O mundo tem falta de quase um milhão de enfermeiras obstetras/parteiras. A evidência, apresentada pela Confederação Internacional de Parteiras (International Confederation of Midwives) mostra que com mais um milhão de enfermeiras obstetras / parteiras seria possível evitar 67% das mortes maternas, 64% das mortes neonatais e 65% dos nados mortos, e, assim, salvar até 4,3 milhões de vidas por ano até 2035. Para responder a este desafio, o 34.º Congresso Trienal da Confederação Internacional de Parteiras, o maior encontro mundial de enfermeiras obstetras /parteiras, juntou mais de três mil profissionais do sector em Lisboa. No evento organizado pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, durante cinco dias, enfermeiras obstetras/parteiras, investigadores, educadores, decisores políticos e parceiros de todo o mundo estiveram reunidos para partilhar conhecimento e evidência científica, discutir desafios de saúde à escala global, fortalecer a profissão de enfermeira obstetra /parteira, promover a saúde sexual, reprodutiva, materna, neonatal e adolescente. Para nos ajudarem a perceber a situação que se vive em Portugal e na Guiné-Bissau, a RFI falou com a vice-presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), Isabel Ferreira, e com a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstetras da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes. Se em relação a Portugal, apesar da excelente formação das enfermeiras obstetras, é apontada a existência de uma vontade dos decisores políticos para reduzir os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde e empurrar os utentes para fora do SNS, fazendo crescer o negócio de privados; em relação à Guiné-Bisssau, as situações sócio-política e económica do país são indicadas como elementos que impossibilitam que os profissionais prestem melhores cuidados de saúde materna, neonatal ou infantil. A vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira, começa por nos explicar quais as regiões do planeta onde a falta de enfermeiros obstetras / parteiras tem um impacto maior. Vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira: Se pensarmos em termos de mortalidade materna e infantil, a situação assim mais intensa, estamos a falar dos países subdesenvolvidos, e, essencialmente, ali na região da Ásia, África, são as regiões mais afectadas e que faria mais diferença. Mas outros países e outras regiões têm outro tipo de desafios. Então, também precisamos de mais parteiras, se calhar não tanto em quantidade, mas, às vezes, até em termos mais de autonomia das suas funções, por exemplo. Porque alguns países como Portugal e muitos países aqui da Europa, enfrentam o problema do excesso de medicalização, que está inclusive agora a trazer questões graves de morbilidade e até de mortalidade. Por exemplo, aqui em Portugal, estamos a assistir a um crescimento da taxa de mortalidade materna, o que nos assusta. Portanto, tem sido sustentado nos últimos anos e estamos ainda à procura das causas, mas acredita-se muito que o excesso de medicalização poderá estar na gênese deste aumento. Aqui, o trabalho dos enfermeiros obstetras poderia ser muito diferenciador. Qual é, então, o retrato que nos pode fazer da condição dos enfermeiros obstetras em Portugal? Isabel Ferreira: A profissão de parteira, de enfermeiro obstetra, está ligada inicialmente à enfermagem. Portanto, são 4 anos de enfermagem, depois 2 anos a trabalhar como enfermeiro e depois tira-se uma formação de mais 2 anos para se aceder, então, à formação diferenciada de formação de enfermeiro obstetra. Então, é uma formação altamente diferenciada, o enfermeiro obstetra é preparado para diversas situações em autonomia. O que acontece é que, depois, na prática, quando vamos para os diferentes locais, nem sempre lhe é permitido exercer essas funções. Então, temos locais do país em que as mulheres têm a sorte de ter um profissional que consegue oferecer-lhes toda a diversidade de serviços, foi preparado para isso, e outros locais em que os próprios hospitais ou instituições limitam a autonomia do enfermeiro obstetra, não lhes permitem trabalhar em tudo aquilo que eles estão preparados para trabalhar. Aqui, esta limitação da autonomia, esta falha na gestão de cuidados, está a fazer com que, se calhar, por exemplo, há serviços hospitalares, como aqui na região de Lisboa, que estão a ser encerrados, estão a negar acesso às grávidas em trabalho de parto, quando têm lá profissionais altamente qualificados para as receber e que são impedidos de o fazer, que são os enfermeiros obstetras. Qual a razão para não ser permitido aos enfermeiros obstetras trabalharem? Isabel Ferreira: Tem a ver com este modelo biomédico e hierarquizado dos nossos sistemas de saúde. Portanto, estamos a tentar já há alguns anos alterar e trabalhar mais em