Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 19h ago

    Venezuela: 'Tivemos que retirar sozinhos nossas famílias dos escombros', diz moradora de La Guaira

    Moradores de prédios atingidos pelos terremotos na Venezuela aguardam laudos sobre a segurança das estruturas e ainda não sabem quando poderão voltar para suas casas. O governo diz que pelo menos 250 edifícios foram afetados. Em La Guaira, região mais afetada pelos tremores, a 30 quilômetros de Caracas, moradores contaram à RFI que escavam os destroços dos prédios que desabaram com as próprias mãos. Com informações de Pedro Pannunzio, de São Paulo, e Alice Campaignolle, de Caracas O governo da Venezuela atualizou nesta sexta-feira (25) o número de mortos no duplo terremoto que atingiu o país na quarta-feira (24). "Infelizmente, já temos 589 mortos", disse a presidente interina, Delcy Rodríguez, durante uma reunião com autoridades militares e civis, transmitida pela televisão estatal. O número anterior de mortos era de 235. Pelo menos 4.300 pessoas ficaram feridas. O Aeroporto Internacional de Maiquetía, o principal do país, em La Guaira, região mais atingida pelos terremotos, continua fechado. Durante os tremores, a pista de pouso e parte da estrutura do terminal sofreram danos, e ainda não há previsão de reabertura. Com isso, o acesso a Caracas tem sido feito por aeroportos que permanecem em operação, como o de Valência, cidade localizada a cerca de duas horas da capital venezuelana. Além da busca por sobreviventes, moradores de prédios atingidos convivem com a incerteza sobre quando poderão voltar para casa. Em diferentes bairros de Caracas, edifícios apresentam grandes rachaduras e ainda aguardam vistorias técnicas para avaliar as condições das estruturas. Enquanto algumas pessoas deixaram os imóveis e passaram a viver na casa de parentes ou amigos, outros permanecem em seus apartamentos, mesmo sem um laudo que ateste a segurança dos edifícios. 'Pessoas foram enterradas vivas' A reportagem da RFI foi até La Guaira, a cerca de 30 quilômetros de Caracas, onde cerca de 50 prédios com mais de dez andares desabaram. Centenas estão afetados, com estruturas deformadas e inabitáveis. A venezuelana Francelys tem diante de si o corpo de seu padrasto, deitado sobre destroços, coberto por um lençol.  “Conseguimos deixar nosso prédio ontem. A essa altura, não resta mais ninguém lá. Mas as torres ao lado estão completamente destruídas, com pessoas que foram enterradas vivas”, diz. Sobre a montanha de escombros, três pessoas vasculham os destroços sem equipamentos de proteção adequados, como capacetes. Não são socorristas, mas moradores em busca de seus familiares. Uma jovem conta que, na véspera, a ajuda tardou a chegar a este setor. “Não recebemos nenhum apoio. Tivemos que nos virar para retirar nossas famílias debaixo dos escombros”, afirma, sob anonimato. “Apesar da dimensão da catástrofe, o socorro demorou demais ontem. Apenas algumas ambulâncias circulavam pelas ruas da cidade”, acrescenta. Dois brasileiros entre as vítimas Nesta quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a morte de dois brasileiros. Segundo o Itamaraty, as vítimas são um homem e uma mulher. Em nota, o governo informou que presta assistência consular às famílias e manifestou pesar pelas mortes. Outros detalhes sobre a identidade das vítimas não foram divulgados. Além dos brasileiros, seis outros estrangeiros fazem parte da lista de mortos: um homem nascido em Caracas em 1970 com nacionalidade italiana, dois espanhóis, um português e dois chineses.  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta quinta-feira (25) com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e anunciou o envio de ajuda humanitária ao país. Segundo o governo brasileiro, uma equipe formada por bombeiros e agentes da Defesa Civil será enviada nesta sexta (26) para reforçar os trabalhos de resgate. No sábado (27), a previsão é que um outro avião desembarque na Venezuela transportando equipamentos para a montagem de um hospital de campanha, cem purificadores de água movidos a energia solar, além de medicamentos e materiais médicos para cirurgias. Após a conversa, Delcy Rodríguez agradeceu, em publicação nas redes sociais, a manifestação de solidariedade do presidente brasileiro e o apoio oferecido pelo Brasil às vítimas dos terremotos. Desaparecidos Modelos de previsão do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam alta probabilidade de que o número de mortos ultrapasse 10 mil pessoas. Já um site criado para localizar desaparecidos, compartilhado no X por líderes da oposição, muitos deles no exílio, reunia mais de 35 mil nomes ontem, no meio da tarde. Em contraste, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou em sua conta no Facebook que havia 157 desaparecidos e “mais de 200 pessoas identificadas como presas nos escombros”. Mas o número real pode ser bastante superior e estar na casa dos milhares.  A forte discrepância entre os dados evidencia que ainda não há um balanço consolidado das vítimas, e que os números permanecem preliminares e sujeitos a revisão.

