Artes

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Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

  1. 1d ago

    Alda Barros: “São Tomé e Príncipe é a minha poesia”

    Neste programa Artes, conversámos com Alda Barros a propósito da obra "Outros Silêncios", o seu quarto livro de poesia depois de “A Flor Branca do Baobá” (2017), “Chuva de Prata” (2019) e “Something to Care About” (2026). Nascida no Pantufo, em São Tomé, em 1960, Alda Barros foi jornalista no período pós-independência ainda no seu país e depois foi para Angola, onde tirou Relações Internacionais e começou a trabalhar para a ONU. Seguiu-se uma carreira de 35 anos ao serviço das Nações Unidas, em que também trabalhou em missões na Guiné-Bissau, Timor-Leste, Burundi e República Democrática do Congo. A poesia sempre esteve presente, mas só começou a ser publicada nos últimos anos. Em "Outros Silêncios", a autora volta a São Tomé, num livro atravessado pelas memórias, pelo desejo, pelo tempo e pela crença no potencial terapêutico do silêncio e da poesia.  RFI: Como nos poderia apresentar “Outros Silêncios”? Alda Barros, Autora de “Outros Silêncios”: “Começaria por apresentar ‘Outros Silêncios’ falando da origem de ‘Outros Silêncios’, falando inicialmente da saúde mental, que é algo que às vezes nos passa despercebida porque temos ainda aquele mito de que ter um problema de saúde mental é ter um problema psiquiátrico e, então, há pessoas que escondem a doença ou o problema, não procuram ajuda, daí a razão de, nestes 35 anos no sistema, eu não poder dizer que passei ao lado, a saúde mental igualmente não passou ao lado de mim. Então, depois deste interregno, eu disse: 'Não. Vou tentar pôr alguma coisa por escrito para dizer às pessoas que ter um problema de saúde mental não é estar maluca como às vezes se pensa, não se pode associar a psiquiatra' - embora, por vezes, o psiquiatra seja uma vertente igualmente a contactar caso o psicólogo o recomende.” Isso leva-nos ao título do livro, “Outros Silêncios”, e ao poema com o mesmo título. Esse poema fala em “sons silenciosos”, histórias não contadas, e dedica o livro “a todos aqueles que acreditam na cura através do silêncio”. Qual é o potencial poético do silêncio? “O silêncio, para mim, é um medicamento e uma terapia porque há momentos em que a gente não quer ouvir vozes, não quer ouvir conselhos, mesmo que seja aquela voz amiga que sempre esteve presente, a gente diz: ‘Não, hoje quero estar sozinha. Quero pensar no que isto pode dar.’ E há muita gente que não só se retira do convívio dos familiares, mas também de outros meios, de pessoas conhecidas, porque nem todo o silêncio é de cura, mas aquele silêncio que a gente exige de nós próprios é para curar, é para fazermos uma terapia interna e dizer: ‘Deixa-me ver se eu consigo antes de pedir ajuda’. O livro é habitado por tanta vida, tantos sons, sabores, paisagens... Não é o contrário do silêncio? “É o silêncio que cada um se impõe. Quando digo que o silêncio cura, pode ser um silêncio como música de fundo. Aí, já não é o silêncio a 100%, é um silêncio que tem um complemento e este complemento é uma música, pode ser um som para se pensar melhor, para se saber o que fazer a seguir, que passos dar ou então apenas para não ouvir ninguém e não ouvir nada.” É um complemento de poesia também? “Também. A poesia está ali, implicitamente presente, a poesia faz parte deste silêncio. A gente não quer falar com ninguém, mas quer ler um livro de poesia, quer ler uma poesia, quer ver o que tal autor diz acerca do livro que escreveu. Eu posso dizer que quero o silêncio porque eu quero interiorizar os meus poemas ou um poema qualquer, desde que seja poesia. A poesia tem um peso que muita gente não valoriza ou não se dá conta do peso que tem.” Há algum poema que gostasse de nos ler para curar, se calhar, algumas almas que estão a precisar de poesia e de silêncio? Um poema com um significado especial para si? “Eu gostava de ler o poema “Choro de uma Criança”. Posso?” Vamos a isso. “Hoje haverá festa/ no mar de saudades/ alinhadas à noite esquecida / numa chávena de chá esquecida/ requentado por mãos distintas./ Com cheiro à liberdade/ entre o prazer demorado/ que se mistura aos soluços forçados/ e distintos./ Sorrisos vibrantes/ do tamanho do telhado de vidro/ abrindo as portas de memórias surdas/ reflectidas no vazio do teu corpo desigual./ Perdido no espelho do tempo/ mansinho como o choro de uma criança.” Por que é que este poema é especialmente importante para si? “Este poema é importante para mim porque eu associo o silêncio à liberdade. Eu, às vezes, digo que sou uma pessoa livre. Eu adoro a liberdade. E para ser livre, nós temos que saber valorizar essa liberdade, temos que conhecer os limites da nossa liberdade, porque normalmente a gente diz ‘a minha liberdade termina quando começa a tua’ ou