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  1. 1d ago

    "Vou para Angola": Jéssica Lima recupera memória familiar de São Tomé para Angola

    "Vou para Angola", Jéssica Lima parte da viagem da avó, que deixou São Tomé e Príncipe com quatro filhos, para interrogar as marcas da migração nas gerações seguintes. A curta documental, com 14 minutos, cruza arquivos e memórias familiares e é apresentada esta sexta-feira, 2 de Outubo, no FESTin, em Lisboa, precisamente no dia em que a avó da realizadora completaria 93 anos. Em "Vou para Angola", a cineasta são-tomense Jéssica Lima regressa ao percurso da avó entre São Tomé e Príncipe e Angola para compreender não apenas uma deslocação geográfica, mas aquilo que esse movimento transmitiu às mulheres que vieram depois: a mãe, a tia e, por fim, a própria realizadora. Produzida em 2026, a curta documental de 14 minutos integra a programação do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, que decorre em Lisboa de 1 a 11 de Outubro e reúne este ano 60 filmes de diferentes geografias do espaço lusófono. A 17.ª edição coincide com os 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A ideia do filme nasceu de uma memória antiga, mas ganhou forma recentemente. Jéssica Lima cresceu a ouvir falar de Angola nos almoços de família: da comida, de Luanda, dos anos que a mãe ali passou até aos nove anos. Quando regressou a São Tomé e Príncipe, depois de viver 11 anos em Inglaterra, uma conversa familiar devolveu-lhe essas histórias e despertou uma curiosidade que vinha da infância. “Quis reconectar-me com a minha família, principalmente com a linhagem feminina: a minha avó, a minha tia mais velha, a minha mãe e agora eu”, explica. Ao começar a investigar a partida da avó, percebeu que aquela história íntima pertencia também a uma realidade mais ampla: a circulação de sucessivas gerações de são-tomenses entre as ilhas e Angola. A investigação acabou por aproximar a realizadora da própria experiência migratória. Jéssica Lima também saiu cedo do país, no seu caso para estudar artes em Inglaterra, e reconheceu no percurso da avó algumas das questões que acompanhariam mais tarde a sua própria vida: a procura de oportunidades, a adaptação, a saudade e a possibilidade do regresso. “Aprendi com ela a resiliência”, afirma. A herança que identifica na avó é sobretudo a capacidade de recomeçar: “Não ter medo de ir à procura de uma vida melhor, mas também não ter medo de regressar ou de começar de novo, tantas vezes quantas forem necessárias.” É uma experiência que a realizadora vê repetir-se na família, primeiro na avó, depois na mãe e agora nela própria. Para Jéssica Lima, a migração deixa uma necessidade de adaptação, mas também perguntas sobre pertença e identidade que podem atravessar gerações. Angola surge, por isso, não apenas como o lugar onde a avó viveu, mas como uma geografia que permanece inscrita na memória familiar. A realizadora acredita que ela própria voltará e que as gerações seguintes poderão, de alguma forma, refazer esse caminho. Para reconstruir um passado de que restavam relatos fragmentados, recorreu a fotografias guardadas pela avó e a imagens de arquivo de Angola. “As histórias que a minha tia e a minha mãe contavam eram como retalhos, pequenos depoimentos e memórias”, explica. “O arquivo foi essencial para remontar esse quebra-cabeças e interpretá-lo à minha maneira.” As imagens permitem ao filme estabelecer uma ponte entre a Luanda que permanece na memória da família e o presente a partir do qual essa história é interrogada. É também nesse movimento do particular para o colectivo que Jéssica Lima situa o seu cinema. A realizadora diz preferir começar por uma experiência concreta, próxima, antes de procurar uma leitura mais ampla. Depois das primeiras exibições, percebeu que espectadores sem ligação à sua família se reconheciam noutra dimensão do filme: a urgência de perguntar aos pais e aos avós pelas histórias que ainda podem contar. Outros reconheceram nas imagens de arquivo a Angola de uma época que conheceram. A apresentação no FESTin tem ainda uma coincidência particularmente, uma vez que o filme é projectado em Lisboa, cidade onde Jéssica Lima nasceu, no dia 2 de Outubro, data em que a avó faria 93 anos. Para a cineasta, mostrar esta história num festival dedicado às cinematografias de língua portuguesa levanta a possibilidade de pensar as relações entre países que partilham uma língua, mas sobretudo histórias de circulação, partida e regresso.

