Depois de ter feito passar o salário mínimo da função pública de 2.500 para 3.000 Dobras, ou seja um pouco mais de 120 Euros mensais, o governo são-tomense anunciou nesta quinta-feira que a pensão mínima de aposentação vai subir quase 8 Euros, passando de 1.200 para 1.400 Dobras, com retroactivos a partir de Julho, beneficiando cerca de 6.500 idosos. Este que é o segundo aumento da pensão mínima na actual legislatura, após uma subida de 1.000 para 1.200 Dobras desde Janeiro do ano passado, estava em estudo há já alguns meses e era reclamado há muito por certos sectores. Com efeito, a generalidade da população de São Tomé e Príncipe que vai ser novamente chamada às urnas precisamente dentro de um mês, no âmbito das eleições legislativas, autárquicas e regional, continua a conhecer um quotidiano difícil, designadamente com uma taxa de inflação rondando oficialmente os 9,5% e um nível de desemprego situado igualmente nos 9%. Neste contexto, para o economista e empresário são-tomense Emery D'Alva, o aumento da pensão mínima é uma boa notícia mas continua a ser insuficiente dado o aumento do custo de vida e todos os desafios que se enfrentam no país. RFI: Qual é a situação das pessoas aposentadas em São Tomé e Príncipe? Emery D'Alva: É um país pobre, com muitas dificuldades e elas representam uma franja desfavorecida da nossa população e dependem muito desse tipo de subsídios e pensões e também dos familiares. Nem sempre os familiares têm condições também de assegurar os meios básicos para a sua sobrevivência. Portanto, isso eu posso classificar como muito positiva essa iniciativa, embora peque por ser tardia. E também eu considero que não é ainda suficiente para suprir essas necessidades, Mas é um sinal e um sinal positivo. É uma tentativa. É uma situação que já se arrasta há algum tempo e só posso considerar um movimento positivo. Mas há que se considerar que 1.400 Dobras por pessoa nunca é suficiente. Portanto, nós temos necessidades tremendas. O custo de vida aumentou de forma considerável no mundo inteiro e em São Tomé em particular, que é uma ilha que não produz a maior parte do que consome e tudo é importado. Os transportes aumentaram, os custos externos aumentaram. Isso tem consequências sociais tremendas. E, portanto, isso constitui um alívio. Mas não é uma solução duradoura. RFI: E precisamente, estava a falar da situação difícil das pessoas que estão aposentadas. Muitas das vezes, essas pessoas aposentadas também têm a seu cargo ainda menores. Emery D'Alva: Exactamente. E então, agora, com o fenómeno da migração explosiva que se deu nos últimos quatro ou cinco anos, esse fenómeno tende a alastrar-se. Portanto, há muitos pais, muita gente que deixa os filhos com os avós e emigram, depois, no objectivo de, assim que reunirem condições, poder chamar os filhos e haver um agrupamento familiar. Só que acontece que este reagrupamento familiar está cada vez mais difícil. Também têm encontrado situações cada vez mais complicadas nos países para onde vão. Vão sobretudo para a Europa, Portugal em primeiro lugar. Depois, assim que conseguem, também vão para outros. Mas é sobretudo em Portugal. E Portugal está a atravessar também uma crise imobiliária tremenda. Os custos de alojamento, de habitação, explodiram e eles têm cada vez mais dificuldade em fazer esse reagrupamento familiar. E o que acontece é que esses meninos vão ficando aqui mais ou menos com uma vigilância mais ou menos eficaz, outra não. Crescem sozinhos. São novos fenómenos que nós reparamos aqui, fenómenos sociais e económicos. Muita juventude a crescer sozinha, muitos adolescentes sozinhos. Os avós não têm condições de assegurar a sua sobrevivência, porque eles próprios também têm aquela dificuldade. E, portanto, é um fenómeno que vai se agudizando e que começa a suscitar alguma preocupação na população. RFI: Estávamos a falar da situação dos pensionistas, mas obviamente isto também diz respeito à própria situação da população são-tomense. Estava a mencionar há pouco que o custo de vida aumentou drasticamente. Como é que é o quotidiano do são-tomense médio? Emery D'Alva: Cada vez mais difícil, até por causa disso, que a grande maioria dos são-tomenses quer sair de São Tomé e Príncipe. A taxa de desemprego atinge níveis estratosféricos. Há pouca perspectiva de que as coisas vão melhorar num futuro próximo. E isso leva a maior parte da juventude a procurar uma forma de emigrar. Nós vivemos um momento político específico. Estamos a um mês das eleições e as próximas eleições legislativas, há sempre aquela esperança de que, com novos projectos, novas forças politicas, novas vontades, as coisas possam melhorar. Mas de tanto ter esperança e de tanto ter desilusões, há sempre uma expectativa que pode não se concretizar, não é? E é isto. A população, sobretudo a