Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

  1. HACE 1 DÍA

    Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios

    Este ano, as ruas de Paris permanecerão em silêncio durante o período carnavalesco, após o cancelamento definitivo do desfile de rua que vinha sendo organizado pela associação Droit à la Culture (Direito à Cultura), por falta de recursos financeiros e voluntários. Mas o espírito carnavalesco se transforma, virando resistência na periferia ou uma grande festa de amor à beira do Sena. Patrícia Moribe, da RFI em Paris O carnaval de rua em Paris tem suas raízes no século 11, com festejos intermitentes. Abalados pelas guerras, os festejos foram interrompidos na década de 1950, sendo retomados no final do século 20, até a última edição, em 2025. Adriana Facina, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional, professora convidada do IHEAL (Instituto de Altos Estudos da América Latina), em Paris, participou de um estudo comparativo entre 2024 e 2026 sobre as conexões entre coletivos artísticos das periferias do Rio de Janeiro e de Paris, especificamente em Saint-Denis e Stains. Em parceria com a historiadora Silvia Capanema, da Universidade Paris Nord, a pesquisa investigou grupos como o Loucura Suburbana, no Rio, e o Action Créole, que organiza o carnaval de Stains (a 25 quilômetros de Paris), para entender como a cultura supre a ausência de organizações tradicionais. "A gente entende esses coletivos como novos tipos de movimentos sociais contemporâneos, num contexto de enfraquecimento de sindicatos e de formas de partidos populares", disse, em que a arte serve para "produzir uma reivindicação política em seus territórios, no sentido de garantir direitos básicos para a população das camadas populares". Ancestralidade Essa profundidade política e social do ritmo é corroborada pelas pesquisas do musicólogo Lameck, baseado em Paris, que estuda a ancestralidade da música afro-brasileira. Para ele, é essencial entender que "o samba nasce durante a escravidão" e que, em sua origem, não era um ritmo puramente alegre, mas sim um "grito de lamento" nascido no cativeiro. Lameck destaca que a palavra samba significa "reza" no dialeto kimbundo e que a dança e a percussão são linguagens de comunicação para momentos de introspecção e espiritualidade, e não apenas para a festividade vista pelo olhar externo. A pesquisa dos subúrbios do Rio e Paris virou exposição, "Os vagalumes: arte, cultura e esperança nas periferias urbanas do Rio e Paris", em cartaz até 13 de março, no campus da Universidade Paris Nord. Amor sem pressão no Sena Enquanto a periferia se organiza politicamente, o centro de Paris verá o Carnaval ocupar o rio Sena por meio do Baile Bom Brazilian Kiss, no barco Le Mazette. A agitadora cultural Rosane Mazzer, com mais de 30 anos de atuação na França, decidiu aproveitar a coincidência da data com o Dia dos Namorados local (Saint-Valentin) para propor uma subversão: "decidimos inventar uma festa de amor aberto aos amigos e tirar essa pressão de Saint-Valentin, que é uma coisa meio chata. Vamos fazer uma amação geral".  As atrações do Baile Bom prometem uma imersão completa na cultura brasileira contemporânea. A programação inclui aulas de samba com Wellington Lopes, a interferência percussiva de 15 integrantes da Batalá Batucada e vários DJs. Para quem gosta de desfile na rua, a prefeitura de Paris confirmou para o próximo dia 5 de julho mais uma edição do Carnaval Tropical de Paris, na avenida Champs-Elysées, um evento que destaca grupos de música e danças tradicionais principalmente das Antilhas (Guadalupe, Martinica, Reunião e Guiana). No ano passado, marcado pela Temporada França-Brasil, o carnaval brasileiro foi o convidado de honra.

    6 min
  2. 6 FEB

    Documentário de Felipe Casanova ganha prêmio em festival francês; outros curtas brasileiros concorrem

