RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 1 DAY AGO

    Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França

    Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil”, da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L’Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul. Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado. Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende. Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje. RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente? Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung. A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados. RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou? O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas. Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil. RFI – Você foi a única jornalista brasileira a entrevistar longamente Paul Aussaresses, um dos principais teóricos e executores dessa doutrina, já no fim da vida. Como surgiu essa oportunidade e qual foi o peso desse testemunho para o livro? A primeira entrevista longa com ele foi publicada em 2008, na Folha de S.Paulo. Naquele momento, perguntei se estava disposto a continuar a dar entrevistas para um livro sobre a ditadura brasileira, a Guerra da Argélia e a influência da escola francesa na América do Sul. Ele aceitou. Fui várias vezes à Alsácia para entrevistá‑lo. Ele assinou uma autorização para transformar aquelas entrevistas em livro e nunca pediu para reler ou controlar nada do que eu escreveria. O testemunho dele foi central para compreender como a tortura se tornou uma política de Estado institucionalizada. RFI – E ele falava sem arrependimento. Pelo contrário, defendia o que fez. Exatamente. Ele assumia tudo, inclusive a tortura, e dizia que tudo foi feito pela França. Mesmo reconhecendo que todo aquele massacre foi inútil, porque a Argélia se tornou independente, não demonstrava nenhum arrependimento. Ele queria deixar registrada a versão dele dos fatos. RFI – Seu livro saiu no Brasil em 2016, foi traduzido e publicado na Argélia antes de chegar à França. O que explica essa demora francesa? Em um primeiro momento, apresentei o livro a dois ou três editores que me disseram que o público francês não tinha interesse em reabrir a ferida da Guerra da Argélia. Mas a França avançou muito nesse debate. Em 2018, o presidente Emmanuel Macron reconheceu, em entrevista a um jornalista argelino, que a colonização foi um crime contra a humanidade. Reconheceu também que a tortura, a morte e o desaparecimento do professor de matemática Maurice Audin, de 24 anos, na Argélia, foram crimes de Estado. Em setembro de 2018, Macron pediu perdão à viúva de Audin. Foi um ato de grande coragem política, uma evolução formidável na maneira como a França passou a olhar para o seu passado colonial. Macron teve a coragem que François Hollande não teve, nem Nicolas Sarkozy, nem mesmo François Mitterrand [ex‑presidentes franceses]. Os historiadores cobram isso: que a França encare o seu passado colonial com coragem e faça uma revisão histórica, reconhecendo que esse passado é uma vergonha, uma mancha na história francesa. RFI – Seu livro é mais um tijolo na construção dessa consciência e também permite aos franceses saber o que aconteceu durante a ditadura brasileira. O que mais me surpreendeu foi que os franceses mantiveram na capa do livro o mesmo título e subtítulo da edição brasileira, o que é bastante forte: “Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado”. É um ato de coragem da editora L’Harmattan. RFI – No Brasil de hoje, em ano eleitoral, o papel político dos militares voltou ao centro do debate. Que riscos essas histórias não resolvidas ainda representam para a democracia? A anistia perdoou crimes e criminosos, e isso nunca foi revisto. Isso faz com que os militares queiram sempre voltar a comandar ou a dar as cartas na história do Brasil, o que é inaceitável. Tivemos uma tentativa de golpe em 2022 e já se fala novamente em anistia. Ao mesmo tempo, há uma evolução na sociedade brasileira. Cresce a compreensão de que a interferência militar no poder civil é inaceitável.

