RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 1D AGO

    Lázaro Ramos na Berlinale: Brasil deixa de agradar ao ‘algoritmo do gosto médio’ e reafirma identidade no cinema

    O ator Lázaro Ramos está em Berlim para a estreia mundial do filme "Feito Pipa", de Allan Deberton. Em entrevista à RFI, ele fala sobre a boa fase do cinema brasileiro, que tem conseguido apresentar histórias universais mantendo sua própria identidade. Silvano Mendes, enviado especial da RFI a Berlim Os brasileiros estão em alta no 76º Festival de Cinema de Berlim. Entre as produções nacionais e as coproduções, a presença no mercado e diretores brasileiros assinando filmes internacionais, mais de 12 projetos fazem parte da programação da Berlinale. "É um bom momento para o cinema brasileiro", celebra Lázaro Ramos, ressaltando a vontade de boa parte dos diretores de valorizar uma estética e uma identidade brasileiras. "Alguns anos atrás a gente se perdeu um pouco achando que ia fazer cinema para o algoritmo do gosto médio e esqueceu de ser quem nós somos", afirma o ator. Mas os tempos mudaram, insiste, citando sucessos como "Ainda Estou Aqui" ou "O Agente Secreto", além de todos os projetos presentes na 76ª Berlinale. "Todos os filmes com uma identidade muito forte e que você identifica o Brasil ali. Você consegue absorver a história e perceber que ela também pode ser universal, mesmo sendo com o pé fincado no nosso território", avalia. É o caso de "Feito Pipa", filme que Lázaro representa em Berlim e que conta a história de Gugu, um menino que vive no interior do Ceará apenas com a avó, que lhe dá plena liberdade para se descobrir. O bullying que o personagem enfrenta na escola ou jogando futebol – onde é uma das estrelas do time, apesar das gozações – fica do lado de fora quando ele volta para casa e encontra a empatia e o carinho dessa avó, interpretada com maestria por Teca Pereira. Na trama, Lázaro vive um pai distante, que não aceita o lado extrovertido do filho. Segundo ele, trata-se de "um homem que está querendo uma vida morna, enquanto seu filho diz: ‘eu vou ser quem eu sou e minha vida é colorida’". Essa vida “colorida” é encarnada com primor por Yuri Gomes, ator formado pelo projeto Axé, do Pelourinho, escolhido após uma seleção com mais de 600 crianças. "A gente teve a alegria de encontrar Yuri, que é muito espirituoso e bastante autêntico. E ele tinha todas as ferramentas que poderiam servir para o personagem do Gugu", conta à RFI o diretor Allan Deberton. Lázaro Ramos também não poupa elogios ao menino, de apenas 11 anos, e confessa que foi difícil manter o tom sisudo do personagem diante do carisma do garoto. "A minha vontade era, na verdade, abraçá-lo, acolhê-lo", resume o ator. Lázaro Ramos prepara novo projeto como diretor Além de "Feito Pipa", Lázaro Ramos lança mais dois filmes em 2026 – "Velhos Bandidos" e "Antártida" –, num ano dedicado à carreira de ator. Mas não descarta se aventurar novamente atrás das câmeras, após o sucesso dos longas "Medida Provisória" (2022) e "Um Ano Inesquecível: Outono" (2023). "O ator está aqui em primeiro plano, mas estou trabalhando nos próximos longas que eu vou dirigir. Ainda não sei se posso falar, mas, enfim, vai ter um outro filme aí", revela. Além dos projetos, Lázaro será, junto com a mulher Taís Araújo, o homenageado da 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, tradicional evento na capital francesa, que acontece entre 7 e 14 de abril. Essa é a primeira vez que um casal é celebrado no evento, que destaca a contribuição dos dois para o teatro, o cinema e a televisão.

