No sentido de abrir uma discussão sobre soluções para Angola, o economista Manuel Neto Costa, antigo ministro da economia de Angola, escreveu uma série de artigos onde faz uma leitura crítica das políticas públicas do governo angolano. Os 52 artigos, que foram publicados entre 2021 e 2023 no semanário angolano Novo Jornal, estão agora reunidos no livro “Angola, derivas de políticas públicas e arredores (2021-2023)”, recentemente editado em Portugal pela Perfil Criativo. Neto Costa esteve na capital portuguesa para a presentação da obra onde, com a experiência a nível da administração pública, a nível do governo, apresenta uma perspectiva que coloca na sociedade uma leitura dos factos que vão ocorrendo e até das omissões. A autocracia angolana, a fome, a corrupção, a saúde, a educação, as elites angolanas que acumulam capitais no estrangeiro, o discurso da nação feito pelo Presidente João Lourenço ou as perspectivas em relação ao futuro Presidente de Angola são alguns dos temas abordados na entrevista que Neto Costa concedeu à RFI. Neto Costa começa por referir que os artigos agora reunidos em livro continuam muito actuais porque infelizmente os problemas persistem. O período abrangido por estas publicações é 2021-2023. Estamos em 2026, estas observações continuam atuais? Manuel Neto Costa, economista, antigo ministro da Economia de Angola: Certo. Parece que os temas tratados e as questões levantadas nesses artigos vão sendo intemporais para Angola, porque, infelizmente, persistem alguns problemas que são abordados nos artigos deste livro. Quem lê o livro, embora os artigos sejam soltos, tratam diversos temas relacionados com políticas públicas, há de perceber, há de poder traçar por si próprio o perfil do Estado Angolano. Constitucionalmente, nós temos um Estado democrático de direito, mas, pela prática, a nível da ciência política, é qualificado como um Estado de uma autocracia eleitoral, e isso diz muito. Um dos problemas que temos para aquilo que eu considero derivas das políticas económicas está relacionado com, digamos, o que eu gosto de chamar de arcabouço política institucional. Condiciona todas as políticas públicas, e aqui no sentido negativo, da sua ineficácia em termos de tratar dos problemas existentes. Quais os elementos que, de uma forma sucinta, nos poderiam indicar nessa ideia? É, por exemplo, não termos, de facto, um Estado de direito. Nós temos, não uma rule of law, mas uma rule by law, porque há determinadas práticas que são seguidas, a nível da gestão do Estado, que, de algum modo, vão contra os princípios constitucionais. Por exemplo, da separação de poderes e dos pesos e contrapesos, e algumas leis são feitas para acomodar aquilo que se pretende. Por isso, eu reafirmo, a rule by law, é um dos elementos ilustrativos disso. Tem a ver com as nossas leis orçamentais anuais. Nas leis orçamentais anuais, ou em sede das leis orçamentais anuais, são incluídas disposições que, de algum modo, derrogam princípios constitucionais, que é da lei enquadradora dos orçamentos anuais. Isso, especificamente, permite, dá-se prerrogativa do titular do poder executivo, de alterar o orçamento geral do Estado, aprovado em sede do Parlamento, da Assembleia Nacional, sem o escrutínio deste, em qualquer situação, se é situações de emergência ou aquelas que, enfim, por exemplo, seriam projectos novos que se entendem de estratégicos. Ora, um projecto estratégico não pode surgir do dia para a noite. Essas leis feitas à medida empatam o desenvolvimento económico. Mas, além dessas leis, há outros entraves ao desenvolvimento económico de Angola. Como antigo Ministro da Economia, quais são aqueles que nos pode identificar de forma que a população consiga entender facilmente que entraves são esses que conseguiu identificar? Eu posso dar um exemplo ilustrativo que vem de um encontro que acabo de dizer relativamente às leis orçamentais anuais. Em sede da Assembleia Nacional, quase que sistematicamente, aprovam-se verbas para a educação e saúde superiores às da defesa e segurança. Mas, sistematicamente, também, do ponto de vista da execução efectiva da despesa, as verbas da educação e saúde ficam aquém, muito aquém, do nível aprovado e muito abaixo ainda do nível aprovado para a defesa e segurança, porque o nível de execução das verbas atribuídas em sede da lei da Assembleia Nacional para a defesa e segurança ultrapassam grandemente esses níveis. Então, isso acaba por impactar negativamente na provisão de serviços públicos de educação e de saúde. Nota-se, por exemplo, que com base nos dados dos censos de 2014 e 2024, o último é de 2024, de 2014 para 2024, a percentagem de crianças fora do sistema escolar aumentou 12 pontos percentuais. Eram de 24%, passou para 36%. Portanto, se associarmos o facto de que, mesmo os que estão na escola, a expectativa é de, em