RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 3d ago

    Filme pernambucano 'A Margem do Rio' leva o Brasil à competição principal do Festival de Locarno

    O Festival de Locarno, na Suíça, um dos mais importantes eventos do cinema independente no mundo, começa nesta quarta-feira (5) e tem um filme brasileiro na disputa. O longa “A Margem do Rio”, codirigido e escrito por Enock Carvalho e Matheus Farias, compete ao Leopardo de Ouro, o prêmio máximo da mostra. Os dois diretores representam o cinema pernambucano, que tem acumulado conquistas no Brasil e no mundo. “A Margem do Rio” é o primeiro longa da dupla, que já realizou três curtas-metragens, premiados em vários festivais internacionais. Eles tinham acabado de finalizar o filme, rodado em 2025, e a seleção para o 79º Festival de Cinema de Locarno foi uma surpresa, conta Enock Carvalho em entrevista à RFI. “Para a gente, esse é um festival que representa um berço do cinema de autor. Muitos grandes cineastas já passaram pela competição de Locarno e foram descobertos dentro desse festival, que inspira também a gente desde sempre. Ficamos muito felizes e, sendo o único filme brasileiro na competição, essa chance de apresentar ele para o mundo foi uma ótima notícia”, ressalta. Em seus 80 anos de existência, Locarno sempre acolheu e acolhe o cinema de autor brasileiro. Mas, se vencer, “A Margem do Rio” será a terceira obra brasileira na história a receber o Leopardo de Ouro, depois de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, em 1967, e “Regra 34”, de Julia Murat, em 2022. “Saber que existe essa possibilidade cria um certo frio na barriga. Mas eu estou desde já muito empolgado com a participação do filme na competição oficial. Independentemente de prêmio, eu tenho muito orgulho por estar representando Pernambuco e o Brasil nessa mostra”, diz Enock Carvalho. Estreia mundial Ao todo, 17 filmes, de vários países, estão na competição oficial do festival suíço. A estreia mundial de “A Margem do Rio” acontece em 11 de agosto. O longa, coproduzido pela Alemanha, é estrelado por Caique Copque e Ítalo Martins. O filme acompanha as aventuras secretas e noturnas de Izaquiel, um auxiliar de serviços gerais no Recife, pelos manguezais da cidade. Seu mundo vira de cabeça para baixo quando ele cruza o caminho de Jeremias, um pescador intrigante e magnético. O encontro provoca no personagem “uma sensação muito única de desejo e de paixão. E aí, eles se veem em uma situação de muito perigo e violência”, revela o cineasta. A obra é um drama, um thriller e um filme queer, como outros trabalhos da dupla. Segundo Enock Carvalho, “A Margem do Rio” é um longa “muito pernambucano, muito brasileiro, porque reflete muito o Brasil contemporâneo e é uma história com um pé muito profundo na realidade”. Cinema pernambucano Ambientado no Recife, o longa tem também um clima de mistério e suspense, como vários filmes do premiado diretor Kleber Mendonça Filho, com quem, aliás, Enock Carvalho e Matheus Farias já colaboraram em várias produções. Carvalho reconhece que o trabalho do diretor de “O Agente Secreto” influenciou e influencia o cinema da dupla. “Naturalmente, eu sinto que há uma contaminação muito positiva de energia e de tom também. Os filmes do Kleber inevitavelmente acompanham a nossa formação enquanto cineastas. E o contato com as obras do Kleber e de outros cineastas pernambucanos faz com que a gente tenha a pulsão para criar e para realizar nossos filmes. Eu acho que é uma coisa que está superconectada”, afirma Enock, salientando sua alegria de fazer parte desse movimento cinematográfico pernambucano que ganha cada vez mais visibilidade no exterior. Outros filmes brasileiros em Locarno Além de “A Margem do Rio”, o longa Hanabi, da brasileira Ana Vaz, também foi selecionado para a mostra “Cineastas do Presente” do Festival de Locarno. A produção franco-brasileira foi rodada durante 10 anos no Japão e aborda a transformação do país após o tsunami e o acidente nuclear de 2011. Duas coproduções brasileiras também foram selecionadas. O argentino “Los Días Libres”, de Lucila Mariani, também integra a mostra “Cineastas do Presente”. Já “Piper Tiger”, o último longa do veterano cineasta independente americano James Gray, foi programado para as exibições ao ar livre na Piazza Grande de Locarno, a marca registrada do festival. O filme, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, será exibido no domingo, 9 de agosto. Antes da projeção, James Gray recebe um Leopardo de Ouro pelo conjunto de sua obra. O Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, vai até 15 de agosto. Clique no player acima para ouvir a entrevista completa de Enock Carvalho.