vice-versa. Então, ser criança é ser livre. O espelho do tempo dá-nos liberdade, quando a gente olha para o tempo, olha para trás e diz: ‘O tempo se foi, passou, mas estamos aqui, continuamos livres. É um bocado isso.” Fala em liberdade, em memória, no tempo. Tudo isso são temas que atravessam este livro? “São todos temas que atravessam este livro que dão peso, que para mim e para muitos tem algum peso. Este livro tem uma história que, quem sabe, eu conte numa outra oportunidade.” Qual é a história? “Este livro tem uma grande história, na criação do livro, no esmiuçar de cada poema, no conteúdo dos mesmos e nas entrelinhas. Há toda uma história misturada que eu, por acaso, já pensei em dizer: ‘Qualquer dia eu pego num dos poemas e transformo o poema num livro, mas cada livro será uma história contada de forma diferente porque cada poema tem o seu peso, como eu há bocado acabei de dizer.” É um peso biográfico? É o peso também da memória? “Não, não é um peso biográfico. É o peso da memória. Sim, sim. É um peso, como quem diz, ele vai trazer outros pontos que não estão mencionados nestes poemas e que eu vou tentar separá-los para dizer às pessoas, por exemplo, o poema ‘O Choro de uma Criança’ é por isto, aquilo e aqueloutro e há a história de uma criança por trás. Está a ver?” Abre o livro com a frase “Só é possível esquecer o passado quando conseguir(mos) adiar a sua existência!”, o que mais uma vez nos leva para o peso da memória. Por outro lado, também há muitas referências a São Tomé: Pico, Trindade, Baía de Ana Chaves... Talvez haja uma geografia afectiva nos poemas, como por exemplo em “Ilhas Santas”, em que São Tomé e Príncipe surge explicitamente no título. São Tomé e Príncipe também é um dos temas do livro? “São Tomé é implicitamente um dos temas do livro, um dos impulsionadores do livro, portanto, dos sentimentos que conduziram a este resultado, porque eu sou de lá e não me de dissocio, nem quero me dissociar disso. Em todos os meus livros, o meu São Tomé e Príncipe está lá, presente, presente, presente. É a minha poesia. São Tomé e Príncipe é a minha poesia, de forma que eu não poderia de forma nenhuma concluir um livro de poesia sem falar da minha poesia, da poesia principal que é o meu país.” A Alda é uma poetisa, uma mulher livre que viveu mundo fora. Nasceu em São Tomé e Príncipe, foi jornalista, estudou em Angola, passou décadas em missões da ONU em Angola, na Guiné-Bissau, Timor-Leste, Burundi e RDC. Há lugares onde viveu que também influenciaram e continuam a influenciar a sua poesia? “Sim, necessariamente. Eu falo um bocado mais dos países e dos pontos em que eu trabalhei nas missões das Nações Unidas no meu primeiro livro ‘A Flor Branca do Baobá’. Sim, eu falo do Timor-Leste, eu falo da Guiné-Bissau - inclusivamente, até tenho um poema em crioulo da Guiné-Bissau. É muita coisa junta, muita lembrança, recordação, coisas boas que não poderiam, de forma alguma, ficar fora do conjunto destas memórias.” Tendo estado em todos esses países, nomeadamente em países onde os direitos humanos são muitas vezes brutalmente violados, continua a escrever poesia. O que pode a poesia num mundo assim? “Este mundo que eu vi, com que eu convivi e de onde eu bebi uma grande experiência de vida – e estou referindo-me aos direitos humanos e às violações dos mesmos - é um mundo diferente, não é um mundo qualquer, quero eu dizer. É um mundo que carece de mais poesia, mais poesia orientada. Tem que ser poesia orientada. Imagine alguém que sofre porque não foram respeitados os seus direitos. Como é que esta pessoa pode procurar sair do buraco em que o trauma a coloca? Porque qualquer sofrimento deixa traumas e eu ainda continuo a dizer que esta pessoa tem uma poesia para escrever, mas já não será a poesia que eu escrevo. Será uma poesia sofrida.” A poesia pode ser uma resposta para os traumas? “A poesia é uma resposta para se sair de um trauma. Ou para entrar. Depende da forma como a gente encara, descreve e vive esse trauma porque pode-se escrever uma poesia depois de um trauma e não se conseguir livrar do trauma. Então, aí já se tem que saber o que é que se quer depois de se escrever esta poesia relacionada ao trauma que se viveu. Porque não é fácil, nenhum dos lados é fácil discernir e separar o bom do mau. Tem que se ter uma grande habilidade para se ter esse jogo de cintura, porque é preciso um grande jogo de cintura.” Trabalhou durante tantos anos em missões humanitárias difíceis e a poesia publicada surgiu apenas nos últimos anos. Como é que a poesia surgiu na sua vida? Que lugar é que acaba por ter na sua vida? E quando é que lhe pôde dar um espaço pleno para ela se exprimir? “Eu fui uma das pupilas da matriarca são-tomense Alda Espírito Santo. A poesia começou muito cedo. Primeiro, a escrita em casa e depois veio acompanhar-me quando eu exerci as funções de jornalista. Tínhamos