    O Festival de Clermont-Ferrand, vitrine mundial da produção de curtas-metragens, entra na sua reta final com a divulgação dos primeiros prêmios concedidos por parceiros do evento. Entre os títulos já anunciados, o curta “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, do cineasta suíço-brasileiro Felipe Casanova, foi escolhido como melhor documentário pelo júri da plataforma Tënk. O filme se organiza em torno da carta de uma mãe ao filho morto, ambientada durante o Carnaval carioca, e entrelaça luto, violência policial de Estado e celebração popular.  Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand Nas seleções oficiais do festival, “O Rio de Janeiro Continua Lindo” concorre na mostra Labo, dedicada às obras mais inovadoras. Outros três curtas brasileiros estão na disputa: “Frutafizz”, de Kauan Okuma Bueno, selecionado para a competição internacional; “Mira”, de Daniella Saba, e “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli, ambos na mostra de filmes com produção francesa. Os vencedores serão anunciados neste sábado (7). Casanova mudou-se para a Suíça com a família quando tinha 9 anos e estudou cinema na Bélgica. Ele contou à RFI que o filme nasceu de uma intuição inicial e de uma decisão simples: filmar o Carnaval carioca em Super 8. “Para ser sincero, eu não sabia que ia ser um filme sobre violência policial. É o primeiro filme que eu faço no Brasil. Eu tinha vontade de ir com a câmera e filmar e decidi que ia ser durante o Carnaval.” O ponto de partida dramático – a carta de uma mãe para um filho ausente – já estava nos esboços iniciais. “Eu tinha uma intuição de um filme-carta, de uma mãe que trabalha durante o Carnaval e escreve para o filho que talvez esteja festejando num bloco que a gente nunca vê. Já tinha essa ideia de ausência. Eu sabia que ia ser uma coisa social, mas não fazia ideia que ia ser sobre violência policial.” Do filme-carta ao impacto da história de Bruna A virada surgiu quando o diretor encontrou as ambulantes Ilma e Bruna. “A Bruna me contou a história dela, falando que perdeu o filho assassinado em 2018 pela Polícia Militar. Fiquei muito tocado e chocado. Eu sabia que isso acontecia sempre, mas nunca tinha conversado com uma mãe que perdeu o filho assim”, relata o cineasta. Bruna mostrou ao diretor as cartas que escrevia ao filho, assim como de outras mães, e a roupa que usou no desfile da Portela em 2024, que convidou 16 mães que perderam seus filhos para “a violência de Estado”. Filmado em Super 8 e construído como documentário, o curta articula presente e passado ao trabalhar com imagens de arquivo da ditadura militar. Para Casanova, essa ponte histórica é central: “É uma situação que é de hoje, mas também é de ontem, de 20, 30, 100 anos atrás. Uma mãe preta que perde seu filho é uma coisa que está presente há muito tempo.” O uso do arquivo, explica, dá forma a uma “carta atemporal” e convoca “os fantasmas da nossa sociedade”: “Essa violência policial de hoje acho que é uma herança que vem da ditadura militar.”  O Carnaval aparece como contraponto simbólico. “O Carnaval também tem todas essas camadas da história brasileira – da colonização, do tempo dos escravos –, ele carrega tudo isso. O samba vem da tristeza”, lembra o diretor, citando Vinícius de Moraes. “Um bom samba é uma forma de oração. Acho que o samba traz essa energia, essa luta. Vamos transformar isso em outra coisa, e o filme carrega essa identidade.” “Frutafizz” na competição internacional Em seu primeiro curta-metragem profissional, “Frutafizz”, Kauan Okuma Bueno narra a viagem de dois colegas pelo interior de São Paulo, explorando memória e pertencimento. Selecionado para a competição internacional de Clermont-Ferrand após vencer o Kikito de melhor curta em Gramado, o filme chega ao público francês carregado da emoção do diretor. “Me sinto muito lisonjeado, não só na parte de distribuição, mas desde sempre – como foi feito esse projeto. Significa para mim trazer um recorte da cultura brasileira para pessoas que não têm tanto acesso ou que não consomem tanto do Brasil.” Kauan destaca o caráter coletivo da obra. “É um filme que foi se moldando com o processo, a partir da memória de todo mundo que estava ali – amigos, veteranos, professores. Gosto de parafrasear o Adirley Queiroz: ‘Da nossa memória, fabulamos nós mesmos’. O filme abraça muito essa ideia.” O título surge de um refrigerante da infância do protagonista. “Ele não sabe dizer o gosto porque o gosto não importa de fato. O que importa é o que aquilo representa. Nós somos feitos de histórias incompletas e a gente tenta preencher isso com sentimento e valor.” Anthony França Brown, roteirista do curta, reforça o caráter plural da criação: “Hoje em dia, para você fazer um filme, tem que estar envolvido em todas as áreas. São recortes de memórias e experiências de várias pessoas que fazem parte desse coletivo que foi o roteiro.”

