RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 4H AGO

    Francês impulsiona cultura brasileira na Alsácia com festival e cooperação agroecológica com a Bahia

    Antropólogo, ex-prefeito de Eschbach e hoje vice-presidente de um consórcio intermunicipal no norte da Alsácia, Hervé Tritschberger se tornou um dos principais articuladores da difusão da cultura brasileira na região. Também à frente da associação IPÊ (Iniciativa para a Etnologia), ele organiza a segunda edição do Festival Boitatá, marcado para sábado (30) na pequena cidade de Preuschdorf, e aprofunda uma cooperação inédita com a cidade de Botuporã, na Bahia, que combina intercâmbio cultural e projetos ambientais. O Festival Boitatá é um evento idealizado por Hervé Tritschberger, dedicado à cultura brasileira, que reúne música, dança, gastronomia e debates. Organizado pela associação IPÊ, o festival chega à sua segunda edição e se afirma como um espaço de intercâmbio cultural e cooperação internacional, fortalecendo laços entre a França e o Brasil. A edição de 2026 ganha ainda mais relevância com a presença de uma delegação oficial da cidade de Botuporã, na Bahia, composta por sete representantes, que participarão de atividades culturais e institucionais que reforçam a parceria entre os dois territórios. “O objetivo é fazer descobrir ao povo da Alsácia a cultura brasileira”, explica Tritschberger. “Na primeira edição, foi a descoberta de especialidades, gastronomia e também música com samba, pagode e forró”, conta. O organizador destaca que o festival desperta interesse não apenas dos franceses, mas também de públicos da região fronteiriça com a Alemanha e dos próprios brasileiros que moram na região. “A gente gosta muito da cultura brasileira. Tem uma comunidade brasileira aqui da Europa que vem nesse momento para compartilhar a cultura deles. São brasileiros que vivem tanto na França quanto na Alemanha, já que é bem pertinho”, diz. Cooperação agroecológica entre Alsácia e Brasil Além do aspecto festivo, o Festival Boitatá também abre espaço para discussões sobre desenvolvimento sustentável. Duas mesas-redondas estão previstas: uma sobre agroecologia e outra sobre gestão de resíduos, reunindo agricultores e especialistas franceses e brasileiros. A cooperação promovida por Hervé Tritschberger entre Botuporã, na Bahia, e a França se deu quando ele ainda era prefeito de Eschbach. O antropólogo francês explicou à RFI que o interesse pelo Brasil foi inspirado por sua experiência pessoal. Inicialmente, em 2016, estudou antropologia na Universidade de São Paulo (USP). Em 2018, realizou uma pesquisa na Bahia, que mais tarde – durante seu mandato de prefeito na pequena Eschbach – desencadeou uma cooperação profissional com Botuporã, inicialmente voltada para agroecologia e gestão de resíduos, e que hoje se desdobra também em intercâmbios culturais.  A parceria evoluiu para uma estrutura mais consolidada. “Foi uma descoberta. Foi um amigo de um amigo que falou com o prefeito de Botuporã, o professor Edmilson [Saraiva]. Minha ideia era fazer a mesma coisa que foi feita com o festival, de fazer descobrir, uma cooperação com uma cidade”, relata Tritschberger. “Aí começamos a fazer um projeto sobre agroecologia. O prefeito e uma delegação de Botuporã vieram para a Alsácia”.  Da troca de experiências sobre as práticas agroecológicas surgiu um livro disponível em francês e português no site da associação IPÊ. Para Hervé Tritschberger, o Brasil, sobretudo Botuporã, tem uma conexão forte com práticas da economia circular, em que “os resíduos são transformados pelos artesanatos, por exemplo”, ou outras coisas. “Aqui na França eu acho que esse hábito é menor. (...) Então, essa troca de ideias tem por objetivo melhorar de cada lado, melhorar as práticas que temos”, afirma. Leia tambémAçúcar orgânico produzido no Brasil é exemplo bem-sucedido da economia circular Brasil no radar profissional  Para o antropólogo, a parceria também contribui para ampliar horizontes, sobretudo em um território rural como Botuporã. “Quando chegamos, foi já uma abertura sobre a questão internacional, a questão de como funcionam os outros países, como funcionam outros territórios”, explica. Hoje fora da prefeitura, Tritschberger segue atuando na gestão de serviços públicos e projetos locais no consórcio intermunicipal da região de Sauer-Pechelbronn, no norte da Alsácia, um organismo que reúne várias pequenas cidades. Ele afirma que pretende seguir engajado em projetos ligados à ecologia e à cooperação internacional, principalmente com o Brasil. “Claro que eu quero continuar sobre essa questão de ecologia, mobilidade sustentável. E tenho o objetivo de continuar com esse consórcio, fazer cooperação com Botuporã para manter essa ajuda mútua entre os dois povos”, conclui.