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  2. 2D AGO

    Em Paris, imortal da ABL Godofredo de Oliveira Neto debate legado da literatura afro‑brasileira

    O escritor e academico Godofredo de Oliveira Neto, imortal da Academia Brasileira de Letras desde 2022, é o convidado de uma palestra sobre a literatura afro-brasileira, nesta terça-feira (17), na Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris. Com mais de 20 livros publicados e três livros traduzidos para o francês, ele também é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por Patrícia Moribe, em Paris Sob o tema "Literatura Brasileira Afrodescendente, Literatura Negra", o autor analisa as nuances políticas e estéticas que definem a produção literária negra no país. Ele resgata textos clássicos que expõem de forma crua os horrores da escravidão, muitos dos quais foram historicamente "esquecidos" ou suavizados pela sociedade brasileira. Oliveira cita passagens de Machado de Assis que ilustram a brutalidade cotidiana do período colonial e imperial. Como no conto "O caso da vara", de 1891, no qual o personagem principal presencia o castigo de uma criança de apenas 11 anos. Outro exemplo marcante trazido pelo acadêmico é o conto "Pai contra Mãe", no qual uma mulher escravizada em fuga é recapturada e, no processo, "aborta de medo e de dor numa cena absolutamente horrível". Ele também recorda a infância de Brás Cubas, que torturava o menino Prudêncio, um escravizado da casa. O trecho mais impactante citado por Godofredo de Oliveira Neto, porém, pertence a Cruz e Sousa, no texto intitulado "Consciência Tranquila". O autor descreve a obra como o texto mais violento contra a escravidão em toda a história da literatura brasileira, onde um senhor de escravizados, à beira da morte, faz um balanço de suas atrocidades sem qualquer remorso. "Ah, Mas eu fiz bem de arrancar os olhos daqueles negros, os dois olhos com uma faca enferrujada", cita o acadêmico. "Depois, ah, aquela negra que estava grávida de mim, fiz bem de enforcar. O outro, também decepei o corpo e joguei pros porcos", acrescenta. Lugar de fala O especialista nota que a literatura negra no Brasil foi mudando de tom, ganhando novas vozes, a partir de Lima Barreto e Maria Carolina de Jesus. Ao observar a produção contemporânea de autores como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Eliane Alves Cruz e Jeferson Tenório, Godofredo observa uma transição para um empoderamento positivo e poético. É nesse cenário que, para ele, o conceito de "lugar de fala" ganha relevo como uma "legitimação do combate". O autor explica que essa autonomia de voz significa que o sujeito negro não precisa mais de intermediários – “um intelectual branco” - para defender suas causas. Embora considere essa ferramenta legítima para a luta atual por espaço, o acadêmico manifesta o desejo de que, no futuro, em uma sociedade mais justa e não preconceituosa, tais distinções deixem de ser necessárias.

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  3. 3D AGO

    'Brasileiras': editora francesa reedita ciclo histórico de vozes femininas contra a ditadura militar

