Planeta Verde

Entrevistas sobre os temas relacionados ao meio ambiente. Análises dos principais desafios no combate às mudanças climáticas e à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.

  1. 1 DAY AGO

    Contra a crise climática, proibição de anúncios de carne e petróleo avança na Europa

    Ver menos outdoors de hambúrguer levaria você a comer menos carne? Amsterdã se juntou à lista de cidades que proíbem a publicidade de produtos com alto impacto ambiental, como medida de combate ao aquecimento global. A decisão levanta questionamentos sobre a forma mais eficaz de estimular a população a reduzir o consumo desses produtos. A capital dos Países Baixos se tornou a primeira do mundo a banir do espaço público anúncios de carne e combustíveis fósseis, como o petróleo. A medida inclui fabricantes de aviões e companhias aéreas. A lei, apresentada pelos partidos Ecologista e Dos Animais, argumenta que o espaço público deve estar alinhado com os objetivos de Amsterdã de atingir a neutralidade de carbono até 2050 e diminuir pela metade o consumo de carne bovina – altamente emissora de gases de efeito estufa como CO2 e, principalmente, metano. “A reflexão em Amsterdã foi que a publicidade cria um impasse entre o se pede para os consumidores fazerem – ou seja, respeitarem o meio ambiente –, e os sinais contraditórios que elas vêem por todos os lados”, observa o publicitário francês Sylvain Burquier, membro da Convenção Cidadã para o Clima, criado pelo governo da França em 2019 para auxiliar na orientação das políticas ambientais francesas. “No espaço público, tem publicidade de carne e de hamburguer triplo de grandes anunciantes, e ao mesmo tempo as autoridades pedem que as pessoas andem menos de avião. Existe um duplo discurso e podemos evitar isso." Eficiência da medida Na França, a Convenção participou da elaboração de uma lei para proibir as campanhas ligadas ao setor petroleiro, aprovada em 2021, mas cujo decreto ainda não foi publicado pelo presidente Emmanuel Macron. Na Europa, Estocolmo, Edimburgo e Florença estão entre as cidades que já implementaram a medida. Representante do mercado publicitário, Burquier é favorável à regulação dos anúncios, mas não à sua interdição. Ele avalia que o veto é menos eficaz do que mensagens de esclarecimento que podem ser associadas à publicidade. “Fazer pedagogia, com campanhas que promovam formas alternativas de alimentação e desestimulem as pessoas a ficarem comendo coisas que não são muito boas, é o básico. Não tenho certeza de que retirar as bebidas alcoólicas das páginas de publicidade impeça as pessoas de beber, mas talvez as incite menos a beber”, ressalta. “Proibir as campanhas a favor ou contra a carne não terá efeito direto. Mas mensagens sobre a pegada de carbono do produto mostrado podem, sim, levar a uma maior conscientização.” Sem surpresa, o setor agrícola dos Países Baixos se opôs à proibição da publicidade sobre a carne. Já o do turismo alegou que a proibição de menções a voos pode prejudicar a liberdade comercial no país. Carne será o ‘novo cigarro’? Os defensores da medida alegam que ela visa mudar a visão dos consumidores sobre esses produtos e, como consequência, uma mudança de comportamento. Foi assim que o cigarro passou, aos poucos, a deixar de ser associado a benefícios para ter uma imagem negativa. Um em cada cinco adultos era fumante no mundo em 2020 – 27% a menos do que no ano 2000, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Carne e avião poderiam ser o cigarro de amanhã, no universo da publicidade? Os dois casos têm semelhanças, observa Débora Salles, coordenadora-geral do laboratório de pesquisa sobre internet e redes sociais da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab-UFRJ). “Quando a gente pensa o quanto as empresas de cigarro atuaram conjuntamente para impedir que a opinião pública soubesse realmente dos impactos que o cigarro tem na saúde das pessoas, e que essas empresas já sabiam. Teve todo um trabalho do setor como um todo, para atrasar a regulamentação que, de alguma forma, limitasse a propaganda ou patrocínio merchandising”, relembra. “A gente vê isso acontecendo hoje em dia em vários outros setores econômicos que têm impacto socioambiental, como é o caso de mineradoras, de petroleiras, de empresas que muitas vezes sabem o impacto que podem ter ou que já têm nas mudanças climáticas, mas que estão se promovendo, como muitas vezes líderes da transição energética. Sem regulamentar, dificilmente esses setores vão, por conta própria, deixar de fazer publicidade que é problemática.” Combate ao greenwashing No Brasil, o debate sobre regulamentação ainda é incipiente, e tem se concentrado mais no combate às práticas de greenwashing, ou seja, quando as empresas exageram ou mentem sobre os supostos benefícios ambientais de seus produtos. “É interessante que a gente pense que o greenwashing não precisa ser solucionado apenas com a proibição. A gente poderia criar convenções de transparência e formas de auditar o que essa publicidade diz que faz, que a empresa faz”, avalia a pesquisadora. “Quando você tem um anúncio dizendo que esse carro é socialmente sustentável porque ele é elétrico, por exemplo, a gente precisa poder verificar esse argumento. Hoje em dia, isso não é possível”, adverte. O Instituto Akatu atua na promoção de boas práticas socioambientais e no aumento da transparência das cadeias produtivas – uma via que, na visão do diretor da entidade, Lúcio Vicente, é mais eficaz do que a simples proibição da publicidade. “É possível utilizar essa mesma publicidade para conseguir dar transparência sobre como os produtos são produzidos. Quais os impactos que eles têm para a vida das pessoas? Quais os impactos que eles têm para as questões socioambientais, econômicas?”, questiona. “O elemento regulatório tem que começar a exigir das empresas o processo de rastreabilidade. O processo de onde são feitos, como são feitos, porque todo o sistema produtivo tem boas e más práticas. O consumidor que tem mais detalhes dos sistemas produtivos pode fazer melhores escolhas e, consequentemente, impactar menos as questões de meio ambiente.” Vicente salienta ainda o papel das redes sociais neste contexto. “Uma celebridade que poste um vídeo sobre determinado tipo de consumo vai influenciar tanto quanto a publicidade. A gente vai fazer o quê? Proibir?”, alerta.

