Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

  1. hace 1 día

    Maior exposição de grafite e arte urbana do mundo apresenta em Paris 50 anos de contracultura

    Nascido nos vagões do metrô nova-iorquino e durante décadas associado à ilegalidade, o grafite ocupa hoje museus, galerias e grandes exposições internacionais sem abandonar o debate sobre suas origens. Em cartaz até 23 de agosto na Grande Halle de La Villette, em Paris, Beyond the Streets reúne mais de cem artistas e cinco décadas de produção para mostrar como uma prática marginal transformou a arte contemporânea, influenciou a música, a moda, o design e a cultura visual em escala global.   Márcia Bechara, da RFI em Paris De um lado, vagões de metrô cobertos por assinaturas feitas às pressas durante a madrugada. De outro, instalações monumentais, obras preservadas em coleções e artistas expostos em instituições culturais de prestígio. Poucas formas de expressão percorreram um caminho tão improvável quanto o grafite. É justamente essa transformação que a exposição Beyond the Streets propõe investigar na Grande Halle de La Villette, onde mais de cem artistas ocupam 3.600 metros quadrados com obras, fotografias, documentos raros, esculturas e ambientes imersivos dedicados à história das culturas urbanas. Apresentada anteriormente em Los Angeles, Nova York, Londres e Xangai, a mostra chega pela primeira vez à capital francesa sob a curadoria de Roger Gastman, um dos principais historiadores do grafite nos Estados Unidos. A edição parisiense foi concebida como uma homenagem à relação singular da cidade com a arte urbana, sem perder de vista a ambição de traçar uma narrativa internacional desse movimento que atravessou fronteiras e influenciou diferentes campos da produção cultural. Para Gastman, Paris nunca foi apenas mais uma parada na circulação internacional da exposição.“Queríamos vir para Paris desde a primeira edição da mostra, em Los Angeles. É uma cidade central para a história da arte urbana e para a história da arte na Europa de forma geral.” Leia tambémStreet art conquista museus e galerias pelo mundo, mas ainda é alvo de "políticas de apagamento" O curador afirma que a presença da mostra na França faz parte de um projeto antigo. Segundo ele, apenas faltavam o local e as condições adequadas para concretizar a edição parisiense. “Paris não é uma reflexão posterior. Paris é uma cidade importante e continua sendo uma cidade importante. Estamos felizes em vir para cá e contar muitas histórias de Paris misturadas às histórias globais que Beyond the Streets se tornou conhecida por apresentar.” A exposição procura demonstrar que a história da intervenção urbana na França antecede em muito o surgimento do grafite contemporâneo associado aos metrôs de Nova York. Ao comentar a cena francesa, Gastman recorda o trabalho do fotógrafo Brassaï, que documentou inscrições anônimas encontradas nos muros de Paris entre as décadas de 1930 e 1940. As imagens realizadas pelo artista franco-húngaro deram origem, em 1956, a uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), frequentemente apontada como uma das primeiras iniciativas institucionais a olhar para o grafite como objeto de interesse artístico. “A cena francesa do grafite e da arte urbana é muito ativa, e sempre foi", afirma. Para ele, a própria paisagem subterrânea da cidade ajuda a compreender essa continuidade histórica. “As catacumbas têm uma história extremamente rica de inscrições nas paredes. São um marco da cidade e uma espécie de cápsula do tempo dos artistas em geral, não apenas do grafite e da arte urbana. Dos cartazes dos protestos ao grafite tradicional, tudo isso está aqui. Em Paris, não é preciso procurar muito. Essas histórias estão aqui e continuam aqui para ser celebradas", reflete. A edição da exposição apresentada em La Villette incorpora esse contexto local. Além de destacar artistas franceses contemporâneos, o percurso estabelece conexões entre a tradição urbana parisiense, a cultura hip-hop e os desdobramentos internacionais do grafite ao longo dos últimos 50 anos. Leia tambémArte urbana brasileira leva cores e raízes ao festival Latinograff em Toulouse Vandalismo? Apesar da crescente presença do grafite em museus e galerias, a discussão sobre a natureza dessa prática continua aberta. A tensão entre reconhecimento institucional e transgressão permanece no centro do debate. Gastman não procura suavizar essa contradição. Ao contrário de parte do discurso que busca separar o grafite de suas origens, o curador insiste que a dimensão ilegal constitui um elemento fundamental da cultura que a exposição aborda. “O grafite, em sua definição verdadeira, sempre será ilegal e sempre irritará algumas pessoas. O grafite, em sua essência, é vandalismo. E o que mostramos