Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 8H AGO

    Decisão judicial alemã restringe acesso a mensagem de celular de investigados

    Em um contexto global em que mensagens de celular são usadas cada vez mais como provas criminais, o Tribunal Federal de Justiça alemão restringiu nesta semana o direito de investigadores de vasculharem o histórico de mensagens de celular dos suspeitos. A decisão deve tornar o trabalho de investigação das autoridades policiais mais complicado, mas ilustra bem a histórica preocupação alemã com a privacidade de dados. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha A decisão é sobre um tipo de vigilância bem específico: quando a polícia ou o Ministério Público solicita à justiça um monitoramento das mensagens de um suspeito, o chamado “grampo”. A partir de agora, eles só poderão acessar as mensagens de bate papo-criadas a partir do início do monitoramento. Se os investigadores quiserem, por exemplo, usar o histórico de conversa do WhatsApp ou do Telegram de um investigado como provas, eles terão que pedir um outro tipo de autorização judicial, muito mais difícil de se obter e que é concedido apenas em alguns tipos de crime. O caso concreto que levou à esta decisão judicial aconteceu na cidade de Aurich, noroeste da Alemanha. Um homem foi condenado a vários anos de prisão por tráfico ilegal de medicamentos, mas acabou tendo a sentença parcialmente anulada porque, entre as provas, a polícia elencou mensagens de até 5 meses antes do início do monitoramento. Spywares estatais O direito alemão está passando por um movimento de reação a uma alteração do código penal feita em 2017. Na época, bastante motivada por ameaças de terrorismo, essa mudança no código penal autorizou investigadores a infiltrarem-se em celulares e computadores de suspeitos usando software de espionagem. Já no ano passado a justiça alemã decidiu que o uso indiscriminado dos chamados spywares são parcialmente inconstitucionais. Agora vem outra decisão tornando o monitoramento mais complicado. A decisão desta semana foi celebrada pela Ordem dos Advogados da Alemanha, que sempre considerou ilegal usar o histórico de mensagens dos investigados. Alemães e privacidade: uma questão histórica A Alemanha tem um histórico de conviver com regimes autoritários de vigilância, como o regime nazista, em que a polícia secreta do governo, a Gestapo, coletava informações sobre cidadãos e mantinha arquivos detalhados para perseguir opositores políticos ou grupos étnicos. Depois da Segunda Guerra Mundial ainda houve a Stasi, o Ministério para Segurança do Estado do regime socialista da Alemanha Oriental, que ficou conhecido por ter um dos sistemas de vigilância de cidadãos mais amplos da história. Nos dias atuais, a preocupação dos alemães em evitar que um regime desse tipo ocorra novamente se adaptou aos tempos da internet, e é por isso que o país se dedica tanto a questões como proteção de dados e privacidade online. Até mesmo uma consulta de dentista na Alemanha exige assinatura de um longo documento sobre privacidade de dados. Decisão do Censo de 1983 e GDPR A atual legislação da União Europeia de proteção de dados, conhecida pela sigla GDPR, foi fortemente inspirada em uma lei de 1970 do estado alemão de Hesse, que é considerada a primeira lei de proteção de dados do mundo. Depois disso, houve ainda a histórica decisão judicial conhecida como Decisão do Censo. Na primavera de 1983 estava previsto um censo da população alemã que pretendia coletar uma vasta gama de informações dos cidadãos. Houve uma reação popular e dos meios jurídicos que acabou levando o censo aos tribunais e a uma decisão histórica, dando origem ao princípio jurídico chamado “direito à autodeterminação informativa”. O censo acabou acontecendo só quatro anos depois, e de forma muito mais limitada.

