De 21 a 25 de Outubro decorre, em Las Palmas de Gran Canaria, nas Canárias, em Espanha, o festival de música WOMEX, World Music Expo, descrito como a maior conferência da cena musical do mundo e o encontro musical mais internacional do planeta. Dois artistas portugueses marcam presença este ano: Tó Trips, grande nome dos Dead Combo, que tocará com os Fake Latinos, e emmy Curl, artista transmontana que celebra 20 anos. A RFI esteve à conversa com os dois artistas. Tó Trips é um dos grandes nomes do panorama musical português. Nascido em 1966, em Lisboa, começou na música em meados dos anos 80, logo após o boom do rock português no início dessa década, tendo participado em bandas como os Amen Sacristi, Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre! ou Lulu Blind. Em 2003, formou com Pedro Gonçalves o duo Dead Combo, uma música portuguesa que não depende de vocalista nem de letras e que mistura influências do fado, do rock e até do imaginário dos filmes western. O seu álbum mais conhecido, Lisboa Mulata, de 2011, remete para influências e sonoridades africanas, criando um universo musical que se tornou a banda sonora de uma nova Lisboa, aberta a outras culturas, línguas e histórias. Após a separação da banda, em 2019, e a morte prematura de Pedro Gonçalves, em 2021, Tó Trips tem trabalhado a solo ou acompanhado. Em 2022 e 2023, lançou dois álbuns com o Club Makumba, que cruzam rock, jazz, ritmos do Norte de África e sonoridades mediterrânicas. Em 2025, lançou Dissidente com os Fake Latinos, o primeiro álbum que grava em formato de quarteto, contando para o efeito com as colaborações de Alexandre Frazão, na bateria, António Quintino, no contrabaixo, e Helena Espvall, no violoncelo. Tó Trips explica-nos que este disco faz parte de um luto. Tó Trips: “Este foi o primeiro álbum que fiz após o final dos Dead Combo. Depois tive em outras bandas, Clube Macumba. Tentei fazer um luto à minha maneira, de como é que o Tó Trips tocava, ou pelo menos que ficou conhecido por tocar guitarra. E este é o primeiro disco. Que eu volte com isso outra vez.” E como é passar a tocar em quarteto? Tó Trips: “Sim, é um quarteto. Mas já os Dead Combo, também tiveram várias formações, ou seja, éramos só nós os dois, mas tínhamos muitas vezes formações para tocar mais open air, em quartetos, quintetos para abrir um pouco mais o espectro da nossa música. Neste caso eu como tenho vários álbuns a solo, e para o ano vou lançar em Fevereiro um a solo este e em quarteto. São pessoas que eu conheço já há muitos anos: é o Alexandre Frazão na bateria, e o António Quintino no contrabaixo e Helena Espvall no violoncelo e eu na guitarra eléctrica. É uma maneira de expandir a minha música e de ter pessoas às quais eu admiro e que convidei para gravar este disco. Estar em banda também para não andar sempre a tocar sozinho.” Em termos musicais, os Fake Latinos trouxeram algo de novo? Tó Trips: “Não. Eu sempre fui um gajo eclético em questões de música. Sempre ouvi de tudo. Este álbum tem um pouco de tudo. Tem esse lado mais comboniano, tem um lado de rock, tem um lado blues, tem um lado africano também.” E o jazz? Tó Trips: “Isso também foi uma coisa que eu queria que o disco também tivesse muito, porque tanto o (António) Quintino e o Alexandre (Frazão) vieram do jazz. A Helena vem mais da música improvisada. Eu queria que o disco também soasse um pouco a jazz.” E qual é o lugar da viagem em Dissidente? Penso nas referências a Havana, Los Angeles, Nova Iorque, ao tango argentino e à morna de Cabo Verde. E qual é o lugar da sua cidade, Lisboa? Tó Trips: “Sempre fui um gajo que que viajou bastante, tanto a tocar, como a visitar, tento por isto na minha música. Lisboa porque é a minha cidade. Nasci no Castelo nos anos 60, em 1966. E sou um tipo que viveu bastante a cidade, hoje em dia já não tanto.” A sua música é descrita como cinematográfica. Esta adjectivação é trabalhada e propositada, ou surge naturalmente? Tó Trips: “É uma coisa que surge naturalmente, mas eu também faço bandas sonoras para filmes, trabalhei muito e ainda trabalho com o Edgar Pêra (realizador) desde há muitos anos, desde dos finais dos anos 90. Tenho sempre uma relação com a cena das imagens em movimento. Eu também andei na (Escola Artística) António Arroio nos anos 80. Queria ser artista plástico. Trabalhei em publicidade, portanto lidei sempre com a imagem. Aliás, eu fui parar a música à conta da imagem. A imagem dos outros, ao vivo, as capas de disco. Fiz muitas capas de discos neste país para muitas pessoas. Para muitos artistas.” A outra artista portuguesa presente é emmy Curl, heterónimo de Catarina Miranda Trindade, nascida em 1990, em Vila Real de Trás-os-Montes. É cantora, artista visual, produtora e compositora. Começou a carreira com apenas 15 anos, com o EP Ether, e lançado Origins em 2012. Em 