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  2. 1d ago

    Após divergências, Macron e Meloni buscam reaproximação em cúpula bilateral inédita

    Os dois países mantêm uma parceria histórica, mas as relações se distanciaram nos últimos anos em meio a divergências entre Macron e Meloni. A cúpula busca relançar a cooperação bilateral, com defesa e segurança entre os principais temas da agenda. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A primeira cúpula bilateral entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, acontece nesta quinta-feira (25), em Antibes, no sul da França. Embora os dois líderes se encontrem com frequência em diversas ocasiões, esta é a primeira vez que os governos organizam uma cúpula bilateral para discutir exclusivamente a relação entre Itália e França. A expectativa é que o encontro sirva para descongelar a parceria entre Roma e Paris e relançar uma cooperação que perdeu força nos últimos anos. Em 2021, ainda durante o governo de Mario Draghi, os dois países assinaram o Tratado do Quirinale, com o objetivo de reforçar a cooperação em áreas como defesa, migração, cultura e energia. O acordo também previa a realização de uma cúpula anual para acompanhar o avanço dessa parceria. No entanto, Meloni assumiu o cargo de primeira-ministra no ano seguinte à assinatura do tratado, e as divergências políticas com Macron acabaram contribuindo para que o acordo, apesar de estar em vigor, não apresentasse novos avanços. Meloni dirige um governo de direita, liderado pela extrema direita, enquanto Macron é um centrista que governa com a direita, com uma agenda econômica liberal. Por isso, a cúpula é vista como uma oportunidade para destravar esse tratado e definir um roteiro para reforçar a cooperação entre os dois países. Cada delegação será representada por nove ministros, em discussões que devem abranger diversos temas.  Defesa e segurança No centro dos debates deve estar o fortalecimento da defesa europeia e da cooperação entre as indústrias de defesa da França e da Itália. Há ainda a expectativa de avanços em acordos ligados à segurança no Mediterrâneo. Em entrevista à imprensa italiana, Giorgia Meloni indicou que também estará em pauta o futuro da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano. O mandato da missão termina no fim deste ano e, então, está prevista a retirada gradual das tropas. Em meio às tensões na região, porém, Itália e França devem buscar uma cooperação para manter a presença internacional no sul do Líbano. Na véspera, Macron e Meloni se reuniram em Berlim A cúpula bilateral acontece um dia depois de Macron e Meloni participarem de uma reunião com Alemanha, Reino Unido e Polônia – grupo chamado de E5. O foco foi a preparação para a cúpula da OTAN, que acontece nos dias 7 e 8 de julho, em Ankara, na Turquia. O encontro contou também com a participação remota do secretário-geral da aliança, Mark Rutte. O objetivo era demonstrar unidade entre as principais potências europeias antes da reunião da OTAN. Dois temas estiveram no centro das discussões: o reforço da defesa europeia e a guerra na Ucrânia. A questão ucraniana vinha sendo discutida principalmente pelo chamado E3, formado por França, Alemanha e Reino Unido. A exclusão de Roma incomodava Meloni, que defende um formato mais amplo e representativo dos países europeus. Por isso, a participação da Itália no encontro de quarta-feira também teve um peso simbólico importante. Em relação à Ucrânia, no entanto, ainda existem diferenças entre Macron e Meloni. O presidente francês não descarta o envio de tropas europeias após um eventual cessar-fogo e defende uma adesão mais rápida de Kiev à União Europeia. A premiê italiana, por outro lado, adota uma posição mais cautelosa e se opõe às duas propostas. Sobre a entrada da Ucrânia no bloco, Meloni defende que o processo siga as regras tradicionais, sem prejudicar países dos Bálcãs que aguardam há anos para ingressar na União Europeia. França e Itália sinalizam deixar as divergências de lado A relação entre Emmanuel Macron e Giorgia Meloni foi marcada por divergências nos últimos anos. Macron defende uma Europa mais integrada, enquanto Meloni adota uma linha mais nacionalista. Ainda assim, a premiê italiana moderou o discurso desde que chegou ao poder. Apesar das diferenças com Macron, evitou apoiar abertamente adversários políticos do francês ideologicamente mais próximos a ela, como Marine Le Pen e Jordan Bardella. Mesmo assim, os dois líderes acumularam momentos de tensão ao longo dos últimos anos. Um dos episódios mais delicados foi a polêmica sobre o direito ao aborto durante a cúpula do G7 realizada na Puglia, em 2024. A ausência de uma referência explícita ao tema no documento final desagradou Emmanuel Macron, que fez críticas ao governo italiano. Outro ponto de atrito foi a tentativa de Meloni de se apresentar como uma ponte entre Donald Trump e os países europeus, estratégia que nunca foi vista com muito entusiasmo pelo governo francês. Por isso, a cúpula desta quinta-feira é interpretada como um gesto importante de reaproximação. O encontro sinaliza que Roma e Paris estão dispostas a deixar de lado parte das divergências dos últimos anos para fortalecer a cooperação entre os dois países.

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  3. 2d ago

    Alemanha se junta à França em projeto para desenvolver 'tanque do futuro'

