Reportagem

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  1. 2 days ago

    Falta um milhão de enfermeiras obstetras /parteiras para salvar 4,3 milhões de vidas por ano

    O mundo tem falta de quase um milhão de enfermeiras obstetras/parteiras. A evidência, apresentada pela Confederação Internacional de Parteiras (International Confederation of Midwives) mostra que com mais um milhão de enfermeiras obstetras / parteiras seria possível evitar 67% das mortes maternas, 64% das mortes neonatais e 65% dos nados mortos, e, assim, salvar até 4,3 milhões de vidas por ano até 2035. Para responder a este desafio, o 34.º Congresso Trienal da Confederação Internacional de Parteiras, o maior encontro mundial de enfermeiras obstetras /parteiras, juntou mais de três mil profissionais do sector em Lisboa. No evento organizado pela Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras, durante cinco dias, enfermeiras obstetras/parteiras, investigadores, educadores, decisores políticos e parceiros de todo o mundo estiveram reunidos para partilhar conhecimento e evidência científica, discutir desafios de saúde à escala global, fortalecer a profissão de enfermeira obstetra /parteira, promover a saúde sexual, reprodutiva, materna, neonatal e adolescente. Para nos ajudarem a perceber a situação que se vive em Portugal e na Guiné-Bissau, a RFI falou com a vice-presidente da Associação Portuguesa de Enfermeiros Obstetras (APEO), Isabel Ferreira, e com a presidente da Associação de Parteiras e Enfermeiras Obstetras da Guiné-Bissau, Titina Lopes Gomes. Se em relação a Portugal, apesar da excelente formação das enfermeiras obstetras, é apontada a existência de uma vontade dos decisores políticos para reduzir os cuidados prestados pelo Serviço Nacional de Saúde e empurrar os utentes para fora do SNS, fazendo crescer o negócio de privados; em relação à Guiné-Bisssau, as situações sócio-política e económica do país são indicadas como elementos que impossibilitam que os profissionais prestem melhores cuidados de saúde materna, neonatal ou infantil. A vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira, começa por nos explicar quais as regiões do planeta onde a falta de enfermeiros obstetras / parteiras tem um impacto maior. Vice-presidente da APEO, Isabel Ferreira:   Se pensarmos em termos de mortalidade materna e infantil, a situação assim mais intensa, estamos a falar dos países subdesenvolvidos, e, essencialmente, ali na região da Ásia, África, são as regiões mais afectadas e que faria mais diferença. Mas outros países e outras regiões têm outro tipo de desafios. Então, também precisamos de mais parteiras, se calhar não tanto em quantidade, mas, às vezes, até em termos mais de autonomia das suas funções, por exemplo. Porque alguns países como Portugal e muitos países aqui da Europa, enfrentam o problema do excesso de medicalização, que está inclusive agora a trazer questões graves de morbilidade e até de mortalidade. Por exemplo, aqui em Portugal, estamos a assistir a um crescimento da taxa de mortalidade materna, o que nos assusta. Portanto, tem sido sustentado nos últimos anos e estamos ainda à procura das causas, mas acredita-se muito que o excesso de medicalização poderá estar na gênese deste aumento. Aqui, o trabalho dos enfermeiros obstetras poderia ser muito diferenciador.     Qual é, então, o retrato que nos pode fazer da condição dos enfermeiros obstetras em Portugal? Isabel Ferreira:   A profissão de parteira, de enfermeiro obstetra, está ligada inicialmente à enfermagem. Portanto, são 4 anos de enfermagem, depois 2 anos a trabalhar como enfermeiro e depois tira-se uma formação de mais 2 anos para se aceder, então, à formação diferenciada de formação de enfermeiro obstetra. Então, é uma formação altamente diferenciada, o enfermeiro obstetra é preparado para diversas situações em autonomia. O que acontece é que, depois, na prática, quando vamos para os diferentes locais, nem sempre lhe é permitido exercer essas funções. Então, temos locais do país em que as mulheres têm a sorte de ter um profissional que consegue oferecer-lhes toda a diversidade de serviços, foi preparado para isso, e outros locais em que os próprios hospitais ou instituições limitam a autonomia do enfermeiro obstetra, não lhes permitem trabalhar em tudo aquilo que eles estão preparados para trabalhar. Aqui, esta limitação da autonomia, esta falha na gestão de cuidados, está a fazer com que, se calhar, por exemplo, há serviços hospitalares, como aqui na região de Lisboa, que estão a ser encerrados, estão a negar acesso às grávidas em trabalho de parto, quando têm lá profissionais altamente qualificados para as receber e que são impedidos de o fazer, que são os enfermeiros obstetras.   Qual a razão para não ser permitido aos enfermeiros obstetras trabalharem? Isabel Ferreira: Tem a ver com este modelo biomédico e hierarquizado dos nossos sistemas de saúde. Portanto, estamos a tentar já há alguns anos alterar e trabalhar mais em equipa, em interdisciplinaridade, mas o sistema está muito focado ainda no poder médico e, portanto, há uma dificuldade em reconhecer as competências dos outros profissionais que não médicos. E não é só a questão dos enfermeiros obstetras, é a questão dos enfermeiros no geral, a questão dos psicólogos, dos nutricionistas e, portanto, temos que agora ultrapassar isso, esta questão dos egos e dos poderes e começarmos todos a trabalhar em interdisciplinaridade com as forças de cada um. Porque todos têm muito para oferecer e, se nós trabalharmos com as forças de cada um, vamos ter muito mais tempo para fazer o nosso trabalho. Não andamos a fazer o trabalho dos outros, cada um fazendo o seu trabalho, quem vai ganhar vão ser as mulheres, vão ser os nascidos e vai ser a população em geral. Os meios de comunicação social, de algum tempo a esta parte, têm dado conhecimento de uma quantidade de partos que acontecem em ambulâncias. A que é que isso se deve? Isabel Ferreira:   Nos últimos dois anos foi dramático o aumento dos partos que acontecem efectivamente em trânsito nas ambulâncias, o que implica um risco muito grande. Às vezes, vão para a comunicação social dizer que os bombeiros estão preparados, os bombeiros estão tão preparados para acompanhar um parto como eu estou preparada para apagar um incêndio. Também tenho formação, mas obviamente que não se compara com os bombeiros, não se pode comparar um bombeiro com uma enfermeira obstetra. Portanto, está a ameaçar a saúde das mulheres. O que é que está a acontecer? O que aconteceu é que aumentaram o número mínimo de médicos que se considera essencial para manter o serviço aberto. Então, agora têm menos médicos e estão a fechar serviços, que ainda que tenham médicos, fecham os serviços porque não têm aquele número que eles acham que é o mínimo, o que não faz sentido. Então, para isso mais valia criarmos unidades de cuidados na maternidade, por exemplo, unidades só com enfermeiros obstetras que recebem pelo menos as mulheres que não têm complicações e que não têm que viajar 100 quilómetros ou andar a bater à porta de 3 ou 4 hospitais até serem admitidas finalmente no serviço, que é isso que está a acontecer. As mulheres ligam para o SNS 24, às vezes leva um tempo enorme para ser respondido, às vezes enganam-se a orientar e às vezes é só a terceira vez é que encontram um hospital onde vão ter o seu bebé.   E claro, nesta procura e em trabalho de parto, às vezes o parto acontece nas condições que não são devidas, que são em ambulâncias. Isto não faz sentido em termos de experiência de nascimento, que também é uma coisa muito importante, mas também implica riscos acrescidos. Portanto, temos que repensar nas nossas políticas de saúde, e aqui os enfermeiros obstetras em Portugal, claramente poderão fazer uma diferença muito grande para ajudar a eliminar o problema que estamos a viver.   Esses serviços que são encerrados, condicionantes que são colocadas às famílias, às grávidas, não haverá depois pessoas que perante essas dificuldades vão procurar serviços privados? Isabel Ferreira:   Sim, neste momento, principalmente na Grande Lisboa, estamos a ver essa clivagem. Estamos a ver claramente que as pessoas que têm seguros de saúde, com estas dificuldades todas, ... Quer dizer, eu entro em trabalho de parto, nem sequer sei para onde é que vou. Esta instabilidade está a fazer com que as pessoas vão essencialmente para os hospitais privados. O hospital, neste momento, que tem mais partos do país é um hospital privado e aqui da região de Lisboa. Portanto, no público, principalmente aqui nesta região centro, no público vão essencialmente as pessoas que têm menos capacidades económicas, que têm mais dificuldades ou dificuldades sociais ou então as pessoas que ainda que tendo dinheiro têm, por exemplo, uma patologia grave. Porque, ainda assim, o público é aquele que oferece acompanhamento mais diferenciado. Portanto, o privado mediante uma grande complicação vai encaminhar para o hospital público. Então, estamos com uma sobrecarga muito grande do público. Só tem grandes situações de grandes complicações e de grandes emergências ou então situações de questões sociais também mais intensas.   Podemos dizer que existe um desenho político nas opções que estão a ser tomadas? Isabel Ferreira:   Eu não tenho dúvida nenhuma e nota-se uma grande diferença com as variações políticas que vão acontecendo ao longo do tempo. Estamos a falar da saúde da população, não devia ter cor, a população, as pessoas deviam estar em primeiro lugar e não os ideais e os poderes. Portanto, isto é importante falar, tirar o elefante da sala. Vamos estar todos juntos e tentar solucionar este problema que está a tornar-se muito, muito grave. Estamos a falar do momento em que a mulher dá à luz, em que as crianças chegam a este mundo, mas o