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  2. 1D AGO

    Após sucesso em 2024, segundo volume do livro 'Caixinhas de Música' trará entrevistas com Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa

    O livro “Caixinhas de Música – Conversas sobre Música Brasileira Tempo e Cidades”, que reúne entrevistas com grandes artistas brasileiros, fez um grande sucesso no Brasil em 2024. A obra da editora Autonomia Literária, organizada por Fabio Maleronka e Renata Rocha, ganhará um segundo volume, com previsão de lançamento em 2027. “Os lugares onde a música acontece”: essa foi a ideia que guiou o projeto que faz recortes da trajetória de grandes artistas de diferentes gerações, estilos musicais e todas as regiões do Brasil. Fabio Maleronka e Renata Rocha se concentraram nos locais que muitas vezes “parecem detalhes na trajetória”, mas dizem muito sobre a essência de ícones da cultura brasileira. “O Mato Grosso de Ney, a esquina do Clube da Esquina, a Governador Valadares da Wanderléa, a Irará de Tom Zé”, lista Fabio. Como o próprio nome do projeto diz, “Caixinhas de Música” traz conversas com dezenas de artistas brasileiros sobre suas trajetórias, em diferentes espaços e contextos, onde vida e carreira se misturam. Desta forma, a conversa de Alice Caymmi se encontra com a de Michael Sullivan; a de Moraes Moreira, com Armandinho e Spok. “Essas entrevistas vão se cruzando por afinidade, como se elas fossem fazendo parcerias inusitadas”, diz Fabio. No primeiro volume do livro, os organizadores explicam que as entrevistas, gravadas entre 2020 e 2024 não são diálogos ensaiados ou previamente estabelecidos, o que abre a possibilidade a revelações e histórias inesperadas. “O Ney conta que o fato de ele usar no sobrenome Mato Grosso como nome artístico – e diferente do estado, ele escolhe usar tudo junto, Matogrosso –  isso faz com que ele possa ser algo muito questionável na década de 70. Ninguém queria ser latino, diferente de hoje, que todo mundo quer”, observa. “Mas o Matogrosso do Ney permite que ele grave frevo, que ele grave baião, músicas de todos os gêneros, porque esse ‘Matogrosso’ dá essa proteção a ele”, reitera. Fabio também relembra a gravação da entrevista com Hermeto Pascoal, realizada em 2024, alguns meses antes de sua morte. “Na preparação, eu disse: ‘não vou falar que o Hermeto Pascoal é um gênio, para ser a milésima pessoa fala isso’”, brinca. “Então essa é uma entrevista muito conduzida sobre pintura, comida, como ele pinta as próprias capas dos discos, porque, no caso do Hermeto, a gente não está falando de um artista que a música é uma linguagem artística, mas uma dimensão da vida”, diz. Volume 2 Se no primeiro volume de “Caixinhas de Música” histórias contadas pelos artistas deram o que falar – como a jaguatirica que Rita Lee tinha como animal de estimação – a sequência do projeto promete. Na lista de estrelas entrevistadas, há Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa, que contou a Fabio episódios do início de sua carreira que o surpreenderam. “Wanderléa inventa toda a forma de comportamento no Brasil, de usar bota, adereços de cabelo, de uma forma de dançar”, destaca. “Praticamente todas as artistas, inclusive Gal [Costa], Nara [Leão], iam para o show da Wanderléa para ver uma como era um show da Jovem Guarda. Ninguém podia declarar publicamente isso, mas Wanderléa era uma inspiração para todas as cantoras da época”, afirma. Outra história surpreendente que trará o segundo volume do projeto “Caixinhas de Música” diz respeito ao encontro entre o cantor e guitarrista da banda Talking Heads e o músico baiano Tom Zé. “David Byrne entra numa loja, vê um disco com o nome ‘Estudando o samba’ e se pergunta quem é aquele cara. E o Tom Zé sai praticamente de um exílio em território nacional para para estourar nos Estados Unidos de novo depois de tanto tempo graças a essa descoberta”, destaca. Várias facetas de um mesmo artista Para Fabio, contar essas e outras histórias tão inusitadas e surpreendentes é também uma forma de revelar os diversos personagens dentro de um artista. “Por exemplo, o filme ‘Meu Nome é Gal’, de Dandara Ferreira, retrata a jovem Gal. Mas quantas artistas existiram naquela pessoa? Quantas artistas existiram na da Rita Lee? Quantas fases elas viveram? Isso é muito perceptível quando você ouve uma entrevista daquela época e você entende aquela fase específica também da pessoa”, diz. Por isso, segundo Fabio, entrevistar grandes artistas da música brasileira é uma experiência particular. “Quando a gente grava, muitas vezes a gente não entende direito a entrevista depois que a gente sai dela. A gente vai entender às vezes um mês depois. E cada entrevista tem mesmo um tempo”, avalia. Por isso, para Fabio, na execução de Caixinhas foi essencial levar em consideração que “histórias vão acontecendo”, de “personagens profundos e o que eles estão vivendo” mas, segundo o coautor, “sempre com um pouco de humor”. “É um livro que a gente chama de livro de avião, livro de ônibus. Você pode ver de qualquer jeito, de qualquer forma, de trás para frente. É um livro de entrevistas. Ele também tem o sentido de se divertir”, resume.

