Ilustríssima Conversa

A equipe de jornalistas da Ilustríssima, da Folha, entrevista autores de livros de não ficção ou de pesquisas acadêmicas.

  1. -11 h

    Anita Prestes: Como o anticomunismo deturpou a trajetória de Luiz Carlos Prestes

    Luiz Carlos Prestes foi acusado de mandonismo, incompetência —incluindo mediocridade como estrategista militar— inabilidade política, agressividade, vaidade, personalismo e dogmatismo, além de agente de Moscou. As qualificações são citadas em "Entre Memória e História", o livro mais recente de Anita Prestes, filha do líder comunista e professora aposentada da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). A historiadora, que completa 90 anos em novembro, nasceu em uma prisão nazista antes de Olga Benário, a sua mãe, ser assassinada em um campo de concentração e passou a infância no México e a adolescência na URSS. Depois de um período de exílio na URSS durante a ditadura militar, Anita passou a pesquisar a trajetória política de Prestes e a história do PCB (Partido Comunista Brasileiro), do qual foi uma das dirigentes. Prestes ganhou status de personagem de peso da política nacional muito jovem, nos anos 1920, por ter comandado a coluna que percorreu o interior do país e virou um marco do movimento tenentista. Já a partir da década de 1930, Anita diz, o pai passou a ser perseguido pela adesão ao comunismo e pela filiação ao PCB. Para a autora, as representações do líder comunista costumam distorcer os fatos —ou falsificando ou silenciando a trajetória de Prestes, morto em 1990—, algo que atribui à força do anticomunismo no Brasil. Neste episódio, a pesquisadora fala sobre alguns episódios controversos da biografia de Prestes, como a participação na Intentona de 1935, e discute as concepções equivocadas do PCB sobre a realidade brasileira. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  2. 8 août

    Ronaldo Lemos: IA captura coração, corpo e mente e pode nos emburrecer

    A inteligência artificial e plataformas de big techs tentam capturar a nossa mente, e tantas pessoas —hipnotizadas pela rolagem infinita e pela montanha-russa emocional criada pelas telas— perdem o controle das próprias vidas. No recém-lançado "O Monge, o Iogue e o Faquir", Ronaldo Lemos discute esse cenário a partir da metáfora de uma carruagem desgovernada, em que as suas partes —o corpo, as emoções e a mente— são cooptadas pela tecnologia, o que rompe o equilíbrio necessário para ser bem conduzida. Neste episódio, Lemos fala sobre os três arquétipos do título do livro, inspirados em tradições espirituais da China, da Índia e do Ocidente, e aponta caminhos para cultivar o faquir, o monge e o iogue no interior de toda pessoa. O autor defende que é preciso resistir à guerra do Vale do Silício contra a introspecção e se opõe às ideologias que prometem, por exemplo, que a IA vai criar um mundo de abundância universal. Lemos sustenta que não existem trocas reais entre a IA e os humanos, por mais que as máquinas sejam ótimas ilusionistas e tentem convencer do contrário. Por isso, não ache que uma IA pode ser a sua namorada ou a sua terapeuta. Também não é bom pensar em terceirizar o raciocínio para elas: em vez de virar um super-herói da produtividade, ele diz, é mais provável fritar o cérebro e ficar burro. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  3. 25 juil.

    Dora Kaufman e Giselle Beiguelman: Criatividade brasileira pode reinventar IA

    A IA  vai dizimar o trabalho dos artistas e acabar com a arte? Ou nunca vai ser capaz de substituir os humanos porque as nossas mentes são, supostamente, excepcionais? Para Dora Kaufman e Giselle Beiguelman discutir as relações entre arte e IA nesses termos não faz sentido. Em "Tecnologias da Invenção", as autoras se recusam a contrapor pessoas e máquinas. Em vez disso, propõem que uma análise mais sofisticada deve levar em consideração que, há décadas, é impossível separar criatividade humana e tecnologia no terreno da criação artística e que a IA, com uma lógica de funcionamento e vieses próprios, muda os termos desse entrelaçamento. O livro traz conversas com artistas e o psicanalista Christian Dunker —os entrevistados falam sobre como usam chatbots e outras aplicações em seu processo criativo—, e as pesquisadoras defendem que a arte com IA não é só uma possibilidade, mas uma realidade atual. Kaufman e Beiguelman lembram que as bases de dados usadas para treinar IAs carregam as marcas do colonialismo e que big techs dos Estados Unidos e da China dominam o desenvolvimento da tecnologia. Ao mesmo tempo, indicam que a IA abre espaço para práticas artísticas que contestam essa ordem social e repensam o mundo de hoje. Na entrevista, as autoras também destacam o horizonte de precarização do trabalho e o papel do Brasil nesse cenário: o país, afirmam, pode se tornar uma fazenda de data centers ou virar a chave para produzir soluções que impulsionem a nossa diversidade cultural. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  4. 11 juil.