    Em entrevista à RFI, a escritora, professora e curadora de eventos literários Guiomar de Grammont fala sobre Brasileiras, livro publicado originalmente pela icônica Éditions des femmes, na França, a partir de entrevistas realizadas em 1977 por Maryvonne Lapouge-Pettorelli e Clelia Pisa com mulheres brasileiras que viveram, resistiram e pensaram o país sob a ditadura militar. A obra reúne relatos marcados pela afirmação do pensamento feminino, não apenas como um conjunto de memórias, mas como um ato político pautado pela circulação internacional de ideias e pela presença de intelectuais como Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Ruth Escobar, entre outras. Ao dar início à conversa, Guiomar de Grammont recoloca “Brasileiras” em seu tempo histórico, destacando a violência estrutural vivida por muitas das entrevistadas. "Trata-se de um período de repressão extrema, quando mulheres eram presas, perseguidas, torturadas e silenciadas pelo regime militar", diz. A diversidade das vozes reunidas por Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli, em 1977, ganha ainda mais peso nesse contexto, segundo a escritora, reunindo mulheres intelectuais, artistas, ativistas políticas e trabalhadoras do campo, "compondo um retrato amplo e profundamente diverso da condição feminina". O livro mostra como experiências tão distintas coexistem, expondo "as múltiplas camadas de opressão que atravessavam o cotidiano das mulheres naquele período, revelando desigualdades de classe, raça, território e acesso à palavra", construindo um mosaico do Brasil feminino raramente visto na narrativa oficial do país. "Bem, as mulheres daquele momento estavam vivendo um contexto duríssimo de repressão, muitas delas estavam sendo feitas prisioneiras, torturadas. E isso foi o que mais ressaltou para mim na diversidade das vozes que foram ouvidas pela Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli", diz Guiomar de Grammont. Ao refletir sobre o sentido de escutar essas mulheres hoje, ela associa a escuta contemporânea à necessidade de resgatar a luta e a resistência presentes nos depoimentos. "A leitura atual cria uma ponte com mulheres que hoje vivem situações de violência e opressão, conectando passado e presente em um gesto político de memória e solidariedade", diz Grammont. "As experiências narradas", diz a pesquisadora e programadora que assina o prefácio desta reedição, que será lançada em 19 de fevereiro de 2026, "ecoam em mulheres palestinas, ucranianas, brasileiras de favelas e das comunidades populares". Para Guiomar de Grammont, a reedição do livro tem potencial para tocar leitoras de hoje, mais conscientes e atravessadas por transformações culturais profundas, mantendo uma conexão direta com as mulheres que viveram antes dos anos 1980. "Eu sinto, assim, um desejo de resgate dessa luta, sabe? Um desejo de resgate dessa resistência, com desejo de estar próxima da mulher palestina, da mulher ucraniana, da mulher da favela brasileira, da comunidade. E é assim que eu espero que a reedição desse livro venha a tocar também as leitoras de hoje, que já são leitoras mais conscientes, que já viveram a revolução cultural, mas há uma conexão profunda entre essas mulheres desse tempo que antecedia os anos 1980 e nós", completa ela. Escuta como ato político A ideia de convergência de lutas aparece como uma chave de leitura central. Muito antes de o termo se consolidar no vocabulário feminista contemporâneo, os depoimentos já articulavam raça, gênero, classe e território de forma inseparável. O livro antecipa debates que hoje ocupam o centro das discussões políticas e culturais no Brasil e fora dele. Guiomar de Grammont observa que, apesar dos avanços, a violência persiste, como mostram assassinatos políticos recentes, como o de Marielle Franco. Mulheres negras e indígenas conquistaram maior protagonismo, mas Brasileiras permite perceber que o poder patriarcal e militar ainda opera de maneira brutal. "É isso mesmo. Houve uma evolução até no sentido de que essas mulheres negras, mulheres indígenas, elas apareceram hoje com muito protagonismo. Mas houve também violências terríveis muito recentes, como o caso Marielle Franco", afirma. Relendo os depoimentos, a escritora se impressiona com a coragem e a autenticidade das entrevistadas. "O contexto da publicação no exterior permitiu que elas falassem com franqueza impossível nos jornais ou artigos no Brasil da época", afirma. Essas mulheres se dirigiam a outras mulheres, "em um espaço seguro criado pelas entrevistadoras". Para Guiomar de Grammont, essa possibilidade de revelar integralmente