  2. 4d ago

    Cantora Bruna Hetzel leva músicas do nordeste brasileiro aos clubes de jazz de Paris

    Radicada na França desde 2022, a cantora potiguar Bruna Hetzel tem conquistado espaço em festivais e casas de jazz parisienses com um repertório que mistura MPB, influências nordestinas e o estilo gênero norte-americano. A artista, que também é antropóloga, falou sobre como suas origens no Rio Grande do Norte moldam sua identidade musical, sobre o desafio de apresentar a riqueza cultural brasileira ao público europeu e sobre seus novos projetos em Paris. Luiza Ramos, da RFI em Paris Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Bruna Hetzel chegou à França há três anos. A mudança, motivada inicialmente por uma questão pessoal, acabou se transformando em uma nova etapa de sua carreira artística.  A estreia internacional do trabalho aconteceu justamente em território francês. Primeiro em Nantes, onde iniciou parcerias com músicos locais e participou de festivais regionais, e depois em Paris, onde passou a se apresentar regularmente em clubes de jazz e espaços culturais.  Mas a música é apenas uma das vertentes de sua trajetória. Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Bruna também atua como antropóloga, pesquisadora vocal e professora de canto. Segundo ela, essas experiências se refletem diretamente na sua carreira artística: “Todas essas áreas acabam influenciando e reverberando muito no meu trabalho”.  Diferença de público entre Brasil e França A experiência de cantar na França também modificou sua relação com o palco. Segundo Bruna, o comportamento do público francês é bastante diferente daquele encontrado no Brasil. “Nós somos um povo bastante festivo, e as pessoas querem cantar junto, o corpo dança junto”, relata.  Já nos clubes de jazz franceses, a artista destaca a atenção dedicada à escuta. Nesse contexto, ela conta que sua formação em antropologia ganha ainda mais relevância. Antes de cada canção, ela costuma contextualizar a obra, apresentar seus autores e explicar as referências culturais presentes nas letras.  “Eles gostam de ouvir histórias”, afirma. “Mesmo que não entendam tudo o que a gente está cantando em português, ficam encantados em ouvir o contexto, fecham os olhos e mergulham naquela realidade”, descreve Bruna. Nordeste como identidade artística  Bruna destaca que a cultura nordestina ocupa um espaço central em sua produção artística e busca ampliar a visibilidade de uma região frequentemente ofuscada pela imagem internacional concentrada no eixo Rio-São Paulo.  “O Nordeste é uma região importantíssima para o nosso país. Culturalmente, muito do que a gente ouve na nossa música, na culinária brasileira, na cultura brasileira como um todo, vem do Nordeste”, afirma.  Segundo a cantora, quem ouve sua música encontra não apenas influências rítmicas nordestinas, mas também elementos da paisagem, das cores e da atmosfera cultural do litoral potiguar. Como no clipe da música "Canto do Mar", do seu álbum "Canto Azul". Lançado para celebrar seus dez anos de carreira, "Canto Azul" sintetiza essa busca por representar diferentes dimensões da música brasileira. O repertório reúne referências consagradas como Dorival Caymmi, Djavan, Joyce Moreno e Ivan Lins, além de compositores ligados ao Nordeste e de canções autorais.  Nova jam brasileira em Paris  Entre os projetos para os próximos meses, a cantora prepara uma iniciativa inédita em uma das mais tradicionais casas de jazz da capital francesa. Bruna foi convidada para coordenar uma jam session dedicada à música brasileira no Sunset Sunside, referência da cena jazzística parisiense, localizada na histórica Rue des Lombards.  "Estou tendo a grande alegria de colaborar com o Sunset Sunside e vou coordenar esse projeto, que é uma jam session de música brasileira", celebra a artista. A primeira edição está prevista para 20 de setembro e será dedicada à obra de Chico Buarque.  Além da nova jam session, a agenda da cantora inclui apresentações em festivais de verão na região parisiense, como Estivales Montrougiennes, no dia 4 de agosto, ao lado do músico francês Hugo Corbin, em uma homenagem à Bossa Nova.

