RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 6h ago

    'Os Bolsonaro viram moeda de troca de Trump após derrota no Brasil', avalia cientista político

    A cada novo movimento de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, aumenta o desgaste provocado por sua fuga do Brasil. Depois de divulgar uma carta considerada golpista e cancelar uma entrevista coletiva, o senador passou a enfrentar críticas que já atingem setores da própria direita. Para o cientista político Antônio Jorge Ramalho da Rocha, a crise não se limita ao futuro político dos Bolsonaro: ela expõe o fracasso de uma das principais apostas internacionais de Donald Trump na América Latina. Na avaliação do professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB), uma interferência americana capaz de alterar o resultado da eleição brasileira já não está mais em questão. Lula foi reeleito e a disputa foi encerrada nas urnas. O foco agora é outro: a tentativa de Trump de transformar os Bolsonaro em instrumento de pressão permanente sobre o governo brasileiro. Ao analisar a repercussão da fuga de Flávio Bolsonaro, Ramalho nota que o desgaste atingiu inclusive setores da direita que apostavam nele como alternativa para reorganizar a oposição. Entre os decepcionados estão lideranças que esperavam uma postura diferente do senador diante das investigações.  Ramalho cita o caso de Rogério Marinho, líder da oposição no Senado e coordenador-geral da campanha presidencial de Flávio. Segundo o professor, mesmo evitando ataques públicos, dirigentes conservadores demonstram frustração com a decisão do senador de deixar o país. Para Ramalho, o dano político vai além dos círculos partidários. "Gente como Rogério Marinho, por exemplo, procurou não atacar nem nada, mas muito claramente ficou frustrada com a fuga. Esperava um mínimo de coragem e hombridade para honrar os votos que recebeu dos seus eleitores aqui. E muitos desses votantes, muitos desses 60 milhões de brasileiros, hoje estão envergonhados com esse fato. Como é que dedicaram confiança a uma pessoa que se comporta dessa maneira? Trump vai se afastar gradualmente, mas vai manter a pressão, vai manter o apoio à família Bolsonaro. Por quê? O que interessa a ele é manter o Brasil meio que sob um jugo, sob uma vigilância." Segundo o professor, os Bolsonaro continuam úteis à estratégia da Casa Branca, não como uma alternativa real de poder no Brasil, mas como uma ferramenta de pressão diplomática e política sobre o governo Lula. Ele vê a família como uma espécie de ativo político que pode ser mobilizado sempre que interesses americanos estiverem em jogo na relação bilateral. "Há uma frustração do ponto de vista do governo Trump, porque não conseguiu dominar todo o continente com governos subservientes. Então, nessa reorganização política, vai interessar os Bolsonaro, são uma moeda de troca. Apoiá-los e protegê-los é um instrumento de pressão sobre o governo brasileiro." Momento 'extraordinário' Na avaliação de Ramalho, o Brasil produziu um fato político que transcende suas fronteiras: mostrou que uma rede internacional de extrema direita, apoiada por recursos financeiros, tecnologia e estruturas de comunicação altamente organizadas, pode ser derrotada. Não apenas nas urnas, mas também na disputa pela opinião pública. É essa experiência que, segundo ele, desperta interesse em outros países confrontados com desafios semelhantes. "O que aconteceu aqui no Brasil foi extraordinário. As mesmas ferramentas utilizadas pela extrema direita para manipular a opinião pública, para instigar a polarização e criar bolhas foram compreendidas por lideranças políticas brasileiras, que fizeram uso dessas ferramentas para ocupar esses espaços com mensagens progressistas, legalistas, em defesa do Estado de Direito e das liberdades individuais." O Brasil mostrou que é possível disputar esse espaço. Isso não tinha acontecido em nenhum outro lugar. Por isso, essa experiência vem sendo acompanhada com interesse por forças políticas de diferentes países que enfrentam dilemas semelhantes diante do avanço da extrema direita.  "Na Espanha isso já está acontecendo. No México isso está acontecendo. Na Sérvia aconteceu algo parecido. Na Índia aconteceu. Então algo diferente está acontecendo, e o êxito desse movimento aqui no Brasil, da maneira como foi pacífica, está sendo percebido em outras partes do mundo como um exemplo a ser seguido", destaca. Para Ramalho, seria precipitado concluir que o avanço da extrema direita entrou em refluxo. O que existe, na sua avaliação, são sinais de reação em diferentes países, ainda insuficientes para indicar qual dos campos sairá fortalecido nos próximos anos. "A beleza do momento que a gente está vivendo, e ao mesmo tempo o drama associado a ele, é isso: nós estamos vendo a história se desenrolar na nossa frente. E ela não tem um ponto de chegada antecipado. Vai depender do que as pessoas fizerem com essas informações, com esses movimentos e com essas emoções nas próximas semanas", afirma. Para ilustrar essa incerteza, ele recorre a uma comparação histórica. "É como o período que marcou a queda do Muro de Berlim. Todo mundo tinha consciência de que era um momento histórico. As coisas estavam acontecendo, mas ninguém sabia para que lado aquilo ia. É exatamente isso que nós estamos vendo agora." A derrota da família Bolsonaro nesta eleição não deve ser interpretada como o fim da capacidade de influência da extrema direita. Na avaliação de Ramalho, os grupos articulados em torno de Trump seguem dispondo de recursos financeiros, apoio empresarial e instrumentos tecnológicos suficientes para continuar exercendo pressão política em diferentes países, inclusive no Brasil. "Que o governo Trump sai enfraquecido, ninguém tem dúvida. Fracassou em realizar aqui no Brasil as mudanças que conseguiu levar a efeito em outros países. Ele não vai desistir. Esse pessoal não trabalha em silêncio, tem muito dinheiro, tem muito interesse, e vai manter essa pressão." Num cenário em que Lula iniciará o novo mandato diante de um Congresso no qual a oposição mantém forte presença, o professor da UnB acredita que os Bolsonaro continuarão úteis à estratégia republicana, ainda que de forma diferente daquela imaginada por seus apoiadores. Nesta quinta-feira (29), Trump classificou as eleições presidenciais brasileiras como uma "vergonha" e afirmou ter acompanhado o processo, embora tenha negado ter tomado partido. Questionado sobre quem seria o vencedor legítimo da eleição, evitou responder, mas voltou a criticar o resultado e afirmou que os mercados reagiram negativamente. Para Ramalho, a reação de Trump demonstra que os Bolsonaro seguem sendo um ativo político para o trumpismo. Mas, sem o controle de estruturas de poder e sem o mesmo acesso a redes de influência e financiamento no Brasil, o valor estratégico de Flávio e Eduardo Bolsonaro tende a diminuir aos olhos do presidente americano.

