RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 10h ago

    Cantora Manu Le Prince celebra os quatro elementos em show do novo álbum ‘Terra Canta’ em Paris

    “Sou francesa, mas tenho o coração brasileiro”, resume a cantora e compositora Manu Le Prince, que há mais de três décadas mantém uma relação profunda com o Brasil. Esse vínculo está no centro de “Terra Canta”, seu novo álbum gravado entre Paris e o Rio de Janeiro, em que a artista aproxima jazz e música brasileira em um repertório que passa por nomes como Dorival Caymmi, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e Marcos Valle. Recém-chegada do Brasil, Manu Le Prince descreveu com entusiasmo a recepção ao novo repertório. A cantora realizou apresentações ao lado de músicos ligados a algumas das maiores referências da música instrumental brasileira, experiência que definiu como um privilégio. “Foi realmente muito lindo, com uma turma de músicos muito especiais”, contou. Entre eles estavam o baterista Márcio Bahia, colaborador histórico de Hermeto Pascoal, e o pianista Kiko Continentino, conhecido por sua proximidade artística com Milton Nascimento. “Foi um grande presente”, resumiu a cantora. Em entrevista à RFI, Manu destacou a importância de Milton Nascimento em sua aproximação com a música brasileira. Segundo ela, o primeiro contato com a obra do compositor mineiro foi determinante para a escolha de cantar em português. “O Milton foi realmente a razão que me fez cantar música brasileira”, afirmou. “Fiquei tão emocionada quando ouvi pela primeira vez que realmente me deu essa vontade de cantar música brasileira.” A admiração se reflete também em sua discografia recente. Em um álbum anterior, dedicado ao saxofonista americano Wayne Shorter, Manu gravou canções de Milton Nascimento, entre elas “Tarde” e “Vera Cruz”, reafirmando o diálogo constante entre o jazz e a música popular brasileira em sua obra. Os quatro elementos como fio condutor Em “Terra Canta”, a artista buscou reunir diferentes influências musicais e culturais a partir de um conceito inspirado nos elementos terra, água, fogo e ar. O projeto reúne composições brasileiras, standards do jazz e canções francesas em uma mesma narrativa poética. “Eu quis fazer essa mistura de várias coisas diferentes”, explicou. Segundo ela, os quatro elementos funcionam como um eixo que permite aproximar repertórios de distintas origens. “Foi uma maneira de reunir essas coisas diferentes, de países diferentes”, disse. O álbum inclui homenagens à natureza, referências à Amazônia e composições inéditas, como uma parceria com o músico Jorge Continentino, autor da música para a qual Manu escreveu a letra. A descoberta de uma canção francesa pelo público brasileiro Entre os momentos marcantes da passagem pelo Brasil, Manu destacou a reação do público a uma obra pouco conhecida fora da França: “Les Fourmis Rouges”, do compositor e cantor Michel Jonasz. A artista contou que a canção, apresentada durante os shows que antecederam o lançamento oficial do disco, despertou grande curiosidade entre os espectadores brasileiros. “Os brasileiros não conhecem, eles adoraram essa música quando nós fizemos lá”, relatou. As apresentações serviram como uma espécie de pré-lançamento do álbum, que chegou às plataformas e lojas no final de agosto, após concertos realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo. O lançamento também recebeu elogios da imprensa especializada francesa. Em resenha publicada pelo portal Latins de Jazz, a jornalista Nicole Videmann descreveu “Terra Canta” como "uma viagem musical de rara intensidade poética" e destacou a criação de um "universo musical refinado e acolhedor, propício às emoções". A crítica ressaltou ainda a capacidade de Manu Le Prince de reunir jazz, música brasileira e canção francesa em uma obra concebida como uma ode à natureza. Uma banda franco-brasileira para a turnê francesa A nova turnê pela França reflete a mesma ponte cultural que marca o álbum. No concerto programado para o Café de la Danse, em Paris, no dia 8 de outubro, Manu estará cercada por músicos dos dois países. Do lado brasileiro, participam o saxofonista Raul Mascarenhas e o baixista Acelino de Paula. A formação também inclui o filho da cantora, Gaël Le Prince Caetano, herdeiro de uma dupla identidade franco-brasileira. Gaël é filho do baterista paulista Tatá de Paula, músico já falecido e figura importante na trajetória pessoal e artística da cantora. Entre os músicos franceses estão o contrabaixista Philippe Bussonnet e o baterista Arnaud Dolmen, um dos nomes mais premiados do jazz francês contemporâneo. Manu também anunciou participações especiais, entre elas a trompetista Stéphane Belmondo e o pianista Léo Montana.

  2. 1d ago

    Desejo de mudança impulsionou Flávio; Lula leu mal o eleitorado, diz cientista político

