RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 1D AGO

    Documentário 'Copan' disputa prêmio no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris

    Como o próprio nome diz, "Copan" aborda o cotidiano do imenso edifício em São Paulo projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950, símbolo da arquitetura moderna brasileira. O olhar da jornalista e cineasta Carine Wallauer sobre funcionários e moradores do prédio renderam um cativante documentário que venceu o prêmio principal do célebre festival "É Tudo Verdade", em 2025. Depois de ter passado pelo Cinélatino, em Toulouse, o público da capital francesa poderá assistir ao trabalho no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris, em 10 de abril, onde concorre na categoria de longa-metragem.  Daniella Franco, da RFI O edifício Copan foi a casa de Carine Wallauer durante sete anos, dos quais cinco passou produzindo o filme. O objetivo, segundo ela, era fazer um retrato cinematográfico deste icônico prédio paulistano. "É uma história que se cruza com a minha própria história", resume.  No entanto, diferentemente das reportagens produzidas sobre o Copan ao longo de seus 60 anos de existência, que mais focaram nos moradores, a cineasta decidiu se concentrar no cotidiano dos funcionários. "Eu venho de uma família da classe trabalhadora, e eu mesma trabalhei em shopping durante sete anos, então prestei serviços para outras pessoas. Eu entendo o quanto essa classe não é ouvida, principalmente em assuntos considerados mais formais, mais sérios, como política, por exemplo", diz. Boa parte das gravações foi realizada em 2022, período no qual o prédio se tornou um microcosmo da campanha para as últimas eleições presidenciais. No filme, Carine ainda retrata a eleição para síndico do Copan, um processo com uma tensão comparável à do pleito nacional. "Eu queria muito ouvir o que eles pensavam sobre política e sobre o que é viver neste lugar", ressalta.  Por outro lado, a cineasta decidiu não exibir nenhum trecho das mais de 50 horas de entrevistas com empregados e moradores do Copan por ter optado por realizar um filme de observação. Por isso, sua câmera segue os acontecimentos e movimentações no edifício sem interagir diretamente com os personagens. "Ele é um documentário que se expande, com características de um cinema de arte, em que a ficção se mistura com a linguagem do documentário", explica.  Segundo Carine, o fato de ser uma moradora do Copan a ajudou a retratar o cotidiano do local, facilitou a entrada em alguns apartamentos e em espaços do edifício que quase ninguém tem acesso, como um redário, onde os empregados descansam. "Algumas portas se abriram naturalmente por eu morar lá. Eu não fui uma diretora, uma jornalista que chegou neste lugar para passar um dia. Quando começamos, eu já estava ali há dois anos. Havia uma familiaridade de algumas pessoas comigo, principalmente dos funcionários ", diz.  Intimidade da natureza do prédio Carine conta que quando o então síndico do Copan, Afonso — que ocupou o cargo por 35 anos e faleceu em dezembro passado — lhe concedeu acesso a locais restritos do edifício, o documentário tomou outro rumo. "Ele tinha muito cuidado e muita desconfiança de como seria abordada a história do prédio. Então, quando ele me deixou acessar esses lugares, o filme se transformou. Por isso, mais do que mostrar a intimidade dentro dos apartamentos, a gente mostra uma intimidade da própria natureza do prédio", destaca. Segundo a cineasta, a trajetória de "Copan" foi sendo conduzida a partir das descobertas e do diálogo com os trabalhadores do local, entre os quais muitos não tinham a cultura do cinema. "Então tivemos muitas conversas onde eu explicava o que era o filme, como a gente ia fazer, como eles seriam colocados diante da câmera. Foi um trabalho de junção coletiva e que resultou com eles se vendo no cinema, muitos indo ao cinema pela primeira vez para se ver", comemora.  Carine admite que a estreia do filme na Europa, no ano passado, lhe suscitou certa ansiedade por acreditar que os expectadores não teriam contexto para a compreensão total de seu trabalho. No entanto, a reação do público a surpreendeu. "A primeira sessão pública do filme foi em Copenhague e foi incrível! A gente teve três sessões lotadas e ainda foi aberta uma quarta sessão", festeja.  Fora do Brasil, "Copan" também foi exibido no México, Suécia, Suíça, França e, em breve, será projetado na Bélgica e na República Tcheca. Segundo Carine, cada audiência reage de uma forma, mas o interesse pela condição humana une os públicos. "É um filme sobre um prédio, mas não só sobre arquitetura. É um filme sobre arquitetura, sobre relações, sobre como a gente exerce a democracia no nosso dia a dia e como a gente opera a nossa subjetividade nesses espaços de grande circulação", diz.  Apesar do sucesso do filme no Brasil e internacionalmente, a cineasta hesitaria se estivesse diante da possibilidade de voltar a morar no Copan. Ela conta que teve de deixar o apartamento em que morava no edifício às pressas quando ele foi vendido. "No começo eu fiquei bastante frustrada, triste. Mas hoje olhado em retrocesso eu sinto que a minha missão com o prédio foi cumprida. Acho que foram sete anos incríveis e tenho certeza de que eu fiz o possível para registrar um momento histórico do Copan", conclui.

