Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

  1. HACE 4 DÍAS

    Participação do Brasil na seleção de Cannes é discreta, mas expressiva no Mercado do Filme

    Até o próximo dia 23 de maio, as atenções dos cinéfilos do mundo todo se voltam para o Festival de Cinema de Cannes. A participação do Brasil neste ano é bem mais discreta do que em anos anteriores. Nenhum longa brasileiro foi selecionado, mas o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, representa o país na mostra La Cinef. Adriana Brandão, enviada especial a Cannes O Brasil está presente neste ano no Festival de Cannes em quatro coproduções de longas-metragens. Paper Tiger, do veterano diretor americano James Gray, é produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos latino-americanos mais influentes de Hollywood. O thriller, estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson, concorre à Palma de Ouro. Na seleção Um Certo Olhar, voltada ao cinema emergente, o nepalês Elefantes na Névoa também é coproduzido pelo Brasil, assim como Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, do diretor mexicano Bruno Santamaría Razo, que integra a mostra paralela Semana da Crítica. O ator Selton Mello estará nas telas de Cannes como protagonista de La Perra. O longa da chilena Dominga Sotomayor estreia na seleção paralela Quinzena dos Cineastas. O paulistano Lucas Acher é o único cineasta do país selecionado. O curta-metragem Laser-Gato será exibido na mostra La Cinef, dedicada a filmes de escolas de cinema. Cinema do Brasil Como todos os anos, o Brasil marca presença no importante Mercado do Filme do Festival. Depois de ser o país convidado de honra no ano passado, mais de 200 profissionais, entre produtores e cineastas, além de várias instituições públicas e privadas, voltam a Cannes em busca de parcerias de produção e distribuição. A participação brasileira é organizada pelo Cinema do Brasil, programa de internacionalização do setor em parceria com a Apex, com apoio da Spcine e da RioFilme. A novidade deste ano é a “Matinée Brésil”, uma manhã inteira de debates e encontros, na segunda-feira (18), dedicada a mostrar como o país está se posicionando em relação ao cinema e ao audiovisual. “O que a gente está tentando consolidar é manter constante esse bom momento do cinema nacional que alcançamos, para poder aproveitá-lo por um longo período, evitando aqueles ciclos viciosos que existem no Brasil, com rupturas nas políticas públicas e na promoção do que se faz no país, dos nossos filmes e das nossas séries”, afirma Leonardo Edde, diretor-presidente da RioFilme. Ele avalia que, apesar da presença discreta do Brasil nas seleções competitivas de Cannes, o cinema brasileiro vive um bom momento. “Este ano tivemos uma participação pequena aqui em Cannes, ao contrário do ano passado, quando houve grande presença. Mas isso também se deve às quebras de ciclos nas políticas públicas. Muitas vezes, sentimos os efeitos disso apenas anos depois. Estamos vivendo momentos de glória por um lado, mas ainda enfrentamos os resquícios da crise da última gestão federal.” Leonardo Edde reforça que a participação no Mercado do Filme de Cannes, considerado o centro da produção cinematográfica mundial, “visa manter o cinema nacional no cenário global”. Elogios e críticas Apesar de elogiarem a política pública de cinema desde a criação da Ancine, que permitiu sucessos mundiais como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, alguns produtores presentes em Cannes reclamam da má distribuição de verbas no setor. A veterana Sara Silveira frequenta o Mercado do Filme de Cannes há mais de 20 anos. Nesta edição, participa com três filmes e um projeto. Ela pede mais apoio ao cinema autoral brasileiro. “Estou com 76 anos, sou uma produtora brasileira extremamente ativa, tenho muita vitalidade e tenho encontrado dificuldades para captar recursos para o meu cinema de porte médio, que é o cinema básico brasileiro, que faz história e diz o que precisa ser dito. Nosso cinema precisa ser reconhecido. É esse cinema de autor que forma a base”, salienta. Sara Silveira defende mais “dividendos, força e coragem” para esse tipo de cinema: “Para que possamos realizá-lo e trazer o Brasil para essas telas (de Cannes), é preciso que esse dinheiro, que é do próprio setor, seja revertido e volte para nós, sendo melhor gerido e distribuído.” Emocionada, ela também pede maior inclusão. “Há jovens, pessoas de meia-idade e também há o etarismo — eu sou etária. Quero que reconheçam a minha força. Quero ter energia, modernidade e a liberdade de fazer cinema em todas as idades, com todos os gêneros. Isso é fundamental para mim: inclusão. Contem comigo. Sou uma militante da arte e do cinema brasileiro”, afirma. Para o produtor Lucas Pelegrino, o grande problema é a imprevisibilidade dos editais. “A principal reclamação é que fazemos reuniões, fechamos acordos, o parceiro capta a parte dele, e nós, no Brasil, ficamos sem recursos porque não sabemos quando os editais serão abertos, o que nos impede de nos posicionar adequadamente. Foi o que aconteceu comigo: no ano passado tivemos reuniões, mas os editais que esperávamos não foram lançados”, conta. Segundo o jovem produtor de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, essa indefinição enfraquece os brasileiros. “Perdemos credibilidade na hora de negociar projetos. É mais uma questão de organização de prazos do que de dinheiro. Existe um volume considerável de recursos, especialmente no fundo setorial, além da Lei Aldir Blanc e do ProAC em São Paulo. São mecanismos incríveis, mas falta previsibilidade, e isso pesa mais”, reforça. Lucas Pelegrino produz principalmente filmes de gênero, como fantasia e terror. Ele busca recursos em Cannes para internacionalizar o projeto A Usina Atrás do Morro, baseado na obra do autor brasileiro de realismo mágico José J. Veiga. O Mercado do Filme termina no dia 20 de maio, três dias antes do 79º Festival Internacional de Cinema de Cannes.