equipa, em interdisciplinaridade, mas o sistema está muito focado ainda no poder médico e, portanto, há uma dificuldade em reconhecer as competências dos outros profissionais que não médicos. E não é só a questão dos enfermeiros obstetras, é a questão dos enfermeiros no geral, a questão dos psicólogos, dos nutricionistas e, portanto, temos que agora ultrapassar isso, esta questão dos egos e dos poderes e começarmos todos a trabalhar em interdisciplinaridade com as forças de cada um. Porque todos têm muito para oferecer e, se nós trabalharmos com as forças de cada um, vamos ter muito mais tempo para fazer o nosso trabalho. Não andamos a fazer o trabalho dos outros, cada um fazendo o seu trabalho, quem vai ganhar vão ser as mulheres, vão ser os nascidos e vai ser a população em geral. Os meios de comunicação social, de algum tempo a esta parte, têm dado conhecimento de uma quantidade de partos que acontecem em ambulâncias. A que é que isso se deve? Isabel Ferreira: Nos últimos dois anos foi dramático o aumento dos partos que acontecem efectivamente em trânsito nas ambulâncias, o que implica um risco muito grande. Às vezes, vão para a comunicação social dizer que os bombeiros estão preparados, os bombeiros estão tão preparados para acompanhar um parto como eu estou preparada para apagar um incêndio. Também tenho formação, mas obviamente que não se compara com os bombeiros, não se pode comparar um bombeiro com uma enfermeira obstetra. Portanto, está a ameaçar a saúde das mulheres. O que é que está a acontecer? O que aconteceu é que aumentaram o número mínimo de médicos que se considera essencial para manter o serviço aberto. Então, agora têm menos médicos e estão a fechar serviços, que ainda que tenham médicos, fecham os serviços porque não têm aquele número que eles acham que é o mínimo, o que não faz sentido. Então, para isso mais valia criarmos unidades de cuidados na maternidade, por exemplo, unidades só com enfermeiros obstetras que recebem pelo menos as mulheres que não têm complicações e que não têm que viajar 100 quilómetros ou andar a bater à porta de 3 ou 4 hospitais até serem admitidas finalmente no serviço, que é isso que está a acontecer. As mulheres ligam para o SNS 24, às vezes leva um tempo enorme para ser respondido, às vezes enganam-se a orientar e às vezes é só a terceira vez é que encontram um hospital onde vão ter o seu bebé. E claro, nesta procura e em trabalho de parto, às vezes o parto acontece nas condições que não são devidas, que são em ambulâncias. Isto não faz sentido em termos de experiência de nascimento, que também é uma coisa muito importante, mas também implica riscos acrescidos. Portanto, temos que repensar nas nossas políticas de saúde, e aqui os enfermeiros obstetras em Portugal, claramente poderão fazer uma diferença muito grande para ajudar a eliminar o problema que estamos a viver. Esses serviços que são encerrados, condicionantes que são colocadas às famílias, às grávidas, não haverá depois pessoas que perante essas dificuldades vão procurar serviços privados? Isabel Ferreira: Sim, neste momento, principalmente na Grande Lisboa, estamos a ver essa clivagem. Estamos a ver claramente que as pessoas que têm seguros de saúde, com estas dificuldades todas, ... Quer dizer, eu entro em trabalho de parto, nem sequer sei para onde é que vou. Esta instabilidade está a fazer com que as pessoas vão essencialmente para os hospitais privados. O hospital, neste momento, que tem mais partos do país é um hospital privado e aqui da região de Lisboa. Portanto, no público, principalmente aqui nesta região centro, no público vão essencialmente as pessoas que têm menos capacidades económicas, que têm mais dificuldades ou dificuldades sociais ou então as pessoas que ainda que tendo dinheiro têm, por exemplo, uma patologia grave. Porque, ainda assim, o público é aquele que oferece acompanhamento mais diferenciado. Portanto, o privado mediante uma grande complicação vai encaminhar para o hospital público. Então, estamos com uma sobrecarga muito grande do público. Só tem grandes situações de grandes complicações e de grandes emergências ou então situações de questões sociais também mais intensas. Podemos dizer que existe um desenho político nas opções que estão a ser tomadas? Isabel Ferreira: Eu não tenho dúvida nenhuma e nota-se uma grande diferença com as variações políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. Estamos a falar da saúde da população, não devia ter cor, a população, as pessoas deviam estar em primeiro lugar e não os ideais e os poderes. Portanto, isto é importante falar, tirar o elefante da sala. Vamos estar todos juntos e tentar solucionar este problema que está a tornar-se muito, muito grave. Estamos a falar do momento em que a mulher dá à luz, em que as crianças chegam a este mundo, mas o