    13 min
  2. 5D AGO

    Ao lado de novo prefeito, brasileira integra a gestão municipal de Saint‑Denis

    A historiadora franco-brasileira Silvia Capanema, professora da Universidade Sorbonne Paris Nord, foi eleita para mais um mandato público: ela volta ao conselho municipal de Saint‑Denis, em função equivalente à de vereadora no Brasil. Integrante da equipe do prefeito recém‑eleito Bally Bagayoko, do partido A França Insubmissa (LFI), Silvia falou à RFI sobre a vitória expressiva conquistada por esse filho de imigrantes do Mali, que irá comandar uma cidade marcada por desigualdades, mas de forte identidade multicultural. Silvia Capanema tem uma trajetória política consolidada em Saint‑Denis. Ela já havia sido vereadora de 2014 a 2020 e exerce, desde 2021, o segundo mandato como conselheira departamental de Saint‑Denis – instância administrativa que reúne mais cidades nesse território ao norte da capital francesa, onde fica o Stade de France.  A eleição de Bally Bagayoko – com 50,7% dos votos, ainda no primeiro turno – marcou o fim da gestão de Mathieu Hanotin, prefeito do Partido Socialista (PS) que tentava a reeleição. A rejeição a Hanotin se enraízou sobretudo na recusa do projeto de gentrificação e transformação urbana da periferia que sua administração tentou impor à cidade. Durante seis anos, o governo socialista defendeu operações imobiliárias que, segundo Silvia, iam “aumentar o custo da moradia e expulsar a população mais pobre da cidade para outros bairros mais longe e ‘emburguesar’, de alguma forma, a população de Saint‑Denis”. Ela afirma que o projeto provocou uma ruptura profunda entre a prefeitura e os moradores. Resistência organizada “A população sentiu isso como uma agressão muito violenta aos habitantes históricos” do município, diz Silvia. “Saint‑Denis não está à venda, não é uma cidade para ser privatizada, loteada com operações imobiliárias e a substituição de uma população.” Para ela, ao insistir nessa transformação urbana, o prefeito do Partido Socialista acabou indo contra a alma do território. “É uma cidade que conta muito com o movimento associativo, com o movimento político, com as classes populares que fazem parte de uma história marcada por trabalhadores, migrantes e imigrantes.” Silvia reforça que Saint‑Denis tem um tecido social resistente e organizado: “É uma população que luta, que se organiza, muito diversa e muito ativa. A cidade deve viver e existir em função dessa população que tem relação histórica com ela.” Esse afastamento entre o governo municipal e seus habitantes abriu espaço para a ascensão de Bagayoko, cuja ligação com o território foi decisiva em sua vitória. “Uma cria de Saint‑Denis” Bally Bagayoko, 52 anos, é conhecido em toda a cidade. Educador esportivo, jogador de basquete e executivo da empresa de transporte público RATP, ele sempre atuou em associações, movimentos locais e encarna – aos olhos de muitos moradores – o espírito da cidade. “Ele é aquilo que chamamos de uma cria de Saint‑Denis”, diz Silvia. “Cresceu aqui, estudou na escola pública, treina clubes de basquete até hoje. É uma figura muito popular.” Essa identificação reflete também o perfil da população local. Saint‑Denis reúne mais de 140 nacionalidades, fruto de diversas ondas migratórias vindas, em grande parte, do antigo império colonial francês. “É uma população totalmente francesa, essa Nova França, muito diversa e muito ativa”, afirma. Ataques racistas na campanha Foi nesse cenário multicultural que as tensões da campanha se agravaram. Segundo Silvia, durante a disputa eleitoral, o prefeito socialista insinuou que Bagayoko – um homem negro – teria ligações com o tráfico de drogas. A relação implícita entre criminalidade e origem racial provocou revolta imediata. “Foi um escândalo. A população rejeitou imediatamente essa associação”, relata a historiadora. O episódio expôs um racismo estrutural ainda presente na política francesa. A ofensiva cresceu quando veículos de extrema direita começaram a sugerir que o candidato estaria “nas mãos de traficantes”. “Foi chocante, mas mostrou como essa visão racista continua presente”, diz. No entanto, os ataques tiveram efeito contrário: reforçaram a legitimidade de Bagayoko e o transformaram em símbolo para uma nova geração de jovens franceses de origem imigrante. “Com a astúcia e a inteligência dele, Bally mostra como é necessário denunciar esse racismo e, ao mesmo tempo, ser uma figura simbólica para as novas gerações”, afirma Silvia. “Ele diz aos meninos negros e meninas da imigração que eles também podem ter responsabilidades políticas na França.” Fusão de municípios contestada Outro ponto sensível herdado da gestão anterior é a polêmica fusão entre Saint‑Denis e Pierrefitte‑sur‑Seine, que transformou as duas cidades vizinhas em um único município, com cerca de 150 mil habitantes. A medida foi tomada sem consulta, contrariando o forte apego dos moradores à noção francesa de “comuna” – base da democracia local. “Essa fusão foi feita sem consultar a população. É uma redução da democracia de proximidade”, critica Silvia. A nova administração pretende corrigir esse déficit democrático logo no início do mandato. “Nós vamos fazer o referendo que o antigo prefeito se recusou a fazer.” Três opções serão oferecidas: manter a fusão, desfazê‑la ou criar um modelo intermediário. Para Silvia, devolver essa escolha aos moradores é parte da identidade política da nova gestão de esquerda de ruptura. “Somos por mais democracia, por uma democracia mais direta. Isso faz parte da nossa visão: a revolução cidadã.” Contribuição brasileira Além de sua experiência acadêmica e institucional, Silvia leva para a política local uma marca essencial de sua trajetória: sua formação brasileira. “Eu estou nesse lugar também por causa do Brasil, da criatividade, da força e da capacidade de resolver problemas que nossa experiência nos dá.” Há 24 anos vivendo na França, ela vê sua presença na política como oportunidade para fortalecer a representação brasileira e ampliar pontes culturais e acadêmicas. “Eu sempre trago a cultura brasileira. Mostro que o povo brasileiro tem dignidade, conhecimento e peso internacional.” Para Silvia, sua presença no governo municipal também ajuda a abrir caminhos. “As mulheres brasileiras também podem ocupar cargos de responsabilidade e contribuir intelectualmente no exterior.” Ela observa ainda a crescente visibilidade da comunidade brasileira, presente em universidades, empresas, centros culturais e até nas mensagens do metrô parisiense, traduzidas em português. “Nós estamos aqui para abrir esses espaços coletivamente.”