  2. Sep 19

    Página de facebook Djudan Buska Nha Familia reúne famílias separadas há décadas

    Há famílias cabo-verdianas que passaram 40, 50 ou 60 anos sem notícias umas das outras. A página de Facebook Djudan Buska Nha Familia, coordenada por Isabel Semedo, tenta reconstruir esses laços através de nomes, fotografias, alcunhas e memórias dispersas por vários países. Cerca de 20 reencontros já foram possíveis, alguns em menos de uma hora. Há histórias familiares que ficaram suspensas entre Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Portugal ou Estados Unidos. Algumas começaram com partidas forçadas pela pobreza e pela fome, outras perderam-se com o tempo, a distância e a ausência de meios de comunicação. Décadas depois, uma página de Facebook tenta voltar a ligar essas vidas. A ideia nasceu depois de uma viagem de Isabel Semedo a São Tomé e Príncipe. “Toda a gente na sua família tem a história de alguém que partiu para São Tomé e não voltou”, conta. Ela própria não tinha esse percurso na família, mas conhecia desde pequena as histórias de quem tinha partido. Quando chegou ao arquipélago, percebeu a dimensão do problema. “Encontrei famílias, descendentes e pessoas que ainda estão lá. Foi muito, muito marcante. Apesar de tudo o que aconteceu, a palavra saudade é aquilo que mais lhes marca.” Dessa viagem nasceu Djudan Buska Nha Familia, “Ajuda-me a encontrar a minha família”, em português. O ponto de partida era simples, criar um lugar onde pessoas separadas por décadas pudessem deixar um nome, uma fotografia, uma localidade ou apenas uma memória. “Têm muita saudade do país e, sobretudo, dos familiares que ficaram por lá e de quem nunca mais tiveram notícias. Uns há 60 anos, outros há 40”, explica Isabel Semedo. Por detrás de muitas dessas histórias está uma página dolorosa da história cabo-verdiana. Isabel Semedo recorda a fome de 1947 e o envio de trabalhadores contratados para São Tomé e Príncipe, mas lembra que as separações se estenderam também a Angola, Moçambique e outras geografias da diáspora. “As pessoas foram para lá trabalhar, levaram a vida delas e foram perdendo contacto com os familiares em Cabo Verde.” Hoje, a página recebe pedidos vindos de vários pontos do mundo. A procura começa muitas vezes com quase nada. “É como uma agulha num palheiro”, reconhece. Um nome incompleto, uma fotografia antiga, o nome de uma aldeia ou uma referência transmitida oralmente podem ser tudo o que resta. A equipa foi criando, com o tempo, uma rede de contactos em Cabo Verde, São Tomé e na diáspora, tentando cruzar documentos, testemunhos e informações recebidas pelas redes sociais. Há um elemento que se revela muitas vezes decisivo, os nomes de casa. “Nós, cabo-verdianos, temos muito isso, o nominho”, explica. “Às vezes é ‘filho de tal’, ‘filha de tal’. E a partir daí temos conseguido encontrar pessoas.” Há famílias que enviam certidões, fotografias e documentos privados na esperança de que uma pista permita reconstruir uma ligação perdida. Um desses casos foi o de Elsa, que procurava uma irmã desaparecida do radar familiar havia 40 anos. “Mandaram-me os dados, a fotografia, tudo. Em menos de uma hora conseguimos localizá-la através da página, dos comentários e das partilhas.” A irmã tinha passado por Cabo Verde e vivia em Portugal. “Foi uma história muito emocionante, triste e feliz. São sentimentos que se misturam.” Outro reencontro marcou profundamente Isabel Semedo foi o de Manuel que procurava a mãe e os irmãos em São Tomé e Príncipe. Não tinha fotografia e nem sequer conhecia o nome verdadeiro da irmã. Sabia apenas que lhe chamavam “Nuna”. Através de uma segunda mensagem recebida pela página, a equipa percebeu que esse “nominho” correspondia a Valenciana Vaz Moreira. “Através desse Nuna encaixou tudo.” Depois de cerca de 60 anos, os irmãos voltaram a encontrar-se. “Nós choramos com eles. Só quem vive é que sente uma coisa destas”, conta Isabel Semedo. Manuel, antigo GNR em Portugal, tinha passado praticamente toda a vida a procurar a família. “Ele disse-me que viajou por vários países sempre com isto na cabeça e que, no dia em que foi jurar bandeira para ser GNR, era o único que não tinha família.” Quando reencontrou a irmã, disse-lhe que tinha sido “o dia mais feliz da vida dele”. Mas nem todas as histórias terminam num reencontro. E essa é, para Isabel Semedo, uma das partes mais difíceis do trabalho. “Falamos muito com as pessoas antes de publicar. Não somos profissionais, somos só pessoas que têm vontade e estamos no mesmo barco.” A equipa tenta recolher o máximo de informação possível, mas evita alimentar expectativas que talvez nunca se confirmem. “Dar falsas esperanças também é complicado.” Há ainda casos em que a página serve de homenagem a quem procurou a família durante toda a vida e morreu sem conseguir regressar. Noutros, o reencontro torna-se real. Isabel Semedo recorda uma mulher filmada em São Tomé em 2025. A publicação chegou aos familiares, que a reconheceram, reuniram dinheiro e conseguiram levá-la a Cabo Verde. “Ficou lá três meses. Agora já voltou para São Tomé.” Para Isabel Semedo, é talvez aqui que reside a força do projecto, em utilizar as mesmas redes sociais tantas vezes associadas ao ruído, à violência ou à desinformação para construir alguma coisa. “As redes sociais podem ser muito perigosas, mas, bem utilizadas, podemos fazer a diferença.” A página também recebe comentários xenófobos ou racistas, que prefere apagar em vez de alimentar confrontos. Isabel resume esse espírito com uma expressão crioula: junta mon, juntar as mãos. “Estou sempre a agradecer às pessoas que comentam, que partilham. Isto é um junta mon, é juntar mãos para fazer algo de positivo.”