    A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições no Brasil pode ser explicada por dois fatores principais: as pesquisas voltaram a subestimar o eleitorado bolsonarista e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpretou de forma equivocada o desejo de mudança manifestado pelos eleitores, avalia o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE). Adriana Moysés, da RFI em Paris Para Estrada, o resultado confirmou uma tendência já observada nas disputas presidenciais de 2018 e 2022: as pesquisas têm dificuldade em captar o tamanho real do eleitorado bolsonarista nos últimos dias de campanha. Segundo ele, a votação de Lula ficou próxima das projeções dos institutos, enquanto Flávio Bolsonaro voltou a superar as expectativas. "Há muito claramente essa situação em que as pesquisas erram ao estimar o número de eleitores do bolsonarismo", afirmou. O cientista político também identifica um erro de diagnóstico na campanha petista. Em sua avaliação, Lula disputou a eleição sob a premissa de que o eleitorado buscava a continuidade das políticas implementadas durante seu governo, quando os resultados das urnas apontam justamente para uma demanda por mudanças. "O próprio slogan da campanha do presidente Lula, 'Brasil pronto para mais', sinaliza justamente uma vontade de continuidade com as políticas públicas atuais", observou. Para Estrada, a composição do futuro Congresso e o desempenho da direita nas urnas mostram que uma parcela significativa dos eleitores deseja uma mudança de rumo. "O que demonstra esta eleição, e em particular o Legislativo, é que há um grande sentimento de mudança", resumiu. Embora a campanha petista tenha incorporado esse discurso nas semanas finais da corrida eleitoral, a correção de rota teria ocorrido tarde demais. "É evidente que isso hoje é insuficiente, sem uma chacoalhada geral e uma mudança de rota no discurso", avaliou. O pesquisador afirma que o presidente precisará promover uma revisão profunda da estratégia para o segundo turno. Na sua análise, não bastará mobilizar a base tradicional do lulismo. Será necessário convencer os eleitores indecisos e aqueles que deixaram de comparecer às urnas de que um novo mandato pode produzir transformações concretas em suas vidas. Estrada observa, porém, que ainda há fatores capazes de influenciar a mobilização do eleitorado na reta final da campanha. Entre eles está o pagamento do Bolsa Família com o reajuste de 15% anunciado por Lula em meados de setembro, previsto para 19 de outubro, na semana do segundo turno. Na avaliação do cientista político, a medida pode ter reflexos sobre a participação eleitoral e ajudar o presidente a recuperar parte da desvantagem registrada no primeiro turno. Fortalecimento do bolsonarismo no Congresso Estrada considera especialmente relevante o fortalecimento institucional do bolsonarismo no Congresso Nacional. Segundo ele, a ampliação da bancada do PL no Senado terá consequências que ultrapassam a atual disputa presidencial. "Esse resultado é muito significativo politicamente", afirmou. O cientista político lembra que os senadores exercem mandatos de oito anos e possuem prerrogativas decisivas em temas como a aprovação de autoridades, a composição do Supremo Tribunal Federal e eventuais processos de impeachment. "A consequência política disso vai além de um [eventual] mandato de Flávio Bolsonaro", destacou. Na Câmara dos Deputados, ele vê outro dado histórico. Estrada observa que a reforma eleitoral aprovada para reduzir a fragmentação partidária está produzindo um Parlamento com menos legendas relevantes. O principal beneficiário desse processo, afirma, foi o bolsonarismo, que alcançou um resultado recorde de 121 deputados federais. "Quem é o maior beneficiário político desta situação é o bolsonarismo", afirmou. Segundo o pesquisador, trata-se de um desempenho que não era registrado no país desde 1994. Questionado sobre a reeleição de políticos envolvidos em denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro, como no caso Master, Estrada rejeita a ideia de que o tema tenha deixado de influenciar o comportamento dos eleitores. Para ele, a corrupção continua sendo um fator importante na política brasileira, mas sua capacidade de influenciar o voto varia de acordo com a identidade política do eleitor. "Quando o escândalo de corrupção chega ao bolsonarismo, isso não tem uma variável realmente forte para explicar o voto", afirmou. Já quando as denúncias atingem adversários políticos, especialmente ligados ao PT, o impacto tende a ser maior. "Quando é na oposição ao Partido dos Trabalhadores, aí sim essa corrupção tem um resultado prático", concluiu. Apesar da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno e do fortalecimento do bolsonarismo no Congresso, Estrada não considera a eleição decidida. Segundo ele, Lula ainda dispõe de reservas de votos entre os eleitores dos candidatos derrotados que não se identificam com a direita bolsonarista, além dos milhões de brasileiros que se abstiveram. Para o cientista político, a capacidade de mobilizar esse eleitorado será determinante para o resultado do segundo turno.

  3. 6d ago

    'O audiovisual é ferramenta de transformação social', diz produtora de documentários em Biarritz

