regressividade no topo da pirâmide é muito acentuada. O brasileiro médio paga cerca de 42% de sua renda em impostos, enquanto o 0,01% mais rico paga 19%”, nota Silva. Imposto Mínimo Efetivo sobre a Riqueza O estudo analisou diferentes alternativas para diminuir os desequilíbrios: aumentar o imposto de renda em 50% nessa faixa de renda, elevar ou ampliar o imposto sobre heranças, fortalecer o combate à sonegação fiscal, entre outras. Na prática, entretanto, nenhuma seria tão eficaz quanto a criação de um novo instrumento, específico para essa camada da população. “A razão é muito simples: os super-ricos podem estruturar seu patrimônio para ter uma renda tributável muito baixa. Portanto, qualquer medida que vise incidir sobre a renda não será eficaz”, explica o pesquisador chileno. “A nossa proposta de um Imposto Mínimo sobre a Riqueza incide sobre o patrimônio, que é uma base muito mais estável e menos manipulável do que a renda. Não importa se você declarar renda zero: todos os anos o Estado cobrará um mínimo sobre seus ativos”, completa. O imposto mínimo sugerido é de 2% sobre os patrimônios acima de US$ 100 milhões. Apenas 3.000 pessoas seriam atingidas, de um total de 500 milhões de habitantes nos sete países analisados. O potencial de arrecadação chega a US$ 24 bilhões por ano. Evasão fiscal  Os pesquisadores também sugerem a adoção de cláusulas “anti-saída”, para evitar a evasão fiscal. A medida consistiria em continuar a exigir o pagamento de impostos no país onde ocorreu o enriquecimento, durante um certo período de tempo após uma eventual troca de país de residência. Mas Vicente Silva aponta que, na prática, os dados mostram que os ricos não vão embora se um imposto dessa natureza é aplicado. “Pessoas de alto patrimônio líquido têm seus negócios em seu país, possuem redes de contatos, influência, reconhecimento, conhecem o setor, têm vínculo com o país, além de suas famílias. Existem diversos fatores que as fazem permanecer em seus países”, detalha. “Portanto, as evidências mostram que aquelas que saem são muito, muito poucas.” O relatório busca embasar a adoção de reformas tributárias na região. O texto salienta que muitos dos obstáculos técnicos para rastrear a riqueza e a evasão fiscal já foram vencidos nos últimos anos, em parte graças ao aumento da cooperação internacional nessa área. Assim, a barreira política tende a ser o principal empecilho para a adoção de sistemas mais progressivos, ressalta o documento. “A solução reside em um esforço político determinado para garantir que os ultrarricos contribuam pelo menos tanto quanto o resto da população. Não se trata de retornar aos impostos sobre a riqueza do passado, mas sim de uma nova geração de reformas concebidas para corrigir falhas e arrecadar a receita substancial de que a região necessita urgentemente”, escreveu Gabriel Zucman.

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  7. 8 ABR

    Marselha, na França, vira hub mundial de data centers e expõe dilema social da indústria digital

    A cidade de Marselha, à beira do Mar Mediterrâneo, no sul da França, é conhecida por sua herança histórica e suas belas praias. Na última década, graças à sua posição estratégica, a cidade agregou um novo atrativo: tornou-se um hub mundial de data centers. Mas a chegada de gigantes digitais à segunda maior metrópole francesa está longe de agradar a todos. A cidade, situada perto de capitais econômicas europeias como Paris, Frankfurt e Bruxelas e, ao mesmo tempo, porta de entrada para os mercados africano e asiático, tornou-se o sétimo local mais procurado do mundo pela indústria de dados. Marselha abriga uma dezena de centros de armazenamento de dados, de tamanhos variados. “Por trás dos cabos submarinos, há uma indústria familiar que os fabrica, que produz os repetidores óticos. Tem a indústria marítima que os instala no mar e faz a manutenção. Existe toda uma cadeia de valor que cria empregos em Marselha”, defende Guillaume Heras, diretor-geral da empresa de telecomunicações Telsam. “Somos uma empresa de 40 pessoas e há muitas outras como a nossa atuando neste setor”, disse ele à RFI. Metade desses centros está instalada na zona portuária, onde chegam os 17 cabos submarinos que conectam Marselha a cerca de 50 países. Mas também é ali que se concentra a área mais turística da cidade. Para muitos habitantes, a invasão dessas megaestruturas, onde cerca de 20 pessoas trabalham em média, gera preocupação. Eles avaliam que esse “boom digital” beneficia sobretudo as grandes multinacionais, como Google, Facebook e Amazon, e não os marselheses. Seis projetos de gigante americana A gigante americana Digital Realty, líder do setor, avança em seu quinto projeto na cidade, e um sexto acaba de ser anunciado: serão 26.000 m² de infraestruturas instaladas em um antigo depósito, na entrada do município. Um coletivo de habitantes está mobilizado contra essa expansão. “Marselha vai ter que lidar com essa sobrecarga em nossa rede elétrica e de água, além do impacto imobiliário. Estamos perdendo acesso ao mar”, critica Max, membro da associação. “A água potável está sendo entregue à Digital Realty para resfriar os seus data centers. No entorno do porto, a rede elétrica já está saturada. A luz funciona mal ali nas proximidades”, denuncia. Pesquisas de Clément Marquet, especialista em impacto social e econômico da indústria digital da Escola de Minas de Paris, constatam que os benefícios da instalação de data centers são, com frequência, invisíveis para as populações locais. “É difícil argumentar sobre as vantagens para os locais. Acho que um dos problemas é que eles se sentem ‘a serviço’ de Paris, de um lado, e do resto do mundo, do outro. Ou seja, são um componente de uma cadeia muito maior”, afirma o pesquisador. “É como se não importasse muito o que se desenvolve em Marselha: aos olhos dos moradores, eles estão servindo mais à economia mundial, e os benefícios diretos não são vistos por eles.” Consumo de água e energia Os imensos armários metálicos, conectados a toneladas de cabos, demandam importantes infraestruturas do município para funcionar, principalmente energia e água. Um data center de 3 megawatts, considerado pequeno, consome o equivalente a 1.000 residências. O consumo de água e energia vai disparar com o desenvolvimento da inteligência artificial, mas este não é o único problema. Moradores como Nadia, consultora em gestão de projetos, lamentam que Marselha esteja contribuindo para uma tecnologia que ameaça milhões de empregos em todo o mundo. “Acho que eu poderei muito bem ser substituída pela inteligência artificial amanhã, e é assustador. Por um lado, a gente quer o progresso, mas por outro não quer ser uma vítima dele”, salienta Nadia. O governo francês vê o desenvolvimento de data centers e da IA como estratégicos para o país. Em 2025, Paris anunciou € 109 bilhões em investimentos nesses setores para os próximos anos.