  2. Aug 25

    Realizadora angolana Pocas Pascoal distinguida no Festival de Cinema de Locarno

    A realizadora angolana Pocas Pascoal, foi distinguida a 9 de Agosto com o 'The Open Doors - OIF Francophonie Award', no âmbito do Festival de Cinema de Locarno na Suíça que decorreu de 5 a 15 de Agosto. Durante o festival, a cineasta, autora nomeadamente de fitas como 'Memórias de Infância' em 2000, ou ainda 'Alda e Maria' em 2011, projectou a sua curta-metragem 'Time to Change', um filme sob forma de denúncia do colonialismo e apresentou o projecto pelo qual foi premiada, em torno da figura da cineasta francesa Sarah Maldoror, conhecida designadamente por ter acompanhado em imagem a luta de libertação de Angola. Em entrevista à RFI, a realizadora, a viver em Portugal há cerca de nove anos, partilhou a sua alegria por ter sido distinguida, falou da sua experiência como cineasta em Portugal e também evocou o que pretende contar na fita sobre Sarah Maldoror. RFI: Como se sente com o prémio que recebeu em Locarno? Pocas Pascoal: Sinto-me muito bem! Acho que é um grande impulso também para a minha carreira, que já começou há muitos anos, mas continua a crescer. É um prémio que vai valorizar também o projecto que eu estou a escrever sobre a Sarah Maldoror, que vai de certeza permitir-me concluir o projecto que estou a escrever e espero eu que vai ajudar também a ter financiamentos. Portanto, eu acho que é assim uma coisa muito, muito importante, o que me aconteceu. Tive muita gente a contactar-me interessada no projecto depois deste prémio. Isto é um grande impulso. O Festival de Locarno em si, é um grande programa de encontro e que nos permite fazer contactos e relações que ficaram até para o resto da vida, de certeza. Portanto, já isso é muito, muito importante como festival, como plataforma mesmo de formação. Nunca aprendi tanta coisa sobre cinema em tão pouco tempo e nunca fiz tantos encontros em tão pouco tempo também. Portanto, o facto de estar no Festival de Locarno em 'Open Doors' já é um grande presente e um grande prémio, porque permite-nos projectar o meu projecto internacionalmente. Estive lá com o filme e, sim, há já algumas coisas que estão a avançar bem e penso que vamos assinar um contrato de co-produção. RFI: A curta-metragem que lhe deu essa chave para a próxima etapa é 'Time to Change'. O que é 'Time to Change'? Pocas Pascoal: É uma crítica à colonização, à colonização em geral, mas sobretudo à colonização portuguesa, que foi aquela que Angola viveu. Tento denunciar através deste filme aquilo que se passou. E faço uma ponte entre o passado e o presente, hoje, criticando a relação que os portugueses tiveram, que foi uma relação de repressão e de exploração. Em Portugal há uma mentalidade ainda que, infelizmente, continua. Continuam a pensar que a colonização portuguesa foi uma boa colonização, que foi uma colonização 'soft', que misturaram-se muito e que não foi assim tão grave. Mas foi grave, Foi muito grave. Este filme denuncia aquilo que foi a colonização e também denuncia o desequilíbrio dos ecossistemas que começaram naquele momento. Portanto, quando os portugueses chegaram, havia um equilíbrio, uma maneira de viver que os angolanos, o ser humano teve que modificar, teve que se adaptar àquilo que esses colonos quiseram que eles se tornassem. Mesmo a nível de habitação, a nível da arquitectura, tivemos que sair da nossa casa feita de madeira e de palha, que era uma coisa local. Houve várias coisas que se podem aprofundar em relação a isso e mudaram-nos completamente, a nossa maneira de ser, a nossa cultura, a nossa linguagem mesmo. A língua que tivemos que falar foi a portuguesa. E também a natureza, os animais. Para mim, esta alteração climática começou já nesse momento. Portanto, eu faço esta ligação do passado ao presente para denunciar as consequências desta colonização ainda hoje. RFI: Como é que é estruturado este filme? Portanto, é um filme que vai buscar imagens documentais. Por exemplo, uma imagem muito forte, muito simbólica, de caçadores. Pocas Pascoal: Eu utilizei imagens de arquivo no filme e não só. Também tem imagens dos dias de hoje. Essas imagens do caçador são imagens horríveis e acho que apercebemo-nos que naquela altura caçava-se muito de forma recreativa. Caçava-se para o homem se sentir mais forte, o mais forte do universo, mais forte do que os animais, mais forte do que o elefante, que é um animal gigante. Numa das fotografias, tem uns três caçadores com uns cinco ou seis Elefantes. é uma coisa horrível. E são animais que hoje em dia estão a desaparecer por causa disso. Por foram tão caçados às vezes só para poderem pôr um troféu na parede. E às vezes para poder se sentirem fortes. E para poderem utilizar o marfim. É uma coisa absurda, porque é uma mentalidade que infelizmente destruiu. E isto, acho que temos que tomar consciência. E lembrarmo-nos, continuarmos a