  3. Sep 14

    Kiala: A chancela literária que vai publicar só autores negros

    A chancela Kiala, da editora Vírgula d’Interrogação, nasceu para publicar livros de autores negros em Portugal e para responder a uma subrepresentação no mercado editorial português, conta a criadora do projecto Elga Fontes. "Kiala” é uma palavra com raízes no kimbundu, uma língua Bantu de Angola, e significa "trazer luz ou iluminar”, o que traduz a ideia desta chancela: “trazer luz a vozes que ainda não estão presentes no mercado literário português”.  “A Kiala é uma chancela do grupo editorial Vírgula d’Interrogação que pretende publicar livros de autores negros em Portugal”, começa por resumir a sua criadora Elga Fontes, que também é tradutora, revisora e fundadora da oficina editorial Quem Me Lera, o mesmo nome da sua página Instagram em que partilha, há anos, sugestões de livros com milhares de seguidores. Quisemos conhecer o projecto de Elga Fontes e convidámo-la a partilhar connosco a história da Kiala. Elga nasceu em Portugal há 31 anos, é angolana por parte da mãe e cabo-verdiana por parte do pai. Licenciou-se em Línguas e Culturas na Faculdade de Letras de Lisboa, fez um mestrado em Estudos Editoriais na Universidade de Aveiro, começou a trabalhar como revisora ainda durante a licenciatura e, pouco depois, entrou no mundo da tradução editorial. Foi, também, durante a universidade que criou a página Instagram #quemmelera para ter “uma plataforma para falar sobre o que lia” e “encontrar outras pessoas que gostassem de ler”. A acompanhar esse amor pela literatura, esteve sempre a impressão de uma invisibilidade crónica de autores negros nas estantes das livrarias em Portugal, algo que acabou por ser validado por um trabalho académico que fez e que mostrou isso mesmo. A Kiala acaba por surgir, anos mais tarde, em resposta a essa lacuna e nasce como uma chancela da editora Vírgula d’Interrogação. O nome escolhido, "Kiala", vem do kimbundu, uma língua Bantu de Angola, com múltiplos significados, entre os quais “o trazer luz ou iluminar”. “Acho que funciona como metáfora para aquilo que nós queremos fazer que é - num sentido muito figurativo - iluminar, trazer luz a estas vozes que ainda não estão tão presentes no mercado literário português”, acrescenta a editora. “Já há alguns anos que, enquanto leitora e enquanto profissional da área, tenho reparado que existe uma sub-representação na presença de autores negros nas estantes das livrarias de Portugal. A Kiala surgiu como uma ferramenta para tentar combater isso”, conta Elga Fontes. Questionada sobre as razões dessa ausência de autores negros nas livrarias, Elga diz que “há muitos motivos essencialmente estruturais”, desde logo o facto de o mercado editorial português ser “muito pequenino, muito precário e onde é muito caro fazer livros” e também “é muito difícil vendê-los” devido aos parcos hábitos de leitura. Por isso, as editoras “acabam por apostar naqueles livros que têm mais visibilidade lá fora e mais garantias de poder dar algum lucro e, infelizmente, esses livros, na sua maioria, não incluem vozes fora daquilo que é considerado padrão e normativo”. Depois, acrescenta a editora, o racismo e as feridas abertas do colonialismo são “sem dúvida, dos maiores motivos para o qual existe esta sub-representação de autores negros” em Portugal. Para combater também esse racismo, a Kiala tem um “guia de termos a evitar e as alternativas”, já que a própria Elga, também tradutora, chegou a ver uma tradução sua alterada com expressões racistas que foram introduzidas posteriormente. O primeiro livro publicado este ano pela Kiala foi uma obra de não-ficção intitulada “Feminismo na Periferia”, de Miki Kendall e, em Novembro, vai ser lançado o segundo “A Morte de Vivek Oji”, um romance de Akwaeke Emezi, uma autora nigeriana não binária. Para 2027, também há três livros fechados. Enquanto editora generalista, o objectivo é publicar vários géneros, estar “atentos ao que é publicado noutros mercados”, nomeadamente a “autores negros que estão a surgir e também as obras que, apesar de já terem alguma relevância internacional, ainda não chegaram a Portugal”. “Eu que faço a selecção dos livros, faço esta pesquisa. Também estou muito por dentro do que se faz lá fora, contacto agentes, leio os livros e gosto de me guiar por uma questão que é: Que conversa é que este livro pode iniciar ou continuar em Portugal?”, explica a editora. Quanto às ambições, Elga diz querer muito “que a Kiala consiga construir um catálogo de referência com livros que as pessoas continuem a descobrir ao longo dos anos” e que contribua “para normalizar” a presença de autores negros nas livrarias, ou seja, “entrar numa livraria e encontrar muitos autores negros, de diferentes géneros, diferentes países e com diferentes perspectivas”. Oiça a entrevista neste programa.