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  2. 1 DAY AGO

    Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral

    A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem “Elefantes na Névoa”, selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo. No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com “O Riso e a Faca”, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, “O Riso e a Faca” inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro. Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: “É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente”, afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético. É nesse contexto que se insere “Elefantes na Névoa”, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. O filme é uma coprodução de Tatiana Leite, pela Bubbles Project, e de Leonardo Mecchi, pela Enquadramento Produções, em parceria com produtoras do Nepal, Alemanha, França e Noruega. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. No Brasil, o longa será distribuído pela Imovision. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas. A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos e sociais, além dos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. “Elefantes na Névoa” marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas‑metragens, após uma trajetória que inclui dois curtas e a escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais. “O Riso e a Faca”: chegada ao Brasil Enquanto “Elefantes na Névoa” se prepara para sua première mundial, “O Riso e a Faca” ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo. A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens. Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. “Na verdade, é um filme que te arrebata”, observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, “essas três horas e meia passam totalmente fluidas”, acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso. Produzir entre países, culturas e modos de fazer Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. “É tão desafiador quanto genial”, resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada país participante. Festivais como Cannes, Berlim, Roterdã e Locarno surgem, nesse percurso, como espaços estratégicos de encontro, onde equipes dispersas ao longo do ano conseguem se reunir para discutir projetos em andamento e definir caminhos comuns. Para a produtora, esse trabalho coletivo, muitas vezes comparável a um grande quebra‑cabeça, é também o que dá densidade humana e artística aos filmes. Ao olhar para o cinema brasileiro contemporâneo, Tatiana reconhece avanços importantes na democratização e na regionalização da produção, com o surgimento de novos realizadores em distintas regiões do país. Ao mesmo tempo, aponta as dificuldades persistentes no financiamento de longas‑metragens. Ainda assim, segue apostando em projetos que, segundo ela, tenham uma contribuição singular para o cinema. “Busco filmes que não sejam apenas vistos e esquecidos, mas que permaneçam com as pessoas”, afirma. Novos filmes O horizonte da Bubbles Project permanece marcado pela diversidade de territórios e pela aposta em autores singulares. Entre os projetos em desenvolvimento, Tatiana Leite prepara uma produção inicialmente portuguesa, baseada em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, em parceria com a brasileira Matizar Filmes e coproduções com França, Itália e Holanda. Dirigido por Miguel Gomes, o filme será rodado em Canudos, cenário central da obra. A produtora também está envolvida em um novo longa do cineasta argentino Benjamín Naishtat, diretor de “Puan”, que será filmado em Buenos Aires, em coprodução entre Brasil, Argentina e França. Completam a lista um primeiro longa‑metragem venezuelano, “Meninos Banhando‑se no Lago”, ambientado na região de Maracaibo e coproduzido com Brasil, França, Alemanha e Chile, além de projetos documentais híbridos, como “Debaixo do Embondeiro”, da cineasta pernambucana Valentina Homem, com filmagens em Moçambique, e um novo filme de Jean da Costa, também em regime de coprodução entre Brasil e França.

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  3. 4 DAYS AGO

    Brasilidade em alta: entenda o que o neuromarketing revela sobre o apelo cultural do Brasil