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  2. 1D AGO

    Espanha amplia acesso à saúde pública para imigrantes sem residência legal

    O governo espanhol aprovou um decreto que garante acesso à saúde pública para estrangeiros em situação irregular no país. A medida visa desburocratizar o atendimento médico e atender grupos mais vulneráveis. Ana Beatriz Farias de Oliveira, correspondente da RFI em Madri Aprovado recentemente pelo governo espanhol, um decreto que reforça a universalidade da saúde pública regula, entre outras coisas, o direito à assistência médica para estrangeiros que se encontram na Espanha sem residência legal. Uma das principais novidades trazidas pelo texto é a simplificação dos procedimentos administrativos. Entre as medidas de desburocratização, está a possibilidade de solicitar acesso ao sistema público de saúde por meio de uma declaração responsável, em que o solicitante afirma não ter cobertura médica por outros meios. O reconhecimento da residência habitual na Espanha também foi simplificado: além do registro formal de domicílio – conhecido no país como “empadronamiento” –, outros comprovantes poderão ser aceitos. É o caso de faturas de serviços básicos que estejam em nome do solicitante, por exemplo. Por outro lado, a nova norma também estabelece mecanismos de controle. Se o pedido de acesso ao sistema público de saúde for recusado ou for detectada qualquer inexatidão ou falsificação na declaração apresentada, poderá haver cobrança pelos serviços prestados. Acesso imediato Para evitar atrasos no atendimento, será emitido um documento provisório no momento da solicitação de acesso ao sistema de saúde. Com isso em mãos, o solicitante pode ter acesso imediato à assistência médica pública enquanto o seu pedido estiver sendo processado. A administração tem um prazo máximo de três meses para comunicar sua decisão ao requerente. Uma vez reconhecido, esse direito não expira até que a cobertura de saúde seja obtida por outros meios. A nova norma também prevê acesso imediato e efetivo aos serviços públicos de saúde para grupos que necessitam de proteção especial, independentemente da situação migratória. Entre eles, estão: menores de idade, gestantes, vítimas de violência, solicitantes de proteção internacional e pessoas com deficiência. Leia tambémEspanha aprova plano para regularizar meio milhão de imigrantes, a maioria latino-americanos Inclusão de espanhóis que vivem fora do país O decreto amplia ainda o acesso à saúde pública para espanhóis de origem que, vivendo no exterior, estejam de passagem pela Espanha. Antes, esse direito era restrito a pensionistas ou trabalhadores. Agora passa a incluir todos os espanhóis de origem e seus familiares, como cônjuges e filhos dependentes, desde que estes não tenham cobertura por acordos internacionais ou pela seguridade social. Além disso, a nova regra estabelece que pessoas isentas de pagar por medicamentos, por serem de baixa renda, também ficarão isentas de pagar por produtos de ortopedia e próteses. Medidas favoráveis à população migrante A simplificação da inclusão de imigrantes sem residência legal no sistema público de saúde espanhol vai ao encontro de outras medidas tomadas pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Em janeiro deste ano, o executivo espanhol deu sinal verde para um plano que vai regularizar de maneira extraordinária a situação de cerca de 500 mil pessoas que vivem no país e se encontram em situação administrativa irregular. Para ser contemplado, o estrangeiro precisa ter chegado à Espanha até o dia 31 de dezembro de 2025, estar no país há pelo menos cinco meses no momento do pedido e não ter antecedentes criminais. Leia tambémNa contramão da política migratória europeia, Espanha aposta em inserção de estrangeiros pelo trabalho Segundo a ministra de Migrações, Elma Saiz, os pedidos de regularização poderão começar a ser apresentados a partir de abril. A reforma surge após uma iniciativa popular que reuniu mais de 600 mil assinaturas e contou com o apoio de cerca de 900 associações. Na Espanha, já foram realizados seis processos de regularização extraordinária antes. O último deles foi posto em prática em 2005, beneficiando mais de 500 mil pessoas. De acordo com a ministra de Migrações, a medida aplicada mais de 20 anos atrás foi um êxito, e teve um “enorme impacto positivo na sociedade e no conjunto do país”. Por outro lado, o plano atual sofre críticas da oposição conservadora e da extrema direita, com alguns de seus representantes acusando o governo de incentivar a imigração irregular. Hoje, mais de sete milhões de estrangeiros vivem na Espanha, e as estimativas são de que 840 mil estejam em situação irregular, segundo o centro de análises Funcas. Com a decisão de promover a regularização, o governo de Pedro Sánchez se destaca em relação a outros membros da União Europeia, já que, atualmente, outros países do bloco endurecem suas regras sob pressão da extrema direita.

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  3. 3D AGO

    Preço do petróleo recua após fala de Trump, que ameaça Irã com ataques 'vinte vezes mais fortes'