  2. 3d ago

    Lula precisará conciliar pautas da direita se quiser reconciliar o Brasil, diz cientista político

    O Brasil viveu uma eleição de todos os recordes: a mais acirrada, a maior abstenção no primeiro turno, seguida pela mais alta taxa de participação em 20 anos no segundo turno, os recursos judiciais ao Tribunal Superior Eleitoral durante a campanha, além da prorrogação inédita da votação por duas horas e a virada sem precedentes de Lula nas urnas. Essa montanha-russa revela o quanto a crise política no país permanece viva – uma fratura que a eleição do petista, por si só, não resolverá. Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo Nos quatro anos que se passaram desde a sua volta ao poder, a reconciliação nacional não foi uma prioridade de Lula. A partir de janeiro, o petista iniciará seu quarto e último mandato, e, durante os próximos quatro anos, também precisará encaminhar um herdeiro político capaz de enfrentar o bolsonarismo nas urnas. Os dois objetivos poderão caminhar juntos. Estrategicamente, o governo de "Lula 4" deveria se aproximar da direita, avalia o cientista político Carlos Alberto de Melo, professor do Insper em São Paulo. “Não sei se podemos esperar, mas devemos esperar, porque, se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional”, afirma o doutor em Ciências Sociais. Confira abaixo os principais trechos da entrevista. Como o senhor qualifica essa dinâmica tão intensa e passional que os brasileiros viveram nos últimos meses, no contexto das eleições? O que se diz aqui é que o roteirista do Brasil é maluco e absolutamente perverso, porque ele é supercriativo, todo dia tem alguma novidade. Normalmente, uma crise é algo aflitivo, só que a gente vai passando por isso há alguns anos. Agora, o que nós temos de verdade é uma crise séria, que a eleição, por si só, não resolve. Nós temos um país dividido socialmente, politicamente, mas também culturalmente. As divergências culturais são muito profundas entre um bloco e outro. É um Brasil que não consegue se ajustar e tem faltado liderança para fazer a interpretação desses dois mundos e tentar unificar esses dois mundos. Esse é um problema sério. E aí nós temos também crises institucionais. O nosso Legislativo há muito tempo não olha mais para o Brasil como um todo. Cada deputado, cada senador, olha para seus interesses paroquiais. Ninguém mais discute o Brasil, o futuro. O Supremo Tribunal Federal, que teve um papel muito importante recentemente por conta da tentativa de golpe, também passou por um desgaste muito grande. Envolveu‑se com relações nem um pouco republicanas e também precisa ser revisto. E o Executivo tem perdido força ao longo dos anos na execução do orçamento e, portanto, força política. Então, nada disso se resolve com eleição. Mas vira-se uma página e tenta-se agora reconstruir processos. Vamos ver se o presidente reeleito terá uma outra postura nesse novo mandato e se estará disposto a fazer isso.  Apesar da vitória bastante expressiva de Lula, com 51,7% dos votos, o antilulismo continua muito forte na sociedade brasileira. Os números mostraram isso ao longo da eleição, nas pesquisas. No discurso da vitória, ele sinalizou a intenção de tentar reconciliar o país, mas isso já não foi possível nesse atual mandato. Você acha que o presidente vai ser capaz de reverter esse quadro? A sua pergunta exige uma resposta objetiva: eu não sei. A primeira questão é como o presidente vai interpretar essa vitória: se ele vai interpretar como uma vitória dele ou se ele vai interpretar como uma vitória do antibolsonarismo que foi às ruas por medo em relação à família Bolsonaro, foi às ruas em defesa da democracia. Não foram só os petistas que foram às ruas. Foi muito maior do que o PT. Foi muito maior do que o lulismo. Eu estou há mais de 40 anos envolvido com essas coisas todas e eu nunca vi um movimento tão orgânico. Foi independente de partidos e de lideranças políticas. As pessoas simplesmente foram às ruas e tomaram as redes sociais. Se o presidente perceber que esse vigor social é maior do que ele, maior do que o partido dele, talvez ele comece a orientar o seu governo para um diálogo social mais amplo. Primeiro, nesse campo democrático, mas também é necessário compreender que o senador Flávio Bolsonaro teve 59 milhões de votos. Lula não pode simplesmente desqualificar esses eleitores. É necessário puxá-los, trazê-los para o campo da democracia e para o diálogo da construção de um projeto nacional, político e social.  Pode-se esperar um governo Lula mais à direita, talvez o mais à direita já visto até hoje, seja pela questão da segurança, que impulsiona muito o voto no bolsonarismo, mas também na economia, que tem arrastado as elites econômicas para a direita há vários anos no Brasil? Eu acho que devemos esperar isso, mas não sei se podemos esperar. Devemos esperar porque me parece que se não for dessa forma, o presidente vai ter muita dificuldade em governar. Se o presidente se limitar a um campo ideológico, se limitar aos seus próximos, ele não vai dialogar com a sociedade e não vai dialogar com o Congresso Nacional. No Senado, me parece que a maioria está perdida, porque a oposição fez muitas cadeiras. Mas na Câmara dos Deputados é possível você construir maioria com o que se chama de "Centrão". É um grupo fisiológico. Haverá uma barganha? Sim, do ponto de vista de recursos públicos, mas talvez ela seja inevitável se ela trouxer junto um alinhamento político para ter governabilidade e pensar o futuro. Talvez seja o preço a se pagar.  Em relação ao futuro do bolsonarismo, o não reconhecimento imediato da vitória de Lula por Flávio Bolsonaro, mas também por Donald Trump, antecipa tempos conturbados pela frente? Um 8 de janeiro poderia se repetir? Eu acho que o 8 de janeiro vai ser muito mais difícil, porque ele foi gerado ao longo do tempo no governo Bolsonaro. O 8 de janeiro não foi uma rebelião espontânea. Ele foi construído, porque Bolsonaro estava no governo e tinha recursos para fazer essa construção. Os acampamentos na frente dos quartéis contaram com a tolerância dos comandantes militares. Não haverá mais isso agora. Não digo que os militares vão colocar para correr quem ficar na frente dos quartéis, mas não serão receptivos, o que já é uma diferença muito grande.  O clima relativamente pacífico que se verificou após o pleito é resultado da resposta das instituições democráticas do Brasil após a tentativa de golpe? Exatamente. O controle exercido pelo Estado, as instituições do Estado, a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República, as Forças Armadas, o Judiciário, com todos os problemas, parecem indicar pelo menos um alinhamento em relação à democracia.  Com relação ao Donald Trump, nós vamos precisar esperar uma semana para ver qual é o resultado da eleição americana. Eu tenho brincado que a eleição de meio de mandato nos Estados Unidos é o nosso terceiro turno da eleição brasileira, porque o alinhamento da extrema direita brasileira é muito grande com a extrema direita americana, que hoje está completamente sem freios, porque tem maioria na Câmara, tem maioria no Senado e influência decisiva sobre a Suprema Corte. Se Donald Trump perde a maioria no Congresso, o sistema de freios e contrapesos nos Estados Unidos volta a funcionar, e logo esse tipo de disposição em relação aos outros países, de intervenção, pode ser contido. Isso pode ser muito importante para o Brasil também. Sobre o Flávio, a gente viu o candidato chegar ao apogeu ao vencer o primeiro turno – após ter a candidatura contestada internamente, no começo da campanha – e conseguir virar o favorito para o segundo. Alguns analistas têm avaliado que a derrota dele na eleição poderá ser uma derrota pessoal sua como sucessor do bolsonarismo. Qual a sua opinião? Houve, no primeiro turno, uma certa soberba da parte do presidente Lula, que acreditava que ganharia a eleição fácil, e não foi assim. Ele poderia ter perdido no primeiro turno. Não mobilizou, não foi às ruas, e há toda uma crítica a ser feita à disposição pessoal do presidente e à política do Partido dos Trabalhadores em relação à eleição. No segundo turno, parece que isso virou, mudou de lado. O senador Bolsonaro, quando venceu o primeiro turno, ele já saiu falando como presidente da República e cometeu alguns erros primários. Ele já fala da composição do governo, da sua pretensão de mudar a Constituição. Ao mesmo tempo que ele vai criando um sentimento de soberba – aqui no Brasil nós temos uma expressão que é "colocar a mão na taça” –, também vai despertando temores. Mudar a Constituição para quê? Para onde? A porta-voz econômica do candidato também desatou a falar demais, de uma forma arrogante, em que ela simplesmente falava que iria cortar gastos, de uma forma que despertou medo em setores sociais que precisam do governo.  A candidatura de Flávio acabou assustando os eleitores? Assustou. O Brasil precisa de ajustes, e é evidente que precisa de um ajuste fiscal. Mas a questão é: quem vai pagar esse ajuste? Serão os mais necessitados ou nós faremos um grande acordo, uma concertação política para chegar nesse ajuste, com um diálogo mais amplo? O temor que se estabeleceu é que se impusesse de cima para baixo um grande corte de recursos que afetasse uma população pobre, que no Brasil é a maioria. Não é fácil você adotar um receituário ultraliberal num país que tem muitas necessidades, um país muito carente como o Brasil. É fácil você falar desse receituário em democracias desenvolvidas, em economias muit