    A produtora Mariana Genescá apresenta no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz dois documentários com olhares distintos sobre o Brasil contemporâneo: Pau D'Arco, premiado em festivais brasileiros e dedicado à luta por justiça após um massacre de trabalhadores rurais no Pará, e A Fabulosa Máquina do Tempo, que acompanha crianças de uma pequena cidade do Piauí. Em entrevista à RFI, ela falou sobre a importância de levar essas histórias ao público internacional. Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz Enquanto um documentário revisita uma das mais violentas disputas fundiárias da história recente do Brasil, o outro mergulha no universo lúdico de crianças que descobrem o direito de imaginar o próprio futuro. Os dois longas documentários brasileiros em competição no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz têm em comum a produtora Mariana Genescá, que vê nas obras uma reflexão sobre o impacto das políticas públicas.  "São dois filmes muito diferentes entre si, mas que falam de coisas muito caras para a gente", resume a produtora. "Um é muito duro, muito difícil. O outro traz esse frescor e essa esperança." Justiça após o massacre Exibido em Biarritz na segunda-feira (28), Pau D'Arco, da jornalista e diretora Ana Aranha, acompanha os sobreviventes da chacina ocorrida em 2017 na Fazenda Santa Lúcia, no Pará, quando uma operação policial terminou com a morte de dez trabalhadores rurais. Segundo Mariana Genescá, o público francês demonstrou interesse tanto pela história quanto pelo contexto político brasileiro. O debate após a sessão permitiu discutir os desafios da reforma agrária, mas também avanços alcançados nos últimos anos. Uma das principais conquistas destacadas pela produtora foi a regularização da terra ocupada pelas famílias que protagonizam o documentário. "O assentamento foi conquistado pelas famílias que ocuparam a terra. As famílias estão recebendo a posse da terra. Isso a gente considera uma importante vitória", comemora. Além da questão fundiária, o filme acompanha a longa batalha judicial em torno do caso. Genescá destaca que a repercussão da obra contribuiu para manter o tema em evidência e ampliar a mobilização em torno do julgamento. "Depois de oito anos parado, o julgamento foi agendado. Os policiais vão a júri popular e poderão finalmente ser julgados", afirma. Ela ressalta, porém, que ainda existem desafios importantes, entre eles a identificação e responsabilização dos mandantes do massacre. Uma infância no sertão O segundo documentário apresentado por ela em Biarritz, A Fabulosa Máquina do Tempo, da diretora Elisa Capai, troca o cenário dos conflitos agrários pelo cotidiano de crianças do município de Guaribas, no interior do Piauí. Narrado por uma menina de dez anos, o filme acompanha a passagem da infância para a adolescência e nasceu de uma relação de longa duração entre a diretora e a comunidade. Guaribas ficou conhecida por ter sido a cidade-piloto do programa Bolsa Família. Para Genescá, a obra oferece uma perspectiva otimista sobre o Brasil contemporâneo. "Esse filme é um sopro de esperança", define. A partir do olhar infantil, o documentário aborda temas complexos como desigualdade social, machismo estrutural e alcoolismo.  "A partir do olhar das crianças, de uma forma muito lúdica, a gente discute temas muito complexos e muito sérios", explica a produtora. A história acompanha uma geração que cresceu com acesso a oportunidades antes inacessíveis para muitas famílias da região. "É uma geração de meninas que pela primeira vez tem o direito de sonhar, que tem comida na mesa, que pode frequentar a escola", destaca.  Da Berlinale para a França Depois de estrear em fevereiro deste ano na mostra Generation do Festival de Berlim, na Alemanha, A Fabulosa Máquina do Tempo chega agora ao público francês. A recepção na Berlinale, segundo a produtora, foi marcada por sessões lotadas e forte participação do público. A expectativa é que o interesse europeu pelo Brasil e pela América Latina contribua para ampliar o alcance da obra. "Eu acho que eles vão aproveitar muito. Vão poder viajar com a gente nessa máquina do tempo", diz. Cinema como transformação social Para Mariana Genescá, a presença simultânea de dois documentários brasileiros na competição de Biarritz representa mais do que um reconhecimento profissional. É também uma oportunidade de mostrar como o audiovisual pode contribuir para o debate público. "Eu acredito realmente no audiovisual como ferramenta de reflexão e de transformação social", afirma. Em sua avaliação, Pau D'Arco e A Fabulosa Máquina do Tempo se complementam ao retratar duas faces do país: de um lado, a violência provocada pela ausência de direitos e políticas públicas; de outro, as possibilidades abertas quando essas políticas chegam à população. "Que a gente possa usar os filmes como ferramentas de memória para não esquecer o que aconteceu", diz a produtora. "E que a gente possa também, com o audiovisual, sonhar futuros", conclui.

  4. Sep 29

    Segurança é 'ótimo termômetro' do avanço conservador no Ceará, diz sociólogo antes do primeiro turno