    Ferramentas de neuromarketing, cada vez mais utilizadas por empresas ao redor do mundo, ajudam a compreender o que motiva decisões de compra – muitas vezes, antes mesmo que as pessoas se deem conta disso. A análise é da pesquisadora brasileira Marina Travassos, especialista em comportamento e tomada de decisão. Em entrevista à RFI, ela explica por que o Brasil voltou ao centro das atenções e como a chamada brasilidade se transforma em um poderoso motor de desejo. Maria Paula Carvalho, da RFI Baseada em Paris e atuando em projetos na Europa e nas Américas, Marina construiu uma trajetória que passou pelo marketing e pelo cinema até chegar à aplicação de ferramentas de neuromarketing, um campo ainda pouco conhecido fora dos meios especializados. “É uma área um pouco fantasma, que fica por trás das inovações, antes da comunicação, antes mesmo de se criar uma publicidade ou um produto”, explica. O neuromarketing busca compreender como fatores conscientes e inconscientes influenciam decisões, combinando conhecimentos de neurociência, antropologia e metodologias quantitativas de pesquisa. O objetivo, diz a pesquisadora, é ajudar marcas e empresas a ajustarem produtos, mensagens e experiências. “Essa é uma área que procura entender o comportamento das pessoas e o consumo para ajudar empresas a direcionarem melhor suas estratégias.” O trabalho é voltado majoritariamente para o universo corporativo, mas Marina também participa de estudos que buscam ampliar o conhecimento do público em geral sobre o tema. Para ela, entender o processo decisório exige olhar além do indivíduo. “O comportamento é influenciado por muitas coisas: o ambiente onde a pessoa vive, a cultura, a forma como ela aprendeu determinado assunto. É uma área que mistura muita coisa”, afirma. Brasilidade: uma tendência  Nesse processo, a observação de padrões é central. Ao conversar com diferentes públicos, certas respostas tendem a se repetir, o que pode indicar tendências emergentes. “Quando você começa a ouvir a mesma resposta várias vezes, percebe que há algo ali que precisa ser entendido”, diz. Um exemplo recente chamou a atenção da pesquisadora: a crescente presença do Brasil no consumo simbólico e cultural. Sem partir inicialmente de um estudo formal, Marina percebeu sinais recorrentes ao viajar pelo país e conversar com amigos estrangeiros. “Passei pelo aeroporto de Guarulhos e fiquei impressionada com a quantidade de souvenirs brasileiros, perfumes de marcas nacionais. Antes, era um espaço dominado por marcas internacionais”, relata. O fenômeno também se manifesta no entretenimento. Para Marina, a presença recente do Brasil em grandes premiações internacionais como o Oscar e a circulação de memes brasileiros no exterior fazem parte de um movimento mais amplo. “Há um deslocamento do eixo tradicional Europa–Estados Unidos para expressões culturais mais periféricas, como o K‑pop ou a latinidade levada ao mundo por artistas como Bad Bunny”, observa. Na análise micro, ligada à neurociência, a pesquisadora aponta um elemento-chave da atratividade brasileira: a combinação entre o familiar e o inesperado. “Tudo que é familiar é fácil para o cérebro, porque não gasta energia. Mas o inesperado chama a atenção, ativa um sistema de alerta”, explica. Para ela, o Brasil reúne essas duas dimensões graças à sua história de misturas culturais. Marina cita a pizza brasileira como exemplo dessa lógica. “A gente pega uma referência de fora e mistura com elementos locais, como a borda recheada de catupiry. Não existe na Itália, mas é a pizza brasileira. Eu chamo isso de inovação à la brasileira.” Como toda tendência, ela acredita que o movimento tem um ciclo. “Toda tendência tem um tempo para acabar. Acho que ainda estamos no pico e espero que dure mais alguns anos”, diz. Do ponto de vista do consumidor, a pesquisadora defende mais atenção ao próprio estado emocional antes de uma compra. “Vale se perguntar: como eu estou agora? Irritado, carente, feliz? Será que essa compra faz sentido nesse estado emocional?”, sugere. Estudos mostram que fatores ambientais influenciam decisões sem que as pessoas percebam. Marina cita pesquisas em lojas de vinho que relacionam música ambiente e vendas. “Quando tocava música italiana, vendia mais vinho italiano; música francesa, vinho francês. As pessoas diziam que não eram influenciadas, mas eram.” O mesmo vale para aromas. “Algumas lojas têm um cheiro específico. Aquilo foi pensado para despertar memórias”, afirma. Segundo ela, a memória olfativa é uma das mais primitivas e emocionalmente potentes. “O ambiente – a música, o cheiro, a iluminação – influencia muito mais do que a gente imagina.”

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  4. 5 DAYS AGO

    Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance

    Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d’être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte. A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação. Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. “Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo”, explica. “Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia”, afirma Juliana em entrevista à RFI.  Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. “É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual”, explica. As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse. “Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação”, detalha.  Observação das atletas nos Jogos Paris 2024 À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma.  O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje “teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta”: “Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo”, relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura. Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo – no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: “Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta”. Conhecimento e empoderamento  Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. “Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina”, descreve.  Para Juliana Antero, escutar o ciclo menstrual é uma forma concreta de empoderamento. “Significa entender que não funcionamos de maneira linear, mas cíclica, e aprender a tirar proveito dessa ciclicidade para gerenciar a própria saúde e o bem-estar”.  Por enquanto, ‘Votre Cycle Menstruel Mérite d’être Écouté’  está disponível apenas em francês. Segundo a autora, há uma tradução avançada para o chinês em andamento e outras propostas. Apesar do desejo de ver uma versão do seu livro em sua língua materna, ainda não há previsão de adaptação para o português. “As brasileiras querem cada vez mais entender o que acontece com seus corpos e melhorar a saúde”, afirma Juliana Antero.