    8 min
  3. 4 FEB

    Martin Parr: exposição de fotógrafo inglês em Paris mostra turismo desenfreado e hiperconsumismo

    A exposição “Global Warning”, em exibição no Jeu de Paume, em Paris, até maio de 2026, oferece uma perspectiva analítica e satírica ao mesmo tempo sobre a obra de Martin Parr, que morreu em 5 de dezembro do ano passado, aos 73 anos. O título da mostra faz alusão ao termo aquecimento global (global warming, em inglês), para sinalizar um alerta sobre o estado do mundo contemporâneo.   Patrícia Moribe, da RFI em Paris O curador da mostra e diretor da instituição parisiense, Quentin Bajac, explicou à RFI que o foco da mostra recai sobre os "disfuncionamentos de nossas sociedades", que estão na origem de muitos desequilíbrios climáticos. “Propus o tema a Martin Parr há uns dois anos e ele aceitou na hora”, conta Quentin Bajac. “Ele estava bastante empolgado com a ideia de fazer uma exposição talvez um pouco mais séria sobre o trabalho dele do que o habitual. E então, trabalhamos juntos, fizemos a seleção das obras juntos. Depois, ele me deixou cuidar de toda a parte de cenografia da exposição, pesquisa de autores para o catálogo etc. Mas durante um ano e meio, a gente se comunicou regularmente sobre o projeto.” “Martin trabalhou sobre temas sérios e, em particular, sobre os disfuncionamentos, eu diria, de nossas sociedades ocidentais, Europa e Estados Unidos e, em seguida, ocidentalizadas, como China, Oriente Médio etc. São disfuncionamentos que estão na origem de muitos dos desequilíbrios climáticos, como o consumo excessivo, o turismo planetário, nossa relação com os animais, que também é um eixo da exposição, nossa relação com a tecnologia, o smartphone, o carro, telas de todos os tipos, a maneira como modificamos as paisagens”, acrescenta Bajac. Martin Parr em São Paulo Essa visão crítica e irônica sobre a sociedade de consumo também foi o pilar da exposição "Parrtifícial", realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, em 2016 sob a curadoria de Iatã Cannabrava. “Foi uma doideira”, relembra o fotógrafo e curador brasileiro. “Logo na entrada de um salão grande com um pé direito triplo, tinha lá ele, em vídeo, falando assim: 'Venha para este mundo de consumo, lembrando que você também é um produto'”. Para o curador, a genialidade de Parr residia na sua capacidade de inclusão, observa que o fotógrafo e sua esposa chegaram a posar para o livro Bored Couples (Casais Entediados), dizendo que "mais importante do que ser irônico com o mundo é nos incluir nessa ironia também". Além de sua contribuição visual, Parr é celebrado por seu papel na democratização da fotografia e na valorização do fotolivro. Iatã Cannabrava descreve o fotógrafo como o "workaholic mais alucinado" que já conheceu, alguém capaz de manter controle absoluto sobre sua produção, mas que sempre demonstrou enorme generosidade." "Democrata da fotografia" Cannabrava afirma que Parr não apenas revolucionou, mas somou ao conceito de fotografia pública, ajudando a difundir narrativas visuais para todos os públicos e colaborando ativamente na história do fotolivro latino-americano. Por esse esforço em tornar a fotografia acessível e por sua influência global, o curador brasileiro define Martin Parr como o "maior democrata da fotografia mundial". Em 2014, foi inaugurada a Fundação Martin Parr, em Bristol, sudoeste da Inglaterra, para abrigar o acervo do artista, coleção de impressões e dummies (projetos de livros) feito por outros fotógrafos, principalmente britânicos e irlandeses.  A trajetória incluiu a superação de resistências internas para ingressar na prestigiosa agência Magnum, em 1994, da parte de uma parte dos integrantes, partidários de uma representação mais humanista. Mas o estilo de Parr o consolidou como um artista de muitas camadas, cujo trabalho lúdico esconde uma leitura mordaz e documental sobre a banalidade da vida cotidiana e seus desdobramentos. “Global Warning” fica em cartaz no Jeu de Paume até 25 de maio de 2026.