    12 min
  3. 5D AGO

    No turbilhão das crises atuais, o pensamento de Jung ressurge como ferramenta para elaborar o mundo

    Vivemos um momento em que o noticiário parece ecoar um passado que acreditávamos superado: guerras que retornam, fronteiras tensionadas, sociedades polarizadas, discursos inflamados que se repetem como velhos fantasmas. É nesse contexto que a psicóloga e psicanalista franco-brasileira Elaine Franzini Soria, membro da Associação Junguiana de Psicanálise da Occitânia, estará no dia 28 de março, em Toulouse, ao lado de outros especialistas, apresentando e debatendo com o público as bases da psicologia analítica no seminário “Os Complexos Culturais do Ocidente, Sombra e Futuro”. O encontro parte da constatação de que compreender o presente exige olhar para camadas mais profundas da psique coletiva – tema que orientou nossa conversa com a especialista. Elaine lembra que o conceito de “complexos”, formulado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), se baseia na existência de “zonas sensíveis” carregadas de emoção e memória. “Cada pessoa carrega dentro de si zonas sensíveis, com muita energia psíquica concentrada em torno de um núcleo. E esse núcleo pode ser uma ferida antiga, uma memória carregada de emoção, uma experiência que marcou profundamente a vida da pessoa, o que Jung chama de ‘complexos’”, afirma. Segundo ela, Jung sublinhava algo decisivo: “Não sou eu, a pessoa, que tem um complexo; é o complexo que me tem.” Quando um elemento externo – “uma palavra, uma situação” – toca esse núcleo, explica Elaine, ele pode assumir momentaneamente o comando da consciência. “Isso invade o campo da consciência, então é isso que o Jung chamou de complexo.” Se esse funcionamento é visível na vida privada, ele se amplia no plano coletivo, observa a psicanalista franco-brasileira, que mora e atua profissionalmente em Montpellier (sul) desde 2017.  “Você imagina esta dinâmica individual alargada para o coletivo”, observa. “Alguns pesquisadores, como Thomas Singer e Samuel Kimbles [associados ao Instituto C. G. Jung de São Francisco, nos EUA], mostram que povos inteiros, culturas inteiras e nações também carregam seus complexos.” Ao analisar o cenário atual, marcado por conflitos armados e por disputas ideológicas acirradas, Elaine destaca o papel da sombra coletiva – outro conceito essencial de Jung. “A sombra é um conceito junguiano que fala de conteúdos que não puderam ser veiculados no campo da consciência”, afirma. Quando ampliado ao nível social, trata-se de ideias, impulsos e comportamentos que não cabem no “status quo”, mas que também não desaparecem. “Esses conteúdos da consciência ficam numa camada mais profunda, concentrando uma energia, e acabam determinando muitos dos eventos que estamos presenciando hoje no coletivo.” Transmissão transgeracional Elaine descreve como traumas históricos – guerras, um processo de colonização, uma humilhação coletiva – permanecem atuantes na psique dos grupos. “Quando algo ativa – uma crise, a chegada de um estrangeiro, de populações que migram –, esse grupo reage como se voltasse àquele momento de dor e medo, sem perceber. Esses complexos funcionam como um piloto automático coletivo; eles falam através de nós e, às vezes, sem que a gente saiba.” Atualmente, em um mundo bombardeado de informações contraditórias, os grupos se confrontam, cada um convicto de que tem uma razão.  A especialista também se apoia em Jung para abordar a transmissão transgeracional desses conteúdos. Ela cita de memória uma ideia do analista suíço: “Tudo aquilo que resta inconsciente na psique individual se apresenta num momento ulterior em forma de destino.” E completa: “Aquele conteúdo, aquele povo, aquele grupo que eu não reconheço através de uma experiência de outramento, de alteridade, vai se manifestar de uma forma ou de outra, de forma violenta, porque ele precisa ser integrado, precisa ser reconhecido pelos pares.” Discursos extremistas Outros elementos centrais da psicologia analítica – como mitos, símbolos e sonhos – também ajudam a compreender o cenário de intensificação de discursos extremistas. “Por baixo dos nossos pensamentos racionais existiria uma camada muito mais antiga e poderosa, que é o inconsciente coletivo. E ele fala por imagens, símbolos e mitos.” Dessa forma, ao ouvir pronunciamentos políticos inflamados, Elaine percebe a ativação de narrativas arquetípicas.  “Quando a gente  escuta os  discursos  políticos  mais inflamados de hoje, sejam eles de direita ou de esquerda, o que a gente ouve muitas vezes não é um raciocínio; é a arqueologia de uma mitologia. Tem um herói e tem um inimigo, por isso que a gente fala que é um discurso muito polarizado”, aponta.  Pandemia aumentou o sofrimento psíquico A pandemia, segundo ela, intensificou o sofrimento psíquico. “Desde 2019, logo no início da pandemia, houve um sofrimento psíquico imenso. Acho que o mundo ocidental passou por um traumatismo generalizado em função do confinamento.” Muitas pessoas, diz, foram expostas a situações familiares de risco. E destaca: “Não existe separação entre o que eu vivo internamente e o que está acontecendo lá fora. Essa separação é ilusória.” Perguntada sobre caminhos possíveis diante desse cenário, Elaine evita simplificações, mas insiste na necessidade de reconhecer o outro – e de reconhecer o que projetamos nele. “Urge pensarmos na experiência de outramento, de alteridade. É reconhecer que o outro tem direito de existir nesse tecido social.” Para ela, muito do conflito nasce porque não identificamos certas forças dentro de nós: “Se eu não sou capaz de reconhecer que dinâmicas me atravessam, eu vou projetar isso – minha raiva, meus preconceitos, minhas dificuldades – num outro qualquer.” Somente depois desse movimento de recolhimento das projeções é possível uma transformação mais profunda. “Na medida em que eu recolho essas projeções, posso elaborá-las e entender que elas também fazem parte de mim. E um indivíduo que se transforma tem impacto no vizinho, na família, no bairro – e, por consequência, no tecido social.” Os interessados podem ter informações sobre o seminário “Os Complexos Culturais do Ocidente, Sombra e Futuro” no site da Associação Junguiana de Psicanálise da Occitânia. Além de Elaine Franzini Soria, o encontro reunirá Mariette Mignet e Sam Regad, da Sociedade Francesa de Psicologia Analítica, conhecidas por trabalhos profundos sobre o feminino; Helen Morgan, da Associação Britânica de Psicoterapeutas; e o analista e sociólogo Luigi Zoya, figura de referência no campo junguiano por suas obras que articulam psicologia analítica e sociologia.

    11 min
  4. MAR 25

    'Envelhecer abre uma porta no final da vida com possibilidades e desejos', diz atriz Denise Weinberg