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  3. 4D AGO

    Coprodução brasileira 'Elefantes na Névoa' vence Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes

    O filme, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, foi ovacionado na estreia no Festival de Cannes na quarta-feira (20) e recebeu nesta sexta-feira o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A coprodução brasileira também recebeu um prêmio especial de criação de som, que foi totalmente realizado no Brasil. “Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, reagiu a produtora brasileira Tatiana Leite logo após a premiação. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A mostra Un Certain Regard, da seleção oficial de Cannes, celebra um cinema jovem, de autor e de descobertas. A seleção de 2026 apresentou 19 longas-metragens, incluindo 6 filmes de estreia que também concorrem à Caméra d’Or. Presidido pela atriz francesa Leïla Bekhti, o júri reompensou com o prêmio Un Certain Regard “Everytime”, da austríaca Sandra Wollner. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, ficou com o Prêmio do Júri. “Um filme de uma beleza incrível, com uma narrativa que recusa etiquetas e explora a fronteira entre o realismo e o fantástico”, justificou o júri na cerimônia de premiação na noite desta sexta-feira. Primeiro longa nepalês em Cannes O primeiro longa-metragem do cineasta nepalês se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens. A líder da comunidade Kinnar local sonha em fugir com o homem que ama. Mas o desaparecimento de uma de suas filhas impõe a escolha entre o desejo de liberdade e suas responsabilidades com seu povo historicamente marginalizado. Essa é a primeira vez na história que um filme nepalês é selecionado em Cannes. O filme é uma coprodução do Nepal, Alemanha, França e Noruega. A participação brasileira é fruto de uma parceria inédita entre Tatiana Leite, da Bubbles Project, e Leonardo Mecchi, da Enquadramento Produções. Tatiana Leite estava presente na cerimônia de premiação e não escondeu sua emoção. “Esse é um filme muito importante, muito urgente e maravilhoso cinematograficamente. Um orgulho imenso participar desse primeiro longa nepalês selecionado no Festival de Cannes”, afirmou. O produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes falou da força de "Elefantes na Névoa". Ele é um filme de uma sensibilidade incrível e realizado de uma maneira impecável, o que é muito impressionante para um primeiro de estreia do Abinash. Ele tem essa força de trazer uma história extremamente fincada nas raízes e na cultura do Nepal, com um olhar para o ser humano, para as relações pessoais, para a complexidade da vida em locais como esse. E isso ressoa em qualquer lugar", salienta. Melhor som Foi o segundo prêmio do dia. Pela manhã, o longa foi premiado pela melhor criação de som, cuja responsabilidade coube ao Brasil nessa coprodução. “Durante a filmagem, nós enviamos o Pedro Sá, que é um técnico de som brasileiro, para o Nepal. E toda a finalização de som, edição e mixagem foram feitas no Brasil. O Abinash foi para São Paulo e ficou lá três semanas acompanhando a finalização de som. Então, a parte criativa brasileira nessa coprodução foi justamente através do som”, ressaltou o produtor Leonardo Mecchi em entrevista à RFI em Cannes. “A gente já tinha ficado muito feliz com esse prêmio de melhor som, mas o Prêmio do Júri é enorme. Um orgulho imenso ser uma coprodução brasileira, ter um pouquinho de Brasil e ter descoberto este país tão especial que é o Nepal”, reiterou Tatiana Leite. O prêmio consolida a carreira do diretor nepalês. Abinash teve seu curta-metragem “Lori” premiado com Menção Especial na competição de curtas de Cannes em 2022 e também assinou o roteiro do longa “Shambhala”, exibido na competição da Berlinale em 2024. Distribuído no Brasil pela Imovision, a estreia mundial do filme em Cannes posiciona “Elefantes na Névoa” como um dos títulos mais aguardados deste ano, reforçando a presença brasileira no circuito internacional. Participação minoritária do Brasil em coproduções Antes do anúncio do Prêmio do Júri em Cannes, o produtor brasileiro Leonardo Mecchi explicou, em entrevista à RFI Brasil, como surgiu a coprodução de “Elefantes na Névoa”. Segundo ele, o projeto nasceu no CineMart de Roterdã, onde ele e a produtora Tatiana Leite “se apaixonaram completamente pelo roteiro” e pela visão do diretor. A entrada do Brasil só foi possível graças a um acordo de coprodução internacional, após a participação de França e Alemanha, o que permitiu financiamento e envolvimento criativo brasileiro. Eles participaram e venceram o primeiro edital de coprodução da política pública que amplia a presença do Brasil no cinema internacional.  Mecchi destacou ressaltou o papel essencial das políticas públicas nesse processo, observando que elas são “fundamentais para fomentar o cinema autoral e a internacionalização do nosso cinema”, embora tenham sido enfraquecidas nos últimos anos e estejam sendo gradualmente reconstruídas. Sobre a presença brasileira em Cannes, o produtor relativizou a ausência de longas nacionais na competição principal, defendendo que a força do cinema está na diversidade e não apenas no reconhecimento internacional. “Uma indústria não se faz com um filme por ano”, disse, acrescentando que a coprodução minoritária é “mais um caminho para fortalecer esse cinema”.

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  4. MAY 20

    'Sem o Brasil, Paper Tiger não estaria no Festival de Cannes', diz o produtor Rodrigo Teixeira

