RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. HACE 1 DÍA

    Carla Juaçaba leva a Paris pensamento arquitetônico que une clima, técnica e política do espaço

    Convidada das Palestras Chaillot, na Cité de l’Architecture, em Paris, a arquiteta brasileira Carla Juaçaba apresenta um percurso que articula duas décadas de produção entre o Rio de Janeiro e a Europa. Professora na Accademia di Mendrisio e vencedora, em 2026, do concurso para o Museu de Arte Kurpark Bad Ragaz, na Suíça, ela chega à capital francesa com uma obra consolidada por exposições, instalações e projetos, sempre guiada pela tensão entre natureza, técnica e história. Desde 2000 à frente de um escritório independente no Rio de Janeiro, Carla Juaçaba construiu uma trajetória que oscila entre comissões privadas e programas culturais, com presença frequente em instituições internacionais. Premiada com o ArcVision Women and Architecture Prize, em 2013, e o Emerging Architecture Award, da Architectural Review, em 2018, ela participou da Bienal de Veneza no mesmo ano, quando também construiu uma capela para o Vaticano — hoje integrada ao patrimônio italiano e ao acervo do Centre Pompidou, em Paris. Professora da Accademia di Architettura de Mendrisio desde 2019, onde se tornou titular em 2023, ela transita com naturalidade entre prática e reflexão. Em exposições e instalações — de Lisboa a Genebra, de Nova York a São Paulo —, sua arquitetura se aproxima das artes visuais, insistindo na ideia de que espaço não se separa de contexto. “Acho que estamos num momento em que o mundo ficou muito pequeno, e passamos a falar de uma arquitetura de reflexos internacionais”, afirma. Ainda assim, resiste a paralelos rápidos. “Não consigo comparar muito a arquitetura francesa com a brasileira, porque a questão climática, quando estou fazendo trabalhos no Brasil e na Suíça, muda completamente a perspectiva e o modo de fazer”. A diferença não é apenas técnica. “A questão climática transforma o modo de fazer.” No Brasil, segundo Juaçaba, isso se traduz em margem de liberdade. “A arquitetura brasileira tem uma liberdade dada pelo próprio clima. Não preciso enfrentar todas as camadas que a França precisa para se proteger do frio”. É uma diferença que se materializa no projeto. “No museu que está sendo feito no Brasil, o chão é de terra. Eu nunca poderia fazer isso na Europa.” Para a arquiteta, o clima, mais do que condicionante, torna-se linguagem. “É um problema global, mas sempre com questões locais, que exigem reação e reflexão.” Paisagem como estrutura, não ornamento Nos projetos recentes, essa atenção ao contexto assume forma quase programática. “Um museu na Suíça, em uma montanha com neve, e outro no Brasil respondem diretamente a esses contextos.” Em ambos, a paisagem não aparece como fundo, mas como estrutura. “Vejo a arquitetura como uma inserção em que natureza e objeto se misturam, um dentro do outro.” A consequência é a recusa do paisagismo como acabamento. “O projeto paisagístico precisa nascer junto com o projeto de arquitetura. Não é algo secundário, que vem depois.” A crítica é direta. “O paisagismo não deveria aparecer como um elemento decorativo, aplicado depois para tornar o projeto mais bonito.” Na prática, isso implica um olhar atento ao território. “[O