  2. 2 days ago

    Guiné-Bissau: Psicóloga francesa vela pela saúde mental dos guineenses

    Elise Bidault é uma psicóloga francesa que exerce em Bissau e está a ajudar os guineenses a enfrentar parte das chamadas doenças modernas, nomeadamente o stress crónico, a ansiedade e os traumas de infância.   Elise Bidault chegou à Guiné-Bissau em 2020. Inicialmente, o país não fazia parte do seu horizonte geográfico habitual, mas motivos pessoais impulsionaram a mudança.  Então, eu vim à Guiné-Bissau em 2020, há seis anos, depois da pandemia da COVID e depois de acabar o meu mestrado. Bom, para ser transparente, no início, não conhecia mesmo a Guiné-Bissau, porque, como francesa, conhecemos mais o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim, todos os países francófonos. Mas posso dizer que foi por motivo pessoal. Não quero entrar nos detalhes, mas foi um motivo pessoal, e, neste momento, em 2020, a minha vida pessoal fez com que eu chegasse aqui à Guiné-Bissau e, graças a Deus, felizmente, consegui ficar até hoje. Quando decidiu fixar-se na Guiné-Bissau, Elise viu-se na contingência de melhorar o seu português. O recurso foi a contratação de uma professora brasileira em Bissau. O português da Elise é hoje fluente tal como o seu crioulo guineense.   Também a história do crioulo começa de forma pessoal, porque, no início, não comecei a trabalhar como psicóloga. Comecei a trabalhar numa escola francesa, então não era tão importante ou obrigatório falar o crioulo. Mas eu penso profundamente que, quando chegamos a um país para viver, é importante aprender a língua. Primeiro para a integração; para mim, faz parte da base quando chegamos a um país, integrarmo-nos e aprendermos os costumes e a vida das pessoas, através da língua também. E também para me sentir bem, porque, sem conseguir falar com as pessoas, fiquei um pouco triste, sem conseguir expressar-me ou participar nas conversas. Então, aprendi assim pouco a pouco, no dia a dia, em casa, com a família, na feira, no restaurante. Assim aprendi coisas básicas e, pouco a pouco, o meu crioulo cresceu, até hoje, que acho que o meu crioulo está fluente. Ao abordar a saúde mental na Guiné-Bissau, Elise contesta a ideia de que os africanos evitam falar da sua vida pessoal com quem não tem muita afinidade ou cumplicidade. A questão, diz a médica francesa, reside na confiança e no sigilo profissional, num ambiente onde "todos se conhecem". Acho que tudo tem a ver com a confiança; dentro da palavra confiança, está a palavra confia. E as pessoas têm de se sentir confiantes e seguras para depois se abrirem. Com certeza, há aqui uma cultura e uma educação que não impulsionam a vontade de partilhar algumas coisas privadas, mas acho também que tem a ver com a falta de sigilo profissional que posso observar, mesmo dentro do nível da saúde aqui na Guiné-Bissau, e também porque Bissau é muito pequeno, então todos se conhecem. Às vezes, se me vou abrir com uma pessoa, não quero que os meus problemas ou os meus traumas cheguem a uma outra pessoa que conheço e que eu não quero que saiba dos meus problemas. 70% dos pacientes da Elise Bidault buscam ajuda por ansiedade, stress crónico, depressão ou luto, além de questões profissionais como burnout. No entanto, a médica francesa enfrenta um panorama crítico: o país conta com pouquíssimos centros de atendimento para estas problemáticas. Ainda assim, Elise tem dois grandes objectivos: Arranjar dinheiro para abrir uma clínica maior em Bissau e atender mais homens. Não vou mentir, recebo mais mulheres, mas acho que mundialmente com os psicólogos é assim. Contudo, posso dizer que tenho cerca de 10% de clientela masculina e, para mim, é um dos meus objetivos para os próximos meses e anos continuar a trabalhar com os homens, fazer tudo para que os homens confiem também e venham aqui ao consultório. Porque, quando vemos os dados, não há muitos dados em África, mas quando vemos os dados mundiais sobre saúde mental, os homens sofrem muito mais do que as mulheres. E quando falamos de suicídio, por exemplo, os homens cometem-no muito mais do que as mulheres. Então os homens também precisam de um espaço de escuta e, sobretudo, eu acho que aqui neste contexto cultural africano, onde o homem tem um papel muito importante, tem muita responsabilidade financeira, responsabilidade da família, responsabilidade de muitas coisas... tudo isto é muita pressão e temos de saber como gerir tudo isso. A terapeuta gaulesa atende pacientes de várias nacionalidades, desde que não sejam pessoas conhecidas. Sim, já recebi várias nacionalidades: portugueses, franceses, libaneses, mauritanos, guineenses de Conacri, bissau-guineenses... Com certeza, eu não tenho nenhuma limitação. A única limitação é a língua, porque falo francês, português e crioulo, e arranho um pouco de inglês, mas acho que para fazer terapia não é suficiente. Então, se não for pela questão da língua, posso receber qualquer tipo de pessoa que ache que precisa de apoio psicológico, sim, com certeza. A outra limitação, para mim, prende-se com um enquadramento de trabalho muito claro: não posso receber pessoas que conheço pessoalmente, sejam francesas, guineenses ou de qualquer outra nacionalidade. Sempre reencaminho para outro profissional quando é alguém do meu círculo pessoal. Elise Bidault faz atendimentos diários de até quatro pacientes, mas também recorre às redes sociais como TikTok e Instagram, onde, em crioulo guineense, faz o que a própria chama de psicoeducação.  Porque acho que, se queremos mudar esta consciência colectiva sobre a saúde mental, temos de fazer psicoeducação. Esse é o objetivo principal do meu canal de TikTok; também uso o Instagram e o Facebook, embora com as mesmas publicações. A ideia é falar de saúde mental, desmistificá-la e tentar fazer com que as pessoas percebam que a saúde mental faz parte do nosso dia a dia. Em cada coisa que vivemos, todos os dias, há uma componente de saúde mental, e todos nós somos seres humanos com saúde mental, tal como temos saúde física. O objetivo é mesmo normalizar a saúde mental nas nossas vidas e ajudar as pessoas que precisam de apoio, mas que talvez não saibam que este tipo de cuidado existe. E traumas de infância? Não tem tratado disso?   Sim, com certeza. Todos nós, como adultos e mesmo enquanto crianças dependendo do trauma... não mencionei isto antes, mas também recebo muitas pessoas que sofrem ou sofreram de violência sexual, por exemplo. Posso dizer que quase 80% da minha clientela sofreu algum tipo de violência sexual. Portanto, como psicólogos, trabalhamos sempre os traumas de infância; são eles que moldam aquilo que somos hoje. A ideia é trabalhar no sentido de compreender o porquê, quais são as consequências desses traumas na vida adulta, como lidar com eles, como avançar e ganhar consciência sobre os mesmos, porque por vezes os traumas ficam escondidos dentro de nós. O objetivo é ajudar as pessoas a compreender o seu próprio funcionamento e os padrões de comportamento que estão ligados a esses traumas de infância. A saúde mental tem de ser uma prioridade. Entendo perfeitamente que existam outras prioridades, mas a saúde mental é uma necessidade diária. Temos de resolver, a nível pessoal e profissional, a necessidade que os guineenses têm de apoio, de escuta e de cuidados básicos de saúde mental. Porque, quando tratamos destas problemáticas logo no início, evitamos que gerem consequências muito graves lá mais à frente. Vemos todos nós pessoas a andar pela rua e notamos que têm um problema, mas não têm nenhum espaço para onde ir ou alguém que as ajude. Por isso, acho que tem de ser uma prioridade.