    O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira marca presença constante no Festival de Cannes. Este ano, a produtora dele, a RT Features, produziu 2 filmes selecionados, “Paper Tiger”, do americano James Gray, na disputa pela Palma de Ouro, e “La Perra”, da chilena Domingas Sotomayor, com Selton Mello no elenco, que integra a mostra paralela Quinzena dos Cineastas. Em entrevista à RFI em Cannes, o produtor defendeu o papel do Brasil na participação de “Paper Tiger” em Cannes. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A presença brasileira em Cannes nesta 79ª edição do festival é discreta. O país está representado na seleção principalmente com quatro coproduções, apresentados em várias mostras. Apenas um único filme autoral brasileiro, o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, foi selecionado na mostra La Cinef. Há cinco anos, Rodrigo Teixeira também era o único brasileiro na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de “Armageddon Time”, também dirigido pelo americano James Gray. Para o brasileiro, produtor de grandes sucessos como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o único paralelo entre os dois momentos “é o trabalho”. Teixeira, que é um dos produtores latino-americanos mais influentes do momento, participa do Festival de Cannes há 15 anos defendendo o cinema independente e autoral. Ele defende que, apesar de discreta, a participação do Brasil este ano é importante pela relevância dos filmes selecionados e garante, “sem o Brasil, 'Paper Tiger', de James Gray, não teria sido rodado e não estaria no Festival de Cannes”. RFI: Qual o paralelo você faz entre esta edição e a de cinco anos atrás, quando você também era o único brasileiro presente na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de "Armageddon Time", do James Gray? Rodrigo Teixeira: Eu acho que o único paralelo é o trabalho. O cinema independente hoje depende de uma carreira de festivais. Então, o que a gente tem que fazer é trabalhar para que os nossos filmes possam estar presentes nesses festivais, possam participar desses festivais. Saber onde você vai colocar esses filmes é muito importante. RFI: E qual é a sua relação com o Festival de Cannes? RT: Eu tenho 15 anos de relação com esse festival. O primeiro filme que eu fiz que entrou nesse festival foi "O Abismo Prateado", do Karim Aïnouz, em 2011, na Quinzena dos Cineastas. Desde então, 12 filmes meus circularam por esse festival. É uma pena que o cinema brasileiro tenha uma presença discreta este ano, haja vista que no último ano a gente teve “O Agente Secreto”, que foi um estouro aqui no festival. Mas eu não vejo uma presença tão discreta assim, porque acho que há dois produtores importantes com filmes aqui que lideram esses processos. Tem a minha empresa, a RT Features, em parceria com outras pessoas, com “Paper Tiger”, e a Tatiana Leite com o filme “Elefantes na Névoa”, na mostra Un Certain Regard. Você tem dois profissionais que constantemente estão frequentando o Festival de Cannes. Por mais que seja discreta, ela é importante, porque ambos os filmes têm relevância no Festival de Cannes. Se não tivesse o Brasil dentro de "Paper Tiger", eu posso te garantir, o filme não seria realizado e não estaria no Festival de Cannes. Isso é uma prova de que o Brasil está, sim, presente. Qualquer coisa que "Paper Tiger" alcançar nesse festival, o Brasil tem uma responsabilidade muito grande. RFI: Você também está aqui representando o cinema autoral e independente americano, em um ano de ausência das grandes produções dos estúdios de Hollywood. É uma dupla responsabilidade? RT: O cinema de grandes estúdios americanos vinha frequentando o Festival de Cannes para apresentações especiais. Ele não está nas competições nem nas mostras paralelas. São premières. Eu acho que muitos deles têm um pouco de medo de vir para serem detonados pela crítica e ter uma relevância mercadológica menor no momento seguinte. E agora, falando da competição, você tem dois filmes com uma relevância muito importante. Isso é uma prova contínua de que o Thierry Frémaux [diretor-geral] e os selecionadores desse festival apoiam o cinema independente americano. E o cinema independente americano não é independente porque não tem um estúdio. Ele é independente porque tem liberdade de expressão. E esse cinema de liberdade de expressão está aqui. Ele é o filme do Ira Sachs, “The Man I Love”, e é o “Paper Tiger”, do James Gray. São dois diretores que respeitam a liberdade de expressão. Eles poderiam estar fazendo filmes de estúdio, poderiam não estar mais frequentando os festivais. Mas são generosos o suficiente para continuar a vir aqui apresentar filmes para serem julgados e, eventualmente, escrutinados. Eles estão aqui dando a cara para bater, apresentando filme. Você tem aí 10% dessa seleção americana, mas são filmes que têm coprodução francesa, brasileira, italiana. É como o cinema tem sido feito recentemente. O cinema americano hoje também depende dessas parcerias internacionais. Eu acho superimportante fazer parte de um filme americano também. Porque eu, como produtor latino-americano, estou viabilizando um filme deles também. Aqui, eu também represento uma bandeira que não é a minha e que eu não tenho nenhum problema de representar, mas faço isso com muito orgulho sendo latino-americano. RFI: O "Paper Tiger", se não me engano, é a sua terceira colaboração com James Gray, que já foi selecionado várias vezes, mas nunca venceu a Palma de Ouro. O filme está tendo uma excelente recepção. Qual é o seu palpite? RT: É difícil, porque meu coração é totalmente de torcedor nessa hora. É óbvio que eu adoraria que James Gray levasse o prêmio principal, mas é difícil prever. Você tem autores muito importantes, Pawel Pawlikowski, Hamaguchi, Rodrigo Sorogoyen, Cristian Mungiu, Zvyagintsev, o James, o Ira [Sachs], o [Pedro] Almodóvar. Eu estou esquecendo provavelmente muitos outros nomes, mas você tem muitos grandes autores e eu acho que esse júri é capaz de escolher o que eles entendem ser o melhor deste ano. Se eles entenderem que “Paper Tiger” é o melhor, eu vou ficar muito feliz e vai cumprir um sonho que eu tenho, que é um dia ter um filme laureado aqui com o principal prêmio. RFI: “La Perra”, de Dominga Sotomayor, é produzido pelo Brasil, a diretora é chilena, a roteirista uruguaia, é rodado em espanhol, mas tem brasileiro no elenco. Essa internacionalização é a tendência do cinema latino-americano e, pelo que você está dizendo, do cinema do continente americano? RT: É uma excelente pergunta. Você esqueceu só de mencionar uma nacionalidade: o filme é adaptado de um livro colombiano, “A Cachorra”, de Pilar Quintana. Então, esse é um filme extremamente latino-americano. É o meu projeto mais latino-americano, porque nós temos Chile, Uruguai, Brasil e Colômbia no mesmo filme. Essa colaboração fez com que o filme ficasse com a beleza que ele tem. Eu acho que ele talvez seja um dos trabalhos mais bonitos que já fiz. Eu tenho um orgulho muito profundo desse filme. Eu o considero um irmão de “Murina”, que é um filme croata que eu fiz e que ganhou o prêmio Caméra d’Or aqui. São dois dos filmes de que eu mais me orgulho. Agora estou fazendo um filme americano no Brasil ("Zero K", do diretor Michael Almereyda) e a minha condição para fazer esse filme foi essa. Vocês querem fazer comigo? É no Brasil. RFI: Esse é o seu novo projeto, novo desejo, de levar todas essas produções para o Brasil para que o país passe a ser um local de filmagem para produções internacionais? RT: Meu desejo é que o Brasil esteja inserido em quase tudo o que eu faço. Onde eu puder inserir o Brasil, vou inserir. É o meu país. Eu tenho muito orgulho de ser brasileiro. É o lugar onde eu nasci, é o lugar onde meu coração reside. Eu sou feliz vivendo lá. Tenho filhos brasileiros. Onde eu puder levar o Brasil, vou levar. Isso é o que eu posso dar em troca ao meu país. É levar o Brasil para onde for possível.