em Beyond the Streets certamente celebra o vandalismo.” A afirmação pode soar provocadora em uma grande instituição cultural, mas ajuda a entender a lógica da mostra. Em vez de reproduzir a experiência da rua dentro do museu, o projeto procura evidenciar os caminhos percorridos por artistas que partiram da ocupação ilegal do espaço urbano e desenvolveram trajetórias reconhecidas no circuito artístico. “A primeira palavra do título é ‘beyond’. Estamos mostrando como muitos desses artistas pegaram a energia e o aprendizado adquiridos nas ruas para se tornarem grandes artistas.” Segundo ele, a pergunta sobre a legitimidade do grafite continua sendo formulada, mas a própria evolução do movimento oferece uma resposta. “As pessoas ainda perguntam por que isso está em um museu. O tempo continua respondendo a essa pergunta. E o tempo está mostrando que isso funciona e que isso é real.” Mais do que uma exposição sobre grafite A ambição de Beyond the Streets é mais ampla do que a de apresentar obras em paredes. O percurso procura reconstruir um ecossistema cultural que engloba música, fotografia, design, moda, skate, ativismo político e cultura hip-hop. Entre os participantes estão pioneiros do grafite nova-iorquino, nomes decisivos para a documentação do movimento e artistas que posteriormente alcançaram projeção internacional. O conjunto reúne figuras como TAKI 183, FUTURA 2000, Lady Pink, Crash, Zephyr, Martha Cooper, Henry Chalfant, Keith Haring, JR, Invader, JonOne, Shepard Fairey, André Saraiva, Vhils e Damien Hirst. A mostra também incorpora personagens ligados a outros territórios da cultura urbana, caso dos Beastie Boys, Fab 5 Freddy, Maripol e Jean-Charles de Castelbajac, reforçando a ideia de que o grafite exerceu influência muito além dos muros das cidades. Ao destacar alguns dos núcleos da edição parisiense, Gastman menciona uma grande instalação dedicada aos Beastie Boys, construída a partir de letras manuscritas e instrumentos da banda, uma intervenção de grande formato assinada por Shepard Fairey, uma loja de discos integrada ao percurso, ambientes imersivos, um panorama da cultura hip-hop francesa e obras criadas especialmente para a etapa parisiense. “É uma exposição diferente de qualquer coisa que as pessoas já experimentaram.” Mas é a reação do público que mais chama a atenção do curador. “Uma das minhas coisas favoritas é o público que está vindo à exposição. É um público muito diverso. Muitas famílias, muitas gerações diferentes.” Segundo ele, a recepção demonstra que o grafite deixou de interessar apenas aos iniciados. “As pessoas não saem daqui me dizendo: obrigado, foi uma grande exposição de grafite. Elas dizem: obrigado, foi uma fantástica exposição sobre cultura”, sublinha Gastman.  Grafite, pichação e street art brasileira Questionado sobre a cena brasileira, Gastman aponta que o Brasil desenvolveu uma linguagem própria dentro da história global do grafite, distante de simples reproduções dos modelos surgidos nos Estados Unidos ou na Europa. “A história da streetart no Brasil é diferente de qualquer cidade ou país que eu já tenha explorado ou estudado. É um estilo completamente original”, diz o curador. A análise inclui tanto o universo da pixação quanto a produção muralista que ajudou a projetar internacionalmente artistas brasileiros nas últimas décadas. E embora reconheça a crescente notoriedade internacional dessa produção, o curador avalia que boa parte dessa história ainda carece de documentação adequada. “Ela ainda é muito nova, muito pouco documentada. É uma história extremamente rica e importante, que espero continuar vendo ser contada.” Fã de longa data d’Os Gêmeos, com quem colaborou em projetos anteriores, Gastman revela que a participação de artistas brasileiros chegou a ser considerada para a edição parisiense. A ideia acabou esbarrando em limitações práticas. Segundo ele, a montagem da mostra foi realizada em apenas três meses e meio, prazo considerado excepcionalmente curto para um projeto da dimensão de Beyond the Streets. E as dificuldades logísticas para o transporte internacional de obras influenciaram a decisão. “Analisamos incluir alguns artistas brasileiros, mas o cronograma não funcionou. E a questão do transporte tornava isso pouco realista.” Apesar disso, ele afirma que uma futura edição da mostra em território brasileiro não está descartada. “Nós conversamos sobre isso. Já estudamos essa possibilidade.” Por enquanto, a etapa parisiense oferece até o dia 23 de agosto um retrato abrangente de uma cultura que nasceu à margem das instituições e hoje ocupa uma posição central no imaginário visual contemporâneo, procurando mostrar como essa linguagem alterou a maneira de olhar para a cidade e, aos poucos, redefiniu o próprio conceito de arte pública.