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  5. 6 DAYS AGO

    Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil

    Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira. O livro “Estereótipos em cena” (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro. Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. “Stereos vem do grego ‘rígido’, ‘sólido’, e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa”, explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. “São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa”, resume. Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. “Quando a gente diz ‘o Brasil é o país do futebol’, independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa”, exemplifica. Estereótipo como sintoma social No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social. “Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos”, afirma. Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. “Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade”, observa. Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos. “As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos”, aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito. O que os estereótipos dizem sobre nós Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. “Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos”, diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil. “Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz ‘não sou racista’, mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no ‘não foi o que eu quis dizer’”. Para a pesquisadora, esses lapsos – que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos – revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. “O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade”, afirma. Falar a partir da branquitude Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. “A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo”, explica. A autora relaciona essa posição ao que chama de capital simbólico da branquitude, algo vivido desde a infância. “Eu venho de uma família pobre, mas havia um orgulho de ser branco, de ter olhos claros. Mesmo sem dinheiro, isso fazia com que se passasse por certos lugares quase sem questionamentos”, relata. Questionar esse privilégio costuma gerar resistência, acrescenta. “Algumas pessoas têm a sensação de que, ao mover essas ideias, vão perder algo, mesmo que isso não apareça de forma consciente”. Escuta e diálogo  O livro não oferece respostas prontas, mas aposta na escuta e no diálogo. A proposta, segundo Feré, é abrir espaço para outras vozes questionarem posições rígidas e ampliar o nível de consciência sobre a realidade do outro. Nesse sentido, “Estereótipos em cena” reúne textos de intelectuais, professores, poetas e artistas que abordam temas como gênero, envelhecimento, periferias e expressões culturais como o rap e o funk: “São vozes que ampliam o debate e ajudam a imaginar outras formas de relação”, conclui a autora.

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  6. 30 APR

    Acordo UE‑Mercosul: desafio é transformar oportunidades em negócios, diz Tatiana Prazeres

