RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 1 DAY AGO

    ‘A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta’: Festival de Choro reúne mestres em Roterdã

    O Festival do Choro de Roterdã realiza no próximo domingo, 22 de março, a sua 13ª edição, reunindo dois nomes de destaque da música instrumental brasileira: o pianista, compositor e arranjador Cristóvão Bastos, autor de clássicos como “Todo o Sentimento”, e o violinista de sete cordas Rogério Caetano, referência no instrumento. A apresentação acrescenta um novo capítulo à relação duradoura entre o país europeu e o gênero musical nascido no Rio de Janeiro. À frente da direção artística do festival está o cavaquista holandês Marijn van der Linden, fundador da Escola Portátil de Música (EPM) da Holanda, a primeira filial da carioca Casa do Choro fora do Brasil. Há anos, Marijn constrói pontes entre a música brasileira e a Europa. “O choro é sempre bem recebido aqui. A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta: coloca um sorriso no rosto”, diz. “E, nesses dias de guerra, o povo está precisando de um pouco de alegria e felicidade. A música brasileira traz isso”, acrescenta Marijn, com entusiasmo. Uma escola pequena que sustenta um festival internacional Sem patrocínios fixos e com atividades concentradas nos sábados, a EPM da Holanda cresceu de forma orgânica. Hoje reúne cerca de 70 alunos, entre brasileiros recém‑chegados e holandeses com vínculos afetivos com o país. É dessa estrutura enxuta que nasce a programação anual do festival. “Eu vejo quem está circulando pela Europa, quem está perto, quem está em Paris, quem está em turnê. Isso viabiliza o festival”, explica Marijn. No ano passado, um imprevisto abriu espaço para a participação de Hamilton de Holanda, ídolo do cavaquista. “Foi um sonho”, lembra. Em 2026, o festival ganha um reforço institucional importante: pela primeira vez, recebe apoio da Embaixada do Brasil na Holanda.   Um encontro pessoal com o choro Formado originalmente em guitarra e violão jazz, Marijn viu sua trajetória mudar ao descobrir o choro. Já fascinado pela música brasileira, começou no cavaquinho com DVDs e livros, em tempos pré‑YouTube. A virada aconteceu em 2008, quando viajou ao interior de São Paulo para o Festival de Choro da Escola Portátil. “Foi meu batizado no choro”, recorda. Lá conheceu sua futura professora, Luciana Rabello, e mergulhou no universo de Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e na linguagem que hoje transmite a seus alunos em Roterdã. Brasil diverso dentro e fora do palco O festival vai além da música. Entre concertos, capoeira e gastronomia, há o desejo de apresentar aos holandeses um Brasil mais amplo do que o imaginário carnavalesco costuma permitir. A cultura brasileira é muito para fora, muito junto. Criança e adulto misturados, tudo conectado”, observa Marijn. “O choro é raiz, mas o Brasil é muito grande. É importante mostrar outros lados. Nesta edição, dois artistas do Ceará ampliam o mosaico: o trombonista e bandolinista Roberto de Oliveira, que vem de Lille (norte da França), e o violonista Samuel Rocha, de Fortaleza. A eles se junta a pianista mineira Maria Inês Guimarães, radicada em Paris. Na cozinha, sabores baianos dividem espaço com pães de queijo. No sábado, os interessados já podem chegar para uma visita à escola EPM e, à noite, participar de uma roda de samba com Rogério Caetano. No domingo, a programação começa às 15h, em clima de encontro familiar. Crianças de cinco anos tocam seus primeiros choros, dividindo espaço com alunos adultos e com o mais velho da escola, de 82 anos. Essa convivência intergeracional – tão marcante no Brasil – é algo que Marijn faz questão de levar ao público holandês. No palco principal, Cristóvão Bastos, prestes a completar 80 anos, será celebrado como a lenda que é.

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  2. 2 DAYS AGO

    Quadrinista investiga colonização e memória em HQ na França sobre território Guarani-Kaiowá