    Em entrevista à RFI durante o Cinélatino, em Toulouse, a atriz brasileira Denise Weinberg falou sobre a personagem que interpreta em “O Ultimo Azul”, de Gabriel Mascaro, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, em 2025. O longa-metragem de ficção aborda a temática do envelhecimento e o "descarte" de idosos pela sociedade. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse Em “O Último Azul”, Denise Weinberg vive Tereza, uma trabalhadora da região amazônica prestes a completar 77 anos, idade na qual no universo distópico criado por Mascaro, as pessoas são levadas para uma colônia compulsória para idosos. Inconformada com a imposição, a protagonista se rebela e foge da familia e das autoridades, caindo na ilegalidade para realizar seus sonhos. A um mês de completar 70 anos, Denise se reconhece em Tereza, a quem atribuiu muitos traços da sua propria personalidade, como a rebeldia e a curiosidade. “A gente fez um acordo, eu e a Tereza”, brinca. “Eu emprestei muita coisa minha pra ela e ela também endossou o que eu pensava. Eu fui a luva e ela, a mão”, diz. Premiado também no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, de Havana e no Golden Panda Awards, na China, o sucesso do longa é atribuído por Denise à temática universal da chegada à terceira idade, em um momento em que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Para a atriz, os estereótipos relacionados à essa fase da vida tiram a autonomia e a independência dos idosos, resultando no autoisolamento deles. “Os geriatras e os neurocientistas dizem que você só começa a envelhecer quando você perde a curiosidade pelas coisas e pelas pessoas. Tem idosos hoje em dia que estão aí, com 90 anos, trabalhando, morando sozinhos, com autonomia total”, salienta. Aceitar o envelhecimento Para Denise, a experiência do envelhecimento é algo que classifica como “interessante”. “Você abre uma porta no final da sua vida com possibilidades e desejos que antes nunca tinham passado por sua cabeça. Você vê as coisas de um outro ponto de vista, de uma maneira mais plácida, mais serena e com mais aceitação”, explica. A atriz também destaca a maior liberdade que adquiriu chegando aos 70 anos. “Eu tenho a possibilidade de fazer o que eu quero. Eu digo ‘não’ com mais facilidade e respeito os limites, sem me lamentar”, reitera, lembrando que esse também é um traço da personagem Tereza. Por outro lado, Denise observa a obsessão do meio artístico com a estética, na busca pela reversão de um processo natural. “Uma vez um diretor me disse: ‘nunca mexa na sua cara, porque as suas rugas valem ouro’”, relembra. “Eu não tenho nenhum procedimento estético, e até brinco com Gabriel Mascaro, que ele só me chamou para interpretar a Tereza por isso”, ri. Denise lamenta presenciar atrizes na faixa dos 20 anos fazendo harmonizações faciais, “uma coisa que fica horrorosa, porque no final fica todo mundo com a mesma cara”. “Eu acho que além de isso ser uma violência fisica, essa também é uma escravatura que a mulher tem com a beleza. Não é biologicamente normal”, aponta. Para a atriz, manter sua fisionomia também é uma questão de respeito à sua personalidade. “Sempre pensei que, se fizesse procedimento estético, quando acordasse de manhã e me olhasse no espelho, não seria eu, com as minhas histórias, com o que eu tenho para contar. A minha vaidade é com o meu trabalho, não como o meu físico”, resume.

    22 min
  5. MAR 24

    Filme brasileiro sobre bebê sequestrada na ditadura faz estreia mundial no Cinélatino, em Toulouse