  4. Jul 23

    Luís Represas (1956-2026) deixa legado de cinco décadas à música popular portuguesa

    O músico português Luís Represas morreu nesta quarta-feira aos 69 anos, vítima de doença prolongada, deixando para trás uma longa carreira que faria cinco décadas este ano. Foi a voz de Trovante, banda que ajudou a renovar a música de intervenção do pós-25 de Abril, e na sua carreira a solo, teve grandes êxitos pop. Luís Represas também marcou os espíritos além das fronteiras portuguesas, como testemunha Timor, canção de 1996 dedicada à luta pela independência do povo timorense. Luís Represas celebrava este ano cinco décadas de carreira, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto marcados para Abril de 2027. Foi o vocalista de Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril que reflectia do fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos.   Voz dos Trovante Trovante contribuiu  para a actualização da música de intervenção, utilizando também elementos da música folclórica, numa abordagem moderna à música tradicional, tal como explica à RFI o musicólogo Pedro Félix. O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada.  O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto. A canção "Engrenagem" do álbum Chão Nosso, foi um exemplo dos inícios de Trovante, com elementos da música de intervenção e da música folclórica: O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.   Carreira a solo Em 1993, Luís Represas inicia a sua carreira a solo, aproximando de uma vertente mais pop, como ficaram marcadas os últimos anos de Trovante. Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul. Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais. A música Feiticeira (1993), com a participação do compositor cubano Pablo Milanés, é uma das mais emblemáticas do período solo de Luís Represas.   Pela causa timorense Em 1996, gravou a canção Timor, dedicada à luta pela independência do povo timorense, importante no seu reconhecimento internacional, especialmente no mundo lusófono. O Presidente timorense, José Ramos-Horta, em declarações a Miguel Martins, conta como esta canção foi um canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência.  Uma das manifestações culturais, musiciais que teve mais  impacto, e que fez chorar corações foi a canção "Timor", de Luís Represas. A letra é bonita, é de partir o coração e fazer chorar as pessoas mais insensíveis, ou fazer reflectir as pessoas mais sensíveis. Luís Represas veio a Timor-Leste, obviamente depois da independência, várias vezes. Era uma pessoa extraordinária: a simplicidade das grandes pessoas ! A perda dele cria uma grande tristeza para aqueles que o conheceram e para aqueles que se habituaram a ouvir a letra "Ai Timor" Para além de ter sido reconhecido pela crítica e o público, conheceu também o reconhecimento institucional, com a condecoração com a Ordem de Mérito da República Portuguesa, em 2005, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.    Ouça aqui na íntegra a entrevista ao musicólogo Pedro Félix sobre o legado musical de Luís Represas. Mateus Santa Rita

  5. Jul 17

    30 anos da CPLP: Marcolino Moco exprime "uma certa desilusão"

