Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 16H AGO

    Lula busca diálogo com Trump sobre segurança e tenta blindar eleições brasileiras de interferência

    A agenda oficial divulgada pela Casa Branca prevê que Trump receba Lula às 11h da manhã desta quinta-feira (7) em uma cerimônia de boas-vindas reservada à imprensa oficial. Em seguida, os dois líderes participam de uma reunião bilateral no Salão Oval e depois de um almoço de trabalho no Cabinet Room. A área de segurança deve ser um dos principais focos do encontro, que acontece em um momento delicado da relação entre os dois países, marcado por tensões diplomáticas, disputas comerciais e divergências políticas. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Washington  O encontro entre Lula e Trump foi classificado pelo governo americano como uma “visita de trabalho”. A viagem vinha sendo negociada desde março, mas acabou adiada por causa da escalada da guerra no Oriente Médio e do envolvimento dos Estados Unidos no conflito. Comitiva inclui ministros da Fazenda, Justiça e diretor-geral da PF Lula desembarcou nos Estados Unidos acompanhado de cinco ministros, além do diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, em uma composição que evidencia o peso político e estratégico das negociações. Entre os integrantes da comitiva estão o chanceler Mauro Vieira e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que deve tratar diretamente das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e também da investigação americana envolvendo o Pix. Antes do encontro, Durigan afirmou que a expectativa do governo brasileiro é “normalizar a relação bilateral” e evitar que “elementos estranhos” prejudiquem a população brasileira. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Rosa, também participa das discussões econômicas. Já o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, abordará temas ligados às terras raras e minerais estratégicos, enquanto o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e o diretor-geral da Polícia Federal integram as conversas voltadas à segurança pública e ao combate ao crime organizado. Nos bastidores, a principal preocupação do governo brasileiro é impedir que o PCC e o Comando Vermelho sejam classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Diplomatas do Itamaraty avaliam que uma decisão desse tipo poderia abrir espaço para uma maior interferência americana em temas de segurança pública dentro do Brasil. A presença do diretor-geral da Polícia Federal na comitiva também ganhou importância depois da crise diplomática registrada no mês passado entre os dois países. Na ocasião, o governo Trump expulsou o delegado da PF Marcelo Ivo, que atuava como oficial de ligação junto ao ICE, a polícia de imigração americana, após a detenção, na Flórida, do ex-deputado Alexandre Ramagem, considerado foragido pela Justiça brasileira. O Brasil respondeu com medidas de reciprocidade e expulsou um agente norte-americano que trabalhava em Brasília. Governo teme interferência americana nas eleições presidenciais brasileiras Outro ponto de preocupação do governo brasileiro é a possibilidade de interferência americana nas eleições presidenciais de outubro. O temor aumentou depois que Darren Beattie, assessor sênior do governo Trump, tentou visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, em março deste ano. Na ocasião, o governo brasileiro cancelou o visto de Beattie, gerando mais um episódio de tensão diplomática entre os dois países. Integrantes do Itamaraty avaliam que a visita de Lula a Washington também funciona como uma tentativa de reconstruir canais de diálogo e reduzir o clima de desconfiança entre os dois governos. Casa Branca destaca “interesses econômicos e de segurança compartilhados” Ao confirmar a reunião, a Casa Branca afirmou que Lula e Trump devem discutir “interesses econômicos e de segurança compartilhados”. A imprensa americana tem destacado que o encontro acontece apesar dos meses de atrito entre os dois governos, marcados por disputas tarifárias, diferenças ideológicas e pelo caso Bolsonaro no Brasil. Segundo informações da agência Reuters, o bilionário brasileiro Joesley Batista, um dos donos da JBS, teve papel central na articulação do encontro entre os dois presidentes. Esta será a terceira reunião presencial entre Lula e Trump desde o início do atual mandato do presidente brasileiro.