  3. 4d ago

    Vitória de Lula é 'divisor de águas' para América Latina e recado das urnas extrapola partidarismos

    A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva pode representar um divisor de águas para a América Latina, avalia o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics. Em entrevista à RFI, ele destaca a mobilização espontânea da sociedade em defesa da democracia, mas alerta para um Congresso conservador, pressões econômicas e desafios na relação com os Estados Unidos. Segundo ele, o resultado estimula forças progressistas no exterior, embora não permita uma tradução eleitoral automática. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representa, na avaliação do cientista político Gaspard Estrada, um momento de inflexão para a região, em um cenário marcado pelo avanço de forças conservadoras e de extrema direita. Especialista em América Latina e integrante da unidade Sul Global da London School of Economics, ele considera que o resultado brasileiro ultrapassa a disputa eleitoral e recoloca no centro do debate a defesa do multilateralismo, dos direitos humanos e da agenda ambiental. “Em primeiro lugar, essa vitória do presidente Lula vai ser realmente um divisor de águas para a América Latina e a América do Sul, que estava com uma tendência para a direita ou até extrema direita, dependendo dos países, e é evidente que ter um governo brasileiro que é membro do G20, que é um dos principais países, principais economias mundiais, muito vinculado à defesa do multilateralismo, dos direitos humanos, da agenda ambiental, e isso vai ter um peso muito importante no quadro internacional”, avalia. Para Estrada, a mobilização da sociedade brasileira durante o segundo turno constitui um dos principais elementos para compreender o resultado. O cientista político ressalta que a participação nas ruas e nas redes sociais não se limitou à estrutura partidária ou à atuação da campanha de Lula, mas expressou uma disposição de setores da sociedade de impedir o retorno da extrema direita ao poder. Leia tambémLula reverte tendência e vence eleições para um quarto mandato de presidente “É evidente que é difícil de poder fazer uma tradução eleitoral do que aconteceu no Brasil e em outros países, em particular da Europa. Mas é claro que isso é um incentivo e essa eleição dá um discurso para lideranças políticas progressistas de apelar aos cidadãos e, sobretudo, para que a sociedade civil se organize", analisa. "Eu acho que a lição fundamental desse segundo turno é que muitas das mobilizações nas ruas e nas redes em favor do presidente Lula foram movimentos espontâneos, orgânicos, que não dependiam da própria campanha, mas sim de uma vontade genuína da sociedade de evitar a volta da extrema-direita ao poder", reitera Estrada. A mobilização digital também teve papel importante na reta final da campanha. Estrada destaca a atuação do deputado André Janones, responsável por uma iniciativa de comunicação que ampliou a circulação de informações favoráveis à candidatura petista. Para o entrevistado, a experiência evidenciou uma mudança na capacidade de articulação política da esquerda brasileira. “Sem dúvida, a criação desse canal de WhatsApp, que chegou a mais de 10 milhões de seguidores, teve um papel muito importante na disseminação, no compartilhamento de informações. E isso tem a ver com o fato de que a esquerda brasileira, até há poucos meses, semanas atrás, não tinha essa capacidade de se comunicar digitalmente com a sociedade. Tanto assim que no seu discurso de vitória ontem Lula falou que no seu quarto mandato ele dará uma importância muito grande à comunicação digital”, pontua. Governabilidade A vitória eleitoral, contudo, não elimina os obstáculos que Lula terá de enfrentar para governar. Estrada avalia que a composição do Congresso será um dos principais desafios do próximo mandato, com o Partido Liberal ocupando a maior bancada e o bolsonarismo mantendo força política. O avanço da direita, segundo ele, ocorreu sobretudo sobre o centrão, enquanto a esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, manteve resultados próximos aos da legislatura anterior. “Vai ser um cenário desafiador para o presidente Lula, no sentido de que na Câmara dos Deputados e no Senado o Partido Liberal terá a primeira bancada. Então, é evidente que há uma recomposição das forças políticas. No Brasil, há um bolsonarismo na extrema direita que está muito forte, será muito atuante no Congresso e, paradoxalmente, o avanço da extrema direita se deu sobre o centrão, porque, na verdade, se você acompanha os números dos resultados das eleições, à esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores, ficou mais ou menos no mesmo nível que na legislatura passada”, diz Estrada. O cientista político prevê uma atuação mais confrontadora dos setores bolsonaristas no Legislativo, com tentativas de revanche política e pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. A disputa institucional, afirma, deverá se intensificar a partir da próxima legislatura. “Na verdade, o que a gente verá na próxima legislatura é um Congresso onde as posições políticas serão muito mais afirmadas. Haverá, eu acho, um desejo de revanche eleitoral dos bolsonaristas, com, sem dúvida, pedidos de impeachment a ministros do STF.” Antes da posse, em janeiro, a economia deverá concentrar as preocupações do governo. Estrada aponta a expectativa de reação do mercado financeiro, que havia apostado na vitória de Flávio Bolsonaro, e prevê pressão sobre Lula para apresentar medidas de contenção de gastos. Leia tambémTrump mantém silêncio após vitória de Lula e derrota do aliado Flávio Bolsonaro “Os agentes econômicos, em particular o mercado financeiro, apostaram muito na vitória do Flávio Bolsonaro. Então é de se prever que nesses próximos dias, ocorra uma queda da bolsa, um aumento da cotação do dólar e uma pressão forte dos agentes econômicos sobre o governo para que ele apresente medidas de redução de contenção de gastos”, aponta. Na avaliação do entrevistado, a condução da economia será o principal desafio imediato, enquanto a relação com o Congresso e o Judiciário deverá dominar a agenda política a partir do início do próximo mandato. França e União Europeia A eleição brasileira também pode abrir espaço para uma relação mais estratégica com a França e os demais países europeus. Estrada considera que a parceria histórica entre Brasil e França poderia ter avançado mais, caso não houvesse resistência francesa ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. “Esse acordo já entrou em vigor, então é de se esperar que esta eleição do Lula contribua para que ele tenha ainda mais força, mais vigor, e que isso permita que a relação se torne realmente estratégica, não só bilateralmente com a França, mas com os outros países da União Europeia”, diz Estrada. A façanha de Lula também pode oferecer argumentos a lideranças progressistas europeias, embora Estrada ressalte que as disputas eleitorais são determinadas sobretudo por questões nacionais. No caso francês, ele não considera que a eleição brasileira tenha capacidade de influenciar diretamente os candidatos. O impacto, portanto, não estaria na reprodução direta do resultado brasileiro, mas na possibilidade de que a mobilização social observada no país inspire movimentos semelhantes em outras democracias. “O assunto principal, eu acho que é o principal ensinamento da eleição brasileira foi a mobilização da sociedade. É justamente para defender seus direitos, defender a democracia, defender uma série de valores. Que estão ligados à Constituição de 1988, e evidente que no momento onde na Europa há um questionamento também a esses valores cardeais das democracias liberais, é evidente que nós não podemos descartar que um processo semelhante possa vir a acontecer.” Relação com os Estados Unidos A relação bilateral com os Estados Unidos deverá continuar marcada pela dimensão econômica, apesar das tensões provocadas pelas tarifas e pelas sanções mencionadas durante a entrevista. Estrada considera que a interdependência comercial entre os dois países torna improvável uma ruptura. “O que vem por aí, eu acho que haverá uma manutenção da relação bilateral, inclusive porque há uma parceria econômica que é muito grande, já seja em termos de importação pelos Estados Unidos, de laranja, açúcar, carne, mas também produtos tecnológicos, aviões, aço.” Para o cientista político, a vitória de Lula pode ampliar a margem de negociação brasileira, sobretudo diante de uma eventual fragilização política do presidente norte-americano, Donald Trump, após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. “Com essa vitória, o presidente Lula vai estar numa posição de força e que possivelmente o Trump vai estar numa situação de maior fraqueza, por causa de uma eventual derrota dele nas eleições de meio de mandato [previstas para 3 de novembro]. E se isso se confirmar, vai dar mais ímpeto à posição brasileira e poderia dar sequência a um relacionamento um pouco mais equilibrado, mesmo se a personalidade do presidente Donald Trump nos conduz a ser muito prudentes sobre qual serão as posições do governo norte-americano.” Uma vitória em defesa da democracia Ao analisar o significado político da eleição, Estrada rejeita a interpretação de que o resultado tenha sido apenas uma vitória de um projeto partidário. Para ele, a disputa foi marcada sobretudo pela defesa da democracia, do Estado de direito e da Constituição de 1988. “Eu acho que foi uma luta a favor da democracia e do Estado do direito e a defesa da Constituição. E evidente que os valores do bolsonarismo são contrários a isso, inclusive porque o próprio Bolsonaro e a família Bolsonaro tem se po

  4. Oct 23

    Nikolas e Pavanato impulsionam votos na extrema direita, mas desinteresse de jovens por eleição aumenta