    A CPLP, Comunidade dos países de língua portuguesa, assinala hoje 30 anos de existência. Uma organização confrontada com múltiplo desafios e fragilizada pela suspensão da Guiné-Bissau na sequência do golpe de Estado de Novembro passado. O antigo Primeiro-Ministro angolano Marcolino Moco foi o primeiro secretário executivo da organização lusófona e fez um balanço à RFI destas três décadas de existência do bloco lusófono. Marcolino Moco começa por afirmar a sua grande decepção relativamente ao desempenho da CPLP. Eu tenho uma ideia de uma certa desilusão. Porque eu tinha a ideia inicial de que essa CPLP podia ser um impulsionador, sobretudo na área de reafirmação dos valores que constituíram o histórico dos países que constituem a CPLP: Portugal mais as suas ex-colónias, mais o Brasil. Portanto trabalhar em mais-valias que poderiam resultar deste histórico. Mas isso não tem sido possível, por várias razões, entre as quais eu costumo sublinhar especialmente o maior desperdício de energias para uma actividade meramente formal, diplomática ou formal entre os Estados. Portanto, aquela ideia de que, especialmente os países africanos poderiam adquirir vantagens, uma espécie de recomposição daqueles aspectos positivos que resultaram da nossa história, isso não se tem conseguido porque na relação entre Estados há muito formalismo. O problema do respeito das soberanias de cada um é tão forte que se desprezam as mais-valias que poderiam beneficiar às populações. Embora se fale muito até hoje dos males da colonização. Mas havia muitos aspectos positivos que poderiam ter sido recuperados e que não o foram. Pelo contrário, continuamos, especialmente nos países africanos, a perder valores éticos, sobretudo na área política, em que, por exemplo, as eleições são praticamente uma inutilidade. Talvez com a excepção de Cabo Verde, onde as eleições são um factor de estabilização, são factor de escrutínio da acção dos políticos governantes. Mas isso não acontece nos outros países, especialmente continentais africanos, com casos graves: em Angola, começou por Angola, que é o meu país, da Guiné-Bissau. São casos muito graves e também de Moçambique. A suspensão da Guiné-Bissau da CPLP, onde um ex-secretário executivo da CPLP está desde a semana passada em prisão preventiva, com os golpistas a assumirem o poder, não pode ser fatal à sobrevivência da organização? Talvez não seja fatal, porque vai-se continuar a trabalhar na base do formalismo e não na base de algo que seja útil para estabilizar politicamente todos os Estados. Possivelmente a Guiné-Bissau, Angola também, a situação não é, como muita gente pensa, boa, óptima. E também temos acompanhado aspectos negativos em Moçambique. Na sua opinião, a CPLP deve ser mais exigente na defesa da democracia e dos direitos humanos nos Estados-Membros? Ora, nem mais. Em relação a esse aspecto, a CPLP não actua por causa do tal respeito à soberania e por causa da defesa de interesses de algumas pessoas, tudo agentes do Estado. Veja que, pelo contrário, foi associado um país muito pior em termos de respeito dos direitos humanos, da democracia, da preocupação dos dirigentes do seu Estado, em relação ao bem-estar social das suas populações. Estou-me a referir à Guiné Equatorial, por exemplo, que por nenhuma razão que se invocasse deveria fazer parte da CPLP, tanto pelo respeito aos direitos humanos como por outros aspectos do regime. Este Estado foi atraído pela CPLP, indiciando que o tal ideal da democracia, o ideal ético, de uma política ética não tem grande significado perante perante nós, elites políticas. Eu também faço parte das elites políticas, dos nossos Estados. E veja este caso da Guiné-Bissau. Um dirigente que até também foi secretário da CPLP, detido arbitrariamente de forma vergonhosa e tanto quanto eu saiba, a CPLP está impotente para actuar. A expulsão é uma coisa que não não tem grande relevância. Mas eu pensaria que haveria atitudes anteriores. Essas situações deviam ser promovidas para darmos maior utilidade à nossa organização. Daqui a 30 anos, o que eu gostaria que se dissesse da CPLP? Eu sou professor ainda e às vezes digo muita coisa que é politicamente incorrecta. Devemos começar primeiro por reconhecer que as nossas independências foram muito mal conduzidas. Não houve reflexão. Foram rejeitadas ideias de Constituição de transições mais úteis. Eu não estou a preconizar um regresso ao passado, uma recolonização, mas pelo menos uma capacidade de olhar para o presente, fazermos uma retrospectiva correctiva do que aconteceu e não permitirmos efectivamente muitas coisas que estão a acontecer hoje nesses países, que tiveram o seu surgimento graças à presença de Portugal aqui em África. Independentemente dos aspectos negativos que possam ter acontecido. Tenho para os amigos muito próximos dito que podíamos ter independência, mas sem descolonizar. Acho que isso é politicamente incorrecto, sobretudo para quem não reflectiu, como eu tenho reflectido. Mas nós temos exemplos positivos de uma prática desse tipo. Onde houve independência sem descolonização. Portanto, as instituições estão preservadas. Quando se fala em descolonização, normalmente pensa-se que é afastar o branco da administração e deixá-lo sair, se for possível. Mas nos nossos Estados, onde se realizou uma descolonização precipitada, onde constituímos essas pátrias com pessoas de todas as proveniências e depois 74-75, montámos um esquema mental completamente errado. Aquele êxodo que houve aqui nos nossos países. É talvez por isso que justamente Cabo Verde é um exemplo onde não houve êxodo, com uma parte da população retendo as elites com conhecimento, etc. Hoje vão, digamos, se estabilizando melhor. E aqui onde houve o êxodo da população branca em grande quantidade, estávamos pobres em tudo, a partir da própria moralidade, da própria ética, passando pelas prioridades que são traçadas por pessoas mal preparadas. Eu também me incluo nesse aspecto, porque também ocupei funções. De modos que é isso que eu lamento que a CPLP, 30 anos depois, não possa ter contribuído para, digamos, remediar esses problemas. Era Marcolino Moco, primeiro secretário executivo da CPLP, no dia em que a organização assinala três décadas de existência.

