O programa “Transmission Impossible” volta pelo terceiro ano consecutivo ao Festival de Avignon. Depois de Mathilde Monnier, desta vez é a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues a dirigir o projecto de encontros entre artistas programados e meia centena de jovens de diferentes países, em cumplicidade com os artistas brasileiros Calixto Neto, Silvia Soter da Silveira, Cristina Moura e Daniella Lima. O projecto é um laboratório de experimentação e transmissão que consiste em fazer descobrir, durante 12 dias, o Festival de Avignon. “A ideia é a gente estar num momento juntos” e “a grande coisa está no nosso encontro”, resume Lia Rodrigues. Lia Rodrigues é uma figura de vulto da dança brasileira contemporânea, que, em 2026, completa 70 anos, 50 dos quais dedicados à sua arte. Nesta 80.ª edição do Festival de Avignon, a artista sucede à coreógrafa Mathilde Monnier na direcção artística do projecto "Transmission Impossible". Trata-se de uma imersão no festival de meia centena de estudantes de artes cénicas ou recém-diplomados, através de um percurso de encontros com artistas programados, espectáculos, debates e masterclasses. Lia Rodrigues descreve-nos este projecto como “um presente para os 70 anos” porque vê como “muito belo” conseguir reunir jovens do mundo inteiro com línguas diferentes. A criadora conta, ainda, que esta “Transmissão Impossível” acontece no “lugar precioso do possível”, ou seja, “o possível de a gente estar juntos, tanta gente de tanto lugar, falando tantas línguas num mesmo lugar, partilhando, falando, celebrando.” Ao longo de vários dias, o grupo trabalha, vê, debate, estuda em conjunto. Afinal, “a ideia é a gente estar num momento juntos” e “a grande coisa está no nosso encontro”, sublinha. A transmissão está-lhe no ADN, enquanto artista e cidadã. Lia Rodrigues transforma o que faz, em palco e fora dele, num espaço de intervenção social e política, numa ferramenta de reflexão crítica e transformação social. Lembramos, por exemplo, que a coreógrafa fundou a Companhia de Danças Lia Rodrigues, com a qual desenvolve, desde os anos 1990, um trabalho marcado pela aproximação entre arte e comunidade, pela crítica às desigualdades sociais e pela experimentação corporal. Desde 2004, Lia Rodrigues também desenvolve actividades artísticas e educacionais na Favela da Maré, no Rio, em parceria com a ONG Redes da Maré. Dessa colaboração nasceu o Centro de Artes da Maré, aberto ao público em 2009 e a Escola Livre de Danças da Maré, inaugurada em 2011. Doze dos estudantes dessa escola estão, por estes dias, no projecto “Transmission Impossible”, em Avignon, num total de cerca de meia centena de participantes. Fomos falar com a artista na Villa Créative, em Avignon, na primeira semana de trabalho. "Transmission Impossible": 54 artistas e a possibilidade de "mil trampolins" RFI: Como é que nos poderia descrever este projecto “Transmission Impossible”? Lia Rodrigues, Artista: “Esse projecto chega num momento muito especial para mim, como um presente para os meus 70 anos. Esse projecto primeiro foi criado por uma artista, a Mathilde Monnier, junto com o Festival de Avignon e a Fondation Hermès. Isso é muito importante, essa junção de duas instituições com um artista e criar um projeto pedagógico, como você falou, de vulto, porque reunir 54 jovens do mundo inteiro com línguas diferentes é muito belo, sabe? A gente está aqui durante duas semanas trabalhando intensamente.” Como é que imaginou essa transmissão com estes 54 jovens de tantos países? “Sabe que eu estou achando que o nome da Transmissão já diz em si: “Transmissão Impossível”. É impossível.” Porquê? “Porque a gente vê muita coisa. A gente trabalha o dia inteiro, mas tem um lugar precioso do possível: o possível de a gente estar juntos, tanta gente de tanto lugar, falando tantas línguas num mesmo lugar, partilhando, falando, celebrando, às vezes se irritando - porque o calor aqui está terrível - e vendo tantos artistas diferentes com visões do mundo diferentes.” Estar em contacto com estes jovens de todo o mundo é uma forma de aproximação num mundo cada vez mais polarizado? A dança acaba por ter esse papel transmissor? “Eu não acho que a dança tenha esse papel porque a dança não tem papel nenhum a não ser ser dança mesmo. Os alunos, os jovens que se formaram, são de diferentes áreas: de teatro, dança, iluminação, cenografia. E essa diversidade é muito linda porque eu aprendo com eles, eles aprendem com a gente. Então, não é só a dança, é o corpo na sua totalidade que se encontra e que partilha esse momento precioso juntos." O que é que uma artista com 50 anos de carreira ainda aprende com estes jovens? “Se a gente não aprende, a gente morre e eu não quero morrer agora porque eu ainda quero ver meus netos crescerem, eu quero ainda poder