    4 min
  4. 22 ENE

    Em francês, Maria Fernanda Cândido encarna enigmas de Clarice Lispector em Paris

    A atriz Maria Fernanda Cândido apresenta em Paris Ballade au-dessus de l’abîme (Balada acima do abismo, tradução livre), de 21 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, no Théâtre du Soleil, em Paris. Com direção de Maurice Durozier e o piano sublime de Sônia Rubinsky como personagem e presença, o espetáculo coloca em perspectiva e faz dialogar Brasil e França, literatura e música, revelando a intensidade e as contradições de Clarice Lispector. O Théâtre du Soleil é um dos espaços mais emblemáticos do teatro contemporâneo francês. Fundado por Ariane Mnouchkine em 1964, o local é reconhecido internacionalmente pelo trabalho coletivo, estética rigorosa e forte dimensão política e humanista, sendo referência da cena europeia, embora ainda pouco conhecido do público brasileiro em geral. O espetáculo propõe um diálogo intenso entre literatura e música, atravessando a obra de Clarice Lispector desde a infância até a sua morte, e a espiritualidade da autora. Maria Fernanda observa que, ao invés de pensar num abismo entre palavra e música, "é mais justo imaginar uma ponte, uma ligação, porque, nesse diálogo, as conexões vão se criando de maneira muito orgânica, muito intensa e muito real”. As músicas, escolhidas com precisão, "não são um simples fundo sonoro, mas interlocutor do texto, ajudando o público a compreender o universo afetivo e literário da autora", explica a atriz. Nesse sentido, a presença de compositores como Sergei Rachmaninov (1873-1943), Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Alberto Nepomuceno (1864-1920) não é "aleatória". Maria Fernanda explica que “não é à toa que escolhemos Rachmaninov, porque existe uma nostalgia eslava muito presente na obra da Clarice, na própria história de vida dela”, enquanto a música brasileira traduz a brasilidade profunda da autora. Clarisse e a paixão pela língua portuguesa Villa-Lobos e Nepomuceno trazem esse universo em contraponto com algo distante geograficamente, como Rachmaninov, criando um diálogo entre o Nordeste – "especialmente Recife, onde Clarice cresceu" – e outras paisagens afetivas. Esse Recife aparece como fonte de memórias e experiências que atravessam os contos abordados no espetáculo, como Águas do Mundo, Restos de Carnaval e A Repartição dos Pães. Ao falar do desafio de condensar a obra de Clarice Lispector em cerca de 70 minutos, Maria Fernanda afirma que foi inevitável incluir a paixão visceral da escritora pela língua portuguesa. “Clarice expressa isso de maneira tão clara e tão exposta que emociona profundamente”, diz a atriz, citando o trecho em que a autora afirma ter feito da língua portuguesa sua vida interior e seu pensamento mais íntimo. Para ela, é comovente imaginar a fricção constante entre a ponta do lápis e a folha em branco: a vocação para a escrita é um dos eixos centrais da peça. “Não tinha como não incluir o momento em que a obra fala do ato de escrever”, diz, sobre um trecho que aprecia particularmente.  Leia tambémMaria Fernanda Cândido leva frescor para coleção francesa de audiobooks de Clarice Lispector Questionada sobre o que teria sido impossível levar à cena, a atriz relativiza: "a vastidão da obra naturalmente deixou de fora muitos aspectos, o que despertou o desejo de criar outros espetáculos no futuro". Maria Fernanda revela que já existe a ideia de uma nova criação no mesmo formato, mas dedicada a outros temas. O "arco dramático" de Ballade au-dessus de l’abîme, segundo ela, é bem definido: o espetáculo parte da concepção de Clarice – de como e por que ela nasceu – e segue até sua morte, atravessando infância, vida adulta, uma relação amorosa marcada por erotismo, o ato de escrever, a paixão pela língua portuguesa e o lado espiritual da autora. A peça se encerra justamente nesse momento final. Para Maria Fernanda, o espetáculo funciona como uma "porta de entrada para o universo de Clarice Lispector", capaz de dialogar tanto com leitores já familiarizados com a obra quanto aqueles que nunca tiveram contato com ela, oferecendo uma experiência singular do mundo literário da autora. “O piano como personagem que toca a alma” A pianista Sônia Rubinsky, reconhecida internacionalmente por suas interpretações de Villa-Lobos e de clássicos do cânone russo e mundial, dá ao piano um papel de verdadeiro personagem, criando pontes entre palavra e música. Para Sônia, “ é um diálogo absolutamente, que não dá para separar uma coisa da outra”. O piano "influencia o ritmo emocional da peça, estando sempre presente, intensificando a experiência sensorial e emotiva", afirma. "A música não apenas acompanha, mas elucida e amplia a compreensão do texto de Clarice", sublinha Rubinsky. O repertório, cuidadosamente escolhido, dialoga com a obra, reforçando a intensidade das emoções e permitindo que o público sinta o ritmo, a poesia e a tensão de cada cena. Entre Rachmaninov, Villa-Lobos e Nepomuceno, a música cria conexões entre geografias, afetos e lembranças, tornando-se mediadora da narrativa literária e emocional. “O piano chama a alma à tona, toca a alma do texto e do público. Muitas vezes, eu e Maria Fernanda estamos à beira da emoção máxima – eu, com as palavras, e ela, com a música – e entramos numa sintonia muito rica”, comenta a pianista. O olhar francês sobre Clarice A versão francesa, dirigida por Maurice Durozier, traz um olhar distinto sobre Clarice. O diretor enfatiza que sua função foi a direção cênica, não a tradução literal, transformando a escrita da autora em imagens e emoções para o público francês. “Não tentei fazer o retrato da Clarice Lispector, mas me concentrei nas imagens e nas emoções que provocava o texto. Descobri uma mulher com dor constante e uma vontade de entender o que aconteceu no seu mundo interior”, explica. Durozier destaca a complexidade do texto, permeado de contradições e uma honestidade singular: “Muitas vezes ela começa tentando explicar algo e, no final, percebe que a verdade não existe realmente: há várias possibilidades da realidade”. Para o diretor, trabalhar com Maria Fernanda e Sônia Rubinsky foi uma revelação: “No espetáculo, o texto e a música têm o mesmo valor, se respondem constantemente: o texto inspira a música e a música inspira o texto em uma balada.” Essa interação cria uma camada adicional de percepção, guiando toda a pesquisa durante os ensaios e aproximando o público da intensidade da obra clariceana, segundo Durozier, um habitué da trupe do Soleil de Ariane Mnouchkine, com quem já trabalhou diversas vezes. Maria Fernanda Cândido observa as diferenças entre as concepções brasileira e francesa da peça. "A montagem brasileira é iluminada, etérea e diáfana, com figurinos esvoaçantes, enquanto a leitura francesa é mais austera e áspera, refletindo a cultura local", diz. Para a atriz, poder transitar entre essas duas experiências é um privilégio raro. “Como atriz, posso viver as duas experiências ao mesmo tempo, e isso é muito especial.” Ballade au-dessus de l’abîme fica em cartaz no Théâtre du Soleil até o dia 1° de fevereiro de 2026.