    A poucos dias da votação para o governo do Ceará e da eleição presidencial, a segurança pública ocupa o centro da campanha no estado apesar da forte redução dos homicídios registrada neste ano. O aparente paradoxo, segundo o sociólogo Luiz Fábio Paiva, coordenador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, ajuda a explicar tanto o avanço das pautas conservadoras quanto a persistência das facções criminosas no estado. Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Fortaleza Na avaliação do pesquisador, a percepção de insegurança influencia não apenas a corrida ao Palácio da Abolição, mas também a disputa nacional, em um cenário em que temas ligados à ordem pública, ao endurecimento penal e ao papel do Estado mobilizam parte importante do eleitorado.  A pauta das facções criminosas parece mesmo ter voltado ao debate no Ceará. O candidado do PSDB ao governo, Ciro Gomes, voltou a associar no domingo (27) em Cedro, no sul do estado, a escalada da violência no estado à influência de facções criminosas sobre a política local. Ao comentar relatos de intimidação contra apoiadores de sua campanha, o candidato afirmou estar convencido de que há uma relação de proteção entre o poder público (encabeçado pelo atual governador, Elmano Freitas, do PT) e grupos criminosos que passaram a atuar no processo eleitoral. Sem apresentar provas durante o ato, Ciro declarou que facções teriam "ampliado sua presença na política". A declaração reforça uma das principais linhas de ataque do tucano nesta campanha, centrada na crítica à segurança pública e à alegada penetração do crime organizado nas estruturas políticas do estado. Para Luiz Fábio Paiva, o Ceará passa por transformações políticas semelhantes às observadas em outras regiões do globo, sem que isso signifique uma ruptura completa com sua história recente. Depois de décadas marcadas pela predominância eleitoral de forças de esquerda, o estado passou a conviver com o avanço de agendas conservadoras, processo que tem na segurança pública seu principal indicador. Segundo ele, "a segurança se tornou um ótimo termômetro para isso". A relação entre criminalidade e comportamento eleitoral, porém, não se resume ao aumento ou à redução dos índices de violência. Na avaliação de Paiva, a experiência cotidiana do medo produz uma demanda crescente por respostas rápidas e visíveis do poder público. "Muitas vezes quando a gente busca a solução para problemas de segurança pública, uma pauta autoritária acaba ganhando terreno", afirma. A resposta imaginada por parte da população costuma ser direta: "eu quero mais polícia, eu quero que a polícia entre, eu quero que a polícia prenda". Esse processo afeta especialmente os setores de menor renda, segundo o pesquisador. "Uma pessoa que paga um celular em 24 meses e tem celular roubado enquanto ainda está pagando aquilo, vai ser mais afetada", observa. É nesse "terreno de frustração e insegurança" que, segundo ele, prosperam discursos que prometem resolver problemas complexos por meio da força. A direita e a extrema direita, diz o sociólogo, "têm se aproveitado com sucesso desse tipo de sentimento" ao oferecer "uma solução simplista que não resolve nada". Leia tambémDireita tem 'vitória política' após EUA classificarem PCC e CV como grupos terroristas, diz especialista Com quase 7 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições de 2026, o Ceará abriga o terceiro maior eleitorado do Nordeste, atrás apenas de Bahia e Pernambuco, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Além de seu peso numérico, o estado é considerado estratégico porque costuma influenciar o desempenho das candidaturas na região e concentra uma disputa eleitoral frequentemente competitiva, tanto em âmbito estadual quanto nacional. Em 2026, o Ceará reúne exatamente  6.998.494 eleitores, o equivalente a cerca de 4,4% de todo o eleitorado brasileiro. Facções sobrevivem porque oferecem 'pertencimento' A centralidade da segurança no debate político está diretamente ligada à transformação da dinâmica criminal no Ceará. Nos últimos dez anos, o estado passou a conviver com a expansão das facções, fenômeno que alterou a vida de bairros inteiros e introduziu novas formas de controle territorial no estado. Para o pesquisador, compreender esse cenário exige abandonar a ideia de que as facções são apenas organizações criminosas. Embora tenham se estruturado para atividades ilegais, elas também construíram mecanismos de pertencimento capazes de garantir sua sobrevivência ao longo das décadas. "As facções criminosas brasileiras surgem dentro das prisões", lembra. "O Comando Vermelho nasceu no sistema prisional do Rio de Janeiro; o PCC, em São Paulo". Na origem, explica o pesquisador, não se tratava de associações criminosas organizadas para cometer delitos específicos, mas de "vínculos criados entre pessoas encarceradas". Com o passar do tempo, essas redes se expandiram para além das prisões e alcançaram territórios urbanos em todo o país. "A facção também criou um vínculo social entre pessoas envolvidas em atividades ilegais", diz. "Trata-se de uma estrutura que reúne lideranças, operadores financeiros, responsáveis pela lavagem de dinheiro e integrantes encarregados do controle armado dos territórios", resume.  Grupos locais No Ceará, o fenômeno ganhou características próprias. Além da presença de grupos nacionais, surgiram organizações locais que passaram a disputar espaço com eles. O resultado foi a formação de um sistema de enfrentamento que contribuiu para a explosão dos homicídios a partir da segunda metade da década passada. Segundo Paiva, a disputa ultrapassou o universo criminal e passou a afetar diretamente a vida da população. Em áreas sob domínio de facções, moradores passaram a conviver com regras impostas por grupos armados. "Você imagina ter que sair da sua casa porque você tem um grupo lhe ameaçando. Isso tira a paz", resume. A consequência política do processo foi imediata, segundo o pesquisador. À medida que a violência passou a ocupar o centro das preocupações cotidianas, cresceu também a tendência de responsabilizar os governos pelo problema, analisa. "Quando eu tenho um eleitor que identifica este fenômeno a quem está no poder, eu vou obviamente começar a atribuir culpa", diz Paiva. O efeito, afirma, é uma "reconfiguração das disputas eleitorais, na qual a segurança ganha peso desproporcional diante de outras agendas". É nesse ponto que o sociólogo identifica aquilo que chama de "a maior ironia das eleições". Apesar da sucessão de operações policiais e do endurecimento do combate às facções, o problema permanece. "Praticamente todas as lideranças dos grupos que atuaram no Ceará foram presas e ao mesmo tempo eu tenho uma reprodução do problema." A explicação está no fato de que  "o Estado consegue atingir estruturas criminosas específicas, mas encontra mais dificuldades para romper os laços sociais que sustentam essas organizações. Eu consigo atacar o esquema criminal, mas eu não consigo atacar o vínculo social que foi criado." O diagnóstico ajuda a explicar, segundo ele, por que discursos baseados exclusivamente na repressão seguem encontrando respaldo popular mesmo após anos de aplicação prática. A promessa de mais policiamento, mais vigilância, mais prisões e penas mais duras continua mobilizando o eleitorado porque oferece respostas simples para questões complexas. "Isso está sendo feito. E não está resolvendo o problema." Ainda assim, reconhece, a mensagem convence porque é direta e facilmente compreensível. "Vender soluções autoritárias é fácil." Paiva também rejeita a ideia de que a percepção de insegurança acompanhe automaticamente a evolução dos indicadores criminais. Pesquisas internacionais de vitimização, afirma, mostram que medo e estatística nem sempre caminham na mesma direção. "A sensação de insegurança tem conexão, mas ela não é proporcional ao número de violência." Mesmo em contextos de redução dos crimes, a população pode continuar se sentindo ameaçada, sobretudo quando episódios violentos ganham grande visibilidade pública. Segundo ele, é perfeitamente possível que haja "cenário de redução da violência" e, simultaneamente, aumento do medo. Leia tambémEUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil Direitização do eleitorado? Embora reconheça o avanço de grupos conservadores, o pesquisador considera simplificadora a ideia de uma "direitização" irreversível do Ceará. "Grupos conservadores vão ganhando força no Ceará, isso é sem dúvida, mas eles ainda encontram muita dificuldade e resistência", afirma. Como exemplo, cita a própria disputa estadual. Segundo ele, o governador Elmano de Freitas (PT) procura associar Ciro Gomes (PSDB) ao campo bolsonarista e reforçar sua proximidade com o presidente Lula, enquanto o ex-governador tenta se apresentar como uma alternativa independente da polarização nacional. Para o sociólogo, o fato de Ciro resistir à essa identificação com a direita mostra que esse campo político "ainda não é tão forte assim no Ceará". Outro elemento importante para entender o cenário eleitoral é o desgaste de quem governa. Na análise de Paiva, movimentos políticos mudam quando chegam ao poder. Lideranças antes dedicadas à mobilização social passam a administrar estruturas complexas, com restrições orçamentárias e responsabilidades institucionais. A consequência é a perda de parte da capacidade de renovação que possuíam na oposição. "É muito mais fácil ser um adversário", afirma. Governar significa administrar problemas e responder por resultados; quem está fora po