  2. 7 ago

    Exposição em Paris revisita Madame de Sévigné e o poder feminino nos salões da França do 'Rei Sol'

    Símbolo da literatura francesa, Madame de Sévigné costuma ser lembrada pelas cartas que escreveu à filha ao longo do século XVII. Uma nova exposição no Museu Carnavalet, em Paris, propõe uma releitura dessa figura histórica. Em vez da escritora isolada, a mostra apresenta uma mulher inserida em uma rede de aristocratas, intelectuais e anfitriã magnânima de salões que desafiaram as convenções de sua época.  "Esse é justamente o objetivo da exposição", explica o curador David Simonneau. Apoiada em três décadas de pesquisas universitárias, a mostra procura revisitar uma figura que ocupa um lugar quase monumental na literatura francesa. "Hoje percebemos que Madame de Sévigné não estava isolada. Ela fazia parte de uma rede de mulheres cultas e extraordinárias, que durante muito tempo permaneceram invisibilizadas pela história." Durante séculos, essas mulheres ficaram associadas ao termo "preciosas", popularizado principalmente pela sátira. Simonneau lembra, porém, que a palavra nasceu como uma forma de desqualificação. "Era um termo usado para depreciá-las", afirma. Os historiadores preferem atualmente a expressão "círculos galantes", ambientes frequentados por homens e mulheres da aristocracia parisiense onde se discutiam literatura, artes e ciência. Mais do que simples encontros mundanos, esses salões revelavam uma ambição intelectual e social. Segundo o curador, eles surgiram em uma época ainda marcada pela violência das guerras religiosas e pelas práticas de uma nobreza acostumada aos duelos e às demonstrações de força. "Havia uma verdadeira vontade de tornar as relações entre homens e mulheres mais pacíficas", explica. Para as anfitriãs desses encontros, os salões também constituíam um espaço de formação permanente, onde as mulheres podiam continuar aprendendo, lendo e participando de debates intelectuais. A trajetória de Madame de Sévigné atravessa diferentes momentos da monarquia francesa. Nascida em 1626 e morta em 1696, ela testemunhou tanto a regência de Ana da Áustria quanto o longo reinado de Luís XIV, o famoso "Rei Sol". Essa duração excepcional de vida permite acompanhar, por meio de suas cartas, transformações profundas da sociedade francesa. Os mecanismos da corte, da regência ao "Rei Sol" Segundo Simonneau, existe um contraste importante entre os primeiros anos da juventude de Sévigné e a sociedade que se consolidou sob o Rei Sol. Durante a regência, os círculos galantes ainda ocupavam um papel central na vida aristocrática. Com Luís XIV, os mecanismos de poder tornaram-se mais rígidos e os conflitos entre cortesãos mais intensos. É justamente nesse contexto que surge uma das características mais fascinantes da escritora. Embora frequentasse regularmente a corte, Madame de Sévigné jamais exerceu um cargo oficial junto à família real. Para o curador, essa posição relativamente independente acabou se transformando em uma vantagem. Livre das obrigações que limitavam outros observadores, ela desenvolveu um olhar particularmente agudo sobre o funcionamento do poder. "Ela observa tudo com grande distância e muito humor", resume Simonneau. Em suas cartas, os conflitos políticos aparecem frequentemente sob a forma de relatos ácidos e irônicos das rivalidades entre nobres, ministros e favoritos reais. O resultado é um retrato vivo das disputas que agitavam os bastidores da monarquia mais poderosa da Europa. Essa dimensão faz com que suas cartas transcendam o valor puramente literário. Durante muito tempo, a correspondência foi lida como uma espécie de crônica elegante do reinado de Luís XIV. A exposição propõe uma visão mais ampla. Para Simonneau, a autora possuía uma verdadeira consciência de seu trabalho de escrita. "Ela tinha formação para escrever. Não escrevia simplesmente ao sabor dos acontecimentos", explica. "Havia uma intenção literária muito clara." Leia tambémUm roteiro de charme pelos castelos e histórias das amantes dos reis franceses Ligações perigosas Mas a importância de sua correspondência também reside na qualidade das informações que circulavam por sua rede de relações. Cercada por personagens próximos do centro do poder, a marquesa registrou episódios que muitas vezes escapavam às publicações da época. O exemplo mais célebre envolve Nicolas Fouquet, poderoso superintendente das finanças do reino e amigo próximo de Madame de Sévigné. Preso por ordem de Luís XIV, Fouquet foi submetido a um julgamento realizado a portas fechadas. Embora boa parte da população dependesse das informações oficiais divulgadas pelas gazetas, a escritora conseguiu obter relatos sobre o desenrolar do processo. "Vou lhe contar o que as gazetas não contam", escreveu ela à filha em uma das cartas citadas na exposição. A frase ajuda a compreender porque sua correspondência continua despertando tanto interesse entre historiadores. Ao lado dos grandes acontecimentos políticos, as missivas revelam aspectos da vida cotidiana, dos costumes, das sociabilidades e das emoções de uma elite que moldou a França do século XVII. Museu foi residência de Madame de Sévigné A escolha do local da exposição reforça esse diálogo entre personagem e história. O Museu Carnavalet ocupa justamente o Hôtel Carnavalet, residência onde Madame de Sévigné viveu durante cerca de 20 anos, de 1677 até sua morte. Instalado no coração do Marais, bairro que concentrava grande parte da aristocracia parisiense da época, o edifício conserva uma ligação íntima com a escritora. Segundo Simonneau, foi precisamente essa associação que levou, no século XIX, à escolha do local para abrigar o museu dedicado à história de Paris. A mostra procura explorar essa proximidade. Em vez de se limitar à apresentação das cartas, reúne retratos, esculturas, objetos de uso cotidiano e obras de arte capazes de reconstruir o universo material da marquise. Os curadores recorreram inclusive ao inventário elaborado após sua morte para reconstituir ambientes e sugerir a atmosfera que cercava sua vida no Hôtel Carnavalet. Ao mesmo tempo, a exposição funciona como uma porta de entrada para o próprio museu, ainda pouco conhecido por muitos visitantes estrangeiros. Dedicado exclusivamente à história da capital francesa, o Carnavalet é o mais antigo museu municipal de Paris. Instalado em dois hôtels particuliers históricos unidos por uma galeria, ele reúne cerca de 3.800 obras que percorrem a trajetória da cidade, desde a pré-história até os dias atuais. Renovado em 2021, o museu conserva desde painéis renascentistas e salões aristocráticos inteiros até objetos ligados à Revolução Francesa, fotografias, cartazes e testemunhos da vida cotidiana parisiense. Um percurso que ajuda a compreender a cidade onde Madame de Sévigné viveu, escreveu e construiu um dos mais extraordinários retratos da França de seu tempo. A exposição Madame de Sévigné, Cartas parisienses fica em cartaz no Museu Carnavalet até o dia 23 de agosto de 2026.

  3. 17 jul

    Teatro: Tiago Rodrigues projeta os próximos 80 anos de Avignon e convida o Brasil ao debate

    Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues conduz a edição dos 80 anos em meio a um contexto dominado pela urgência de garantir acesso democrático à cultura. Com uma programação majoritariamente feminina, que inclui Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, ele destaca a força da cena brasileira e propõe novas alianças. O diretor português afirma que o futuro de Avignon depende das perguntas que ainda precisamos formular e convida o Brasil ao debate. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A programação deste ano, pela primeira vez majoritariamente feminina, inclui três artistas brasileiras em posições centrais: Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, lançada por Avignon em 2023. Para Tiago, essa presença não é apenas simbólica, mas um componente estrutural da presença brasileira no festival. “Eu considero que o Brasil tem grandes artistas, e isso é o essencial. Mais do que definir o que é o teatro brasileiro ou o que é a dança brasileira, eu acho que há enormes artistas brasileiros”. Ele destaca Carolina Bianchi como “uma artista imensa de teatro, de performance, uma grande autora de teatro, uma grande escritora, uma poeta da cena”. A diversidade brasileira, segundo ele, é decisiva para o futuro das artes cênicas. “Carolina Bianchi é um exemplo dessas singularidades que podemos encontrar no teatro brasileiro, porque a cultura brasileira é de uma enorme diversidade. Também podemos encontrar no teatro brasileiro a anti-Carolina Bianchi.” Para Tiago, essa amplitude estética e intelectual precisa ainda ser “cuidada, acolhida, promovida”, sobretudo porque “grupos invisibilizados e oprimidos não tiveram ainda a oportunidade de chegar às ferramentas da criação”. Leia tambémChristiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura A edição de 2026 marca também a primeira colaboração teatral entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. O projeto parte de uma ideia que, segundo Tiago, “nos seduziu muito – justamente por não ser uma adaptação, mas uma continuação”. Ele explica: “O que acontece depois do fim de Um Inimigo do Povo, de Ibsen?” A estreia mundial em Salvador, seguida por apresentações no Rio de Janeiro (e posteriormente em Lisboa e Amsterdã), reforça a intenção de fortalecer a circulação da obra de Jatahy no Brasil. “Os parceiros europeus de Christiane Jatahy desejaram também contribuir para que seu trabalho estivesse mais presente no Brasil, e que [o espetáculo] fosse criado no Brasil”, afirma o diretor, que também destaca o interesse de festivais como Edimburgo e Holland Festival, coprodutores da peça, na ideia de "coesão social por meio das artes". Uma diretiva que, para ele, não se constrói por consenso, mas pela contraposição de ideias. “Como podemos reunir pessoas em torno das artes e ajudar na coesão social? Mas colocando perguntas, sem exigir pensamento único, sem exigir que todos concordem – e, assim, iniciar um debate?” O ponto de interrogação e os próximos 80 anos O ponto de interrogação que domina toda a comunicação gráfica do festival sintetiza essa postura. Tiago o escolheu como símbolo das perguntas que ele considera essenciais para os próximos 80 anos de Avignon. “Uma multidão de questões”, diz. Ele começa pelas mais urgentes: “Será que o Festival de Avignon vai poder existir ainda por 80 anos com este calor, com este clima, com a crise climática? O que vamos fazer para continuar vivendo festivais como Avignon, em meio ao calor provocado pelas mudanças climáticas? O que nos leva a nos fascinar, mesmo nós, artistas, pela questão do mal, pelos déspotas, pelos violentos? Que fascinação é essa pelo mal?”. A reflexão se estende ao tema do suicídio assistido: “Como pode a sociedade se organizar para acompanhar aqueles que decidem pôr fim à própria vida porque acham que a vida deve terminar – porque estão doentes, porque estão em sofrimento? Como podemos, socialmente, humanamente, mas também juridicamente, acompanhar essa decisão?”, questiona Rodrigues. As questões propostas por Christiane Jatahy e Wagner Moura também interpelam o festival. “Nesta sociedade da opinião pública rápida, que condena publicamente, qual é o lugar da justiça naquilo que são as nossas vidas? E como podemos participar dessa justiça e nos dar o tempo de reflexão que a justiça merece?”, sublinha o diretor. Leia tambémLia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues afirma que a história do evento impõe uma responsabilidade que não pode ser negociada. Ele lembra que o festival nasceu em 1947, no pós-guerra, criado por Jean Vilar e por antigos resistentes à ocupação nazista, e que essa origem define o presente. "O código genético deste festival, fundado em 1947 depois da Segunda Guerra Mundial por Jean Vilar, com ajuda de antigos resistentes contra a ocupação nazista. Seria uma traição à responsabilidade histórica deste festival e aos seus valores colaborar com a extrema direita. Esse é o meu entendimento, e é a minha responsabilidade tomar essa decisão enquanto diretor de um festival que é progressista, republicano, democrático e, portanto, nos dias de hoje, ecologista, feminista, antirracista, antifascista.” O Festival de Avignon segue em cartaz no sul da França até 25 de julho.

  4. 10 jul

    Teatro: Carolina Bianchi consagra trilogia Cadela Força com maratona de 10 horas na Ópera de Avignon