  3. 5d ago

    Em turnê europeia no teatro, Pedro Cardoso revela projetos de revisitar Agostinho Carrara na TV

    Em turnê por cidades europeias com o monólogo "O Recém-Nascido", o ator e dramaturgo Pedro Cardoso usa o humor para abordar temas políticos e sociais. Em entrevista à RFI, o criador de personagens marcantes da televisão brasileira, como Agostinho Carrara, explicou que a peça nasceu de uma tentativa de compreender as origens do fascismo e do autoritarismo no Brasil. Para ele, certos comportamentos observados na política refletem impulsos infantis mal resolvidos que persistem na vida adulta. Luiza Ramos, da RFI em Paris Conhecido pelo trabalho na televisão e por suas opiniões políticas nas redes sociais, Pedro Cardoso afirma que o teatro continua sendo seu principal espaço de criação artística. Em sua nova turnê europeia, ele apresenta "O Recém-Nascido", uma “comédia filosófica” construída a partir de uma pergunta inusitada: o que aconteceria se uma pessoa fosse capaz de se lembrar do próprio nascimento?  Segundo o ator, a peça faz parte de um conjunto de reflexões iniciadas em trabalhos anteriores sobre a ascensão do autoritarismo no Brasil. “Eu escrevi dois espetáculos de teatro, um que se chamava ‘À Sombra do Pai’ e esse outro, ‘O Recém-Nascido’, que são tentativas de reflexão a respeito da gênese desse fascismo no Brasil”, explica.  A ideia surgiu da observação de comportamentos políticos que lhe pareciam contraditórios. “Um dos aspectos que me espantava era ouvir pessoas dizerem: ‘Eles parecem umas crianças mimadas’. Aí eu percebi que havia uma dramaturgia interessante nisso, que era essa sobrevivência dos impulsos infantis dentro do homem adulto”, diz o ator.  Para Cardoso, o humor é uma ferramenta privilegiada para abordar questões complexas. Embora frequentemente seja visto como uma forma de expressão menor em comparação ao discurso acadêmico, ele acredita que a comicidade tem um papel essencial na compreensão da realidade. “O humor é muito desprestigiado culturalmente. O modo de saber que tem valor cultural é o modo acadêmico, a intelectualidade, a erudição. E o humor é sempre considerado uma expressão popular. Historicamente, o humor foi retirado das esferas de poder e o poder passou a ser representado sempre pelo aspecto sério e cerimonioso das relações”, contextualiza. “O humor e o aspecto sério dos acontecimentos da vida são complementares.”  ‘O Recém-Nascido’ reflete diferenças da infância no Brasil e na Europa  Embora o espetáculo dialogue com a realidade política brasileira, Cardoso diz que "O Recém-Nascido" é também sua primeira peça profundamente inspirada pela experiência de viver parte do seu tempo na Europa.  “Eu diria que é a primeira peça que eu escrevi sobre a Europa”, conta. “É muito sobre essa criança europeia que tem a sua infância abreviada e que é obrigada a ser um adulto antes de estar pronta para ser um adulto.”  Na visão do dramaturgo, a forma como as crianças são criadas em diferentes sociedades ajuda a moldar comportamentos na vida adulta. Segundo ele, a história social europeia produziu uma relação distinta com a infância.  “Na Europa, os adultos precipitam o fim da infância porque são eles que têm que tomar conta da criança. Eu acho que isso tem um preço altíssimo para a psicologia da pessoa”, avalia.  Teatro como ponto de encontro dos brasileiros  A recepção do espetáculo fora do Brasil também surpreendeu o ator. O que ele imaginava ser apenas uma circulação internacional de seu monólogo acabou se transformando em um encontro com comunidades brasileiras espalhadas pelo continente.   “Quando eu fui fazer a peça em Barcelona, aconteceu uma coisa que eu não imaginava. Tornou-se uma reunião comemorativa do Brasil”, relata. A experiência levou o ator a redefinir o sentido da própria turnê.  “Isso não é uma turnê internacional, isso é uma turnê nacional. Eu não vou jouer en français (atuar em francês), eu vou atuar em português", brinca. “Adoraria um dia fazer uma peça em francês, espanhol e inglês. Mas me agrada, no momento, recolher essas almas brasileiras espalhadas pelo mundo. Há uma diáspora brasileira”, diz Pedro Cardoso.  Agostinho Carrara pode voltar  Apesar da distância da televisão nos últimos anos, Cardoso revelou que existem conversas em andamento para revisitar Agostinho Carrara, personagem que marcou gerações na sitcom "A Grande Família". Segundo ele, a ideia discutida ao lado dos diretores e roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado seria imaginar como estaria o personagem nos dias atuais.  “A gente queria fazer um pulo no futuro do Agostinho”, conta. “Qual é a família brasileira hoje que não é mais aquela de ‘A Grande Família’? Tem uma nova família a ser retratada. E seria também uma forma de recuperar a alegria do personagem. Era realmente um personagem muito brasileiro, muito Macunaíma”, recorda.  O projeto ainda está em fase de negociação, mas o ator demonstra otimismo. “Há interesse lá da Globo, há interesse nosso, já há uma conversa adiantada e as coisas estão indo bastante bem”, afirma. Leia tambémSucesso da televisão brasileira, Avenida Brasil estreia na França