  3. 13 Jul

    Brasil traz Verão "ousado" e descoberta de novas marcas a Paris

    O Brasil é convidado da loja de luxo parisiense, Samaritaine, para um Verão "ousado" na moda, na arte e no design. Marcas e criadores brasileiros estiveram em Paris para o lançamento desta iniciativa que visa dar a conhecer o Brasil contemporâneo aos franceses. O Brasil chegou de malas e bagagens à Samaritaine, uma loja multimarcas de luxo no centro de Paris, para um Verão ousado e de descoberta. Até 26 de agosto, os parisienses e turistas podem descobrir numa loja pop up no centro da Samaritaine, marcas brasileiras, mas também artistas e influências que chegam do outro lado do oceano. Mais do que cores ousadas ou motivos tropicais, uma associação óbvia ao Brasil, Lúcio Fonseca, director criativo de moda brasileiro instalado em Paris e organizador desta pop up, quis trazer até à capital francesa o Brasil contemporâneo. "Trabalho já em Paris há mais de dez anos, entre semanas de moda e essa ligação França Brasil sempre me moveu muito. Agora, como eu trouxe meu escritório para aqui há quatro anos, sou muito influenciado pela França. Eu também queria trazer um pouco dessa influência brasileira, mas com design bold. Por isso que se chama Brasil - Bold Summer Edition. Então, assim, as peças que eu trouxe desde os acessórios, elas têm essa assinatura bold, uma assinatura de design. Trazemos um Brasil que nem todo mundo conhece. A gente tem marcas de biquini como agua de coco, a Farm Rio, que são o nosso ADN, o tropical brasileiro, o beachwear que é mundialmente famoso. Mas eu também quis fazer uma curadoria de outras marcas, marcas menores, marcas internacionais que já são conhecidas e também trazer a nossa arte, design contemporâneo", detalhou Lúcio Fonseca. Tal como o próprio Brasil, também este Bold Summer traz então uma mistura de marcas bem conhecidas do público, como a Farm Rio, com marcas ainda menos divulgadas em França, como Glorinha Paranaguá, uma marca que faz malas e acessórios a partir de bambu, palha e couro. Lavínia Góes, artista e responsável pela plataforma Conversas com Arte, explica a importância desta mistura. "É uma mistura das duas coisas, porque existem marcas já estabelecidas aqui, como a Granado que já é uma marca estabelecida, a Dengo que é uma marca estabelecida, então a Farm também é uma marca estabelecida. Mas ela quis participar desse movimento aqui dentro da Samaritaine. E essa colaboração entre artistas, designers e a moda é um pouco do espírito que vem do modernismo", considerou. Entre os artistas que participam nesta mostra do Brasil contemporâneo está Pedro Yossef, que criou uma instalação de triângulos alados que caem do tecto da loja, numa alusão aos pássaros do Brasil ou ainda o Estúdio de Criação Papelaria que utiliza o papel como matéria prima. Até Paris, os criadores Fabíola e Christian Pentagna trouxeram algumas obras emblemáticas, como o Jardim, uma ilusão de plantas, árvores e vegetação todas construídas em papel. Christian Pentagna fala-nos mais sobre a Papelaria. "A nossa intenção como o estúdio é exactamente tirar o papel de um lugar comum e tratá-lo como um objecto com a importância que ele tem. Assim, por exemplo, o jardim, que são esculturas. Estamos sempre acostumados a ver o papel na horizontal. A gente nunca olhou para o papel na vertical. Então, essa é a principal ideia. Como é que a gente olha para o papel de uma forma diferente e sabendo que o papel é uma matéria prima que se trabalha muito bem, ela se deforma. Ela reage com o tempo. Então essa é a nossa pesquisa de como papel se comporta num lugar que ele não é habitualmente usado", detalhou o artista. Em frente à ponte Neuf, a Samaritaine, propriedade do grupo LVMH, ergue-se como um dos símbolos do luxo máximo em Paris. Clemence Claudine Eagle, gestora de compras e marketing da Samaritaine, explica a criação do conceito Bold Summer com o Brasil. "Esta ideia de fazer algo com o Brasil surgiu de uma primeira viagem que fiz ao Brasil, onde descobri toda a criatividade que existe por lá, os designers e também um lado muito inovador, seja na moda, na música ou na arte. E, a partir dessa viagem, quis incorporar um pouco disso ao meu dia a dia e desenvolver essa ideia aqui em França. E, trabalhando na Samaritaine, tive a oportunidade de conhecer o Lucio e, a partir daí, quisemos desenvolver este conceito e apresentar aos clientes da Samaritaine novas marcas e marcas mais contemporâneas. Acho que a percepção sobre o Brasil evoluiu bastante, porque, de qualquer forma, o turismo no Brasil explodiu nos últimos anos. E, justamente, acho que estamos a ter uma nova visão do país. Essa tal criatividade está a ser cada vez mais reconhecida e os brasileiros são hoje cada vez mais reconhecidos por essa inovação, por terem uma visão diferente das coisas, muito revigorante, eu diria. Devido a tudo isto, acho que em França temos uma ideia cada vez mais real e justa do que é o Brasil actualmente", indicou Clemence Claudine Eagle. Em frente à Ponte Neuf, a Samaritaine, propriedade do grupo LVMH, ergue-se como um dos símbolos do luxo máximo em Paris. Clémence Claudine Higle, gestora de compras e marketing da Samaritaine, explica como a criação do conceito Bold Summer com o Brasil. Lavinia Goes fala sobre a história e correspondência entre os dois países. "Obviamente, a gente tem essa referência dos modernistas, como Niemeyer com com o partido, a sede do Partido Comunista aqui em França. Existe o Lúcio Costa, que fez a Maison su Brésil, mas nos anos 60. Então a gente está restabelecendo essa relação e mostrando o que está se fazendo de novo no Brasil e mostrando para a França. A gente pode apresentar muita coisa. No ano passado, no ano do Brasil, na França, muitas marcas puderam vir para cá, mas agora vieram de uma forma muito mais divertida, eu diria. E colaborativa", detalhou. O pop up BRASIL NA SAMARITAINE – BOLD SUMMER vai decorrer até dia 26 de Agosto, em Paris.