    Arquiteta de formação, artista plástica e pesquisadora, Clara Chotil vem conquistando destaque nos quadrinhos com histórias que cruzam memória, história e política. Depois de Ópera Negra, ela lança na França Tekoha, uma obra inteiramente pintada em acrílico que mergulha na relação profunda entre os povos indígenas e seus territórios no Mato Grosso do Sul, no Brasil. A quadrinista e ilustradora franco-brasileira Clara Chotil vem se afirmando como uma das vozes singulares de uma nova geração de artistas que exploram, por meio da narrativa gráfica, as intersecções entre memória, história e política. Arquiteta de formação, artista plástica e pesquisadora, ela acaba de lançar na França Tekoha, uma história em quadrinhos inteiramente pintada em acrílico que mergulha na relação entre povos indígenas e território no Mato Grosso do Sul. Ao falar sobre o ambiente em que começou a produzir, Chotil observa que o cenário mudou nos últimos anos para as mulheres que trabalham com quadrinhos. “A minha geração de criadoras e criadores de quadrinhos é uma geração em que muitas mulheres já estão presentes. Eu cheguei inspirada por mulheres autoras e já rodeada de mulheres criadoras”. Essa presença feminina se manifesta com clareza sobretudo nas escolas e nos espaços de formação artística, afirma a autora. “Nas escolas de ilustração e nos cursos mais dedicados aos quadrinhos, a maioria já é de mulheres”, diz. Ainda assim, a transformação do campo não ocorre de maneira uniforme. Segundo ela, persistem desequilíbrios nas instâncias de decisão do setor editorial. “Onde ainda há maioria de homens é entre os editores, nos espaços de premiação e de poder, e nos espaços de decisão, onde a chegada das mulheres leva mais tempo.” Filha de mãe brasileira, Clara Chotil cresceu na França, uma condição que marca profundamente o ponto de vista a partir do qual constrói sua obra. “O meu olhar é um olhar bastante europeu. Eu sou brasileira por parte de mãe, mas cresci na França, fui criada aqui, nasci aqui”, explica. No início do processo criativo, ela chegou a considerar que essa dimensão biográfica poderia permanecer implícita na narrativa. “No início eu não queria deixar tão explícito o fato de eu ser francesa, porque me parecia uma complexidade que não era necessária numa história já complexa”. Leia tambémLivro em quadrinhos conta a história da primeira brasileira negra a cantar na Ópera de Paris Com o avanço da pesquisa, no entanto, a artista percebeu que sua posição também fazia parte da história que estava tentando contar. “Aos poucos eu me dei conta de que era importante dizer de onde eu estava olhando, porque isso também era uma consequência do meu interesse”, afirma. Reconhecer essa perspectiva externa tornou-se, para ela, uma forma de dar transparência ao próprio processo narrativo. “Fazia parte da história o fato de eu estar olhando de fora”. A formação em arquitetura, por sua vez, influencia diretamente a maneira como ela organiza o espaço em suas páginas. Em seus quadrinhos, a paisagem frequentemente ocupa um papel central. “Eu acho que o meu olhar é muito o olhar de uma arquiteta”, diz. Essa característica se repete em diferentes trabalhos da autora. “Seja nesse quadrinho ou no anterior, eu sempre desenho mais espaços do que personagens”.   Em Tekoha, essa escolha ganha uma dimensão particular, já que o próprio título remete a um lugar e a um modo de habitar. “No caso desse quadrinho, o título é justamente o título de um espaço”, explica. O leitor é conduzido por imagens que privilegiam panoramas amplos antes de se aproximar dos protagonistas da narrativa. “A maioria das imagens são com a ‘câmera’ mais distante, e aos poucos a gente vai chegando perto dos personagens que vão nos contando essa história”. O impulso inicial para o projeto nasceu de uma inquietação pessoal diante da situação política brasileira no início da década. Clara Chotil começou a trabalhar no livro durante o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Eu comecei esse quadrinho por volta de 2021 ou 2022 e estava me questionando sobre a minha relação com o Brasil e tentando entender aquele momento”, conta. Diante de uma questão tão ampla, ela decidiu começar pela própria história familiar. “Eu decidi me interessar por isso através da minha própria história e da minha relação com o Brasil a partir da minha mãe”. As memórias da infância materna no Mato Grosso do Sul tornaram-se, então, um ponto de partida para a investigação. “A minha mãe sempre me contou histórias da sua infância no Mato Grosso do Sul, histórias muito coloridas, de floresta, de heróis”, lembra. Nessas narrativas, os avós apareciam como pioneiros que haviam chegado à região vindos do Nordeste. “Os pais dela chegaram a territórios onde não havia nada e