  4. Jul 31

    Brasileira cria produto inovador semelhante ao chocolate e dá nova vida a resíduos agrícolas

    Ninna Granucci é uma brasileira radicada na França que vem chamando a atenção por transformar resíduos da agricultura em ingredientes alimentares de alto valor agregado. Cofundadora e presidente da Green Spot Technologies, a doutora em biotecnologia criou, em 2018, esta empresa de produtos em pó que podem substituir o chocolate, entre outros alimentos, com o objetivo de solucionar o grande volume de desperdício de alimentos gerado pela agricultura no mundo. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Europeu de Mulheres Inovadoras em 2022 e o de Pioneira na Ciência e Tecnologia da Iniciativa para Mulheres da Fundação Cartier em 2024.  Vitória Barreto, em Paris para a RFI A Green Spot, instalada em Toulouse, no sul do país, desenvolveu um processo de fermentação que transforma resíduos agrícolas em ingredientes nutritivos e benéficos à saúde, que podem ser alternativas ao chocolate e pastas de diversos sabores.  Depois de concluir o mestrado em biotecnologia em Santa Catarina, Ninna Granucci foi fazer um doutorado na Nova Zelândia para desenvolver o projeto; lá, conheceu seus cofundadores, que a convenceram a abrir a empresa na França. A iniciativa atraiu investidores como o Banco Público de Investimento francês (BPI), entre outros, como recorda a empreendedora. “Vimos um grande interesse da França como país em pensar a alimentação do futuro e o sistema de produção de alimentos. Entramos nas áreas de interesse do país e recebemos bastante investimento público.”   No caso do produto semelhante ao chocolate, a produção do ingrediente começa com a coleta de favas, cujos resíduos costumam ser descartados ou usados para nutrição animal e produção de energia. Na sequência, esses restos passam por um processo de fermentação, que Ninna considera ‘mágico’.  Ela explica que o método “retira o gosto meio amargo (do resíduo) e cria aromas quentes, que remetem ao aroma do chocolate”. O resultado desse processo é o Féverolat, produto que a empresa patenteou. Há três semanas, as trufas feitas com esse ingrediente inovador já fizeram parte de um jantar no Castelo de Windsor.   Embora a Green Spot não produza apenas doces, a empresa aproveitou a volatilidade do mercado de cacau para criar a marca de panificação e doces Milatea para atender às necessidades desse setor específico.  “O mercado era muito favorável, porque o preço do cacau disparou em 2025. (...) E aí a gente falou que a nossa tecnologia poderia resolver em parte isso.”  Ao lançar o produto, Ninna afirma que sentiu muita resistência da indústria, que demora, segundo ela, anos para aceitar um novo ingrediente.  “Somos uma empresa tecnológica de fermentação e, normalmente, quando falamos com algumas empresas de alimentos, elas acham que vai ser uma coisa meio Frankenstein de laboratório. Então criamos a Milatea para poder comercializar esses ingredientes,” explica Ninna Granucci.  A empreendedora brasileira revelou que, no fim do ano, um novo produto está por vir, ainda sem mencionar o novo sabor, mas adiantando que ele é ‘primo' do chocolate, um produto de preço extremamente volátil e produzido em regiões muito específicas, nas quais a empresa acredita poder contribuir para dar mais sustentabilidade.

  5. Jul 29

    'Pela primeira vez, as novas gerações poderão estar livres do HIV', comemora Roseli Tardelli