    No 11º dia da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, os mercados globais reagiram a sinais contraditórios vindos da Casa Branca. Os preços do petróleo recuaram depois que o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o conflito pode terminar “muito em breve”. Ao mesmo tempo, o líder republicano elevou o tom nas redes sociais ao advertir que qualquer tentativa do Irã de bloquear o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz provocaria uma resposta militar dos Estados Unidos “vinte vezes mais forte” do que as operações realizadas até agora. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A escalada militar teve efeito imediato nos mercados de energia. Na segunda-feira (9), o barril de Brent, referência internacional do petróleo, chegou a ultrapassar US$ 100, atingindo o nível mais alto desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. Em determinado momento, o preço se aproximou de US$ 120, o que provocou quedas nas bolsas da Ásia e da Europa e pressionou também os índices em Wall Street. O movimento começou a se reverter depois das declarações de Trump sugerindo que a campanha militar pode estar próxima do fim. Com isso, o preço do Brent recuou e voltou para a faixa de US$ 99 o barril. Ao mesmo tempo, a Casa Branca tenta evitar uma nova disparada no preço da energia. Trump sugeriu que os Estados Unidos podem flexibilizar sanções contra alguns países para aumentar a oferta de petróleo no mercado internacional. O governo americano já autorizou, por exemplo, uma licença temporária de 30 dias para que a Índia compre petróleo russo de navios que estavam parados no mar. Mesmo assim, o presidente deixou claro que uma escalada no Golfo Pérsico continua sendo uma possibilidade. Segundo Trump, qualquer tentativa iraniana de interromper o fluxo de petróleo será respondida com força. A ameaça sobre o Estreito de Ormuz Em publicação nas redes sociais, Trump afirmou que os Estados Unidos não permitirão que o Irã “mantenha o mundo refém do petróleo”. Segundo ele, caso Teerã tente bloquear o Estreito de Ormuz, Washington reagirá com ataques “vinte vezes mais fortes” do que os realizados até agora. A declaração aumentou o temor de uma ampliação do conflito. O Estreito de Ormuz concentra uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta: cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo passa pela região, localizada entre o Irã e Omã. Analistas alertam que qualquer tentativa de bloqueio poderia provocar uma crise energética internacional e desencadear uma resposta militar ainda maior dos Estados Unidos e de seus aliados. Apesar das ameaças, Trump tem adotado um tom otimista sobre o andamento da guerra. O presidente descreveu a ofensiva, batizada de Operação Fúria Épica, como “uma das operações militares mais complexas e impressionantes já realizadas”. Segundo ele, a campanha seria uma espécie de “incursão de curto prazo” e estaria adiantada em relação ao cronograma. Trump chegou a afirmar que o conflito pode terminar “muito em breve”. Ainda assim, o presidente americano evitou declarar vitória. Ele disse que os Estados Unidos “já venceram de muitas maneiras, mas ainda não o suficiente”, e afirmou que a operação só será considerada concluída quando o Irã não tiver mais capacidade de atacar os Estados Unidos, Israel ou aliados americanos na região. O líder republicano também comentou a sucessão política em Teerã após a morte do aiatolá Ali Khamenei, nos primeiros dias do conflito. Trump criticou a escolha do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, dizendo estar “decepcionado” com a decisão e sugerindo que a mudança pode manter os mesmos problemas políticos no país. Israel já sinalizou que o novo líder iraniano também pode se tornar alvo militar, o que aumenta ainda mais a tensão.  Ataque a escola aumenta pressão internacional Um dos episódios mais chocantes da guerra ocorreu na cidade iraniana de Minab. Um ataque que tinha como alvo uma base naval da Guarda Revolucionária acabou atingindo uma escola primária próxima, provocando a morte de dezenas de pessoas, muitas delas crianças. Imagens divulgadas pela agência iraniana Mehr e analisadas por investigadores independentes do grupo Bellingcat indicam que o local foi atingido durante uma série de bombardeios americanos. Segundo essas análises, o ataque teria sido realizado com um míssil Tomahawk, armamento utilizado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Questionado sobre o caso, Trump afirmou que o episódio ainda está sob investigação. O presidente também sugeriu, sem apresentar provas, que o ataque poderia ter sido realizado pelo próprio Irã ou por “algum outro país”, argumentando que outros governos também possuem esse tipo de míssil. O caso aumentou a pressão internacional sobre Washington e intensificou as preocupações sobre vítimas civis no conflito. Seleção feminina do Irã pede proteção A guerra também tem repercussões humanitárias a milhares de quilômetros de distância do Oriente Médio. Um dos casos mais simbólicos envolve a seleção feminina de futebol do Irã, que viajou à Austrália para disputar a Copa da Ásia.  Durante uma partida do torneio, algumas jogadoras decidiram não cantar o hino nacional, em um gesto interpretado como protesto contra o regime iraniano. Após o episódio, a imprensa estatal do país passou a chamar as atletas de “traidoras”, o que levantou preocupações sobre a segurança delas na volta ao Irã. Trump afirmou ter conversado com o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, defendendo que as jogadoras recebessem asilo político para não correrem risco de morte ao retornarem ao país.  Até o momento, cinco atletas, entre elas, a capitã Zahra Ghanbari, já receberam proteção oficial do governo australiano, o que permite que permaneçam na Austrália. As jogadoras também receberam convite para treinar com um clube da liga feminina do país. Outras integrantes da equipe ainda avaliam o pedido asilo e estão sendo orientadas por advogados sobre as opções legais.