    Carolina Bianchi retorna ao Festival de Avignon para apresentar a trilogia completa Cadela Força, considerada pela crítica europeia como uma das investigações mais radicais do teatro contemporâneo. Do inferno de A Noiva e o Boa Noite Cinderela ao enigma luminoso de Uma Luz Cordial, passando pelos pactos masculinos de The Brotherhood, a artista brasileira constrói um percurso que se recusa a estetizar a dor, abordando temas como violência, sexualidade e literatura. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A apresentação integral da trilogia Cadela Força na Opéra d’Avignon, em uma maratona de dez horas, consolida a posição singular de Carolina Bianchi na cena experimental contemporânea. A artista brasileira retorna ao festival, depois do sucesso estrondoso de A Noiva e o Boa Noite Cinderela, de 2023, com um percurso que confronta violência sexual, feminicídio, pactos masculinos e a própria tarefa da escrita. Sua obra nasce de uma experiência brasileira que não se deixa traduzir completamente, e é justamente essa força que redefine sua presença em Avignon 2026. A trilogia, afirma Bianchi, exigia tempo e densidade. “Cadela Força era uma coisa que foi se apresentando desde o começo também porque sinto que os assuntos, que as matérias que a gente estava movendo dentro dessa trilogia pediam esse lugar assim, de calma, de tempo para poder olhar para esses assuntos.” Para ela, não se tratava de buscar atalhos fáceis: “Acho que estava sempre, desde o começo, distante da gente querer encontrar soluções para coisas que são impossíveis.” No primeiro capítulo, A Noiva e o Boa Noite Cinderela, Bianchi articula histórias reais de feminicídio - dos assassinatos em série de Cidade Juárez ao caso da performer italiana Pippa Bacca, assassinada durante a execução de uma performance na Turquia, em 2008, - como eixo estrutural da obra. O corpo da performer opera como testemunho, instaurando um regime ético que desloca a cena da representação para a inscrição direta dessas narrativas. É o “inferno” da trilogia, uma geografia política da violência que se torna matéria de linguagem. Em The Brotherhood, a investigação se volta aos pactos masculinos que moldam a história da arte. A dramaturgia funciona como dispositivo analítico, expondo genealogias de poder que atravessam a própria autora, que surge como figura espectral. O capítulo evidencia a persistência dessas estruturas e a forma como organizam o campo artístico, mesmo quando examinadas criticamente. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A volta a Avignon O retorno ao festival, depois da estreia do primeiro capítulo em 2023, produz uma camada adicional de leitura. “Dá uma noção de temporalidade que, uau, é muito louca”, diz Bianchi. “Agora mesmo eu estou olhando para você e pensando quem éramos nós há três anos e éramos outras pessoas.” A volta com a trilogia completa, afirma, revela o percurso desses anos: “O quão imersa eu estive nesses anos nessa 'floresta escura da criação', como diz Dante Alighieri.” A referência à Divina Comédia atravessa sua fala e sua obra. “Essa entrada na criação, passando pelos infernos, pelos purgatórios, pelos paraísos que cada obra contém”, diz, descrevendo o processo como algo que transforma e reorganiza o trabalho. Voltar a Avignon, para ela, é também reconhecer lugares fundamentais da própria trajetória. A proposta da maratona reforça essa dimensão de experiência. “Ela tem uma coisa de ser de fato uma experiência e um convite para uma experiência teatral”, afirma. Bianchi cita o artista argentino Alberto Greco: “Ele dizia que acreditava na obra de arte como ‘aventura total’.” Sustentar dez horas de espetáculo envolve risco, e interessa à artista justamente por isso. “Tem um caminho selvagem. De risco. Tem um caminho tortuoso aí que também me interessa investigar.” O público, diz ela, é convocado a evocar essas perguntas junto com o grupo. “Vamos fazer uma coisa que não fizemos ainda antes e que tem os seus componentes de risco aqui, mas a gente quer sustentar juntos essas perguntas.” Uma luz cordial O terceiro capítulo, Uma Luz Cordial, desloca a violência para a tarefa da escrita. O título vem de um verso de Emily Dickinson, do poema My Life Has Stood a Loaded Gun. “Essa luz cordial que, na verdade, é essa arma disparando a luz de quando a arma explode”, explica. A imagem, para ela, está ligada ao ato de escrever: “O que a tarefa da escrita faz comigo, com o meu corpo.” O capítulo introduz alter egos e figuras literárias, num movimento que ecoa Dante. “Para eu seguir escrevendo, eu também vou me desfazendo, é uma trilogia também sobre um desaparecimento de um corpo que começa nesse Boa Noite Cinderela”, lembra. A violência se fricciona com a sexualidade e se catalisa no encontro com a imaginação. “A sexualidade é um tema muito importante que atravessa essa trilogia. A gente não tem como falar de violência sexual, a gente não tem como pensar o que acontece com essa violência, o que a gente faz depois dessa violência, se a gente também não pensar, não fizer as perguntas sobre a sexualidade.” A escrita, afirma, é o ponto de partida: “Eu sou escritora e essa é a minha primeira tarefa.” Escrever, para Bianchi, é também convocar o público à leitura. “O público vai vir aqui e vai ver dez horas de teatro, e vai ter que ler. Porque é isso, a gente está falando português, eu escrevo em português, essa é a minha língua.” A língua, diz ela, é o chão da obra: “Acredito no poder da linguagem, da língua, da nossa expressão, da escrita.” Teatro como passagem ao coletivo A escrita, porém, para ela, não se encerra na solidão. “Tem esse momento onde essa escrita vai passar ao coletivo. É aí que é o teatro. Eu sou uma escritora que precisa passar por esse lugar da solidão absoluta […] para essa coletividade do teatro, que eu acho impressionante”, conclui Bianchi. A trilogia Cadela Força será apresentada na Opéra de Avignon em três sessões consecutivas durante o Festival de 2026, reunindo os três capítulos em uma única maratona de dez horas. Depois de Avignon, o trabalho segue para Paris, onde integra o Festival de Outono: a trilogia será apresentada nos dias 14, 15 e 16 de novembro de 2026 na capital francesa, retomando a estrutura integral da obra e ampliando sua circulação no circuito europeu.