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  2. 8 MAY

    Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

    A edição de 2026 da Bienal de Arte de Veneza, que abre ao público neste sábado (9) na cidade italiana, marca um momento inédito para a arte brasileira. Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil. A participação nacional também é marcada pela estreia de uma curadora negra, a baiana Diane Lima, que reúne as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão. Ana Carolina Peliz, da RFI, em Paris A temática da Bienal de Veneza deste ano é In Minor Keys (Em tons menores), concebida pela curadora camaronesa Koyo Kouoh, primeira mulher negra a assumir o posto. A proposta aposta em gestos sutis, afetos, ritmos lentos e atenção ao sensível, inspirando-se na ideia musical dos “tons menores” como espaços de nuance, vulnerabilidade e resistência silenciosa. Nesse sentido, a 61ª edição da Bienal privilegia improvisação, intimidade, memória, cuidado e reparação, abrindo espaço para vozes, histórias e formas de existência que frequentemente permanecem à margem das narrativas hegemônicas. A exposição do Pavilhão do Brasil tem como título Comigo Ninguém Pode, que também é o nome de uma planta tropical conhecida na cultura popular por suas propriedades protetoras contra energias negativas. “O título veio muito de uma intenção minha de propor não um título temático, mas que trouxesse uma energia — não só no sentido do que a planta é e carrega, na sua dimensão espiritual, mas também do ponto de vista discursivo de ‘comigo ninguém pode’”, explicou Diane Lima à RFI. “O que significa ter um pavilhão do Brasil, uma representação nacional em um momento como o que vivemos, em que temos uma formação inédita, com o encontro entre duas artistas — algo inesperado — e também entre três mulheres? É a primeira vez que temos uma curadora negra e uma artista negra. Havia muito essa ideia de pensar uma união de forças que, de fato, só a coletividade e a disposição para o diálogo poderiam propor”, acrescenta. As artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão têm trajetórias consolidadas, mas repertórios e abordagens distintas, e nunca trabalharam juntas em um projeto. A exposição coloca em diálogo obras históricas de suas produções, nas quais ambas se dedicam a refletir sobre feridas e traumas coloniais, reunindo pinturas, esculturas e desenhos. “O meu maior desafio nesse projeto foi ter coragem para propor um diálogo arriscado, porque nós três nunca havíamos trabalhado juntas. Eu já havia trabalhado com a Adriana e com a Rosana, conheço bem suas pesquisas e práticas, mas, em um projeto dessa envergadura, com essa responsabilidade e visibilidade, é preciso ter ainda mais convicção sobre o que se propõe”, afirma a curadora. “Foi muito interessante entender como conseguiríamos construir esse processo de criação. Acredito que isso só foi possível graças à extrema maturidade das duas artistas — muita experiência e domínio técnico, o que traz segurança — além da vontade de dialogar e trocar.” Adaptação A edição deste ano da Exposição Internacional de Arte de Veneza vai até 22 de novembro e ocorre em diversos espaços pela cidade italiana. Entre os destaques do Pavilhão do Brasil estão 12 telas inéditas de Adriana Varejão, produzidas especialmente para a Bienal, além da instalação Tecelãs, de Rosana Paulino, criada em 2003 e agora adaptada para o espaço expositivo em Veneza. A montagem, que contou com expografia desenvolvida por Daniela Thomas, também exigiu soluções técnicas, principalmente devido à umidade da cidade italiana, que pode comprometer parte dos materiais utilizados nas obras. Segundo a curadora, o projeto dialoga diretamente com o tema da Bienal ao evidenciar o compromisso da arte brasileira com questões ligadas às minorias. “Eu acho que o Brasil tem uma responsabilidade muito grande, uma dívida impagável em relação às comunidades indígenas e negras. Essa combinação de trabalhos novos e históricos das duas artistas mostra como a nossa arte sempre esteve comprometida com esse tema. Apesar das tentativas de apagamento e invisibilização, a arte esteve à frente do seu tempo, tentando apresentar à sociedade essas reflexões e possíveis caminhos de transformação”, afirma. “É uma oportunidade única, sobretudo considerando que o Brasil vive um momento importante no cenário artístico global, não só nas artes visuais, mas também no cinema e na música. É uma chance para o público que passou a se interessar — ou que já se interessa — pela cultura brasileira conhecer melhor a nossa história e entender o quanto esses temas nos inserem, desde sempre, em um contexto global”, conclui.

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  3. 1 MAY

    Van Gogh, ‘influencer’? Mostra no vilarejo francês onde pintor se suicidou ecoa poder de sua obra