lembrar o que foi e o que é que está a acontecer hoje. Portanto, é uma maneira para mim também de reavivar a memória. RFI: Falou da forma como Portugal encara o período colonial. Como é que ele é encarado em Angola? Pocas Pascoal: Ai, eu já não estou em Angola há 40 anos! E vou muito raramente a Angola. Seria difícil falar sobre este tema. Sei que em relação aos angolanos que estão na diáspora, é uma luta constante contra o racismo. Eu vivi vários anos em França e nunca vivi tanto racismo como vivo aqui em Portugal, infelizmente. Há coisas maravilhosas, mas há um racismo muito básico. Na verdade, é uma coisa que foi impregnada na mente das pessoas, que as pessoas negras são pessoas inferiores, que são pessoas que não têm instrução, que são pessoas que não têm meios financeiros, que são pobres também. Isto aconteceu-me. O racismo que eu tive aconteceu-me com várias pessoas de vários meios sociais. Por isso é uma coisa que está impregnada na mente das pessoas portuguesas e que não sai. E que eu acho que é um trabalho que se deve fazer. É um trabalho que talvez não tenha sido feito. Eu penso que não foi feito um trabalho que deve começar a nível das escolas, com as crianças, para tentar mudar esta mentalidade e é um trabalho político também. Eu acho que a Europa e Portugal, sobretudo, que é o país onde eu vivo, tem uma grande dívida com esses países que colonizaram. Mas esta dívida devia ser paga através de um trabalho de memória, de um trabalho de formação e de informação. É um trabalho que deve ser começado pelas crianças nas escolas, porque só a partir daí é que as mentalidades das pessoas brancas vão começar a mudar e a reconhecer que nós somos iguais. RFI: Como é que é fazer cinema em Portugal? Aquilo que acaba de me descrever também entra em linha de conta para a sua vivência em termos de trabalho? Pocas Pascoal: Claro, uma grande influência, infelizmente, é terrível. Eu vou contar-lhe uma coisa que eu por acaso falo muito raramente e não estou a falar do lado financeiro, porque o lado financeiro é realmente um problema com as mulheres, porque nós temos estado a lutar contra isso também. Eu faço parte de um grupo de mulheres no cinema que se chama 'Mutim' (Associação de Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento em Portugal). A 'Mutim' lutou muito para que haja nos júris do ICA (Instituto de Cinema e do Audiovisual) mulheres, que as mulheres sejam representadas também nos júris. Portanto, isto já muda muito, os financiamentos. E depois? Agora é chegar a mulheres negras, porque também é um problema de imaginar um filme onde só haja pessoas negras. Mesmo se eu não faço filmes só com pessoas negras, mas um filme onde haja uma maioria de pessoas negras, os júris podem ver aquilo muito mal. É um filme que não vai ter público. Um filme que vai ser mal distribuído, se calhar, porque se há uma mentalidade que ainda pensa que as pessoas negras não têm formação, não são instruídas, etc, no cinema também é uma coisa muito às vezes inconsciente. No cinema também, portanto, há uma luta contra isso. Há uma vitória pequenina, é verdade. Já se vê alguns filmes distribuídos nos cinemas com pessoas negras, mas são filmes americanos. É verdade. Negro e americano. Ok, já é melhor aceite. Mas o que eu queria contar há bocado é que aconteceu-me. Há uns anos atrás, fiz um telefilme. Fui convidada porque era uma mulher. E aceitei porque era uma oportunidade para mim de trabalhar na indústria portuguesa. Eu tinha acabado de chegar a Portugal e eu tinha feito um casting com pessoas negras, porque o filme passava-se nos subúrbios de Lisboa e aquilo foi uma luta. Foi horrível. Não consegui ter um casting só com pessoas negras. Foi uma luta terrível. Mas há um público e é um erro enorme, porque há um público, porque quando passa um filme na televisão com pessoas negras, as pessoas vêem os filmes. Há estatísticas, as pessoas vêm e é muito visto. Portanto, há um erro enorme em relação a isso. Isso também faz parte do trabalho para modificar isso. Faz parte deste trabalho, que é muito político e que as pessoas têm que fazer. Como eu disse há bocado, tem que começar nas escolas com as crianças, porque senão as coisas não vão mudar. RFI: Estava a mencionar o facto de ter também a expectativa de que o facto de ganhar esta visibilidade com este prémio também possa dar um impulso ao seu próximo projecto, que tem a ver com a figura da Sarah Maldoror, que faz a ponte entre a francofonia, porque ela era das Antilhas, com o mundo lusófono, uma vez que ela focou o seu olhar sobre a África lusófona, sobre Angola, sobre a Guiné-Bissau. O que é que a levou a interessar se por esta realizadora? Pocas Pascoal: É uma figura muito importante em Angola. Ela até é considerada angolana em Angola. Ela fez os dois primeiros filmes em Angola. A primeira vez que eu vi pessoas negras no cinema, era muito jovem, foi através de filmes da Sarah, o