    Fenômenos da internet, os deputados federais mais votados da história do Brasil, o mineiro Nikolas Ferreira e o paulista Lucas Pavanato, simbolizam a adesão sem complexos de uma parcela da juventude à extrema direita, das periferias aos bairros nobres. Os dois se tornaram verdadeiras máquinas de atrair votos no Partido Liberal e impulsionam a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. No entanto, ao mesmo tempo, o interesse dos jovens pelo voto está em queda – um fenômeno que a radicalização política ajuda a explicar. Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Belo Horizonte A faixa de eleitores de 16 a 24 anos representou 14,9 milhões de eleitores nas urnas no primeiro turno, 12% a menos do que na última eleição, em 2022. A diminuição na faixa de 16 a 18 anos, quando o voto é facultativo, é ainda maior: os registros de títulos de eleitor nesta idade caíram 23%, passando de 2,1 milhões para 1,6 milhão, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Vendedor de doces no Mercado Central de Belo Horizonte, Eduardo, de 22 anos, votou pela primeira vez ao fazer 18 anos, mas agora decidiu não participar do pleito. “Vi os dois lados no governo e os dois foram ruins. Proposta que é bom, não tem, então vou passar bem longe do segundo turno”, disse ele à RFI. “Os políticos ficam só brigando e enquanto isso as pessoas morrem nas filas dos hospitais, os preços estão os olhos da cara. Não acho que nenhum deles [Flávio Bolsonaro e Lula] vá mudar alguma coisa.” A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta a polarização política dos últimos anos como uma das razões para explicar o aumento do desinteresse de uma parte desses eleitores.  “Eu não acredito que seja uma questão geral, de os jovens estarem menos engajados na política. Mas as dinâmicas que acentuam os componentes ideológicos de determinados segmentos acabam afastando aqueles que não desejam demarcar suas posições. Passa a ser um campo relativamente minado”, analisa. Esquerda perde espaço  Com uma diferença de mais de 2,5 milhões de votos de vantagem do candidato do PL sobre o petista no primeiro turno, os jovens são uma prioridade da campanha de Lula, candidato à reeleição. Historicamente, os mais novos tendem a votar à esquerda, mas a emergência de influenciadores digitais ultraconservadores balança este cenário.  Filho de um pastor evangélico da periferia de Belo Horizonte e formado em Direito, Nikolas Ferreira, 30 anos, ganhou projeção nacional pelas redes sociais com críticas ao PT e a defesa de pautas conservadoras, como o combate ao aborto e as políticas de gênero. Seus vídeos, com linguagem acessível e tom de ironia, são vistos por milhões de pessoas em todo o país. Agora, apenas seis anos depois de entrar na política, ele teve mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal e se consolidou como uma liderança do bolsonarismo. A ascensão e o discurso de Nikolas seduzem jovens como o gerente de uma banca de complementos alimentares João Lanza, 23 anos. Ele evoca a situação econômica do país e os valores religiosos como as razões para escolher Flávio presidente. "O povo brasileiro precisa voltar a sonhar, adquirir, melhorar o poder de compra. Eu e minha família valorizamos a família e os princípios da Bíblia”, explicou. “O brasileiro cansou desse discurso assistencialista, populista. O brasileiro quer o concreto.”  Liberalismo, segurança pública e gênero O deputado federal Lucas Pavanato, que superou o recorde de votos de Eduardo Bolsonaro em São Paulo, prega o liberalismo econômico, políticas duras de segurança e tem nas questões de gênero uma de suas prioridades. Ele declarou sobre as pessoas trans: "não suporto essa farsa, um homem é um homem e uma mulher é uma mulher”. Somadas, as votações de Nikolas e Pavanato puxaram a eleição de mais 15 deputados do PL para o Congresso. Outra expoente do partido em São Paulo, a eleita deputada estadual Eduarda Campopiano diz ser "a maior inimiga das feministas”. Católica praticante, a jovem de apenas 23 anos ganhou a confiança de mais de 2 milhões de eleitores. "Há indicadores de radicalização ideológica principalmente no caso dos jovens do sexo masculino. Eles têm sido muito capturados em redes de misoginia, que muitas vezes flertam com atitudes que são criminosas”, salienta Mayra Goulart.  “Já as meninas passam por um processo de maior percepção da importância dos compromissos com dinâmicas progressistas e são menos afeitas a discursos de defesa da moralidade tradicional da família tradicional, porque observam nesses valores e ideais algo muito ruim para as suas trajetórias profissionais e afetivas”, pondera a cientista política. Em Minas Gerais, a deputada estadual petista recém-eleita Ana Elisa, de 21 anos, reflete essa dinâmica: preta, ela rompe com o destaque de políticos influenciadores principalmente de direita e se tornou uma referência de como o PT pode reagir à força dos ultraconservadores na esfera digital. "Eu acho que há uma certa dificuldade de observar o quão popular é o discurso da extrema direita e como ele é capaz de capturar diferentes grupos que não se reconhecem como marginalizados”, aponta Goulart.  