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  4. 4D AGO

    António Seguro assume a presidência de Portugal em meio ao polêmico uso de base militar pelos EUA

    O socialista António José Seguro assumiu nesta segunda-feira (9) o cargo de Presidente da República Portuguesa, após a cerimônia de posse na Assembleia. Seguro, que teve uma vitória esmagadora no segundo turno das eleições, foi o candidato mais votado na história do país. A posse do novo chefe de Estado acontece em meio à polêmica autorização dada por Portugal para os EUA usarem a Base das Lajes, nos Açores, para escala de seus aviões militares envolvidos na guerra no Oriente Médio. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Em seu discurso de vitória, António José Seguro reiterou que será um presidente “livre e sem amarras” partidárias e que a prioridade em seu primeiro ano de mandato deverá ser a saúde e um pacto para o setor. O sucessor de Marcelo Rebelo de Souza, chamado de “Presidente dos afetos”, que construiu uma marca política singular nos últimos dez anos, sobe a rampa do Palácio de Belém em um contexto internacional conturbado. Atento às tensões geopolíticas, Seguro fará da defesa outra prioridade do início de seu mandato. O novo presidente é, sobretudo, apoiador de uma visão europeia da política de Defesa, e deve se posicionar a favor da manutenção das alianças na OTAN e na União Europeia. Política externa A princípio, o novo chefe de Estado português deve manter a linha da continuidade da política externa do país, sem rupturas com o histórico aliado norte-americano. Mas isso não significa que António Seguro simpatiza com as ações do presidente dos EUA, Donald Trump, pelo contrário. Ainda durante sua campanha, o então candidato presidencial ressaltou que “com certeza não foi por amor à liberdade e à democracia que Trump fez a intervenção na Venezuela.” Na época, Seguro também disse que deveria haver “soluções pacíficas para o Irã.” O ex-eurodeputado social-democrata e amigo próximo do novo presidente, Carlos Coelho, afirmou que, no entanto, “nunca vamos ouvir Seguro dizer o mesmo que Pedro Sánchez”. O chefe do governo espanhol, que tem criticado abertamente a atuação dos EUA no conflito do Oriente Médio, não autorizou o uso de estruturas na Espanha para ataques ao Irã. Na semana passada, Sánchez desmentiu as declarações da Casa Branca nas quais a Espanha teria concordado em cooperar militarmente com os EUA, e negou que aviões norte-americanos tenham sido detectados nas bases militares espanholas de Rota e Morón de la Frontera, no sul do país. Protesto em Açores Houve protestos recentes nos Açores, mais precisamente na ilha Terceira, onde fica a Base das Lajes. Os manifestantes fizeram um apelo para que Portugal rejeite o uso da base em qualquer operação militar que contribua para intensificar o conflito no Irã. Há uma incoerência na posição de Lisboa por causa da existência de voos anteriores à autorização formal do governo. Segundo o jornal Expresso, os EUA realizaram sete voos de reabastecimento nos Açores antes do sinal verde das autoridades portuguesas. O acordo “condicional” de Portugal só foi dado após os primeiros ataques dos EUA contra o Irã, assim como a declaração do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, que assegurou que o uso da Base das Lajes “não resultou de qualquer violação do direito internacional”. Enquanto isso, 15 aeronaves KC-Pegasus 46 com capacidade de abastecer aviões militares em pleno vôo, estão estacionadas na Base das Lajes e têm saído para missões diárias. Segundo o Ministério das Relações Exteriores de Portugal, o eventual uso da Base das Lajes na guerra em curso está sujeita a três requisitos: só pode ser utilizada em resposta a um ataque, em um quadro de defesa ou retaliação; a ação tem que ser necessária e proporcional; e só pode visar alvos militares. Para especialistas em direito internacional, é impossível verificar todas estas condições.