construíram suas casas, lugares que aos poucos viraram cidades”. Ao visitar o estado, porém, a artista encontrou uma paisagem bastante diferente daquela contada nas histórias familiares. “Quando eu ia para o Mato Grosso do Sul eu não via essas paisagens. Eu via campos de soja”, relata. A discrepância entre memória e realidade despertou novas perguntas. “Havia uma dissonância entre o que eu via no cotidiano e essas histórias”. Foi nesse momento que Clara Chotil começou a revisitar o passado da região de forma mais crítica. “Eu conhecia esse território como CANDI, Colônia Agrícola Nacional de Dourados”, explica. O próprio nome do lugar passou a suscitar questionamentos. “Eu me dei conta de que ali havia a palavra ‘colônia’, que era uma história de colonização”. Essa descoberta revelou também um silêncio nas narrativas familiares. “Eu comecei a me perguntar por que nunca ouvimos falar das populações indígenas”, diz. A ausência dessas presenças parecia contradizer o imaginário de floresta que permeava as lembranças transmitidas de geração em geração. “No meu imaginário de floresta havia populações, mas nas histórias que chegavam até mim essas pessoas não apareciam, não eram mencionadas”. Para compreender essa lacuna, a autora decidiu empreender uma série de viagens ao Brasil. “O quadrinho permite esse luxo de ter um tempo longo de reflexão sobre uma temática”, observa. Durante essas estadias, ela retornou ao Mato Grosso do Sul, reencontrou parentes e ampliou o campo de sua pesquisa. “Eu fui conhecer pessoas da minha família e também populações indígenas Guarani-Kaiowá”. O contato com estudantes e pesquisadores da Universidade de Dourados revelou outra dimensão da história da região. “Alguns deles estavam pesquisando a própria história de suas famílias e como foi vivida a chegada dos colonos do ponto de vista deles”, explica. A partir desses encontros, a artista decidiu colocar em diálogo narrativas que raramente se cruzavam. “Foi a partir dessas outras histórias que eu decidi cruzar essas duas narrativas”. Em muitos casos, essas histórias coexistiram lado a lado sem estabelecer contato direto. “Às vezes elas tiveram confrontos muito violentos ou simplesmente se desconheciam”, afirma. A própria experiência familiar ilustra essa distância histórica. “A minha mãe não teve contato com as populações que estavam lá antes da chegada deles”. A escolha da técnica pictórica para o livro está diretamente ligada à tentativa de transmitir a dimensão sensível dessas paisagens e dessas memórias. Em vez de recorrer às técnicas tradicionais do quadrinho, Clara Chotil optou por pintar todas as páginas em acrílico. “Eu tinha esse desejo de pintar, porque gosto muito desse meio da pintura”, explica. O uso do acrílico permitiu trabalhar em formatos maiores do que os normalmente associados à narrativa gráfica. “Eu comecei a pintar com acrílico porque trabalhava em grandes formatos”, conta. Embora pouco comum nos quadrinhos, esse procedimento abriu novas possibilidades de composição. “Não é uma técnica tão apropriada para pequenos formatos de quadrinhos, mas ela me permitia ter grandes telas”. Em seu processo criativo, as páginas frequentemente são concebidas em conjunto, como um único campo visual. “Eu trabalho em geral com duas páginas ao mesmo tempo”, afirma. Essa abordagem reforça o papel central da paisagem na narrativa. Durante a pesquisa, a artista percebeu que, apesar das diferenças entre as histórias que ouviu, havia um elemento compartilhado por muitos dos relatos. “Todo mundo fala daquele lugar com muito carinho, com muito amor”, diz. A pintura tornou-se, então, um meio de transmitir essa dimensão afetiva ao leitor. “Eu queria que essa emoção chegasse ao leitor também”. Cores e tensões As cores desempenham um papel fundamental nesse processo. “Eu queria que o leitor pudesse sentir esse apego ao território através das cores”, explica. As paisagens pintadas em acrílico procuram, assim, traduzir tanto a beleza evocada nas memórias quanto as tensões que atravessam a história da região. O próprio título da obra sintetiza essa reflexão. No universo guarani, a palavra “tekoha” possui um significado que ultrapassa a noção ocidental de território. “Tekoha é um termo guarani que pode ser traduzido como território ou espaço, mas ele define algo mais amplo do que o território como é entendido na civilização ocidental”, explica a autora. Para os povos guarani, o conceito inclui não apenas o espaço físico, mas também a forma de habitá-lo e de se relacionar com ele. “Ele é o território, mas também o jeito de morar nesse território”, afirma. O termo envolve igualmente as pessoas e suas relações com as gerações passadas. “Ele é a pessoa que mora nesse território, mas também seus ancestrais e a maneira de se rela