    Antes de se tornar um dos artistas mais influentes da história, Vincent van Gogh foi o produto de um entrelaçamento improvável de fé rigorosa, mercado de arte, boemia parisiense e um pequeno vilarejo transformado em laboratório pictórico. Uma exposição no Castelo de Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, propõe revisitar esse percurso, mostrando como religião, autodidatismo, excessos e territórios específicos moldaram um pintor que, mesmo após mais de um século, continua impossível de ser ignorado.  Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Auvers-sur-Oise Antes de se tornar um “influenciador” — termo que hoje circula livremente para designar quem molda gostos, estilos e comportamentos — Vincent van Gogh foi, ele próprio, profundamente influenciado. A exposição Van Gogh, influencer, Heranças em Movimento, em Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, parte justamente dessa inversão de perspectiva: a mostra recua no tempo para investigar o caldo cultural, religioso e artístico que moldou o pintor antes de ele se tornar o ícone incontornável da arte moderna. Misturando facsímiles raros de obras do gênio holandês (as obras do período francês estão em sua maior parte reunidas no Museu d'Orsay, na capital francesa) e obras de artistas vivos, a mostra contempla, em efeito de espelho, os ecos da força do pintor nas gerações futuras. “Entre as primeiras influências de Vincent van Gogh, há algo que costuma ser subestimado, mas que é fundamental: a religião”, afirma Wouter van der Veen, pesquisador holandês especializado em história da arte, um dos maiores especialistas internacionais em Vincent van Gogh e diretor científico do Instituto Van Gogh, sediado em Auvers‑sur‑Oise, além de curador da exposição. “Ele nasce filho de um pastor protestante, dentro de uma tradição marcada por uma profunda desconfiança em relação às imagens”. Na Holanda do século 19, o protestantismo calvinista ainda carregava os efeitos de um longo processo de iconoclastia. A produção e o culto às imagens eram vistos, nessas comunidades, como distrações perigosas da fé considerada verdadeira. “A lógica era eliminar as representações visuais, porque elas desviariam o fiel do essencial”, observa Van der Veen. “Isso era vivido de forma bastante concreta nas comunidades de onde Van Gogh veio”. Leia tambémExposição em Paris retraça últimos meses de Van Gogh em 'vilarejo dos impressionistas' Ao mesmo tempo, a família de Vincent reunia um paradoxo social e simbólico. “Os tios de Van Gogh eram marchands de arte. Três deles atuavam no mercado, todos em um nível social elevado”, destaca o curador. Em uma mesma linhagem conviviam, portanto, o rigor moral calvinista e a circulação constante de obras de arte. “As obras passavam de casa em casa, eles se visitavam, trocavam quadros e gravuras. Vincent cresce nesse ambiente”, diz. Desde cedo, Van Gogh demonstra uma relação intensa com a imagem. “Ele recebe uma educação muito sólida, bastante rígida, mas também extremamente completa: aprende quatro línguas, literatura, cultura geral, e, naturalmente, arte”, relata o diretor científico do Instituto Van Gogh. Essa formação cria um terreno fértil. “Ele manifesta muito cedo uma inclinação artística muito clara”, afirma. O aprendizado silencioso do mercado de arte Aos 16 anos, um dos tios aceita acolher Vincent como aprendiz em sua empresa. “Ele entra no mercado de arte muito jovem”, conta Van der Veen, retomando esse período pouco lembrado da biografia do pintor. Não se trata ainda de uma vocação como artista, mas de um trabalho. “Ele não será particularmente bom como marchand, mas passa sete anos nesse meio.” Durante esse período, algo decisivo acontece. “Milhares de gravuras passam pelas mãos dele. Centenas de pinturas”, enumera o curador. Van Gogh observa, compara, memoriza. “Ele tem uma memória visual extraordinária. Tudo isso constrói o que eu chamo de seu ‘catálogo interno’.” O olhar do artista começa a se formar antes mesmo de ele considerar a possibilidade de criar. “Entre os 16 e os 23 anos, ele trabalha nesse comércio de arte sem jamais pensar em se tornar artista”, prossegue o pesquisador holandês. O contato cotidiano com imagens cria um repertório denso, silencioso, acumulado. “Quando ele olha uma imagem mais tarde, ela nunca é neutra: está sempre atravessada por tudo o que ele já viu”. Depois de anos nesse universo, surge a frustração. “Ele passa a achar o mercado de arte um pouco vazio, sem sentido”, observa Van der Veen. Vincent busca outra trajetória. “Ele decide seguir os passos do pai e se tornar pastor”. Essa tentativa ocupa quatro anos de sua vida. “Ele tenta estudar teologia, mas não consegue. Procura trabalhos como evangelizador ou pregador, e não encontra”, relata o curador. Ao final