    Na década de 1990, a jornalista Roseli Tardelli perdeu um irmão para a Aids. Ela recorreu à Justiça e ganhou o direito à cobertura do tratamento pelo plano de saúde. Desde então, engajou-se na luta contra o HIV. Fundadora da Agência de Notícias da Aids, ela participa, nesta semana, da 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro até sexta-feira (31). Vivian Oswald, correspondente da RFI no Rio de Janeiro Esta é a primeira vez que a América Latina e o Brasil sediam uma conferência internacional desse porte para falar sobre HIV e Aids. Em entrevista à RFI, Roseli Tardelli aponta os avanços já anunciados e o que é possível esperar até o final do evento. RFI : Como você avalia os debates até agora?  Roseli Tardelli : Do ponto de vista político, o fato de a conferência acontecer na América Latina talvez proporcione um novo olhar para a nossa região, o que é muito importante. O Brasil construiu, ao longo dessas quatro décadas, uma resposta bastante significativa quando falamos de HIV e Aids. Mas isso já não acontece em países como o Paraguai e o Peru. Precisamos ter uma resposta mais homogênea em nossa região. Além disso, é a primeira vez que uma mulher preside a conferência: a doutora Beatriz Grinsztejn, uma pesquisadora muito importante da Fiocruz. A equipe da Fiocruz foi responsável pela pesquisa da PrEP (profilaxia pré-exposição). RFI :  O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que o Brasil não aceitaria pagar valores estratosféricos por medicamentos. RT : O valor estratosférico ao qual o ministro se refere, trata-se, basicamente, de um medicamento chamado Lenacapavir. É uma medicação na qual, ao tomar a injeção a cada seis meses, o vírus não entra na corrente sanguínea. Ou seja, pela primeira vez, o mundo tem a possibilidade de quebrar a transmissão do vírus. Isso é muito importante. Só que está sendo difícil para o Ministério da Saúde trazer o Lenacapavir para o SUS porque, segundo o ministro, as negociações precisam continuar, pois os preços que a empresa – no caso, a Gilead – quer cobrar são estratosféricos. É preciso chegar a um preço compatível com o orçamento do governo brasileiro. RFI : O Brasil é um mercado grande e pode servir de bússola na América Latina?  RT : Essa é a ideia. Não só na América Latina, como no mundo. Eliminar a transmissão sexual do HIV em um país que possui o SUS mostra ao mundo que é possível. Há outra medicação chamada Cabotegravir, da GSK. O Ministério da Saúde anunciou a compra e a solicitação de inclusão no SUS a partir deste mês, prevendo a distribuição até o final do ano. Foi o que o ministro falou em coletiva [de imprensa]. Essa capilaridade que o SUS traz é muito importante, pois o Brasil já oferece, desde 1996, antirretrovirais que impediram que as pessoas morressem. Eu assumi essa tarefa de trabalhar com informação, conectando-a à prevenção, porque perdi um irmão na década de 1990. Naquele momento, os planos de saúde não atendiam pessoas que viviam com HIV e Aids. Nossa família protagonizou uma discussão pública com o convênio, entramos na Justiça e a mídia foi nossa parceira. A Justiça, que nem sempre é tão justa, foi rápida conosco: ganhamos em primeira instância, eles recorreram, ganhamos em segunda instância e virou jurisprudência em 1996. O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou uma legislação determinando que os planos deveriam atender doenças pré-existentes. Por isso estou nessa luta desde então. Fundamos a agência em 2003 e estamos aqui cobrindo esta conferência. RFI : O que significa ter uma medicação profilática? RT : Significa que as novas gerações poderão estar livres do HIV. Isso é maravilhoso. Foi uma chance que a minha família não teve, que muita gente não teve. Temos um índice de 42 milhões de pessoas vivendo com HIV hoje no mundo. É muita coisa. Uma pandemia que existe há 45 anos. Está na hora de quebrar a cadeia de transmissibilidade do vírus, e nós temos essa condição com novas medicações. Esses medicamentos precisam chegar às populações mais vulneráveis. Vou arriscar dizer uma coisa: todo mundo que faz sexo é vulnerável ao HIV. Tenho poucas amigas que usam camisinha, as mulheres principalmente. Na cidade de São Paulo, temos máquinas em cinco estações do metrô que fazem a dispensação de profilaxias pré e pós-exposição. Isso também está no SUS. Se você teve uma relação desprotegida e acha que pode ter contraído o HIV, tem até 72 horas para procurar um local específico de saúde. O Ministério da Saúde tem uma página que indica todos os lugares do Brasil onde encontrar a profilaxia pós-exposição. É importantíssimo que as pessoas saibam disso. Quando chegarem essas novas medicações injetáveis de profilaxia pré-exposição, será um avanço muito importante. RFI : Esse é outro obstáculo: ter que dizer que está procurando o remédio. RT : Estamos falando de tecnologias novas no século XXI. Mostramos tudo isso aqui na conferência. É muito interessante a evolução tecnológica, mas o que não evolui na mesma velocidade é o enfrentamento ao estigma e à discriminação. As pessoas que vivem com o vírus, infelizmente, ainda sofrem muito estigma e discriminação. Para quebrar isso, temos que falar mais sobre o fato de que somos todos vulneráveis: mulheres, homens, a população envelhecida. Esses medicamentos precisam chegar onde são necessários. Temos agora essa pílula com um mês de duração, e a Merck assinou esse memorando de intenções hoje com o Ministério da Saúde. Então, acredito que, até o final do ano ou o ano que vem, o Brasil estará novamente na ponta quando falamos de prevenção. Isso é fundamental para que as novas gerações não precisem vivenciar a tristeza e a dor. A falta de acolhimento ainda existe no mundo, quando falamos de uma doença que não tem cura, mas tem prevenção. RFI : A Fiocruz firmou uma parceria com a farmacêutica para produzir nacionalmente. Talvez isso ajude a baixar os preços? RT : O Brasil pode ser um polo e distribuir para a América Latina e América Central. Para nossa sorte, a doutora Mariângela Simão, que foi vice-presidente da Organização Mundial da Saúde e coordenou a ação de dispensação de vacinas durante a Covid, esteve no Ministério da Saúde até este mês. O Brasil construiu uma resposta bastante significativa, e ela precisa ser mantida e ampliada. Saúde não se faz com negacionismo, saúde se faz com ciência. Agora, em relação a essa questão, o que quero trazer para nossa reflexão é: gente, vamos falar mais sobre sexualidade e respeitar a sexualidade e a orientação sexual dos filhos.