    10 min
  5. 16 ENE

    Exposição no sul da França celebra Dom Quixote e a força de uma lenda que atravessa gerações

    Após homenagear Jean Genet e Gustave Flaubert, o Museu das Civilizações da Europa e do Mediterrâneo de Marselha, o Mucem, no sul da França, continua sua série de exposições literárias celebrando um herói nascido na Espanha, que se tornou uma figura lendária em todo o mundo: Dom Quixote. A exposição Dom Quixote: entre a Loucura e o Riso destaca os aspectos cômicos, turbulentos e populares da obra, e sua presença constante nas artes e na cultura cotidiana. Com um percurso deliberadamente anacrônico, assim como o herói  imortalizado por Cervantes, o Mucem apresenta mais de 200 peças de diferentes tipos e épocas, com curadoria de Aude Fanlo e Helia Paukner, que detalha a maneira encontrada para celebrar Dom Quixote junto ao público contemporâneo.  "Dom Quixote nos encara pessoalmente por meio de uma marionete tradicional japonesa do tipo Bunraku, quase em tamanho humano. Ele está lendo, enquanto Dulcinéia voa acima dele em sua imaginação. Ele também aparece em frente à entrada, através de uma pintura de Célestin Nanteuil, que é um autorretrato dele como Dom Quixote. E, claro, como ele está lendo, ele se encontra no meio de sua biblioteca, de maneira semelhante à técnica de mise en abyme praticada por Cervantes. Aqui, então, reproduzimos essa mise en abyme, ou seja, esta provocação que conta uma história dentro de outra história, como um espelho: Dom Quixote se encontra cercado por múltiplos exemplares de Dom Quixote", detalha Helia Paukner. As duas curadoras optaram pour uma experiência imersiva, levando os visitantes para a narrativa, com salas que correspondem aos capítulos do romance. A primeira sala é dedicada à sua biblioteca e os livros apresentados em sua vitrine são versões - algumas delas feministas -, adaptações e também traduções de Dom Quixote, apresentando toda a amplitude do livro, traduzido em cerca de 140 linguas. "Escolhemos traduções surpreendentes, entre elas um pequeno livro escrito em caracteres árabes. É uma tradução persa de Dom Quixote. O mais impressionante é que essa obra, dos anos 1920 ou 30, é ilustrada com fotografias. É um belo objeto, que testemunha um encontro cultural, já que essas imagens foram tiradas de um filme de 1926 em que Dom Quixote e Sancho Pança eram interpretados na tela por Double Patte e Patachon, um famoso duo de comédia dinamarquês", precisa Paukner. O caráter internacional de Dom Quixote e seu alcance planetário está presente em toda a exposição, como mostra o percurso proposto na sala seguinte do Mucem. Exemplo disso é o documentário intitulado Tarzan, Dom Quixote e Nós, de Hassen Ferhani. Com esse filme, o diretor argelino mostra a que ponto Miguel Cervantes, autor de Dom Quixote, marcou a memória de sua cidade, Argel, como contam as curadoras. "Tudo parte, de fato, da vida de Cervantes, já que ele foi mantido em cativeiro por cinco anos em Argel e teria tentado várias vezes escapar, buscando refúgio numa gruta conhecida como Gruta de Cervantes, que acabou dando nome a todo o bairro", diz Aude Fanlo. Através do conjunto de suportes apresentados na exposição, de todas as épocas e países muito diferentes, compreendemos que o personagem pertence a todos. Isso motivou a curadora Aude Fanlo a lhe dedicar uma exposição completa.  "Para todos nós, Dom Quixote é como uma lembrança perdida, mas que ainda temos na ponta da língua, algo que todo mundo imagina ou intui, mesmo sem ter lido, e é esse tipo de fantasma coletivo que queríamos fazer redescobrir em toda a sua vitalidade. É um fantasma muito vivo, muito divertido. É um velho que volta a ser criança. E é essa fantasia, essa incongruência, essa loucura divertida que queremos mostrar aos visitantes", diz. Entre os visitantes, Catherine observa um vídeo de Abraham Poncheval de 2018. Um Dom Quixote moderno atravessa o interior da Bretanha vestido com uma armadura medieval. "É a história, sim, de um homem um pouco louco que corre atrás de seus sonhos, por assim dizer. Acredito que ele faz parte daqueles heróis com os quais todo mundo, em algum momento, pode se identificar", acredita. "É uma imagem atemporal. Na verdade, Dom Quixotes certamente existem aos montes ao nosso redor. Ele está ali, com sua armadura, mas poderia ser qualquer pessoa caminhando pela estrada. Vemos muitos assim: pessoas andando ou simplesmente buscando algo dentro de si mesmas. É uma imagem que, na minha opinião, não tem a ver com uma época específica, mas com a natureza humana", conclui. As curadoras da exposição fazem questão de avisar os visitantes para se tomar cuidado com o compilado de "utopias" que colamos normalmente ao personagem de Dom Quixote. "Toda vez que o idealizamos, nós o ridicularizamos", diz Helia Paukner. E o que o faz permanecer no imaginário coletivo, segundo ela, não é o fato de se agarrar a um só ideal, mas "poder reencarnar diversos outros". A exposição Dom Quixote: entre a Loucura e o Riso fica em cartaz no Mucem de Marselha até 30 de março de 2026.