desse percurso errático, a constatação se impõe: “É então que ele se diz: não, eu sou artista”. “Ele combina três coisas fundamentais: a cultura visual acumulada ao longo dos anos, o amor pela literatura e pelas línguas, e uma vontade profunda de dar sentido à existência”, analisa Van der Veen. Dessa combinação emerge o artista que conhecemos. “Mas é importante lembrar: ele começa a pintar seriamente aos 27 anos, o que é muito tarde”. Um autodidata contra todas as regras “A formação artística de Van Gogh é, em grande parte, autodidata”, afirma o curador da mostra. “Ele não entra no ateliê de um mestre, não segue uma escola.” Frequenta cursos esporádicos, aqui e ali, mas nada se sustenta. “O problema é o caráter: ele é absolutamente impossível”. O resultado é um aprendizado solitário, feito por tentativa e erro. “A imensa maioria da formação dele aconteceu sozinho”, diz Van der Veen. Até 1885 ou 1886, Van Gogh desenvolve um estilo muito pessoal, ainda ancorado no ambiente em que vive. Leia tambémNunca exibido em público, quadro de Van Gogh é leiloado por R$ 93 milhões em Paris Até então, ele praticamente não havia saído dos Países Baixos. “É uma região com um clima específico: céu baixo, luz difusa, tons mais fechados”, descreve o pesquisador. As cores de sua chamada fase holandesa refletem isso. “São tonalidades mais cinzentas, mais terrosas, e é isso que ele explora”. A virada ocorre quando Theo, seu irmão mais novo, já estabelecido em Paris como marchand de arte, convida-o a se mudar. “Theo seguiu o caminho que Vincent abandonou: o do mercado de arte”, lembra Van der Veen. Paris, naquele final do século 19, era o epicentro da vida artística europeia — e, em muitos sentidos, mundial. Vincent aceita o convite e passa dois anos vivendo com o irmão. Na capital francesa, ele é confrontado com um universo totalmente novo. “Ele descobre as gravuras japonesas, que o marcam profundamente”, observa o curador. O japonismo era uma moda entre artistas e intelectuais parisienses, mas, no caso de Van Gogh, a paixão assume outra escala. “Ele coleciona centenas e centenas dessas estampas”. Além disso, conhece pessoalmente figuras centrais da vanguarda. “Paul Signac, Émile Bernard, Paul Gauguin, Georges Seurat”, enumera Van der Veen. E vê de perto obras de Monet, Degas, Pissarro. “Há, de um lado, a força gráfica e cromática da arte japonesa; de outro, a abordagem científica da cor, como a de Signac.” Tudo isso se mistura. “Esse conjunto de influências vai construir o estilo Van Gogh.” Montmartre: a pintura mergulha no excesso Há, porém, outra influência decisiva, muitas vezes esquecida: a festa. “E todos os excessos que vêm com ela”, ressalta Van der Veen. Montmartre, naquele período, era um território híbrido. “Metade urbano, metade rural”, descreve o curador. Havia jardins, hortas e pequenos campos ainda ativos. “Van Gogh busca motivos tanto desse lado agreste quanto do outro”. Esse outro lado era o da vida noturna. “Os cabarés, os cafés: a Nouvelle Athènes, o Chat Noir, o Rat Mort”, lista Van der Veen. Espaços históricos onde a boemia parisiense se reunia. “A vida não parava, a festa não parava.” Esses lugares reuniam intelectuais, escritores, pintores, atores e poetas. “Era um mundo lendário”, diz o pesquisador holandês. Paris, à época, era amplamente reconhecida como a capital cultural do planeta. “E Montmartre funcionava como o lado alternativo desse grande palco: o espaço da ousadia, do risco, de ir longe demais.” Van Gogh estava no centro disso tudo. “Sua maneira de repensar a pintura, de romper fronteiras, deve muito a essa imersão no caldeirão cultural francês”, conclui o curador. Leia tambémProvável revólver usado em suicídio de Van Gogh é leiloado por € 162,5 mil Auvers‑sur‑Oise, o "país dos quadros" Ao se aproximar do fim da entrevista, o foco se desloca para Auvers‑sur‑Oise, pequena cidade a cerca de 30 quilômetros de Paris. Para o leitor brasileiro, o nome pode soar discreto. Mas, na história da arte, trata‑se de um território decisivo. “Muito antes de chegar a Auvers‑sur‑Oise, Vincent já conhecia a importância do lugar”, explica Van der Veen. “Quando trabalhava no comércio de arte, ele via constantemente obras criadas ali.” Isso se deve à presença, desde 1860, de Charles‑François Daubigny. “Ele era uma espécie de papa da pintura ao ar livre”, observa o curador. Ao se instalar em Auvers, Daubigny cria uma verdadeira colônia artística. “Isso acontece 30 anos antes da chegada de Van Gogh”. O efeito é duradouro. “Corot vem, depois Pissarro, Cézanne”, lembra Van der Veen. Grandes nomes se instalam naquele vilarejo para desenvolver suas pesquisas pictóricas. “São artistas hoje presentes nos maiores museus do mundo.” Auvers torna‑se um laboratório. “É ali que surgem manifestações iniciais