experiências que não poderiam ser verbalizadas em outros meios constitui a maior contribuição da obra. "Olha, elas foram muito verdadeiras, muito autênticas, de uma coragem extraordinária. Talvez porque estivessem falando para outras mulheres, para um livro que não seria publicado no Brasil. Então, a gente tem que ver de que forma esse contexto acabou fazendo com que elas se revelassem muito inteiramente. Nisso reside, para mim, assim, a maior contribuição dessa publicação. Elas não podiam falar daquela forma para jornais, nos seus artigos, né? Não podiam falar publicamente da forma como elas vão falar para Clelia e Maryvonne Lapouge", comenta. Clelia Pisa, que chegou a Paris em 1951 com Arthur-Luiz Piza, foi jornalista, consultora editorial e prefaciadora de obras de Clarice Lispector, Mário de Andrade e Carolina Maria de Jesus. Maryvonne Lapouge-Pettorelli, tradutora, difundiu a literatura brasileira na França, apresentando obras fundamentais de autoras e autores brasileiros. "A Clelia trabalhou diretamente com obras da Clarice, da Carolina Maria de Jesus. A Maryvonne teve um papel central na difusão da literatura brasileira na França", recorda Guiomar de Grammont. Nesse sentido, Brasileiras pode ser lido como uma tradução política do Brasil. O livro, segundo Grammont, assume a forma de "manifesto, revelando à França a situação das mulheres brasileiras e transformando o país europeu em aliado simbólico da luta por libertação". O alvo da denúncia não é apenas o patriarcado, mas "um patriarcalismo militar e autoritário, que controlava corpos, discursos e trajetórias femininas". Para Guiomar de Grammont, a publicação no exterior amplia o alcance político da obra. "Sem dúvida. Eu vejo esse livro como um manifesto. Elas estavam, naquele momento, imbuídas do desejo de revelar para a França e tornar a França uma aliada no sentido da libertação dessas mulheres brasileiras, que eram oprimidas não só por um sistema patriarcal, mas por um patriarcalismo militar, um patriarcalismo autoritário e opressor em todos os sentidos, inclusive dos corpos femininos", explica. Entre França e Brasil: um manifesto feminino A origem do projeto envolve encontros decisivos fora do Brasil, especialmente entre Ruth Escobar e Antoinette Fouque, fundadora das Éditions des femmes. A iniciativa permitiu que exílio, feminismo transnacional e circulação internacional de ideias se convertessem em ação editorial política. Desse encontro nasceu a publicação concreta do livro, tornando possível uma voz para mulheres que não poderiam falar livremente no Brasil. Para Guiomar de Grammont, essas articulações internacionais são fundamentais para compreender a força histórica da obra. "É engraçado porque tem escritoras e escritoras feministas francesas. Estou pensando na Lola Lafond, na Virginie de Pont, contemporâneas, que falam muito em convergência de lutas. Quando você fala em mulheres palestinas, mulheres negras, mulheres indígenas, é um pouco sobre isso que você está falando agora", observa. Entre os depoimentos, há um relato que se destaca pela intensidade: o de uma mulher anônima, presa na chamada “Torre das Donzelas”, local onde também esteve Dilma Rousseff. Ela descreve torturas e violações, mas não revela o próprio nome por medo. O silêncio imposto, ao lado da coragem do testemunho, sintetiza a brutalidade do período. Guiomar de Grammont também destaca sua ligação pessoal com depoimentos de Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, que dialogam diretamente com o papel histórico e literário dessas autoras. "Bom, eu tenho um depoimento preferido, mas a personagem em questão nem foi nomeada, ela estava na Torre das Donzelas, na chamada, entre aspas, Torre das Donzelas, onde Dilma Rousseff também estava e foi torturada", lembra. "Ela não ousa dar o seu nome, porque ela tem muito medo e ela revela toda a tortura que ela sofreu, as violações, né? Então, tudo que atingiu naquele momento, esse é o depoimento que mais me tocou. Em todo o livro, mas é claro que eu também, eu trabalhei com Clarice Lispector, editei um livro de artigos sobre Clarice e a filosofia, então eu também tenho a minha predileção pelo depoimento da Clarice e da Carolina de Jesus, me inspirando no que ela significa e significou para o Brasil", relata. Ao final, Guiomar de Grammont reafirma a atualidade do livro, que coloca a escuta no centro da política, da memória e do feminismo. Mais do que um documento histórico, Brasileiras funciona como um espelho incômodo do presente. "Eu sinto, assim, um desejo de resgate dessa luta, sabe? Um desejo de resgate dessa resistência", conclui.