    Djamila Ribeiro: Lugar de fala não se reduz a 'pode não pode'

    Alguém escreve um comentário em uma rede social e logo recebe a resposta: "Você não tem lugar de fala para isso". Afirmações desse tipo se tornaram comuns nos últimos anos. A publicação de "Lugar de Fala", em 2017, é o grande marco desse debate no Brasil, mas a ideia nunca foi proibir que homens ou pessoas brancas e privilegiadas tratassem de outros universos sociais —por exemplo, escrevendo obras de ficção com personagens negros e mulheres. É isso que Djamila Ribeiro, autora do livro, defende neste episódio. A obra acaba de voltar às livrarias em uma edição revista e ampliada. Para a escritora, coordenadora da coleção Feminismos Plurais e colunista da Folha, a popularização do termo foi acompanhada de muitas interpretações equivocadas, como a que reduz a noção a um debate sobre quem pode e quem não pode se manifestar. Na entrevista, Djamila diz que a proposta de lugar de fala é sublinhar as relações de poder que fizeram com que um grupo muito restrito de pessoas pudesse falar e ser ouvido ao longo da história, além de lembrar que outros sujeitos, como intelectuais negras, também produziram um conhecimento que, mesmo indispensável, foi deixado de lado por muito tempo. A autora também faz um balanço do retrocesso da agenda de diversidade e inclusão nos últimos anos e explica por que considera que termo "pessoas que menstruam" ofensivo para as mulheres, tema que lhe rendeu acusações de transfobia. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  5. 27 juin

    Jairo Nicolau: Eleitores com ensino médio, mulheres e paulistas devem decidir a eleição

    Tudo muda muito rápido no cenário eleitoral. Os analistas de política, diz Jairo Nicolau, são um pouco como os comentaristas de futebol: especulam sobre o que vai acontecer e, às vezes, precisam voltar atrás. O seu novo livro, "O País Dividido", não escapou totalmente dessa armadilha. O pesquisador diz que, quando entregou o original para a editora, via uma possibilidade de arrefecimento da polarização nas eleições deste ano, algo que agora parece distante em uma disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). No entanto, em vez de se concentrar na conjuntura eleitoral, a obra tem outro espírito. Jairo, professor titular do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), documenta as mudanças demográficas do país e as transformações da base social do PT e da direita entre 2002 e 2022, se debruçando sobre o segundo turno das eleições presidenciais. O trabalho ilumina questões essenciais para entender a evolução do voto no Brasil nas últimas duas décadas. Em relação às disputas de 2018 e 2022, o cientista político mostra a força de Fernando Haddad e de Lula entre as mulheres pretas e pardas, o apoio maciço de homens brancos e escolarizados a Jair Bolsonaro e a consolidação do eleitorado com ensino médio como bastião da direita e da extrema direita. Nesta entrevista, o autor fala sobre as tendências da polarização política no Brasil e, a partir dos movimentos que analisa no livro, diz que as mulheres, as pessoas com ensino médio e os paulistas devem definir quem vai ser o próximo presidente —mas reconhece que isso envolve um tanto de especulação. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  6. 13 juin

    Paula Sibilia: Por que desejamos o tempo todo e nunca estamos satisfeitos

    Todo o mundo mente, escreve a antropóloga Paula Sibilia, mas existe uma diferença fundamental entre os hipócritas e os cínicos. Os hipócritas partem da premissa de que existe uma verdade e que devem seguir regras de convívio social —tentam esconder as transgressões porque, no fundo, acreditam que mentir não é certo. Já os cínicos rejeitam completamente essa moralidade: não fingem que respeitam leis ou normas que nunca valeram para todo o mundo e sentem que têm o direito de adotar até discursos violentos —e ainda podem receber aplausos por serem vistos como autênticos ou sinceros. Sibilia, ensaísta argentina e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), recorre às noções de hipocrisia e cinismo para debater a mudança, nas últimas décadas, do solo moral em que a vida social está enraizada. No recém-lançado "Eu Mereço", a pesquisadora se debruça sobre a erosão das engrenagens subjetivas da modernidade e o fortalecimento de uma moralidade consumista e individualista desde os anos 1960, período em que um eu empoderado passou a ser estimulado a desejar o tempo todo em vez de ser reprimido em nome do funcionamento da sociedade. Neste episódio, Sibilia fala sobre o papel das tecnologias digitais nesse processo —que, para ela, são muito mais que só causa ou só reflexo das sociabilidades atuais— e discute os novos tipos de sofrimento psíquico que ganham força no mundo de hoje. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Jéssica Cruz See omnystudio.com/listener for privacy information.

  7. 23 mai

    Adriana Negreiros: Dercy Gonçalves foi heroína decolonial pioneira

    Ao ouvir o nome Dercy, uma imagem costuma vir à cabeça: uma mulher de 70 ou 80 anos dizendo absurdos e emendando palavrões na televisão —ou mostrando os seios no programa de Hebe Camargo. Não dá para fugir da caricatura de velha escrachada e indecente ao pensar em Dercy Gonçalvez. Ao mesmo tempo, não dá para reduzir a comediante, que morreu aos 101 anos em 2008, a essa personagem que se tornou inconfundível. Neste episódio, Adriana Negreiros, autora da biografia "Dercy: a Diva Debochada", faz essa distinção e fala sobre as tantas contradições da atriz, que teve uma vida marcada pela tragédia e pela violência e encontrou no humor uma salvação. Para a autora, poucos artistas brasileiros construíram uma relação tão visceral com o público como Dercy Gonçalves, mas a pecha de comediante imoral ou pornográfica impediu que a sua genialidade fosse reconhecida. Negreiros fala sobre a postura anti-intelectual da atriz, artista da improvisação que era vista como rebelde nos palcos e dizia ter sido formada pela realidade dura do Brasil, não por qualquer influência europeia. A autora também discute as posições preconceituosas de Dercy a respeito de feministas e pessoas LGBTQIA+, por exemplo, que contrastavam com boa parte das atitudes dela ao longo da vida, e explica por que a considera uma heroína decolonial pioneira. Produção e apresentação: Eduardo Sombini Edição de som: Raphael Concli See omnystudio.com/listener for privacy information.

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