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  3. 5 DAYS AGO

    Premiado na França, curta-metragem ‘Crônicas Marginais’ mostra como a Rocinha se reinventa pelo cinema

    A trajetória da Academia de Cinema da Rocinha (ACR) ganhou projeção internacional com a exibição do curta “Crônicas Marginais” no Festival Cinéma de Femmes d’Amérique du Sud, mostra realizada todo mês de março em Paris, dedicada a destacar o trabalho de diretoras sul‑americanas. Eleito o melhor curta-metragem do festival, o filme integrou uma programação que reuniu cerca de 80 produções, entre curtas e longas de países como Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, México, Peru e Paraguai. Para o cineasta Marcos Braz, idealizador e cofundador da escola carioca, estar na capital francesa apresentando um filme feito por moradores da comunidade simboliza uma virada histórica na forma como a Rocinha é vista – e como se vê a si mesma. “Foi incrível poder sair um pouquinho da nossa zona de conforto”, contou Marcos à RFI. “Sempre apresentamos o filme em contextos de favela, em lugares de favela. Quando atravessamos para outro lugar, principalmente numa mostra competitiva, encontramos projetos incríveis, e isso foi um momento desafiador e de grande aprendizado.” Ao relembrar sua infância na Rocinha nos anos 1980, Marcos destaca o peso dos estigmas: “Nós éramos considerados pessoas perigosas só por morar naquele lugar. O estereótipo nos acompanhou durante muitos anos”. Segundo ele, o audiovisual foi decisivo para transformar esse olhar. Primeiro, quando começou a trabalhar como jornalista de TV; depois, com a criação da ACR. “A escola veio nesse lugar de transformar visibilidade em narrativa. O que só a gente via ali, agora chega ao mundo, inclusive aqui em Paris”, diz o realizador, com um largo sorriso no rosto. Mutirão de cinema O processo de criação de “Crônicas Marginais” traduz, em forma audiovisual, a filosofia colaborativa da Academia de Cinema da Rocinha. Ao contrário da lógica comum do “curta de guerrilha”, com equipes pequenas e baixo orçamento, a escola mobilizou mais de 70 pessoas, entre alunos, moradores que atuaram como figurantes e profissionais voluntários do mercado audiovisual. Marcos explica como o filme nasceu de oito histórias criadas por alunos da primeira turma da Academia. “Os estudantes estavam concorrendo a um recurso que recebemos da Marieta Severo. Mas eles disseram: por que não pegar um pedaço de cada história e transformar num único curta?” Assim surgiu a “gincana criativa” que resultou no roteiro final. O método de criação cinematográfica coletiva foi inspirado nos próprios mutirões das favelas. “A forma comunitária que usamos na Academia vem das construções da favela. Para chegar água, para chegar luz, tudo era mutirão. Então batizamos de ‘mutirão de roteiro’: onde um tem dificuldade, o grupo inteiro ajuda”, destaca.  O cineasta fez questão de sublinhar que nem todos os alunos que participaram do projeto tinham um grau de educação formal. “Geralmente, a pessoa que chega em uma escola de cinema tem que ter um nível médio, uma escolaridade mínima universitária. Nós aceitamos pessoas com baixa escolaridade. Em alguns casos, baixíssima escolaridade.” A filmagem envolveu quatro diárias de gravação, cenas nas ruas e em quatro diferentes locações da comunidade, especialmente num anfiteatro abandonado, onde foi registrada “a cena mais linda, a do pianista palhaço”, nas palavras de Marcos.  A presença de profissionais experientes, que vieram de grandes produções de plataformas como Netflix e Globoplay, reforçou o caráter pedagógico do projeto. “Ali no set era tudo muito caloroso. Era educação na prática. Ver aqueles profissionais circulando normalmente na comunidade era impensável nos anos 1980.” Como resultado, os alunos não apenas finalizaram o filme, mas também conquistaram novos caminhos. “De 30 alunos, surgiram 30 oportunidades profissionais. Cinco foram trabalhar em filmes para streaming e alguns no cinema. Isso tem uma relevância muito grande para a gente.” A montagem, concluída somente na 19ª versão, também foi uma escola em si. “Eles nunca tinham visto uma ilha de edição. Mas puderam criar sem muito pudor. Por mais que tivesse uma técnica, os alunos tiveram liberdade artística suficiente para expressar as suas realidades. Queriam até atuar em suas próprias histórias!”, relembra Marcos. Apoio da atriz Marieta Severo  Responsável pela produção, Dani Castro viu de perto as dimensões práticas e afetivas do desafio. O primeiro foi conseguir apoio financeiro. A atriz Marieta Severo forneceu o principal apoio financeiro à produção. Depois veio a etapa mais difícil: coordenar dezenas de alunos e supervisores, além de buscar equipamentos emprestados, sempre que possível. “Fazemos cinema de verdade com câmera, lente, som, mas sempre correndo atrás. Nós não temos equipamentos na escola.” Para Dani, o trabalho revelou também algo sobre a própria atividade: poucos alunos quiseram trabalhar em produção. "Produção é ralação – é valioso, mas cansativo”, confidencia. A Academia já concluiu as filmagens de seu segundo curta, “Novo Retrato”, realizado pela turma seguinte da escola. Desta vez, sem patrocínio, foi preciso fazer uma vaquinha. “Recebemos muitas doações pequenas. Mas pequenas doações fazem filmes acontecerem”, diz a produtora. Rocinha como 'polo de cinema' Ao ser perguntado sobre o futuro da Academia, Marcos não hesita: “Hoje eu vejo a Rocinha como um polo de cinema. Um polo no sentido amplo, com espaço para produção, exibição, realização, escolas de cinema. E que isso reverbere em empregabilidade e qualidade de vida.” Ele lembra que a comunidade, com cerca de 200 mil habitantes, vive uma transformação profunda: passou o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar em números de visitação turística. “A Rocinha deixou de ser considerada a mais violenta para ser a mais visitada. Isso tem uma importância enorme", sublinha. A participação da Academia em Paris só foi possível graças a um financiamento vinculado ao Parque de Inovação Tecnológico, Ambiental e Social da Rocinha (PISTA), uma iniciativa com apoio da Faperj. Mas para que essa iniciativa cresça e possa proporcionar outras interações profissionais, a equipe da Rocinha precisa do apoio financeiro de empresários e instituições.   Marcos deixa um recado ao público e possíveis parceiros. “Por conta de um filme, olha quanta oportunidade profissional surgiu. Quantas vidas foram atravessadas. Existem muitas outras favelas no Brasil, muita gente criativa que precisa só de um espaço para se expressar. A Academia está nesse lugar.”

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  4. 6 DAYS AGO

    Cantora franco‑brasileira Gildaa lança primeiro disco guiado pela força da linhagem feminina