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  4. FEB 12

    Entre mares e encontros: Carlos Cavallini apresenta seu universo musical em Paris

    O cantor, compositor e etnomusicólogo Carlos Cavallini, capixaba radicado em Lisboa há 18 anos, vem se destacando cada vez mais na cena luso‑brasileira contemporânea. Em Paris, ele apresenta o show “O Tamanho do Tempo”, no clube Sunset-Sunside, em formação acústica ao lado de Rapha Braga (guitarra), Walter Areia (contrabaixo) e com participação da cantora portuguesa Inês Viterbo. As canções de Cavallini misturam MPB com texturas contemporâneas e trazem uma forte marca autoral. Cavallini começou a compor muito cedo, ainda adolescente no Espírito Santo. A mudança para Portugal, inicialmente motivada pelo mestrado em etnomusicologia após um curso de jornalismo, remodelou seu caminho. “A vida acadêmica acabou me levando e as músicas foram ficando ali guardadas”. Essas composições silenciosas por tantos anos viriam a formar o núcleo de seu primeiro álbum, “O Tamanho do Tempo”, lançado em 2024, com produção de Ricardo Dias Gomes e Domenico Lancellotti. O disco também reúne contribuições de guitarristas como Pedro Sá e Davi Moraes, artistas cujas trajetórias incluem colaborações centrais na MPB, em projetos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, Marisa Monte e Maria Rita. Uma geografia afetiva dos sons A formação musical de Cavallini vem de casa. “Cresci numa casa com muito samba, muito chorinho, muita MPB, com Chico, Caetano, Maria Bethânia”, conta. Essa base brasileira se desdobrou, já em Lisboa, em diálogos com artistas portugueses, entre eles Celina da Piedade, que participa do álbum, e Luísa Sobral, com quem criou o single “Um Milhão”. O artista valoriza esse diálogo cultural. “Portugal tem essa grande vantagem de ser um lugar de encontros, de vários países de língua portuguesa. A gente consegue trocar, se conhecer e ter essas parcerias.” A etnomusicologia como lente e inspiração A pesquisa acadêmica atravessou diretamente seu trabalho musical. Para o mestrado, Cavallini investigou como a mídia portuguesa retratava a música brasileira e, nessa jornada, mergulhou profundamente na Nova MPB. “Passei seis meses no Rio, seis meses em São Paulo, entrevistei diversos compositores da nova cena. Isso me abriu muito os olhos”, conta. Esse percurso criativo-científico também trouxe um encontro inesperado: os produtores de seu álbum, Domenico Lancellotti e Ricardo Dias Gomes. “Eu falava sobre eles na minha pesquisa. E, de repente, eu estava ali gravando com eles. Foi muito especial.” O mar como memória e matéria musical A crítica observou que seu álbum é “banhado pelo mar”. Cavallini não nega, mas diz que não foi proposital. Para compor o repertório, ele vasculhou todos os seus arquivos, desde as primeiras canções. “Eu sou de Vitória. O mar sempre esteve na minha vida. Depois fui para Portugal, e mais tarde vivi na Irlanda do Norte, onde o mar também tem uma importância gigante.” A presença desse elemento em sua música acabou se revelando como um eixo natural. “Fico feliz que tenham ressaltado essa questão do mar, que realmente tem uma importância muito grande para mim.” Literatura e encontros decisivos Entre seus trabalhos mais comentados está o single “Um Milhão”, produzido por Luísa Sobral e inspirado em uma crônica do escritor António Lobo Antunes. A canção nasceu num retiro de composição no Alentejo organizado pela autora e intérprete portuguesa, que depois o convidou para produzir a faixa. “Foi uma alegria enorme quando ela me convidou para gravar com a produção dela. É uma artista que eu já admirava e admiro demais.” Cavallini também lançou três singles mais recentes, produzidos com Rapha Braga. Um deles nasceu de uma história contada por Letrux, nome artístico da cantora, compositora, atriz e escritora carioca Letícia Novaes, uma das figuras mais marcantes da música independente brasileira contemporânea. Ela relatou sua antiga tendência a se curvar para parecer menor em fotos, hábito que Maria Bethânia corrigiu ao aconselhá-la: “Não, não, fique do seu tamanho.” A frase virou canção e encontrou eco nos ouvintes. “Recebo mensagens de pessoas dizendo que levaram essa canção para a terapia”, conta Cavallini. “Fiquei muito feliz com essa receptividade tão linda.” O show no Sunset marca seu retorno à cidade onde viveu em 2013 e carrega um forte componente emocional. “É muito emocionante voltar com esse disco, com essas histórias para contar agora, com as minhas músicas”, diz Cavallini.

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  5. FEB 11

    Christiane Tricerri fala sobre seu trabalho em filme que expõe os riscos e dilemas do 'chemsex'