  6. Jul 28

    Alianças começam a definir a disputa presidencial no Brasil, avalia cientista político Gaspard Estrada

    A poucos dias do encerramento do prazo para a oficialização das candidaturas às eleições de outubro no Brasil, as negociações para a formação de chapas e alianças entram em sua fase decisiva. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amplia sua capacidade de reunir apoios políticos, sobretudo no campo da esquerda, o campo conservador enfrenta dificuldades para consolidar uma frente unificada em torno de Flávio Bolsonaro. Para o cientista político Gaspard Estrada, da London School of Economics, o cenário da disputa começa a se desenhar. Passada a fase das articulações de bastidores, a campanha entra agora em um momento de maior atenção por parte do eleitorado. Na avaliação de Estrada, as pesquisas refletem uma vantagem de Lula que se traduz também na capacidade de agregar apoios. “As pesquisas já estão mostrando justamente uma vantagem para o presidente”, afirma. Segundo ele, enquanto o chefe de Estado consegue unificar forças à esquerda, Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para atrair os partidos de direita em torno de sua candidatura. Essa dificuldade se manifesta em um contexto de divisões cada vez mais visíveis no campo conservador. Para o cientista político, recompor a direita será a principal missão de Flávio Bolsonaro nas próximas semanas. Estrada observa que o senador tenta construir uma imagem mais moderada, mas que as denúncias envolvendo seu nome, como as relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, acabam produzindo dúvidas entre lideranças e partidos aliados. “Essas revelações, essas denúncias, elas estão revelando a verdadeira face do Flávio Bolsonaro, que é muito similar à do pai”, avalia. O resultado, segundo o especialista, é um crescimento da desconfiança sobre o futuro político do candidato e uma tendência de setores da direita a optarem pela neutralidade. Além das dificuldades nacionais, fatores locais também pesam nas negociações. Estrada destaca que lideranças partidárias estão cada vez mais condicionadas às realidades eleitorais de seus estados, o que nem sempre coincide com os interesses de uma candidatura presidencial. Ele cita como exemplo o caso de Ciro Nogueira, no Piauí, onde a necessidade de dialogar com eleitores historicamente ligados a Lula influencia os cálculos políticos. Para o pesquisador, essas “lógicas estaduais” acabam se tornando um obstáculo adicional ao projeto de Flávio Bolsonaro. Eleição mais competitiva Do lado governista, a construção dos palanques regionais avançou mais lentamente do que em disputas anteriores. Para Estrada, isso é um sinal de uma eleição mais competitiva. Embora reconheça que a disputa pelo governo de São Paulo permaneça desfavorável ao campo lulista, ele relativiza o impacto dessa situação, lembrando que o eleitor brasileiro já demonstrou, em outras eleições, disposição para dividir o voto entre candidatos de correntes políticas distintas. “Essa fórmula de o eleitor votar por candidatos de cores partidárias diferentes não é uma coisa nova no cenário político brasileiro”, observa. Na leitura do especialista, a situação mais delicada para Lula não está necessariamente em São Paulo. Enquanto o presidente já conta com uma estrutura política mais consolidada naquele estado, Minas Gerais continua cercada de indefinições. “O quadro mais preocupante para o presidente Lula hoje é em Minas”, afirma Estrada, ressaltando que o cenário mineiro permanece aberto tanto para o campo governista quanto para a oposição. O cientista político também chama atenção para a possibilidade de influência externa na disputa brasileira. Em sua avaliação, o governo dos Estados Unidos já demonstrou disposição para interferir no processo eleitoral e deve continuar atuando até a votação. Mais do que iniciativas oficiais, porém, ele aponta o papel das plataformas digitais como principal foco de preocupação. Estrada lembra episódios ocorridos em outros países da região, marcados pela circulação massiva de desinformação, e alerta para o risco de fenômeno semelhante no Brasil. Nesse contexto, defende, caberá à imprensa reagir rapidamente para identificar e contextualizar eventuais campanhas de notícias falsas capazes de afetar o debate eleitoral.