Renan Santos, voto jovem de rejeição Neste contexto, também chama a atenção a projeção que um nome de fora da divisão PL-PT registra particularmente nesta faixa etária. O candidato Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato pelo partido Missão no primeiro turno, tinha o dobro de intenções de voto dos opositores entre o eleitorado jovem, conforme indicaram pesquisas da Quaest e do Datafolha. No segundo turno, seus eleitores são cortejados pelos dois finalistas, mas Santos afirmou que não apoiará nem Flávio, nem Lula. Ele defendeu que seus mais de 2,6 milhões de eleitores (2,24% dos votos válidos) “façam o que quiserem” no próximo domingo. Para Henrique Amaral Rodrigues, que aos 18 anos participa de sua segunda eleição e sonha em ser policial, a escolha vai ser pelo petista – não por adesão ao candidato, mas por rejeição a Flávio. “Eu gostei muito do Renan Santos, das propostas dele e do jeito dele de fazer campanha política. Mas no segundo turno, estou indo mais contra o Flávio”, indicou. "Nem sou a favor do Lula, mas não admito que o Flávio seja o nosso presidente, principalmente pelas posições dele contra as minorias. O Lula é o único que se conecta com essas pessoas.”  Para ouvir a entrevista com a cientista política Mayra Goulart, clique em "ouvir", no topo.

  5. Oct 23

    Na França, Fabiana Cozza faz do samba pensamento, memória e celebração

    Em nova turnê na Europa, Fabiana Cozza se apresenta em Paris com repertório que percorre clássicos do samba brasileiro, do samba de roda baiano à obra de compositores como Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Moreira, Ney Lopes e Clementina de Jesus. Uma das principais vozes do samba contemporâneo, a cantora, pesquisadora e escritora celebra os 50 anos de vida em um momento de especial realização pessoal: a conclusão do doutorado em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A celebração começou no último dia 10, com uma roda de samba no Studio de l'Ermitage, produzida por Regina Del Papa. Cercada por músicos brasileiros e franceses, entre eles o baixista Gerson Saeki, Fabiana reencontrou em Paris o ambiente festivo e coletivo que considera fundamental para compreender o samba para além do espetáculo. Para ela, a roda de samba é "esse lugar de celebração, de festa", mas também o espaço que a "forjou como artista" e como pensadora. A artista segue aprofundando a proposta que orienta esta temporada europeia: apresentar o samba não apenas como gênero musical, mas como expressão cultural, histórica e filosófica. Fabiana observa que o samba continua sendo frequentemente reduzido, fora do Brasil, à imagem do Carnaval. Sua proposta é ampliar esse olhar, apresentando-o como um espaço de memória, sociabilidade, ancestralidade e produção de conhecimento. "Eu tenho o samba como uma estrutura de pensamento, de relação, de sociabilidade, de história, de ancestralidade, de espiritualidade, onde a gente, através da música, faz com que ele aconteça", afirma. Na conversa com a RFI, a cantora explica que procura compartilhar essa dimensão com o público europeu, contextualizando as obras e os artistas que interpreta. Ao revisitar compositores como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ney Lopes e Clementina de Jesus, ela busca mostrar o samba como uma tradição viva, capaz de transmitir valores, histórias, formas de compreender o mundo e a sociedade brasileira. Essa reflexão atravessa também seus trabalhos mais recentes. Nos últimos dois anos, Fabiana lançou singles como Motumbá, Oloie de Ogum, Choro das Águas e Macumbeira, nos quais reafirma a importância das tradições afro-brasileiras e da liberdade religiosa. Ligada ao candomblé, a cantora afirma que se sente comprometida com o combate à intolerância religiosa e com a divulgação de conhecimentos sobre os orixás e as culturas de matriz africana, sem abrir mão do respeito às diferentes crenças. Pela pacificação inter-religiosa Sua defesa dessas tradições vem acompanhada de uma mensagem de convivência. Fabiana diz ser uma pessoa "muito respeitosa com a fé das pessoas e também com aqueles que não a professam" e rejeita qualquer tentativa de impor convicções religiosas. O objetivo, afirma, é contribuir para "a construção de um mundo onde as pessoas possam professar a sua fé amplamente". O momento de celebração coincide, porém, com uma fase de inquietação em relação ao Brasil. Embora descreva a turnê como uma festa pelos 50 anos e pela conclusão do doutorado, Fabiana admite acompanhar com preocupação a conjuntura política do país. Na sua visão, o samba mantém uma vocação histórica para a resistência, a denúncia e a construção de laços comunitários. "O samba é e sempre foi essa arte da palavra, da poesia, da resistência, da denúncia e da festa como potência revolucionária", resume. Comunidades do samba de São Paulo Aos 50 anos, a artista também prepara novos projetos. Ela tem selecionado títulos para dois novos álbuns. Um deles será dedicado a compositores ainda pouco gravados das tradicionais comunidades de samba paulistas, como o Berço do Samba de São Mateus, na zona leste, o Pagode da 27, no Grajaú, e a Comunidade Samba da Vela, ambos na zona sul. Outro, concebido ao lado do baixista Fi Maróstica, pretende retomar o diálogo com a diáspora negra, tema recorrente em sua trajetória artística. A turnê europeia prossegue neste domingo, 25 de outubro, com uma nova roda de samba no Studio de l'Ermitage, em Paris, espaço que se consolidou como um dos principais palcos da música brasileira na capital francesa. Depois, seguem duas apresentações mais intimistas nos dias 30 e 31 de outubro, na sala L'Accord Parfait, acompanhada pelo pianista franco-brasileiro Philippe Powell. Filho do violonista Baden Powell, Philippe é um dos nomes de destaque da cena jazzística contemporânea, transitando entre o jazz, a música brasileira e os ritmos afro-brasileiros.