paisagismo] precisa surgir junto, ligado às questões ambientais, atento à vegetação local e capaz de fazer coexistir essas duas dimensões.” Uma posição que atravessa desde instalações efêmeras, como o Pavilhão Humanidade, até trabalhos recentes apresentados em circuitos internacionais. Em Paris, Juaçaba opta por destacar projetos brasileiros, entre eles o Flor de Café, em Minas Gerais. “Vou falar principalmente de projetos do Brasil. Um deles é o Flor de Café, pensado para pequenos agricultores.” Ali, arquitetura, economia e história se entrelaçam. “É um projeto de longo prazo, ainda em busca de financiamento. Foi iniciado por uma mulher, que reuniu pequenos agricultores, valorizou o café que produziam e que antes era vendido por quase nada.” O desdobramento aponta para um programa maior. “Hoje, eles vendem o próprio produto.” O projeto inclui ainda um centro cultural. “Eles querem criar um centro do café ligado ao agriturismo, que também abrigará um museu sobre a história do Brasil a partir da exploração do café — uma história marcada pela destruição da Mata Atlântica.” A dimensão ambiental vem associada. “O projeto tem o apoio do instituto criado por Sebastião Salgado, que já atua no reflorestamento da região.” Leia tambémArtista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres Museu como extensão da paisagem Na Suíça, onde Carla acaba de vencer um concurso internacional, a lógica se mantém. “O museu em Bad Ragaz fará parte de um circuito cultural nas montanhas, onde já existem instituições em lugares como Davos.” O processo seletivo foi restrito. “Foram convidadas 12 mulheres do mundo inteiro, com um júri de 14 pessoas, e acabei vencendo”, conta. Ao descrever o projeto, Juaçaba sintetiza sua abordagem. “É muito brasileiro, mas realizado com tecnologia suíça.” A relação com o terreno é determinante. “Ele se desdobra entre as árvores existentes, mantém um pé no chão e permite que se caminhe pelo jardim e pelo museu no mesmo nível.” No Brasil, o museu dedicado à artista Laura Lima avança ainda mais nessa direção. “É um museu pensado para uma única artista, no Instituto Paz, ao lado de Inhotim.” A arquitetura, nesse caso, abdica de protagonismo. “Não é um museu que simplesmente abriga a obra. É um espaço concebido para ela, que só funciona a partir do trabalho dela.” A consequência é uma redefinição da própria ideia de edifício. “Existe algo de efêmero na obra dela, e o museu, embora não seja efêmero, carrega uma fragilidade.” A solução espacial explicita essa tensão. “É um museu que não tem chão. Ele pisa diretamente na terra, no barro vermelho de Minas Gerais.” Arquitetura e política do espaço Se o território condiciona a forma, a história orienta escolhas. “Eu penso nisso. O modelo da casa-grande e senzala é um programa brasileiro. Nunca fiz uma casa-grande e senzala moderna. Não gosto e não me sinto bem fazendo. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que não desejam isso, mas sim casas integradas à natureza do Rio”, aponta. A escala doméstica, nesse sentido, torna-se política. “São casas com as dimensões necessárias para viver.” Para a arquiteta brasileira, o modelo tradicional perpetua desigualdades. “A casa-grande e senzala pressupõem porta social e porta de serviço, o que é inaceitável.”