    O longa-metragem “Ela foi ali guardar o coração na geladeira”, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, aborda a história de uma mulher sequestrada quando bebê, no período da ditadura militar. O filme fez sua estreia mundial no festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, na segunda-feira (23). Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse “Ela foi ali guardar o coração na geladeira” compete na categoria longa-metragem de ficção do evento. De forma extremamente original, o filme traz um compilado de “cartas-vídeo” em que a uruguaia Veronica conta para a sobrinha, a porto-alegrense Luiza, a história de sua vida, que considera “uma farsa”. Veronica é filha de uma presa política brasileira, morta durante o regime militar, mas foi “doada” quando bebê a uma família vinculada à ditadura no Uruguai. A personagem foi criada com base em histórias de crianças brasileiras sequestradas nesta época fatídica, que só vieram à tona recentemente. “Isso era algo que se acreditava que não acontecia no Brasil”, diz Cristiane Oliveira, lembrando que até hoje paira no imaginário das pessoas que esse tipo de crime ocorreu em outros países sul-americanos palco de ditaduras, como a Argentina e o Chile. “Comprovou-se recentemente que isso aconteceu sim, e isso nos tocou por estarmos pessoalmente muito mexidos por descobrir pessoas próximas que apoiavam esses regimes”, reitera. Outro ponto que motivou os dois cineastas foi a vontade de trabalhar com a memória da ditadura militar brasileira. “A verdade é que no Brasil a gente esqueceu muito rapidamente o que aconteceu”, lamenta Gustavo Galvão, que se diz chocado com o fato de a revelação recente de casos de crianças sequestradas por militares não ter repercutido na imprensa. Os dois diretores também destacam o objetivo estético do filme, que trabalha com a linguagem das “vídeo-cartas”. A escolha fornece um aspecto documental ao trabalho, apesar de ser um filme de ficção inspirado em histórias reais. “Há muitos sobreviventes desses crimes vivos, mas é difícil hoje em dia achar as provas e as origens, e muitos casos estão sem solução”, ressalta Cristiane. “O diferencial da Argentina é que teve julgamento, logo em seguida que tudo aconteceu. No Brasil não teve, então muita coisa foi sendo jogada para debaixo do tapete”, reitera. O trauma e a dor dos sobreviventes Para Gustavo, é difícil conceber que os criminosos que participaram deste tipo de violência não foram responsabilizados. No entanto, para o cineasta, ainda pior é o trauma dos sobreviventes, uma dor que a personagem Veronica relata no filme. “Você perder a identidade com mais de 40 anos, quase 50 anos, eu não sei como alguém consegue se recuperar disso”, diz. “Construindo a personagem da Veronica, a gente se viu em determinados momentos pensando que não deve ter nada pior do que isso”, completa.   Ironia do destino, a personagem Luiza, a sobrinha da protagonista do filme a quem são endereçadas as cartas-vídeo, foi criada em uma família ultraconservadora gaúcha. A mãe da jovem, que adoeceu e morreu, chegou a conhecer a irmã sequestrada antes de morrer, mas escolheu manter o segredo. Por meio dos relatos enviados a Luiza, Veronica tenta alertá-la de publicações que a garota faz nas redes sociais que fazem apologia ao regime militar. “A Veronica tenta entender por que pessoas próximas que tiveram acesso à educação preferem colocar uma barreira em certos assuntos e não aceitam o diálogo”, afirma Gustavo. “Quando a gente chega neste ponto, não é mais nem uma questão de ser direita ou de esquerda, mas humanista mesmo”, reitera. “A gente precisa conversar com os jovens" O diretor salienta o distanciamento da juventude brasileira dos crimes cometidos durante a ditadura militar. Por isso, para ele, é fundamental resgatar e comunicar essas memórias. “A gente precisa conversar com os jovens, não contar o que aconteceu de uma forma didática, mas trazer o lado humano dessas histórias. Temos que resgatar essa humanidade e os jovens têm um papel importantíssimo nisso.” O filme, que estreia em pleno ano eleitoral no Brasil, também retrata o temor dos cineastas de que a história se repita. “A gente percebe que o diálogo não é mais suficiente diante de um exército digital que trabalha todos os dias para mandar conteúdo e desinformação para essas pessoas em uma narrativa revisionista do passado”, completa Cristiane.   Gustavo expressa sua esperança de que o cinema brasileiro, por meio de recentes sucessos que também abordam a ditadura militar – como “Ainda Estou Aqui” e “Agente Secreto” – contribua para conscientizar o eleitorado. “A gente tem que estar sempre regando a memória. Se a gente esquece dela, ela definha e morre, o que é do interesse de muita gente”, observa Gustavo.