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  2. 7 MAY

    Curtir conteúdos de animais silvestres estimula tráfico internacional, alerta campanha

    Comuns nas redes sociais, os vídeos engraçadinhos de animais silvestres como gorilas, leopardos, cobras ou periquitos podem parecer mero entretenimento, mas escondem um impulso significativo ao tráfico internacional de espécies. Muitos usuários não têm consciência de que cada curtida estimula ainda mais a comercialização de bichos selvagens, inclusive a ilegal. Com foco no público europeu, um dos principais consumidores desse mercado, a organização Fundo Internacional para a Proteção dos Animais (IFAW) lançou uma campanha de conscientização sobre o impacto dos “likes” nos posts que colocam em cena espécies exóticas em ambientes domésticos. Em muitos casos, os animais são coagidos a reproduzir comportamentos humanos, em busca de mais audiência. “Esse tipo de conteúdo banaliza a criação de animais selvagens, retratando-os como animais de estimação, quando, na realidade, eles não são nada adequados para viver em cativeiro, em ambiente doméstico”, explica a diretora de campanhas Mia Crnojevic. “Os algoritmos dão mais visibilidade a esse tipo de conteúdo e aumentam a demanda, porque eliminam um tabu. As pessoas veem e pensam: 'Nossa, que fofo, eu adoraria ter um desses em casa também’.” Os mais visados são répteis, tartarugas e pássaros, segundo a ONG. O maior perigo é que, ao ver um post, é quase impossível saber se os animais exibidos foram obtidos conforme a regulamentação internacional ou se são simplesmente ilegais. As redes sociais servem de plataforma de compra e venda, em transações cuja fiscalização é falha. "Os posts conectam compradores e vendedores com apenas alguns cliques, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Em teoria, esse comércio deveria ser regulamentado, mas no ambiente virtual, os controles são difíceis", lamenta. "As autoridades policiais precisariam de muito mais recursos para conseguir reprimir esse 'mercado cinza', como chamamos, no qual às vezes as coisas são legais e e às vezes, não, dependendo dos certificados e da documentação." Europeus estão entre os principais compradores Entre março e dezembro de 2025, a organização denunciou 118 posts considerados suspeitos em cinco plataformas digitais, e 75% das publicações foram apagadas. Em seu relatório, a IFAW salienta o papel dos países europeus nessa cadeia. Muitas espécies protegidas nos seus países de origem – principalmente na África, América Latina e Ásia –, mas que ainda não estão inscritas na lista da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cides), acabam sendo importadas legalmente por clientes da Europa. Assim, por mais que 82% dos europeus entrevistados para a pesquisa considerem o tráfico de espécies silvestres "um grave problema mundial", 64 milhões de animais exóticos vivem no continente, em ambientes domésticos. "As pessoas sempre tendem a apontar o dedo para os outros, mas a verdade é que sim, fazemos parte dessa cadeia. Temos demanda por esse tipo de animais, e é essa demanda, muitas vezes menosprezada, que impulsiona o tráfico de espécies", salienta Crnojevic. "Isso tem levado populações selvagens, como a do periquito-do-gabão, a serem dizimadas. Esses animais não têm absolutamente nada a fazer aqui na Europa."  Campanha no Brasil O problema mobiliza as autoridades ambientais no Brasil, de onde partem espécies como tartarugas, rãs e aranhas-tarântulas, vendidas na Europa. No ano ano passado, o Ibama e a organização WWF Brasil lançaram a campanha "Se não é livre, eu não curto", para alertar os brasileiros sobre os riscos de conteúdos envolvendo bichos silvestres. O tráfico de animais é considerado o terceiro maior crime de contrabando do mundo, atrás dos de drogas e de de armas. Em 2023, mais de 30 mil bichos silvestres resgatados pelo Ibama foram soltos na natureza, após passarem por reabilitação. As aves, como as araras, são as maiores vítimas: representaram 60% dos animais traficados do país.