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  4. 24 ABR

    Mostra na Cinemateca de Paris redimensiona mito de Marilyn Monroe nos 100 anos de seu nascimento

    Em 2026, quando Marilyn Monroe completaria 100 anos, a Cinemateca francesa apresenta uma exposição que revisita sua carreira, entre 1946 e 1962. Com figurinos, filmes e arquivos raros, a mostra Marilyn Monroe: 100 anos! conta como a atriz enfrentou contratos abusivos, censura e misoginia no auge de Hollywood. Morta em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn permanece subestimada como intérprete, embora continue celebrada como mito absoluto da cultura do século 20. Na Cinemateca de Paris, principal instituição de preservação do cinema na França, a exposição “Marilyn Monroe, 100 anos” propõe um reencontro com uma figura tão conhecida quanto sistematicamente mal compreendida. Longe de repetir o culto fetichista que costuma cercar a atriz, a mostra parte de uma pergunta incômoda: que tipo de estrela hollywoodiana Marilyn foi, de fato, entre 1946 e 1962, no auge do sistema de estúdios dos Estados Unidos? “Posso ser inteligente quando isso importa, mas a maioria dos homens não gosta disso.” Dita em 1953 no filme Os Homens Preferem as Loiras, a frase escrita por Anita Loos e interpretada por Marilyn funciona como senha e síntese. Ela aponta para o paradoxo central de sua trajetória: celebrada como imagem absoluta de desejo, Marilyn continuou sendo tratada como intérprete menor, mesmo quando diretores e colegas reconheciam publicamente sua inteligência e disciplina. Alfred Hitchcock, por exemplo, resumiu a visão dominante ao afirmar que ela “carregava o sexo no rosto”. Henry Hathaway, em sentido oposto, enfatizava “a inteligência de uma atriz extraordinária, que trabalha muito e quer sempre fazer melhor”. Entre esses dois polos, erguia‑se uma carreira curta, filmada em Technicolor, promovida em telas panorâmicas e atravessada por contratos leoninos. No espaço expositivo, a exuberância visual dos anos 1950 se impõe. Materiais publicitários, figurinos, fotos assinadas por Eve Arnold, Richard Avedon e Andy Warhol compõem o retrato de uma indústria que fabricava glamour ao mesmo tempo em que restringia brutalmente a autonomia de suas estrelas. A curadora Florence Tissot explica que seu ponto de partida foi “mostrar qual estrela hollywoodiana Marilyn Monroe era, e o que isso significava na prática”. "No começo, eu confesso que fiquei bem insatisfeita, porque a gente se depara com uma quantidade enorme de análises que acabam sempre voltando para a biografia dela, interpretando – ou até exagerando – a leitura da vida pessoal. No fim, dá um pouco a sensação de que a gente fica girando em círculo. Então tem também essa questão: como se posicionar diante de todos esses relatos. E depois, outra dificuldade que eu senti foi conseguir acesso aos arquivos", afirmou. Estrela de marketing antes de ser atriz A exposição começa pelas imagens de uma jovem ainda chamada Norma Jean Baker, fotografada como pin‑up enquanto trabalhava em uma fábrica ligada à indústria aeronáutica durante a Segunda Guerra. O sorriso ingênuo, o enquadramento sugestivo e os objetos de conotação claramente fálica revelam, segundo Tissot, “toda a hipocrisia dos anos 50”, quando puritanismo e erotização coexistiam sem constrangimento. Os Estados Unidos viviam a ascensão da revista Playboy e a divulgação do Relatório Kinsey sobre sexualidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, enfrentavam o rigor do Código Hays, um conjunto de regras morais que regulou o que podia ou não aparecer nos filmes produzidos por Hollywood durante mais de três décadas.  Oficialmente chamado de Motion Picture Production Code, ele entrou em vigor em 1930, mas só passou a ser aplicado com rigor a partir de 1934, quando os grandes estúdios concordaram em submeter seus filmes a uma censura prévia.   Leia tambémTemporada excepcional de leilões pode tornar retrato de Marilyn obra mais cara do século 20 Nesse contexto, Marilyn tornou‑se o rosto perfeito de uma sensualidade aceitável, desejável e, paradoxalmente, domesticada. Mas o estereótipo da “loira burra” embutia uma ideia profundamente misógina: a de que beleza, desejo e inteligência não poderiam coexistir em uma mulher. A própria Marilyn denunciou isso em uma rara entrevista à NBC, em 1955, ao afirmar que “as pessoas associam as loiras, verdadeiras ou falsas, à estupidez. Não sei por quê. É uma visão muito limitada”. Ainda assim, esse rótulo estruturou boa parte de seus papéis iniciais. Trabalho, estudo e um talento subestimado Ao contrário da imagem de improviso, Marilyn estudou intensamente, antes mesmo de ingressar no famoso Actor’s Studio, em Nova York. "Na verdade, desde o começo ela já fazia aulas, por vontade própria. Estudou canto, dança, interpretação e mímica e pantomima", conta Florence Tissot. "Isso não é muito conhecido, mas é importante lembrar, sobretudo diante dessa imagem de atriz meio inconsequente que se criou em torno dela. Na prática, ela queria ser uma boa atriz – isso era fundamental para ela. Era uma pessoa muito determinada", aponta a curadora. Em filmes como Quando a Cidade Dorme e A Malvada, ambos de 1950, Marilyn aparece pouco, mas críticos como James Naremore identificam ali uma intérprete capaz de condensar medo, raiva, sedução e vulnerabilidade em poucos segundos. “Mesmo com cenas breves, ela empurra os limites dos personagens que lhe eram oferecidos”, observa Tissot. Essa dedicação raramente foi reconhecida. As histórias de bastidores, quase sempre narradas do ponto de vista dos diretores homens, consolidaram a imagem de uma atriz atrasada, indisciplinada e emocionalmente instável. Billy Wilder foi um dos que mais vocalizaram esse discurso, ecoado com especial força na crítica francesa do pós‑guerra. Contratos abusivos e uma batalha desigual Em 1953, no auge do sucesso de Os Homens Preferem as Loiras, Marilyn recebeu um salário significativamente menor que o de Jane Russell, sua parceira de cena. Os contratos de exclusividade de sete anos davam aos estúdios o poder de decidir se e quando uma atriz trabalharia. “Eram contratos abusivos”, afirma Tissot, “e Marilyn foi muito mal remunerada durante grande parte da carreira”. A partir de meados da década, ela passa a renegociar. Luta por salários mais altos, pelo direito de escolher papéis e diretores, e cria sua própria produtora. Conquista vitórias parciais, mas nunca alcança a autonomia de estrelas como Mae West. Mesmo em seu último projeto, Something’s Got to Give, Marilyn ganhava menos que colegas homens e menos que Elizabeth Taylor. O preço dessa rebeldia foi alto. Segundo Tissot, a indústria responde com um backlash: a loira ingênua cede lugar à mulher neurótica, problemática, instável. Filmes como A Loira Explosiva ridicularizam justamente sua tentativa de se emancipar. Leia tambémLivro publica confissões e trechos de diários de Marilyn Monroe Entre a transgressão e o castigo A cena da saia branca levantada pelo metrô, em O Pecado Mora ao Lado, sintetiza esse conflito. Filmada em 1954, diante de milhares de curiosos, ela violava simbolicamente o Código Hays e gerou uma das imagens mais reproduzidas da história do cinema. Tissot optou por abrir a exposição não com o vestido da cena, mas com fotos da multidão, sublinhando o caráter espetacular e exibicionista da operação. A imagem eclipsou o próprio filme. “O material promocional da estrela passa a se sobrepor à obra”, observa a curadora. Marilyn era, ao mesmo tempo, instrumento de transgressão e alvo de punição moral. "No fundo, isso mostra toda a complexidade que envolve uma estrela como a Marilyn Monroe. Na França, algo parecido aconteceu com a Brigitte Bardot. É uma década cheia de contradições: ao mesmo tempo em que começa um movimento de emancipação das mulheres, existe um discurso constante que reduz essas figuras à sexualidade. E, no contexto norte-americano, isso se soma a um certo puritanismo. Então fica claro que a imagem da Marilyn Monroe está presa nessa espécie de armadilha", analisa Tissot. Nos anos finais, em filmes como Quanto Mais Quente Melhor e Os Desajustados, a vulnerabilidade passa ao primeiro plano. Sua morte, em 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, encerra a carreira e inaugura outra coisa: a administração incessante de seu mito. Um mito sem arquivo A curta carreira e a morte precoce dificultaram o trabalho histórico, segundo a curadora. Os pertences de Marilyn foram leiloados e se dispersaram por coleções privadas. Contratos, cartas e objetos raramente estão acessíveis. “Isso explica por que as lendas continuam tão fortes”, diz Tissot. “Há excesso de discurso, mas pouco acesso aos documentos.” A exposição, ao contextualizar imagens, filmes e discursos, não busca absolver nem vitimizar, e, segundo a curadora, pretende recolocar Marilyn Monroe como sujeito histórico, atriz trabalhadora e figura central para entender como Hollywood fabricou suas estrelas – e como as descartou. A mostra fica em cartaz em Paris até 26 de julho de 2026.