  7. Jul 24

    Universidade de Coimbra reforça presença no Brasil e aposta em inovação com empresas e Fiocruz

    A Universidade de Coimbra vai ampliar sua atuação no Brasil com a abertura de uma representação própria em São Paulo, prevista para os próximos meses. Mais do que reforçar a captação de estudantes brasileiros, a instituição portuguesa pretende aproximar sua produção científica do setor empresarial e ampliar projetos de inovação e transferência de conhecimento, a exemplo da parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Luiza Ramos, da RFI em Paris O vice-reitor para Inovação, Relação com Empresas e Empregabilidade da Universidade de Coimbra, Nuno Mendonça, afirmou à RFI que a iniciativa representa uma nova etapa da presença da universidade no país, voltada para o setor industrial e empresarial do Brasil. “Já temos um centro de estudos superiores instalado na Casa de Portugal, em São Paulo, desde 2024 (...) Agora estamos realizando um reposicionamento. Na Casa de Portugal, estamos mais direcionados aos alunos e à parte formativa, mas a partir de setembro vamos trabalhar mais a parte da inovação e do ecossistema empresarial brasileiro”, disse o vice-reitor. Para Mendonça, o Brasil oferece um ambiente estratégico para essa aproximação. “É uma evolução dessa presença em um mercado que é suficientemente grande e dinâmico”, pontua, “o termo correto é ampliação, um incremento daquilo que é a oferta da Universidade de Coimbra para o brasileiro como um todo”. O acadêmico explica que o objetivo é colocar a pesquisa e os pesquisadores da Universidade de Coimbra em contato com empresas brasileiras. Parcerias em saúde, agronegócio e tecnologia O vice-reitor também destacou que a universidade quer aprofundar cooperações já existentes com instituições brasileiras em diferentes áreas econômicas. “Seja com a Fiocruz na área da saúde, seja com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) na área das petroquímicas, seja com o agronegócio, com o turismo ou com a economia azul”, enumerou. A parceria com a Fundação Oswaldo Cruz é uma das mais antigas. Segundo Mendonça, a colaboração tem sido revitalizada nos últimos anos e envolve iniciativas concretas de pesquisa e inovação. “Trabalhamos em formação conjunta, na introdução do medicamento antimalária produzido pela Farmanguinhos no mercado europeu por meio de Portugal, e avaliamos parcerias na área da radiofarmácia para uma oferta ao SUS (Sistema Único de Saúde)”, destacou. Ele acrescenta que a experiência na área da saúde poderá servir de modelo para novas cooperações em outros setores da economia brasileira. Troca de conhecimento em duas direções Embora Coimbra seja tradicionalmente associada à formação de estudantes brasileiros, Mendonça destaca que a relação vai além da mobilidade acadêmica. “O Brasil tem aqui um ecossistema singular que pode ser útil a toda a comunidade de países de língua portuguesa”, afirmou. Segundo ele, o dinamismo econômico brasileiro e a experiência de empresas nacionais em inovação devido à proximidade com o mercado americano, também representam oportunidades de aprendizado para Portugal.  “Nós podemos nos beneficiar e aprender novos desafios e novas fronteiras de conhecimento que nos ajudem a desenvolver novas linhas de pesquisa”, disse.  “A maior universidade brasileira fora do Brasil” Atualmente, cerca de 5 mil estudantes brasileiros frequentam a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa. O vice-reitor acredita que a nova estrutura em São Paulo poderá fortalecer ainda mais essa ligação histórica, sobretudo ao aproximar a universidade do setor produtivo brasileiro. “Costumamos brincar que somos a maior universidade brasileira fora do Brasil. Existe uma ligação histórica muito forte entre Coimbra e o Brasil. Durante séculos, Coimbra foi a única universidade em todo o espaço lusófono. Sabemos que há um mercado em grande crescimento, com uma população jovem expressiva, o que pode nos ajudar a ampliar ainda mais o número de estudantes brasileiros”. Para Mendonça, o crescimento da população jovem brasileira e o fortalecimento das parcerias acadêmicas e empresariais podem ampliar ainda mais a presença de estudantes brasileiros na instituição. “Se trabalhamos com empresas do agronegócio que precisam de pesquisa, e se tivermos pesquisadores ou alunos de doutorado brasileiros que possam aprender conosco e levar esse conhecimento de volta para o Brasil, isso será uma contribuição importante para o desenvolvimento econômico”, concluiu.