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    Mapa do caminho do Brasil para fim dos fósseis não deve sair até a COP, diz ministro do Meio Ambiente

    A Colômbia promove nesta terça e quarta-feiras (28 e 29) uma conferência inédita para impulsionar o debate internacional sobre o afastamento dos combustíveis fósseis, cuja produção e consumo são os principais responsáveis pelo aquecimento global. O Brasil está presente em Santa Marta, ao lado de outros quase 60 países. Entretanto, como a maioria dos participantes, Brasília chega ao evento sem ter conseguido elaborar o seu próprio plano para reduzir a dependência dos fósseis. Lúcia Müzell, da RFI em Paris “Não estamos trabalhando com a expectativa de termos um mapa do caminho na próxima COP”, disse ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, à RFI. “Mas isso não tem a ver com uma diferença de visão [dentro do governo]. É um debate que está em curso, não está parado e acredito que, em breve, a gente terá uma proposta a ser encaminhada ao Conselho Nacional de Política Energética para estabelecer os marcos, os princípios, que serão utilizados para que o Brasil elabore o seu mapa do caminho”, explicou. Capobianco assumiu a pasta há menos de um mês, com a saída de Marina Silva do ministério para se dedicar à campanha ao Senado, nas eleições de outubro. Considerado o braço direito da ex-ministra, ele esteve em Paris para participar das reuniões preparatórias do G7, presidido este ano pela França. O Brasil é um dos países convidados da cúpula, prevista para junho, em meio a um contexto geopolítico de fortes tensões internacionais. Confira abaixo os principais trechos da entrevista, na qual Capobianco aborda ainda o futuro da política ambiental no Brasil, no contexto eleitoral, e a preparação para a chegada do fenômeno El Niño, que aumenta a probabilidade de incêndios florestais no segundo semestre. RFI: No tema do meio ambiente, a diplomacia francesa do G7 decidiu não abordar a questão climática num tópico específico, para evitar atritos com a delegação americana. Isso lhe surpreendeu, que um país como a França tenha evitado o tema central da crise climática? João Paulo Capobianco: Eu diria que seria de se esperar que este tema tivesse maior destaque. No entanto, ele foi tratado na medida em que a França trouxe de forma bastante assertiva à questão do combate à desertificação, da conservação da biodiversidade e o acordo envolvendo oceanos. Na verdade, esses temas estão totalmente interligados. Durante as nossas reuniões, esse assunto veio de forma muito clara, e o desafio climático permeou todo o debate, mesmo que não tenha tido um tema específico. RFI: Enquanto isso, acontece na Colômbia a Conferência de Santa Marta, a primeira grande iniciativa internacional reunindo os países dispostos debaterem a saída dos combustíveis fósseis. Como será a participação do Brasil?   J.P.C.: Esse tema foi trazido de forma muito intensa pelo presidente Lula na COP30. O Brasil tem sido muito vocal. Nós precisamos, de fato, reconstruir alternativas rapidamente para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, e o Brasil vem defendendo que, para isso, é necessário buscar várias rotas, entre elas o caminho do aumento do uso de biocombustíveis associados à eletricidade, ou seja, híbridos com biocombustíveis como uma alternativa importante para o Brasil. Hoje, nós temos um sistema bastante consolidado disso. O etanol tem uma participação na gasolina extremamente alta, mais de 30%. Temos biodiesel. É uma tecnologia acessível, não compete com a produção de alimentos, não gera desmatamento – nós temos mostrado isso muito claramente. Ou seja, há possibilidades de ações de curto prazo para promover essa transição. O Brasil vai participar da reunião na Colômbia contribuindo para esse debate, porque o mundo precisa encontrar caminhos para reduzir essa dependência o mais rápido possível. RFI: Internamente, no entanto, a definição desse mapa do caminho para o afastamento dos fósseis do Brasil está atrasada. No fim do ano passado, o presidente Lula deu um prazo de 60 dias para quatro ministérios e até hoje não foi possível chegar a um consenso. Como está essa discussão? J.P.C.: Está avançando. Existe uma complexidade que envolve a questão que vulgarmente se chama de combate à pobreza energética. O Brasil tem ainda déficit de oferta de energia para o conjunto da sociedade, e o debate é como é que nós vamos tratar, simultaneamente, a redução da dependência de combustíveis fósseis com essa necessidade de garantir a oferta de energia segura para o conjunto da sociedade brasileira. Isso tem levado a algumas discussões sobre o papel dos combustíveis fósseis, ainda, numa transição brasileira. Mas isso não tem a ver com uma diferença de visão. É uma coisa muito importante: o conjunto do governo, sob a orientação do presidente Lula, entende que