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  5. MAY 19

    Arquitetas mineiras levam instalação imersiva à Nuit Blanche e ocupam túnel às margens do Sena

    Três arquitetas mineiras radicadas em Paris vão dar um toque brasileiro ao coração da capital francesa. O projeto “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências”, concebido por Vanessa Gambardella, Helena Caixeta e Luisy Silva, foi selecionado para a edição de 2026 da Nuit Blanche, que acontece na noite de 6 de junho. A instalação será apresentada no túnel das Tulherias, às margens do rio Sena, e propõe uma experiência sensorial que mistura luz, som e reflexões sobre identidade e diversidade. Criada em 2002, a Nuit Blanche é um dos principais eventos culturais de Paris: durante uma madrugada, espaços públicos, museus e ruas recebem intervenções artísticas gratuitas, convidando o público a percorrer a cidade de forma diferente, em contato direto com a criação contemporânea. No caso de “Multitudes”, a escolha do local é central para a proposta. O túnel das Tulherias, hoje reservado a pedestres, ciclistas e usuários de patinete, transformou-se em uma galeria de arte urbana desde 2022, em um projeto conduzido por Nicolas Laugero Lasserre, fundador da associação cultural Artistik Rezo e diretor da escola de arte ICART, que também apoiou a iniciativa das três artistas brasileiras. O espaço, marcado por uma acústica particular, acabou influenciando diretamente a criação. “As pessoas parecem se liberar lá dentro”, observa Vanessa Gambardella. A ideia do trio foi justamente amplificar essa sensação, criando “uma imersão de luz e som” que dialogue com o ambiente e com quem o atravessa. A trilha sonora, ainda mantida sob sigilo, terá “toques de brasilidade” que, segundo a arquiteta, devem surpreender o público. A concepção partiu da observação do próprio uso do túnel: gente que canta ao passar de bicicleta, visitantes que desaceleram, vozes que ecoam. “O público foi a nossa inspiração desde o começo”, resume. Encontro em Paris, raízes em Minas As três artistas se conheceram na França, mas compartilham a formação em arquitetura e urbanismo em Minas Gerais. Foi a afinidade entre prática profissional e expressão artística que aproximou o trio. “A gente descobriu que dividia esse papel entre arquitetas e artistas, assim como eu”, conta Vanessa, que convidou as colegas para integrar o coletivo Pogo, criado por ela em Paris. A oportunidade de participar da Nuit Blanche surgiu a partir de um edital aberto. Ao ver a chamada, Vanessa pensou imediatamente nas duas conterrâneas. “É muito legal ter ganhado com duas artistas brasileiras que me acompanham. A gente monta projetos com muitos artistas, e esse acabou sendo de três mineiras”, afirma. Espaço público e experiência coletiva Embora parta de uma intervenção artística, a instalação “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências” dialoga diretamente com questões urbanas. O túnel das Tulherias, antes destinado exclusivamente aos carros, foi incorporado ao circuito de mobilidade ativa da cidade – um símbolo, segundo Vanessa, do processo de transformação urbana em Paris. “É um espaço conquistado para o pedestre e a bicicleta. Para a gente, como arquitetas e urbanistas, isso já é um símbolo de liberação”, explica. A instalação nasce dessa leitura, combinando arte, arquitetura e uma dimensão sociológica voltada ao uso do espaço público. “A gente pensa sempre na sensação que aquilo vai despertar nas pessoas e em quem são os usuários daquele lugar.” A proximidade com outras obras reforça essa ideia de percurso. O trabalho das brasileiras ficará ao lado de uma intervenção do artista francês JR, inaugurada na mesma noite no Pont Neuf. A ponte mais antiga de Paris será transformada em uma espécie de “caverna” monumental, com estrutura inflável e efeito de trompe-l’œil que simula uma paisagem rochosa. A instalação de JR também convida o público a uma travessia imersiva, com criação sonora de Thomas Bangalter, ex-integrante do Daft Punk, explorando essa atmosfera entre fascínio e estranhamento que o próprio JR associa ao imaginário das cavernas. Vanessa espera que o público perceba essa continuidade entre as obras ao longo das margens do Sena. “A ideia é que as pessoas caminhem, passem pela obra dele e depois cheguem na nossa, com outra atmosfera sonora, com as brasilidades.” Entre a arte e o urbanismo A trajetória de Vanessa Gambardella ajuda a entender a transversalidade do projeto. Além de arquiteta e urbanista, ela reúne formação em cinema, cenografia e design, e hoje atua no desenvolvimento de projetos urbanos. Atualmente, integra uma agência francesa, onde participa, entre outras iniciativas, da concepção de um parque linear no 13º distrito de Paris. Sua atuação está diretamente ligada às transformações recentes da capital francesa, como a expansão de ciclovias, a criação de áreas verdes e a adaptação às mudanças climáticas. Esses projetos incluem, por exemplo, a chamada desimpermeabilização do solo, isto é, permitir que a água volte a ser absorvida pela terra e o planejamento de novas áreas vegetalizadas em um sistema de economia circular. “Sou um produto dessas mudanças na cidade”, diz. “Hoje a gente trabalha com gestão da água, escolha de espécies vegetais, adaptação ao aquecimento global.” A experiência entre Brasil e França também alimenta sua visão crítica. Para Vanessa, há uma troca possível entre os dois contextos. “A França aprende com o Brasil na gestão de crises, e o Brasil poderia aprender com a França na questão das subvenções e no planejamento de cidades mais verdes”, observa. Ao mesmo tempo, ela ressalta as diferenças de escala e de organização. “O Brasil é imenso, o que torna o trabalho mais complexo, mas o incentivo precisa estar presente”, destaca. Travessia de uma noite Instalado em um ponto emblemático da cidade, entre o Sena e o Louvre, o projeto “Multitudes” propõe uma travessia física e simbólica. Ao percorrer o túnel, o visitante é convidado a experimentar o espaço de outra forma, guiado por luz e som. “A expectativa é que o público encontre ali uma experiência diferente e se sinta parte dessa multiplicidade”, afirma Vanessa. A instalação poderá ser visitada na noite de 6 de junho (e madrugada do dia 7), das 19h às 2h, durante a Nuit Blanche.