  5. Sep 29

    'Coração de Lona': filme brasileiro em Biarritz destaca a resistência do circo itinerante nordestino

    Único representante brasileiro na competição oficial de longas-metragens de ficção do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz, o filme Coração de Lona, da diretora Tuca Siqueira e produzido por Rayssa Costa, teve sua estreia mundial nesta segunda-feira (28) no sudoeste da França. A RFI acompanhou.  Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz Ambientada no universo dos circos itinerantes do Nordeste, a obra acompanha a jornada de Inês, uma mulher que, após a perda de um filho, parte em busca de novos sentidos para a vida. Para Tuca Siqueira, o filme nasceu da admiração pelos artistas circenses e por sua capacidade de resistir às adversidades. “Os artistas são os grandes resistentes do mundo”, afirma a diretora em entrevista à RFI em Biarritz. Segundo ela, o universo do circo traduz essa resistência de maneira particularmente intensa. “Os circenses se apresentam hoje para conseguir o que a gente chama do cuscuz, da refeição do dia seguinte”, acrescenta.  A diretora explica que o fascínio pelo universo circense não se baseia apenas no espetáculo do picadeiro, mas na capacidade de sobrevivência dos artistas. “Eu me encantei muito mais pela arte da sobrevivência dos circenses do que pelo próprio picadeiro”, afirma. “Eles são grandes artistas da vida.” Mais do que um retrato de uma tradição cultural ameaçada pelas mudanças do mundo contemporâneo, Coração de Lona propõe uma reflexão sobre os sonhos individuais. “É um filme que fala sobre sonhos e provoca as pessoas a pensarem o quanto elas têm sido fiéis aos seus próprios sonhos”, resume a cineasta. A protagonista, diz ela, “convoca a gente a pensar sobre isso”. Ao longo da narrativa, Inês encontra personagens inspirados em práticas populares do interior nordestino. Uma das cenas marcantes envolve uma benzedeira que utiliza leite materno para curar dores de ouvido. A inspiração veio das experiências de Tuca no documentário, área em que atua há mais de duas décadas. “Foi através da pesquisa de um documentário que eu ouvi sobre essa prática de mulheres benzedeiras que utilizam leite materno para sarar uma dor de ouvido”, conta. Incorporar essa passagem à história teve um significado importante. Mesmo após não conseguir levar uma gravidez adiante, a personagem redescobre a força do próprio corpo. “Ela ainda carrega o leite em si no seu próprio corpo, e isso dá para ela uma força muito grande, um poder de seguir adiante”, explica. De Garanhuns para o mundo O filme também aborda transformações recentes do interior nordestino. Em determinado momento, Inês retorna à casa da mãe e encontra a paisagem profundamente modificada pela instalação de parques eólicos. Segundo a diretora, a situação retratada reflete uma realidade observada em partes do agreste pernambucano. Embora a energia eólica seja associada à transição energética, sua implantação também provoca impactos na vida cotidiana das comunidades locais. “As pessoas passam a tomar remédio porque têm que lidar com o ruído à noite, não conseguem dormir. Os animais se comportam de um jeito diferente. A rotina vai mudando”, relata. As filmagens aconteceram em Garanhuns, no interior de Pernambuco. A produtora Rayssa Costa explica que o circo retratado no longa não foi construído para a ficção, mas faz parte de uma pesquisa desenvolvida há anos pela diretora. “A gente procurou agregar valor àquelas pessoas que viviam realmente disso. Então o circo é real”, afirma.  A presença do filme na competição oficial de Biarritz representa um marco para a equipe. Rayssa destaca a emoção de ver uma história baseada na realidade brasileira alcançar um público internacional. “Ver o Coração de Lona ganhando o mundo num lugar tão distante de onde ele foi gravado é motivo não só de orgulho, mas também de entender que a gente precisa sempre nutrir os nossos sonhos”, diz. Questionada sobre a possibilidade de conquistar um prêmio no festival, a produtora respondeu sem hesitar: “Sonhar a gente pode sempre. Isso é o que nos alimenta, é o que nos fortalece.” A diretora Tuca Siqueira vê uma coincidência entre a trajetória da personagem Inês e a estreia internacional do filme. Assim como a protagonista deseja mostrar o mundo ao filho, a equipe agora acompanha o percurso do longa para além das fronteiras brasileiras. “Faz todo sentido estrear esse filme aqui em Biarritz, tão longe de onde a gente filmou”, observa. Além da força visual das paisagens nordestinas, Coração de Lona apresenta momentos de silêncio e imagens contemplativas. O vento, elemento recorrente ao longo da narrativa, funciona quase como um personagem invisível. Para a diretora, a escolha estética é uma resposta ao ritmo acelerado da vida contemporânea. “Muita coisa é dita em silêncio”, diz. “O mundo exige que a gente performe tanto, o tempo todo. E eu acho que Coração de Lona faz um convite para o inverso”, ela propõe, definindo o longa como “um filme que costura para dentro”. Coração de Lona leva Pernambuco e o universo dos circos itinerantes a um dos principais festivais dedicados ao cinema latino-americano na Europa. E, como os próprios personagens do filme, sua equipe parece determinada a continuar sonhando.