  3. Aug 18

    Batida - do "Kuduro da Tuga" para novo género musical: retrospectiva

    É um género musical recente, que já começa fazer vibrar os clubes e as cenas alternativas de várias capitais europeias. Nasceu nos subúrbios de Lisboa, nos anos 2000, criado por artistas da diáspora africana. Batida, é ritmo, é pulsação, é cadência. É o bater do coração transformado em música. 140 BPM para os mais entendidos. Como o kuduro de Angola. Rápido. Enérgico. A batida mexe com as regras da música electrónica. Mas o que é e de onde vem?    "A batida para mim é tudo", diz DJ Marfox, um dos pioneiros do género. "É vida, é ar, é sol, é lua e noite, é dia. Para mim, é uma continuação da minha personalidade". É na Quinta do Mocho, norte de Lisboa, que tudo começa em 2004-2005, nomeadamente com a compilação DJs do Gueto Vol. I, produzida pelos DJs Marfox, Pausas e Fofuxo, e considerada uma das primeiras edições de Batida. "Entre 2001 e 2004, a coisa foi-se construindo, primeiro com o DJ Nervoso, depois eu também entrei em cena, com o DJs do Gueto, e depois expandiu para todos os guetos de Lisboa e tornou-se uma febre", conta Marfox. As raízes são múltiplas, com um destaque para o kuduro angolano, mas também outros ritmos africanos, todos misturados com sons electrónicos.  "A batida é inspirada essencialmente no kuduro. Só que nós tínhamos muita dificuldade em ter kuduristas, éramos muitos produtores, poucos kuduristas. Então a coisa foi-se fortalecendo cada vez mais no beat, na construção mais melódica. Fomos sempre atrás de uma fusão entre kuduro e techno e como não tínhamos um nome para dar, as pessoas foram falando batida, batucada. Ficou batida", diz ainda Marfox.  Para realizar os sons, recorriam a um programa de produção musical no computador, o Fruity Loops. Não era preciso muito equipamento, um computador, alguns samples e muita experimentação. "Tínhamos o som, mas não tínhamos ideia como era feito um kuduro. Acho que essa experimentação é que deu um certo groove, um certo encanto. O facto de tentarmos replicar o que era feito em Angola, mas não conseguirmos. Então criávamos coisas novas e experimentávamos nas festas aqui na Quinta do Mocho". Em 2004, quando se ouvem os primeiros sons da batida na Quinta do Mocho, nos arredores de Lisboa, o DJ Lycox ainda é um miúdo na altura. Dança e descobre este novo som na escola, através dos mais velhos. "Eu conhecia a batida através de amigos meus da escola. Os mais velhos surgiam nas escolas com aqueles Nokia Express Music e aí metiam esse subgénero. Na altura a gente dançava kuduro. A nossa comunidade do PALOP's fazíamos as rodinhas de dança e ficávamos só a meter kuduro. Mas depois veio essa wave da batida um pouco mais agressiva do que aquele kuduro que a gente estava habituado a ouvir nas cassetes em casa dos nossos pais", recorda Lycox. Mas a batida não vem só do kuduro, até porque os seus criadores são filhos da diáspora de todos os PALOPs, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Moçambique. Em 2011, surge em Lisboa a Príncipe Discos, editora independente. Nasceu para dar voz a uma música que já fervilhava nos subúrbios da cidade. Uma música electrónica criada em grande parte por artistas afrodescendentes, que misturava kuduro, batida, funaná e outros ritmos africanos. Com artistas como DJ Marfox, Nídia, DJ N***a Fox, DJ Firmeza, a editora acabou por levar estes sons muito para lá de Lisboa, até aos clubes de todo o mundo hoje. Os seus DJs tocam em Paris, Londres, Berlim, Viena, Roterdão. Mas ainda assim, a batida continua relativamente discreta. Marfox: "É uma luta, não é? Mesmo aqui em Lisboa nós ainda temos algumas resistências em circuitos mais conservadores. Mas não me posso queixar de todo. A coisa está muito melhor do que estava há dez, 15 anos atrás. Mas ainda há muito a fazer, há muito a trilhar, há muito a construir. Acho que estamos no bom caminho e acho que vem aí um futuro brilhante para a batida. Eu já toquei em Luanda, Angola. Já toquei na cidade da Praia, em Cabo Verde. Já toquei em Nairobi, no Quênia. Já toquei no Uganda. Acho que é importante a batida também a olhar para o Sul global. É importante levar o som da batida para para esses sítios, para o hemisfério sul".

  4. Aug 10

    "A Nação Começa no Coração", um livro que quer fazer reflectir a sociedade são-tomense

    Kemilson D’Almeida, jovem jornalista são-tomense, escreveu "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" para travar as clivagens no seio da sociedade são-tomense e promover uma vida política mais saudável para todos os intervenientes, especialmente para o futuro do país. Com histórias, metáforas e reflexão, o jovem são-tomenses Kemilson D’Almeida quer através do seu livro "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" que os são-tomenses criem um novo caminho para a democracia. Um caminho onde a difamação, os rumores e as ofensas não têm lugar na vida política e onde a sociedade são-tomense consiga projectar-se num futuro melhor para todos.  Kemilson D’Almeida acredita que isto é possível se cada cidadão se responsabilizar pelos seus actos e se a educação cívica se fizer a partir da mais tenra idade. "A ideia surgiu justamente por observar algumas coisas na sociedade, sobretudo em São Tomé e Príncipe. Venho vendo pessoas atacando o outro, odiando o outro, difamando o outro. Então surge aí uma pergunta muito importante que é se nós queremos desenvolver uma nação: será que vamos desenvolver a nação odiando ou amando o outro, destruindo o outro? Então surge a ideia de escrever o livro A Nação começa no Coração. Isto porque se nós queremos desenvolver uma nação, independentemente do país que seja, é necessário nós mudarmos", explicou o autor. Kemilson D’Almeida vive actualmente em Portugal e é jornalista da RSTP – Rádio Somos Todos Primos, integrando também a Associação dos Jovens Escritores Santomenses (AJES) desde a sua fundação. Face às eleições legislativas que se realizam em São Tomé e Príncipe a 27 de Setembro, Kemilson D’Almeida mantém-se positivo. "Eu estou convicto de que podem vir a realizar de uma forma tranquila, porque antes das eleições presidenciais, eu tinha uma visão diferente de que viria a ser uma coisa, um clima muito forte, de muita divisão, com muita confusão, mas pelos vistos não é o que aconteceu. A sociedade, a nação são tomense conseguiu mostrar uma realidade totalmente diferente. E para estas eleições legislativas, autárquicas e regionais, eu acredito profundamente que vai decorrer num clima de paz, num clima de de muita serenidade e acima de tudo, eu estou convicto de que isso possa vir a acontecer e caso não aconteça, será mais uma decepção", concluiu. O livro "A Nação Começa no Coração – Reconstruindo o que o ódio, a divisão e a falta de caráter destruíram" está actualmente disponível na Amazon.

  5. Aug 4

    'Chef' cabo-verdiana Alia dos Santos: "A alma do sucesso está no amor pelo que a pessoa faz".