    18 min
  6. MAR 23

    UFPA busca liderança científica pós‑COP30 e reforça parcerias com a França para proteger a Amazônia

    A Universidade Federal do Pará (UFPA) realizou, entre 16 e 20 de março, um tour científico por Toulouse, Montpellier, Le Mans, Tours e Paris, com o objetivo de fortalecer parcerias internacionais e consolidar seu papel como referência global em pesquisas sobre biodiversidade e clima após a COP30. A iniciativa busca integrar o conhecimento tradicional amazônico às tecnologias avançadas desenvolvidas na Europa. Maria Paula Carvalho, da RFI Em entrevista à RFI em Paris, o reitor Gilmar Pereira da Silva explica que a viagem aprofunda décadas de cooperação da UFPA com instituições francesas. “Foi um périplo para reforçar ações que já fazemos juntos. Os acordos entre a UFPA e a França vêm do século passado, e muitos de nossos pesquisadores foram formados aqui nos anos 1980”, afirma. Ele destaca que a COP30 evidenciou a necessidade de transformar essa colaboração em ações permanentes voltadas à defesa da Amazônia. “Agora estamos nos preparando para o que teremos a dizer na COP31.” Entre os temas tratados, ganharam destaque os projetos MangMap e MOSAIC, focados no mapeamento e monitoramento dos manguezais. “A UFPA tem uma tradição forte no estudo dos mangues, que já resultou em políticas públicas como o período de defesa do caranguejo. Esses mapeamentos são essenciais para garantir a sobrevivência desses biomas”, explica o reitor. A missão também firmou novos acordos com o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e o CIRAD (Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa e Desenvolvimento Agrícola), ampliando a cooperação científica e prevendo intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e franceses. O reitor reuniu‑se ainda com a direção do IRD (Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento), na Maison du Brésil, em Paris, e confirmou a instalação de um polo do Instituto das Américas em Belém — o segundo no Brasil, depois da USP. Amazônia: entre ameaças e esperança Sobre o futuro da floresta, Gilmar Pereira da Silva mantém o otimismo: “A UFPA está em 12 campi e presente em 83 municípios do Pará. Temos uma leitura muito clara de como proteger a Amazônia.” Ele lembra que 95% da ciência brasileira é produzida por universidades públicas e que a UFPA é a instituição que mais gera conhecimento sobre a região no mundo. A COP30, realizada em Belém, também foi marcada pelo protagonismo indígena. “Recebemos a Cúpula dos Povos, mais de 40 mil pessoas, e hospedamos 6 mil indígenas de todo o mundo. A visibilidade foi inédita”, afirma. As ameaças à floresta, porém, seguem presentes: grilagem, poluição, garimpo ilegal e a pressão sobre as terras indígenas. “Garantir esses territórios é proteger todos nós. Abrir essas áreas para uso agrícola teria impactos terríveis para a Amazônia e para o planeta.” Para o reitor, é fundamental que a sociedade compreenda o alcance global desse debate. “Ao defender a Amazônia, defendemos a humanidade.”