  4. 26 Jun

    Cabo Verde: Mulheres que fazem florescer o Planalto Leste de Santo Antão

    No coração do Planalto Leste, na ilha de Santo Antão, um grupo de mulheres desafia diariamente as limitações impostas pela seca e pelas alterações climáticas. Fundada em 2005, a Associação das Mulheres do Planalto Leste reúne actualmente cerca de três dezenas de associadas e tem desenvolvido projectos de desenvolvimento sustentável, apostando na agro-floresta, na preservação da flora endémica, na formação de agricultores e no turismo rural.   É no viveiro agro-ecológico da associação que começa a visita guiada pela presidente, Josefa Sousa. O espaço integra um projecto desenvolvido em parceria com a Associação de Defesa do Património de Mértola, de Portugal, e financiado por várias entidades internacionais. "Este viveiro começou com o projecto da agro-floresta, mas hoje já trabalhamos também com a flora endémica, plantas medicinais e outras iniciativas. O projecto tem-nos ensinado a criar a nossa própria água", explica.     Uma das soluções encontradas é a captação do nevoeiro, uma tecnologia simples que transforma a humidade do ar em água para irrigação.   "Quando há nevoeiro, as gotas ficam presas na rede, escorrem pelos tubos até ao reservatório e depois usamos essa água para regar as plantas do viveiro", mostra Josefa Sousa.   No viveiro crescem espécies endémicas, plantas medicinais e árvores florestais, como o pinheiro. O objetivo é conservar espécies ameaçadas e reforçar a recuperação ambiental da região. "Queremos cuidar daquilo que já existe e aumentar a população das plantas que estão em risco de desaparecer. Também preservamos plantas medicinais e ensinamos as pessoas sobre as suas utilizações."     Outro dos princípios aplicados no campo experimental é a cobertura do solo com matéria orgânica, uma técnica que ajuda a conservar a humidade e a enriquecer naturalmente a terra. "A matéria morta protege o solo do sol e do vento. À medida que se decompõe, transforma-se em alimento para a terra. Primeiro temos de alimentar a terra para depois ela nos alimentar a nós." A reutilização dos recursos faz igualmente parte das práticas implementadas. Em vez de recorrer apenas à água para irrigação, utilizam plantas como aloé vera e cactos para libertar lentamente humidade junto das raízes. "São técnicas de sobrevivência para a agricultura de sequeiro que fomos aprendendo ao longo dos projectos. Funcionam muito bem e dão sustentabilidade à nossa agricultura." No campo experimental testam-se ainda diferentes culturas, associações entre espécies e sistemas de protecção contra o vento e o excesso de sol. "Este projecto funciona como uma escola. Experimentamos diferentes técnicas e observamos quais resultam melhor em cada zona. Depois transmitimos esse conhecimento aos agricultores, que muitas vezes não têm condições para correr o risco de perder uma produção."     Mesmo perante condições extremas, Josefa Sousa garante que é possível produzir.   "Aqui há parcelas que praticamente não recebem rega. Sobrevivem graças ao corta-vento, à cobertura do solo e à associação das plantas."   Além da agricultura, a associação tem vindo a diversificar as suas actividades para criar novas fontes de rendimento para as famílias. "O nosso objectivo sempre foi criar alternativas para melhorar a educação, a saúde e a habitação das mulheres. Nem tudo foi possível, mas já conseguimos muita coisa."     Entre essas conquistas estão um alojamento local gerido pelas associadas, um centro de transformação de produtos locais, onde são produzidos doces e licores, e um banco de sementes destinado à preservação de espécies agrícolas e florestais.   "Antes perdíamos muita fruta durante a época das colheitas. Hoje conseguimos transformá-la em doces e licores que podem ser vendidos. Também recolhemos sementes para preservar espécies e aumentar a floresta." Apesar dos avanços, Josefa Sousa reconhece que o trabalho associativo continua a enfrentar vários desafios. "A maior dificuldade é quando o trabalho acaba por ficar concentrado em duas ou três pessoas. Assim torna-se muito difícil fazer a associação funcionar." A presidente aponta ainda uma situação que considera injusta: a impossibilidade de os dirigentes das associações serem remunerados pelos projectos que coordenam.   "Os presidentes trabalham gratuitamente. Eu muitas vezes faço o trabalho sozinha, mas depois tenho de procurar outro emprego para garantir o meu sustento. Se pudesse dedicar-me exclusivamente à associação, conseguiríamos fazer muito mais." Para Josefa Sousa, esta realidade coloca em causa o futuro do associativismo. "Se esta regra não mudar, chega uma altura em que ninguém vai querer assumir a presidência de uma associação. As pessoas dão muito de si, mas também precisam de viver." Num território onde a água é escassa, o conhecimento tornou-se um dos recursos mais valiosos. E é precisamente essa partilha de saberes que a Associação das Mulheres do Planalto Leste procura cultivar todos os dias, transformando dificuldades em oportunidades e mostrando que, mesmo nas zonas mais áridas de Cabo Verde, é possível fazer crescer vida.