  8. Jul 22

    Castelo medieval no interior da França vira palco para festival de música brasileira

    O que poderia parecer improvável se tornou realidade pelas mãos do francês Louis de Survilliers: juntar música brasileira a um castelo medieval do século 13 no interior da França. O Festival Quat'Sos Bossa & Jam mistura bossa nova, MPB e jazz em um ambiente medieval e intimista com vinhos da região de Bordeaux nos dias 24 e 25 de julho em La Réole, cidadezinha de cerca de 5 mil habitantes.   O idealizador do evento é um músico francês de 33 anos, que passou parte da infância no Brasil, experiência que deixou marcas profundas em sua formação e ajudou a moldar o projeto. O cenário escolhido para o festival também tem um significado especial: o Château des Quat'Sos pertence à sua família e foi recuperado pelos pais há alguns anos.  "Eu sempre sonhei em montar um festival em volta da música brasileira", conta Louis de Survilliers. Para ele, o encontro entre um monumento histórico e a música brasileira cria uma identidade única. "É a parte interessante do festival. Essa mistura da Idade Média com a música brasileira faz surgir um evento com uma identidade peculiar".  A programação da terceira edição reflete justamente essa ideia de encontro entre culturas. Louis, que também se apresenta no festival com o projeto Louis na Bossa, explica que a maioria dos artistas convidados faz parte da cena musical que frequenta em Paris. Festival reúne diferentes gerações da MPB O resultado é um cartaz que reúne diferentes gerações e estilos da música brasileira. Na sexta-feira, sobem ao palco Louison Camio, a cantora paulistana Nanná Milano e o músico brasileiro Sidney Rodrigues, violonista radicado na França há mais de duas décadas e conhecido por seu trabalho entre a MPB, a bossa nova e o jazz.  No sábado, a programação continua com Louis na Bossa, seguido pelo trio franco-brasileiro Nácar, que explora a fusão entre tradições afro-indígenas do Nordeste brasileiro e música eletrônica contemporânea. As duas noites terminam com uma jam session, proposta que ocupa um lugar central na filosofia do festival.  "A ideia sempre foi dar uma visão global do Brasil, mostrar a cultura brasileira na sua diversidade", explica o organizador. "As jam sessions permitem que artistas de universos diferentes se encontrem, toquem juntos e criem justamente essa mistura."  Relação com a música brasileira A relação de Louis com a música brasileira vem da infância. Filho de uma família ligada à música clássica, ele cresceu ouvindo os sons descobertos pelos pais durante os anos vividos no Brasil.  “Eu venho de uma família de músicos clássicos. A minha tia é pianista, eu fiz conservatório, canto lírico. Quando meus pais descobriram a música brasileira, foi uma revelação para eles. Essa relação com a música brasileira vem desde quando eu era menininho”, conta Louis.   “Sempre escutei música brasileira. É algo que faz parte de mim e procuro transmitir ao público, por meio da minha arte, a minha visão da música brasileira", diz. Para o músico, a força da música brasileira está justamente na capacidade de reunir características aparentemente contraditórias.  "A música brasileira é uma mistura de sofisticação com simplicidade, talvez, porque a música brasileira consegue ser simples ao mesmo e, ao mesmo tempo, super complexa. É uma música muito alegre, mas que é triste também porque tem aquela coisa da saudade. A música brasileira não é só do gosto dos franceses, é uma música universal”, destaca.  Leia também‘A música brasileira tem essa coisa que todo mundo gosta’: Festival de Choro reúne mestres em Roterdã Além dos concertos, o público poderá aproveitar vinhos da região de Bordeaux, food trucks e uma atmosfera intimista que diferencia o evento dos grandes festivais de verão.  O Quat'Sos Bossa & Jam acontece nos dias 24 e 25 de julho, com abertura dos portões às 19h e início dos concertos às 20h, no Château des Quat'Sos, em La Réole. Os ingressos custam € 15 para um dia e € 20 para os dois dias do festival e podem ser encontrados nas redes sociais do Château des Quat'Sos.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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