a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética brasileira deve reduzir. A questão é como é que nós vamos fazer essa redução, qual é a nossa rota de redução. Isso é um debate que está em curso, não está parado e acredito que, em breve, a gente terá uma proposta a ser encaminhada ao Conselho Nacional de Política Energética para estabelecer os marcos, os princípios que serão utilizados para que o Brasil elabore o seu mapa do caminho. RFI: Mas vai ser possível chegar a essa proposta e encaminhá-la até a próxima COP, em novembro, lembrando que a presidência brasileira da COP30 levantou essa questão do ponto de vista internacional? O Brasil pode chegar na COP31 sem o seu mapa do caminho? J.P.C.: Os quatro ministérios envolvidos – Minas e Energia, Meio Ambiente, Fazenda e Casa Civil – estão muito motivados a fazer isso agora, nas próximas semanas. Há propostas de conciliação de posições para que a gente tenha isso e que a gente possa oferecer uma proposta de resolução para o Conselho Nacional de Política Energética rapidamente. Porém, repito, não será ainda o mapa do caminho. Será o estabelecimento dos princípios dos procedimentos que irão orientar a elaboração desse mapa do caminho, que precisa ser construído sob análises aprofundadas do ponto de vista de cenários, impactos socioeconômicos e ambientais de todo esse processo. Estamos comprometidos a estabelecer os princípios que vão orientar a elaboração do mapa do caminho, que se inicia na sequência. RFI: Essa poderá ser a maior entrega do Brasil para a próxima COP31? Qual é o seu principal objetivo para a próxima Conferência do Clima? J.P.C.: Nós vamos ter uma COP logo na sequência de um processo eleitoral bastante intenso, complexo, como toda eleição em qualquer país. Então, não estamos trabalhando com a expectativa de termos um mapa do caminho na COP. O que nós temos como expectativa é mostrar o compromisso do Brasil com isso, mostrar que o processo segue vigoroso, em andamento, em construção, para que a gente possa, no menor prazo, ter o nosso mapa do caminho consolidado. No fundo, nós estamos tratando de propor um grande acordo com a sociedade brasileira no sentido de que forma nós vamos compatibilizar a necessidade de desenvolvimento econômico, de combate à pobreza energética, de inclusão social, abrindo mão do uso de uma riqueza natural que o Brasil dispõe. Isso é algo que precisa ser um resultado de um debate aprofundado e precisa ser, digamos, internalizado pela sociedade brasileira de forma consistente. Não é uma questão de um governo. É uma visão de Estado. Não há nenhuma projeção, nem nas mais otimistas ou radicalmente defensoras do fim do uso de combustíveis fósseis, que entenda que é possível que a humanidade abra a mão completamente dos combustíveis fósseis num passe de mágica. É uma construção. Nós só podemos construir isso colocando outras alternativas no lugar. Essas alternativas, embora estejam se mostrando cada vez mais viáveis, haja visto a redução brutal no preço da produção das energias renováveis, ainda não são alternativas amplamente e completamente disponíveis para o conjunto dos países, porque os custos são muito altos. Essa transição precisa ser muito bem cuidada para que não seja mais uma fonte de desigualdade e criando obstáculos para o desenvolvimento de países que precisam se desenvolver. RFI: Nesse contexto, haverá eleições esse ano no Brasil. De que forma o ministério está se preparando para um revés de poder? Tem como blindar algumas políticas ambientais para que, se o presidente Lula não vencer, a política ambiental não seja perdida num eventual mandato da direita? J.P.C.: Eu diria que o esforço que tem sido feito pelo nosso governo é de apresentar soluções mais estruturantes, que envolvam o conjunto da economia, evitando o tratamento da questão ambiental como algo setorial. Essa é uma tese que a ministra Marina Silva defende desde quando nós iniciamos a participação no governo em 2003, a chamada transversalidade da ação ambiental. Na atual gestão do presidente Lula, esse assunto ganhou muita relevância. Há uma questão que eu acho interessante, que é o grau de afinidade existente entre a agenda do Ministério do Meio Ambiente e o da Fazenda. Essa parceria gerou alguns avanços muito importantes, que vão na linha de mudanças na estruturação de políticas econômicas do Brasil. O plano de Transformação Ecológica é um caso: no âmbito desse plano, nós fortalecemos o Fundo Clima. A partir de 2024, passamos a tratar o Fundo Clima como um fundo estratégico de reorientação da economia. Em 2024, passamos para R$ 10 bilhões, ou seja, saímos de R$ 400 milhões, em 2009, para R$ 10 bilhões, e em 2025 fomos para R$ 14 bilhões. Agora, em 2026, temos R$ 27 bilhões.   Além disso, em parceria com o Tesouro, criamos o Eco Invest, que é um modelo de blended finance, ou seja, recurso público que atrai recurso privado, nacional e internacional, para investir em açõe

