A segunda edição do festival de cinema português "Olá Paris" teve lugar de 6 a 8 de Março. Um leque de filmes incluindo várias ante estreias, caso de "Sonhar com leões" de Paolo Marinou Blanco. Uma doente em fim de vida acaba por conhecer um jovem, supostamente também em fase terminal, para tentarem conseguir por termo ao seu sofrimento. Um registo cheio de humor de um tema tão sério, misturando um valor muito consagrado do cinema brasileiro, Denise Fraga, com talentos portugueses e também espanhóis. O realizador Paolo Marinou Blanco começa por nos contar como decorreu a projecção neste certame parisiense. Foi super positivo. Realmente a reacção que tivemos não houve assim muitas perguntas. Acho que foi mais a nossa comunidade [de cineastas] que fez perguntas, mas depois, à saída, muitas pessoas claramente conectaram com o filme e foram afectadas pelo filme. Isso é sempre o que se procura. Um filme que vai pegar em coisas muito sérias, que são, por exemplo, a morte, e que ainda por cima acaba por meter Portugal, Espanha, o Brasil numa mesma aventura. Tem muito que ver com a eutanásia e o fim de vida. Qual foi o mote deste projecto? A origem foi uma experiência pessoal de vida que foi dolorosa e da minha família. Portanto, especificamente a morte do meu pai, mas também a crença que temos que abordar as coisas mais difíceis de uma maneira mais original ou inusitada, para que as pessoas ouçam de alguma maneira e para que baixem as defesas, e daí a escolha do humor como abordagem a este tema. O actor João Nunes Monteiro, que já colaborou com os cineastas lusos Miguel Gomes ou João Nunes Pinto, por exemplo, comenta como foi contracenar com a estrela do cinema brasileiro, que é Denise Fraga. Trabalhar com a Denise foi incrível. Não é todos os dias que podemos trabalhar com alguém que tem tanta experiência e que na verdade tem uma grande disponibilidade, porque a Denise basicamente pegou na minha mão e fez com que este trabalho fosse colaborativo. Na verdade, acho que desde nos ensaios. Acho que é uma postura que ela tem, que é muito admirável, que é muito fácil de admirar, porque na verdade é assim uma espécie de luz também para o que pode ser o meu caminho ou um possível caminho, não é? De como agir nas situações de trabalho, que é ter uma atitude muito colaborativa e de querer participar na construção com toda a nossa atenção, com potencializar das ideias, seja do realizador ou realizadora de Com tudo isso. E, portanto, foi um grande privilégio, na verdade, isso. Isso vai ficar marcado e também a humildade dela. Acho que isso é mesmo algo que fica. Não é realmente uma pessoa, nem sempre precisa de ficar segura naquilo que já conquistou, que na verdade é uma sensação muito clara na nossa profissão. Mas com a Denise fica ainda mais presente. O Paolo já fez referência ao facto de ser um drama pessoal que tem que ver com a morte e com a morte do pai. Você aqui trata e de que maneira, também deste tema, morte... Para se projectar e para a sua personagem, perguntar-lhe-ia em que medida é que, de facto, a morte lhe ocupa também a mente ? Parece-me. Estamos aqui num sitio, se calhar um pouco pantanoso, mas vamos a isso ! Eu acho que apesar de tudo, dançar com a idéia da morte, acho que até pode ser algo saudável. Acho que haver este sítio em que em que compreendemos que a morte é uma realidade, pelo menos que eu saiba, inevitável que vai acontecer... Tê -a presente e tê-la presente como uma possibilidade também de direito de ser eu a convocá la. Parece uma coisa saudável. Claro, não estou a fazer nenhum apelo a qualquer ideia suicida, mas saber que o fim, que o tormento, que o sofrimento. Na verdade, se formos a Shakespeare e Hamlet, está lá, também está lá. Nisto não é numa das leituras que se faz do pior. Não é, portanto, dançar com a ideia da morte? Para mim parece me saudável e é uma coisa que eu acho que faço e, portanto, é um tema muito, muito tentador e que na verdade eu acho que se sai quando se pensa na morte, quando se pensa naquilo que é. Eu acho que se sai mais fortalecido na nossa identidade. E como é que foi então? Como é que tem sido o percurso do filme a nível internacional? Já passaram também por outros festivais? Pode dar nos um pouco o eco do que o meu tem estado a