  6. Sep 28

    Brasil: IA entra de vez na campanha eleitoral de 2026 e amplia produção de conteúdos sintéticos

    A inteligência artificial generativa deixou de ser uma novidade experimental para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente nas campanhas eleitorais brasileiras. Vídeos, ilustrações, animações e imagens produzidos com IA passaram a integrar a estratégia digital de candidatos de diferentes partidos e regiões do país. Maria Paula Carvalho, da RFI Ao mesmo tempo, conteúdos falsos criados com a tecnologia também circulam nas redes sociais, levantando preocupações sobre o potencial de desinformação durante a disputa eleitoral. Apesar desses riscos, monitoramento do Observatório IA nas Eleições indica que, até o momento, a maioria dos candidatos tem respeitado as regras da Justiça Eleitoral. O observatório analisou conteúdos publicados na internet entre 1º e 17 de setembro. Em entrevista à RFI, o pesquisador Matheus Soares afirmou que os levantamentos realizados desde o período de pré-campanha mostram uma multiplicação dos usos políticos da inteligência artificial. Entre as aplicações mais frequentes estão a criação de vídeos e imagens sintéticas para redes sociais, além da transformação dos próprios candidatos em versões animadas ou desenhos do tipo cartoon. "O que a gente vem identificando é que a inteligência artificial já se tornou uma tecnologia bastante utilizada pelas campanhas, pelos candidatos e pelos partidos", afirma o co-coordenador do Observatório IA nas Eleições. Um dos casos identificados pelos pesquisadores envolveu imagens recriadas por IA em conteúdos divulgados pelo perfil oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas redes sociais para apresentar suas propostas na área de segurança pública. As imagens mostram criminosos sendo presos enquanto o narrador explica o plano de combate à criminalidade. O vídeo é acompanhado de uma indicação de que as imagens foram geradas com as ferramentas Kling e Gemini. O aviso, no entanto, desaparece da tela em alguns momentos. Também foram identificados candidatos a governos estaduais, ao Senado e à Câmara dos Deputados utilizando recursos semelhantes para produzir material de campanha. O que diz a legislação A legislação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige que conteúdos sintéticos produzidos por inteligência artificial sejam claramente identificados. E, ao menos neste início de campanha, a avaliação é considerada positiva, segundo o pesquisador. "Pelas nossas primeiras observações, os candidatos que estão utilizando inteligência artificial estão cumprindo essa regra de sinalizar que aquele conteúdo foi criado com IA", explica. A legislação diferencia os conteúdos sintéticos dos chamados deepfakes. Enquanto os primeiros abrangem imagens, vídeos ou áudios totalmente gerados por inteligência artificial, os deepfakes envolvem a reprodução da imagem, da voz ou do rosto de pessoas reais para fazê-las parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. Um exemplo é um suposto documento da Polícia Federal, gerado por IA, que nega irregularidades na relação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) com Daniel Vorcaro. Segundo o Observatório IA nas Eleições, o conteúdo começou a circular no X e foi compartilhado pelo próprio parlamentar no Instagram após o site ICL Notícias divulgar uma troca de mensagens entre o deputado e o ex-banqueiro. Matheus Soares explica que a imagem possui indícios de mídia sintética, como inconsistências no logotipo da Polícia Federal e erros de português. A publicação foi submetida a uma ferramenta de detecção de conteúdo gerado por inteligência artificial, que indicou a presença de uma marca-d'água digital da OpenAI. A Polícia Federal também negou a autoria do documento. Outro caso que circulou nas redes sociais durante a campanha foi uma imagem gerada por IA mostrando Jair Bolsonaro sorrindo enquanto o prédio do Supremo Tribunal Federal aparece em chamas. A imagem, que circulou no X, utilizava a figura do ex-presidente em uma sátira à crise política. Vídeos em que Lula e a primeira-dama Janja aparecem como marionetes em um palco também foram produzidos com IA. Os conteúdos que circularam no Instagram fazem parte de uma série de publicações de um perfil dedicado à criação de vídeos sintéticos. Neles, os bonecos fazem alegações falsas sobre como se conheceram, com referências machistas e preconceituosas. O criador, no entanto, não sinalizou o uso da tecnologia, como exige o TSE. Desinformação Embora não tenham sido identificados até agora muitos casos considerados graves envolvendo candidatos, os pesquisadores registraram episódios preocupantes relacionados à desinformação em publicações de internautas, como vídeos manipulados que imitavam reportagens de telejornais e jornalistas conhecidos para divulgar falsas pesquisas eleitorais. Entre os exemplos identificados estão conteúdos que reproduziam de maneira hiper-realista reportagens do Jornal da Band ou apresentadores como César Tralli, da TV Globo, atribuindo-lhes informações inexistentes sobre intenções de voto. Segundo o observatório, indícios como a entonação artificial e o aspecto robotizado das falas sugerem que os vídeos foram produzidos por inteligência artificial. O principal risco desses materiais está justamente na dificuldade de identificação por parte do público. Segundo Matheus Soares, muitas dessas produções reproduzem com grande fidelidade a linguagem visual do jornalismo profissional, o que pode levar o eleitor a acreditar em informações falsas. "O eleitor pode acabar formando uma percepção distorcida da realidade a partir de um conteúdo falso e isso pode influenciar sua opinião sobre candidatos ou sobre o cenário eleitoral", alerta. Estudo do Aláfia Lab identificou diferenças entre pessoas de esquerda, direita, centro e sem posicionamento político definido na escolha de meios de informação e no uso das redes sociais. A direita é o grupo que mais percebe a circulação de desinformação relacionada à política, enquanto a esquerda apresenta os maiores índices de confiança para identificar conteúdos falsos e recorrer a mecanismos de checagem. Segundo a pesquisa, 55% das pessoas que se identificam com a direita afirmam perceber desinformação sobre política. Ao mesmo tempo, 64,9% dizem conseguir identificar fake news de maneira geral, mas ainda com dúvidas, o maior índice de hesitação entre os quatro perfis analisados. Na esquerda, 38,7% afirmam conseguir identificar desinformação com facilidade, o maior percentual entre os grupos. O perfil também apresenta a maior utilização de mecanismos de checagem: 47% dizem recorrer a alguma forma de verificação diante de conteúdos suspeitos. A pesquisa registra, contudo, um comportamento que o relatório chama de paradoxo: apesar dos maiores índices de confiança e checagem, 8,5% das pessoas de esquerda afirmam já ter compartilhado conscientemente um conteúdo falso. O percentual é baixo, mas o maior entre os grupos pesquisados. Entre pessoas de esquerda, centro e sem posicionamento político definido, a televisão continua sendo o principal meio citado para obter informações políticas no Brasil. Popularização da IA O aumento do uso da inteligência artificial nas campanhas está relacionado à popularização e ao barateamento das ferramentas disponíveis. De acordo com o pesquisador Matheus Soares, a virada ocorreu principalmente a partir da segunda metade de 2025, quando grandes plataformas passaram a oferecer recursos capazes de gerar conteúdos visualmente sofisticados de maneira simples e acessível. A tendência observada no Brasil segue o que já ocorreu em outros países. Eleições recentes na Índia, Indonésia e Estados Unidos também registraram um crescimento expressivo do uso de inteligência artificial por partidos e candidatos. A tecnologia, no entanto, não é utilizada apenas por campanhas políticas. O próprio Tribunal Superior Eleitoral recorreu à inteligência artificial em materiais de comunicação institucional voltados ao eleitorado, sempre informando a utilização da ferramenta. Para os pesquisadores, o desafio não está na tecnologia em si, mas no modo como ela é utilizada. Em eleições municipais anteriores, por exemplo, candidatos com poucos recursos financeiros recorreram à IA para criar jingles de campanha inspirados em gêneros musicais regionais, algo que antes exigiria investimentos muito mais elevados. "A inteligência artificial pode ser uma ferramenta positiva e democrática. O fundamental é que existam transparência, identificação clara dos conteúdos e respeito às regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral", conclui Soares. O cenário de 2026 indica que a inteligência artificial veio para ficar. O desafio das autoridades, das plataformas digitais e dos próprios eleitores será separar os usos legítimos da tecnologia das tentativas de manipulação e desinformação que acompanham sua expansão no debate público.