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    Conferência na Colômbia reunirá países dispostos a planejar a saída dos combustíveis fósseis

    Os países dispostos a avançar rumo a um mundo com menos petróleo encontram-se a partir da próxima semana na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano. Será a primeira vez que eles se reúnem desde o lançamento de um debate internacional sobre o afastamento dos combustíveis fósseis na COP30, em Belém.  Lúcia Müzell, da RFI em Paris Há quase três anos, os 195 participantes da COP28, em Dubai, chegaram a um acordo histórico sobre a necessidade de uma transição “para longe” dos fósseis, principais causadores das mudanças climáticas. Mas desde então, na prática, o assunto desapareceu dos principais fóruns internacionais que poderiam encaminhar alternativas para esse tema complexo. A iniciativa do Brasil em abrir esta conversa em Belém acabou bloqueando a última Conferência do Clima das Nações Unidas. Menos da metade dos países queria ver avanços, e um número semelhante forçava no sentido contrário. A Colômbia, então, anunciou a intenção de promover uma reunião internacional, com o apoio da Holanda. Todas as economias dependem, em maior ou menor medida, do petróleo, do carvão e do gás. As guerras na Ucrânia e, mais ainda, no Oriente Médio, evidenciam os riscos estruturais dessa dependência – e tornam a transição ainda mais urgente, inclusive do ponto de vista econômico. “O fato de a gente ter essa dificuldade multilateral neste momento dá mais peso a tentativas de começar com os dispostos. A ideia de Santa Marta é começar com aquela coalizão de 24 países que assinaram a Declaração da Colômbia em Belém, e 84 países se disseram dispostos a debater um mapa do caminho, e envolver esses países em compromissos de descarbonização, traçar os seus mapas do caminho nacionais”, explica Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima (OC). “A ideia é tentar crescer esse círculo de países até que o barulho feito em torno dessa agenda se torne incontornável e o ruído cresça tanto que não deixe ninguém dormir nem em Moscou, nem em Riad, nem em Washington”, complementa.  Em busca de um caminho sem fósseis Até agora, 50 países confirmaram presença, entre eles Brasil, México, França, Noruega, Reino Unido e Angola, além da Comissão Europeia e centenas de organizações da sociedade civil e organismos de governo. Em recente coletiva de imprensa, a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, disse que o encontro de 24 a 29 de abril quer abordar os caminhos para os países buscarem soberania energética, ao mesmo tempo em que se afastam do petróleo, do carvão e do gás. “Como podemos balancear a dependência de petróleo nas nossas matrizes energéticas, incluindo o consumo, para que elas sejam mais limpas e que possamos organizar a eliminação das fontes fósseis?”, afirmou a ministra. “Outro ponto é sobre o multilateralismo e como vamos criar novas cooperações para essa agenda.” A produção e o consumo das fontes fósseis são responsáveis por mais de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa, que causam o aquecimento global. Países como Tuvalu, arquipélago do Pacífico, esperam que o encontro na Colômbia seja um primeiro passo para que as nações “possam escolher as pessoas em vez dos recursos do petróleo”. “Nós não temos mais tempo para os debates abstratos que acabam apenas em palavras. Em Tuvalu, o oceano está na nossa porta. Já estamos adaptando as nossas zonas costeiras e realocando comunidades mais para dentro, em terra”, declarou Maina Talia, ministro do Meio Ambiente de Tuvalu. “Acho que já tentamos os processos da ONU há tantas COPs: foram 30, que para nós, sempre falharam. A Conferência de Santa Marta, ao afrontar essa questão, traz muita esperança para os países mais impactados pelo aquecimento global.” Presidência da COP30 promete apresentar proposta A presidência brasileira da COP30 – que exerce o mandato até a realização do próximo evento, em novembro, na Turquia – vai participar da reunião em Santa Marta. O embaixador André Corrêa do Lago assumiu o compromisso de apresentar um mapa do caminho global para a transição longe dos fósseis ao longo deste ano. Os brasileiros têm realizado uma série de consultas com países e organismos internacionais para consolidar a proposta. “Brasil e Colômbia estão liderando do ponto de vista político, e a China liderando do ponto de vista tecnológico e econômico. O Sul Global cansou de esperar as soluções que nunca vieram do Norte e está tomando a iniciativa de liderar esse processo, embora alguns dos principais bloqueadores de ambição climática estejam no Sul Global”, salientou Angelo, do OC. A maioria dos participantes da reunião em Santa Marta ainda não definiu os seus mapas do caminho nacionais para sair dos fósseis, a começar pelo Brasil. Em dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu 60 dias para quatro ministérios – Fazenda, Meio Ambiente, Minas e Energia e Casa Civil – chegarem a um projeto, que até agora não apareceu.

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    Energia, lixo no mar, agricultura: no ChangeNOW em Paris, soluções sustentáveis visam Brasil

    Em um dos monumentos mais grandiosos de Paris, o Grand Palais, empresas, startups e institutos de todo o mundo apresentam novas soluções concretas contra a crise climática e a destruição dos ecossistemas. O ChangeNOW se consolida como um dos principais hubs de aceleração de ações para promover a sustentabilidade no planeta. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A nona edição do evento se encerrou nesta quarta-feira (1º), com 40 mil participantes e mais de mil iniciativas. Entre elas, várias contemplam o Brasil. A Enverge AI, por exemplo, capta energia renovável desperdiçada nos geradores e a canaliza para o uso na inteligência artificial. Apesar de ser fundamental para o desenvolvimento tecnológico, o setor representa um desafio colossal em termos de consumo energético. A Enverge utiliza microdata centers instalados dentro de geradores de energia renovável. "A demanda de energia já disparou e já está sendo um problema, uma limitação no crescimento em alguns casos, principalmente no lado do desenvolvimento, que é o que está demandando mais energia. E do outro lado a gente também tem um problema, o de curtailement: o excesso de energia que não é vendido, e normalmente é energia verde”, explica o CEO Breno Araújo. “A gente já usa essa energia excedente para gerar energia para os servidores."  O Brasil é um dos países com maior ocorrência desses cortes de energia – ao ponto de diversos projetos de desenvolvimento das renováveis terem de ser adiados ou paralisados, na contramão do que acontece nos países desenvolvidos. "O problema é a distribuição. Onde você gera a energia, não é necessariamente onde estão os moradores, as casas. E quanto maior o país, mais difícil fica essa distribuição: você tem perda de energia na transmissão, e a rede elétrica não é unificada 100%”, complementa. ‘Pescar' lixo Um dos objetivos do ChangeNOW é colocar startups como essas em contato com parceiros ou investidores – o evento é ponto de encontro de 10 mil empresas francesas e internacionais. A italiana Ogyre une gestão de lixo nos oceanos à tecnologia, atuando com a colaboração de pescadores locais em países como o Brasil, onde está presente no Rio de Janeiro. Durante as atividades habituais para pescar peixe, eles captam também plásticos que encontram pelo caminho. "É muito importante porque é uma renda adicional para ele. Eles não encontram peixe o tempo todo, mas infelizmente o lixo eles sempre vão encontrar”, afirma Gaia Minopoli, chefe de operações da startup. Em terra firme, os pescadores pesam e fotografam todo o lixo que recolheram. "Uma responsável do projeto coloca as fotos na plataforma digital, uma etapa importante para a gente monitorar todo o processo e para que as empresas que financiam um projeto também possam ver”, ressalta. “Depois a gente tenta reciclar o  máximo possível desse lixo, e o que não der, a gente encaminha para a melhor gestão." Alternativa a agrotóxicos Já a francesa Incères tem como alvo a redução dos agrotóxicos pela agricultura. Num contexto em que a exposição das populações e do meio ambiente às contaminações leva a Europa a limitar cada vez mais compostos químicos autorizados, a empresa oferece alternativas naturais, a base de óleos essenciais. A marca propõe dois produtos capazes de substituir agrotóxicos amplamente utilizados contra insetos, com eficácia e preços semelhantes aos produtos sintéticos, garante Inès Taurou, fundadora do projeto. "É possível. Uma grande maioria dos agricultores não acredita nisso e acha que não dá para cultivar sem produtos químicos, mas estamos aqui para mostrar que sim, dá”, diz. "Tenho a esperança de que quando chegarmos em 2050, isso nem vai ser mais um assunto, que os futuros agricultores nem se questionarão mais sobre ter ou não alternativa. Eles já saberão que tem."  Após realizar um estudo de mercado, a Incères decidiu se expandir para o Brasil – apesar de a sensibilidade dos consumidores aos riscos dos pesticidas ainda ser menor do que na Europa, complementa Judie Henry, diretora de pesquisa e desenvolvimento. "Em termos de posicionamento técnico, nós chegamos ao Brasil como complementares à química. Hoje, o verdadeiro problema na agricultura brasileira é a emergência de pragas resistentes”, observa. "As mesmas substâncias são usadas em abundância há anos e anos. Além disso, as safras se repetem bem mais do que aqui, o que cria pressões bem mais fortes e o aparecimento de pragas resistentes a esses produtos químicos. Nós queremos surgir como uma combinação para frear o aparecimento dessas resistências”, propõe.