  6. Apr 10

    Guiné-Bissau: Carta aberta denuncia situação de líder do PAIGC

    Dionísio Simões Pereira, irmão do líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, actualmente sob residência vigiada na capital guineense, redigiu hoje uma carta aberta à comunidade nacional e internacional apelando à acção para pôr cobro ao actual estatuto do seu irmão. Em causa o facto de o antigo primeiro-ministro continuar privado de liberdade desde o golpe de Estado de Novembro do ano passado que interrompeu o processo eleitoral. Dionísio Simões Pereira, irmão de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, Partido africano para a independência da Guiné e Cabo Verde, actualmente, em estatuto de residência vigiada em Bissau começa por se referir a quem é dirigida esta carta. A toda a comunidade internacional, mas partindo das autoridades do país, porque efectivamente nós estamos... Não só o Domingos [Simões Pereira] está privado de liberdade, como toda a família que lhe acompanha está condicionada, está limitada. Mas, pior do que isso, sem escrúpulos as pessoas colocadas para vigiar a movimentação nas proximidades da residência não adoptam a postura de civilidade, de, pelo menos respeito pelos direitos das pessoas. Portanto, é uma violação dos direitos a todos os níveis, com abusos que vão sendo cometidos à margem da lei. Fala em disparos de armas automáticas em dois dias diferentes. Pois, com o argumento de que terão sido incidentes involuntários. Mas não são actos de intimidação, de provocação que poderão ter consequências num dado momento. Quer dizer que ninguém deseja, mas isso pode ser a simulação de actos bárbaros e de crimes que poderão estar a ensaiar, a realizar. No entanto, como diz nesta carta, o seu irmão não foi formalmente acusado da prática de nenhum crime, não obstante ter sido ouvido pelo Tribunal Militar, não é ?   Pois, porque ele está neste momento, por aquilo que foi dito na sequência da audiência, e de que, portanto, ele não está sendo acusado de absolutamente nada. E neste momento está sendo perseguido por golpistas. Quer dizer, condenou um golpe. Inventam um álibi. Criam figuras irrealistas, portanto, para serem constituídas bode expiatório. Mas o criminoso vem chamar o outro de criminoso, quando são eles os autores do golpe e que estão, digamos, a instrumentalizar todos os órgãos do país, tanto impedindo o funcionamento do Estado de Direito. E aqui se pode perguntar com que legitimidade é que poderão apontar o dedo a alguém que tão pouco esteve envolvido em algum acto de subversão à ordem constitucional? E, entretanto, eles que são autores, digamos, de interrupção de um processo eleitoral em que foram derrotados nas urnas. E o crime de Domingos terá sido o facto de ter levado o ex-presidente Umaro Sissoco Embaló à derrota, logo na primeira volta. Portanto um acto humilhante para alguém que estava a dar sinais de que detinha a vontade popular do seu lado, quando na verdade era o contrário.   Portanto, no seu entender, estamos perante um "sequestro político e humano". Estou a citar a carta.   Político e Humano com a conivência da comunidade internacional, a começar pela própria CEDEAO [Comunidade económica dos Estados da África ocidental] ! Que, pelo que se pode verificar neste momento é de que toda a ameaça tanto da aplicação de sanções não vale de nada. Da União Africana não vale de nada. E isto talvez com a justificativa, que se tem ouvido nos bastidores, com medo da perda da Guiné, porque já se perdeu três países que constituíram agora o novo bloco dos Estados do Sahel [AES, Aliança dos Estados do Sahel: Burkina Faso, Níger e Mali] e com medo da perda da Guiné [Bissau]. Então vai-se sacrificar o povo da Guiné [Bissau] e a liderança política do PAIGC. Portanto, neste momento, digamos que estamos a caminhar para uma saída extremamente perigosa, porque esta prática vigente neste momento no país dá legitimidade a qualquer cidadão para fazer recurso, também à força para a obtenção da liberdade ou o recurso à força para ascender ao poder. Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode fazer escola. E se isso fizer escola, todos vamos sofrer. Não será só o povo da Guiné [Bissau], mas a comunidade internacional terá também a sua quota parte de consequências.     Portanto, diz que Domingos Simões Pereira está detido há já cerca de 150 dias. Como é que está? Que notícias é que tem dele? Não. Ele neste momento está a precisar de fazer os exames médicos. Portanto, por alguns sinais que vai tendo, entretanto, não consegue tão pouco chegar a quem possa dar a cara como a figura chave que lhe mantém nessa situação de privação total de liberdade. Não consegue fazer isso, nem no país, nem fora do país, porque tão pouco tem possibilidades de receber pessoas para recolha de amostras para alguma análise clínica. Portanto, é uma situação extremamente perigosa que pode descambar em outras práticas para se poder reverter a situação ou que ninguém deseja. Mas também não se poderá considerar que se vai ficar amorfo, parado, inerte, portanto, sem adoptar uma postura que permita reverter esta situação. É inadmissível e inaceitável esta violação dos direitos do cidadão Domingos Simões Pereira. Ele não é livre sequer de receber visitas ? Tão pouco e até de familiares, primos e a situação de irmãos a serem condicionados a uma situação de aberração total ! De sublinhar que, nesta missiva, Dionísio Simões Pereira realça o facto de Fernando Dias da Costa ter sido o vencedor das eleições. O candidato que Domingos Simões Pereira acabou por apoiar por ter sido excluído da corrida eleitoral. A carta termina com o repto lançado à comunidade internacional e aos observadores das últimas eleições, apelando a que estes tomem posição acerca "da interrupção do processo democrático e da degradação do Estado de Direito".