  5. 3 jul

    Fotografia brasileira ganha destaque na 57ª edição dos Encontros de Arles

    A cidade de Arles, no sul da França, se prepara para mais uma temporada como vitrine privilegiada da fotografia mundial. Sob o tema "Mundos para reler", são mais de 40 exposições espalhadas pela cidade, conhecida por importantes monumentos romanos e que também serviu de inspiração para Van Gogh. Os Encontros de Arles acontecem de 6 de julho a 4 de outubro. Patrícia Moribe, em Paris Na programação oficial, o fotógrafo carioca Gui Christ participa da coletiva "Nous ne sommes pas seuls – Images extraterrestres" (Não estamos sozinhos – Imagens extraterrestres). Apresentada na seção Croisière, a mostra tem curadoria de Philippe Baudouin e explora a "cultura da dúvida visual" por meio de arquivos da NASA e de obras contemporâneas que investigam o fenômeno dos OVNIs. Gui Christ contribui com imagens realizadas no Vale do Amanhecer, um complexo espiritual próximo a Brasília que reúne doutrinas de diferentes tradições em um cenário visualmente instigante, semelhante a um parque temático futurista e místico. "Fiz esse trabalho para a National Geographic em 2018. O Vale do Amanhecer é uma religião brasileira fundada por Tia Neia, uma médium, na década de 1960 em Planaltina, Goiás. É uma religião que possui uma característica muito presente na religiosidade brasileira, a capacidade de reunir diferentes tradições espirituais, diferentes formas de compreender o mundo", explica. "Dentro dessa religião, convivem referências do cristianismo, do espiritismo, dos saberes indígenas, de religiões afro-brasileiras e também a crença em extraterrestres. Mais do que fotografar a religião e as pessoas, o que me interessou foi entender como a fotografia pode tornar visíveis mundo que existem para além do olhar ocidental", acrescenta Gui Christ. Na categoria Prêmio Descoberta Fondation Louis Roederer 2026, o laboratório La.Ima, coordenado em Paris por Ioana Mello e Oleñka Carrasco, apresenta o trabalho do senegalês Souleymane Bachir Diaw. Sua série, intitulada "Sutura", será exibida no espaço Monoprix e investiga as "verdades não ditas" presentes nas estruturas patriarcais. Segundo a curadora Ioana Mello, o projeto aborda a masculinidade no Senegal e como ela "se revela dentro da estrutura patriarcal familiar e no deslocamento do artista, que hoje mora em Paris; de como ele vê essas verdades a partir desse novo olhar, desse novo contexto". Utilizando tecidos e imagens performáticas, a obra propõe uma "reparação das feridas íntimas e sociais". No festival Arles OFF, Carolina Arantes apresenta "First Generation". Com curadoria de Denise Camargo e Azu Nwagbogu, a mostra é resultado de uma pesquisa sobre mulheres francesas de ascendência africana. O projeto reúne depoimentos e entrevistas das mulheres retratadas, com design sonoro de Isadora Dartial e mixagem de Sulivan Clabaut. "O trabalho é sobre como essa identidade vai sendo construída por meio da vida privada delas, no cotidiano. É sobre como o espaço público da história de um país e a vida pessoal dessas mulheres se encontram nesse processo de construção de uma França contemporânea", explica Carolina Arantes. A exposição combina esses registros sonoros a retratos íntimos, arquivos de família e fotografia documental, criando um mosaico das pessoas que definem a nova geração da sociedade francesa. A Associação Iandé, organização francesa que estabelece pontes entre a fotografia brasileira e a Europa, organiza exposições imersivas de artistas brasileiras sob o tema "Os Arquivos e o Íntimo", com curadoria de Gláucia Nogueira e Jonathan Pierredon. "A partir de arquivos pessoais, Rochelle Zandavale, Melissa Flores e Luciana Petrelli constroem narrativas onde a memória vira imagem e o privado conversa um pouco a história coletiva. Também há uma série chamda 'I've Never Been to Japan', que fala sobre a imigração japonesa no Brasil a partir de arquivos pessoais. É uma forma também de celebrar o bicentenário da fotografia", explica Gláucia Nogueira. Retrospectivas e atividades paralelas A 57ª edição do festival propõe uma imersão em narrativas que atravessam o continente africano e a região do Mediterrâneo para questionar identidades e histórias. Além dos destaques individuais, o evento reúne grandes nomes da fotografia contemporânea e histórica, como Omar Victor Diop e Lee Shulman (com o projeto The Anonymous Project – Being There), Clément Cogitore (Memory Palace), além de mostras dedicadas a Paul Kodjo, Rebekka Deubner e Orianne Ciantar Olive. Há também novas releituras de nomes consagrados, como William Klein e Harry Gruyaert. O festival organiza ainda uma ampla programação paralela voltada tanto para profissionais quanto para amadores, incluindo leituras de portfólios, prêmio de edição, feira de livros, além de debates e conferências.

  6. 19 jun

    Exposição em Paris traz o design barroco, colorido e elaborado do estilista Gianni Versace