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  2. HACE 3 DÍAS

    Diácono brasileiro mostra como o luto pode ser pedagógico em livro nascido na pandemia

    O luto e as pequenas permanências que resistem ao tempo são o tema do livro do diácono permanente da Diocese de Ilhéus e escritor Rodrigo Dias de Souza, O Sabor das Coisas que Ficam (Nocego), lançado no ano passado e já traduzido para duas línguas, espanhol e italiano. A obra apresenta uma narrativa marcada pela espiritualidade e pelo afeto. “Durante a Covid, assim como no Brasil e em todo o mundo, enfrentamos a dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, de realizar os rituais de despedida das pessoas que amamos", lembra o diácono, para explicar a origem de seu quinto livro. "Diante daquela circunstância tão dolorosa para o povo brasileiro, sobretudo para aqueles que perderam um número imenso de parentes e amigos, fiquei pensando em uma geração que não teve a oportunidade de vivenciar o luto”, resume o autor. Segundo ele, o projeto parte dessa perspectiva. “Não apenas do luto pela pessoa que perdemos, mas também dos tantos lutos que experimentamos ao longo da vida: a perda de uma amizade, a perda daquilo que amamos”. “Assim, a pandemia surge como pano de fundo, mas sob a perspectiva de que o luto é pedagógico”, afirma. A obra percorre paisagens simbólicas e existenciais – da romaria de Bom Jesus da Lapa, no coração do sertão baiano, às ruas de Roma, aos rios da Itália e também a Belém – para narrar histórias de pessoas comuns. Este é o primeiro romance de Dias de Souza. O anterior, Em tempos de e-mail: cartas para Irene, aborda a exigência de rapidez nas sociedades contemporâneas, influenciadas pelas tecnologias – uma ideia que também fundamenta sua obra mais recente. “Todo escritor não escreve a partir do abstrato. A gente escreve daquilo que a gente vive. Meu cotidiano é profundamente marcado pela presença das pequenas coisas, das miúdas coisas da vida. E elas, de fato, me marcam. Esse é o meu traço literário, o meu jeito de ser”, afirma. "A proposta do livro Em tempos de e-mail: Cartas para Irene, que foi um divisor de águas na minha vida, é perceber outras urgências: a urgência de parar numa praça, de observar as pessoas, de contemplar o pôr do sol, algo tão necessário nos tempos em que vivemos, de observar os detalhes da vida, porque ela é feita de pequenos detalhes e eles mudam profundamente o destino de uma pessoa”, acrescenta. Poesia do cotidiano Rodrigo Dias de Souza participou, em 12 de maio, de um encontro sobre poesia lusófona, promovido pela Biblioteca Gulbenkian, na Cidade Universitária de Paris, ao lado dos poetas Alice Machado, António Topa e José Vala. O objetivo do evento foi promover o encontro entre autores de língua portuguesa de diferentes países, e leitores. Para ele, o momento foi "muito importante para encontrar e conhecer pessoas, além de destacar a poesia do cotidiano”. “A poesia que encanta é aquela que nasce da vida concreta, do que é mais simples, como um pequeno quarto, frequentemente presente nas minhas poesias. Fiquei muito feliz de estar aqui, de participar desse evento, de conhecer outras pessoas. Mas, sobretudo, de perceber que a poesia simples do cotidiano ainda toca a alma das pessoas”, conclui.