  5. 18 Jun

    Lisboa celebra o Dia da Criança Africana

    Lisboa vai ter a primeira Festa do Dia da Criança Africana. Um dia de festa pensado para as famílias de todas as origens mas onde se celebram as raízes africanas. Uma data a coincidir com os protestos de crianças e jovens sul-africanos do bairro de Soweto, em Joanesburgo, a 16 de Junho de 1976, contestando a imposição da língua Afrikaans no ensino, uma língua associada à minoria branca. Há 50 anos, a 16 de junho de 1976, milhares de crianças e adolescentes sul-africanos saíram às ruas de Soweto, em Joanesburgo, para desafiar o regime do apartheid que impunha a segregação entre brancos e negros. Os estudantes manifestavam-se contra a fraca qualidade de ensino e contra o ensino da língua Afrikaans, usada apenas pela minoria branca. A repressão policial que se seguiu provocou centenas de mortos e milhares de feridos. Em memória das vítimas, o dia 16 de junho foi instituído como o Dia da Criança Africana. Agora, Lisboa vai ter a primeira Festa do Dia da Criança Africana. Um dia de festa pensado para as famílias de todas as origens mas onde se celebram as raízes africanas. Workshops criativos, jogos tradicionais, concursos com prémios, hora do conto, música e dança, artesanato e gastronomia, são alguns dos elementos que fazem parte do programa da Festa do Dia da Criança Africana. O evento, pensado para as famílias criarem memórias, apresenta-se como uma oportunidade para todos descobrirem a riqueza das culturas africanas, acontece já este sábado, 20 de junho, na capital portuguesa, nos Jardins do Bombarda. Rafaela Kieto, da organização do evento, começa por nos contar como surgiu a ideia de realizar a Festa do Dia da Criança Africana. Rafaela Kieto, organização da Festa do Dia da Criança Africana:   Esta ideia esteve a marinar mais ou menos uns seis, sete anos. Surgiu numa conversa, num café, no Porto, curiosamente. Eu e alguns amigos a falar sobre o facto de que não tínhamos, sentíamos que não havia, muitas coisas culturais para as crianças africanas. Não havia festas, não havia oportunidades de convívio, oportunidades de aprenderem um pouco mais sobre a cultura, para além do que conhecem em casa. Porque é muito comum, para nós africanos que estamos na diáspora, por exemplo, ao fim de semana, juntarmos a família, comemos comida da terra, ouvimos música. Mas depois, aquelas coisas, os jogos tradicionais, os símbolos nacionais, tudo o resto fica um bocado perdido e as nossas crianças não têm oportunidade de vivenciar isso que alguns de nós tivemos. Então, partiu daí. Começou a criar-se o bichinho, estivemos a falar sobre isso, ficou na minha cabeça. Entretanto veio a pandemia e, durante um tempo, obviamente, não pudemos fazer nada. Mas recentemente revisitámos a ideia, estivemos a namorar durante uns tempos, a pensar, ok, fazemos, não fazemos, fazemos, não fazemos. E em 2026 decidimos que ia acontecer.   A Festa do Dia da Criança Africana acontece este sábado. O que é que faz parte do cartaz, o que é que faz parte da programação desta festa? Ora bem, nós vamos ter um dia com muitas actividades. Desde a Hora do Conto, onde vamos ter quatro escritores africanos da diáspora que vêm apresentar as suas obras, porque para nós também é muito importante haver representação na literatura, nós sabemos que nós vamos a lojas, a livrarias comprar livros e, infelizmente, muitas vezes, podemos gostar muito das histórias mas não nos revemos necessariamente nelas, então é muito importante que possamos ter esses escritores; vamos ter workshops de dança, danças tradicionais africanas; vamos ter também um workshop de saúde e mobilidade, porque achamos que é muito importante também, vou ser muito sincera, culturalmente às vezes é algo que não se dá muita importância, fica meio que para segundo plano, damos mais importância à educação e ter boas notas, mas é muito importante ensinar as nossas crianças que, ok, vocês têm que cuidar da vossa saúde, têm que cuidar do vosso corpo; e vamos ter muitos workshops de jogos tradicionais africanos, de Angola, vamos ter de Cabo Verde, da Guiné, do Senegal. Então, é uma oportunidade também para dar a conhecer, não só às crianças africanas, atenção, a todas as crianças para virem e aprenderem.   O objectivo não é só partilhar cultura africana com as crianças de origem africana, ou descendentes de pais de origem africana, mas também partilhar essa cultura com crianças de outras origens? Sim, é mesmo esse o objectivo. É para celebrar em primeiro lugar as nossas crianças, mas é um evento de portas abertas, é para todas as crianças, toda a gente é bem-vinda. Eu acho que quanto mais cedo nós aprendermos sobre as outras culturas, mais facilmente criamos empatia pelos outros, melhor entendemos os outros. Então, sim, é aberto a todas as crianças. Esta primeira festa do Dia da Criança Africana está direccionada à temática dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). A Rafaela é angolana, como é que foi feita a ponte com os outros países dos PALOP [Países africanos de língua oficial portuguesa] ?   Sim, porque África tem 54 países, se eu não estou enganada, era muita coisa para estar representada na primeira edição. Tendo em conta que nós estamos em Lisboa, que é extremamente multicultural, temos imensas pessoas das diferentes comunidades africanas que falam português, achámos que era o mais adequado para começar. Como é que se fez a ponte? Amigos, amigos de amigos, contactar associações, e ficamos muito contentes porque toda a gente aderiu e gostou muito da ideia. Então, graças a Deus, temos uma adesão enorme e toda a gente vai estar bem representada.   Já falámos um pouco do programa, quais é que, para a Rafaela, são os pontos altos deste programa? Ora bem, para mim, eu sou suspeita, mas eu acho que os jogos tradicionais vão ser um sucesso, valem muito a pena. E eu desconfio que não vão ser só as crianças a querer jogar, acho que vai haver muitos adultos a querer matar a saudade do tempo da infância. O outro ponto alto também vai ser a comida, vamos ter muita comida típica dos países africanos. Ou seja, também é uma oportunidade para quem nunca provou e só ouviu falar, vir e experimentar.   Como angolana, quais são os jogos de que nos pode falar, que vão ser dados a conhecer ou a reviver aqui neste dia de festa, de comemoração, do Dia da Criança Africana? De Angola nós vamos ter um de que eu gosto muito, eu não era muito boa a jogar, mas era o meu favorito, que se chama 35. Tem algumas semelhanças com o Mata, mas eu acho que é um bocado mais emocionante. Então, acho que vão gostar de aprender e de jogar. A Rafaela, já nos disse que esta festa vai ter gastronomia, vai ter a hora do conto, vai ter jogos tradicionais. Que mais é que as crianças e os adultos que venham a esta festa podem encontrar?   Ora bem, não poderia ser uma festa africana sem música. Então, nós vamos ter um DJ muito bom, que nos vai dar música e vai embalar a nossa festa durante a tarde de sábado, no dia 20 de junho, aqui nos Jardins de Bombarda. Além disso, também vamos ter um quiz sobre os países africanos. Um quiz com prémio, é importante salientar. E também vamos ter um concurso, esperamos que as pessoas venham trajadas a rigor e vamos atribuir prémios ao melhor traje e melhor penteado do dia.     O espaço em que vai acontecer a Festa do Dia da Criança Africana, aqui nos Jardins de Bombarda, é um espaço com uma dinâmica muito particular, como é que foi recebida a ideia? Eu acho que foi super bem recebida, nós ficamos mesmo muito surpresos, porque, primeiro, é a primeira vez que nós estamos a organizar algo tão grande e o pessoal dos Jardins de Bombarda têm sido espectacular no auxílio, têm sido super proactivos e receberam super bem. Então, acho que vai ser um dia muito bonito, vai ser muito divertido.