    Após 25 anos de negociações, começa a valer neste 1° de maio o Acordo Comercial entre Mercosul e União Europeia, o maior já firmado tanto pelo bloco sul‑americano quanto pelo Brasil. O pacto envolve 31 países, com um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões e um mercado potencial de mais de 720 milhões de consumidores.  A partir da entrada em vigor do tratado, nesta sexta-feira, mais de 10 mil produtos deixam de pagar tarifas de importação ou ganham vantagens, de ambos os lados. Segundo a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres, o acordo começa a produzir efeitos desde o primeiro dia de aplicação provisória. “O efeito imediato do acordo é a eliminação de imposto de importação do lado do Mercosul para um grupo de produtos e a eliminação do imposto de importação na UE para um universo maior de produtos que são originários do Mercosul”, explicou. Para o consumidor final, o acordo não altera as regras de importação de pequenos pacotes. “O regime da importação por pequenos pacotes não se altera com o acordo do Mercosul‑UE”, esclareceu Prazeres. Além da redução tarifária imediata, Prazeres destaca que outros dispositivos entram em funcionamento simultaneamente, criando uma base mais ampla de integração. “Uma série de outros dispositivos passam a vigorar, fortalecendo o relacionamento entre as duas regiões, promovendo investimentos, comércio, cooperação, integração”, afirmou. A Comissão Europeia também comemora este marco.  Sistemas preparados para o novo fluxo Para garantir a aplicação efetiva do acordo, Brasil e União Europeia avançaram na adaptação dos sistemas aduaneiros. Segundo a secretária, embora a redução do imposto de importação seja o aspecto mais visível, não é o único. Há também ajustes técnicos para possibilitar o uso de cotas negociadas. Essas medidas buscam assegurar que empresas do Mercosul consigam acessar, de fato, as vantagens previstas. “Outras medidas estão sendo adaptadas, como por exemplo, medidas para implementar cotas, ou seja, como garantir que o importador brasileiro ou de um sócio do Mercosul possa de fato usufruir do benefício da cota”, explicou. Apoio setorial e proteção aos segmentos sensíveis No Brasil, o acordo conta com amplo apoio de setores estratégicos da economia. A secretária ressalta que tanto a indústria quanto o agronegócio se manifestaram favoravelmente ao pacto, incluindo entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Há respaldo também de associações de diferentes ramos, como calçados, móveis e produtos químicos. Para Prazeres, esse apoio é resultado dos cuidados adotados ao longo das negociações. “O governo brasileiro tomou uma série de cuidados para levar em conta as sensibilidades da indústria brasileira, do agro‑brasileiro, de maneira que essa abertura, essa exposição à concorrência europeia vai ser calibrada, vai se dar ao longo do tempo”, afirmou. O acordo prevê instrumentos de proteção para setores mais vulneráveis. “Há mecanismos de salvaguarda para responder algumas dificuldades que os setores eventualmente venham a ter”, destaca Tatiana Prazeres, ressaltando que o objetivo é permitir uma adaptação gradual à concorrência. Ainda assim, a avaliação do governo é amplamente positiva quanto aos efeitos do tratado. Produtividade, consumo e inserção internacional “Estamos convencidos de que é um acordo altamente favorável ao Brasil […] que vai contribuir para obter a inserção externa do país, o aumento da produtividade no Brasil”, declarou a secretária. O acesso a tecnologias e insumos mais baratos é apontado como um dos ganhos centrais. O consumidor também tende a ser beneficiado, com maior oferta de produtos a preços mais competitivos. Ao mesmo tempo, o desenho do tratado levou em consideração setores que precisarão se adaptar a um cenário de concorrência ampliada. “O acordo foi planejado de maneira a que se levassem em conta setores que eventualmente precisarão concorrer com produtos europeus”, explicou. A secretária de Comércio Exterior lembra ainda que o mercado europeu já ocupa posição central na balança comercial brasileira. “É o segundo destino das nossas exportações, a segunda origem das nossas importações. Há investimentos históricos de um lado e de outro e oportunidades ainda a serem exploradas”, disse. Implementação e desafios iniciais Apesar da complexidade do acordo, equipes técnicas trabalham para assegurar que os dispositivos entrem em vigor sem sobressaltos. “Os governos dos quatro sócios, e também do lado europeu, estão trabalhando de maneira intensa para garantir que haja, de fato, a implementação plena dos dispositivos”, explicou Tatiana Prazeres. Ajustes pontuais poderão ser feitos, se necessário, na fase inicial. “É um acordo inédito para o Brasil e para o Mercosul. Trata‑se do principal acordo comercial desde a criação do Mercosul”, enfatiza. Energia, transição verde e novas oportunidades Questionada se o pacto com os europeus poderia funcionar como alternativa diante de eventuais perdas no comércio com os Estados Unidos, em um momento em que o Brasil ainda renegocia sua relação bilateral com Washington, marcada por altos e baixos e pelo risco de novas taxações ou penalidades, ela destacou: “O acordo contribui para que o Brasil diversifique seus parceiros e fortaleça vínculos comerciais baseados em regras, investimentos, fluxos de tecnologia e integração produtiva”. Essa diversificação amplia o leque de possibilidades para empresas brasileiras, ainda que os efeitos concretos dependam de cada setor e de cada perfil exportador. “Pode contribuir para que exportadores brasileiros que eventualmente tenham dificuldade em um ou outro mercado possam encontrar no mercado europeu uma alternativa para suas exportações”, disse, destacando que essa avaliação deve ser feita caso a caso, conforme as características de cada cadeia produtiva. No contexto geopolítico atual, marcado por uma crise sem precedentes no Oriente Médio, pela alta de preços do petróleo e um questionamento global sobre a dependência de combustíveis fósseis, o tratado cria condições mais favoráveis à cooperação no setor de energia. Ela cita, entre os exemplos concretos, o acesso do etanol brasileiro ao mercado europeu. “O etanol do Brasil terá acesso favorecido ao mercado europeu a partir da entrada em vigor do acordo”, dentro dos limites negociados. Mas o alcance vai além. “O que nos interessa são parcerias que podem ser desenvolvidas a partir deste momento em que o mundo está exposto […] aos desafios do acesso à energia”, afirmou. A elevada participação de fontes renováveis na matriz energética do Mercosul é vista como diferencial competitivo. “O Mercosul é uma região que tem uma matriz energética e elétrica renovável, num percentual muito elevado”, destacou, associando esse perfil à possibilidade de uma produção com menor pegada de carbono. “É uma oportunidade para uma inserção do Brasil na economia global, como talvez nunca vista antes”, conclui Tatiana Prazeres.