  7. Sep 25

    Visita do papa à França reacende debate sobre o papel da religião na sociedade, avalia sociólogo

    A visita pastoral do papa Leão XIV à França acontece em um momento simbólico para a Igreja Católica e para um dos países mais secularizados da Europa. Para o sociólogo Flávio Sofiati, professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG) e especialista em sociologia da religião, a viagem do pontífice tem como principal objetivo dialogar com as novas gerações e enfrentar um dos maiores desafios do catolicismo contemporâneo: a renovação de seus fiéis. Para Sofiati, a visita do pontífice à França, até o dia 28, tem um caráter essencialmente pastoral e está voltada para a renovação do público católico. Segundo ele, a programação organizada em Paris deixa clara a preocupação da Igreja com as novas gerações. "É uma visita pastoral e, do meu ponto de vista, muito focada nas novas gerações, nas juventudes católicas", afirma. Embora a França seja reconhecida por sua tradição laica, o pesquisador considera que a religião continua presente na esfera pública. Ele lembra que a relação entre o Estado francês e a Igreja Católica passou por profundas transformações desde a Revolução Francesa (1789), mas nunca resultou no desaparecimento completo da influência religiosa. "A Igreja foi destituída do espaço público depois da Revolução Francesa, mas voltou a ocupar espaço na esfera pública na Segunda Guerra (1939-45), principalmente no período da invasão", explica. Apesar dos limites impostos pela laicidade, Sofiati observa que "'mesmo no caso francês, de um Estado laico, em que você tem um processo de descatolização e também do próprio esvaziamento do catolicismo na cultura francesa, mesmo assim há a presença forte do catolicismo, seja ele do ponto de vista institucional, mas também da própria catolicidade, dos grupos católicos na esfera pública e mesmo na política". Tendência conservadora com raras exceções O sociólogo também destaca a diversidade interna do catolicismo francês. Embora as correntes conservadoras tenham ganhado espaço nas últimas décadas, grupos progressistas seguem atuando, ainda que de forma mais periférica em relação à instituição. "O que tem predominado, não só aqui na França, mas no mundo, é o catolicismo mais conservador. Mas no caso francês, você tem essa presença dos católicos de esquerda", diz. Em suas pesquisas, Sofiati acompanhou associações reunidas na rede Réseau du Parvis, voltadas para temas que raramente ocupam posição central na agenda da hierarquia católica. "A maior parte dessas associações trata de temas que não são prioritários da hierarquia católica francesa, como, por exemplo, a questão LGBT ou até mesmo associações de padres casados ou associações de filhos de padres casados, temas que não estão na ordem do dia da instituição", explicou. "Em geral, esses católicos de esquerda são católicos mais à margem da institucionalidade", observa. Ao comparar França e Brasil, o pesquisador identifica dinâmicas religiosas distintas. Enquanto o crescimento das igrejas evangélicas transformou profundamente o cenário brasileiro, na França a principal expansão ocorre entre os muçulmanos. "É o grupo religioso que cresce muito no contexto francês, com a migração, com os descendentes de imigrantes que já se estabeleceram, talvez seja a religião que mais cresce", afirma sobre o islamismo. Igrejas evangélicas em 'missão na Europa' Por outro lado, Sofiati chama atenção para um movimento inverso: a internacionalização de igrejas evangélicas brasileiras. "O que me chama atenção são as religiões evangélicas que nasceram no contexto brasileiro e que estão em missão na Europa, no norte global em geral, mas também aqui na França", diz. Entre os exemplos citados está a Igreja Videira, fundada em Goiânia, que hoje mantém presença forte na França, na Bélgica e em outras cidades europeias. Para o sociólogo, as transformações religiosas observadas dos dois lados do Atlântico revelam que, apesar dos processos de secularização e das mudanças culturais em curso, a religião continua sendo uma chave importante para compreender as dinâmicas sociais e políticas contemporâneas.