  6. 12 Jun

    Autora da Guiné-Bissau colabora com universidades britânicas para ilustrar contos

    No Reino Unido, duas histórias inspiradas na cultura balanta da Guiné-Bissau vão ganhar nova vida, através de um projecto académico. Tuaila Milanca nasceu em Bissau, mas vive fora do país há mais de duas décadas. Foi ainda adolescente, em Moscovo, que escreveu estas histórias para preservar e partilhar a cultura da etnia balanta. Agora, a viver em Norwich, no leste de Inglaterra, colaborou com duas universidades para publicar os contos. O objectivo de Tuaila Milanca é dar visibilidade a uma cultura pouco conhecida pelos britânicos e aproximar estas histórias de um público mais jovem. Aqui se contam duas histórias. Uma é trata de Alanten e Alanan. Os irmãos são curiosos e queriam aventurar-se, queriam conhecer a cultura balanta. Entretanto, desobedeceram aos avós e acabaram de cair numa emboscada, num espaço em que eles não podiam entrar, em que é proibido entrar. Mas como eles crianças não sabiam disso, e entraram. Entretanto, para ser resgatado daquele espaço, precisavam do 'latindan', da presença dele com algumas cerimónias para poder resgatar as crianças lá dentro. E a outra história é a Fuga de Baptida, uma menina que foi obrigada a casar com um homem mais velho e que fugiu da aldeia. É uma história muito emocionante e espero que as pessoas vão gostar. Milanca, diz ter-se inspirado em contos tradicionais, mas reconhece nas personagens parte da sua infância. Eu quando era criança também era muito curiosa. Gostava sempre de ir aonde não deveria ir. Eu lembro-me quando era pequenina, na guerra em 1998, fomos para a aldeia, o meu avô ainda estava em vida e gostava sempre de ir atrás dele quando ele ia para a 'bolanha' [arrozal], coisas assim. As minhas tias iam apanhar ostras, eu estava sempre atrás também. As ilustrações das histórias mostram alguns objectos tradicionais, como trajes, o barrete vermelho e os tambores "bombolom". Eu saí da Guiné[Bissau] pequena, mas sempre estou conectada com a etnia, porque tenho familiares que ainda vivem na aldeia".   Agora, mãe de duas crianças nascidas no Reino Unido, quer transmitir a cultura. O projecto foi coordenado pela professora associada de Antropologia Social da Universidade de East Anglia, Maria Abranches, que conheceu Tuaila Milanca através da organização The Bridge Plus+ Limited. Nós trabalhamos na área das migrações muito com o método de 'storytelling'. É um método muito poderoso, tem muita força e chega a um público também mais vasto, não só académico. E eu pensei, se pudermos encontrar uma forma de colaborar e de conseguir que as histórias fossem ilustradas e publicadas, seria não só uma forma de dar voz a imigrantes como a Tuaila, que é uma das áreas em que nós também trabalhamos, de dar essa voz a pessoas de grupos mais marginalizados, mas também seria uma forma de conseguir comunicar histórias de diversidade cultural a um público moderno, mais jovem, mais alargado e numa altura em que isso é muito necessário. Nós vemos no Reino Unido, mas não só, aumento de discursos anti-imigração e um sentimento muito negativo em relação à imigração, portanto seria uma boa altura para poder avançar com esse projecto. Abranches propôs uma colaboração à Universidade de Artes de Norwich University. Cerca de 70 estudantes do curso de Ilustração fizeram desenhos sobre as histórias de Milanca. É uma forma de transmitir essa cultura. Há dois públicos, no fundo, tanto um público que não conhece quase nada da cultura guineense, e muito menos da cultura balanta, aqui no Reino Unido e sobretudo em Norwich, há uma comunidade guineense, mas relativamente pequena e não muito conhecida. E também há um público que são os descendentes de imigrantes, não só guineenses, mas outros africanos também, que já se sentem um bocado afastados dessas tradições culturais e pessoas como a Tuaila e outros da comunidade sentem essa vontade de aproximar esses jovens também, de fazê-los pelo menos conhecer essas origens da sua cultura. Dos cerca de 70 alunos participantes, foram distinguidos os quatro melhores trabalhos e dois vão ser publicados. Nesta fase, o meu papel é também trabalhar para conseguir publicar duas histórias, em formato de comic book, que vão ser publicadas e distribuídas. Agora o meu trabalho vai ser avançar com essas publicações e depois pensar em estratégias de divulgação.