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  6. MAY 18

    Lucas Acher é o único diretor brasileiro na seleção oficial do 79° Festival de Cannes

    "Laser-Gato", o curta do jovem diretor paulista, integra a mostra La Cinef, dedicada a filmes de escola de cinema. Lucas Acher e o produtor João Pereira Webber estão em Cannes e concederam à RFI a primeira entrevista deles no festival. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes "Laser-Gato" foi selecionado entre mais de 2.700 candidatos do mundo inteiro. O filme de Lucas Acher concorre na La Cinef, que visa apoiar novos cineastas, com 18 curtas de vários países. “A seleção do curta-metragem 'Laser-Gato' para o La Cinef de Cannes esse ano foi uma surpresa. Me traz felicidade de estar representando o Brasil. Ser o único diretor brasileiro em competição no festival traz uma maior responsabilidade”, afirma. Lembrando a boa fase do cinema nacional potencializada desde as conquistas de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, no ano passado, e "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, na edição anterior, Lucas Acher lamenta não ter outros filmes autorais brasileiros na seleção. “Tem o lado ruim de ser a única seleção brasileira esse ano no festival, diante da quantidade de filmes muito bons que a gente produz por ano. Então, existe uma pressão”, diz. O produtor João Pereira Webber acredita que "Laser-Gato" integra essa “grande onda do cinema nacional” e agradece “a todos os filmes que vieram antes”. “Eu sonho que a gente possa continuar essa grande onda e expandir o que o Brasil representa no mundo do cinema”, espera. São Paulo como personagem "Laser-Gato" é o projeto de doutorado em Cinema de Lucas Acher na NYU. Rodado em São Paulo, o filme acompanha a travessia inquietante de um adolescente pela cidade, em uma única noite, tentando salvar um gato. A narrativa é de suspense, de uma corrida contra o tempo, com toques de elementos mágicos, fantásticos, mas sempre com algum senso de humor. O personagem avança em uma situação de emergência que piora a cada decisão. Lucas Acher quis mostrar São Paulo de uma maneira diferente, fora dos clichês. “Me dá muita animação poder mostrar um recorte de São Paulo que eu acho que não é tão mostrado. São Paulo vista sob um viés que conversa mais com o cinema de gênero”, salienta. No trama, “a cidade, silenciosamente, conspira contra o protagonista. É um personagem, mas também é o grande conflito do filme para mim. Como esse protagonista não consegue navegar pela cidade e como a cidade não o vê? A cidade é indiferente a ele”, explica o cineasta que nasceu e cresceu em São Paulo. Baixo orçamento O curta é a segunda colaboração entre Lucas Acher e João Pereira Webber, que também produziu o trabalho de conclusão do mestrado do diretor paulista na NYU. "Laser-Gato", produzido pela Bruto Films e pela Balcão Filmes, foi rodado com baixo orçamento e financiado principalmente com capital privado. Mas a expectativa com essa participação em Cannes é ganhar visibilidade e poder costurar coproduções para transformar "Laser-Gato" em um longa-metragem. “Com isso, a gente vai começar o processo de editais”, antecipa João Pereira Webber, explicando que “apesar de não ter produzido o curta com dinheiro público, a gente está aqui por causa de dinheiro público. O Brasil tem uma coisa muito forte de apoiar artistas nos momentos grandes de divulgação internacional”, como em Cannes. A expectativa de Lucas Acher com a recepção do curta no festival e uma possível vitória na mostra La Cinef é grande. “A ideia é seguir em frente e, quem sabe, transformar esse curta em um longa-metragem”, espera o cineasta que já é apontado como uma das promessas do cinema brasileiro. "Laser-Gato", de Lucas Acher, será exibido nesta terça-feira (19) na mostra La Cinef, seleção oficial do Festival de Cannes dedicada a apoiar novos talentos.