    Com cerca de 450 peças entre roupas, acessórios, desenhos, fotografias, vídeos e documentos, o Museu Maillol, em Paris, apresenta uma retrospectiva dedicada ao estilista italiano Gianni Versace. A mostra reúne criações produzidas entre as décadas de 1970 e 1990 e traça um panorama da trajetória de um dos estilistas que ajudaram a definir a moda das décadas de 1980 e 1990. Patrícia Moribe, da RFI em Paris Nascido na Calábria, no sul da Itália, em 1946, Versace incorporou referências da cultura greco-romana à sua obra. A Medusa, transformada em símbolo da marca, é um dos exemplos mais conhecidos. Suas coleções também dialogaram com o barroco, a arte clássica e a cultura pop. Ao longo da carreira, o estilista manteve relações próximas com artistas como Elton John, Prince, Madonna e Sting, além de vestir personalidades como a princesa Diana. A mostra em Paris tem um significado particular. Foi na capital francesa que Versace passou a exibir regularmente suas coleções de alta-costura, fazendo da cidade um dos principais palcos de seu trabalho. A mostra também recupera a relação do estilista com a cena cultural parisiense, reunindo fotografias, documentos e peças associadas aos desfiles e eventos que marcaram sua passagem pela cidade. Pensada como uma grande passarela, a exposição percorre duas décadas da produção de Versace por meio de um acervo reunido por colecionadores privados. Distribuída em 11 núcleos temáticos, a mostra aborda temas como a influência da cultura greco-romana, o barroco, a cultura das celebridades, o fenômeno das supermodelos, as estampas de seda que se tornaram uma de suas marcas registradas e suas incursões pelo teatro e pela dança. A retrospectiva foi concebida pelos curadores Saskia Lubnow e Karl von der Ahé, que desenvolvem o projeto desde 2017. Segundo Von der Ahé, a importância de Versace está na combinação entre a criatividade do estilista e as condições oferecidas pela indústria italiana naquele período. "Ele tinha acesso a um conhecimento extraordinário em áreas como tecelagem, estamparia, joalheria e produção têxtil. Conseguiu reunir esses recursos com uma compreensão muito clara das transformações sociais e culturais de seu tempo", afirmou à RFI. "Foi a era de ouro da moda italiana. Havia designers ambiciosos e uma infraestrutura muito forte, especialmente no norte da Itália." Para o curador, Versace soube traduzir mudanças sociais em linguagem visual. "Ele combinou as vantagens tecnológicas que existiam na Itália com sua capacidade de compreender a sociedade e as transformações no design." Mostra independente Diferentemente de mostras institucionais ligadas a grandes marcas, com o objetivo de autopromoção, a mostra em Paris foi construída sem participação da empresa Versace ou da família do estilista. Von der Ahé conta que procurou a companhia ainda em 2016, quando o projeto começou a ser desenvolvido. "A resposta foi que eles não interfeririam em atividades privadas envolvendo peças de coleções particulares", afirma. Para o curador, a independência é um elemento central da proposta. "Não temos nada a ver com o mercado da moda e não dependemos de estratégias de marketing ou da imagem da empresa", explica. "Falamos de Gianni Versace como uma figura histórica. Nunca tratamos do período posterior à sua morte, em 1997." O acervo foi reunido a partir de uma rede internacional de colecionadores, ex-clientes e antigos colaboradores do estilista. "Temos centenas de peças completamente independentes do arquivo Versace", diz Von der Ahé. "Isso nos permite construir cada exposição com novos recortes, novas peças e narrativas atualizadas." Entre os empréstimos estão roupas adquiridas por antigos clientes, peças compradas diretamente dos desfiles e arquivos preservados por profissionais que trabalharam com o estilista em Milão. Nos últimos anos, os próprios organizadores também passaram a adquirir peças para ampliar o acervo. "Há um ou dois anos começamos a comprar peças importantes em diferentes partes do mundo", acrescenta o curador. O estilista calabrês morreu assassinado diante de sua mansão em Miami, em 1997.  A retrospectiva Gianni Versace está em cartaz no Museu Maillol, em Paris, durante todo o verão europeu.

  7. 12 jun

    Cinco vozes contra o machismo: grupo 'Wild Wild Women' redefine espaço da mulher no rap indiano

    Um coletivo feminino de rap vindo da Índia começa a romper uma das barreiras mais persistentes da música urbana no país: o domínio masculino. Com cinco vozes em cinco línguas, o Wild Wild Women transforma a experiências de exclusão em matéria artística e projeta, inclusive fora da Ásia, um movimento ainda raro por lá — o de mulheres que não pedem espaço, mas o ocupam. Com informações de José Marinho, enviado especial da RFI à Ilha da Reunião Em um país onde o hip-hop por muito tempo permaneceu um espaço masculino, elas escolheram ocupar o microfone. Wild Wild Women, “as mulheres indomáveis”, chegam da Índia com cinco vozes, cinco trajetórias e cinco línguas. Hindi, marathi, tâmil, canarês e inglês: o rap delas atravessa fronteiras ao mesmo tempo em que desafia estereótipos. O hindi é a língua mais falada do país. O marathi marca a região de Mumbai, onde o grupo nasceu. O tâmil e o canarês vêm do sul da Índia, com identidades culturais muito próprias. E o inglês funciona como ponte das garotas com o mundo. Grande revelação da 22ª edição do Sakifo — festival internacional realizado na Ilha da Reunião, território francês no oceano Índico, próximo à África —, essas artistas de 24 a 32 anos formam o primeiro coletivo feminino de rap indiano. A poucas horas do encerramento do evento, no sábado (7), elas transformaram o microfone em território de conquista. Leia tambémNova geração de mulheres do rap francês rouba a cena com 'feminismo pop' Revelação Revelação do festival, elas representam um movimento ainda emergente na Índia, onde a cena do rap se expandiu rapidamente nas últimas duas décadas, mas continua marcada por desigualdades de gênero. É difícil acreditar ao vê-las empolgar o público na cidade de Saint-Pierre, no sul da ilha. E, no entanto, o Wild Wild Women existe há apenas alguns anos. Por trás da energia explosiva e da segurança exibida no palco, existe uma história de resistência. É o que lembra Pratika: “Quando íamos a batalhas de rap e eventos de hip-hop na Índia, havia muito poucas mulheres no palco. E as que estavam lá não eram levadas a sério. Todas enfrentavam alguma forma de exclusão vinda dos homens. Então, em vez de esperar que nos dessem um espaço, nós ocupamos o nosso. Foi assim que nasceu o nosso coletivo feminino, o Wild Wild Women.” “Nossas músicas contam essa realidade” O grupo nasceu em Mumbai, capital econômica da Índia e megacidade com mais de 12 milhões de habitantes. "Uma cidade de promessas, mas não para todos", explica Hashtag Preeti.“Mumbai é a cidade dos sonhos onde convivem diferentes culturas. Mas, para jovens mulheres como nós, a liberdade muitas vezes vem acompanhada de problemas", disse à RFI. "Desde a infância, precisamos negociar nosso espaço, nossa aparência, nossa liberdade com os homens. Nossas músicas contam essa realidade: resiliência, pressão familiar, o corpo feminino, segurança, identidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, colocamos humor e alegria em nosso sofrimento para mostrar a mulher indiana de outra forma, não apenas como vítima ou em luta constante”, explica a artista. Wild Wild Women abre caminho para outras mulheres No palco e fora dele, o Wild Wild Women desafia uma ordem estabelecida que até então as excluía. Um sintoma que revela muito sobre os preconceitos ainda presentes na Índia, segundo MC Mahila, “a reação dos homens ao nosso grupo foi mista".  Leia tambémJuste Shani consolida ascensão no rap francês com técnica e feminismo "Mas também encontramos aliados no hip-hop indiano", sublinha a MC. "A música nos permitiu enxergar os desafios que as mulheres enfrentam em ambientes muito patriarcais. Como somos uma novidade feminina no universo do rap indiano, nosso sari rosa e nosso visual com tênis às vezes chamam mais atenção do que nossas músicas. Não tem problema. Todas essas histórias se tornam material valioso para nossas composições. E estamos avançando. Hoje há mais mulheres interessadas em hip-hop do que antes. Ainda há muito a fazer, claro. Mas vir a um palco internacional para levar a voz das mulheres indianas já é um pequeno sinal de mudança”, conclui. O festival terminou em 7 de junho de 2026. Mas algumas vozes continuam ecoando, dentro e fora da cena do rap mundial, como as das meninas selvagens de Mumbai.