  8. Sep 22

    Corrida presidencial brasileira terá reflexos em toda a América Latina, avalia cientista político

    A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 4 de outubro, a campanha entra na reta final marcada mais por denúncias e ataques entre candidatos do que pela discussão de propostas de governo. Em entrevista à RFI, o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE), avalia que o ambiente político brasileiro permanece profundamente polarizado e que uma parcela crescente do eleitorado demonstra sinais de esgotamento com a disputa. Maria Paula Carvalho, da RFI Segundo Gaspard Estrada, as pesquisas de opinião apontam não apenas uma disputa apertada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o conservador Flávio Bolsonaro, mas também um forte desengajamento dos eleitores. “Há uma forma de crítica dos brasileiros à oferta eleitoral. As pesquisas mostram um forte desengajamento nesse pleito, o que pode ter uma tradução muito concreta no dia da eleição, com aumento da taxa de abstenção, embora o voto seja obrigatório”, afirma. Para o especialista, a polarização observada no Brasil não é um fenômeno isolado. Ele lembra que eleições recentes em outros países da América do Sul também foram decididas por margens mínimas. “Na eleição anterior [2022], a disputa presidencial foi definida por menos de dois pontos. E isso não acontece apenas no Brasil. No Peru e na Colômbia, as últimas eleições também foram definidas por diferenças extremamente estreitas”, ressalta. Estrada avalia que a sociedade brasileira está dividida entre dois campos políticos consolidados, mas observa que cresce o desejo de parte do eleitorado por uma alternativa às figuras que dominam a cena política nacional há anos. O espaço para um outsider Nesse contexto surge a candidatura de Augusto Cury, psiquiatra e escritor sem trajetória partidária tradicional. Para Gaspard Estrada, o fenômeno dos outsiders não é novidade na América Latina. Ele cita exemplos como o ex-presidente peruano Alberto Fujimori e, mais recentemente, Javier Milei na Argentina. Apesar disso, o cientista político vê limites para o sucesso desse tipo de candidatura no Brasil. “Um país tão grande e tão complexo como o Brasil tem um sistema político muito fragmentado. É difícil, sem fazer alianças, conseguir governar um país deste tamanho”, afirma. Segundo ele, esse cenário reduz as chances de uma candidatura outsider alcançar um desempenho eleitoral expressivo. Economia melhora, mas eleitor não percebe Outro ponto destacado pelo cientista político é que embora indicadores econômicos apresentem resultados positivos para o governo Lula, como queda do desemprego, crescimento econômico e redução do desmatamento na Amazônia, boa parte da população não sente esses avanços no dia a dia. “Há um descompasso entre os bons números da macroeconomia e a percepção das famílias. O aumento do salário mínimo acaba sendo corroído pela inflação de itens da cesta básica e pelo aumento do endividamento”, explica. Para o pesquisador, esse fator ajuda a entender por que Lula não consegue transformar indicadores favoráveis em uma vantagem mais confortável nas pesquisas eleitorais. “O desafio principal do presidente Lula nesses últimos dias de campanha será explicar como um eventual quarto mandato poderá melhorar concretamente a vida dos brasileiros. Não basta falar de soberania ou inteligência artificial. É preciso mostrar o que mudará no cotidiano das pessoas”, afirma. A batalha pela narrativa digital Estrada também considera que a campanha de Lula pode ter demorado a ampliar sua presença paga nas plataformas digitais. Segundo ele, embora a estratégia digital exista desde o início da disputa, o impulsionamento de conteúdo teria começado tardiamente. “Pelo que a imprensa revelou, a campanha começou a pagar propaganda nas redes sociais apenas nos últimos quinze dias. Isso é muito pouco”, avalia. Já o campo bolsonarista, observa, mantém sua tradicional capacidade de mobilização na internet. “O bolsonarismo sempre foi muito eficaz no uso das mídias sociais e, mais uma vez, está conseguindo pautar a agenda digital”, avalia. Flávio Bolsonaro resiste a desgaste Mesmo diante das denúncias envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro não parece ter sofrido perdas significativas de apoio eleitoral. Para Estrada, isso ocorre porque uma parte do eleitorado identifica o sobrenome Bolsonaro com a ideia de mudança em relação ao atual governo. “As pesquisas mostram que esta é uma eleição de mudança. E Bolsonaro é o sobrenome que encarna essa mudança”, afirma. Ao mesmo tempo, ele observa que o candidato conservador também enfrenta elevados índices de rejeição. “Existem muitos aspectos negativos associados ao sobrenome Bolsonaro, o que explica a taxa de rejeição elevada e o equilíbrio observado nas pesquisas.” ONU e política externa entram em cena Enquanto a campanha se aproxima do desfecho, Lula participa da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, onde discursa nesta terça-feira (22). Para Gaspard Estrada, a viagem oferece ao presidente a oportunidade de reforçar sua imagem internacional. “É importante para o Lula mostrar essa diferença de status entre ele, como chefe de Estado em exercício, e seu adversário. Ele pode destacar uma política externa baseada na defesa do multilateralismo e do direito internacional”, afirma. O especialista considera ainda que um eventual contato de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ser um dos pontos mais observados da viagem, especialmente diante da influência que a política americana exerce sobre o debate brasileiro. Uma eleição observada além das fronteiras Para Gaspard Estrada, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro não terá consequências apenas para o Brasil. O resultado também poderá influenciar os rumos da América Latina e o posicionamento internacional do país. “Se o Brasil passar a se alinhar automaticamente ao governo Trump, como ocorreu durante a gestão de Jair Bolsonaro, isso terá consequências para a autonomia estratégica do país e para sua capacidade de manter posições próprias nos grandes temas internacionais”, afirma. Por isso, conclui, o processo eleitoral brasileiro desperta atenção muito além das fronteiras nacionais. “Esta eleição está sendo acompanhada de perto pelas principais capitais do mundo. É um tema que deveria interessar muito aos eleitores antes de decidirem seu voto”, conclui.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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