    A atriz e diretora paulista Christiane Tricerri, figura marcante do teatro, do cinema e da televisão brasileira, acaba de integrar o elenco do longa-metragem “A Paixão Segundo G.H.B.”, que estreou mundialmente no Festival de Cinema de Roterdã, encerrado em 8 de fevereiro. A produção foi exibida em uma sessão dedicada a obras de linguagem ousada e experimental – um território artístico no qual Christiane transita com grande naturalidade. De passagem por Paris após a estreia mundial do filme na Holanda, Christiane Tricerri contou à RFI que, ao receber o convite para o projeto, deparou-se com um universo até então desconhecido por ela: o chemsex, ou sexo químico, prática que envolve o uso de substâncias psicoativas durante o ato sexual para ampliar o prazer ou reduzir inibições, e que hoje se tornou um desafio de saúde pública em diversos países. “O filme trata de uma questão muito importante, que é o chemsex. Na Europa, sobretudo, virou um problema muito grave. Na América Latina e no Brasil também, com jovens que entram em depressão profunda após o uso ou chegam mesmo ao suicídio ou à overdose. É preciso dar atenção especial a isso”, destaca a atriz. O longa-metragem, ainda sem data para estrear no Brasil, tem direção de Gustavo Vinagre e Vinícius Couto, este último performer brasileiro radicado em Lisboa cuja própria trajetória inspira o filme. “O Vinícius viveu essa realidade do chemsex, saiu disso e decidiu expor a gravidade do tema. O filme nasce dessa vivência.” O título do longa dialoga diretamente com o livro “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, e com o GHB, uma das substâncias usadas em ambientes de sexo químico. No filme, o personagem Mathias – interpretado pelo próprio Vinícius – revisita momentos de sua vida e passa a dialogar com a figura de G.H., vivida por Christiane. Ela conta que esse encontro, construído em grande parte por meio de improvisação, foi atravessado por forte carga emocional. “Num determinado momento, o personagem revê toda a sua trajetória e começa a conversar com a G.H., que é a personagem que eu faço.” A atriz recorda que, no romance de Clarice Lispector, G.H. come uma barata, gesto interpretado como um mergulho radical na própria humanidade. No set, essa referência ganhou um novo corpo. “Ele me pergunta: ‘O que é isso, comer uma barata?’. Fomos entrando num lugar muito emocional. A barata é o chão, é onde você vai mais baixo do seu estado como ser humano.” Do set às questões de saúde pública O filme combina cenas ficcionais, improvisos e depoimentos reais. “No final, há uma entrevista verdadeira, um documento mesmo”, afirma Christiane, com um brasileiro que entrou e saiu diversas vezes do ciclo das drogas. O fenômeno do chemsex ganhou forma no início dos anos 2000, quando começaram a surgir registros do uso sexualizado de drogas em festas voltadas ao público gay. A partir de 2010, a prática se expandiu e se tornou mais visível para serviços de saúde e pesquisadores. Nos últimos quinze anos, especialistas observam um crescimento significativo de casos, mudanças nos contextos de uso e um aumento dos problemas de saúde associados. Reações em Roterdã A estreia em Roterdã foi bem acolhida pela imprensa especializada. “As críticas foram excelentes. Uma delas disse que o filme é um ‘pornô didático’. Achei muito interessante”, comenta a atriz, que aproveita para lembrar sua relação com a educação sexual em outros momentos da carreira. Ela recorda quando participou do programa de Jô Soares nos anos 1980 e, em rede nacional, ensinou a colocar camisinha de maneira erótica e natural, como forma de prevenção num período crítico da epidemia de Aids. “Era um momento em que você precisava alertar sobre essas questões. Hoje existe tratamento, mas em festas de chemsex ninguém está protegido. É uma perda total de referências e até de consciência”, observa. Sobre o público do festival, ela acrescenta: “A recepção foi incrível. O público aplaudiu muito, se emocionou. O filme tem momentos intensos, mas tratados com grande delicadeza.” Um curta sobre Marguerite Duras Em Paris, Christiane se dedica agora à direção de um novo curta-metragem inspirado no cinema de Marguerite Duras. Ela explica que sempre admirou a forma como Duras concebia uma narrativa baseada em imagem e texto num momento em que o cinema privilegiava a ação. Seu ponto de partida será o livro “Escrever”, no qual a autora francesa reflete sobre a solidão – real ou simbólica – como condição essencial do processo criativo. O projeto reunirá a atriz e escritora Viviane Fuentes, com quem Christiane trabalhou durante a pandemia, e terá fotografia de sua filha, Isadora Tricerri, diretora de fotografia e embaixadora da Canon no Brasil. As filmagens incluem locações no Cemitério de Montparnasse, onde Duras está sepultada. Christiane conta que pensou inicialmente em trabalhar com diretores homens, mas a falta de interesse dos colegas a levou a outra conclusão. “Nenhum diretor se interessou. Então pensei: essa direção tem que ser de uma mulher. Ela [Duras] falava muito sobre como diretores homens a colocavam de escanteio.” Paralelamente a todos esses projetos, Christiane mantém em circulação, há seis anos, o monólogo “Frida Kahlo – Viva la Vida”, dirigido por Cacá Rosset e escrito pelo dramaturgo mexicano Humberto Robles, o autor vivo mais montado do país. “É um texto incrível, extremamente teatral. Tenho viajado bastante com o espetáculo”, conta a atriz paulista. Após apresentações na Bahia, ela se prepara para duas sessões no espaço Arena B3, em São Paulo, nos dias 21 e 22 de fevereiro.