    Neste magazine "Artes" debruçamo-nos uma forma de arte que faz parte do nosso quotidiano e que todos nós podemos -a certa altura- praticar: a gastronomia e mais concretamente a doçaria e a pastelaria. A conhecida 'chef' cabo-verdiana Alia dos Santos acaba de lançar o seu segundo livro de receitas, 'Sobremesas e Surpresas', uma obra que, como o título indica, apresenta diversos doces, bolos, sumos, gelados e também petiscos de Cabo Verde. Fundadora do conhecido 'Quintal da Música', na Cidade da Praia, um espaço que é simultaneamente uma sala de concertos e um restaurante que em 25 anos de existência se tornou um pólo incontornável da cultura do arquipélago, Alia dos Santos diz pretender dar a conhecer os saberes e os sabores do seu país. Em conversa com a RFI, ela fala dos momentos de convívio que a preparação de festas pode proporcionar, as reminiscências da infância ligadas ao 'bolo mármore' e ao doce de batata-doce e a importância de manter vivas as tradições gustativas do seu país. "O livro fala sobre a história da gastronomia cabo verdiana, mais concretamente doces. É um livro que traz receitas típicas de Cabo Verde e algumas internacionais, mas com mais destaque à nossa tradição e não só, sobremesas, petiscos, coquetéis, a famosa 'Banana Flambée" e também sumos naturais da terra", começa por dizer a 'chef' que ao detalhar o conteúdo das mais de duzentas páginas de delícias que tem a sua obra, explica ter optado por fazer uma edição bilingue português-inglês "porque Cabo Verde está por todo o lado (...) porque temos filhos de cabo verdianos que praticamente já não falam o crioulo e nem o português". A autora que confessa ter um gosto particular pelo 'bolo mármore' "porque o pai gostava muito de bolo de mármore e que se fazia muito em casa", também tem uma certa inclinação que lhe vem da infância pelo doce de batata-doce, "muito fácil de fazer, não leva muito açúcar". Aos bolos também liga momentos de convívio privilegiados durante a preparação de festas como baptizados e casamentos. "As pessoas reúnem-se para preparar a festa, não só para fazer bolos, mas também confeccionar pratos e cachupa, feijoada e outras coisas mais. As sobremesas também. Estar aí reunido com amigos, família e convidados, é muita alegria", diz. Ao evocar o seu percurso que a levou primeiro para a administração pública antes de enveredar em 1995 para a sua paixão pela culinária, a 'chef' confessa que no começo "foi desafiante". "No início comecei com poucos recursos, mas ao longo dos anos fui aprendendo com erros e também com outras pessoas, pessoas que têm mais experiência", lembra Alia dos Santos que dirigindo-se às jovens gerações diz "para não terem medo, porque muitas vezes a pessoa pensa que para ficar perfeito tem que ser logo à primeira. Não. Vamos começar com o que temos aí. Com o andar dos anos, vamos aprender a melhorar o trabalho. E não esquecer que a alma do sucesso está no amor pelo que a pessoa faz". Numa altura em que tem estado fora do arquipélago, em Portugal e nos Estados unidos para promover o seu novo livro, a 'chef' deixa antever o que será o seu terceiro livro, um projecto mais introspectivo, uma autobiografia. "Falo da minha infância, da minha trajectória na administração pública e a minha trajectória em dois espaços diferentes, porque antes de trabalhar no 'Quintal da Música', já tinha um outro espaço que é o bar-restaurante 'A Esquina', onde eu fazia também de tudo um pouco, desde a pastelaria e culinária. E veio culminar com o 'Quintal da Música', que é um espaço de cultura e da gastronomia", diz a autora.

  6. Aug 3

    Luís Represas (1956-2026) representou uma "passagem na área da música popular em Portugal"