    O parlamento da Alemanha deve se reunir nos próximos dias para aprovar ou não a aquisição da empresa de armamentos KNDS pelo governo do país. Berlim anunciou esta semana sua intenção de adquirir 40% da companhia, que é conhecida por ser a fabricante dos dois principais tanques de guerra europeus, o alemão Leopard e o francês Leclerc. O objetivo é juntar forças com o governo da França, que já é proprietário de 50% da KNDS, para trabalhar no desenvolvimento de um veículo que está sendo chamado de “tanque do futuro”.  Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf O movimento faz parte de um tabuleiro complexo que envolve a invasão da Ucrânia e a redução do poder bélico dos Estados Unidos na Europa. A aquisição significa um posicionamento estratégico da Alemanha para os próximos anos e também um reforço da parceria com a França para aumentar o poder de defesa da União Europeia, em um contexto em que a Rússia está gastando mais do que nunca em equipamentos bélicos. A KNDS é uma empresa que foi formada em 2015 com a fusão da alemã Krauss-Maffei Wegmann com a francesa Nexter.  Atualmente, o governo francês é dono de 50% da companhia, e a outra metade pertence à família alemã proprietária da Krauss-Maffei Wegmann. É essa parte, que vale em torno de € 16 bilhões, que o governo alemão pretende comprar. A empresa anunciou nesta quarta-feira (24) uma oferta pública de ações, o chamado IPO, nas bolsas de Frankfurt e Paris. Os governos da França e da Alemanha chegaram a um acordo para equalizar suas participações na empresa. Inicialmente, cada país deve deter cerca de 40%, com os 20% restantes destinados ao mercado. Ao longo dos anos, essa fatia estatal deverá ser reduzida para aproximadamente 30% para cada governo. Tanques ou drones? A importância dos tanques em um contexto de guerra moderna está no centro do debate, em um momento em que a Ucrânia ataca Moscou com drones, que são equipamentos baratos e leves, justamente o oposto de um tanque. Mas vale lembrar que a própria Ucrânia recebeu e está utilizando mais de 100 tanques alemães Leopard, justamente produzidos pela KNDS. E eles são considerados cruciais no embate com a Rússia, ainda que os drones sejam os protagonistas da guerra.  No mês de abril houve relatos de que as Forças Armadas da Ucrânia teriam alcançado um novo recorde utilizando tanques Leopard do tipo 2A6. Ele teria destruído um tanque russo T-72 B3 a uma distância de 5,5 quilômetros. Nunca antes um duelo de tanques tinha conseguido atingir uma distância tão longa. O recorde anterior era de 1991, da Guerra do Golfo, quando um tanque Challenger 1 da Guarda Real Escocesa destruiu um tanque T-55 iraquiano a uma distância de cerca de 5,1 quilômetros com um único projétil. Esses relatos do front carecem de uma comprovação exata, mas dão a dimensão da importância que os tanques de guerra ainda têm e terão num cenário de guerra europeia que a Alemanha considera certo nos próximos anos.  Quem passou pela feira militar Eurosatory, em Paris, na semana passada, foi apresentado ao protótipo de um sucessor do tanque de batalha Leopard 2. O conceito se chama MBT Vision 2032 e é criação de uma joint venture justamente entre a KNDS e a Rheinmetall, outra gigante da indústria bélica, que teve forte participação na Segunda Guerra Mundial. Como o nome indica, o MBT Vision 2032 está sendo planejado para 2032 e será uma espécie de Leopard 3, a terceira versão deste que é considerado o melhor tanque de guerra do mundo. Mas dessa vez, ele será alemão e também francês, em um cenário bastante diferente daquele da Segunda Guerra Mundial. Retirada americana da Europa O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse essa semana que a Europa precisa substituir rapidamente as capacidades militares que os Estados Unidos vão retirar do continente. Ele alertou que, se não forem tomadas medidas rápidas, esta retirada representará “um convite aberto” para o presidente russo, Vladimir Putin, "testar" a capacidade de dissuasão dos aliados europeus. Em Bruxelas já é dado como certo que os Estados Unidos reduzirão sua capacidade bélica na Europa em termos materiais, não exatamente em tropas.  Guerra antes e depois da Ucrânia A Ucrânia passou de problema a solução. As forças armadas do país estão testando todo tipo de armas e estratégias que a OTAN e a indústria bélica europeia não eram capazes de testar desde a Segunda Guerra Mundial. A KNDS construiu postos avançados de manutenção dentro do território ucraniano, não só para consertar mas também para aperfeiçoar armas de guerra em pleno combate.  A Ucrânia foi o primeiro país a receber o novo obuseiro sobre rodas RCH 155, também produzido pela KNDS. O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse também que as forças armadas da Ucrânia são "as mais fortes e poderosas da Europa" e acrescentou que "não há exército na Europa ou nos Estados Unidos capaz de conduzir uma guerra moderna" como a Ucrânia está fazendo. Ele defendeu a integração da Ucrânia na arquitetura de defesa europeia a partir de agora. Nesta quarta-feira (24), os líderes da Alemanha, França, Itália, Polônia e Reino Unido se reúnem em Berlim, com participação remota do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, para discutir caminhos diplomáticos para o fim da guerra na Ucrânia.

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  4. 3d ago

    Referendo do Brexit completa 10 anos, em meio a nova crise política no Reino Unido