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  5. MAR 6

    Abertura dos Jogos Paralímpicos de Inverno terá boicote de delegações e não contará com porta-bandeiras

    Em meio à guerra na Ucrânia, a autorização para que atletas russos e bielorrussos compitam sob suas bandeiras gerou críticas. O Comitê Paralímpico Internacional decidiu que voluntários irão carregar as bandeiras de todos os países durante o desfile, justificando dificuldades de deslocamento entre as cidades dos Jogos. O Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura, por motivo de logística. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Mais de 600 atletas, de 57 países, participam dos Jogos Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026. Esta edição marca os 50 anos da primeira Paralimpíada de Inverno. Assim como nas Olimpíadas, as competições serão distribuídas entre diferentes cidades: Milão, Cortina d’Ampezzo e Tesero.  Ao todo, são seis modalidades em disputa, no entre elas esqui alpino, snowboard e hóquei no gelo. Em Milão, são esperados cerca de 73 mil espectadores, segundo estimativa do Centro de Estudos da Confcommercio Milano, Lodi, Monza e Brianza. Os preços dos ingressos chamaram atenção por serem relativamente acessíveis: 89% dos bilhetes custam menos de 35 euros (R$ 214). Embora a abertura oficial esteja marcada para esta sexta-feira (6), algumas competições já começaram. Na quarta-feira (4) tiveram início as partidas de curling em cadeiras de rodas. A cerimônia de abertura será realizada na Arena de Verona, um anfiteatro romano do século I, considerado Patrimônio Mundial da UNESCO. O local também recebeu a cerimônia de encerramento das Olimpíadas. O tema será “Vida em Movimento”. O espetáculo busca destacar as transformações constantes ao longo da vida, segundo o diretor artístico do evento, Alfredo Accatino, em entrevista à agência italiana Adnkronos. Entre os artistas confirmados estão Stewart Copeland, baterista e um dos fundadores da banda The Police, e o DJ italiano Miky Bionic, considerado o primeiro DJ do mundo a se apresentar usando uma prótese robótica mioeletrônica, após perder o braço esquerdo em um acidente. Boicote à cerimônia de abertura Ao menos 13 países anunciaram um boicote à cerimônia de abertura como forma de protesto, após o Comitê Paralímpico Internacional autorizar atletas da Rússia e de Belarus a competirem representando seus países. Também está autorizado que o hino nacional seja tocado em caso de vitória. As delegações que anunciaram boicote são: Ucrânia, Canadá, Croácia, República Tcheca, Estônia, Finlândia, Alemanha, França, Letônia, Lituânia, Holanda, Reino Unido e Polônia. Alguns deles não enviarão representantes do governo para a cerimônia e outros não terão atletas participando do desfile. Nos Jogos de Inverno, participarão seis atletas russos e quatro bielorrussos. Desde a invasão russa à Ucrânia, em 2022, atletas desses países só podiam competir como neutros. Outra decisão também aumentou a tensão. Atletas ucranianos foram proibidos de usar o uniforme do país que traz estampado o mapa da Ucrânia, incluindo as regiões ocupadas pela Rússia. O comitê internacional considera que isso configura uma mensagem política, algo proibido nos Jogos. A delegação ucraniana precisou alterar os uniformes às pressas. Em meio a todo esse impasse, o Comitê Paralímpico decidiu que voluntários carregarão as bandeiras dos países durante o desfile de abertura. Segundo o comitê organizador, a decisão foi tomada porque a distância entre Verona e os locais de competição dificultaria a participação dos atletas. Ainda assim, imagens dos atletas com as bandeiras foram gravadas nas vilas olímpicas e serão exibidas nos telões durante a cerimônia. Por conta da distância, o Brasil também não participará presencialmente da cerimônia de abertura. A delegação está concentrada em Predazzo, no norte da Itália, e teria que se deslocar até Verona. O Comitê Paralímpico Brasileiro informou que a decisão foi tomada para preservar a preparação dos atletas, já que alguns deles competem já no sábado (7). Cristian Ribera é a principal aposta do Brasil para conquistar medalha inédita Nesta quarta participação em Jogos Paralímpicos de Inverno, o Brasil chega em um cenário favorável para levar a primeira medalha. O país terá a maior delegação da história. Serão nove atletas, que competirão em três modalidades: esqui cross-country, snowboard e biatlo. O favorito a medalha é Cristian Ribera, natural de Rondônia. Ele é campeão mundial da temporada 2024/2025 no esqui cross-country, na categoria para atletas cadeirantes ou com deficiência nas pernas. Cristian realizou o primeiro treino na pista de Tesero nesta semana. A primeira prova será na terça-feira (10), na disputa do sprint clássico. Depois, ele ainda participará da prova individual de 10km e de duas provas de revezamento misto. Esta será a terceira participação de Cristian em uma Paralimpíada. Ele nasceu com artrogripose, uma condição congênita que limita a mobilidade das articulações. Como no Brasil não há neve, ele começou a treinar utilizando esquis adaptados com rodas. Outro destaque da delegação brasileira é a paranaense Aline Rocha, que vem se classificando entre as dez melhores nas competições de esqui cross-country nos últimos meses. Ela também competirá no biatlo. Aline foi a primeira mulher brasileira a disputar uma Paralimpíada de Inverno, em 2018. A atleta ficou paraplégica aos 15 anos, após um acidente de carro.