2015, com o álbum Navia, estreou-se a compor em português, como em Eurídice. Em 2018, participou no Festival da Canção, interpretando um tema de Júlio Resende, e ficou em segundo lugar, com a votação mais alta do júri. Em 2020, em plena pandemia, lançou o álbum ØPorto e, em 2024, Pastoral, editado pela Cuca Monga Discos e vencedor do Prémio José Afonso em 2025, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora, que homenageia o cantor de “Grândola, Vila Morena” e incentiva a criação musical portuguesa. Em 2026, celebra 20 anos de carreira e, em Setembro, lançou Pastoral 2.0 que, tal como o álbum antecessor, é uma celebração da música e da cultura folclórica transmontana, cruzando estas raízes com elementos e ritmos da música electrónica. emmy Curl conta-nos como decorreu o processo de investigação destes sons folclóricos. emmy Curl: “Quando eu mudei em 2017 para Copenhaga, a minha visão sobre Portugal mudou um pouco porque vi a "ilha" de fora, sair da "ilha", não é? E ver de fora deu-me uma visão diferente. Ou seja, comecei a sentir que nós aqui em Portugal temos um tesouro que não nos damos conta porque não sabemos o que é que é não o ter. E quando eu não o tive, quando estive lá, e claro que a cultura dinamarquesa também tem a sua beleza e também é rica, apercebi-me de que havia ainda muita coisa para fazer em termos culturais em Portugal. Uma das coisas na Dinamarca que eles fazem, toda a gente tem nas suas casas a sua colecção de música tradicional transcrita em pauta, e uma pessoa na família sabe tocar e consegue tocar as músicas. Eu achei aquilo belíssimo porque (em Portugal ) sempre foi vista ou mal vista a música tradicional, como bacoca, parola, sem interesse, a música dos pobres, digamos assim. E aquilo bateu me quando percebi que o quão belo é quando se transforma as músicas depois com influências de jazz ou música clássica, ou até mesmo arranjos para piano. Porque a verdade é que as nossas músicas tradicionais elas são belas, mas muitas delas são modais, são músicas que andam sempre na mesma nota ou no mesmo bordão. E o desafio é esse. É transformar as músicas com outros bordões, com outros arranjos, que é um pouco o que eu ouvi eles a fazerem e achei inspirador.” Ao ouvir “Pastoral”, senti algo de onírico, quase uma viagem. Penso em “Encanto” ou “Chegada”, que começam com elementos reconhecíveis da música tradicional portuguesa, com a sua voz num tom quase de cancioneiro, e depois partem para outros universos e ritmos mais desconhecidos. Concorda com esta leitura? emmy Curl: “Sim, apesar de que, no Pastoral 2.0, que editei há cerca de um mês e meio atrás, eu exploro um pouco mais em instrumentação jazzística e acordes mais fora da caixa, digamos assim. Acho que no primeiro eu ainda estou a experimentar o que ainda funciona. Ainda estou a perceber o que é que se pode fazer com a música tradicional. Eu pego muito também na música da Beira Baixa, como a Macelada, mas no 2.0, já pego em mais músicas tradicionais do norte interior, como por exemplo, o "Romance da Lhoba", que é em mirandês e A "Bento Airoso", que também é Trás-os-Montes. E realmente dá para perceber assim uma evolução, porque acho que no primeiro, eu estava ainda a reconhecer esta experiência do Pastoral, porque Pastoral, para mim era como se fosse um estilo que eu iria explorar. Apesar de já ser um estilo, o Pastoral, já um estilo próprio. Mas eu roubei o nome para explicar um pouco em português a minha visão da pastoral. E reconheço que ela começa com a música mais tradicional e depois ela vai-se desmembrando em referências mais recentes, como a electrónica. Sou muito dada à música electrónica e adoro o culto das raves, por exemplo. Eu sou muito eclética, gosto muito de diferentes músicas, diferentes estilos. Para mim é um bocado difícil escolher assim um caminho. Mas no Pastoral 2.0 foquei-me um pouco mais no misticismo, no onírico. Para mim, e como entidade que cresceu em Trás-os-Montes, sempre senti Trás-os-Montes muito místico: era um vale, ainda por cima na altura, quando não havia autoestrada, ainda era mais isolado. Sempre senti que aquilo era um mundo, como Miguel Torga dizia um "mundo maravilhoso" e cheio de histórias pagãs. Também as celebrações pagãs, como como os caretos de Podence, Sandim, Salsas. Em Miranda do Douro, também na época do solstício de Inverno, festividades a acontecerem. E sempre de mão em mão com o catolicismo, a religião, é um sítio que ainda se nota muito paganismo, ao mesmo tempo que é celebrado com a religiosidade católica.” Também ouvi um universo mais místico de Trás-os-Montes, o do escritor Miguel Torga, o universo pagão. Diria que é uma tentativa de se ligar ao lado mais espiritual? emmy Curl: “Sim, acho que, antes das religiões, nós adorávamos, o paganismo é isso, adorávamos a natureza e os ciclos naturais. Os solstíc