    A votação pela saída do Reino Unido da União Europeia completa uma década nesta terça-feira (23), em meio à renúncia de mais um primeiro-ministro britânico. Dez anos depois, o cenário político continua tumultuoso: o país teve seis chefes de governo nesse período. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Após a vitória histórica dos trabalhistas em 2024, que marcou o retorno do partido ao poder com a promessa de restaurar a normalidade, Keir Starmer – hoje um dos líderes mais impopulares do país – abre caminho para uma possível renovação interna no partido. O nome mais cotado para ocupar o cargo de primeiro-ministro é o de Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, um político carismático e que muitos acreditam estar mais alinhado aos problemas enfrentados. Ele é apontado como único capaz de conter a ascendência do arquiteto do divórcio do Reino Unido com a União Europeia, Nigel Farage, líder do Reform UK.  Farage comanda o avanço da extrema direita e causa apreensão tanto em conservadores moderados quanto em liberais, com a pauta anti-imigratória, que continua sendo o ponto central da agenda política que motivou o Brexit. Ainda assim, uma pesquisa recente da consultoria Ipsos indica uma mudança de humor: quase 60% dos britânicos votariam hoje pelo retorno ao bloco europeu em um novo referendo. O sentimento é diferente entre residentes da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia. Uma pesquisa do YouGov indicou que entre os escoceses a insatisfação com o Brexit sobe para 75%. Imigração Durante o período em que vigorou o acordo de livre circulação de mercadorias e pessoas, o número de europeus vivendo no Reino Unido subiu substancialmente. Com a aprovação do Brexit – que muita gente acreditou ser o preço a se pagar para erguer muros nas fronteiras e melhorar a economia –, o número de imigrantes, no entanto, continuou a aumentar. Sem os europeus, as universidades passaram a recrutar estudantes internacionais de outras partes do mundo, muitos deles acompanhados de suas famílias. O sistema público de saúde também precisava – e ainda precisa – de mão de obra estrangeira para dar conta do serviço. O governo britânico concedeu vistos humanitários a ucranianos e cidadãos de Hong Kong. Os conservadores apertaram as regras de imigração, e o fluxo de entradas e saídas foi controlado, mas esses dados não estão diretamente relacionados ao Brexit. Conflitos ao redor do mundo, além das crises climática e econômica no pós-Covid, forçaram muitos migrantes sem documentação, especialmente da África e da Ásia, a enfrentar a travessia perigosa do Canal da Mancha em embarcações precárias, chegando à Inglaterra para pedir asilo político. Dez anos depois da votação, a questão migratória continua a dividir o país e alimenta a ascensão do partido Reform UK, de Nigel Farage. Economia A previsão pós-Brexit era catastrófica, e é importante também levar em conta o impacto das guerras, do tarifaço do presidente norte-americano, Donald Trump, e da pandemia. O país não chegou a mergulhar numa recessão, mas está mais pobre – ou menos rico – do que antes. A economia encolheu cerca de 6%, segundo o Banco Central da Inglaterra, enquanto os investimentos caíram 18%. A União Europeia continua, de longe, a ser o principal parceiro comercial do Reino Unido, embora agora em condições menos favoráveis desde a saída do bloco, com barreiras alfandegárias, exigências sanitárias e maior regulação. A promessa de autonomia para negociar com quem bem entendesse resultou em acordos de livre comércio com Índia, Austrália e Nova Zelândia, do outro lado do mundo, mas não foi suficiente para compensar a perda de dinamismo nas trocas com os vizinhos europeus. Política abalada com Brexit Durante a última campanha eleitoral, que levou à vitória histórica dos trabalhistas em 2024, e ao longo dos anos recentes, a centro-esquerda do primeiro-ministro Keir Starmer evitou tocar no tema do Brexit – em parte porque muitos de seus eleitores, sobretudo em cidades pós-industriais, votaram pela saída do bloco. Com o crescimento do partido Reform, de Nigel Farage, Starmer passou a adotar um discurso mais duro sobre imigração e chegou a afirmar que, sem controle das fronteiras, o Reino Unido se tornaria uma “ilha de estranhos”. A declaração gerou críticas, e o premiê recuou – tarde demais. Uma parcela significativa dos eleitores trabalhistas, decepcionados com políticas sociais consideradas mais alinhadas à direita, migrou para o Partido Verde ou até mesmo para o Reform, de extrema direita, em busca de algo novo. Resta saber qual será a política migratória adotada por seu possível sucessor, Andy Burnham. Embora tenha se posicionado contra a saída do Reino Unido da União Europeia, ele foi eleito em um reduto que votou a favor no referendo. Com a percepção crescente de que o Brexit foi um péssimo negócio para o país, o governo britânico tem buscado uma reaproximação com a Europa continental. Um exemplo concreto era a cúpula marcada para 22 de julho, que deveria tentar fechar um novo acordo sanitário e um programa de mobilidade para jovens voltarem a estudar e trabalhar entre o Reino Unido e a União Europeia. Com a renúncia de Starmer, o encontro foi temporariamente adiado, nesta terça-feira, até a confirmação do novo chefe de governo britânico.

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  5. 4d ago

    Ultraliberal eleito na Colômbia promete respeitar a Constituição e governar para os que pensam diferente