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  6. MAR 5

    Escalada do conflito no Oriente Médio coloca União Europeia sob pressão

    Tensão com os Estados Unidos, divisões internas e risco de crise energética desafiam a coesão política e estratégica do bloco europeu diante do conflito com o Irã. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A União Europeia vive mais um momento de tensão interna em meio à escalada do conflito no Oriente Médio. A crise diplomática entre o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou uma reação em cadeia em Bruxelas e reacendeu o debate sobre a posição do bloco diante da guerra com o Irã. Inicialmente, a Espanha se viu relativamente isolada ao adotar uma postura firme contra as ações de Israel e dos Estados Unidos no território iraniano. A recusa de Madri em disponibilizar suas bases aéreas para operações norte-americanas levou Trump a ameaçar “encerrar” as relações comerciais entre os dois países. Não está claro o que essa intimidação significaria na prática, mas a resposta europeia foi imediata. A Comissão Europeia divulgou comunicado expressando solidariedade à Espanha e lembrando que, por meio da política comercial comum, está pronta para agir em defesa dos interesses do bloco. O presidente francês, Emmanuel Macron, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, também conversaram com Sánchez para reiterar apoio político. No Parlamento Europeu, no entanto, a divisão ficou evidente. Partidos de esquerda tentaram incluir na próxima semana plenária em Estrasburgo um debate intitulado “Ameaças e sanções dos EUA contra a Espanha”, mas a coalizão de legendas de direita bloqueou a proposta. Espanha isolada e o eixo cauteloso No campo diplomático, a Espanha permanece praticamente sozinha na oposição aberta à guerra. Já o eixo formado por Alemanha, França e Reino Unido tem adotado uma linha mais calculada. O chanceler alemão, Friedrich Merz, esteve na Casa Branca e presenciou, em silêncio, as ameaças de Trump ao governo espanhol. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou-se inicialmente a participar dos ataques, mas acabou permitindo o uso de bases britânicas pelos Estados Unidos. Trump chegou a ironizá-lo publicamente, afirmando que Starmer “não é nenhum Churchill”. Esse mesmo eixo condenou a retaliação iraniana e reiterou críticas ao regime de Teerã, sem endossar explicitamente os bombardeios norte-americanos e israelenses. A cautela reflete um dilema político: apoiar as ações de Trump e do primeiro-ministro israelense poderia ser interpretado como desrespeito ao direito internacional, princípio historicamente defendido pela União Europeia. Ao mesmo tempo, Washington continua sendo parceiro central para a defesa europeia por meio da Otan, o que limita a margem de manobra dos governos do bloco. Portugal também se posicionou de forma distinta da Espanha. O primeiro-ministro Luís Montenegro declarou apoio a Trump e autorizou o uso da base aérea de Lajes, nos Açores, pelas forças norte-americanas. Von der Leyen amplia protagonismo No alto escalão europeu, a crise também provocou movimentos inesperados. Pela primeira vez, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, manifestou-se a favor de uma mudança de regime no Irã, posição não endossada unanimemente pelos 27 Estados-membros. A declaração causou surpresa porque, formalmente, a política externa da União Europeia é conduzida pela chefe da diplomacia do bloco, Kaja Kallas, e pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa. Ao assumir essa posição, Von der Leyen foi acusada por opositores no Parlamento de extrapolar suas competências e tentar ampliar sua esfera de poder. O debate vai além da disputa institucional. Uma escalada prolongada pode elevar novamente os preços da energia, algo que já afetou duramente o continente após a invasão russa na Ucrânia. Também há receio de um novo fluxo de refugiados e de um desvio de foco num momento em que a prioridade estratégica europeia segue sendo o apoio a Kiev. Por enquanto, a Comissão Europeia afirma que não há impacto imediato na segurança do abastecimento e não prevê medidas emergenciais. Chipre no centro da tensão A situação se agravou com o ataque iraniano a uma base britânica no Chipre, país que integra a União Europeia e atualmente ocupa a presidência rotativa do Conselho da UE. Embora membro do bloco, o Chipre não faz parte da Otan. Caso queira acionar um mecanismo de defesa coletiva, teria de recorrer ao artigo 42.7 do tratado europeu. Grécia, França e Reino Unido já reforçaram a segurança na região, e Alemanha e Itália devem seguir o mesmo caminho. No âmbito da Otan, a Turquia informou que as defesas aéreas da aliança interceptaram um míssil iraniano direcionado ao seu espaço aéreo. A Polônia declarou que Teerã comete um erro ao estender a guerra a países que não o atacaram. Do lado iraniano, o governo afirma que qualquer participação direta da Europa no conflito terá resposta imediata.