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  3. HACE 3 DÍAS

    'Povo Brasileiro': a travessia sonora de Pierre Aderne inspirada em Darcy Ribeiro

    Entre a França, o Brasil e Portugal, Pierre Aderne construiu uma trajetória musical marcada pelo trânsito e pela escuta. Nascido em Toulouse, criado no Rio de Janeiro e radicado em Lisboa, o músico e produtor apresenta agora “Povo Brasileiro”, novo álbum do coletivo Rua das Pretas, projeto que sintetiza essa experiência entre margens do Atlântico. O grupo lançou o disco esta semana no L’Ermitage, em Paris, e chega ao Brasil para uma apresentação no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio. O disco reúne músicos do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde em uma leitura contemporânea desse território comum: plural, miscigenado e sem hierarquias impostas. Gravado na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer em Maricá (RJ), o álbum propõe um encontro orgânico entre linguagens musicais. Samba carioca, fado português, morna cabo‑verdiana, referências à capoeira, aos ijexás e afoxés se cruzam sem a pretensão de uma “fusão” planejada. Segundo Aderne, essa conversa aconteceu de forma natural, como sempre ocorreu na música brasileira. “Assim como ninguém sabe exatamente por que a música brasileira chega à capoeira, a um ponto de candomblé ou a um frevo. Quando a gente é submetido a um campo novo de conhecimento, aquilo vira um sotaque orgânico.” Essa forma de criar nasce da própria história da Rua das Pretas, coletivo fundado há cerca de 15 anos, em Lisboa, a partir de encontros musicais realizados na casa de Aderne. Inspirados nos saraus cariocas da rua Nascimento Silva, onde morou Tom Jobim, esses encontros reuniam músicos de trajetórias diversas e ampliaram o contato do artista com a África que também fala português – ainda que ele rejeite o termo “lusofonia”. “É uma palavra desequilibrada. Prefiro pensar que essas matrizes nos pertencem a todos: portugueses, brasileiros, africanos. Isso me ajudou a entender melhor como se deu a nossa construção musical no Brasil.” Com o tempo, essas reuniões informais se transformaram em um espaço constante de troca e criação, que deu identidade à Rua das Pretas como projeto musical e político, mais interessado na convivência entre histórias do que em categorias formais. Darcy Ribeiro como chão simbólico Embora o conceito do álbum venha sendo tecido há anos, especialmente na parceria com Moacir Luz, com quem Aderne compõe há cerca de cinco anos, a gravação em Maricá trouxe uma dimensão simbólica decisiva. A relação com Darcy Ribeiro também atravessa a vida pessoal do músico: sua mãe trabalhou com o antropólogo na Universidade de Brasília, no projeto que deu origem aos CIEPs. “Gravar na casa do Darcy foi um encontro quase espiritual. A oportunidade de montar um estúdio dentro do museu.  A gente estava, sem saber, construindo a trilha sonora daquele livro, O Povo Brasileiro, que foi tão estrutural para mim.” O disco conta ainda com arranjos escritos por Kiko Horta, um dos criadores do Cordão do Boitatá, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Aderne descreve esse encontro como a junção de uma “orquestra humana” – músicos do morro, da cidade e da África – com uma escrita musical que evoca nomes como Tom Jobim, Moacir Luz e outros mestres. “Foi como uma lavagem das caravelas. Como se a gente tivesse chegado a Maricá numa caravela diferente, dessa vez com músicos de três continentes.” Vozes femininas e travessias Entre as vozes femininas do álbum estão a cantora Zulu, da Ilha da Boa Vista, em Cabo Verde; a fadista portuguesa Ana Margarida Prado; e a flautista Letícia Malvares, brasileira radicada em Madri. Para Aderne, o impacto da gravação naquele espaço histórico foi profundo, especialmente para as intérpretes africana e portuguesa. “Cabo Verde é quase uma clave de sol no meio do oceano, entre Lisboa e o Rio. Para a Zulu, estar ali foi muito simbólico. E a Ana Margarida ficou tocada ao lembrar daquela narrativa das lavadeiras portuguesas que, no início do século 20, cantavam fados na Fonte da Saudade, na Lagoa, com saudade da terrinha.” Essas presenças femininas ajudam a ampliar o alcance emocional e histórico do álbum, conectando diferentes tempos e deslocamentos atlânticos. Nilson Dourado, parceiro de Aderne na Rua das Pretas há dez anos – “um paulistano baiano, radicado em Sintra, multi-instrumentista, cantor, compositor, pai de santo“ –, completou o mutirão.   O filme como extensão do disco “Povo Brasileiro – Rua das Pretas” ganha ainda uma dimensão visual com um curta‑metragem filmado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, dirigido pelo próprio Aderne, com roteiro do escritor e jornalista cabo‑verdiano Jorge Araújo. O projeto não nasceu como documentário, mas como um registro do processo. Foi durante as filmagens em Maricá que a narrativa audiovisual se impôs. “Quando subi um drone em frente à casa do Darcy, tive a sensação de que aquela era a primeira imagem que os portugueses tiveram ao chegar ali. Maricá é território Tupinambá. Aquilo me tocou profundamente.” A partir dali, o filme passou a assumir outra ambição: não explicar a história, mas navegar por ela. Imagens, memórias e deslocamentos se articulam como uma espécie de vestimenta do álbum. “O filme acaba sendo o figurino do disco. Mesmo falando de encontros forçados, de um Atlântico que uniu e esmagou, existe uma doçura na narrativa. E isso é extremamente importante agora. Ao invés de a gente se separar e buscar as diferenças, a gente deve sentar com propriedade nesse patrimônio que é nosso.” Um patrimônio comum Para Pierre Aderne, o disco e o filme propõem um gesto de reconciliação com esse patrimônio compartilhado, em vez de reforçar separações nacionais ou identitárias. “A música de língua portuguesa é uma das mais ricas do planeta por conta desses encontros. A gente passou tempo demais tentando separar o que é brasileiro, português ou africano. Isso é impossível – e ainda bem.” Em “Povo Brasileiro”, Aderne não busca respostas definitivas sobre origem ou pertencimento. Prefere celebrar o caminho comum, feito de travessias, sotaques e sobreposições. Como ele resume, ao lembrar de povos que partiram do mesmo ponto e tomaram rumos distintos, mas conectados: “Por mais que a gente não saiba exatamente de onde veio, veio do mesmo lugar”.