    A cantora franco‑brasileira Gildaa lançou neste mês de março, na França, o seu primeiro disco, um álbum que nasce diretamente do espetáculo híbrido que a revelou no Centro Cultural 104, em Paris, e que desde então vem lotando salas e se expandindo para além do palco. O trabalho reúne 12 faixas em português e francês, mantendo a dramaturgia que ela vem construindo desde os tempos em que foi estudante do Conservatório Nacional Superior de Arte Dramática de Paris. Musicalmente, o disco reúne samba, canção francesa, jazz latino, soul, R&B e ritmos afro‑brasileiros, e já vem sendo apresentado como “álbum do mês” nas lojas da Fnac. Segundo a artista, o repertório é o mesmo que foi apresentado no palco. “A ordem das músicas chegou sozinha, é essa e não vou mudar", conta. A abertura do álbum, “Mainha”, funciona como um verdadeiro rito de passagem: uma alma que pede licença para reentrar no mundo, afirmando que já esteve aqui, mas “sem se lembrar da regra do jogo”.  A ancestralidade brasileira é um dos pilares mais fortes do álbum. Em “Vela Velha”, dedicada à bisavó materna Teresa, Gildaa compõe num registro emocional imediato: “Eu estava sozinha em casa, uma vela começou a dançar e Teresa apareceu no meu pensamento. A música veio inteira”. Teresa, que ela nunca conheceu, aparece como guia invisível: “Acho que ela abriu um caminho para a gente e nos protege.” Questões espirituais atravessam o disco. Mas sobre sua relação pessoal com o candomblé, ela prefere preservar o silêncio: “É uma coisa minha, que eu não vou falar agora, não”. A família de músicos, especialmente a irmã Yndi, tem papel central na construção do álbum. “Ela realmente dirigiu o disco. A gente cresceu numa festa constante, no samba, na canja. A música sempre esteve ali”, diz.  'Uma entidade' Gildaa relembra seu percurso múltiplo: violino na infância, teatro na adolescência, dança, circo, composição e percussão. É nesse momento que deixa escapar sua identidade civil: “Meu nome é Camille, Camille Constantin da Silva. Mas Gildaa é essa entidade [um alter ego], essa personalidade que carrega nossa linhagem inteira”. Encruzilhadas e ciclos de renascimento também estão presentes na faixa inspirada em Perséfone, deusa da primavera e rainha do mundo dos mortos na mitologia grega, que Gildaa relaciona a Oiá, orixá do vento, das transformações e do movimento entre mundos. “Perséfone ajuda a entender esse momento entre a sombra e a luz, esse equilíbrio que tantas mulheres estão buscando hoje.” Dualidade cultural A recepção do público francês tem sido intensa e curiosa. Uma jornalista chegou a chamá‑la de “OVNI”, termo que também ouviu em sua primeira apresentação no Brasil, no ano passado. Ela não se incomoda. “Adorei. Significa só que a energia é diferente – e não é só a minha”. A dualidade cultural, diz, é sua força: “A Gildaa provoca uma queda de circuito. Obriga o público a parar e estar ali, naquele instante”. Em turnê pela França, com datas também na Bélgica e na Suíça, Gildaa se prepara para um dos shows mais importantes deste ciclo, na sala de espetáculos parisiense La Cigale, em 28 de maio. O retorno ao Brasil está nos planos. “Quero muito voltar. Só falta encontrar a melhor maneira de reunir o público”, afirma. Entre o espetáculo e o disco, ela já imagina o futuro: “Esse é só o primeiro de sete álbuns. Não sei se vou conseguir chegar lá, mas o gol é esse”.

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  5. 11 MAR

    'A fotografia me levou a lugares maravilhosos', diz a fotógrafa brasileira Isadora Tricerri em Paris

    Entre Brasil e Europa, a fotógrafa, filmmaker e diretora de fotografia Isadora Tricerri, 28 anos, constrói uma trajetória que combina pesquisa estética, projetos autorais, moda, retrato e cinema independente. Jovem, mas já com quase uma década de carreira, ela se afirma como um dos nomes sensíveis e inquietos de sua geração. Maria Paula Carvalho, da RFI No Instagram, a paulista sintetiza o resultado dessa jornada: “A Isadora de 10 anos atrás jamais imaginaria quantos sonhos seriam possíveis através da fotografia. E, acima de tudo, provar que é possível viver de arte. Não só viver. Viver e existir das formas mais lindas, loucas, inspiradoras e inesperadas.” A fotografia também surgiu como um espaço íntimo de elaboração emocional. “Eu tenho depressão, eu tenho ansiedade, então ela veio como uma forma de externalizar isso para o mundo através do meu olhar”, conta. “Fiz conexões incríveis, conheci pessoas que vou levar para a vida, fiz projetos que sou apaixonada e ela está me levando a lugares maravilhosos, inclusive Paris”, completa. Entre os trabalhos recentes, Isadora desenvolve um filme inspirado na obra de Marguerite Duras, dirigido por sua mãe, Christiane Tricerri, e protagonizado por Viviane Fuentes. Um trabalho que aborda o silêncio, imagem e a presença feminina, temas frequentes no seu olhar. “Eu atuo com fotografia e cinema desde 2016, já são quase dez anos de carreira”, explica. “O filme é uma homenagem à Marguerite Duras, sobre silêncio, fotos, memórias e o feminino no audiovisual. Está sendo um projeto muito especial”, disse em entrevista à RFI. Filmar em Paris, ao lado da mãe, tem uma dimensão afetiva profunda. “Eu venho de uma família de artistas, então sempre tive esse apoio. Estar aqui com a minha mãe, trazendo esse olhar feminino em conjunto, é magnífico.” Bastidores da moda Durante sua temporada em Paris, Isadora integrou a cobertura de 15 desfiles realizados no Palais Garnier, ao lado da renomada fotógrafa Celin May, para a Moda Productions. “Foi uma experiência incrível”, relembra. “Transitávamos entre backstage e passarela. Registramos não só o momento final, mas todo o processo. Fizemos imagens muito poéticas e uma revista de Nova York já publicou algumas das fotos”, comemora. A estética de Isadora nasce da fusão entre cinema e retrato. A luz natural, a atmosfera intimista e a composição narrativa são marcas constantes. “Meu estilo de foto vem muito do cinema. Eu sempre tento pensar a imagem estática para além dela mesma, trazendo movimento. E gosto de representar mulheres da forma como elas querem ser vistas. É sobre elas estarem confortáveis, e isso transparece”, continua. Ainda em Paris, Isadora Tricerri realizou uma série de retratos com o ex-jogador Raí, com styling de Marcela Pontara e Dione Occhipinti. “A experiência com o Raí foi excepcional”, diz. “Ele tem projetos sociais e culturais muito importantes. Ele falou que ninguém tinha conseguido registrar essa relação dele com Paris dessa forma. As fotos ficaram lindíssimas”, avalia. Olhares Delas: a força de uma rede feminina Em 2017, Isadora fundou o coletivo Olhares Delas, uma iniciativa que mapeia, divulga e conecta fotógrafas brasileiras. “Eu via fotógrafos homens se divulgando o tempo todo, mas não via isso entre mulheres”, conta. “Resolvi mapear essas fotógrafas espalhadas pelo Brasil. Hoje somos mais de 150 mulheres em um grupo de WhatsApp, fomentando eventos, exposições, encontros. Virou uma grande rede de apoio.” Para ela, o olhar feminino carrega experiências que atravessam a imagem. “O olhar feminino traz nossas vivências como mulher na sociedade. Quando vou fotografar outra mulher, já sei as inseguranças que ela tem. Estamos acostumadas a ver a fotografia por um olhar masculinizado, então trazer novas perspectivas é muito especial”, explica. Foto digital Embaixadora da fabricante de máquinas fotogróficas Canon, Isadora cresceu já inserida no universo digital, mas guarda carinho pela fotografia analógica. “Comecei a fotografar quando ganhei meu primeiro celular com câmera, em 2012. Adorava pensar em sombra e luz. Depois comprei minha primeira câmera, uma Canon T5, que uso até hoje”, lembra. “O mundo digital é muito imediatista, então às vezes a gente perde essa relação com o analógico. Eu sinto falta disso.” Entre filmes, editoriais, retratos, viagens e projetos independentes, Isadora Tricerri constrói uma obra guiada pela sensibilidade e pela força das imagens. O seu trabalho continua se expandindo entre Brasil e Europa e as múltiplas histórias que ela encontra pelo caminho.