média, claro, de terem 8 anos de escolaridade, mas com conhecimentos de 4, existindo 36% de crianças fora do sistema escolar, estamos a contribuir para o aumento do analfabetismo, se não literal, mas funcional. E do ponto de vista funcional, qual é o peso que isso tem no desenvolvimento da economia angolana? Isso coloca um problema, por exemplo, da empregabilidade, dos investimentos, porque para a realização de investimentos há-de levar à demanda de força de trabalho e são necessárias qualificações. Um problema que Angola tem, e é um desafio, é o baixo nível de capital humano, do ponto de vista do índice (Índice de Capital Humano), de 0,36%, para um máximo, país com o melhor índice de capital humano, que é a Singapura, com 0,88%. Isso coloca, claramente, um problema de empregabilidade. Até podem surgir investimentos, mas, por outro lado, esses investimentos poderão não estar em condições de absorver a força de trabalho activa que existe por causa das qualificações. Então, a perspectiva aqui é, por exemplo, apostar-se em investimentos enquanto se investe no aumento das qualificações, etc., da força de trabalho, em domínios muito menos exigentes do ponto de vista de qualificações. Seria a agricultura extensiva, indústria ligeira, etc. Mas, isto é um desafio, é um desafio, de facto, que a Angola tem. Falou-nos de saúde, de educação. Angola, é um país com imenso petróleo, mas depois vamos ver o índice de desenvolvimento humano (IDH) e, dentro dos PALOP, temos, por exemplo, o caso de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, consideravelmente dois países muito mais pobres, mas estão acima de Angola no índice de desenvolvimento humano. O que é que se passa em Angola? São os quadros? São as infra-estruturas? É a corrupção? O que é que faz com que um país com tanto potencial quanto Angola continue a ter esta posição no índice de desenvolvimento humano? Pois, comparativamente, o nível de rendimento per capita de Angola, embora tenha caído entre 2017 e 2025, o rendimento nacional per capita de Angola caiu 31%, porque a economia tem crescido a um ritmo inferior ao crescimento da população, mas, ainda assim, o nível do rendimento per capita de Angola deveria permitir-lhe estar num patamar um pouco mais elevado em termos de posição do índice de desenvolvimento humano, o que não acontece. Por quê? Por causa das derivas das políticas públicas, que são condicionadas pela natureza do Estado que nós temos. Aquilo que se chama o arcabouço da política institucional, onde há uma tendência das instituições serem de natureza extractiva, no sentido da extracção de renda, em vez de serem instituições que conduzam ao bom desempenho da economia e, com isso, à melhoria das condições de vida dos cidadãos, de tal maneira que os índice de corrupção são elevados. No livro, há um artigo onde eu cito dois autores, e um working paper do Fundo Monetário Internacional, que é de 92 ou 93, onde dizem que países como Angola, onde há fraqueza, sobretudo nas instituições de fiscalização, há tendência de se fazer projectos para, digamos, dar nas vistas, com o fim de extrair renda, e não necessariamente para resolver os problemas das populações. Angola tem vivido essa situação com projectos de impacto duvidoso sobre a melhoria das condições de vida da população. Mas, entretanto, de algum modo, vamos tendo gente endinheirada, não necessariamente ricos, à custa do erário público. E há uma tendência, eu referi esse aspecto durante a apresentação do livro, de que há uma tendência das elites angolanas, quer políticas, quer empresariais, quer até ao nível da sociedade, de acumular capitais no estrangeiro, quando, por exemplo, a elite colonial, na Angola colonial, lutava para poder aumentar a acumulação de capital local. (Não confundir com a acumulação primitiva de capital, que é um engenho para extrair renda de recursos públicos.) Mas era impedida por causa do centralismo metropolitano que condicionava o desenvolvimento da Angola, o desenvolvimento da metrópole. E a abertura, o pouco de industrialização que aconteceu em Angola, iniciou praticamente em 1961. Nessa altura foram desenvolvidos ou implementados planos de fomento. E o quarto, na verdade, os críticos consideram que o quarto plano de fomento, que iniciaria em 1973, seria, de facto, o plano de fomento, porque os restantes eram no sentido de criar infra-estruturas, etc., e algum capital crítico do ponto de vista de qualificações, mas o quarto plano de fomento não chegou a ser, mas isso tudo por pressão também da elite colonial na altura. Inclusive, de alguma forma também, essa elite contribuiu para que se implantassem estudos gerais universitários, isso que aconteceu em 1968. Ao contrário da cultura da oligarquia actual, que a tendência é, de facto, acumular capital no estrangeiro porque não tem confiança do próprio país, porque sabem o q