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  5. 18 ABR

    80° Festival de Avignon marca retorno de Wagner Moura ao teatro após 16 anos fora dos palcos

    Entre 4 e 25 de julho, o sul da França volta a se transformar em um dos principais epicentros das artes cênicas do mundo com a 80ª edição do Festival de Avignon, sob a direção do português Tiago Rodrigues. À frente do evento desde 2023, ele propõe um método: "fazer perguntas", "sustentar dúvidas" e "recusar respostas fáceis" num tempo de "discursos violentos". É também o retorno de Wagner Moura aos palcos, um reencontro com o teatro que acontece no maior festival do gênero no mundo. A imagem escolhida para o cartaz oficial desta edição do Festival de Avignon sintetiza a intenção de Tiago Rodrigues: um enorme ponto de interrogação. Tiago Rodrigues explica que “o questionamento foi uma forma bastante livre de nós darmos um tema a este festival, de relembrarmos o público que este festival faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo, ao chegar à 80ª edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, e perguntar, agora, o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival? Essa é uma das perguntas que nos interessa”. A proposta, segundo ele, não é retrospectiva, mas prospectiva, um deslocamento do olhar para o que ainda pode ser construído. Esse gesto se desdobra na própria definição do papel do festival. Para Rodrigues, trata-se de “fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte”, lembrando que “é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos nós, os artistas, mas também o público, que é isso que nós fazemos aqui num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas, mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas”. Leia tambémDezenas de igrejas se convertem em teatros na 'Cidade dos Papas' durante o Festival de Avignon Nesse contexto, o festival se coloca como espaço de fricção e elaboração coletiva, onde “queremos colocar as boas perguntas, perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência”, já que, segundo ele, “as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que dobra a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita. Esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira A dimensão política dessa proposta se articula também a uma reflexão sobre o acesso à cultura. Rodrigues afirma que “o acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade, feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso”. E conclui: “se fosse fácil, não era um serviço público, é um serviço público, a cultura, porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar”. É nesse cenário que a presença brasileira ganha centralidade nesta edição histórica. Entre os destaques está a diretora e dramaturga Christiane Jatahy, que retorna ao festival com um novo trabalho - Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo - ao lado do ator Wagner Moura, com texto de Jatahy, Moura e Lucas Paraizo, marcando também o retorno do ator ao teatro, após 16 anos dedicados ao cinema e à televisão, período em que se tornou uma das figuras brasileiras de maior projeção internacional. Ao comentar o retorno de Jatahy ao festival, Rodrigues sublinhou a relação de longa data entre a artista e Avignon, bem como a força do novo projeto que ela apresenta ao lado de Wagner Moura. Segundo ele, “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, e que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos com as suas adaptações do repertório”. Rodrigues destaca ainda o caráter inédito da parceria artística apresentada nesta edição: “desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica e televisiva e neste momento é talvez o ator brasileiro mais conhecido no mundo”. Para o diretor, o reencontro de Moura com o palco tem um peso simbólico particular, sobretudo pela forma como se articula com o trabalho da encenadora brasileira. Sobre o projeto, Rodrigues reforça a dimensão de retorno ao essencial do ofício do ator: “é muito comovente ver Wagner Moura a regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de ator”. De volta ao festival Jatahy descreve esse retorno a Avignon como profundamente significativo, especialmente por ocorrer sob a direção de Rodrigues. Ela afirma que “é muito importante, muito legal pra mim e muito significativo estar voltando para Avignon agora sob a direção do Tiago Rodrigues, que é um artista que eu tenho muita relação, um amigo e alguém que eu respeito muito, e eu fico muito feliz de estar dentro da programação criada por ele e pela Magda [Bizarro, mulher do diretor e co-fundadora, a seu lado, da Cia Mundo Perfeito]”. Para a diretora, o contexto atual amplia ainda mais o alcance simbólico de sua participação, já que “essa volta está conectada também à união de três festivais, o Festival de Avignon, o Festival de Edimburgo e o Holland Festival, que escolheram este ano uma artista, um trabalho para apoiar e para juntar forças para que esse trabalho possa ter sido realizado”. Leia tambémTeatro: Christiane Jatahy revisita fantasmagorias de 'Hamlet' em Paris com seu maquinário de revolução e desejo No centro da criação está o reencontro artístico com Wagner Moura, que, segundo ela, carrega uma longa expectativa compartilhada: “vem também com uma outra parceria muito significativa com ele, que é um ator com quem eu tenho uma relação de muito tempo e é muito tempo que a gente deseja fazer um trabalho juntos”. O projeto nasce dessa convergência, como ela define, “é um trabalho muito sobre o nosso encontro e sobre as coisas que a gente tem vontade de falar”. A peça, que se estrutura em torno da ideia de julgamento e da "crise contemporânea da verdade", parte de uma inquietação contemporânea sobre verdade e política. Jatahy explica que “a gente entra na questão do julgamento, a gente leu muitas coisas, a gente pensou muitas coisas, e para mim sempre é muito importante que o trabalho esteja numa reflexão, numa conexão, lançando perguntas sobre o que a gente está vivendo hoje”. Ela acrescenta que “claro que é sempre um aspecto íntimo e pessoal, mas também é político, porque não tem como separar uma coisa da outra”, situando o trabalho num campo em que a criação artística se confunde com a leitura crítica do presente. Essa dimensão se radicaliza na própria estrutura dramatúrgica da peça, que se relaciona diretamente com a obra “O Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Jatahy descreve o projeto como “um desdobramento de O Inimigo do Povo, uma possibilidade de continuidade dessa peça”, como se o personagem Thomas Stockmann “fosse à cena, fosse ao teatro, pedir a possibilidade de ter a sua defesa e de ter a sua reparação, e essa decisão vai caber ao público”. Nesse movimento, a obra transforma o espectador em instância de julgamento, deslocando o eixo tradicional da representação teatral. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A outra grande presença brasileira no festival é a artista e encenadora Carolina Bianchi, que retorna a Avignon após sua revelação em 2023. Agora, ela apresenta o terceiro capítulo de sua trilogia “Cadela Força”, intitulado “Uma Luz Cordial”, além de propor uma maratona que reúne os três trabalhos em sequência. Diretora brasileira lançada pelo festival volta a Avignon Ao lado desse reencontro, o diretor Tiago Rodrigues também destacou o percurso de Carolina Bianchi, que regressa a Avignon após o impacto de sua participação em 2023. Rodrigues relembra a presença e o desdobramento internacional da artista: “o que aconteceu a seguir é do conhecimento geral, Carolina Bianchi depois desse espetáculo ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival”. Sobre o novo projeto apresentado no festival, o diretor destaca a ambição dramatúrgica da artista brasileira: “ela sonhava fazer uma trilogia com três espetáculos consagrados à questão da violência, sobretudo da violência contra as mulheres”. Bianchi define esse retorno como o fechamento de um ciclo longo de investigação: “é muito, muito emocionante estar voltando para Avignon, sobretudo encerrando a trilogia, chegando em julho para estrear o último capítulo desse grande ciclo, que tomou muitos anos de trabalho, de estudos e de investigação”. Ela descreve a estrutura do projeto como algo em constante expansão, no qual “são três peças independentes, mas que são atravessadas por perguntas que vão se acumulando, que vão se borrando, que vão se confundindo, voltando, gerando novas questões”, configurando um campo de criação em que as fronteiras entre obras se tornam porosas. O novo capítulo, explica ela, desloca o foco para o próprio ato de escrever. “Uma Luz Cordial é uma peça sobretudo sobre a escrita, sobre esse lugar de onde a gente escreve”, afirma, acrescentando que se trata de um trabalho que poderia inclusive anteceder os demais, pois