    O português Luís Represas celebrava este ano 50 anos de carreira, tendo sido um dos mais importantes músicos do seu país. Morreu a 22 de Julho, com 69 anos, vítima de doença prolongada. A RFI passou em revista o legado de Represas com o musicólogo luso Pedro Félix. O Presidente português, António José Seguro, lembrou-o com emoção, descrevendo-o como um "músico de excepção, com um timbre de voz inigualável, que muito contribuiu para a afirmação e defesa da língua portuguesa". Já o Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que a sua canção Timor "fazia chorar as pessoas mais insensíveis". Foi a voz dos Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril, conhecida por êxitos como Perdidamente ou 125 Azul. Com a separação do grupo, em 1992, Luís Represas iniciou uma carreira a solo, aproximando-se de uma vertente mais pop. Citamos o seu maior êxito, Feiticeira, lançado em 1993, em colaboração com o compositor cubano Pablo Milanés, falecido em 2022. O musicólogo luso Pedro Félix, em entrevista à RFI, resume-nos o extenso legado de Luís Represas, começando por realçar a sua importância na transição que veio a marcar a música portuguesa. O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada.  O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto. Depois, ao longo do tempo, vão-se afastando dessa matriz, eventualmente ainda com eco de uma certa ruralidade, para uma música urbana, com temáticas urbanas novas que, num processo que começa, no Baile no Bosque (1981) e que se prolonga, diria até o disco Sepes (1988), aí com uma certa poesia e até com alguns elementos surrealistas. Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul. Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.  E é este legado que consolidam numa carreira, todo um processo de mudança na música popular portuguesa que começa, no pós 25 de Abril, com uma canção de intervenção, que depois se torna progressivamente urbana, com temáticas urbanas denotando influências musicais internacionais e depois se tornam sucessos pop como 125 Azul. A banda Trovante formou-se em 1976, contribuindo para a actualização da música de intervenção nos primeiros anos do pós-revolução. Mas também trouxe uma abordagem mais moderna à música tradicional, recorrendo a elementos da música folclórica. Como é que os Trovante reflectiram o fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos? O que trouxeram para o repertório musical no pós-25 de Abril?  O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe. Há também a utilização da poesia de poetas mobilizados politicamente. No último álbum com os Trovante, Luís Represas gravou Timor, música dedicada à luta pela independência do povo timorense. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, disse que esta canção foi um «canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência que despertou consciências». Qual foi a importância desta música na carreira de Luís Represas, nomeadamente para o seu reconhecimento para além de Portugal? Aqueles anos foram anos de grande mobilização de toda a população pela causa timorense. E Timor tornou-se uma canção, quase diria uma espécie de hino informal ou dádiva de um hino informal para um movimento de autodeterminação que mobilizou toda a gente. Apelando um pouco à  minha idade, lembro-me bem da ocupação do espaço público, com manifestações absolutamente avassaladoras que ocuparam a cidade toda, as cidades todas. Havia todo um movimento social pela causa e que esta música foi efectivamente o hino informal de todo esse movimento. Acho que é um momento histórico, obviamente, para a carreira de qualquer músico, e para o Luís Represas, em particular. Depois da separação dos Trovante, Luís Represas lançou-se numa carreira a solo. O que nos pode dizer sobre essa carreira? A carreira a solo do Luís Represas é também fruto de uma ligação a uma tradição latino-americana, da qual ele falava muito, sobretudo da sua ligação a Cuba. Eu inscreveria mais numa espécie de continuação do grupo Trovante. A carreira a solo acaba por ser o trabalho dele, quando o grupo acaba por se separar, mas que ainda há este material na sua cabeça que precisa de ser gravado e cantado e tocado  ao vivo. Vejo muito na continuidade de toda esta história dos Trovante. Luís Represas continuou a sua ligação com a lusofonia. Miragem foi o seu último álbum, de 2024, descrito como uma ponte musical entre Portugal e o Brasil. Como é que analisa este último álbum? Para já, é muito interessante ver todo o universo de colaborações que Luís Represas estabeleceu: o Ivan Lins ou a Zélia Duncan serão eventualmente os nomes mais visíveis.  De certa forma, também fazem eco de todo um processo global, numa tentativa de criar algo novo a partir de materiais musicais que são identificáveis com determinadas geografias. Neste caso, sobretudo, o Brasil. Os Trovante passaram pelo rock progressivo, nos seus inícios, e, mais para o final, aproximaram-se da pop. A solo, Luís Represas também esteve mais ligado à pop, a uma canção mais romântica. No fundo, por que género musical ficará Luís Represas conhecido? Quando digo romântica – preciso esclarecer que não é propriamente romântica no sentido do nacional cançonetista que nós estávamos habituados – é uma nova narrativa modernizada. A canção 125 Azul é eventualmente a síntese desta visão ternurenta desse sentimento juvenil que começa a emergir.  Era algo que no fim dos anos 80, ainda não tinha propriamente uma "voz", e eu acho que, de certa forma, aquela canção é uma síntese desse mesmo processo. Luís Represas teve rapidamente o reconhecimento da crítica e do público, mas também um reconhecimento institucional, tendo sido condecorado pelo então Presidente português Jorge Sampaio, em 2005. O que significa, para um artista, ter todo este reconhecimento? Em termos da produção discográfica, aquela dupla do disco Baile no Bosque (1981) e Cais das Colinas (1983) foram eventualmente os primeiros grandes sucessos com grande impacto público. A canção Saudade é um belíssimo exemplo desse período. E gostava também de lembrar que já o disco Trovante 84 (1984), com os "caravelas" (Xácara das Bruxas Dançando) é um disco de enormíssimo impacto público. Esse reconhecimento, diria que começa em crescendo no início dos anos 80, obviamente que depois a condecoração é sempre um momento alto em qualquer biografia: é uma espécie de tributo do Estado a reconhecer o peso e o trabalho daquele criador. Obviamente que não só é um elemento fundamental para a biografia de quem é condecorado, como se torna um marco no contexto da música ou de qualquer produção artística em que é o Estado, todos nós, a reconhecermos que aquela pessoa se distingue na sua produção. É um marco para os dois lados, para quem atribui a condecoração – todos nós, por via do Presidente da República –  e de quem recebe, neste caso o Luís Represas. O que eu propunha era ouvirem as músicas, toda a carreira do grupo Trovante e do Luís Represas, que isso é que de facto é a grande memória e que nós podemos deixar a um músico, não é? É continuar a ouvir as músicas deles. Luís Represas deixou perto de cinco décadas de um vasto legado à música portuguesa, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto, marcados para Abril de 2027. Mateus Santa Rita