  6. Oct 21

    Nonato Lima aproxima a sanfona nordestina da tradição europeia do acordeão

    Depois de encerrar uma turnê europeia de 17 apresentações, o acordeonista cearense Nonato Lima faz um balanço de sua trajetória internacional e de sua missão de divulgar a música brasileira além das fronteiras. Entre os momentos mais marcantes está a amizade construída com o francês Richard Galliano, referência mundial do acordeão e um dos músicos que mais influenciaram sua formação artística. Filho de sanfoneiro, Nonato Lima começou a tocar aos sete anos de idade e passou a se apresentar profissionalmente ao lado do pai ainda na infância. O que começou como uma brincadeira logo se transformou em profissão. "A sanfona virou amor à primeira vista. Nunca mais me separei dela. Ela já é um pedaço de mim", afirma. Ao longo da carreira, o músico construiu um percurso que o levou a dividir palcos e estúdios com nomes como Dominguinhos, Fagner, Ivete Sangalo, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. A versatilidade que lhe permite transitar entre o forró, a música instrumental brasileira, o jazz e o repertório erudito tornou-se uma de suas marcas. Essa abertura musical também explica a admiração antiga pelo acordeonista francês Richard Galliano. Nonato conta que descobriu sua obra aos 14 anos, por indicação do sanfoneiro cearense Zé do Norte. Fascinado pela sonoridade do músico francês, passou a estudar sua discografia e a incorporar referências de sua linguagem. Parceria com Richard Galliano Referência internacional do acordeão, Richard Galliano construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre o jazz, a música clássica e a tradição musical dos bailes populares franceses, conhecida como "musette". Incentivado por Astor Piazzolla, criou nos anos 1980 o movimento "New Musette", que modernizou esse repertório ao incorporar influências contemporâneas. "Ele tem uma forma moderna do jeito francês de tocar. Isso me chamou muita atenção", lembra Nonato. A admiração de fã acabou evoluindo para uma amizade. Depois de anos acompanhando o trabalho do francês, os dois passaram a se comunicar pelas redes sociais, encontraram-se pessoalmente e chegaram a dividir o palco. Recentemente, também gravaram juntos a música "Fou Rire". O primeiro encontro superou as expectativas do músico cearense. Além da emoção de finalmente conhecer uma de suas maiores referências artísticas, Nonato conta ter sido surpreendido pela acolhida do acordeonista francês. "Você estar ao lado de mestres que sempre admirou é uma alegria sem fim. Foi a mesma emoção que senti quando toquei a primeira vez com Dominguinhos", afirma. Segundo ele, além do virtuosismo musical, Galliano o impressionou pela simplicidade e generosidade. "Ele me tratou como um filho." Um instrumento sem fronteiras A convivência com músicos de diferentes países reforçou uma percepção que Nonato leva para os seus espetáculos: embora a sanfona seja associada no Brasil ao forró e à cultura nordestina, o acordeão é um instrumento profundamente enraizado em tradições musicais espalhadas pelo mundo. "Em cada país existe uma linguagem própria para o acordeão. Na França, ele tem uma história muito ligada à música popular e também à música erudita. Quando apresento a música brasileira, as pessoas muitas vezes se surpreendem com as possibilidades do instrumento", explica. Durante a turnê, Nonato alternou apresentações, workshops e encontros com músicos locais. Em muitas cidades, foi recebido por brasileiros que acompanham sua carreira há anos e por europeus interessados em descobrir os ritmos do Nordeste. Um sinal, segundo ele, de que a sanfona continua encontrando novos caminhos muito além de sua terra de origem.

  7. Oct 20

    Eleições no Brasil: como algoritmos e direitas globais ajudam a explicar a polarização