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  6. 26 MAR

    No Pantanal, COP15 das espécies migratórias destaca declínio de animais ‘sem fronteiras’

    A vida delas é viajar: as espécies migratórias percorrem milhares de quilômetros entre continentes em busca de alimento, água, locais de reprodução ou condições climáticas adequadas. Mas as intervenções humanas na natureza e as mudanças do clima ameaçam sua sobrevivência. Algumas populações, como os peixes de água doce, sofreram um declínio de 81% nos últimos 50 anos. Lúcia Müzell, da RFI em Paris Nesta semana, o Brasil recebe mais de 130 países para a 15ª Conferência da ONU sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres. O evento acontece no emblemático Pantanal, a maior planície alagável do planeta e um dos principais refúgios de biodiversidade do país. Menos badalada que as Conferências do Clima, esta COP15 tem o desafio de proteger os corredores migratórios desses animais, que desconhecem fronteiras. Em outras palavras, de nada adianta um país garantir o trânsito das espécies se, no país vizinho, elas não encontrarem um ambiente equilibrado e seguro para seguir seu caminho. Nas Américas, são três principais rotas: a do Atlântico, a do Pacífico e a Central. “A gente precisa entender que não pode trabalhar sozinho. As aves, assim como toda a biodiversidade migratória, não reconhecem fronteiras de países: elas passam por todos eles e acabam nos conectando”, observou Raquel Carvalho, gerente do Programa Aves Limícolas da organização SAVE Brasil. “O que a COP nos mostra é o sentimento de conexão que as aves nos proporcionam. Se a gente não cuidar de cada ponto desses de parada, elas não conseguem fechar seus ciclos.” Declínio em alta No começo de março, a ONU revelou um relatório preocupante: 49% das espécies migratórias estão em declínio, 5% a mais do que há dois anos. Elas são vítimas de alterações de seus habitats, das mudanças climáticas, da caça e da pesca. À luz dos avanços do conhecimento científico sobre migrações, um dos objetivos da conferência é atualizar as duas listas de espécies protegidas pela Convenção das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias, em vigor desde 1979. Uma se refere aos animais ameaçados de extinção e a segunda inclui os que precisam de cuidados dos países para serem preservados. “Discutir essa lista é muito importante, porque, ao classificar uma espécie ou ajustar essa lista, você está definindo prioridades de atuação”, explicou o presidente da conferência, João Paulo Capobianco, em coletiva de imprensa em Campo Grande. “O segundo ponto importante são as ações consertadas. Se há uma espécie X que passa por 10 países, esses 10 países precisam definir como vão atuar, de forma integrada, para que essa espécie sobreviva. São propostas já aprovadas em outras convenções e que agora serão analisadas”, detalhou. Falcão-peregrino, toninha, baleia jubarte O Brasil, país megadiverso, possui o segundo maior número de espécies de aves do mundo, e 126 passam pelo território brasileiro em suas rotas migratórias, como o falcão-peregrino. Nos mares e rios, não é diferente: são centenas de peixes e mamíferos, como a toninha, o menor golfinho registrado, que migra entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina, e as baleias-jubarte, que encontram em Abrolhos o local ideal para se reproduzir. Outro desafio é garantir que o licenciamento ambiental de grandes obras de infraestrutura leve em consideração as rotas de passagem de animais. Ainda restam lacunas importantes de conhecimento. “Se vai se licenciar algum empreendimento, como uma barragem ou hidrelétrica que vá impactar áreas úmidas, por exemplo, ele tem que passar por todo um protocolo já estabelecido. O Brasil tem uma legislação muito boa sobre isso, mas precisamos conhecer o mapeamento das áreas importantes para essas espécies migratórias”, frisou Carvalho. Ampliação de Unidades de Conservação A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, salientou que, no âmbito da negociação entre os países, o gargalo do financiamento continua sendo um desafio. “A comunidade internacional tem dificuldade em relação ao financiamento, seja para o clima, para a biodiversidade, contra a desertificação ou para as espécies migratórias”, ressaltou. “A gente tem acordos internacionais de aportes de recursos para enfrentar esses graves problemas ambientais, mas eles, infelizmente, não foram cumpridos”, disse Marina. A COP15 também representa uma oportunidade para o país ampliar, no plano doméstico, as medidas de proteção desses animais. Na abertura do evento, no domingo (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a criação ou ampliação de três Unidades de Conservação: a de Córrego dos Vales, no Cerrado de Minas Gerais, a do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a da Estação Ecológica de Taiamã, no Mato Grosso. A conferência se encerra nesta sexta-feira (27). O Brasil exercerá por três anos a presidência do evento, até a COP16.