    A Colômbia elegeu o advogado penalista e empresário Abelardo de la Espriella, de 47 anos, para governar o país pelos próximos quatro anos. O ultraliberal passa a ser a peça colombiana num mapa regional dominado pela extrema direita. O candidato da esquerda, Iván Cepeda, aceitou de forma provisória o resultado da contagem rápida, à espera do definitivo dentro de alguns dias. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires No discurso de vitória, Abelardo de la Espriella adotou um tom mais amistoso e prometeu respeito à Constituição de 1991 e à oposição política, maioria no Congresso. Diante de uma diferença de apenas 250 mil votos e de uma polarização que dificulta a governabilidade, o eleito pediu a união dos colombianos, inclusive dos que pensam diferente. O candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, sem nenhuma experiência prévia na política, venceu com 49,6% dos votos. O senador Iván Cepeda ficou com 48,7%. A diferença entre os dois foi de apenas 250 mil 830 votos – menos de 1 ponto percentual, exatamente 0,96%. Num país onde o voto não é obrigatório, votaram 63,6% dos colombianos aptos a votar, um recorde. Mas esse resultado preliminar, tão apertado, leva à possibilidade de uma recontagem, pelo menos parcial, dos votos. Com um tom sereno, o candidato derrotado, Iván Cepeda, reconheceu o resultado preliminar, mas avisou que vai pedir a impugnação de 33 mil mesas de votação. Cepeda disse que “este primeiro resultado não é oficial nem vinculante” até que venha “o resultado final” da contagem oficial. O presidente Gustavo Petro foi mais enfático ao afirmar que “ainda não é possível proclamar nenhum eleito”, que “só a contagem definitiva determina quem é o presidente” e que há “evidências de que o processo teve muitas irregularidades”. O procurador-geral, Gregorio Eljach, no entanto, afirmou que não houve um único fato que tenha afetado a transparência nem a tranquilidade da eleição. Derrota implicitamente reconhecida Apesar das ressalvas, Iván Cepeda fez um discurso em que a derrota estava implicitamente reconhecida, sem admiti-la de forma definitiva. Avisou ao eleito que “não permitirão um recuo nas conquistas sociais que foram construídas na Colômbia ao longo destes quatro anos” do governo de Gustavo Petro. Disse também que está disposto ao diálogo e a acordos, desde que sejam respeitosos, e que decisões não podem ser impostas de forma arbitrária ou autoritária. Assinalou ainda que o eleito deve “procurar um acordo nacional para resolver os problemas colombianos”. Ou seja, Cepeda assumiu o papel de oposição. Vencedor jura defender a Constituição Já o eleito, Abelardo de la Espriella, fez um discurso de vitória atrás de um vidro blindado. Ciente de um país dividido em partes praticamente iguais, pediu união como forma de facilitar a governabilidade. “Serei o presidente de todos os colombianos. Vou governar para todos”, afirmou. Garantiu que não haverá retaliações nem perseguições contra aqueles que pensam diferente ou que não votaram nele. Diante da resistência do presidente Gustavo Petro em reconhecer a derrota do candidato governista, Iván Cepeda, o eleito pediu que “respeitem a vontade do povo colombiano” e que “se abstenham de desatar um incêndio social”. Abelardo de la Espriella fundou o partido Defensores da Pátria em julho do ano passado, numa ascensão meteórica. Ao longo de 11 meses, passou de uma versão mais radical a uma mais moderada. Há dúvidas sobre até onde estaria disposto a forçar as instituições democráticas para aprovar propostas consideradas controversas, como retirar a Colômbia da Organização dos Estados Americanos ou das Nações Unidas. Para responder às críticas, o eleito jurou “defender a Constituição com extrema coerência” e afirmou que vai respeitar a atual Carta de 1991, afastando a ideia de uma nova Assembleia Constituinte. Em conversa com o cientista político Fabián Cárdenas, do Departamento de Direito Internacional da Universidade Javeriana de Bogotá, a avaliação é que, se mantiver esse compromisso, Espriella fará um governo democrático. Ajuste fiscal A possibilidade de reação social a um ajuste fiscal é considerada real, especialmente se houver cortes em direitos adquiridos. O déficit fiscal do país é de 6,5%, e o eleito prometeu reduzir o tamanho do Estado em 25% ao longo do mandato. Segundo Humberto Librado, diretor do Departamento de Ciência Política da mesma universidade, há risco de tensão nas ruas caso benefícios sociais sejam atingidos. Para Fabián Cárdenas, a capacidade de mobilização social está sobretudo na esquerda ligada a Gustavo Petro e Iván Cepeda, do Pacto Histórico. Ele avalia, porém, que será difícil eliminar direitos adquiridos, já que as mudanças precisam passar pelo Congresso, onde o Pacto Histórico tem a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado. Ciente da capacidade de mobilização da esquerda, Abelardo de la Espriella pediu que opositores se abstenham de “semear o terror”. Disse que terão todas as garantias para exercer a oposição, desde que dentro da lei, e advertiu contra qualquer tentativa de estimular a violência. Mudança no mapa regional Com esta eleição, a América do Sul fica metade à direita ou à extrema direita; metade à esquerda, considerando que o Brasil ocupa metade do mapa. No Brasil, que terá eleições dentro de quatro meses, a expectativa é que líderes da extrema direita da região usem as redes sociais para apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula. Segundo Fabián Cárdenas, o impacto dessa influência externa tende a ser “nenhum” ou “muito limitado a determinados segmentos políticos”, já que o Brasil tem um processo eleitoral próprio e já passou por uma experiência recente com a extrema direita.

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  6. Jun 19

    Entre esquerda e extrema direita, Colômbia pode redefinir em eleição o mapa político regional