    7 min
  6. 9 ENE

    Museu mais visitado do mundo, Louvre cria tarifa mais cara para não europeus e vai verificar documentos

    O Louvre busca ampliar suas receitas a qualquer custo. O icônico museu vai aumentar em 45% o preço do ingresso para visitantes de fora da Europa em 2026. A partir de 14 de janeiro, os visitantes que não pertencem ao Espaço Econômico Europeu (EEE), que inclui União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega, terão de pagar € 32 para percorrer os 73 mil metros quadrados do museu, € 10 a mais do que o valor atual.  Questionada pela RFI, a assessoria do Louvre confirmou que a entrada de acesso às galerias passará a ter controle de documentos. A medida, aprovada pelo conselho de administração do museu, tem como objetivo “reforçar a receita” da instituição, uma das mais visitadas do mundo. A decisão do Louvre se estende a outros locais muito visitados, dentro e fora da capital francesa. A partir da próxima quarta-feira (14), os ingressos ficarão mais caros para o mesmo público nos Castelos de Versalhes e de Chambord, e na igreja Saint-Chapelle, em Paris. O curador alemão e diretor da Pinacoteca de São Paulo, Jochen Volz, comentou esse reajuste nos preços do museu mais visitado do mundo. “A questão dos valores cobrados como ingresso para museus é sempre uma discussão muito delicada. É importante analisá-la em conjunto com as políticas de gratuidade, meia-entrada e parcerias. Na Pinacoteca de São Paulo, por exemplo, aproximadamente 78% do público entra se beneficiando de gratuidade. Ainda assim, a bilheteria é, para nós e para todos os museus, uma fonte de receita importante”, analisou. “Entendo que o Louvre, pelo que se espera, terá um aumento de receita de aproximadamente € 17,5 milhões por ano. Esse é um valor significativo para a manutenção do museu e para a gestão de seus acervos. Cobrar um valor diferenciado para turistas é uma forma de se beneficiar da fama do Louvre como destino. Ao mesmo tempo em que se preserva um certo nível de acessibilidade para usuários frequentes locais, estudiosos, estudantes e públicos regionais, que potencialmente visitam o museu com uma frequência muito maior”, sublinhou Volz.  Quem vai pagar mais caro? Os principais grupos de visitantes estrangeiros que devem pagar mais pela entrada no Louvre – e nas demais instituições afetadas pelo reajuste – são os norte‑americanos, que representam o maior contingente, seguidos pelos chineses. Os brasileiros aparecem na sétima posição entre os visitantes extraeuropeus e também serão impactados pela medida. A sindicalista francesa Nathalie Ramos foi uma das principais vozes entre aquelas que denunciaram as condições precárias de trabalho e a falta de respostas satisfatórias da direção do museu e das autoridades, durante uma recente greve no Louvre. Sobre o aumento do preço dos ingressos, ela denunciou uma política “discriminatória”, que “fere princípios de acesso e de universalismo cultural”, agravando ainda mais a imagem do museu. “A imagem do Louvre não é muito gloriosa no momento. Entre essa ideia que queremos dar do maior museu do mundo, que quer implantar projetos gigantescos, e a realidade dos meios de que dispomos, existe um enorme abismo”, disse. O galerista Philippe Mendes, um dos mais influentes de Paris e administrador de um espaço no Louvre dedicado a obras portuguesas, opinou sobre a tentativa institucional da presidente do museu, Laurence des Cars, de salvar o plano do Louvre para 2030. “O museu está em uma situação muito tensa. Acho que o ambiente interno não é nada bom, porque o que aconteceu – roubo espetacular, seguido de greve – foi muito grave. E, quando há algo assim, espera-se sempre que algumas responsabilidades sejam apuradas”, disse à RFI. Leia tambémRoubo milionário no Louvre poderia ter sido evitado, aponta relatório de segurança ignorado pela direção “Além disso, o Ministério da Cultura nomeou um homem para administrar o Louvre. Ele não é militar, mas trabalhou para o Ministério da Defesa e nas obras da catedral de Notre-Dame, inclusive durante o restauro. Isso também é um sinal muito forte de que [a presidente da instituição] Laurence des Cars precisa ser mantida onde está. Para não deixá-la de fora, encontraram alguém que agora vai tentar reestruturar o Louvre, uma espécie de tutela para dar continuidade a esse grande projeto, que é o projeto 2030”, afirmou Mendes. A artista Laura Lima, um dos nomes brasileiros mais proeminentes das artes visuais no mundo e atualmente em cartaz no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres (ICA), tem uma opinião clara sobre o assunto. “Todos os museus deviam ser como as praças públicas, abertas para todo e qualquer tipo de pessoa e origem”, declarou Lima, que, ao lado de Ernesto Neto e Márcio Bottner, é uma das fundadoras da galeria Gentil Carioca, no Rio de Janeiro.  Pesquisadora em cinema e acostumada a visitar museus em várias partes do globo, a brasileira Luíza Alvim lembrou que o Louvre não é um caso isolado na cobrança de ingressos diferenciados para estrangeiros. “Eu viajo por diversos lugares do mundo, e essa diferenciação de preço não é exclusiva do que está se tentando fazer no Louvre. Isso existiu e existe na Costa Rica, no Egito, mas acho extremamente problemático pelo seguinte: essa diferenciação, embora proteja de certa forma o cidadão do país – que pode ter um acesso mais fácil –, prejudica pessoas de países que são mais pobres, cujos cidadãos também são pobres”, disse.  Leia também'Roubo do século' no Louvre escancara falhas na segurança; diretora terá que se explicar no Senado “Isso já é problemático porque, por exemplo, no caso da Costa Rica, nós somos latino-americanos e também somos pobres. Recebemos em uma moeda fraca e pagamos o mesmo preço de quem recebe em uma moeda forte, em euro ou em dólar. O mais absurdo da situação que se está tentando implementar no Louvre é que um país de moeda forte está tentando proteger pessoas que recebem em moeda forte e prejudicar pessoas que recebem em moeda fraca”, completou Alvim. O Louvre continua sendo um dos museus mais frequentados do mundo, com quase 9 milhões de visitantes em 2024, e o público estrangeiro representa a maioria das entradas, variando entre 69% e 77% do total. Controle de passaportes Em nome do “universalismo” do Louvre e do “acesso igualitário” às suas coleções, sindicatos franceses criticaram unanimemente o aumento dos ingressos para não europeus. “O argumento de que a reforma do prédio justifica o fim de dois séculos de universalismo no Louvre não nos convence”, afirmou o sindicato SUD. Segundo a CGT, essa nova tabela de preços fará com que os residentes de fora do EEE “paguem caro, consolidando o desengajamento do Estado, para visitar um museu em condições precárias”. “O público afetado verá isso como uma forma de discriminação”, afirmou Valérie Baud, delegada da CFDT. As organizações sindicais, que há tempos denunciam a falta crônica de pessoal, também alertam para o aumento da carga de trabalho que a nova política de preços deve impor aos funcionários, responsáveis por verificar a nacionalidade dos visitantes. “Não esquecemos a sobrecarga de trabalho que isso vai gerar para as equipes”, advertiu o sindicato SUD. Acesso a alas do museu terá verificação de documentos Procurada pela RFI para esta reportagem, a assessoria de imprensa do Museu do Louvre informou que “os visitantes que se enquadrarem na tarifa do Espaço Econômico Europeu (EEE) poderão ser verificados nos acessos externos e na entrada das alas Denon, Sully e Richelieu”. No Louvre, a ala Denon abriga obras mundialmente famosas, como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, ** A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix**, e ** A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David**, além de importantes coleções de pinturas italianas e francesas dos séculos 16 ao 19. A ala Sully concentra as antiguidades egípcias, com sarcófagos, múmias e esculturas, além de peças do Oriente Médio, esculturas gregas e romanas, como a Vênus de Milo, e coleções medievais e renascentistas francesas. Já a ala Richelieu apresenta esculturas francesas dos séculos 17 e 18, coleções do Oriente Médio, os apartamentos históricos do palácio e uma variedade de moedas, medalhas e objetos de artes decorativas. Os cidadãos do EEE deverão apresentar um documento de identidade válido com foto – como carteira de identidade, passaporte ou carteira de motorista. Já os residentes do bloco precisarão comprovar identidade e residência de longa duração, por meio de um documento válido com foto, como visto com validade superior a três meses ou cartão de residência.