  7. Apr 8

    Dois anos na RCA: Joseph Figueira Martin regressa a Portugal após pressão diplomática

    O investigador luso-belga Joseph Figueira Martin foi libertado na terça-feira, 7 de Abril, após quase dois anos de detenção na República Centro-Africana, na sequência de uma mediação diplomática liderada por Portugal com o apoio da Bélgica e de instituições europeias. O caso, marcado por acusações contestadas e condições de detenção severas, termina com um desfecho humanitário, embora persistam dúvidas sobre os contornos da detenção. A libertação de Joseph Figueira Martin, detido desde Maio de 2024 na República Centro-Africana (RCA), foi anunciada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, perante a Comissão dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, numa comunicação que classificou como uma “batalha difícil” de quase dois anos. O chefe da diplomacia portuguesa destacou o esforço concertado de várias instituições nacionais e internacionais: “Houve aqui um trabalho conjunto muito grande. Isto deve-se ao esforço de todos os órgãos de soberania, dos serviços diplomáticos, das Forças Armadas e também das autoridades belgas, que trabalharam connosco em estreita cooperação.” Paulo Rangel sublinhou, ainda, a relevância das condições humanitárias na decisão final: “A situação humanitária era de facto muito difícil. As condições de detenção eram extremamente duras. Foi essa a razão pela qual lhe foi concedida uma medida de clemência.” Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros português, foram realizadas “várias missões discretas” com o objectivo de garantir a libertação do investigador. Joseph Figueira Martin tinha sido capturado no sudeste da RCA por forças associadas ao grupo Wagner, permaneceu detido em Bangui durante mais de 22 meses, incluindo em instalações descritas como severas. Em Novembro de 2025, foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados por alegados crimes contra a segurança do Estado,  acusações sempre rejeitadas pela família. O eurodeputado socialista português Francisco Assis saudou o desfecho, destacando o papel da diplomacia portuguesa e das instituições europeias: “Foram feitas várias diligências, sobretudo pelos governos de Portugal e da Bélgica. Essa acção diplomática bem-sucedida permitiu alcançar este resultado, que nos deixa profundamente satisfeitos.” Francisco Assis considerou que o Parlamento Europeu actuou de forma adequada: “O Parlamento Europeu fez o que tinha que fazer, pugnou pelo respeito pelos direitos humanos e pela defesa dos cidadãos europeus. Agiu de forma responsável e correcta.” O eurodeputado português salientou, ainda, o carácter humanitário da decisão das autoridades centro-africanas: “Houve uma atitude de clemência que saudamos. Este é o momento para celebrar a libertação, não para fazer outras avaliações.” A decisão de libertar o antropólogo aconteceu depois da tomada de posse do Presidente da RCA para um novo e terceiro mandato, o que, segundo Paulo Rangel, poderá ter facilitado o gesto, embora enquadrado num compromisso previamente assumido de considerar razões humanitárias após o encerramento do processo judicial. O caso mobilizou a União Europeia, levantando preocupações quanto à segurança de cidadãos europeus em regiões instáveis e ao papel crescente de actores externos, como a Rússia, na região. Ainda assim, Francisco Assis relativizou leituras geopolíticas mais amplas: “Este caso é um caso em si mesmo. É positivo quando razões humanitárias prevalecem.” Joseph Figueira Martin encontra-se actualmente sob observação no hospital militar em Lisboa, depois de ter regressado a Portugal a bordo de um avião militar. Apesar do desfecho, permanecem por esclarecer as razões exactas da sua detenção e os termos concretos do acordo que conduziu à sua libertação, num processo que expôs fragilidades mas também a capacidade de resposta diplomática europeia.

  8. Mar 18

    Tico Tico lamenta: “Um escândalo que afecta a imagem do futebol africano”