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  7. 29 APR

    Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa

    A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis". Luiza Ramos, da RFI em Paris A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora. "O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz. O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas. Identidade Indígena e o direito à cidade Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua. "Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá. "Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora. Desafios da tradução para o francês A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa. "Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que implicam uma inferioridade. Então aqui politicamente a gente adotou como palavra autochtone e peuple, para reconhecer a soberania plurinacional e também uma forma mais respeitosa de se referir a eles", explica Trudruá Dorrico. Em Paris, Trudruá Dorrico também assina a curadoria da exposição 'Passeurs' no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, em cartaz até 18 de julho. A mostra propõe um diálogo sensível entre artistas indígenas contemporâneos e a relação com a natureza. Ao convidar o público a reconhecer as cosmovisões indígenas como saberes vivos, a curadoria de Trudruá articula memória ancestral e presente histórico, afirmando territórios, existências e lutas no campo das artes. Dia 19 de maio, em função da divulgação de seu livro na versão em francês, a autora participa de um encontro literário na livraria feminista Un Livre et Une Tasse de Thé, no 10° distrito de Paris. Já no dia 30 maio, ela e outros autores estarão na Maison de l’Amérique Latine, em uma mesa redonda dedicada à literatura latino-americana. Todas as informações estão disponíveis no Instagram de Trudruá Dorrico.

    6 min
  8. 27 APR

    'Carnaval é política', diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí

    O documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”, dirigido por Saullo Farias Vasconcelos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro. “O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro”: diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcelos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de “o Carnaval Popular do Rio”. Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco. Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de “griô” (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. “Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado”, afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. “Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela”, diz. Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. “Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até”, conta. A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. “Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação”, diz. Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. “O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa”, observa. Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. “Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba”, diz. Aumento dos feminicídios no Brasil No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. “Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades”, declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista.   “Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. “Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: ‘meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão’”, relembra. “Depois que acabou a sessão [no festival], várias mulheres vinham falar comigo e com ela, agradecendo a fala dela e também a denúncia. O percurso de Maria Moura sempre foi de denúncia. Ela nunca foi de ficar calada. Ela mesmo diz que só chegou até aqui porque teve que falar muito, teve que insistir muito no que queria, porque senão ela não ia conseguir conquistar o que conquistou”, aponta. Segundo Saullo, o filme fará sua estreia no Brasil em outubro, no Festival do Rio. O diretor também inscreveu o documentário em outros festivais, como o de Biarritz, no sudoeste da França, e no de Xangai, na China. “Eu gostaria muito de levar o filme para lá, porque acho que é um país muito interessante dentro da tradição, principalmente do carnaval. Eles dialogam muito com a gente e acho que eles vão se reconhecer um pouco na nossa tradição”, diz. Associação La Terreirada Saullo também é o fundador da associação La Terreirada, em Paris. O espaço promove a cultura brasileira e acolhe artistas vindos do Brasil. Na programação do local, está um evento dedicado ao Super 8 em 24 de maio, com a presença do cineasta pernambucano Ivan Cordeiro. Em 27 de junho, a Terreirada acolhe uma festa junina. Nos dias 11 e 12 de julho, a associação promoverá um festival de verão, com a previsão de projetar, durante o evento, “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”.

    20 min

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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