    6 min
  7. MAR 20

    Abel Luiz lança Cordal Carioca em Paris e celebra a força coletiva da música brasileira

    Em Paris, onde realiza oficinas, encontros e apresentações ao longo de uma temporada europeia, o multi-instrumentista brasileiro Abel Luiz lança no dia 25 de março o álbum Cordal Carioca, que chega às plataformas digitais na mesma data. Ele descreve o disco com uma imagem que sintetiza bem sua estética: um Brasil múltiplo, urbano e rural, popular e de concerto, ancestral e contemporâneo. O álbum apresenta seis peças solo escritas para seis instrumentos de cordas distintos – do cavaquinho à viola caipira, passando pelo violão tenor –, todos tocados pelo próprio músico. “O Cordal Carioca é música instrumental brasileira que é música popular, que é música regional, que é música de concerto… é música do Brasil”, diz Abel, com um entusiasmo calmo de quem conhece profundamente a diversidade da cultura musical brasileira. É um trabalho que sintetiza sua experiência como pesquisador, compositor e músico de rodas, um cruzamento raro de rigor e intuição, técnica e afeto. Além do álbum, Abel oferece gratuitamente ao público as partituras e o material audiovisual que acompanha o projeto – uma escolha que dialoga diretamente com sua trajetória de formação. “Muito do que eu aprendi se deve à generosidade de pessoas que compartilharam o que sabiam comigo.” Essa transmissão começou no ambiente familiar e logo se expandiu para as rodas dos subúrbios cariocas. “Eu comecei como autodidata, aprendendo com meu avô, frequentando rodas de choro, de samba, de batuques e serestas nos subúrbios e periferias do Rio de Janeiro.” Nesses encontros, ele recebeu o impulso que moldou sua identidade musical: “Essas pessoas foram muito generosas em me acolher e me dar a oportunidade de tocar e estar junto.” O passo seguinte foi a sistematização desse percurso no mestrado profissional da UFRJ, orientado por Henrique Kazes. Ali, a soma de esforços de professores, amigos, músicos e técnicos permitiu transformar o projeto em um conjunto robusto de materiais abertos. Como ele explica, “a gente tem um material completo, composto de álbum, livro de partituras, o audiovisual e também o registro da pesquisa, para todo mundo ter acesso (...) todas essas três plataformas disponíveis para download gratuito ao alcance de todos.” Lançamento no Festival Internacional do Choro de Paris O lançamento europeu do novo álbum acontece no 22º Festival Internacional do Choro de Paris (de 27 a 29 de março), onde Abel apresentará, no dia 28, duas peças solo antes de reunir no palco os músicos do Clube do Choro de Paris. “A gente vai tocar choros, algumas peças autorais minhas, que já estão gravadas por outros instrumentistas do Brasil e do mundo, e algumas outras peças do disco, mas em versões arranjadas para o regional”, detalha. Nesta temporada na Europa, que inclui França, Holanda, Bélgica e Inglaterra, Abel se surpreendeu com a intensidade do interesse europeu pelo choro. “É impressionante”, comenta. O que mais o toca é o reconhecimento de um traço profundamente brasileiro. “É uma particularidade da nossa cultura popular brasileira: a capacidade de produção de sociabilidades a partir de coletivos.” Nos ateliês, encontros e rodas, isso aparece de forma concreta. “É essa possibilidade de troca, de afetos, de conhecimento, de lidar com a espontaneidade do outro, construir um ‘outro ordinário possível’, mais solidário, mais afetuoso.” Ele relaciona essa prática a uma história de resiliência. “A música brasileira foi construída à base de muita resistência e resiliência, uma potência criativa.” Da música à saúde mental: um trabalho que inspira também na Europa “Outra surpresa desta viagem”, conta Abel, “foi encontrar pessoas que conhecem minha atuação paralela, no campo da saúde mental.” Ele lembra que essa trajetória começou no CAPS Clarice Lispector, ligado ao Instituto Municipal Nise da Silveira, na zona norte do Rio, onde viveu, durante 18 anos, uma experiência decisiva. “A gente construiu, há 25 anos, o bloco carnavalesco Loucura Suburbana (...) uma brecha para as pessoas experimentarem essa diversidade, essa alegria de estar junto num fazer comum.” Ao refletir sobre o contexto em que esse trabalho se insere, Abel situa sua experiência dentro de uma história maior. “A gente no Brasil tem uma trajetória muito honrosa e exitosa, que margeia o fim da ditadura, a luta pela reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial.” Para ele, essa história demonstra a potência social da arte: “As práticas culturais e artísticas se tornaram excelentes tecnologias de promoção da saúde no campo da saúde mental”, destaca, recordando o Loucura Suburbana como seu projeto mais emblemático. Relação com o cavaquinho A base de Cordal Carioca está na experiência como multi-instrumentista. O fio condutor vem do instrumento que o acompanha desde menino. “O meu primeiro instrumento, que eu uso para pensar inclusive desde pensar uma harmonização ou uma orquestração, é o cavaquinho.” A partir dele, a paleta se expande. “Veio o cavaquinho afinado em bandolim, depois o bandolim, o violão tenor, a viola caipira acústica, e por último a viola caipira dinâmica.” A pesquisa do mestrado aprofunda exatamente essa relação prática. “Cada instrumento possui seu idiomatismo, seu repertório de técnicas, timbres e sonoridades.” E é da convivência entre eles que nasce sua escrita musical: “Você vai aprendendo com esse intercâmbio de instrumentos como um contribui para a expansão do outro.” No dia 11 de abril, Abel faz uma roda de samba no Studio de l’Ermitage, em Paris; em seguida, inicia uma pequena turnê pelo sul da França com ateliês e apresentações que passam pela Vallée de la Drôme, Marselha e Ardèche. Depois, segue para Copenhague, onde participa de um concerto de encerramento do Encontro Internacional de Capoeira – arte que o acompanha há cerca de 30 anos. Por fim, cumpre duas semanas em Londres “com ateliês e concertos voltados para a molecada da escola pública”.