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  7. MAY 15

    Carla Juaçaba leva a Paris pensamento arquitetônico que une clima, técnica e política do espaço

    Convidada das Palestras Chaillot, na Cité de l’Architecture, em Paris, a arquiteta brasileira Carla Juaçaba apresenta um percurso que articula duas décadas de produção entre o Rio de Janeiro e a Europa. Professora na Accademia di Mendrisio e vencedora, em 2026, do concurso para o Museu de Arte Kurpark Bad Ragaz, na Suíça, ela chega à capital francesa com uma obra consolidada por exposições, instalações e projetos, sempre guiada pela tensão entre natureza, técnica e história. Desde 2000 à frente de um escritório independente no Rio de Janeiro, Carla Juaçaba construiu uma trajetória que oscila entre comissões privadas e programas culturais, com presença frequente em instituições internacionais. Premiada com o ArcVision Women and Architecture Prize, em 2013, e o Emerging Architecture Award, da Architectural Review, em 2018, ela participou da Bienal de Veneza no mesmo ano, quando também construiu uma capela para o Vaticano — hoje integrada ao patrimônio italiano e ao acervo do Centre Pompidou, em Paris. Professora da Accademia di Architettura de Mendrisio desde 2019, onde se tornou titular em 2023, ela transita com naturalidade entre prática e reflexão. Em exposições e instalações — de Lisboa a Genebra, de Nova York a São Paulo —, sua arquitetura se aproxima das artes visuais, insistindo na ideia de que espaço não se separa de contexto. “Acho que estamos num momento em que o mundo ficou muito pequeno, e passamos a falar de uma arquitetura de reflexos internacionais”, afirma. Ainda assim, resiste a paralelos rápidos. “Não consigo comparar muito a arquitetura francesa com a brasileira, porque a questão climática, quando estou fazendo trabalhos no Brasil e na Suíça, muda completamente a perspectiva e o modo de fazer”. A diferença não é apenas técnica. “A questão climática transforma o modo de fazer.” No Brasil, segundo Juaçaba, isso se traduz em margem de liberdade. “A arquitetura brasileira tem uma liberdade dada pelo próprio clima. Não preciso enfrentar todas as camadas que a França precisa para se proteger do frio”. É uma diferença que se materializa no projeto. “No museu que está sendo feito no Brasil, o chão é de terra. Eu nunca poderia fazer isso na Europa.” Para a arquiteta, o clima, mais do que condicionante, torna-se linguagem. “É um problema global, mas sempre com questões locais, que exigem reação e reflexão.” Paisagem como estrutura, não ornamento Nos projetos recentes, essa atenção ao contexto assume forma quase programática. “Um museu na Suíça, em uma montanha com neve, e outro no Brasil respondem diretamente a esses contextos.” Em ambos, a paisagem não aparece como fundo, mas como estrutura. “Vejo a arquitetura como uma inserção em que natureza e objeto se misturam, um dentro do outro.” A consequência é a recusa do paisagismo como acabamento. “O projeto paisagístico precisa nascer junto com o projeto de arquitetura. Não é algo secundário, que vem depois.” A crítica é direta. “O paisagismo não deveria aparecer como um elemento decorativo, aplicado depois para tornar o projeto mais bonito.” Na prática, isso implica um olhar atento ao território. “[O paisagismo] precisa surgir junto, ligado às questões ambientais, atento à vegetação local e capaz de fazer coexistir essas duas dimensões.” Uma posição que atravessa desde instalações efêmeras, como o Pavilhão Humanidade, até trabalhos recentes apresentados em circuitos internacionais. Em Paris, Juaçaba opta por destacar projetos brasileiros, entre eles o Flor de Café, em Minas Gerais. “Vou falar principalmente de projetos do Brasil. Um deles é o Flor de Café, pensado para pequenos agricultores.” Ali, arquitetura, economia e história se entrelaçam. “É um projeto de longo prazo, ainda em busca de financiamento. Foi iniciado por uma mulher, que reuniu pequenos agricultores, valorizou o café que produziam e que antes era vendido por quase nada.” O desdobramento aponta para um programa maior. “Hoje, eles vendem o próprio produto.” O projeto inclui ainda um centro cultural. “Eles querem criar um centro do café ligado ao agriturismo, que também abrigará um museu sobre a história do Brasil a partir da exploração do café — uma história marcada pela destruição da Mata Atlântica.” A dimensão ambiental vem associada. “O projeto tem o apoio do instituto criado por Sebastião Salgado, que já atua no reflorestamento da região.” Leia tambémArtista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres Museu como extensão da paisagem Na Suíça, onde Carla acaba de vencer um concurso internacional, a lógica se mantém. “O museu em Bad Ragaz fará parte de um circuito cultural nas montanhas, onde já existem instituições em lugares como Davos.” O processo seletivo foi restrito. “Foram convidadas 12 mulheres do mundo inteiro, com um júri de 14 pessoas, e acabei vencendo”, conta. Ao descrever o projeto, Juaçaba sintetiza sua abordagem. “É muito brasileiro, mas realizado com tecnologia suíça.” A relação com o terreno é determinante. “Ele se desdobra entre as árvores existentes, mantém um pé no chão e permite que se caminhe pelo jardim e pelo museu no mesmo nível.” No Brasil, o museu dedicado à artista Laura Lima avança ainda mais nessa direção. “É um museu pensado para uma única artista, no Instituto Paz, ao lado de Inhotim.” A arquitetura, nesse caso, abdica de protagonismo. “Não é um museu que simplesmente abriga a obra. É um espaço concebido para ela, que só funciona a partir do trabalho dela.” A consequência é uma redefinição da própria ideia de edifício. “Existe algo de efêmero na obra dela, e o museu, embora não seja efêmero, carrega uma fragilidade.” A solução espacial explicita essa tensão. “É um museu que não tem chão. Ele pisa diretamente na terra, no barro vermelho de Minas Gerais.” Arquitetura e política do espaço Se o território condiciona a forma, a história orienta escolhas. “Eu penso nisso. O modelo da casa-grande e senzala é um programa brasileiro. Nunca fiz uma casa-grande e senzala moderna. Não gosto e não me sinto bem fazendo. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que não desejam isso, mas sim casas integradas à natureza do Rio”, aponta. A escala doméstica, nesse sentido, torna-se política. “São casas com as dimensões necessárias para viver.” Para a arquiteta brasileira, o modelo tradicional perpetua desigualdades. “A casa-grande e senzala pressupõem porta social e porta de serviço, o que é inaceitável.”