  7. Jul 16

    Peça “Nasr et Dinn” leva “liberdade, tolerância e muita ternura” ao Off Avignon

    A peça de teatro “Nasr et Dinn” revisita o universo de uma personagem lendária do mundo oriental, famosa pelas suas histórias curtas que misturam humor e sabedoria popular. O espectáculo está no Festival Off Avignon até 25 de Julho e fomos conversar com a actriz Valérie da Mota sobre a peça infantil que aborda temas como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico. Quem foi Nasreddine Hodja e por que é que as suas histórias continuam a ecoar com os dias de hoje e a serem transformadas em peças de teatro? Foi o que fomos perguntar a Valérie da Mota, actriz e fundadora da companhia de teatro Va Sano Productions, que está pela segunda vez no Festival Off Avignon, agora com a peça “Nasr et Dinn”. O espectáculo revisita o universo desta personagem lendária do mundo oriental, conhecida pelos seus contos morais e divertidos. Interpretada e encenada por Valérie Da Mota e Romans Suarez Pazos, a peça acompanha as aventuras de Nasr, de Dinn e do seu inseparável burro numa viagem repleta de encontros, questões inesperadas e respostas irreverentes. “Estas histórias ensinam-nos a liberdade, a liberdade de estar, a liberdade de crer. Para as crianças, é muito importante saber que você pode ser diferente e que não há nenhum problema, e também para os adultos. Estas histórias também falam da felicidade de estar aqui e não pensar sempre no dia de amanhã, e também falam da fé (...) Temos histórias que falam do poder, histórias que falam de dinheiro e histórias que falam da liberdade”, conta-nos Valérie da Mota, numa esplanada junto ao Collège de La Salle, onde é apresentada a peça “Nasr et Dinn” no âmbito do Festival Off Avignon. Há teatro, música ao vivo, desenho digital e muito humor neste trabalho que parte dos contos de Nasreddine Hodja para abordar temas universais como a liberdade de pensamento, a tolerância e o espírito crítico. “Eu acho que é importante trazer personagens que trazem esta ideia de liberdade, de tolerância, uma personagem também com muita ternura. E o riso que pode trazer sabedoria”, sublinha Valérie da Mota. Oiça a conversa neste programa.

  8. Jul 15

    “A Mulher Desarvorada” quebra silêncios sobre maternidade e condição feminina em Avignon

    “A Mulher Desarvorada” é um monólogo inspirado no livro “A Mulher Desiludida”, de Simone de Beauvoir, e está em cena no festival Off Avignon até 25 de Julho, com o título francês “La Femme Déracinée”. Em palco, Tati Pasquali, a actriz do espectáculo que também assina a dramaturgia, fala sobre a violência do parto e do pós-parto, a sobrecarga mental e física da maternidade, a persistente desigualdade homem-mulher, a devoção feminina transgeracional à família e o abandono, entre muitas outras coisas. “Quando é a mulher que cuida de tudo, quem é que cuida dela quando tudo desaba?”, questiona Tati Pasquali na entrevista que deu à RFI, em Avignon. “A Mulher Desarvorada” é a história de uma mulher que abdicou de si própria para se dedicar à família. Conta a violência do parto, a depressão pós-parto, a transformação do corpo feminino, o desdém do olhar masculino sobre esse mesmo corpo, a sobrecarga da maternidade, a solidão, a traição e o abandono. “É a história dessa mulher que abriu mão da sua profissão e tornou a família e o lar na sua profissão, no seu único lugar no mundo, e o que acontece com ela quando isso desaparece. É muito focado na importância da independência financeira feminina como forma de liberdade e é um dos temas que a Simone [de Beauvoir] batia muito o martelo em cima. É sobre esse papel que a mulher ainda ocupa em 2026, de ter a maior parte dos cuidados maternos, os cuidados com a família, cuidado com a casa. Quando é a mulher que cuida de tudo, quem é que cuida dela quando tudo desaba, quando tudo se vai embora? Essa mulher vê-se obrigada a cuidar de si sozinha. Tem uma frase no espectáculo que é: ‘Quando se viveu durante tanto tempo em função dos outros, é um pouco difícil se converter a viver para si’. Eu acho que fala sobre muitas coisas, sobre maternidade, sobre sobrecarga materna, sobrecarga mental, sobrecarga física, mas também fala um pouco dessa falta de olhar para si mesma que as mulheres têm quando ocupam demais esse lugar do cuidado com o outro e com a casa”, conta Tati Pasquali. A ideia de escrever este texto nasceu durante a pandemia de Covid-19, com o confinamento, quando ficou “durante dois anos presa em casa com um bebé”, cruzando depressão pós-parto com a depressão da pandemia. Perante a sensação de se sentir intelectualmente e criativamente “desperdiçada”, a actriz brasileira foi à procura de um tema para criar algo e reencontrou-se com “A Mulher Desiludida”, da filósofa francesa Simone de Beauvoir, reconhecendo-se “num lugar de cuidado com a família, com a casa”, de questionamento por ter deixado de lado a sua independência financeira e a sua profissão. “Peguei só em inspirações do livro e transformei em uma coisa muito mais pessoal. Eu acho que o espectáculo ganhou muito e desarvorada é uma palavra que ela fala no texto. Ela fala: ‘Eu estava tão desarvorada que eu precisava fazer alguma coisa.’ Desarvorada é essa mulher que perde as folhas, é uma árvore que perde a vida. E também tem a ligação com a árvore genealógica que eu faço com a minha mãe, com a minha avó, com a avó paterna, avó materna, tem essa coisa de árvore das mulheres, dessa árvore genealógica e desse lugar de quando você perde as folhas, quando você perde a força, o que te alimenta?”, descreve a actriz e autora de “A Mulher Desarvorada”. “A Mulher Desarvorada” tem encenação de Claúdia Semedo e está no no Festival Off, em Avignon, no Théâtre de La Porte Saint Michel, até 25 de Julho. Participar no festival “é um super risco financeiro”, admite Tati Pasquali que considera que este “não é um festival democrático” porque “não é qualquer companhia, não é qualquer artista que consegue vir” devido aos elevados custos que implica, desde logo “a hospedagem que fica caríssima e o aluguer do teatro também caríssimo”. A peça só consegue estar em Avignon graças a apoios e a um crowdfunding e, ainda assim, “é preciso captar mais dinheiro e a gente está vendendo paninhos, livrinhos e é importante vender ingressos para tentar captar”. Apesar do risco financeiro, “a experiência é incrível”, com “pessoas de todos os lugares do mundo” e “é um currículo incrível para o espectáculo”. Oiça a entrevista neste programa.

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