    A Colômbia realiza o segundo turno das eleições presidenciais no próximo domingo (21). O candidato da extrema direita e advogado criminalista, Abelardo de la Espriella, sem nenhuma experiência política prévia, lidera as pesquisas. Do outro lado está o senador de esquerda e filósofo, Iván Cepeda, candidato governista para suceder o presidente Gustavo Petro. Em uma região polarizada, a Colômbia tem impacto substancial no mapa político. Nessa disputa apertada, a Copa do Mundo foi a bandeira à qual os candidatos recorreram para fazer campanha. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Esta não é a primeira vez que estão em jogo modelos diferentes na Colômbia, mas é a primeira em que as propostas são antagônicas ao extremo do espectro ideológico, com reformas que podem colocar as instituições democráticas à prova. “Mas é também uma oportunidade para as instituições democráticas demonstrarem sua capacidade de moderar esses pacotes de reformas. O atual Congresso, eleito há três meses, está fragmentado, dificultando a aprovação de iniciativas de risco. Também a Justiça tem seu peso para impedir determinados excessos”, afirma à RFI Humberto Librado, diretor do Departamento de Ciência Política da Universidade Javeriana de Bogotá. Para o cientista político, a presença de projetos tão divergentes trouxe à discussão pública temas que antes não eram debatidos, como a agenda conservadora pró-família, os grupos armados ilegais, a imigração, a defesa da pátria, a reforma constitucional e os direitos indígenas. “Vemos claramente certos temas que antes não eram abordados por serem considerados tabu. O debate na Colômbia sempre foi moderado. Agora, esses assuntos são muito mais visíveis, marcando a posição de cada campo político. Essa é uma diferença desta eleição”, aponta Librado. De um lado, o ultraliberal Abelardo de la Espriella, de 47 anos, advogado criminalista e empresário que fundou o partido Defensores da Pátria há apenas um ano, propõe um programa de ajuste fiscal, desregulamentação econômica e “linha dura” contra o tráfico de drogas e a corrupção. Espriella utiliza um discurso semelhante ao de líderes como o norte-americano Donald Trump, o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele, combinando ajuste fiscal, valores conservadores e “mão de ferro” contra o crime. Ele afirma que esta eleição é a batalha dos “nunca” (os que nunca tiveram chances) contra os “de sempre”. Em resumo, nos próximos quatro anos, Espriella quer um Estado 25% menor do que o atual. Já o senador e filósofo Iván Cepeda, de 63 anos, integra o esquerdista Pacto Histórico, do atual presidente Gustavo Petro, responsável pelo primeiro governo de esquerda da Colômbia. Ele propõe reformas sociais, redistribuição de terras, programas para jovens e o combate à corrupção e ao tráfico de drogas com políticas de prevenção e inteligência. Cepeda foi um dos artífices do Acordo de Paz com os guerrilheiros, assinado em 2016. Ele quer rever os tratados de livre-comércio firmados pela Colômbia, especialmente com os Estados Unidos, para proteger a produção nacional. Em síntese, defende um Estado com papel estratégico na economia. Abelardo de la Espriella surpreendeu há três semanas ao vencer o primeiro turno com 43,7% dos votos, cerca de 660 mil votos a mais do que Iván Cepeda, que obteve 40,9%. Vantagem para Espriella Das últimas cinco pesquisas, quatro apontam para a vitória do candidato da extrema direita. Apenas uma indica que Iván Cepeda tem uma vantagem de alguns décimos, dentro da margem de erro, caracterizando um empate técnico. A empresa de consultoria Celag Data aponta para uma vitória de Iván Cepeda com 40,8%, enquanto Abelardo de la Espriella apareceria logo atrás, com 39,7%. Apenas 1,1 ponto percentual de diferença, enquanto os votos brancos e nulos somariam 7,6%. Todas as demais pesquisas preveem vitória de Espriella. A consultoria CB é a que atribui a menor vantagem ao candidato da extrema direita: cinco pontos percentuais. Já o instituto brasileiro de opinião pública AtlasIntel é o que aponta a maior vantagem para Espriella, com oito pontos de diferença. Ele obteria 52,4% dos votos válidos, enquanto Iván Cepeda ficaria com 44,4%. Há três semanas, no primeiro turno, todas as pesquisas indicavam a vitória de Iván Cepeda, o que não se confirmou. Linha dura x estratégia Espriella afirma que vai destruir 330 mil hectares de coca, desmontar as milícias e criar um órgão de combate à corrupção comandado pelo próprio presidente, o que significa que ele dificilmente será investigado. Entre as propostas mais chamativas para combater a sonegação, ele pretende extinguir o órgão de controle de impostos e alfândega, substituindo-o por sistemas de inteligência artificial. Para enfrentar o crime, promete seguir o modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, construindo dez penitenciárias e combatendo os grupos armados com operações militares. Iván Cepeda também propõe criar uma unidade de investigação contra a corrupção. Em relação ao combate ao crime organizado e ao conflito armado, prefere investir na prevenção para impedir que jovens sejam recrutados por grupos armados e combater as economias ilegais que alimentam o tráfico de drogas. O candidato da esquerda aposta no diálogo para incluir a guerrilha do Exército de Libertação Nacional no Acordo de Paz, do qual participam, desde 2016, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Impacto regional Uma das principais diferenças entre os dois candidatos está na política externa. Espriella avisou que vai restabelecer as relações diplomáticas com Israel, rompidas há dois anos por Gustavo Petro devido aos ataques à Faixa de Gaza. Ele também pretende transferir a Embaixada da Colômbia de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo os passos de Donald Trump. Já Iván Cepeda rejeita qualquer tipo de intervenção militar estrangeira, como a defendida por Trump para a Venezuela, e aposta na integração latino-americana, tendo o presidente Lula como aliado estratégico. O cientista político Humberto Librado entende que quem vencer a eleição na Colômbia terá peso regional, posicionando-se a favor ou contra Lula nas eleições brasileiras. Para ele, Cepeda poderá ser uma peça regional importante para Lula, enquanto Espriella poderá desempenhar papel semelhante para Flávio Bolsonaro. “Há uma identificação entre os projetos progressistas dos presidentes Gustavo Petro e Lula. Em vários momentos de crise na Venezuela, Petro e Lula se aproximaram. Mas esses projetos progressistas fracassaram na leitura da direita. Assim, o que acontece na Venezuela ou em Cuba também é associado a Petro e a Lula dentro dessa narrativa”, avalia o especialista. “A vitória de um candidato reforça os eleitores que têm essa tendência ideológica. E, quando o discurso tem um caráter regional, ganha projeção. Em sociedades muito divididas como as nossas, essas vitórias fortalecem nos cidadãos a disposição de votar em determinado projeto político”, observa. A eleição na Colômbia, portanto, pode consolidar um bloco cada vez maior de países alinhados à extrema direita, formando uma aliança regional com Donald Trump, nos Estados Unidos, Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Daniel Noboa, no Equador. “Se a extrema direita vencer, como indicam as pesquisas, haverá uma consolidação regional dessa tendência. Vemos uma aposta regional nessa linha, na qual a Colômbia passaria a ser um ator relevante. O alinhamento regional, em uma espécie de cruzada pelas ideias conservadoras e pela liberalização da economia, ficará muito mais evidente no mapa político da região”, afirma Humberto Librado. Javier Milei manifestou publicamente seu apoio a Abelardo de la Espriella, com quem conversou nesta semana. A interferência política de integrantes do governo dos Estados Unidos nas eleições colombianas levou mais de 20 legisladores norte-americanos a publicar cartas questionando a legalidade do apoio explícito de Trump ao candidato da extrema direita. Política em plena Copa do Mundo A exemplo do que o ex-presidente Jair Bolsonaro fazia ao usar a camisa da seleção brasileira como símbolo político, Espriella passou toda a campanha vestindo a camisa da seleção colombiana. A questão chegou aos tribunais, e uma decisão judicial permitiu que ele continuasse utilizando o uniforme. Depois disso, já neste segundo turno, Iván Cepeda também passou a vestir a camisa amarela da seleção colombiana de futebol. “Em um país apaixonado por futebol, Abelardo de la Espriella utilizou a camisa da seleção como forma de exaltar valores patrióticos. Incluiu atletas e famílias ligadas ao futebol colombiano. Procurou mobilizar o eleitorado por meio das emoções”, interpreta Librado. Nesta semana, quando os comícios estavam proibidos, os candidatos encontraram uma forma de convocar militantes e eleitores. Na quarta-feira (17), Cepeda promoveu um “bandeiraço”, aproveitando a estreia da Colômbia na Copa do Mundo. Os apoiadores se reuniram para supostamente torcer pela seleção, mas acabaram fazendo campanha para o candidato. Para não ficar de fora da iniciativa, na quinta-feira (18), Espriella também promoveu um “bandeiraço” para supostamente comemorar a vitória da seleção colombiana, mas, na prática, também fez campanha. “As vitórias no futebol exacerbaram os sentimentos nacionalistas, atingindo seu ponto máximo durante a Copa do Mundo. É uma tentação para a política capitalizar esse sentimento. E uma campanha realizada em meio a um Mundial é o cenário perfeito para fundir futebol e política”, conclui Humberto Librado.