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  7. MAR 4

    Segurança europeia ganha destaque nas eleições da Dinamarca em meio à tensão no Oriente Médio

    O tema entrou no centro do debate às vésperas das eleições marcadas para 24 de março, que vão definir o próximo primeiro-ministro do país. A discussão ocorre em meio à tensão no Oriente Médio e ao discurso do presidente francês Emmanuel Macron sobre dissuasão nuclear. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Após confirmar que vai participar de treinamentos e atividades do programa de dissuasão nuclear proposto por Emmanuel Macron na última segunda-feira (02), a primeira-ministra Mette Frederiksen, do partido social-democrata, deixou claro que não haverá instalação de armas nucleares em território dinamarquês e que a cooperação não substitui o compromisso do país com a OTAN. Também será avaliado se os caças F-35 poderão integrar a estrutura de dissuasão da Aliança. O acordo envolve apenas a Dinamarca, e não se estende aos territórios autônomos da Groenlândia e das Ilhas Faroé. Nesta terça-feira (03), durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais, Mette Frederiksen falou sobre o assunto. “A Dinamarca é historicamente favorável ao desarmamento nuclear, mas existem países que possuem armas nucleares. Por isso, o governo decidiu estreitar a cooperação estratégica”, disse Mette Frederiksen. Popularidade em alta A decisão de Mette Frederiksen de antecipar as eleições que deveriam acontecer até junho deste ano, ocorre depois um período de tensão diplomática envolvendo a Groenlândia e declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Pesquisas recentes indicaram aumento na aprovação da primeira-ministra do partido de centro-esquerda Social-Democrata, o que pode ter influenciado o cálculo político. A campanha começou imediatamente após o anúncio. No mesmo dia foi realizado o primeiro debate entre os líderes dos principais partidos, organizado pelas duas maiores emissoras de televisão do país escandinavo. Processo eleitoral dinamarquês Atualmente, o país é governado por uma coalizão formada pelo partido de centro-esquerda Social-Democrata de Mette Frederiksen, pelo partido de centro-direita, Venstre, do atual Ministro da Defesa Troels Lund Poulsen e pelo partido de centro Moderados de Lars Løkke Rasmussen, que ocupa o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Os três líderes concorrem ao cargo de primeiro-ministro. No dia 24 de março serão escolhidos os 179 membros do Parlamento, incluindo dois representantes da Groenlândia e dois das Ilhas Faroé. O sistema eleitoral é baseado em votação em papel. Não há urnas eletrônicas. Os eleitores recebem em casa um cartão de votação enviado pelo correio. Na Dinamarca 4,3 milhões de eleitores estão aptos a votar. Para participar, é preciso ser cidadão dinamarquês e ter pelo menos 18 anos. Entre os principais temas da campanha estão segurança nacional, política externa, economia, custo de vida e imigração. Estrangeiros representam hoje cerca de 10% da população dinamarquesa, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística da Dinamarca. Taxação dos milionários A proposta de imposto sobre a riqueza partiu do "bloco vermelho", como são chamados os partidos de esquerda no Parlamento. O bloco é liderado pelo partido Social-Democratas e prevê a reintrodução de uma taxação sobre grandes fortunas, abolida em 1997. O modelo apresentado estabelece uma alíquota de 0,5% sobre patrimônios líquidos superiores ao equivalente de 20 milhões de reais e pode atingir cerca de 22 mil pessoas. Segundo estimativa divulgada por uma emissora de TV dinamarquesa, a família Kirk Kristiansen, controladora do grupo Lego, poderia pagar cerca de 1,2 bilhão de coroas por ano, aproximadamente 800 milhões de reais, caso o imposto seja aprovado. A proposta encontra resistência do "bloco azul", como são chamados os partidos conservadores do país, como o partido de centro-direita Venstre (Partido Liberal) que integra o atual governo de coalizão. “O Partido Liberal não participará de um governo que introduza um imposto sobre a riqueza" disse o líder do partido, Troels Lund Poulsen. A Confederação da Indústria Dinamarquesa também se manifestou contrária à proposta de campanha do bloco vermelho, como são chamados os partidos de esquerda no Parlamento. “O imposto pode empobrecer todos os dinamarqueses e não se trata de uma medida que afete apenas os mais ricos” afirmou o diretor Confederação da Indústria Dinamarquesa da Morten Høyer.