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  7. 19 MAR

    Impacto ambiental da guerra: ‘Não haverá nem vencedor, nem vencido: apenas vítimas da poluição’

    Na medida em que o conflito no Oriente Médio se estende, desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, aumentam também as preocupações sobre o impacto ambiental da guerra. As instalações de petróleo no Golfo têm sido um dos alvos prioritários de bombardeios, gerando uma chuva tóxica com efeitos ainda inestimáveis na região. Lúcia Müzell, da RFI em Paris As “chuvas ácidas” ocorridas após a explosão de milhares de toneladas de óleo levaram a ONU a emitir um alerta sobre os riscos à saúde dos iranianos. Os poluentes como enxofre e compostos de nitrogênio, liberados na explosão, se dispersam na atmosfera. Quando entram em contato com as partículas de água presentes no ar, esses químicos se transformam em ácidos tóxicos, como o sulfúrico e o nítrico. As precipitações levam os poluentes de volta para o solo e a água, causando danos prolongados à agricultura e à qualidade da água. Jacky Bonnemains, diretor da organização ecologista francesa Robin des Bois, lembra que o Golfo Pérsico é um mar quase fechado, particularmente vulnerável à contaminação por vazamentos de petróleo e restos de navios militares ou petroleiros atacados. Biodiversidade em risco “As atividades dos pescadores artesanais, que são milhares na região e contribuem para a segurança alimentar de todos os países litorâneos, quaisquer que sejam os beligerantes, estarão condenadas por muito tempo”, comentou. “A biodiversidade, da qual tanto se fala em tempos de paz e tão pouco em tempos de guerra, também será prejudicada a longo prazo. São tartarugas marinhas, dugongos, baleias-jubarte, cachalotes, peixes, pepinos-do-mar. É uma verdadeira catástrofe ambiental e sanitária.” No total, mais de 2.000 espécies marinhas vivem nessas águas quentes, às quais se somam 100 espécies de corais. Além disso, os manguezais e os prados marinhos da região são zonas de reprodução para peixes e crustáceos. As aves marinhas também são ameaçadas: o óleo destrói a impermeabilidade de suas penas, provocando hipotermia e afogamentos. A migração delas também pode ser perturbada pelo ruído das explosões e pelas colunas de fumaça tóxica. Poluição abala acesso já restrito à água Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Omã e Arábia Saudita – as consequências serão sentidas muito além do Irã, embora o país seja o mais diretamente atingido, explica Doug Weir, diretor da ONG britânica Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS). A entidade já identificou cerca de 300 incidentes envolvendo riscos ambientais desde o início da guerra. “O Irã enfrenta uma seca prolongada há muitos anos. Já sofre forte estresse hídrico, portanto qualquer poluição adicional nos aquíferos e nos recursos hídricos iranianos é particularmente problemática, porque eles já são escassos”, ressaltou. “Outro ponto: grandes derramamentos de petróleo no Golfo Pérsico podem afetar as usinas de dessalinização de água — e cerca de 100 milhões de pessoas ao redor do Golfo dependem dessas usinas.” As dezenas de navios bloqueados na região, carregando cerca de 21 bilhões de litros de petróleo, constituem uma "bomba-relógio ecológica" alertou a organização Greenpeace. Balanço ambiental esquecido Nos bombardeios mais recentes, Washington visa a ilha de Kharg, terminal que concentra 90% das exportações de petróleo bruto iraniano. As infraestruturas foram preservadas até o momento, mas o cenário pode mudar de acordo com o andamento do conflito. “Fala-se muito do balanço econômico desta guerra, e muito pouco do balanço humano, que não conhecemos. Mas o despertar após o choque petrolífero será bastante violento, em relação às consequências ambientais”, insistiu Bonnemains. “Com o passar do tempo, não haverá nem vencedor, nem vencido: haverá apenas vítimas da poluição.” A gestão desses danos é outro ponto de preocupação. A história mostra que, ao final de conflitos armados, a descontaminação das áreas atingidas fica longe do topo das prioridades. “O que vemos na maioria das áreas afetadas por conflitos é que o dano ambiental muitas vezes não é tratado posteriormente. A recuperação ambiental é cara, e países que estão saindo de um conflito têm menos capacidade de proteger o meio ambiente”, observou Doug Weir. “São necessários recursos e assistência técnica da comunidade internacional, o que nem sempre acontece. E, no caso do Irã, embora o país tenha enorme capacidade e expertise em questões ambientais, também possui um governo muito fechado e centralizado, que pode não ser particularmente transparente sobre a necessidade de limpar o ambiente ao redor desses locais”, frisou.