    A poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, o Brasil chega às urnas em um ambiente de forte polarização política e de disputa intensa nas redes sociais. Para o historiador Rodrigo Nabuco de Araujo, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, o cenário atual é resultado de transformações profundas ocorridas na última década. A ascensão das direitas globais, a politização de uma geração formada nas mobilizações de 2013 e o papel crescente dos algoritmos na circulação da informação ajudam a explicar, segundo Rodrigo Nabuco de Araujo, a forte polarização que marca a política brasileira. Historiador e professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, especialista em história das direitas e da vida política brasileira contemporânea, ele analisa nesta entrevista as transformações que remodelaram o debate público e contribuíram para aprofundar as divisões do eleitorado. RFI: O bolsonarismo de hoje está inserido em uma rede internacional de direitas? Rodrigo Nabuco de Araujo: Sim, eu diria que com certeza o bolsonarismo de hoje está ligado a uma direita internacionalizada. Essa corrente está vinculada aos meios de produção, mas também aos meios de difusão e comunicação. Existem relações pessoais entre Bolsonaro e Trump, relações regionais entre candidatos brasileiros e Javier Milei, na Argentina, e várias outras conexões, inclusive com países europeus. É uma direita muito integrada internacionalmente. Há projetos compartilhados, ideais compartilhados, de liberalização da economia por um lado e conservadorismo em pautas morais e sociais por outro. É uma direita que troca ideias, participa de congressos, debates e discussões. Os meios de comunicação são um elemento central, porque favorecem essa rapidez das trocas e a presença desses grupos em diversos países. Mas a campanha não é a mesma. Entre o bolsonarismo de 2026 e o de 2018, o que evoluiu nesse movimento? Talvez o principal elemento atual seja a ausência do componente militar. Jair Bolsonaro tinha uma forte nostalgia da ditadura militar e utilizava isso como argumento político. Flávio Bolsonaro não tem essa nostalgia, pelo menos não a instrumentaliza da mesma forma. O público também está mudando. A Michelle Bolsonaro permitiu ao bolsonarismo estabelecer um diálogo com o eleitorado feminino, o que não acontecia com Jair Bolsonaro, que enfrentava uma rejeição muito maior entre as mulheres. Há também elementos de continuidade, principalmente no voto evangélico. Silas Malafaia, que já estava presente na campanha de Jair Bolsonaro, continua sendo uma referência importante, assim como outros pastores. Mas eu diria que Flávio Bolsonaro está se mostrando mais preparado do que o pai para enfrentar esta eleição. Isso já pode ser percebido em um discurso mais afiado e mais afinado. Agora, o projeto de fundo é o mesmo: reduzir o tamanho do Estado, diminuir a independência entre os três poderes, ou seja, reverter parte das conquistas da redemocratização e da Constituição de 1988? Sim, esse projeto não muda. Inclusive, o Flávio Bolsonaro fez uma declaração, alguns dias depois do primeiro turno, dizendo que uma das primeiras medidas que vai tomar será mudar a Constituição. Então ele tem esse projeto. Para reduzir direitos e diminuir liberdades? Isso. Acho que essa palavra, liberdade, tem várias interpretações. Quando falamos em reduzir liberdades, estamos falando de determinadas liberdades. Não da liberdade de empreendedorismo ou da liberdade econômica, mas de uma liberdade política, de uma liberdade social. É uma outra concepção de liberdade. Digamos que o Flávio Bolsonaro seria um libertário conservador, que defende realmente uma redução drástica da participação do Estado. O presidente Lula perdeu parte do eleitorado jovem que o apoiou em eleições anteriores para esse discurso de Flávio Bolsonaro. O que mudou nessa nova geração de eleitores em comparação com as gerações anteriores, especialmente as que chegaram à vida adulta antes dos anos 2000? Há uma grande mudança no eleitorado jovem. Eu diria que o principal fator é uma relação muito mais distante com o Estado. Talvez isso esteja ligado à própria profissionalização dessa geração. São profissões mais digitalizadas, menos próximas do que seria o funcionalismo público. Não existe mais aquele ideal dos anos 1970 e 1980 de se tornar funcionário público. Hoje em dia, o ideal é ser o seu próprio empreendedor, ser o seu próprio patrão. Ou seja, não ter relações empregatícias. Isso representa uma mudança muito grande. E, eleitoralmente, tem impacto sobre a recepção das propostas do governo Lula, que são mais voltadas para grupos que têm vínculo empregatício e relações com o Estado. Assim, são jovens que tendem a buscar candidatos mais liberais, que defendem a liberalização da economia. Eles veem essas políticas sociais como políticas que desviam recursos, que poderiam ser usados para outras finalidades e não para ajudar grupos e classes sociais com os quais não se identificam. Por isso, eles não têm essa identificação com as políticas do governo nem com os projetos do governo. Como o eleitorado está muito dividido, com algo em torno de 52% a 48%, independentemente de quem vença o segundo turno, podemos dizer que hoje existem dois Brasis dentro do Brasil? Até muitos Brasis. Há divisões geracionais, territoriais, entre homens e mulheres. O eleitorado está muito dividido, muito polarizado. O Brasil está muito polarizado. Foi dito muitas vezes que o eleitor do Lula é mais velho do que o eleitor do Flávio Bolsonaro, porque tem uma identificação com o Lula e com a Constituição de 1988 que é diferente da identificação dos mais jovens. Há também um grau diferente de politização e de identificação de valores? De identificação de valores, sim. Agora, de politização, de certa forma também, mas os jovens estão politizados. Há uma forma de politização característica do período iniciado em 2013, com as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte, que depois deram lugar a movimentos como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua. Esses movimentos se desenvolveram fortemente na internet e nas redes sociais. Essa geração teve seu primeiro contato com a política nesse momento, nas mobilizações que culminaram nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. É uma forma de politização, mas uma forma de politização à direita. Talvez essa geração mais jovem tenha tido um contato maior com esse tipo de politização. Há também outro elemento: ela entra em contato com a política de maneira muito mais autônoma por meio das redes sociais e, muitas vezes, se radicaliza sem a mediação de um partido político, de um professor ou de alguém que possa explicar determinadas questões e promover uma forma de socialização política. São jovens que têm menos espaços de socialização, outras experiências e outras ambições. Isso contribui para a divisão geracional e também para as divisões territoriais observadas no Brasil. Você está descrevendo uma mudança profunda, porque novas gerações continuarão crescendo nesse mesmo ambiente. Na verdade, é uma mudança que não tem volta. Vivemos em um mundo totalmente digitalizado e não há como retornar ao mundo anterior. Mas os algoritmos têm influência nesse processo? Totalmente. Nos últimos dias, houve denúncias de favorecimento algorítmico por parte da Meta, a ponto de o Tribunal Superior Eleitoral intervir a favor da campanha do Partido dos Trabalhadores. Quais podem ser os impactos desse fenômeno no longo prazo? Não sei quem vai ganhar esta eleição, mas há uma questão importante para o futuro. O Lula está aí para disputar esta eleição, mas daqui a quatro anos não estará necessariamente no mesmo cenário. Portanto, se coloca desde já a questão da renovação da liderança política. Quanto aos algoritmos, eles são muito importantes. Você tem uma plataforma como a Meta favorecendo determinados conteúdos que chegam com mais facilidade a públicos próximos do Flávio Bolsonaro. Isso é determinante no acesso à informação e na maneira como essa informação circula. Existe uma interferência de uma empresa privada na esfera da comunicação, e isso tem impacto direto sobre uma eleição. Houve também, por exemplo, o caso do canal Exército do Lula, que ficou impedido de operar por ordem do TSE durante um período e depois teve sua situação revertida. Agora, falar em ingerência dos Estados Unidos por meio da Meta talvez seja mais delicado, porque a Meta é uma empresa privada e age segundo os seus próprios interesses, que são interesses conservadores. Mark Zuckerberg estava próximo de Donald Trump e tem esse viés conservador, que acaba sendo veiculado também por meio dos algoritmos. Os algoritmos são um instrumento de direcionamento da informação. Talvez a palavra "manipulação" seja forte, mas eles funcionam como um mecanismo de filtro e moderação. É um instrumento que acaba tendo um viés político negativo para o governo Lula e para a candidatura de Lula. E também para o eleitorado, porque ele passa a receber apenas parte das informações disponíveis. Exatamente. O filtro impede que determinadas informações cheguem ao eleitorado. E a Meta controla plataformas como Instagram, WhatsApp e Facebook. Como uma parte enorme da circulação de informações passa por esses três canais, qualquer filtro aplicado ali terá um impacto muito grande. Creio que o TSE está sendo obrigado a agir justamente para evitar que a disputa ocorra em condições tão desiguais.