    6 min
  7. 2 ENE

    Racionalismo europeu com vitalidade tropical: escritório de arquitetura franco-brasileiro expõe em Paris

    A Triptyque Architecture celebra 25 anos com a exposição Corps mort / Corps vivant, em Paris. Fundado por Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud, o escritório franco-brasileiro construiu sua longa trajetória entre o rigor modernista europeu e a experimentação tropical. A mostra reúne maquetes que tensionam permanência e transformação, de ocas do Xingu a torres paulistanas, passando por uma Brasília distópica. O diálogo traduz uma arquitetura híbrida, capaz de unir tradição e futuro. Ao celebrar a trajetória, os profissionais revisitam sua história marcada pela ponte entre França e Brasil. Os arquitetos Olivier Raffaëlli e Guillaume Sibaud lembraram que essa ligação não nasceu de um plano prévio, mas de uma paixão inesperada. “Foi um amor à primeira vista no Rio de Janeiro. Sem projeto organizado de permanecer, acabamos ficando. Eu vivi 15 anos de modo permanente, sem voltar à França. Isso mostra o tamanho do vínculo com o país, onde, além de desenvolver a Triptyque, também fundamos nossas famílias, hoje franco-brasileiras”, contou Sibaud. Entre a floresta e o concreto: o Rio como manifesto Ao refletir sobre o olhar brasileiro sobre os espaços, eles destacaram a singularidade do Rio de Janeiro. “É uma cidade manifesta, inacreditável. Ela expressa o encontro entre a força da natureza e a arquitetura. No meio da cidade, há uma floresta quase nativa, confrontada com uma construção moderna e densa. Esse contraste nos inspirou a pensar a arquitetura de forma diferente, criando novos conceitos a partir dessa relação entre cidade e natureza”, ressaltou Raffaëlli. A exposição traz também uma maquete de Brasília, que provoca uma visão utópica (ou distópica) da capital. “Essa invasão da natureza nos seduz porque não foi prevista, mas negada. O modernismo afirmava o controle da natureza, impondo uma ordem cultural sobre a ordem natural. No Brasil, isso funcionou até certo ponto. A Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, por exemplo, foi construída em um morro desmatado e hoje está reabsorvida pela vegetação. Essa tensão entre vigor tropical e arquitetura humana é central. A maquete de Brasília traz ainda uma provocação: pensar a cidade permitindo o retorno da natureza e dos povos originários, revisando afirmações modernistas que foram autoritárias, ainda que belas e refinadas”, explicou Sibaud. Ao descrever a exposição, os arquitetos ressaltaram a dificuldade de traduzir maquetes em palavras, já que a arquitetura é, para eles, uma “extensão do corpo humano”. “De forma simples, a mostra se organiza em dois eixos: construções mais tradicionais e construções mais modernas. No eixo moderno, há torres de concreto e madeira, projetos urbanos. No eixo tradicional, ocas e construções menores, de poucos andares. A ideia é criar uma hibridação entre arquitetura urbana e vernacular, entre ordem artificial e ordem natural. Pensamos a arquitetura não mais como objeto morto, mas como corpo vivo, capaz de várias vidas, reciclável, sensual e menos utilitário”, detalhou Raffaëlli. Corpos mortos e corpos vivos: a arquitetura em reinvenção Guillaume Sibaud acrescentou que essa tensão entre forças define a arquitetura do futuro. “É preciso inscrever o ato de conceber prédios nas preocupações ambientais e nas limitações de recursos. A arquitetura não pode ser apenas demolição e reconstrução. Ela deve sobreviver a si mesma”, disse. “Por isso, criamos figuras conceituais que ajudam a pensar essa sobreposição: o que permanece e o que muda. Chamamos de corpo morto o que é essencial e duradouro, mas que também tem várias vidas. Já o corpo vivo é o uso mutável: hoje hotel, amanhã escritório, depois moradia. Ele precisa ser maleável e reprogramável. Essa reflexão nos leva a olhar para arquiteturas mais primitivas, que oferecem repertórios ricos e livres para os arquitetos contemporâneos”, sublinhou. A diversidade das maquetes reforça esse diálogo. “No Xingu, as ocas são consideradas seres vivos: têm boca, pernas, são descritas como corpos. Já em São Paulo, as torres são vistas como objetos inertes, de consumo. Nosso caminho criativo é reconceitualizar esses corpos mortos das cidades, onde a maioria vive, transformando-os em corpos vivos. O Xingu nos ensina muito e inspira caminhos para recriar uma arquitetura bela, emocionante, que faça sentido ecológico e emocional”, destacou Raffaëlli. Sobre os projetos futuros, os dois revelaram que o escritório vive a felicidade de atuar simultaneamente no Brasil e na França. “No Brasil, estamos desenvolvendo prédios educacionais, uma biblioteca para o Instituto Cervantes em São Paulo e fomos selecionados para projetar um estádio em Minas Gerais. Queremos expandir nossa prática em instituições nos dois países, além de continuar com projetos de habitação, escritórios e hotéis. Essa diversidade nos ajuda a refletir sobre o mundo contemporâneo. O Brasil marcou profundamente nossa trajetória e continuará a marcar. Queremos ser brasileiros na França e franceses no Brasil”, afirmou Sibaud. A exposição Corps mort / Corps vivant fica em cartaz de 18 de dezembro de 2025 a 17 de janeiro de 2026 em Paris.

    6 min
  8. 26/12/2025

    Brasil leva narrativas periféricas ao topo de vitrine global em ano histórico para o cinema nacional