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  6. 10 ABR

    Fios do agreste: irmãs Petuba apresentam arte da memória em exposição em Paris

    Entre tecidos, bordados e pequenas bonecas de pano, a obra das irmãs Petuba, do agreste de Alagoas, chega a Paris como um convite à travessia estética, cultural e simbólica. Em exposição no centro cultural Halle Saint-Pierre, no bairro de Montmartre, o trabalho das artistas brasileiras confronta categorias europeias como “arte bruta” e propõe um deslocamento de olhar: da racionalidade à imaginação, da padronização à singularidade, da escassez material à abundância criativa. A presença das artistas no circuito europeu nasceu de um encontro inesperado. “Toda essa exposição começa por um curador de arte bruta que visitou a nossa galeria no Rio para conhecer os trabalhos”, conta Isabela Carpena, pesquisadora e diretora da galeria carioca Nau Cultural, especializada em arte popular brasileira. O contato com o curador abriu “uma porta totalmente nova”, diz, ao colocá-los diante de conceitos “completamente diferentes dos nossos”. Foi nesse diálogo que o trabalho das irmãs Petuba chamou atenção imediata. Ainda assim, ela relativiza as classificações: “Na nossa galeria, a gente está num limite entre naïf, folk art e arte bruta, porque há várias nuances entre essas categorias”. Entre categorias europeias e identidade brasileira Se na França o enquadramento tende a passar pela arte naïf ou bruta, no Brasil a leitura é outra. “Lá a gente traz esse conceito de arte popular”, explica Felipe Pithan, que dirige a galeria junto com Carpena. “São pessoas do povo, trabalhadores, muitas vezes de locais afastados, que não passam por formação formal. É uma educação cultural transmitida dentro das comunidades.” Para ele, o trabalho das irmãs Petuba expressa algo mais profundo. “É uma arte que traz o espírito do povo mesmo.” Nos painéis, diz, estão presentes memórias das tradições artesanais do Nordeste: “Os potes de barro feitos à mão, o cordel cantado”. Mais do que representação, trata-se de um gesto de preservação. “Há uma preocupação muito grande em compartilhar e eternizar essa memória.” Essa dimensão ganha ainda mais força no contraste com o presente. “Num mundo em que tudo é acelerado e padronizado, vejo esse trabalho como um convite a valorizar outro tempo, outra forma de viver e produzir”, afirma Pithan. Do sertão à capital francesa: uma travessia estética Levar essa produção a Paris, no entanto, não é um gesto neutro para os organizadores. “Certamente é um desafio”, reconhece Felipe. “Aqui a gente vê uma cidade com cores muito similares. Quando você entra e vê esse multicolor, isso põe em xeque a própria forma como a cidade se constrói.” Ele levanta uma dúvida que atravessa a recepção da exposição: “Será que o parisiense vai entrar aqui e achar que isso é uma arte válida?” Para o pesquisador, o impacto está justamente nesse deslocamento. “A gente propõe isso como uma travessia. A pessoa tem que sair de uma margem e ir para outra.” Essa travessia também passa pela recusa de certos rótulos. “A arte delas não se vê como periferia”, afirma. “É o agreste, o Nordeste, a cultura delas no centro da imagem.” Ao fazer isso, ele acredita que o trabalho desafia “valores mais convencionais” do circuito europeu. Viagem e "apaixonamento" O encontro com as artistas foi resultado de uma longa jornada. Em 2019, pouco antes da pandemia, Isabela e Felipe percorreram mais de 8 mil quilômetros pelo Nordeste em uma Kombi, em busca de núcleos de arte popular. “As irmãs Petuba eram um sonho antigo”, lembra Isabela. “A gente conhecia o trabalho por livros.” Quando finalmente chegaram até elas, o impacto foi imediato. “Ficamos completamente apaixonados”, diz. “É um suporte totalmente singular, um trabalho autêntico, cheio de camadas e significados.” Felipe reforça que o encantamento ultrapassou a obra. “Foi um apaixonamento não só pela arte, mas pela personalidade. As três são figuras únicas. Vai demorar para nascer outras iguais.”  Técnica, memória e invenção A singularidade do trabalho começa pelo processo criativo. “Elas são muito intuitivas, não planejam”, explica Isabela Carpena. “Vão construindo a paisagem a partir do encontro com os materiais.” Os tecidos variam – seda, brim, malha – e recebem bordados que “pontilham” as imagens. Um dos elementos mais marcantes são as pequenas bonecas de pano, que criam relevo nas obras, segundo a também pesquisadora de arte popular brasileira. “Elas têm uma conexão direta com a vida das artistas, porque a mãe produzia essas bonecas e elas brincavam com elas”, diz Isabela. “Os quadros têm muitas camadas de memória.” Essa memória aparece tanto no conteúdo quanto na técnica. “A própria forma como elas inventaram essa estética já é uma composição de memórias”, afirma. Arte como resistência e imaginação Do ponto de vista técnico, Felipe Pithan descreve o trabalho como “costuras aplicadas”, feitas a partir de retalhos. Mas insiste que o essencial está em outro lugar. “A imagem é sempre aquilo que elas querem. Elas não se submetem a outros imaginários.” Esse imaginário é profundamente enraizado no território. “É o Nordeste, o agreste, esse emaranhado cultural formado por mouros, ibéricos, ciganos, povos originários e afrodiáspóricos”, explica. “O agreste é uma encruzilhada cultural.” Nesse sentido, a obra das irmãs Petuba também é política, segundo os diretores da Nau Cultural. “É um projeto que combate o apagamento dessas narrativas”, afirma Felipe. “Uma fronte contra um mundo de desencantamento.” Ao revisitar a memória pela arte, ele conclui, o trabalho transforma o documental em algo vivo: “ganha ares de ficção, é renovado pela imaginação”. "Reencantamento" Para a Nau Cultural, levar esse trabalho ao exterior também é um gesto consciente. “A gente tem uma pegada decolonial ao fazer uma exposição assim, de trazer essa arte viva brasileira”, diz Isabela. “É o que move o nosso trabalho.” Ela vê nesse movimento uma resposta histórica. “Todo esse processo colonial apagou, maltratou, tirou o poder de muitos povos. Agora é o momento de trazer esses povos de volta. Esses frutos rebrotaram – parecia que a árvore tinha morrido, mas não morreu.” No caso das irmãs Petuba, esse gesto aparece na própria obra. “O trabalho delas é um manifesto decolonial”, afirma. “A região onde vivem ficou muito mais tempo isolada da globalização. A modernidade chegou tarde, e ainda está chegando lentamente.” Isso permitiu a preservação de múltiplas matrizes culturais. “A gente consegue enxergar ali um Brasil pré-colonial, até medieval”, diz. “É um grande caldeirão cultural que o Nordeste representa, uma realidade singular, de outro tempo.” Felipe Pithan recorre a um poema para sintetizar essa perspectiva. Ele cita Nego Bispo: “Quando nós falamos tagarelando e escrevemos mal ortografado, quando nós cantamos desafinando e dançamos descompassado, quando nós estamos borrando e desenhamos enviesado, não é porque estamos errando, é porque não fomos colonizados.”

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  7. 27 MAR

    Temor de retorno da extrema direita ao poder marca participação do Brasil no Cinélatino, em Toulouse