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  4. HACE 5 DÍAS

    Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França

    Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil”, da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L’Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul. Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado. Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende. Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje. RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente? Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung. A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados. RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou? O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas. Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil. RFI – Você foi a única jornalista brasileira a entrevistar longamente Paul Aussaresses, um dos principais teóricos e executores dessa doutrina, já no fim da vida. Como surgiu essa oportunidade e qual foi o peso desse testemunho para o livro? A primeira entrevista longa com ele foi publicada em 2008, na Folha de S.Paulo. Naquele momento, perguntei se estava disposto a continuar a dar entrevistas para um livro sobre a ditadura brasileira, a Guerra da Argélia e a influência da escola francesa na América do Sul. Ele aceitou. Fui várias vezes à Alsácia para entrevistá‑lo. Ele assinou uma autorização para transformar aquelas entrevistas em livro e nunca pediu para reler ou controlar nada do que eu escreveria. O testemunho dele foi central para compreender como a tortura se tornou uma política de Estado institucionalizada. RFI – E ele falava sem arrependimento. Pelo contrário, defendia o que fez. Exatamente. Ele assumia tudo, inclusive a tortura, e dizia que tudo foi feito pela França. Mesmo reconhecendo que todo aquele massacre foi inútil, porque a Argélia se tornou independente, não demonstrava nenhum arrependimento. Ele queria deixar registrada a versão dele dos fatos. RFI – Seu livro saiu no Brasil em 2016, foi traduzido e publicado na Argélia antes de chegar à França. O que explica essa demora francesa? Em um primeiro momento, apresentei o livro a dois ou três editores que me disseram que o público francês não tinha interesse em reabrir a ferida da Guerra da Argélia. Mas a França avançou muito nesse debate. Em 2018, o presidente Emmanuel Macron reconheceu, em entrevista a um jornalista argelino, que a colonização foi um crime contra a humanidade. Reconheceu também que a tortura, a morte e o desaparecimento do professor de matemática Maurice Audin, de 24 anos, na Argélia, foram crimes de Estado. Em setembro de 2018, Macron pediu perdão à viúva de Audin. Foi um ato de grande coragem política, uma evolução formidável na maneira como a França passou a olhar para o seu passado colonial. Macron teve a coragem que François Hollande não teve, nem Nicolas Sarkozy, nem mesmo François Mitterrand [ex‑presidentes franceses]. Os historiadores cobram isso: que a França encare o seu passado colonial com coragem e faça uma revisão histórica, reconhecendo que esse passado é uma vergonha, uma mancha na história francesa. RFI – Seu livro é mais um tijolo na construção dessa consciência e também permite aos franceses saber o que aconteceu durante a ditadura brasileira. O que mais me surpreendeu foi que os franceses mantiveram na capa do livro o mesmo título e subtítulo da edição brasileira, o que é bastante forte: “Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado”. É um ato de coragem da editora L’Harmattan. RFI – No Brasil de hoje, em ano eleitoral, o papel político dos militares voltou ao centro do debate. Que riscos essas histórias não resolvidas ainda representam para a democracia? A anistia perdoou crimes e criminosos, e isso nunca foi revisto. Isso faz com que os militares queiram sempre voltar a comandar ou a dar as cartas na história do Brasil, o que é inaceitável. Tivemos uma tentativa de golpe em 2022 e já se fala novamente em anistia. Ao mesmo tempo, há uma evolução na sociedade brasileira. Cresce a compreensão de que a interferência militar no poder civil é inaceitável.

    11 min
  5. HACE 5 DÍAS

    Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral

    A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem “Elefantes na Névoa”, selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo. No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com “O Riso e a Faca”, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, “O Riso e a Faca” inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro. Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: “É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente”, afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético. É nesse contexto que se insere “Elefantes na Névoa”, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. O filme é uma coprodução de Tatiana Leite, pela Bubbles Project, e de Leonardo Mecchi, pela Enquadramento Produções, em parceria com produtoras do Nepal, Alemanha, França e Noruega. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. No Brasil, o longa será distribuído pela Imovision. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas. A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos e sociais, além dos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. “Elefantes na Névoa” marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas‑metragens, após uma trajetória que inclui dois curtas e a escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais. “O Riso e a Faca”: chegada ao Brasil Enquanto “Elefantes na Névoa” se prepara para sua première mundial, “O Riso e a Faca” ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo. A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens. Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. “Na verdade, é um filme que te arrebata”, observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, “essas três horas e meia passam totalmente fluidas”, acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso. Produzir entre países, culturas e modos de fazer Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. “É tão desafiador quanto genial”, resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada país participante. Festivais como Cannes, Berlim, Roterdã e Locarno surgem, nesse percurso, como espaços estratégicos de encontro, onde equipes dispersas ao longo do ano conseguem se reunir para discutir projetos em andamento e definir caminhos comuns. Para a produtora, esse trabalho coletivo, muitas vezes comparável a um grande quebra‑cabeça, é também o que dá densidade humana e artística aos filmes. Ao olhar para o cinema brasileiro contemporâneo, Tatiana reconhece avanços importantes na democratização e na regionalização da produção, com o surgimento de novos realizadores em distintas regiões do país. Ao mesmo tempo, aponta as dificuldades persistentes no financiamento de longas‑metragens. Ainda assim, segue apostando em projetos que, segundo ela, tenham uma contribuição singular para o cinema. “Busco filmes que não sejam apenas vistos e esquecidos, mas que permaneçam com as pessoas”, afirma. Novos filmes O horizonte da Bubbles Project permanece marcado pela diversidade de territórios e pela aposta em autores singulares. Entre os projetos em desenvolvimento, Tatiana Leite prepara uma produção inicialmente portuguesa, baseada em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, em parceria com a brasileira Matizar Filmes e coproduções com França, Itália e Holanda. Dirigido por Miguel Gomes, o filme será rodado em Canudos, cenário central da obra. A produtora também está envolvida em um novo longa do cineasta argentino Benjamín Naishtat, diretor de “Puan”, que será filmado em Buenos Aires, em coprodução entre Brasil, Argentina e França. Completam a lista um primeiro longa‑metragem venezuelano, “Meninos Banhando‑se no Lago”, ambientado na região de Maracaibo e coproduzido com Brasil, França, Alemanha e Chile, além de projetos documentais híbridos, como “Debaixo do Embondeiro”, da cineasta pernambucana Valentina Homem, com filmagens em Moçambique, e um novo filme de Jean da Costa, também em regime de coprodução entre Brasil e França.