    2025 será lembrado como um marco para a cultura brasileira. Entre as celebrações do Brasil na França, que selaram 200 anos de relações diplomáticas, o país ocupou palcos globais e conquistou prêmios históricos: do Oscar à Palma de Ouro, passando pelo Leão de Prata, uma presença massiva no Festival de Avignon e homenagens literárias. A arte nacional reafirmou sua força e diversidade, enquanto nos despedimos de ícones que moldaram gerações, como Lô Borges, Jards Macalé e Sebastião Salgado. Márcia Bechara, da RFI O ano da temporada cultural cruzada entre Brasil e França instaurou um deslocamento silencioso e profundo: narrativas vindas das bordas — do corpo insurgente, das florestas e viadutos, das memórias insistentes — tomaram o centro dos palcos e telas. Em vez de grandiloquência, um pulso firme: o país se viu e se deixou ver, de Hollywood à Amazônia, de Veneza a Madureira. Em janeiro, Fernanda Torres ergueu o Globo de Ouro por Ainda Estou Aqui, e o gesto abriu a temporada com um aviso ao mundo, mostrando uma história brasileira que reivindica lugar sem pedir licença. Leia tambémFernanda Torres faz história para o cinema brasileiro nos Globos de Ouro Cinema: o país que lembra e resiste Em fevereiro, a Berlinale se tingiu de azul profundo com O Último Azul, de Gabriel Mascaro, que recebeu o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri e ainda dois prêmios paralelos. “É muito bonito. A gente passou por um ano muito especial do Ainda Estou Aqui, percorrendo o mundo, que traz o primeiro Oscar para o Brasil”, disse ele à RFI. “Quando a gente achou que era um episódio isolado, aí vem O Último Azul no Festival de Berlim e ganha o Urso de Prata, um grande prêmio do júri. E quando a gente ensaiou que talvez pudesse ter mais um acidente de percurso, aí vem O Agente Secreto e confirma nossa força no Festival de Cannes. É um ano muito lindo para o cinema brasileiro.”  Leia também“Um país sem memória é um país sem presente e sem futuro”, diz Walter Salles ao lançar o filme “Ainda estou aqui” em Biarritz Março assentou a realidade sobre o sonho: Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, tornou-se o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional. Salles falou do cerne ético e histórico da obra: “Um país sem memória é um país sem presente e sem futuro. Isso, pra mim, sempre esteve bastante claro enquanto documentarista”. E recordou o processo: “Nesse filme, que a gente começou a fazer em 2017, ou seja, antes daquela virada que, eu confesso, eu não esperava, de 2018 para 2022, o presente começou a se tornar muito próximo daquele daquele passado que a gente estava retratando no filme, ou queria retratar no filme. Isso nos mostrou o quanto a democracia é uma matéria frágil.” Em maio, Cannes registrou o Brasil no alto de um dos festivais mais prestigiados do cinema mundial: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, levou a Palma de Ouro de direção, e Wagner Moura foi consagrado como melhor ator. Mendonça nomeou a natureza política do gesto: “Eu acredito que o agente secreto é uma crônica em longa-metragem de um momento da história do Brasil que eu pessoalmente ainda lembro, porque eu era uma criança. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que tem muita pesquisa histórica.” O diretor sublinhou a ética do real: “No momento em que as coisas estão ao contrário, se você diz que a água é molhada, você se torna um resistente. Eu gosto muito também dessa ideia. Eu acho que a resistência muitas vezes é você manter o olhar na realidade”. Leia também“O Agente Secreto” é um filme “absolutamente brasileiro”, define Wagner Moura em Cannes Moura devolveu o espelho ao público: “Eu acho muito importante que o público fora do Brasil veja aquilo, mas acho mais importante ainda que nós, brasileiros, nos vejamos. Eu não consigo entender ainda a lógica de quem não acha que o governo devia apoiar a cultura.” Em setembro, o filme foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2026; em dezembro, vieram três indicações ao Globo de Ouro, incluindo melhor ator. O Agente Secreto foi  também incluído nas shortlists da Academia Norte-Americana para o Oscar, figurando entre os 15 pré-selecionados (pré-indicados), inclusive na categoria de Melhor Filme Internacional para a cerimônia de 2026, avançando para a fase final de votação antes da lista oficial de indicados. Teatro e literatura: corpo, escrita e viadutos Enquanto o cinema redesenhava mapas, o teatro afirmava o corpo como arquivo e ferida. Em julho, Carolina Bianchi recebeu o Leão de Prata na Bienal de Veneza, reconhecimento que a situou no epicentro da dança e performance contemporâneas. Bianchi celebrou e definiu o alcance: “Foi uma felicidade tremenda e uma sensação de surpresa inigualável ganhar um prêmio como o Leão de Prata. Acho que é um prêmio que reconhece não só a minha trajetória, mas também uma trajetória coletiva com a minha companhia Cara de Cavalo.” Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro Segundo ela, trata-se de "um caminho de mais de dez anos, vindo de uma cena completamente independente no Brasil". Desde 2023, ela se apresenta na Europa com os dois primeiros capítulos da trilogia Cadela Força. "Acho que o prêmio também reconhece esse trabalho continuado, esse trabalho coletivo continuado, de um espetáculo que mistura muitas linguagens dentro da linguagem teatral para falar sobre traumas, sobre a relação com a história da arte, com a violência, com a violência poética, e amparado na escritura, na literatura. Então, é uma alegria enorme, profunda, e é bonito ver essa história sendo reconhecida dessa maneira.” Leia tambémTeatro brasileiro é homenageado no Festival de Avignon, o maior evento de artes cênicas do mundo No Festival de Avignon, na França, na mostra paralela do maior evento cênico do mundo, Zahy Tentehar — primeira atriz indígena a receber o Prêmio Shell — estrelou Azira’i – Um Musical de Memórias, dirigido por Duda Rios. Rios descreveu o choque poético de migração de público e contexto: “As pessoas aplaudem muito, se emocionam. A gente fica muito feliz, porque tem um contexto do espetáculo que, para um público brasileiro, a gente não imaginava essa internacionalização do espetáculo. Mas a gente vê que ele chega da mesma maneira, com a mesma potência. As pessoas estão se emocionando, se comovendo, rindo menos do que no Brasil, mas elas se comovem e se conectam com o espetáculo.”  Leia tambémFlup celebra diáspora negra e traz literatura como 'aquilombamento' para 'reencantar' o debate decolonial Na literatura, o viaduto de Madureira recebeu a Flup — Festa Literária das Periferias — com uma homenagem à Conceição Evaristo, cujo conceito de “escrevivência” reorganiza a forma de narrar o cotidiano negro e periférico. Evaristo falou à RFI de direito e de encontro, direto do Rio de Janeiro: “A mensagem que eu deixaria primeiro é pensar a literatura como um direito. Cada vez mais também se conectar um com o outro para a gente perceber o aspecto coletivo das nossas histórias, sem anular a nossa individualidade.”  Despedidas e heranças Leia tambémLô Borges, o menino da esquina que virou música: artista deixa legado que ultrapassou fronteiras O ano também nos cobrou liturgias da ausência. Lô Borges e Jards Macalé partiram, e a música brasileira reconheceu a orfandade de gerações que aprenderam a pensar o país pelo acorde. Na fotografia, a França recebeu a retrospectiva monumental de Sebastião Salgado, nas Franciscaines, em Deauville — uma cartografia de quatro décadas de mundo. Leia tambémJards Macalé volta à Europa para celebrar 50 anos de seu disco de estreia com turnê por 7 países Antes de falecer, em maio, Salgado, diante da plateia e muito emocionado, foi ao núcleo de seu método, na ocasião, em entrevista exclusiva à RFI: “Você só fotografa com a sua herança, com tudo que está dentro de você. As minhas fotografias têm céus dramáticos, carregados. Isso vem de onde eu nasci, vem da chegada da época de chuva, naquelas montanhas de Minas Gerais, em que meu pai me levava para a montanha mais alta da nossa fazenda para festejar as nuvens incríveis. Para ver o raio de sol passar através dessas nuvens, ver a chuva caindo. Aquelas imagens ficaram em mim, e o dia que eu comecei a fotografar, elas já estavam aí. Naquela fração de segundo, aquele milésimo de segundo que eu aperto, é a minha herança que está fotografando.”  Leia tambémRetrospectiva na França celebra 40 anos de trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado

    16 min

Acerca de

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

Más de RFI Brasil