  7. 7 Jun

    "O Arquivo" de Grada Kilomba dá lugar à "reflexão" e ao "vazio" deixado pelo genocídio no Ruanda

    A artista portuguesa Grada Kilomba é a autora do memorial de homenagem às vítimas e sobreviventes do genocídio de 1994 no Ruanda que foi inaugurado esta semana em Paris. Dois muros negros, triangulos no chão que representam as mil colinas do Ruanda e as palavras "lembrar, crescer, juntos" instalados nas margens do Sena, em Paris, relembram desde o início de Junho de 2026 o genocídio dos tutsis em 1994. Uma cerimónia oficial reuniu o Presidente francês, Emmanuel Macron, e o Presidente ruandês, Paul Kagame, para a inaguração deste memorial criado pela artista portuguesa Grada Kilomba e que é mais um passo para o reconhecimento público do papel da França nos massacres, num altura em que Paris mantinha relações privilegiadas com o regime hutu. Grada Kilomba foi convidada a concorrer com outros quatro artistas internacionais para a concepção deste projecto e foi o seu monumento, minimalista e tocante, que se impôs. Para esta artista portuguesa, foram três anos de criação em que foi necessário representar o inimaginável, sem reproduzir a violência. Grada Kilomba criou assim "O Arquivo" para lembrar as vítimas e as suas famílias, constatar o vazio da inacção internacional face a um crime abominável e mostrar que só é possível preencher o espaço deixado pela dor através da nossa humanidade. "Representar o desumano sem reproduzir o desumano. Isso foi mesmo um processo constante durante o fazer da obra. As minhas obras geralmente lidam de facto com o incompreensível. O meu trabalho é muito focado em tentar compreender o que é a violência, o que é violência cíclica e o que é o conceito de repetição e como a violência histórica se repete. Portanto, isso já é um trabalho que eu tenho feito em outras obras e que me interessa muito. Depois, usar uma linguagem poética para não reproduzir a violência. Então a poesia, eu acho que é a beleza, são dois aspectos muito importantes para mim. Quando eu estou a fazer uma obra, apesar de lidar com temas extremamente violentos e com a morte também porque nós estamos a falar de um de um genocídio onde 1 milhão de pessoas que foram mortas durante 100 dias, interessa-me muito desenvolver obras em que, acima de tudo, são poéticas e humanas, onde as pessoas e o público entra para reflectir sobre a condição humana", descreveu Grada Kilomba. A artista portuguesa, com origens angolanas e são-tomenses, que tem vindo a tratar nas últimas duas décadas de temas ligados à violência racial e escravatura, utilizou neste monumento em Paris o seu estilo que é descrito como "minimalista pós-colonial" para representar o sofrimento dos tutsis e a inacção da comunidade internacional. Grada Kilomba é psicóloga e partiu no final dos anos 90 para Berlim onde realizou o seu doutoramento que deu origem ao livro "Memórias da Plantação", que tem sido editado em vários países. Desde aí, a artista tem multiplicado os seus meios de expressão quer seja através das artes plásticas, como a obra "O barco", ou através da dança, coreografando instalações. Numa altura em que em muitos países europeus e africanos - após um forte movimento nos Estados Unidos - se começa a questionar a toponomía das ruas e as estátuas que ocupam o espaço público, a artista defende que o espaço público é "extremamente poderoso" e é através desses espaço que as sociedades decidem quem deve ser homenageado. "Eu acho que é muito importante nós compreendermos o que é que o espaço público significa e o que é que significa arte no espaço público. Nós temos que compreender que o espaço público é extremamente poderoso. Talvez seja o lugar mais poderoso para uma artista mostrar uma obra, mais do que um museu, porque o espaço público está em constante diálogo com o público. E quando nós caminhamos numa cidade como Paris ou Lisboa ou Kigali e estamos rodeados de monumentos, de arquitectura, de arte pública, nós não estamos só rodeados de objetos arquitetónicos e artísticos. É importante compreender que nós estamos, acima de tudo, rodeados de formas de contar histórias. Então, a arte pública não é só arte, mas é uma forma de contar histórias. É uma forma de dizer o que é que nós devemos saber e o que é que nós não devemos saber, de quem é que nos devemos lembrar e de quem é que não nos devemos lembrar, quem é que nós celebramos, que nomes é que conhecemos, quem é que nós chorámos, a quem é que damos e devolvemos flores", defendeu a artista. O monumento de Grada Kilomba insere-se num "caminho de verdade" sobre o papel da França no genocídio no Ruanda, com o Presidente Emmanuel Macron a ter dito durante as cerimónias que se tratava de um marco em direcção ao futuro e com o seu homólogo ruandês, Paul Kagame, a reconhecer "a coragem" desta admissão de culpa. Após um período complicado na relação dos dois países, "O Arquivo" marca a reaproximação entre os dois Estados.

  8. 5 Jun

    Neusa e Silva: O futuro “está muito ancorado ao jornalismo local, independente e free-lance”