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  6. 8 MAY

    Brasilidade em alta: entenda o que o neuromarketing revela sobre o apelo cultural do Brasil

    Ferramentas de neuromarketing, cada vez mais utilizadas por empresas ao redor do mundo, ajudam a compreender o que motiva decisões de compra – muitas vezes, antes mesmo que as pessoas se deem conta disso. A análise é da pesquisadora brasileira Marina Travassos, especialista em comportamento e tomada de decisão. Em entrevista à RFI, ela explica por que o Brasil voltou ao centro das atenções e como a chamada brasilidade se transforma em um poderoso motor de desejo. Maria Paula Carvalho, da RFI Baseada em Paris e atuando em projetos na Europa e nas Américas, Marina construiu uma trajetória que passou pelo marketing e pelo cinema até chegar à aplicação de ferramentas de neuromarketing, um campo ainda pouco conhecido fora dos meios especializados. “É uma área um pouco fantasma, que fica por trás das inovações, antes da comunicação, antes mesmo de se criar uma publicidade ou um produto”, explica. O neuromarketing busca compreender como fatores conscientes e inconscientes influenciam decisões, combinando conhecimentos de neurociência, antropologia e metodologias quantitativas de pesquisa. O objetivo, diz a pesquisadora, é ajudar marcas e empresas a ajustarem produtos, mensagens e experiências. “Essa é uma área que procura entender o comportamento das pessoas e o consumo para ajudar empresas a direcionarem melhor suas estratégias.” O trabalho é voltado majoritariamente para o universo corporativo, mas Marina também participa de estudos que buscam ampliar o conhecimento do público em geral sobre o tema. Para ela, entender o processo decisório exige olhar além do indivíduo. “O comportamento é influenciado por muitas coisas: o ambiente onde a pessoa vive, a cultura, a forma como ela aprendeu determinado assunto. É uma área que mistura muita coisa”, afirma. Brasilidade: uma tendência  Nesse processo, a observação de padrões é central. Ao conversar com diferentes públicos, certas respostas tendem a se repetir, o que pode indicar tendências emergentes. “Quando você começa a ouvir a mesma resposta várias vezes, percebe que há algo ali que precisa ser entendido”, diz. Um exemplo recente chamou a atenção da pesquisadora: a crescente presença do Brasil no consumo simbólico e cultural. Sem partir inicialmente de um estudo formal, Marina percebeu sinais recorrentes ao viajar pelo país e conversar com amigos estrangeiros. “Passei pelo aeroporto de Guarulhos e fiquei impressionada com a quantidade de souvenirs brasileiros, perfumes de marcas nacionais. Antes, era um espaço dominado por marcas internacionais”, relata. O fenômeno também se manifesta no entretenimento. Para Marina, a presença recente do Brasil em grandes premiações internacionais como o Oscar e a circulação de memes brasileiros no exterior fazem parte de um movimento mais amplo. “Há um deslocamento do eixo tradicional Europa–Estados Unidos para expressões culturais mais periféricas, como o K‑pop ou a latinidade levada ao mundo por artistas como Bad Bunny”, observa. Na análise micro, ligada à neurociência, a pesquisadora aponta um elemento-chave da atratividade brasileira: a combinação entre o familiar e o inesperado. “Tudo que é familiar é fácil para o cérebro, porque não gasta energia. Mas o inesperado chama a atenção, ativa um sistema de alerta”, explica. Para ela, o Brasil reúne essas duas dimensões graças à sua história de misturas culturais. Marina cita a pizza brasileira como exemplo dessa lógica. “A gente pega uma referência de fora e mistura com elementos locais, como a borda recheada de catupiry. Não existe na Itália, mas é a pizza brasileira. Eu chamo isso de inovação à la brasileira.” Como toda tendência, ela acredita que o movimento tem um ciclo. “Toda tendência tem um tempo para acabar. Acho que ainda estamos no pico e espero que dure mais alguns anos”, diz. Do ponto de vista do consumidor, a pesquisadora defende mais atenção ao próprio estado emocional antes de uma compra. “Vale se perguntar: como eu estou agora? Irritado, carente, feliz? Será que essa compra faz sentido nesse estado emocional?”, sugere. Estudos mostram que fatores ambientais influenciam decisões sem que as pessoas percebam. Marina cita pesquisas em lojas de vinho que relacionam música ambiente e vendas. “Quando tocava música italiana, vendia mais vinho italiano; música francesa, vinho francês. As pessoas diziam que não eram influenciadas, mas eram.” O mesmo vale para aromas. “Algumas lojas têm um cheiro específico. Aquilo foi pensado para despertar memórias”, afirma. Segundo ela, a memória olfativa é uma das mais primitivas e emocionalmente potentes. “O ambiente – a música, o cheiro, a iluminação – influencia muito mais do que a gente imagina.”