  8. 5 jun

    Em tempos de guerras e conflitos, amor é o tema da Nuit Blanche, a 'noite em claro' de Paris

    Sob o signo do amor, Paris realiza neste final de semana a tradicional Nuit Blanche, ou “noite em claro”, com exposições, performances e instalações efêmeras na madrugada de sábado (6) para domingo (7). O evento acontece sob a égide do novo prefeito socialista de Paris, Emmanuel Grégoire, e celebra seus 25 anos com uma programação gratuita espalhada por toda a capital francesa, em museus, monumentos, espaços públicos e locais normalmente fechados ao público. Patrícia Moribe, da RFI em Paris A concepção artística desta edição foi confiada à DJ e produtora cultural Barbara Butch, nome conhecido da cena cultural parisiense, que escolheu o amor como eixo central da programação. "Num mundo marcado por relações de força, escolher o amor é um ato de compromisso", afirma a diretora artística. A proposta é transformar a cidade em um espaço de encontros e trocas, reunindo mais de uma centena de projetos artísticos em diferentes pontos da capital francesa. Barbara Butch também aparece no cartaz oficial do evento, fotografada pela dupla francesa Pierre e Gilles. Entre as exposições da Nuit Blanche 2026 está "Falando de Amor", que reúne trabalhos de 14 estudantes da Escola de Belas-Artes de Paris no Espace Niemeyer, sede histórica do Partido Comunista Francês projetada pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. A inspiração, explica a curadora independente Virginie Pringuet, nasceu da canção homônima de Antonio Carlos Jobim. Segundo ela, a escolha do título busca homenagear a amizade entre Niemeyer e o compositor brasileiro. A mostra foi concebida como um diálogo com a arquitetura do edifício e procura destacar a visão humanista e inovadora do arquiteto. E por falar de amor Criada especialmente para o local, a exposição apresenta esculturas, instalações sonoras e performances que utilizam a arquitetura modernista como ponto de partida. "Os estudantes observaram o prédio de muito perto, por dentro e por fora, explorando a cúpula, os jardins, as salas de reunião e os detalhes da construção", relata Pringuet. As intervenções ocupam principalmente o nível subterrâneo do edifício, uma área pouco conhecida pelo público. Segundo a curadora, as obras exploram o encontro entre linhas curvas e retas para propor uma experiência sensorial da arquitetura, destacando elementos como o concreto, a luz e os volumes do espaço. O percurso convida os visitantes a redescobrir uma das obras mais conhecidas da arquitetura brasileira em Paris durante a Nuit Blanche. Outro destaque da programação é "Sirénocturne", da artista francesa Annette Messager, apresentada na Piscine Château-Landon, antiga piscina pública do 10º distrito. Conhecida por trabalhos que abordam temas como memória, identidade e imaginário feminino, Messager transforma o espaço por meio de sons de sereias e intervenções visuais que dialogam com a água, a noite e o universo dos sonhos.  A programação inclui ainda instalações como "Liquid Mirror", de Mathias Kiss, no Petit Palais; "La Déclaration", proposta participativa conduzida por Barbara Butch diante do Hôtel de Ville; e "On s'aime" ("Nós nos amamos"), projeto audiovisual construído a partir de depoimentos e declarações de amor coletados entre moradores de Paris e da cidade portuária de Le Havre. Aniversário especial A edição de 2026 tem um significado especial por marcar os 25 anos da Nuit Blanche, criada em 2002 e posteriormente adotada como referência para eventos semelhantes em diversas cidades ao redor do mundo. O aniversário oferece uma oportunidade para refletir sobre a evolução da iniciativa, que nasceu com o objetivo de ampliar o acesso à arte contemporânea e se tornou um dos eventos culturais mais conhecidos de Paris. Mais do que uma sequência de exposições, a Nuit Blanche mantém a proposta de ocupar lugares pouco habituais da cidade. Piscinas públicas, praças, prédios administrativos, monumentos históricos e espaços normalmente fechados ao público tornam-se cenários para intervenções artísticas durante uma única noite. Nesse contexto, tanto a Piscine Château-Landon quanto o Espace Niemeyer ganham novas leituras ao receber obras que dialogam com a memória e a arquitetura dos locais. Ao escolher o amor como tema da celebração de seus 25 anos, a Nuit Blanche também procura dialogar com um contexto internacional marcado por guerras, tensões e polarização. A curadoria defende a arte como espaço de encontro e imaginação coletiva, reunindo artistas consagrados, jovens criadores e milhares de visitantes esperados para percorrer Paris durante algumas horas da madrugada.

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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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