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  6. FEB 5

    Embratur leva Amazônia ao público e a profissionais no maior festival de curtas-metragens do mundo

    Pela primeira vez, a Embratur marca presença no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, no centro da França, com uma sessão pública de filmes financiados pela agência no segundo edital do programa Brasil com S – uma vitrine que aposta no cinema como motor de curiosidade turística e janela de descoberta do Brasil.  O Brasil com S vai além do financiamento: ajuda a formar e a lapidar os filmes que apoia. Christiano Braga Lima, coordenador de audiovisual e economia criativa da agência, resume bem a lógica: “Não é só um edital que a gente dá um recurso e o produtor se vira.” O programa desenha uma trajetória completa para os selecionados, do roteiro à distribuição internacional, e faz isso por meio de mentorias técnicas que envolvem parceiros estratégicos. Entre eles está o Projeto Paradiso Multiplica, iniciativa que difunde conhecimento no setor audiovisual conectando profissionais experientes a novos realizadores. E há ainda o olhar de Denise Jancar, consultora com longa atuação em mercados e festivais, conhecida por orientar projetos em circulação global e por representar filmes brasileiros no exterior. “É um edital em que a gente, além de fazer o fomento, faz um trabalho de mentoria”, reforça Christiano. A aposta da Embratur é simples: usar o cinema para emocionar, seduzir e informar. “A gente entende o audiovisual como uma janela para promoção do Brasil, para o despertar do interesse internacional pelo Brasil”, afirma o coordenador. Ele lembra que, dentro da agência, a proximidade entre turismo e cinema não é improviso – é estratégia. “A Embratur entendeu a importância do turismo dialogar com o audiovisual e construir uma relação orgânica entre esses dois segmentos”, diz o economista, que tem trajetória nas políticas culturais. Nesta edição, o recorte tem endereço: a Amazônia. “Aconteceu a COP no Brasil, então a gente queria chamar a atenção para aquele território, para sua potência.” Das 170 propostas inscritas, surgiram cinco filmes, cada um com uma forma de traduzir o Norte. “Amassunu”, com direção de Juliana Boechat e Venusto, aposta no sensorial da culinária e da paisagem amazônica; “O Retorno”, de César Meneghetti com Mario Gianni, revisita memória e ética documental entre os Yanomami; “Te Vejo na Próxima Saída do Boi”, da realizadora Keila Sankofa, mergulha no imaginário popular do Pará; “Beira”, dirigido por Marcela Bonfim, evoca ancestralidade em Porto Velho; e “Bici”, única animação assinada por Otoniel Oliveira, transforma uma bicicleta em símbolo de resiliência em Afuá, na Ilha de Marajó. Histórias para superar estereótipos Os curtas tentam desmontar clichês. “A gente sabe que o mundo conhece ainda pouco a Amazônia, ou se conhece, conhece a partir de estereótipos”, observa Christiano. A seleção busca justamente apresentar outras camadas: “Criar uma percepção positiva em relação a esse território e toda a sua riqueza cultural, sua diversidade natural, sua riqueza urbana”. A experiência da primeira edição do Brasil com S já mostrava que havia fôlego para uma trajetória internacional, mesmo antes da criação das mentorias. “Na primeira edição, a gente teve 400 inscrições e escolhemos cinco curtas, quando a gente ainda não tinha uma mentoria.” Ainda assim, um dos selecionados, “Entre Sinais e Marés” – filmado na Ilha do Mel com elenco e direção formados inteiramente por profissionais surdos – percorreu mais de 50 festivais no Brasil e no exterior, conquistando prêmios, incluindo um festival dedicado ao público surdo no Canadá. Para Christiano, o desempenho desse curta é a prova de que o programa já nascia com potencial de voo próprio: “Sem a mentoria, você já teve ali curtas que tiveram uma carreira, viajaram internacionalmente.” O cinema brasileiro experimenta um alcance internacional pouco habitual, com títulos como “Ainda Estou Aqui“ e “O Agente Secreto“ abrindo portas e reacendendo o interesse estrangeiro por produções do país. “É um momento importante para o Brasil aproveitar”, conclui Christiano – e Clermont-Ferrand, com seu público de programadores, curadores e distribuidores, parece ser um bom lugar para isso.