  8. Oct 14

    Guinga, um mestre da música brasileira em nova temporada europeia

    Aos 76 anos, o violonista carioca Guinga faz uma nova turnê europeia, que passa por França, Bélgica e Inglaterra, e se encerra no final de outubro em Paris. Autor de uma obra reverenciada por músicos, críticos e intérpretes, Guinga evita falar de si como um mestre. Prefere falar dos encontros. "Eu acho que o palco é como a mesa. Você fazer uma refeição sozinho é bem menos marcante do que você fazer uma refeição com alguém que você ama", disse o artista, em entrevista à RFI. A comparação surge quando comenta os concertos que divide nesta temporada com músicos como Yamandu Costa, Anna Paes e Débora Dienstmann. Embora cada parceiro traga sua personalidade artística, Guinga diz que suas apresentações não deixam espaço para o acaso. "Eu não improviso nada", afirma. A música, para ele, nasce do trabalho minucioso de composição e do diálogo entre intérpretes que compartilham uma mesma visão da obra. Anna Paes, cantora e violonista que se dedica há mais de uma década ao seu repertório, tornou-se também parceira de composição do carioca. Já Débora Dienstmann, cantora brasileira radicada na Itália, vem se destacando como uma das intérpretes europeias mais próximas de sua música. Para Guinga, o palco é antes de tudo um espaço de convivência. "Na vida a gente tem que aprender a compartilhar", resume. A frase ajuda a compreender a trajetória singular de um artista que nunca seguiu os caminhos convencionais da carreira musical. Embora tenha começado profissionalmente aos 16 anos, Guinga interrompeu a atividade artística para estudar odontologia. Trabalhou durante 32 anos como dentista e foi justamente essa estabilidade que lhe permitiu compor sem concessões. "Eu pude investir na arte, então eu compus a maior parte da minha obra quando era dentista e grande parte dentro do consultório de dentista", recorda. Daquele consultório saiu uma das obras mais originais da música brasileira contemporânea. Enquanto exercia a odontologia, Guinga compunha canções que mais tarde seriam gravadas por artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Sérgio Mendes e Michel Legrand. Parceiro de letristas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes e Chico Buarque, construiu um repertório cuja sofisticação nunca perdeu o vínculo com a tradição popular que o formou. A admiração que desperta entre músicos é proporcional à singularidade de sua criação. Hermeto Pascoal resumiu esse sentimento numa frase que se tornou célebre: "Um cara como esse só aparece a cada cem anos". Segunda turnê na França A atual turnê europeia é produzida pela cantora, instrumentista e compositora Aurélie Tyszblat, que há anos se dedica à divulgação da obra de Guinga na França. Ela própria se diz surpreendida pelo fato de o compositor ter se apresentado tão pouco em Paris ao longo da carreira, apesar de passar regularmente por outros países europeus. "Eu não explico, mas eu lamento", afirma. Foi essa constatação que a levou a produzir seu primeiro concerto na capital francesa, em 2018. Para Tyszblat, a música de Guinga "ajuda a viver, ajuda a sentir a nossa humanidade" e merece ser transmitida a novas gerações de ouvintes e músicos. Ao falar dos jovens músicos que encontra nas masterclasses promovidas durante a turnê, Guinga demonstra preocupação com as dificuldades enfrentadas pelas novas gerações para encontrar espaço. "Essa é a luta, é a pessoa se impor fazendo aquilo que ela acredita." Sem condenar nenhum gênero musical, Guinga defende a liberdade criativa. Em uma de suas imagens mais inspiradas, lembra que até os erros podem abrir caminhos inesperados. "Às vezes você dá uma nota errada num acorde e descobre que ele fica mais bonito com a nota errada." A reflexão o leva a uma conclusão que vale tanto para a música quanto para a vida: "Eu acho que a missão do ser humano é tentar melhorar nessa baldeação que ele faz aqui no planeta." Primeiro disco tardio Essa visão humanista reaparece com força quando fala de Aldir Blanc, parceiro decisivo em sua trajetória. Guinga recorda que só lançou seu primeiro disco autoral aos 41 anos e atribui isso, em grande medida, à obstinação do letrista. "Meu primeiro disco foi gravado por uma verdadeira batalha que ele travou para que eu conseguisse fazer meu primeiro disco aos 41 anos." Ao lembrar do amigo, a emoção ultrapassa o terreno artístico. Além de compartilharem a formação na área da saúde, Aldir Blanc como médico psiquiatra e Guinga como cirurgião-dentista, os dois carregavam experiências semelhantes da juventude sob a ditadura militar. Guinga recorda que ambos enfrentaram a censura ainda muito jovens e chegaram a ser presos antes mesmo de se conhecerem. Essa trajetória comum ajudaria a consolidar, décadas depois, a afinidade que ele descreve como uma verdadeira irmandade. "Ele me ajudou muito como ser humano também." 'Brasil regride' com a família Bolsonaro Questionado sobre o atual cenário político brasileiro, Guinga afirma que "detesta a família Bolsonaro" e acusa o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, de desprezarem a cultura, privilegiando uma visão de sociedade baseada no armamento da população. Para Guinga, o Brasil frequentemente deixa de valorizar aquilo que considera essencial: a educação, a cultura e a preservação do meio ambiente. "O Brasil, cada vez mais, quanto mais o Brasil pode, mais ele regride e deixa de valorizar o que é realmente de valor", lamenta. Para ilustrar seu pensamento, recorre a uma frase do antropólogo e educador Darcy Ribeiro, uma referência intelectual que considera mais atual do que nunca: "Muito melhor construir escolas, educar a criança, do que depois levantar muros e construir presídios."

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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