    A 38ª edição do festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, termina neste sábado (28) reafirmando seu papel como espaço de forte engajamento político. Para os participantes brasileiros, o evento também funciona como um canal para denunciar os riscos ao setor cultural diante da possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse Essa preocupação também pode ser vista nos filmes brasileiros que fazem parte da programação do Cinélatino. Na categoria de longa-metragem de ficção, "A Vida Secreta de Meus Três Homens", de Letícia Simões, mistura as trajetórias de personagens de sua família com recortes de determinados momentos da história recente do Brasil, como o regime militar, do qual seu pai foi um colaborador. Em entrevista à RFI, Letícia se diz assustada com a distorção das narrativas sobre o período que vieram à tona durante o governo de Jair Bolsonaro. "Eu fui um alvo muito visível, como mulher, negra e nordestina. Eu assisti à emergência de um pensamento sobre a ditadura como algo que deveria corrigir o Brasil”, diz. A cineasta aponta a mudança de comportamento em relação aos chamados "Anos de Chumbo" entre a época em que cresceu, nos anos 1990, e atualmente. “Antes as pessoas diziam: 'a gente não quer reviver isso, a gente precisa construir uma democracia'. Mas estamos em 2026 e precisamos que os filmes voltem a falar sobre isso porque ou as pessoas querem fingir que a ditadura não existiu ou efetivamente a sociedade não a abordou da forma como deveria ter sido abordada", reitera. Outro concorrente na categoria de longa-metragem de ficção no Cinélatino é "Ela foi ali guardar o coração na geladeira", que conta a história da filha de uma presa política brasileira sequestrada quando bebê, e que busca a sua familia biológica. Para Gustavo Galvão, que dirige o filme junto com Cristiane Oliveira, a manutenção da memória no Brasil requer um exercício permanente. "Quanto mais distante vai ficando um fato, mas fácil é distorcer e refazer a sua narrativa, então é um processo de vigilância mesmo. A gente espera que se fale mais, cada vez mais”, afirma. “Perguntaram pra gente aqui no Cinélatino sobre o ‘Ainda Estou Aqui’, como poderiam ter perguntado sobre 'O Agente Secreto'. Mas um filme sozinho não vai resolver nada, por mais popular que seja e que ganhe um Oscar. Tem que ser feito realmente um trabalho constante", defende. Classe artística "apavorada" O longa-metragem "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata na Berlinale de 2025, é exibido na sessão Reprises do Cinélatino. O filme retrata um Brasil distópico e ultra-autoritário, em que idosos quando completam 77 anos são enviados pelo governo a colônias compulsórias. Em entrevista à RFI, Denise Weinberg, que interpreta Tereza, a protagonista do longa, lembra que durante a pandemia de Covid-19, o Brasil chegou perto de viver um drama similar ao exibido em “O Último Azul”, quando o governo Bolsonaro flexibilizou as regras trabalhistas para que milhões de pessoas continuassem ativas, mesmo sob risco elevado de contaminação. A atriz afirma que a classe artística está "apavorada", segundo suas palavras, com a possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. "Apesar de Bolsonaro ter sido preso e estar no hospital, existe a família Bolsonaro que é um clã de mafiosos. Estamos em um limite perigosíssimo, porque se a extrema direita entrar, vai ser impossível, porque já está difícil. Para o teatro, por exemplo, esta muito mais difícil do que para o cinema”, avalia. Segundo ela, o clima de tensão já recomeçou a se instalar no país. “O medo é enorme de saber o que vem por aí, porque no Brasil tudo é possível. Nós fomos governados por pessoas completamente psicopatas. Eu jamais conseguiria imaginar que quando eu chegasse aos 70 anos eu iria reviver isso", completa. Era da pós-verdade A atriz e cineasta mineira Grace Passô está em Toulouse competindo com "Nosso Segredo", seu primeiro longa-metragem. No trabalho, ela conta a saga de uma família negra que tenta se reconstruir após uma perda de um de seus integrantes. Apesar da preocupação com essa pré-campanha eleitoral, ela mantém seu otimismo em relação ao futuro. “É de novo um momento muito tenso nessa era da pós-verdade que a gente vive, onde a gente não sabe que tipo de guerra narrativa vai vir, que nível de absurdo a gente vai viver. Mas acho que há um processo com o governo Lula de regeneração da ética brasileira em algum lugar”, observa. “Eu tenho uma esperança muito grande de que a maioria da população consiga perceber que existem ainda acordos éticos ligados à noção de democracia que foram restaurados e que, sem eles, estamos perdidos, muito mais do que já estivemos", reitera. Cinco curtas brasileiros também concorrem neste ano em Toulouse. Dois documentários, “Copan”, de Carine Wallauer, e “Pau d’Arco”, de Ana Aranha, são exibidos na mostra Découvertes (Descobertas). O festival Cinélatino encerra sua 38ª edição com a entrega de prêmios neste sábado (28).

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  8. 21 MAR

    De fake news à ancestralidade: brasileiros são destaque em festival de fotografia parisiense

    A 16ª edição do Festival Circulation(s), dedicada à jovem fotografia europeia, acontece no CENTQUATRE-PARIS (104) Este ano, o evento destaca o trabalho de 26 artistas de 15 nacionalidades, incluindo dois fotógrafos brasileiros que trazem reflexões profundas sobre identidade e política: Rafael Roncato e Ricardo Tokugawa. Ambos trabalham entre Brasil e Europa. Patrícia Moribe, em Paris A curadora brasileira Iona Mello, que passou a integrar a direção artística do coletivo Fetart nesta edição, organizador do festival, é a responsável por apresentar os trabalhos de Tokugawa, do italiano Davide Degano e da irlandesa Ellen Blair. Ao explicar o que norteia a seleção dos artistas, Ioana ressalta que o festival busca uma fotografia emergente, priorizando nomes que ainda não possuam grandes exposições na França, além de focar na diversidade de olhares, temas e suportes. Segundo a curadora, o objetivo é "mostrar uma fotografia europeia de norte a sul e temáticas diferentes, mídias diferentes", garantindo também a paridade de gênero entre os participantes. O trabalho de Ricardo Tokugawa, intitulado “Utaki” mergulha nas raízes de sua ancestralidade como descendente de imigrantes de Okinawa no Brasil. O artista utiliza a fotografia para questionar sua própria identidade em um cruzamento de culturas que nem sempre lhe oferece um lugar de pertencimento absoluto. "Por mais que o Brasil hoje em dia seja a maior comunidade japonesa fora do Japão, lá eu não sou visto como brasileiro. No Japão eu não sou visto como japonês. Então eu venho da onde? Quem sou eu?", indaga Tokugawa ao descrever as motivações de seu projeto, que utiliza imagens construídas para interrogar o que é tradição e o que é invenção. Política da desinformação A presença brasileira se estende ao projeto de Rafael Roncato, “Tropical Trauma Misery Tour”, que contou com a curadoria de Emmanuelle Halkin. Ela descobriu o trabalho de Roncato durante o festival Foto em Pauta, em Tiradentes (MG), e percebeu como a análise do artista sobre a ascensão da extrema direita no Brasil ressoava com o cenário político francês e europeu. Ela destaca que as imagens de Roncato, marcadas por uma estética "pop" e abertamente pós-produzidas, dialogam perfeitamente com a era da pós-verdade, criando uma "cenografia alternativa e singular" que é marca registrada do Circulation(s). Roncato define sua obra como uma instalação que disseca a propaganda digital e o caos das informações manipuladas. O artista explica que o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018 serviu como um "trampolim midiático" para a criação de um mito fundamentado em notícias falsas e polarização. Para evitar a propagação direta da imagem do político, Roncato utilizou um ator holandês para performar gestos e roupas que remetem a figuras populistas globais. Ele destaca a ideia da ilusão e das informações falsas.  “Parece que é, mas não é. E é isso", afirma o fotógrafo, que também é jornalista e busca, através do humor e do riso nervoso, uma forma de superar e refletir sobre temas sociais complexos. Além dos brasileiros, o festival dedica um foco especial à  Irlanda, apresentando séries de quatro artistas — Ellen Blair, Clodagh O’Leary, Dónal Talbot e Ruby Wallis — que exploram desde a alegria queer até memórias políticas de territórios em conflito. Outros destaques da edição incluem Marcel Top, que investiga a resistência contra algoritmos de vigilância, e Alžběta Drcmánková, que transforma imagens digitais em bordados táteis para meditar sobre a fragmentação da memória. Vitrine plural para a criação contemporânea, o festival acontece entre 21 de março e 17 de maio de 2026.

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Acerca de

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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