    12 min
  8. MAR 19

    Duo mineiro leva o choro contemporâneo ao Festival Internacional de Paris

    O duo formado pelas multi-instrumentistas Noemi Guimarães e Bia Nascimento é uma das atrações da 22ª edição do Festival Internacional de Choro de Paris, que acontece de 27 a 29 de março na capital francesa. Também compositoras e arranjadoras, as duas se conheceram em Belo Horizonte, nas rodas de choro impulsionadas por coletivos de mulheres. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris A afinidade virou parceria, e logo elas começaram a tocar juntas com regularidade, explorando repertórios que vão além do choro tradicional, com espaço generoso para o improviso. “Eu me mudei para BH para fazer mestrado na UFMG, e a Bia já morava lá. Nos conhecemos numa roda organizada por mulheres no choro e nos conectamos de cara”, conta Noemi.   O duo também se insere em um movimento mais amplo: a consolidação da presença feminina no choro. Embora a história do gênero tenha consagrado nomes como Chiquinha Gonzaga, muitas compositoras e instrumentistas ficaram à margem da documentação.  “Eu comecei meu doutorado pesquisando mulheres no choro. Percebi que elas sempre existiram — o problema é que não foram vistas”, explica Bia Nascimento. Ela cita compositoras como Lina Pesci e Carolina Cardoso de Menezes, ainda pouco lembradas. “A gente está mudando isso. As mulheres vão abrindo portas umas para as outras”, comemora.  O choro como herança familiar  Noemi, parisiense de nascimento, cresceu mergulhada na tradição do gênero. Filha da pianista e compositora Maria Inês Guimarães, idealizadora e diretora artística do festival de Choro Internacional de Paris, ela frequentou oficinas, rodas e concertos desde a infância. “Cresci dentro do festival”, lembra.  A música se formou no conservatório francês, estudou piano e flauta, e mais tarde decidiu aprofundar seu contato com o choro no Brasil. Há dois anos, mudou-se para Belo Horizonte para estudar música popular na UFMG.  A França vive um momento de entusiasmo crescente pelo choro e outros ritmos brasileiros. Noemi observa que o interesse se espalha entre profissionais da música e também entre amadores apaixonados. “Muita gente descobre o choro em uma viagem ao Brasil ou numa roda aqui mesmo. E temos muitos brasileiros dando aula, o que fortalece essa cena”, descreve.   Gênero em plena renovação  Desde 2024, o choro é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, e críticos apontam que o gênero vive uma das fases mais criativas de sua história. Jovens instrumentistas expandem fronteiras, misturam linguagens, incorporam referências contemporâneas e experimentam com tecnologia — tudo sem perder o respeito pelas tradições.  “BH tem roda de choro todos os dias. Quando me mudei para lá, fiquei impressionada com a força dessa cena”, diz Bia. A prática intensa em rodas também alimenta uma das principais características do choro: o improviso. “A graça é colocar algo seu na música. Eu proponho uma variação, a Bia responde, e nasce ali uma conversa ao vivo”, explica Noemi.  A apresentação em Paris será especial por muitos motivos, especialmente para Bia, que está na França pela primeira vez. “As expectativas são as melhores. Temos um repertório definido, mas nunca sabemos o que pode acontecer na hora. Estou muito feliz”, diz. As primeiras impressões? “Poucas, mas ótimas. A comida já me conquistou – dialoga com Minas. E o queijo me ganhou completamente”, revela.  Recém-formada no mestrado, Noemi diz que, por enquanto, quer seguir em Belo Horizonte, onde encontrou uma cena “pulsante” e cheia de oportunidades. “Mas não descarto voltar à França um dia. É a minha primeira casa.”

    8 min

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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