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  7. FEB 4

    Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand

    O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema. Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma. Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta. Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri. Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado. “Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.” Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.” O poder do curta: paixão como ponto de partida Antes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.” Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras: “Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.” Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado. O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa. “É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.” Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.” A experiência como ator em “O Agente Secreto” Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.” Em Clermont-Ferrand, Graziosi foi surpreendido ao ser apresentado ao público, inicialmente, como ator – embora seus filmes tenham sido exibidos ali como diretor. Ele recebeu a situação com bom humor e alegria. “Sou fã do Kleber. Estou torcendo para que ele receba todos os prêmios do Oscar. Vou ficar orgulhosíssimo como alguém que participou do filme e como apaixonado por cinema brasileiro.” Filme brasileiro em competição Sem poder emitir opinião como jurado, Graziosi comenta apenas a reação da plateia ao curta brasileiro “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova, que concorre na mostra Labo. “Foi o filme mais aplaudido. Lida com uma injustiça violentíssima, é de partir o coração. O público teve uma emoção muito forte.” Graziosi diz que não se surpreenderia se o filme conquistasse um prêmio do público.

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  8. FEB 3

    Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França

    Filmes de quatro cineastas brasileiros disputam prêmios no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, que acontece até sábado (7) no centro da França. A paulista Daniella Saba é a única mulher do grupo de contemplados. Ela concorre com o curta-metragem “Mira”, uma produção francesa integralmente filmada no Brasil e que foi selecionada para a competição nacional, ao lado de outros 50 filmes franceses. “Mira” acompanha a história de uma menina de 14 anos que cresceu em uma área de descanso de caminhoneiros. Criada entre motoristas, ela sempre sonhou em dirigir caminhão. Mas a chegada da adolescência transforma a forma como ela é vista naquele ambiente majoritariamente masculino. Segundo Saba, “ela vai entender o que significa ser mulher num espaço que não é reservado a nós, mulheres”. A diretora conta que quis explorar esse momento de ruptura: a passagem da infância à adolescência num espaço onde o corpo feminino passa a ser observado de outra maneira. Radicada na França há 16 anos, Saba comemora a primeira seleção de um filme seu em uma mostra competitiva. “É uma honra, porque é um dos festivais de curta mais importantes do mundo, então é um reconhecimento. Só a seleção para mim já é um prêmio”, afirma. Para a realizadora e roteirista, estar em Clermont-Ferrand é também uma oportunidade de continuidade profissional: “É uma vitrine, uma forma da gente continuar trabalhando e dar continuidade para esse trabalho que foi feito, que no caso é o ‘Mira’, e que agora vai virar outros filmes no futuro.” A diretora explica que festivais funcionam como porta de entrada para novos projetos, especialmente para realizadores de curta-metragem. “O festival acaba sendo o lugar onde a gente mostra o nosso trabalho. Quando a gente faz um compromisso para trabalhar num longa, são muitos anos trabalhando no mesmo projeto”, observa. Longa-metragem no sertão de Alagoas Além da promoção de “Mira”, Daniella Saba está atualmente dedicada ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem, uma coprodução franco-brasileira. “A gente já tem o roteiro, ele está no final da captação de recursos. É um filme que é necessariamente filmado no Brasil”, explica. O longa será um road movie sobre uma mulher francesa que acompanha o ex-marido em uma viagem pelo sertão de Alagoas na busca por sua família biológica após uma adoção ilegal. “É uma comédia dramática”, resume. A cineasta também comenta as condições de financiamento nos dois países onde atua. Ela destaca que “Mira” contou com ajuda regional francesa, mas não recebeu apoio brasileiro. Ainda assim, enfatiza a importância de políticas públicas no setor: “É muito importante a gente poder desenvolver os curtas-metragens. Dá uma possibilidade desses filmes existirem, até para propulsar a nossa produção para os longas-metragens também.” Para Saba, o interesse internacional por obras brasileiras está em alta: “A gente tem uma cultura muito forte, a gente tem um olhar muito singular e eu acho que eles se interessam.” Especialista em ficção, a diretora também fala de sua relação com o gênero: “Eu adoro trabalhar os diálogos, adoro trabalhar o universo dos personagens. Na minha filmografia tem um documentário, mas a minha especialidade é a ficção.” Desigualdades persistentes para mulheres cineastas Sobre a presença feminina no cinema, Daniella Saba considera a desigualdade gritante: “Uma mulher cineasta tem muito mais dificuldade. Quando a gente lê os relatórios, com os números, com os gráficos, é incomparável.” Segundo a diretora, apenas uma parcela muito pequena das produções tem mulheres no comando. “A gente ainda tem muito trabalho pela frente como cineasta.”

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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