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  8. MAR 3

    Na Casa Branca, Merz deve apresentar um apoio cético à operação no Irã

    O chanceler alemão Friedrich Merz está em Washington nesta terça-feira (3) para sua segunda visita à Casa Branca desde que assumiu o cargo, há 10 meses. Quando a visita foi agendada, esperava-se que a guerra comercial e as tarifas impostas pelos Estados Unidos à Europa seriam o tema principal. Mas o ataque americano e israelense ao Irã no fim de semana deve se tornar o assunto dominante no encontro da manhã de hoje no Salão Oval, com a Alemanha manifestando um apoio reticente à operação militar no Oriente Médio. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha Pelo menos diante das câmeras, Friedrich Merz deve adotar a mesma postura que teve em seu pronunciamento no domingo, em Berlim. Merz não manifestou apoio explícito, mas disse que “não é hora de criticar nossos aliados, mas sim de permanecermos unidos”. O chanceler disse que o regime dos aiatolás é um regime terrorista responsável por décadas de opressão ao povo iraniano, relembrou o apoio sistemático do Irã à invasão russa à Ucrânia, e disse que o governo alemão, portanto, compartilha do “alívio de muitos iranianos com o fim iminente do regime de aiatolás”. Mas o que Merz deve discutir com Trump nos bastidores são as suas preocupações sobre o futuro do conflito. O alemão diz “não saber se o plano de promover mudanças políticas internas por meio de ataques militares terá sucesso”. Segundo ele, “comparações com o Afeganistão, o Iraque e a Líbia são apenas parcialmente relevantes, mas ilustram a real dimensão dos riscos a médio prazo”. E concluiu: “Nós, na Europa e na Alemanha, também teríamos que arcar com as consequências.” Alemanha rejeita participar do conflito Depois desta fala ambígua de Merz no domingo, ficou no ar a impressão de que havia possibilidade real de a Alemanha se envolver diretamente na guerra. Mas na tarde de segunda-feira (2), o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, achou por bem combater qualquer rumor, deixando claro que a Alemanha não se envolverá diretamente. O governo alemão acredita, no entanto, que o mundo vive “um momento em que o direito internacional tem pouco efeito”, lembrando que antes dos Estados Unidos e de Israel ignorarem estas regras, o próprio Irã violou por décadas o direito internacional, segundo as palavras do chanceler Merz. Imitação de Trump Até o fim da semana passada, Merz vinha se preparando para um embate encarniçado no Salão Oval, e anunciou a quem quisesse ouvir que traria respostas duras a Trump na guerra comercial e tarifária. O chanceler alemão foi encarregado pelos países do bloco europeu de levar uma proposta conjunta de todos em relação às altas tarifas, que vêm onerando as exportações europeias para os Estados Unidos, mesmo depois da decisão da Suprema Corte americana vetando parte dos impostos. Em um discurso na semana passada, Merz chegou a zombar de Trump e arrancou risadas do público ao fazer uma inesperada imitação do presidente americano, relatando que Trump teria ficado impressionado com a queda de 60% na concessão de asilo a imigrantes na Alemanha. Mas todo esse clima belicoso entre Merz e Trump arrefeceu com o novo contexto no Oriente Médio. Inclusive, desta vez, a Alemanha pelo menos foi informada do ataque militar ao Irã antes de ele ocorrer, ao contrário de junho do ano passado, quando o lado alemão só foi notificado após os ataques dos Estados Unidos e Israel às instalações nucleares iranianas. Merz “sem esperanças” sobre a Rússia Friedrich Merz deve reivindicar mais uma vez a participação da Alemanha e da União Europeia nas negociações por um cessar-fogo entre as duas partes e que tem sido feitas de forma isolada pelos Estados Unidos. Mas a verdade é que o governo alemão alimenta poucas esperanças não só de obter participação na negociação quase pessoal entre Trump e Putin, mas também de qualquer desfecho positivo para o conflito. Merz foi enfático em uma fala desta semana: qualquer diplomacia adicional com a Rússia é, neste momento, inútil, já que Putin teria dado sinais reiterados de desinteresse em qualquer cessar-fogo.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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