fazer coisas, criações. As pessoas mais velhas têm sonhos, elas ainda têm muito a dizer, a gente ainda tem desejo e eu acho isso muito legal de falar porque a gente fala de diversidade, mas a gente fala muito pouco sobre idade.” Essa é uma questão que a marca? “Mas sem dúvida! É impossível não marcar. Eu sempre falo: quando você tiver 70 anos me telefona para ver se você me encontra nesse lugar.” A juventude também contribui para a transmissão? “Tudo, a juventude, a idade, o encontro das gerações é muito lindo, sabe? É ver o passado, o futuro e o presente se misturarem. Quando você tem essa idade, você consegue ter mais acesso ao passado, presente e imaginar um outro futuro.” Gostaria que falássemos também do trabalho na Escola Livre de Dança da Maré, porque também há artistas que estão aqui em Avignon. Como é que o trabalho que faz lá ecoa em Avignon? O que representa para os bailarinos da Escola da Maré estarem cá? "Antes de eu ter esse encontro, que foi uma marca na minha vida como cidadã e como artista, eu já tinha a minha carreira como artista, mas eu tive um encontro muito forte, mediado pela Silvia Soter, que é a minha dramaturga, que foi o encontro com a Rede da Maré, que é uma organização que tem diversos projectos em várias áreas dentro da Favela da Maré. A Favela da Maré tem 140.000 habitantes e eles fazem projectos de educação, cultura, diversidade, questões da mulher, questões do racismo, questões do meio ambiente, questões de moradores de rua e usuários de crack, é muito amplo. Nós, Redes e eu, somos parceiros em dois projectos desde 2004. Nós criámos juntos o Centro de Artes da Maré, que é um lugar para todas as artes dentro da favela e, em 2011, a Escola de Dança da Maré. Desde o seu início, ela é patrocinada, sustentada e só pode existir porque a Fundação Hermès de França nos apoia há mais de 15 anos. Essa escola tem 300 alunos de 8 a 80 anos e um grupo de jovens que são 20, que são jovens artistas que querem talvez seguir a carreira. Dozes deles estão aqui. Nem todos são da Maré porque a gente também cria diversidade dentro da nossa escola. Eu acredito que essa experiência, como para qualquer um de nós e para mim também, é inesquecível.” Pode ser um trampolim para eles? “Os trampolins são muito pequenos. Eu adoro pensar na ideia de mil trampolins porque eles vão pulando de um lugar para o outro e vão conhecendo gente, conhecendo o trabalho, conhecendo gente da idade deles. Isso é lindo essa ideia de trampolim. Depois eles têm que cair na piscina, solitários, para poderem digerir toda essa experiência.” Como tem decorrido o projecto? Encontram os artistas, fazem ateliers de dança, por exemplo? “Primeiro, eu queria deixar claro que eu não faço divisão entre dança, teatro, artes visuais. Nós temos jovens que se formaram em escolas de cenografia, iluminação, teatro, dança, não são só de dança. Isso é muito legal também, o encontro dessas linguagens porque eu acho que elas não se separam finalmente. A gente tem um horário bem intenso, a partir das dez horas, e depois vê vários espectáculos, até à noite. A gente trabalha, tem entrevistas com os artistas que vêm aqui, é demais! Eles vêm-nos visitar, a gente conversa, vai ver espectáculos. Cada mentor, cada um desses mentores que me acompanham, têm formas diferentes de trabalhar, de partilhar, de transmitir. É uma loucura.” O público vai poder depois assistir ou debater com os jovens e consigo sobre este projecto? “A Fundação Hermès e o Festival de Avignon me abraçaram para eu poder realizar a ideia de que a gente não vai mostrar nada, mas a gente vai partilhar alguma coisa muito simples, muito preciosa. Essa é a ideia de a gente estar num momento juntos. É só isso. Não tem grandes coisas. A grande coisa está no nosso encontro.” A Lia Rodrigues está rodeada por artistas cúmplices neste projecto. São artistas com quem já trabalha há algum tempo. Quer-nos falar porque é que escolheu estes cúmplices para a acompanharem neste projecto de transmissão afinal possível? “Olha, é claro que eu não escolhi sozinha porque a gente trabalha com a Fundação Hermès, com o Festival de Avignon. Nós chegamos a um acordo, mas eu achei lindo eu poder escolher brasileiros só porque são pessoas que eu conheço há muito tempo, com as quais eu trabalho de formas diferentes e que eu me sinto a vontade, sabe? Eu tenho que ter pessoas em quem eu confio, que eu posso ficar assim, tranquila, porque eles vão ser generosos com os alunos. Eles têm as suas próprias ideias. Eu acho isso lindo. Então, eu me rodeei de pessoas com as quais eu me sinto confortável.” Nesta geografia dos apoios, incluindo financeiros, às artes performativas, ainda há muitas desigualdades entre o Norte e o Sul… “Claro! É tão óbvio. É só ler o jornal. É só ler os livros!” O que é seria preciso fazer para isso