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  6. 10 MAR

    "Avaliação de Petro é mais positiva do que se imaginava", diz cientista político sobre eleições na Colômbia

    A esquerda colombiana ligada ao presidente Gustavo Petro saiu fortalecida das eleições legislativas realizadas neste domingo (8). O Pacto Histórico ampliou sua presença no Congresso, tornando-se novamente a principal força política da Colômbia, enquanto o partido opositor Centro Democrático terminou em segundo lugar — mas viu seu fundador, o ex-presidente Álvaro Uribe, perder a cadeira pela primeira vez desde sua entrada na política nacional. Apesar do avanço governista, o novo Parlamento permanece profundamente fragmentado e dependerá de alianças para aprovar qualquer reforma. “O que vimos foi que a avaliação do governo é mais positiva do que se imaginava. O Pacto Histórico não apenas resistiu após quatro anos de Petro, como aumentou seu número de cadeiras”, afirma o cientista político Gaspard Estrada, membro da Unidade Sul Global da London School of Economics, de Londres. As projeções feitas após a votação e com mais de 95% das urnas apuradas indicam que, para o Senado, o Pacto Histórico alcançou 25 cadeiras, ou seja, cinco a mais do que no Congresso atual. O Centro Democrático surge como a segunda maior força política com 17 cadeiras, seguido do Partido Liberal, com 13, uma a menos do que na legislatura anterior. “A governabilidade vai continuar sendo complicada. Não é a primeira vez que a eleição legislativa na Colômbia tem um resultado de fragmentação partidária. Já é o caso hoje. O Congresso seguirá dividido. Tanto a esquerda quanto a direita, se vencerem a presidencial, terão de construir alianças para governar. A fragmentação não é novidade, mas deve se intensificar com a polarização”, avalia Estrada. O cientista político constata que o resultado das urnas refletiu de maneira até surpreendente a satisfação da população colombiana com o governo de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda do país. “Eu acho que a grande novidade política desta eleição é essa resiliência do Gustavo Petro e dos seus candidatos, quatro anos após sua chegada ao poder. Os resultados foram uma boa notícia para o Pacto Histórico, que demonstrou a força territorial dos candidatos governistas e um pouco da capacidade do Petro de transferir o seu prestígio pessoal aos aliados”, acrescentou. Primárias de partidos e coligações Nas eleições de domingo, além da renovação do Congresso para o período de 2026 a 2030, foram realizadas as primárias dos partidos e coligações que definiram Iván Cepeda, aliado de Petro, e a senadora Paloma Valencia, do Centro Democrático, como os principais nomes para a eleição presidencial de 31 de maio. Aliado de Petro, Iván Cepeda tem cerca de 30% das intenções de votos segundo as sondagens, mas terá pela frente uma adversária difícil, segundo Estrada. Com mais de 3 milhões de votos entre os candidatos de direita e de centro, a senadora Paloma Valencia sai reforçada da votação para a disputa da presidência da Colômbia. Apesar de assumidamente conservadora, Valencia não tem um discurso tão radical quanto o candidato da extrema direita Abelardo de la Espriella , conhecido como o “Milei colombiano.”  “Paloma Valencia emerge hoje como uma candidata muito mais competitiva na direita, com maior respaldo das elites tradicionais do que o nome outsider que vinha sendo testado”, explica Gaspard Estrada. Outro marco nas eleições deste domingo foi a derrota do ex-presidente Álvaro Uribe, que não conseguiu se eleger para o Senado. “É natural que, após 20 anos, haja uma fadiga em torno de sua figura. Mas isso não significa que o uribismo vai desaparecer. Suas ideias seguem presentes e sua influência estrutura boa parte da oposição”, conclui.

