Um Género de Conversa

Este podcast é sobre mulheres. Não é vedado aos homens mas, insistimos, é sobre as mulheres. Uma hora de conversa entre mulheres, sobre mulheres, para mulheres. Os homens que calharem a ouvir são capazes de beneficiar com isso. Pelo menos elas acham que sim. Uma é a Patrícia Reis, a outra a Paula Cosme Pinto, e são elas as anfitriãs deste lugar de fala feminino.

  1. 6日前

    Lúcia Vicente: “É mais eficaz ter mulheres a convencer outras mulheres a perderem direitos”

    Durante décadas, o feminismo procurou ampliar a liberdade, os direitos e as oportunidades das mulheres. Hoje, porém, cresce um movimento que o aponta como responsável por muitos dos males da sociedade. E não são apenas os gurus da machosfera a fazê-lo. Como alerta a historiadora Lúcia Vicente, também há mulheres que defendem um regresso aos papéis tradicionais de género. Sob a bandeira das tradwives, promovem a submissão feminina, a dependência económica e a esfera doméstica como caminho privilegiado para a felicidade. Tradwives, redpill, machosfera, feminismo reaccionário ou gurus digitais deixaram de ser simples chavões da internet para se tornarem movimentos com influência crescente sobre a forma como milhares de jovens olham para as mulheres, os homens e a própria democracia. Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Lúcia Vicente, autora de Portuguesas com M Grande e Feminismo de A a Ser, traça o retrato de um universo que cresce à velocidade dos algoritmos. “Temos mesmo de ensinar as pessoas mais novas a questionar o mundo e as consequências destas ideias na vida dos outros”, defende. Ao longo de 50 minutos de conversa, a investigadora explica como estes movimentos exploram inseguranças e recuperam discursos antigos, revestindo-os de uma estética apelativa e de uma linguagem aparentemente moderna. “É o regresso do grande macho, de uma masculinidade performativa, exagerada, violenta, profundamente ligada ao antifeminismo e à misoginia”, afirma, preferindo o termo “machosfera” a “manosfera”. A preocupação, contudo, não se limita aos rapazes. Lúcia Vicente alerta para comunidades dirigidas às mulheres, como as tradwives, que promovem o regresso aos papéis tradicionais de género e apresentam a submissão feminina, o papel exclusivo de cuidadora e os valores cristãos como caminhos para a felicidade. “O patriarcado percebeu que a forma mais eficaz de convencer as mulheres a abdicar de direitos era utilizar outras mulheres para lhes dizer que isso era bom para elas”, ressalva. Tal como na machosfera, também aqui o feminismo surge como a causa de todos os males: a liberdade sexual feminina é um problema, assim como a visão interseccional da sociedade, cuja suposta “ordem natural” das responsabilidades de homens e de mulheres tem de ser reposta. A estratégia parece funcionar, como mostram conteúdos crescentes nas redes sociais em que jovens mulheres de 18 anos expõem as suas vidas após as abandonarem para casar, ter filhos e depender financeiramente dos maridos, a quem estão, inclusive, dispostas a ceder o seu direito ao voto. Um fenómeno alimentado por influenciadoras conservadoras, amiúde ligadas a partidos de extrema-direita e movimentos religiosos, que, apesar de defenderem a submissão feminina, construíram negócios milionários que lhes garantem autonomia e poder. Para contrariar estas “narrativas manipuladoras”, a historiadora defende que o feminismo deve envolver também os homens. “Se o patriarcado tem no homem o seu maior aliado, por que razão não estamos também a educar homens para serem feministas e para desconstruírem o privilégio?”, questiona. A reflexão estende-se à influência dos algoritmos, à captação de adolescentes por discursos extremistas e à necessidade urgente de capacitar pais, professores e educadores para reconhecer estes fenómenos. "Primeiro, temos de educar quem educa. Pais, mães, professores e avós precisam de conhecer esta linguagem, estes símbolos e estes movimentos. Só assim conseguirão reconhecer os sinais”, explica a escritora. "As crianças já não brincam na rua, porque achamos que é perigoso, mas depois deixamos que passem horas a conversar com desconhecidos através dos jogos online. É aí que também precisamos estar atentos." See omnystudio.com/listener for privacy information.

  2. 8月19日

    Marta Crawford: “O tão glorioso pénis tem muito menos prazer do que o clítoris”

    Já passaram mais de 20 anos desde que Marta Crawford entrou na casa dos portugueses, em horário nobre, para falar de temas que faziam corar muita gente — e que talvez ainda hoje deixem alguns desconfortáveis. As redes sociais ainda não faziam parte do nosso dia-a-dia, e ver uma mulher em directo na televisão a responder, com naturalidade, a perguntas sobre sexo oral, métodos contraceptivos ou disfunção eréctil tinha tudo para ser um escândalo. Mas a sexóloga conseguiu fazê-lo como poucos: com boa disposição e seriedade, tal como se apresentou neste episódio do podcast Um Género de Conversa.  Psicóloga e terapeuta familiar, conhece como poucos os medos, os preconceitos e a falta de literacia que ainda rodeiam a sexualidade, mesmo nas gerações mais novas. “Ainda há muito pudor quanto ao prazer, independentemente da idade. Mesmo os jovens, que imaginamos que têm mais liberdade e acesso à informação, às vezes têm uma mentalidade mais retrógrada do que a minha avó. Aceitar fazer sexo sem vontade é um exemplo, como se fosse uma função da relação”, conta Marta Crawford. Nestes 50 minutos de conversa, a especialista explica que ainda há uma necessidade de corresponder a um padrão masculino em que “o prazer está centrado na penetração, num vai e vem que dá a maior das satisfações sexuais às mulheres”. Porém, desconstrói esse mito: “Não é de todo assim, o clítoris é que é uma super-heroína, tem mais de 10 mil terminações nervosas. Deve fazer parte de todo o jogo erótico e sexual, e não é um jeitinho que se dá, porque a mulher, coitadinha, precisa. É porque é uma fonte fundamental de prazer feminino.” A sexóloga aborda também alguns dos principais desafios do presente, desde “os problemas de performance” provocados pela pornografia, “que é a nova educação sexual”, até uma generalizada “crise profunda” da intimidade: “Essa partilha, essa honestidade estão cada vez mais difíceis. Os casais não conseguem comunicar.” Já sobre a pressão que ainda recai em tantas mulheres para voltarem à actividade sexual após o nascimento de um bebé, tantas vezes alimentada também pelos próprios profissionais de saúde, Marta Crawford é peremptória: “Dizer a alguém ‘tem de ir ao castigo’ é uma violência. Sexo sem disponibilidade mental não faz sentido”, frisa a sexóloga. “Em encontros com ginecologistas e obstetras, digo muitas vezes: ‘Vocês são responsáveis pela consulta após um mês do parto e por dizerem 'agora já podem ter sexo. E essa é a pior mensagem que podem passar. Digam antes: faça-o apenas quando se sentir preparada e comece com calma, nada muito exigente sexualmente’.” See omnystudio.com/listener for privacy information.

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Este podcast é sobre mulheres. Não é vedado aos homens mas, insistimos, é sobre as mulheres. Uma hora de conversa entre mulheres, sobre mulheres, para mulheres. Os homens que calharem a ouvir são capazes de beneficiar com isso. Pelo menos elas acham que sim. Uma é a Patrícia Reis, a outra a Paula Cosme Pinto, e são elas as anfitriãs deste lugar de fala feminino.

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