ser acolhido? Sim, portanto. Já estreou em Tallin, na Estónia, no final de 2024 e desde então já teve no México, no Brasil, na Alemanha, no Reino Unido, até na Arábia Saudita. Mostraram o filme e a recepção tem sempre sido muito positiva. Sempre. Eu acho que há uma certa catarse. De alguma maneira, as pessoas de serem permitidas, de rir de uma coisa que obviamente assusta-lhes a elas e a nós todos. Portanto, acho que isso tem sido... E ao mesmo tempo serem induzidas a reflectir um pouco, mas de uma maneira não didática ou demasiado pesada. Portanto, acho que a recepção tem normalmente sido essa que é. Obrigado por me fazer pensar sobre isto desta maneira. E também nos cinemas, sobretudo no Brasil, mas também em Portugal. Foi distribuído Portugal, Brasil e Espanha e vai ser distribuído no México ano que vem, acho eu. Mas a recepção tem sido, sobretudo no Brasil, muito positiva. Também um pouco polémica às vezes, mas muito positiva, porque... O hilariante e o emocional acabam por se misturar com alguma frequência. Sim, concordo com essa frase, mas não é por causa disso que tem sido polémico. Os avanços legislativos... Você fazia referência aos avanços legislativos em Portugal, nomeadamente nesta área da eutanásia? Sim, mas em termos... No Brasil foi polémico porque houve, por causa desta questão do suicídio, ou seja, não diferenciar a questão do direito à morte em casos de doença terminal e o suicídio, que são duas questões completamente diferentes. Mas, portanto, no Brasil, às vezes havia um certo overlap dessas questões que tivemos que clarificar e isso causava uma certa polémica. Ao mesmo tempo, eu acho que isto toca em assuntos muito dolorosos e, portanto, mesmo se é através da comédia e há pessoas que aceitam isso e outras que rejeitam um pouco, que é natural, não é sem julgamento. É muito cinema português. Ao longo de dois dias e meio está a conseguir aproveitar também a sua estada cá em Paris para ver outras propostas das quais já ouvira falar, mas se calhar não tinha visto na integra. Exactamente. Exactamente. Tem sido fantástico nesse sentido. Portanto, vi dois filmes portugueses incríveis que estou muito feliz que eu vi e vou agora ver outro logo a seguir ao nosso, que estou muito entusiasmado. Vou ver. Portanto, é uma grande oportunidade. E você, conseguiu ver alguma coisa? Vai ver alguma coisa também? Não, ainda não consegui, mas queria só aproveitar para dizer que eu achava quando o Paolo me fez o convite para fazer o filme quando estávamos a rodar, que o filme ia ter um problema que era quando ele estreasse. Na verdade, a questão da morte medicamente assistida ia ser um projecto que entretanto já ia estar legalizado em Portugal. O que é verdade é que passado três anos isso não acontece. E é uma discussão que está cada vez mais longe e que temos até uma ideia de recuo em relação a isso. Portanto, há temas hoje em dia que parece que estão um bocadinho mais longe do que estavam de serem sequer debatidos no espaço público do que estavam há três anos atrás. Ou seja, as conquistas sociais não são adquiridas e muitas vezes, se calhar pode se recuar em relação a isso. Não são de todo. Podem sim recuar e podemos ver direitos que estavam garantidos, se calhar há 20 anos... Se pensarmos o casamento entre pessoas do mesmo género. O que está a acontecer agora é que mesmo estas pequenas lutas que levaram imenso tempo em Portugal, levaram anos e concordâncias muito difíceis de fazer, mas que se fizeram no Parlamento. Vemos que elas de repente são assim um bocadinho que varridas para debaixo do tapete, Passam. Isso é um bocadinho preocupante porque quero dizer que não é só o problema do recuo. Não é só esse fantasma que é presente, que está presente e que é possível. É também o não avanço. E às vezes ficamos muito assustados com o recuo, não é ? Com uma ideia que é presente de autocracia ou seja o que for, mas não podemos nos contentar com esse, com o recuo não aconteça. E também lutar um bocadinho pelo avanço. Instantâneos da reportagem da RFM no Festival Olá Paris Festival de Cinema Português em torno da antestreia do Sonhar com Leões, um filme de Paulo Marino Blanco com nomeadamente o actor João Nunes Monteiro. Foram eles que nos revelaram um pouco desta sua longa metragem.