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  7. 5 MAR

    A língua como acolhimento ao imigrante: pesquisadora avalia desafios no Brasil e na Europa

    Para um imigrante que acaba de chegar a um novo país – muitas vezes em situação de crise, sem planejamento e sem domínio do idioma local –, a comunicação é o primeiro passo para sobreviver, acessar direitos e reconstruir a vida. No Brasil, essa necessidade deu origem ao conceito de “língua de acolhimento”, abordagem pedagógica voltada para as urgências práticas do recém-chegado. Em entrevista à RFI, a professora e pesquisadora Nukácia Araújo, da cátedra Sérgio Vieira de Mello, criada pela Unesco na Universidade Estadual do Ceará (UECE), explica os desafios que as cidades brasileiras enfrentam para facilitar a integração de imigrantes. Ela faz atualmente um pós‑doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3), onde acompanha iniciativas brasileiras e francesas de acolhimento linguístico.  Essa forma de ensinar o idioma do país receptor leva em consideração que quem chega em uma situação de crise não pode esperar por longos cursos tradicionais. Segundo Nukácia, a língua de acolhimento é, na verdade, uma forma de ensinar a língua para quem migra compulsoriamente e precisa dela para questões de urgência. "É uma maneira de ensinar voltada para a sobrevivência, para que a pessoa obtenha direitos básicos rapidamente." No Brasil, isso significa priorizar vocabulário prático e situações reais do cotidiano: tirar documentos, acessar o sistema de saúde, matricular filhos na escola, procurar emprego. O foco inicial são temas do dia a dia assim que se chega. São necessidades urgentes que determinam a permanência e a segurança dessas pessoas no país. A experiência brasileira e a crítica ao modelo português O conceito de língua de acolhimento chega ao Brasil por volta de 2012, importado de Portugal. Mas, para a pesquisadora, as realidades dos dois países diferem muito. "Em Portugal, a política linguística é de assimilação: há um certo apagamento da cultura e dos saberes do migrante para que ele se integre. No Brasil, criticamos esse modelo, apesar de usarmos o nome ‘língua de acolhimento’." Cidades como Brasília, São Paulo e capitais do Sul já desenvolviam ações anteriores ao aumento do fluxo migratório no Ceará, que se intensificou com a chegada de venezuelanos em 2017. As dificuldades, porém, se repetem em todos os estados: documentação, emprego, acesso a serviços públicos. "Sem o domínio mínimo da língua, a pessoa não tem como abrir uma conta no banco para receber auxílio, (...) não consegue explicar sintomas em um posto de saúde, (...) não passa por uma entrevista de trabalho. Essa dificuldade é a mesma no Brasil e aqui na França", observa a pesquisadora. Quando a língua de integração apaga a identidade Nukácia observa que o termo língua de acolhimento não existe na política pública francesa. O equivalente seria o ensino de língua de integração, que tem outro foco. "A integração, pelo próprio nome, pressupõe que eu preciso me tornar como um francês para estar nessa sociedade. Isso dificulta demais para quem chega, especialmente migrantes do mundo árabe, que não conhecem nem o alfabeto latino, diz a pesquisadora." O ensino de francês para estrangeiros prioriza estrutura, gramática e fonemas desde o início, o oposto do que propõe a abordagem brasileira. "Aqui, as questões gramaticais são extremamente importantes. Ensina-se francês escolar para quem precisa, primeiramente, de francês para viver", destaca a especialista. Multilinguismo como política pública Um dos pontos mais defendidos pela pesquisadora é o reconhecimento das diversas línguas presentes no processo migratório. "As múltiplas línguas das pessoas precisam ser consideradas no ensino e nos serviços públicos. Não podemos esperar que alguém resolva toda a sua documentação sem um mediador linguístico." Para ela, equipes multilíngues ou ao menos tradutores deveriam estar distribuídos em instituições que atendem migrantes, desde bancos até postos de saúde. Leia tambémAumento da demanda por apoio psicológico entre migrantes gera novas frentes em saúde mental Da França, Nukácia prepara publicações sobre o tema, ao lado do professor Leonardo Tonus, também da Sorbonne Nouvelle. Um dos estudos traz um título que resume bem as tensões presentes no ensino de línguas a imigrantes. "O artigo se chama ‘A língua que acolhe também é a língua que exclui’. Porque acolhe quando considero como o outro fala e sua história. Mas exclui quando não reconheço isso e torno tudo mais difícil porque a pessoa não sabe a língua", conclui a pesquisadora.