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  8. 1 ABR

    Cufa leva expertise de empreendedorismo nas favelas brasileiras à França

    As realidades são distintas, mas os desafios de lançar um negócio nas periferias do Rio de Janeiro, Paris ou Maputo são semelhantes. Presente em 70 países e com quase 30 anos de história, a Central Única de Favelas (Cufa) amplia as parcerias entre empreendedores sociais para além das fronteiras. Na Europa, a principal via de contato entre startups, investidores e instituições dos dois lados do Atlântico é a França, onde a Cufa tem um escritório desde 2024. Nesta semana, um fórum com a participação dos maiores vetores de promoção de negócios dos dois países, a Apex-Brasil e a Bpifrance, deu um novo passo nessa aproximação, na embaixada brasileira em Paris. “A gente não tem nada contra filantropia, mas o que a gente quer fazer é business com as empresas, fazer parcerias duradouras”, disse Karina Tavares, fundadora da Cufa França. “A gente tem que achar o CEO que tem uma vontade genuína de trabalhar com o social ou de mudar a vida das pessoas, dar rede, porque talento tem muito – o que falta é oportunidade.” O empreendedor Michael Carvalho veio do Amapá trazer o exemplo da startup Mazodan, que utiliza sedimentos do rio Amazonas e rejeitos da mineração para fabricar materiais de construção civil. O seu projeto foi o vencedor da Expo Favela 2023, evento que impulsiona todos os anos iniciativas de comunidades por todo o Brasil. Soluções locais para problemas comuns “Essa visibilidade nos deu condições de apresentar a nossa proposta como algo viável para a sociedade, e a gente conseguiu fechar convênios para desenvolver a nossa tecnologia, afinal existe toda uma burocracia para você colocar novos produtos no mercado”, conta. “Hoje estamos montando o pátio de fabricação do nosso produto. Estamos deixando de ser laboratório e agora vamos virar fábrica”, comemora. O município de Santana, no Amapá, agora abriga um polo de inovação com 50 startups, a maioria focada em projetos de sustentabilidade. O sucesso da Cufa em apoiar iniciativas como essa e a sua expansão para outros países é caso de estudo da prestigiosa escola de negócios francesa INSEAD. O professor de estratégia da instituição, Felipe Monteiro, mostrou como as ações nas favelas brasileiras conseguiram ganhar impacto social em escala internacional. “São inovações que não vão requerer bilhões de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, mas resolvem problemas concretos e as pessoas têm oportunidades de negócios a partir destas soluções que estão lá”, constata. “O que é semelhante e sensacional é que existe, em comunidades tanto no Brasil quanto na França, um nível de empreendedorismo e inovação imensos e pouco explorados. O desafio não é único da Cufa: é o desafio típico de qualquer organização que tenta se internacionalizar”, diz Monteiro.  Romper barreiras de investidores Uma das pontes construídas em Paris foi o contato entre os empreendedores e o fundo de investimento Daphni, especializado em impulsionar startups. Cristian Pinto, hoje do time de investidores de risco da empresa, relatou as dificuldades que ele próprio teve para abrir portas nas grandes companhias, por vir das periferias. “O venture capital historicamente foi concentrado em certos perfis de empreendedores porque é um capital de confiança em que você está apostando em pessoas muito no início da jornada. A tendência inicial é você confiar nos padrões que você já conhece”, afirma. “Se todos os investidores têm o mesmo background, eles vão investir em pessoas que têm background parecido. Agora o foco é como a gente consegue investir em empreendedores criativos, que trazem o ângulo da diversidade, mas não como uma caridade, mas sim como uma maneira diferente de ver a sociedade e explorar oportunidades enormes em que, historicamente, a gente não investiu.” Quem também está de olho nas inovações das favelas brasileiras é a fabricante Heineken, que acelerou dez projetos no universo de bebidas produzidas em comunidades do Brasil. Desses, quatro foram selecionados para ganhar um impulso. “A gente nem está falando de dinheiro, necessariamente. A gente está falando, por exemplo, de um microempreendedor, que compra um envase por R$ 4, conseguir que saia por centavos. De como conseguimos garantir esse preço que a Heineken tem, por comprar em escala, para o empreendedor e poder baratear os custos dele”, relata Cléo Santana, líder da Escola de Negócios da Favela e CEO do Data Favela. “É isso que a gente está olhando, quando a gente fala dessa potência entre grandes empresas e pequenas empresas, como elas podem se potencializar.”

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Acerca de

Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

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