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  7. Jun 17

    G7: Macron celebra ‘gol' para a Ucrânia, mas Lula sai insatisfeito com resultado da cúpula

    A cúpula do G7 encerrou-se nesta quarta-feira com a presidência francesa comemorando o resultado dos três dias de encontros de 15 chefes de Estado em Évian, que culminaram com a volta do apoio de Donald Trump à Ucrânia na guerra contra a Rússia. Mas, para o Brasil e outros países emergentes convidados a participar do evento, o encontro ficou marcado pelas profundas diferenças de visão sobre as crises internacionais. Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Évian À imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a escolha de acomodar os nove documentos  preparados durante o encontro ao gosto do líder americano.“Nós nos comprometemos a aumentar as pressões sobre a Rússia, inclusive com o reforço das nossas sanções. A volta dessa mobilização é extremamente importante”, frisou, em uma das diversas vezes em que citou os resultados em favor da Ucrânia. Um deles, argumentou, foi o bom entendimento entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, convidado a participar. O líder americano evocou a volta de sanções dos Estados Unidos ao petróleo russo, uma vitória para os europeus. Cobrado pelas concessões feitas a Trump em troca de apoio, que incluíram um jantar exclusivo no Palácio de Versalhes, Macron alegou que o monumento é um instrumento diplomático que representa o poder da França, e fez uma alusão à Copa do Mundo. “No fundo, eu sou como os bleus: jogando em casa ou no exterior, meu objetivo é marcar gols. Voilà.” Para o Brasil, ar de déjà vu Já do lado dos países emergentes, a cúpula teve um ar de déjà vu. "Está ficando um samba de uma nota só: quando os convidados chegam na reunião, os países do G7 já aprovaram os seus documentos”, lamentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao fazer um balanço bem menos otimista sobre a cúpula do que o anfitrião do evento. Esta foi a décima vez que ele participou da reunião do grupo de países industrializados. Dos oito textos sobre os diferentes temas abordados em conjunto com as cinco nações convidadas este ano – Brasil, Índia, Quênia, Egito e Coreia do Sul –, o Brasil assinou apenas três, sobre a proteção de menores no ambiente digital, o combate ao tráfico de drogas e ao câncer. A Índia, parceira do Brasil no Brics, também recusou a maioria dos documentos. Apenas duas das declarações foram apoiadas por todos os países não-membros do G7. Vazio ocupado pela China Lula foi particularmente crítico ao tom adotado sobre a China nas discussões sobre os desequilíbrios macroeconômicos globais e acesso a minerais críticos. “Faz muitos anos que o Brasil faz licitação internacional e os Estados Unidos não participam. A União Europeia não participa. Quem participa? A China”, evocou. "A China ocupou um espaço que estava vazio. Nós queremos, enquanto Brasil, enquanto América Latina e terceiro mundo, sobretudo os países africanos, é que quanto mais países estiverem interessados em fazer investimento nos nossos países, em comprar os nossos produtos e estarem dispostos a contribuírem, participando da exploração e da industrialização e do enriquecimento da área de mineração, desde que seja dentro do nosso país, sejam bem-vindos”, afirmou. Para o presidente brasileiro, o crescimento econômico mundial, que leve ao desenvolvimento e o aumento do mercado consumidor também nos países do Sul Global, é parte importante da solução para corrigir os desequilíbrios denunciados pelo G7: em que a China produz e exporta muito para o resto do mundo, impactando as economias desenvolvidas. “Para tentar acabar com essa discussão entre China e Estados Unidos, o mundo precisa crescer. Não adianta crescer só a Alemanha, os Estados Unidos, a França. É preciso crescer para outros países para que eles possam vender inclusive os seus produtos de maior valor agregado. Eu fiz questão de deixar claro na minha intervenção lá: é preciso vocês compreenderem que vocês precisam criar novos consumidores, que estão fora dos países de vocês. Então, façam investimentos”, argumentou Lula. Questionado pela imprensa brasileira a respeito dessas divergências, o francês Emmanuel Macron refutou a ideia de um "G7 antichinês”. "Essa não é a posição da França. É inaceitável dizer isso”, disse. "Simplesmente queremos reduzir nossa dependência. Mas não há conflito”, frisou. Encontro de Lula com Zelensky Sobre a guerra na Ucrânia, a cúpula marcou uma ocasião para o presidente brasileiro voltar a dialogar com Volodymyr Zelensky, pela primeira vez desde setembro de 2025. Os dois tiveram uma reunião bilateral ao final dos compromissos oficiais do G7 em Évian. Segundo Lula, foi "a melhor conversa" que ele já teve com o líder de Kiev. "Eu, pela primeira vez, senti o Zelensky com muita disposição de encontrar uma solução. Zelensky quer a paz e está dizendo que quer um cessar-fogo sem colocar nenhum pedido", contou, Lula. "Eu agora assumi o compromisso de outra vez fazer o que eu já fiz, ligar para todos os membros do Conselho de Segurança da ONU. Eles são os responsáveis de garantir a paz ou a guerra entre Rússia e Ucrânia”, prometeu, referindo-se aos chefes de Estado e de Governo de Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia.