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  8. 26 FEB

    Salinização dos solos obriga regiões costeiras a reinventarem a agricultura

    A interação entre um clima mais quente e práticas agrícolas prejudiciais está tornando as regiões costeiras cada vez menos férteis. A salinização dos solos se expande nos cinco continentes e, nas zonas áridas e semiáridas, coloca em risco cultivos tradicionais.    Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais de 10% da superfície terrestre é afetada pelo fenômeno. A presença de sal é natural na terra e na água. No entanto, a crise climática e a má gestão humana têm levado a desequilíbrios que abalam a fertilidade destes solos. Um bilhão de hectares do planeta estão ameaçados nas próximas décadas. As zonas diretamente em contato com o mar são as mais vulneráveis – é onde a água dos lençóis freáticos costuma ser mais explorada para o consumo humano, abrindo espaço para a substituição pela água salgada. Em entrevista à RFI, o hidrologista Claude Hammecker, especialista no estudo dos solos do instituto francês de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD), afirma que as mudanças climáticas pioram este contexto. “Por um lado, o aumento dos períodos de seca, e consequentemente o aumento da evaporação, contribuirá para agravar a salinização em áreas onde o sal já está presente. Mas quando a evaporação é forçada, devido ao uso de água dos lençóis freáticos para a irrigação, a acumulação de sal aumenta”, sublinha. “Além disso, com a diminuição das chuvas, que naturalmente ‘lavam’ o excesso de sal no solo, teremos um acúmulo ainda maior deste sal”, complementa. Litoral do Brasil e desmatamento Nas regiões mais áridas, os governos locais recorrem aos lençóis freáticos para compensar a falta de chuva. Mas mesmo onde as precipitações são abundantes, a prática é comum, observa o especialista. “Eu trabalhei no Brasil, e todas as grandes megalópoles localizadas no litoral brasileiro consomem quantidades enormes de água, bombeando-a diretamente dos aquíferos e contribuindo para o que se chama de ‘beijo de sal’. A água doce é extraída e gradualmente substituída pela do mar, tornando a água cada vez mais salgada”, aponta. Em seu relatório mais completo sobre o tema, publicado há pouco mais de um ano, a FAO alerta que 16% das águas subterrâneas já são afetadas pelo fenômeno, tornando uma área ainda maior em torno da costa pouco propensa à agricultura. Outros processos naturais de salinização também podem ocorrer, relacionados a antigos depósitos marinhos transformados em camadas geológicas. Conforme as movimentações da água ou escavações, essas camadas, formadas há milhares de anos, podem emergir à superfície. Entretanto, este processo pode se acelerar com a degradação do meio ambiente pela ação humana. “Na Tailândia, temos antigos depósitos de sal enterrados profundamente no subsolo e que, à primeira vista, não representavam uma ameaça para a agricultura. Mas eles ressurgiram devido ao desmatamento, que fez com que a água da chuva se infiltrasse muito mais profundamente, subisse à superfície e criasse um lençol freático salgado, que afeta as plantações”, salienta Hammecker. Reviravolta nas culturas tradicionais Entre os países que mais sofrem com a salinização, estão Argentina, China, Estados Unidos, Rússia e Irã. Nos países mediterrâneos, o problema tem se acentuado nos últimos anos, tanto no norte da África, quanto na Europa. No sul da França, a região de Camargue exemplifica os desafios. Tradicional produtora de sal e de culturas que se desenvolvem bem em solos arenosos e salinizados, como o arroz, Camargue agora sofre os efeitos dos excessos de calor e das secas, mas também da expansão do próprio sal, com o aumento do nível do mar. Os prejuízos dos viticultores se acumulam, e muitos produtores de arroz agora têm preferido se voltar para cereais menos dependentes de irrigação. A necessidade de mudança causa tensões, observou à RFI o ecólogo Raphaël Mathevet, ligado ao respeitado Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. O pesquisador tem tentado convencer os agricultores a experimentar culturas resilientes às novas condições, como o melão ou o tomate. “Temos um choque cultural. Estamos falando de agricultores que vêm desenvolvendo a Camargue há muito tempo graças à irrigação, às escavadeiras e à tecnologia, e que se consideram os próprios criadores desta Camargue que precisa ser protegida hoje”, detalha. “Eles se enxergam como um contraponto aos cientistas e ativistas que dizem que, ao contrário, devemos aproveitar esta crise para pensar em uma recomposição territorial, repensar o desenvolvimento econômico do delta, em outras culturas e em outras formas de atuação.” Especialistas da Parceria Global para o Solo estimam que, nos países mais afetados pela salinização, as perdas de produtividade podem chegar a 72% para o arroz, 68% para o feijão, 45% para a cana-de-açúcar e 37% para o milho. O impacto é maior nos países em desenvolvimento, menos preparados para lidar com o problema.

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Entrevistas sobre os temas relacionados ao meio ambiente. Análises dos principais desafios no combate às mudanças climáticas e à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.

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