    Marrocos foi declarado vencedor da Taça das Nações Africanas (CAN) esta terça-feira, 18 de Março, pela Confederação Africana de Futebol (CAF). Uma vitória na secretaria, dois meses após uma final caótica em que o Senegal venceu em campo por 1-0 (após prolongamento), mas abandonou o relvado durante cerca de 15 minutos em protesto contra um penálti assinalado a favor de Marrocos, já em período de compensação. Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano. “O júri de recurso da Confederação Africana de Futebol decidiu, ao abrigo do artigo 84.º do regulamento da Taça das Nações Africanas, declarar a equipa nacional do Senegal como derrotada durante a final da CAN, com o resultado a ser homologado por 3-0 a favor da Federação Real Marroquina de Futebol", anunciou a CAF em comunicado. O Senegal tinha vencido a partida graças a um golo de Pape Gueye no prolongamento. Antes disso, Brahim Díaz, de Marrocos, falhou um penálti nos últimos segundos do tempo regulamentar. O lance só aconteceu após uma espera de mais de 15 minutos, já que os jogadores senegaleses tinham abandonado o campo em protesto. Sadio Mané acabou por convencer os colegas a regressar ao relvado para retomar o jogo. Inicialmente, o júri disciplinar da CAF tinha rejeitado, no final de Janeiro, o recurso apresentado pela Federação Real Marroquina de Futebol. Porém, esta terça-feira, o júri de recurso anulou a decisão inicial e deu razão ao Marrocos. Com esta decisão administrativa, Marrocos conquista a sua segunda CAN, meio século após o primeiro título. O país, que foi anfitrião da competição, afirmou num comunicado que “a sua iniciativa nunca teve como objectivo contestar o mérito desportivo das equipas envolvidas, mas apenas exigir o cumprimento do regulamento da competição”. A Federação Senegalesa de Futebol qualificou a decisão de "visceralmente injusta” e anunciou, esta quarta-feira, 18 de Março, que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto. "A Federação Senegalesa de Futebol denuncia uma decisão iníqua, sem precedentes e inaceitável, que lança descrédito sobre o futebol africano", acrescentando que "para a defesa dos seus direitos e dos interesses do futebol senegalês, a Federação irá, com a maior brevidade possível, interpor um recurso junto do Tribunal Arbitral do Desporto, em Lausanne". O Governo do Senegal, por seu lado, exigiu esta quarta-feira a abertura de uma “investigação internacional independente por suspeitas de corrupção nas instâncias dirigentes da Confederação Africana de Futebol”, classificando a decisão como “de uma gravidade excepcional” e “grosseiramente ilegal”.  Para Tico Tico, antigo capitão da selecção moçambicana, o episódio prejudica o futebol africano. “Já passaram dois meses e todo o mundo já se tinha completamente esquecido disso. E agora surge essa notícia. É um bocadinho surpreendente”. Mais do que o conteúdo da decisão, é o momento em que surge que levanta maiores reservas ao antigo internacional. Na sua leitura, caso a CAF entendesse que houve violação do regulamento por parte do Senegal, a consequência deveria ter sido imediata e não retroactiva: “Se a lei não foi cumprida, então tinha que se declarar o vencedor na hora. Não faz sentido continuar o jogo, o Senegal ganhar, festejar, receber o troféu e dois meses depois, aparecer esta sentença. Não cai bem.” Para Tico Tico a polémica agrava a imagem de uma final que já tinha ficado marcada por incidentes e contestação. “Já a própria final, por causa dos escândalos que aconteceram, tinha posto uma mancha na imagem da CAN. Agora isto vem manchar ainda mais. Não nos orgulha em nada como africanos”, lamentou, defendendo que o episódio prejudica não apenas a competição, mas a percepção global do futebol africano. Nesse sentido, considera que o caso dificilmente ficará encerrado com esta decisão, até porque a Federação Senegalesa já anunciou que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto: “É um caso que agora se abre e que pode levar o seu tempo. Não vai terminar tão cedo.” Do ponto de vista dos protagonistas, Tico Tico distingue entre o impacto institucional e a vivência dos jogadores. Embora reconheça o investimento significativo feito por Marrocos no desenvolvimento do futebol e na organização de grandes competições, questiona o valor simbólico de um título conquistado fora das quatro linhas: “Os jogadores marroquinos sabem exactamente: perderam um jogo no campo. Receber na secretaria não é orgulho nenhum”, porém o futebolista moçambicano avança que, ainda assim, para a federação o troféu terá peso e ficará registado na história. O antigo internacional alerta também para as consequências mais amplas do caso, tanto na reputação externa como na relação entre países africanos. Na sua perspectiva, a decisão pode reforçar percepções negativas sobre o futebol do continente e até afectar a imagem de Marrocos, que se prepara para organizar o Mundial de 2030: “Penso que a imagem de Marrocos já ficou um bocadinho afectada, pelo menos em África. Este escândalo só vai piorar a sua posição em relação aos outros africanos”, considerou, sublinhando que o desfecho do processo será determinante para avaliar o verdadeiro impacto. Tico Tico chama ainda atenção para o efeito pedagógico de decisões que contrariam o que aconteceu em campo, sobretudo junto das gerações mais jovens. “As pessoas viram um Senegal vencedor. Quando depois aparece uma decisão destas, independentemente das leis, ficam desiludidas. Estas decisões nos escritórios são sempre complicadas”, afirmou, defendendo que a CAF terá agora de apresentar uma explicação clara e convincente para tentar recuperar a confiança: “Espero que a CAF se explique, porque neste momento ninguém acredita.”

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