    9 min
  8. 4 MAR

    Diretor brasileiro Sérgio Tréfaut participa do Festival de Cinema Português de Paris

    O Festival Olá Paris! promove pelo segundo ano consecutivo a riqueza e a diversidade do cinema português contemporâneo. O evento acontece na tradicional sala de cinema Club de l’Étoile, ao lado do Arco do Triunfo, na capital francesa, de 6 a 8 de março. Entre os 7 longas selecionados está o premiado “Raiva”, do cineasta brasileiro Sérgio Tréfaut, filho de mãe francesa e pai português.  Sérgio Tréfaut nasceu no Brasil e se mudou para a França aos 10 anos com a família, que fugia da Ditadura Militar brasileira. Na juventude, foi para Portugal, onde começou a carreira como cineasta. Seu primeiro filme, o curta-metragem "Alcibíades", é de 1992. Em seguinda, não parou mais. Tréfaut dirigiu mais de 10 longas-metraggens, entre ficção e documentários. Entre eles, os premiados "Alentejo, Alentejo" (2014), "Treblinka" (2016), "Raiva" (2018) e "A Noiva" (2022). Em 2018, voltou a morar no Brasil e rodou seu primeiro filme no país natal, o documentário “Paraíso”, lançado em 2022. O festival Olá Paris! é uma boa oportunidade para constatar que, como o cinema brasileiro, a cinematografia portuguesa vive uma boa fase. Sérgio Tréfaut, que mora no Rio, vem a Paris para participar da sessão de “Raiva”, no sábado, 18 de março, e concedeu uma entrevista à RFI. O longa, rodado em preto e branco, é uma adaptação do romance “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca, um clássico do neorrealismo português. Apesar de ter sido lançado há oito anos, “Raiva” ainda rende convites e repercussão internacional, como prova a participação no Festival de Cinema Português de Paris. Por isso, a seleção junto com filmes recentes não surpreendeu Tréfaut. “O filme teve um peso gigante na cinematografia portuguesa. Ganhou todos os prêmios da academia quando foi lançado e marcou muito", ressalta. Ele lembra que o longa “criou um ator”, ao lançar Hugo Bentes, e conta com a participação icônica de Isabel Ruth. A força da história, da fotografia e a temática universal de "injustiça social" contribuiu para que o público de vários países se identificasse com a obra. “No Brasil fizeram paralelos com ‘Vidas Secas’, do Nelson Pereira dos Santos, também adaptado de um romance”, conta. Cinema político Sobre influências, o diretor observa que “Raiva” tem muitas referências, mas dialoga mais com o cinema soviético, do que com o Cinema Novo brasileiro, por exemplo. O neorrealismo está presente sobretudo pela adaptação literária. “A minha adaptação é muito seca, não tem idealismo. Fala de pobres e ricos, e da raiva de quem não consegue ultrapassar ciclos de injustiça”. Questionado sobre o caráter engajado de sua obra, Tréfaut concorda que seus "filmes são políticos" e "lutam por justiça", mas diz que não faz um cinema "militante". Ele relembra o impacto de “Lisboetas” (2004), que ajudou a impulsionar debates sobre imigração e chegou a ter pré-estreia no Parlamento português. O tema também está presente em “Viagem a Portugal”, baseado em um caso real de expulsão ilegal. Ao comentar a programação do Olá Paris!, o diretor afirma estar muito curioso" em assistir à maior parte desses novos filmes”. Ele ressalta "Ice Merchants", de João Gonzales, nomeado para o Oscar em 2023, na categoria de melhor curta de animação. O cineasta elogia a proposta do evento de tentar atrair um novo público para descobrir o cinema português. "Eu acho brilhante a estratégia de tirar o cinema português do seu nicho e levá-lo para um público mais alargado", afirma. Com “Raiva” coproduzido pela França, ele celebra a oportunidade de voltar a exibi-lo em Paris. Vitalidade do cinema português Como o Brasil, o cinema português vive uma excelente fase. Nos dois últimos festivais de Cannes, por exemplo, foi recompensado pelos excelentes “Grand Tour”, de Miguel Gomes, em 2024, e “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho, em 2025. No entanto, esse dinamismo não é tão badalado quanto o brasileiro.  Tréfaut avalia que o cinema de Portugal sempre ocupou um espaço particular no panorama internacional. Segundo ele, trata-se “de um cinema tradicionalmente de nicho, muitas vezes marcado por uma certa melancolia e, ao mesmo tempo, profundamente inovador”. Para o diretor, essa combinação faz com que a produção portuguesa seja artisticamente ousada, embora nem sempre voltada ao grande público. Ao comparar com o Brasil, o diretor destaca uma diferença estrutural decisiva. “O cinema brasileiro tem por trás uma máquina promocional gigante, que gasta tanto ou mais em promoção do que no próprio filme”, salienta. Essa força industrial, diz ele, explica em parte a visibilidade de diversas produções brasileiras no circuito internacional e nas grandes premiações. “Existem filmes fantásticos que chegam aos prêmios muito também por causa dessa máquina. Portugal não tem isso”, observa. Sobre o Oscar, cuja cerimônia acontece em 15 de março, Tréfaut está na torcida, ainda que com cautela. “Eu tenho muito carinho pelo ‘O Agente Secreto’. Adoraria que ganhasse. Não acredito que um filme valha por um prêmio, mas o prêmio reforça a importância do cinema brasileiro no mundo”. Focado no Brasil e na América Latina Radicado atualmente no Rio, o cineasta foca agora seus projetos na América Latina. Ele prepara “El Rio”, inspirado no romance "O General Em Seu Labirinto", de Gabriel García Márquez, sobre o fracasso do idealismo bolivariano: “É um filme sobre soberania e independência”. Também pesquisa um projeto sobre as Guianas, explorando o passado colonial da região, que foi "um laboratório do pensamento capitalista mais extremo no mundo”.

    14 min

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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