    6 min
  7. 7 MAY

    Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance

    Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d’être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte. A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação. Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. “Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo”, explica. “Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia”, afirma Juliana em entrevista à RFI.  Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. “É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual”, explica. As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse. “Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação”, detalha.  Observação das atletas nos Jogos Paris 2024 À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma.  O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje “teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta”: “Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo”, relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura. Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo – no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: “Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta”. Conhecimento e empoderamento  Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. “Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina”, descreve.  Para Juliana Antero, escutar o ciclo menstrual é uma forma concreta de empoderamento. “Significa entender que não funcionamos de maneira linear, mas cíclica, e aprender a tirar proveito dessa ciclicidade para gerenciar a própria saúde e o bem-estar”.  Por enquanto, ‘Votre Cycle Menstruel Mérite d’être Écouté’  está disponível apenas em francês. Segundo a autora, há uma tradução avançada para o chinês em andamento e outras propostas. Apesar do desejo de ver uma versão do seu livro em sua língua materna, ainda não há previsão de adaptação para o português. “As brasileiras querem cada vez mais entender o que acontece com seus corpos e melhorar a saúde”, afirma Juliana Antero.

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  8. 6 MAY

    Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil

    Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira. O livro “Estereótipos em cena” (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro. Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. “Stereos vem do grego ‘rígido’, ‘sólido’, e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa”, explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. “São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa”, resume. Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. “Quando a gente diz ‘o Brasil é o país do futebol’, independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa”, exemplifica. Estereótipo como sintoma social No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social. “Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos”, afirma. Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. “Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade”, observa. Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos. “As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos”, aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito. O que os estereótipos dizem sobre nós Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. “Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos”, diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil. “Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz ‘não sou racista’, mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no ‘não foi o que eu quis dizer’”. Para a pesquisadora, esses lapsos – que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos – revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. “O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade”, afirma. Falar a partir da branquitude Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. “A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo”, explica. A autora relaciona essa posição ao que chama de capital simbólico da branquitude, algo vivido desde a infância. “Eu venho de uma família pobre, mas havia um orgulho de ser branco, de ter olhos claros. Mesmo sem dinheiro, isso fazia com que se passasse por certos lugares quase sem questionamentos”, relata. Questionar esse privilégio costuma gerar resistência, acrescenta. “Algumas pessoas têm a sensação de que, ao mover essas ideias, vão perder algo, mesmo que isso não apareça de forma consciente”. Escuta e diálogo  O livro não oferece respostas prontas, mas aposta na escuta e no diálogo. A proposta, segundo Feré, é abrir espaço para outras vozes questionarem posições rígidas e ampliar o nível de consciência sobre a realidade do outro. Nesse sentido, “Estereótipos em cena” reúne textos de intelectuais, professores, poetas e artistas que abordam temas como gênero, envelhecimento, periferias e expressões culturais como o rap e o funk: “São vozes que ampliam o debate e ajudam a imaginar outras formas de relação”, conclui a autora.

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Acerca de

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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