    O Mapa que Nasceu no Terreno é o livro que a jornalista angolana Neusa e Silva fez a pensar em quem ambiciona afirmar-se no jornalismo a nível internacional. A obra, que funciona como um guia para jornalistas, é também um instrumento para as ONG e investigadores. A partir da experiência de reportagem no terreno, consolidada ao longo de anos, Neusa e Silva apresenta um Método de Reportagem em Quatro Quadrantes que transforma o conhecimento local em narrativas globais de impacto. No livro, Neusa e Silva também quebra tabus ao expor a arquitectura do assédio laboral e apresentar ferramentas para diagnóstico, defesa jurídica e preservação da saúde mental. Para quem quer contar o mundo a partir do terreno, a autora criou um mapa que identifica como de sobrevivência, resistência e ascensão profissional. A RFI falou com Neusa e Silva em Portugal. A jornalista começa por explicar o que se pode encontrar na obra e como surgiu o livro O Mapa que Nasceu no Terreno. Neusa e Silva, jornalista: Eu agrego aqui todas as experiências no terreno da minha carreira como jornalista internacional ao longo de praticamente 15 anos. Ou seja, fiz um mapeamento de tudo o que eu precisei ao longo de 15 anos e não tive, e construí este livro para que outros jornalistas que estejam a iniciar a carreira no jornalismo internacional possam ter uma espécie de guia. Desde as questões de relacionamentos interpessoais, desde o assédio laboral, como abordar, como identificar, desde a abordagem a cadeias internacionais até a elaboração de pautas para cadeias internacionais. E, por fim, a cereja no topo do bolo é uma metodologia de produção de reportagens comprovada, que eu já apliquei em várias reportagens, que são produzidas no local e têm um alcance e impacto a nível global. Muitas das minhas peças foram publicadas em português ou em inglês e foram reproduzidas e traduzidas para várias línguas, algumas mesmo traduzidas para mais de sete idiomas e republicadas em quatro continentes. Então, neste livro eu tenho uma metodologia que fiz com base nestas peças e que sistematizam uma forma concreta de seleccionar fontes, como abordá-las e, depois, como construir a notícia para que ela seja feita a partir do local, tenha o local como âncora, como base, mas que consiga ter uma repercussão internacional. Essas reportagens aconteceram onde e que temas é que foram cobertos por essas reportagens? Uma das primeiras reportagens que eu produzi com este método foi em 2021, e intitula-se "A SADC (Southern African Development Community / Comunidade de Desenvolvimento da África Austral )  adopta Rand Sul-Africano como moeda de referência". Eu estava a trabalhar como correspondente de um órgão internacional, ou seja, estava baseada em Angola, a cobrir a região para um órgão europeu internacional. Esta reportagem foi reproduzida em vários locais. Ou seja, o órgão publicou e depois vários países da SADC e outros países retomaram a reportagem. Depois, o mesmo foi acontecendo com muitas outras peças, até que eu publiquei uma sobre diamantes. Esta sim, foi uma coisa inédita. Foi republicada em vários continentes dos Estados Unidos, no Médio Oriente, na Ásia, e hoje esta peça está a ser utilizada como fonte para teses na Itália, na Polónia, até no Japão. Várias instituições governamentais utilizam esta peça como uma das fontes para trabalhar em relatórios, alguns deles até financiados pela União Europeia. Então, este livro é um guia de abordagem ao terreno inspirado pelas experiências de Neusa e Silva no continente africano? Exactamente. Foram várias experiências, algumas resultaram, outras não resultaram. As que resultaram melhor eu compilei aqui neste livro. Um guia de experiências também a nível de relações interpessoais. Questões que normalmente são consideradas tabu, como assédio nas relações. Por exemplo já aconteceu eu ser contratada por um órgão internacional, chegar ao país, estar completamente distante da minha rede de apoio, e ter, por exemplo, um chefe que diz que para explicar a matéria tem que ir jantar com ele ou tem que fazer isto. Depois, quando a pessoa diz que não, que não é profissional, há tendência, sempre, de estar ali naquele país à mercê de situações. Ou seja, qualquer pessoa que se vê numa situação destas, tendo este livro, neste capítulo "A Arquitectura do Assédio", já vai poder identificar situações que tendencialmente podem colocá-la em perigo de assédio, perigo de bullying e também como recolher provas, como abordar estas situações caso a instituição decida proteger os infractores, que é o que infelizmente acontece muito. Portanto, aqui tem os três pilares da arquitectura do abuso, do assédio ou bullying, que são: o assédio hierárquico, o vertical, que acontece quando o poder formal é instrumentalizado para fins de coerção aos subordinados, aqui eu explico como é que acontece, que situações a pessoa pode identificar logo no início, as características, é a simetria acentuada de poder, abuso de autoridade, utilização de controlo sobre a carreira como mecanismo de pressão. Depois, tenho aqui alguns exemplos como solicitações inapropriadas sobre disfarce profissional, que aconteceram comigo e que acontecem com muitas outras pessoas. Depois  tenho aqui o assédio por procuração, que acontece quando um chefe dá o poder a um subordinado para que ele faça bullying com os demais colegas, gozando de determinada protecção. Então, este Mapa que Nasceu no Terreno não é um simples guia do passo-a-passo que um jornalista deve fazer para conseguir construir determinada reportagem ou conseguir abordar determinado tema. É também como lidar com uma quantidade de pressões que podem surgir no contexto profissional? Exactamente. Como disse, este é um mapa de que eu precisei e que não vi em lugar nenhum. Então, desde a entrada para o mundo profissional, desde as questões de relações interpessoais que na escola não nos ensinam, nem os nossos pais nos dizem que no trabalho vamos ter situações deste tipo ou daquele tipo, ninguém nos diz isso. Nós descobrimos quando acontece connosco, e acontece com todo mundo, em todo lado. Não é nem uma questão de se colocar na posição de vítima. Às vezes, até algumas pessoas que hoje estão na posição de vítima também já praticaram o assédio ou o bullying com outras pessoas. O livro O Mapa que Nasceu no Terreno, Guia de Sobrevivência ao Assédio Laboral, Jornalismo e o Método de Investigação do Local ao Global foi, para já, editado por uma editora internacional, uma editora alemã, e já foi também apresentado em ambiente universitário, os estudantes de jornalismo foram o público dessas apresentações. Como é que foi a reacção? Sim, a obra já foi publicada por uma editora alemã, internacional e académica, mas foi uma publicação apenas para licenciar o livro e proteger o método, a metodologia e tudo o que está aqui para garantir os meus direitos autorais e o licenciamento da obra para eu estar protegida. Proximamente será feita a edição comercial. Sim, já foi apresentado em universidades e a recepção por parte de coordenadores do curso de Comunicação Social e mesmo por parte dos estudantes foi muito boa. Vi colegas, jornalistas que participaram das actividades na apresentação desta metodologia de produção de reportagens do local ao global, a dizerem “eu nunca tinha ouvido falar disso”. Porque eu criei a metodologia de produção de reportagens Quatro Quadrantes que depois dá origem à Sinfonia das Fontes. Eu explico como tudo isso acontece e dou exemplos. Portanto, a metodologia está comprovada que funciona porque eu tenho várias reportagens que realmente estão disponíveis na internet em várias línguas e estão a servir de fontes para relatórios em Antuérpia, no Japão, na Polónia, na Itália. Então, de facto, é prático. Eu acho que este livro será pertinente. Pela reacção dos estudantes e do corpo docente, eu acho que estou satisfeita, a reacção tem sido muito, muito boa. Esta obra, produzida por uma jornalista angolana, desafia a história da produção do conhecimento e como o Ocidente o reconhece. No fundo, é uma produção de conhecimento vinda do Sul Global. Esta obra desafia a comunidade académica, em particular, e criadora de conhecimento a desmontar o pensamento estereotipado de que o Sul Global, em especial o sul de África, não produz conhecimento e propõe um caminho alternativo do jornalismo comunitário, autónomo e enraizado na realidade vivida no Sul Global. Mais do que uma proposta teórica, trata-se de uma reconfiguração epistemológica que coloca o conhecimento gerado na periferia global no centro do debate. Desafia também a Academia e o campo mediático a reconhecer o sul de África, ou África em si, não como objecto de estudo apenas, mas como um sujeito activo na produção do saber. Há sempre alguma resistência a aceitar o conhecimento produzido em África, a tendência é costumarmos ver África como objeto de estudo. Então, eu acho que seria também como uma descolonização da maneira como pensamos o conhecimento produzido, até mesmo o conhecimento tradicional, o conhecimento das pessoas que vivem no local como tão válido como o conhecimento produzido pela Academia, e ser considerado também como útil. Na medida em que há provas, pelo menos aqui, de que esta metodologia de produção em Quatro Quadrantes, e depois com a Sinfonia das Fontes, dá real resultado ancorando sempre a notícia no local. O que nós vemos muito agora é, com a crise nos média, as televisões, grandes televisões, vão reduzindo o pessoal vão fechando as suas instalações fora dos países. Então, quase que a produção é feita em estúdio com análise. Este livro quer recuperar um bocadinho a valorização da narrativa feita a partir do local atrav

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