Uma estreia, uma memória, um desaparecimento — tragicamente, e misteriosamente, ligados neste episódio. Valor Sentimental, do norueguês Joachin Trier, que chegou às salas portuguesas, é o "filme europeu do ano", segundo os prémios da Academia Europeia de Cinema. Chegará aos Óscares com nove nomeações. Valor simbólico, tem-no: com o seu arcaboiço memorialista, pendor reflexivo sobre o cinema, encarrega-se de personagens e temas que o cinema europeu em tempos fez seus até com vantagem sobre o cinema norte-americano — Ingmar Bergman, evidentemente... Foi numa época em que os filmes eram operações de prestígio visitadas por um público adulto, ardente e (mais) temerário. Para resumir: os grandes planos dos rostos, aqui de Stellan Skarsgaard, Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, premiados e nomeados a prémios, voltam a ser eleitos, reeleitos, pelo ecrã. "Quando as pessoas dizem 'isto lembra-me Persona', 'isto lembra-me Fanny e Alexander'" — isto é, quis dizer Joachin Trier na entrevista que deu ao Ípsilon, quando as pessoas dizem que Valor Sentimental lhes lembra Bergman — "tomo isso como um elogio. Não quis roubar, não quis imitar, mas falemos disso então. Até porque na Noruega há muitos jovens que nunca ouviram falar de Ingmar Bergman. Que sortudo sou por ele ter existido. Bergman foi muito importante para Woody Allen. E a forma como Woody Allen lidou com essa presença, em filmes de uma enorme profundidade, é muito importante para mim". Falamos, então, de Ingmar Bergman neste episódio. De Sonata de Outono (1978), o título que juntou na Noruega os dois Bergman mais famosos da Suécia, Ingmar e Ingrid. História também, como em Valor Sentimental, do sentimento de abandono de uma filha. Mas vejam só: Sonata de Outono era um filme de cabeceira de João Canijo, que o terá inspirado para o díptico Mal Viver/Viver Mal. Canijo: o realizador português que desapareceu, aos 68 anos, a semana passada; Canijo: o cineasta português contemporâneo que foi colocado ou se colocou mais à margem — sendo o seu cinema vocacionado esplendidamente para o centro; o mais incompreendido, nunca hesitou em incomodar. Uma hipótese para esta relação complexa: ao contrário da era em que Bergman se tornou um cineasta do mainstream, o espectador de hoje vai em busca de epifanias e tem medo de se magoar. Oiça a conversa em No Escuro. É um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes. Vamos falar de cinema? Sim, e vamos falar de outras coisas também. See omnystudio.com/listener for privacy information.