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  8. Jun 17

    Após semanas de crise, governo boliviano abre canal de diálogo com centrais sindicais

    A Bolívia enfrenta uma prolongada onda de protestos que já dura semanas e pressiona o governo do presidente Rodrigo Paz. Com bloqueios, mobilizações e desgaste crescente nas ruas, diferentes setores sociais começam a sinalizar abertura para negociações em meio à crise política. O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, informou que representantes da Central Obrera Boliviana (COB), principal organização sindical do país, são esperados na manhã desta quarta-feira na sede da Presidência, para iniciar um diálogo. Pedro Pannunzio, em La Paz Na sétima semana de protestos, as manifestações na Bolívia dão sinais de desgaste, enquanto importantes organizações começam a se abrir ao diálogo com o presidente Rodrigo Paz. Desde o início de maio, diferentes grupos exigem a renúncia do mandatário. Na terça-feira (16), a Central Obrera Departamental (COD) de Santa Cruz, braço político da COB no Estado, reuniu-se com Paz para discutir a crise boliviana. Após o encontro com dirigentes da COD de Santa Cruz, o presidente anunciou que visitará o Estado nas próximas semanas para se reunir com representantes da entidade e de outros setores produtivos, com o objetivo de discutir demandas específicas da região. “Peço à Central Obrera Departamental de Santa Cruz e às demais centrais operárias do país que mantenham o diálogo. Para aqueles que não desejam dialogar, existe a Constituição e a lei”, afirmou o presidente. Mais tarde, a COB enviou uma carta ao governo com uma série de reivindicações. Entre elas, a defesa da soberania econômica e das empresas públicas, com oposição a qualquer processo de privatização. A entidade também pede a proibição da participação de empresas transnacionais na gestão de recursos estratégicos do Estado e rejeita condicionantes financeiras impostas por organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Promessas de campanha não cumpridas Os sindicatos ainda cobram o cumprimento das promessas feitas durante a campanha eleitoral e exigem garantias para suas organizações e para a pacificação do país. A pauta inclui a rejeição aos projetos de lei antibloqueios, a revogação de normas que consideram restritivas ao direito de mobilização e o fim de acusações generalizadas de terrorismo e narcotráfico contra organizações sociais sem apresentação de provas. A carta também pede a libertação de pessoas detidas durante os conflitos. O chanceler Fernando Aramayo elogiou o chamado ao diálogo feito pela COB e afirmou que a decisão representa um sinal de “maturidade política e democrática”. Diálogo adia estado de emergência Na semana passada, Rodrigo Paz sancionou uma lei que regulamenta o estado de exceção no país, após o Congresso aprovar em tramitação acelerada o projeto. Havia expectativa de que o presidente decretasse estado de emergência, o que abriria espaço para a atuação das Forças Armadas na contenção dos protestos. Durante a cerimônia de sanção da lei, Paz enviou um recado aos militares, afirmando que as Forças Armadas deveriam agir com firmeza, mas respeitando os direitos humanos. Apesar das expectativas, o presidente não decretou o estado de sítio e optou por apostar no desgaste gradual das organizações mobilizadas. A estratégia parece começar a produzir resultados. Depois de semanas com mais de 100 pontos de bloqueio, a Bolívia registrava, na noite de terça-feira, 47 bloqueios nas estradas do país. Crise de abastecimento Apesar da redução da tensão, La Paz, sede do governo, ainda enfrenta desabastecimento severo e mantém alguns pontos de bloqueio. O desabastecimento continua a afetar a rotina dos moradores. Filas para a compra de produtos básicos permanecem comuns em diferentes regiões da cidade. Nos postos de combustível, motoristas seguem enfrentando longas esperas e, em muitos casos, passam a noite nas filas para conseguir abastecer. A inflação permanece como uma das principais preocupações dos moradores da cidade. Na terça-feira, autoridades locais organizaram uma venda de frango a preços subsidiados. O resultado foi a formação de longas filas e a frustração de consumidores que deixaram o local sem conseguir adquirir o produto. Houve confusão entre moradores, e a polícia interveio.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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