juventude, que é grande, constitui a grande maioria da população, vive nessa perspectiva, mas com um olho lá fora, sempre a tentar procurar uma forma de submeter documentação ou passaporte para poderem emigrar. Isso é uma constante nos últimos quatro anos. Será que vamos todos conseguir inverter isso? Eu, por exemplo, na minha vida empresarial, tenho enormes dificuldades para manter trabalhadores, tenho constantemente trabalhadores que anunciam que vão viajar e por mais que se queira, depois de se formar, depois de se investir, é mais um investimento que se perde. É claro que também os jovens têm que procurar a sua vida, tem que procurar forma de crescer e neste momento não conseguem. Com o salário que recebem, não conseguem garantir habitação em condições, alimentação para a família, meios de transporte. Isso tudo é muito complicado. RFI: Relativamente à sua actividade empresarial, portanto, estava a dizer que efectivamente é complicado manter trabalhadores. Como é que é concretamente, hoje em dia, ser empresário em São Tomé e Príncipe? Emery D'Alva: Eu acho que a vida de empresário é uma vida complicada em qualquer lugar e isso não tenho a mínima dúvida. Mas assim, é em São Tomé e Príncipe, onde o mercado é pequeno, os custos de aquisição de produtos, bens e serviços são elevados e depois não se consegue ter uma margem mínima considerável, que é para poder repercutir isso nas vendas. Tem que se fazer sempre aquela magia. É um bocado aquela quadratura do círculo tentar garantir que aquilo que se gasta não é superior àquilo que se ganha. É lutar contra os problemas que se tem. Muitas vezes nós atravessamos um período em que não havia energia. Os custos energéticos dispararam. Felizmente, isso estabilizou-se, mas continuamos a ter outros. Temos as questões fiscais, as questões de prestações sociais aos trabalhadores. Há volta e meia, a escassez de produtos. Temos problemas com transportes. Entretanto, numa ilha, tudo está dependente do que vem de fora. Volta e meia, o barco atrasa-se 15 dias e não se tem produtos. Portanto, é isso e constantemente resolver problemas todos os dias e não ter descanso. Portanto, essa é a vida do empresário. RFI: Fala das diversas dificuldades, nomeadamente, por exemplo, em questões energéticas, em questões de infra-estruturas, em questões de transportes. Julga que esse tipo de problemas são complicados de resolver porque há falta de dinheiro para isto ou porque há falta de organização? Emery D'Alva: Diria que é mais falta de organização, porque quando há organização, a organização atrai o dinheiro e no mundo inteiro é assim. Portanto, se nós nos organizarmos, se nós criarmos as condições mínimas para que se desenvolva um bom ambiente de negócios, isso atrai. Porque, apesar de ser um pequeno território, apesar de ser um mercado pequeno, tem um potencial enorme para o turismo, para a prestação de serviços, para a logística internacional, para se transformar num 'hub' tecnológico e também logístico. Nós temos um potencial enorme. Nós precisamos de investir em infra-estruturas, investir num aeroporto como deve ser, num porto como deve ser. Precisamos potencializar tudo o que temos aqui em termos de produção agrícola de muito boa qualidade, diga-se de passagem, um turismo também de muita qualidade e não muito massificado. Portanto, há um potencial em São Tomé extraordinário. Só que nós não temos tido até agora uma liderança que estivesse comprometida com os interesses de São Tomé e Príncipe. E isso também tem trazido alguma instabilidade política e uma luta por coisas muito reduzidas, quando podíamos transformar isso em algo muito grande. E depois havia aquela coisa que deixaríamos de ter aquilo em que numa casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, não é? Portanto, a partir do momento em que se todos nos comprometermos para produzir, para gerar valor, gerar emprego, tirar partido do potencial que cá temos, não haveria razão para estarmos aqui em confusões. Eu ainda tenho esperança que isso aconteça e muito brevemente. Eu acho que nós tivemos um desfecho clarificador nas últimas eleições presidenciais. E agora? Se conseguirmos clarificar também a situação a nível das eleições legislativas, podemos criar as condições para dar o salto. É uma questão de estarmos comprometidos com o que aí vem. RFI: Quais são as suas expectativas relativamente às eleições dentro de um mês? Estava a falar há pouco das novas vontades, dos novos impulsos, das novas energias. O que é que espera desse possível salto? Emery D'Alva: Sabe que essas coisas são vontades, são declarações, são intenções. O que conta mesmo é o que depois fizermos disso tudo. Neste caso, o governo joga um papel fundamental em tirar proveito disso. Mas nós são-tomenses, também, enquanto empresários, investidores, enquanto utilizadores