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  8. MAY 13

    Diácono brasileiro mostra como o luto pode ser pedagógico em livro nascido na pandemia

    O luto e as pequenas permanências que resistem ao tempo são o tema do livro do diácono permanente da Diocese de Ilhéus e escritor Rodrigo Dias de Souza, O Sabor das Coisas que Ficam (Nocego), lançado no ano passado e já traduzido para duas línguas, espanhol e italiano. A obra apresenta uma narrativa marcada pela espiritualidade e pelo afeto. “Durante a Covid, assim como no Brasil e em todo o mundo, enfrentamos a dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, de realizar os rituais de despedida das pessoas que amamos", lembra o diácono, para explicar a origem de seu quinto livro. "Diante daquela circunstância tão dolorosa para o povo brasileiro, sobretudo para aqueles que perderam um número imenso de parentes e amigos, fiquei pensando em uma geração que não teve a oportunidade de vivenciar o luto”, resume o autor. Segundo ele, o projeto parte dessa perspectiva. “Não apenas do luto pela pessoa que perdemos, mas também dos tantos lutos que experimentamos ao longo da vida: a perda de uma amizade, a perda daquilo que amamos”. “Assim, a pandemia surge como pano de fundo, mas sob a perspectiva de que o luto é pedagógico”, afirma. A obra percorre paisagens simbólicas e existenciais – da romaria de Bom Jesus da Lapa, no coração do sertão baiano, às ruas de Roma, aos rios da Itália e também a Belém – para narrar histórias de pessoas comuns. Este é o primeiro romance de Dias de Souza. O anterior, Em tempos de e-mail: cartas para Irene, aborda a exigência de rapidez nas sociedades contemporâneas, influenciadas pelas tecnologias – uma ideia que também fundamenta sua obra mais recente. “Todo escritor não escreve a partir do abstrato. A gente escreve daquilo que a gente vive. Meu cotidiano é profundamente marcado pela presença das pequenas coisas, das miúdas coisas da vida. E elas, de fato, me marcam. Esse é o meu traço literário, o meu jeito de ser”, afirma. "A proposta do livro Em tempos de e-mail: Cartas para Irene, que foi um divisor de águas na minha vida, é perceber outras urgências: a urgência de parar numa praça, de observar as pessoas, de contemplar o pôr do sol, algo tão necessário nos tempos em que vivemos, de observar os detalhes da vida, porque ela é feita de pequenos detalhes e eles mudam profundamente o destino de uma pessoa”, acrescenta. Poesia do cotidiano Rodrigo Dias de Souza participou, em 12 de maio, de um encontro sobre poesia lusófona, promovido pela Biblioteca Gulbenkian, na Cidade Universitária de Paris, ao lado dos poetas Alice Machado, António Topa e José Vala. O objetivo do evento foi promover o encontro entre autores de língua portuguesa de diferentes países, e leitores. Para ele, o momento foi "muito importante para encontrar e conhecer pessoas, além de destacar a poesia do cotidiano”. “A poesia que encanta é aquela que nasce da vida concreta, do que é mais simples, como um pequeno quarto, frequentemente presente nas minhas poesias. Fiquei muito feliz de estar aqui, de participar desse evento, de conhecer outras pessoas. Mas, sobretudo, de perceber que a poesia simples do cotidiano ainda toca a alma das pessoas”, conclui.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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