    5 min
  2. 1D AGO

    Marco Rubio visita a Itália para reconciliar laços com Vaticano e governo Meloni

    Em meio a mais um ataque de Donald Trump ao papa, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chega nesta quarta-feira (6) à Itália, onde permanecerá até o dia 8 de maio. Amanhã ele será recebido no Vaticano por Leão XIV. Na sexta-feira se reunirá com a primeira-ministra Giorgia Meloni. Estão previstos também encontros com os ministros das Relações Exteriores, Antonio Tajani, e da Defesa, Guido Crosetto. Gina Marques, correspondente na Itália da RFI O principal objetivo de Marco Rubio é “reconciliar os laços” com o papa após os ataques de Donald Trump a Leão XIV. Mas o presidente dos Estados Unidos não está facilitando a missão do Secretário de Estado. Dois dias atrás,  em entrevista ao Salem News Channel – uma rede conservadora de base cristã – Trump afirmou que o papa “está colocando muitos católicos e muitas pessoas em perigo”, insinuando que Leão XIV é favorável a um possível arsenal nuclear para Teerã. O presidente disse: “Imagino que, se dependesse dele, seria perfeitamente aceitável que o Irã possuísse uma arma nuclear”. Leão XIV não tardou a responder. Sem citar o nome do presidente, o papa disse: “Se alguém quiser me criticar por pregar o Evangelho, que o faça com a verdade. A Igreja se manifesta contra todas as armas nucleares há anos, portanto, não há dúvidas quanto a isso”, declarou o pontífice na terça-feira (5) no encontro com os jornalistas em frente do Castel Gandolfo, nos arredores de Roma. O papa enfatizou que “a missão da Igreja é pregar o Evangelho, pregar a paz”. Ele concluiu: “Espero simplesmente ser ouvido pelo valor da palavra de Deus”. Impacto no eleitorado republicano Na manhã desta quarta-feira (6) durante a audiência geral na Praça de São Pedro, Leão XIV disse que a Igreja Católica “deseja instaurar o seu Reino de justiça, amor e paz para toda a humanidade”. O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, também reagiu às declarações de Trump, sublinhando que o Papa mantém a sua linha de atuação centrada na mensagem evangélica e na promoção da paz. “O Papa segue o seu caminho, no sentido de pregar o Evangelho, de pregar a paz”, afirmou ontem o cardeal Parolin, acrescentando que essa missão se mantém independentemente das críticas. No mês passado, Trump chamou o primeiro papa americano na história da Igreja de “fraco” e “terrível em política exterior” porque Leão XIV criticou a guerra no Irã. Depois das investidas, o pontífice respondeu que não tinha medo do governo Trump. Estes ataques têm afastado grande parte do eleitorado católico americano do presidente. Os eleitores republicanos católicos representam cerca de 20% e podem lhe virar as costas nas eleições de meio de mandato em novembro. Batizado católico logo após seu nascimento - e não convertido ao catolicismo na vida adulta como o vice-presidente J.D. Vance - Marco Rubio vai tentar remediar a crise provocada por Trump. Leão XIV completa nesta sexta-feira (8) seu primeiro ano como líder da Igreja Católica, que conta com 1,4 bilhão de fiéis. Ele manteve um perfil relativamente discreto no cenário global nos primeiros meses de seu papado, mas emergiu nas últimas semanas como um crítico declarado da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Cuba na agenda do Vaticano Após a audiência com Leão XIV, no Palácio Apostólico, no Vaticano, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos encontrará o Secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin. Segundo o porta-voz do Departamento de Estado americano, Tommy Pigott, “o secretário Rubio se reunirá com a liderança da Santa Sé para discutir a situação no Oriente Médio e os interesses mútuos no Hemisfério Ocidental”, mas as tensões entre os EUA e Cuba poderão fazer parte das conversações de Rubio com o papa. Leão XIV também desaprovou as políticas anti-imigração do governo Trump e pediu diálogo entre os EUA e Cuba, país de maioria católica. Em fevereiro, quando o governo Trump intensificou o bloqueio ao fornecimento de petróleo a Cuba, o sumo pontífice disse estar profundamente preocupado com as tensões entre os dois países. O Vaticano tem agido como mediador e canal de diálogo entre os dois países, e teve um papel-chave no degelo das relações entre Cuba e Estados Unidos em 2015 promovido pelo Papa Francisco. Graças a um acordo com a Santa Sé, Cuba libertou 51 prisioneiros no último mês de março, num gesto que classificou como “espírito de boa vontade”. No ano passado, o governo cubano libertou 553 prisioneiros devido a um acordo com o Vaticano, após o ex-presidente Joe Biden anunciar a retirada de Cuba da lista americana de “Estados patrocinadores do terrorismo”. Trump rescindiu o acordo de Biden ao assumir o cargo, colocando o país caribenho novamente na lista, aplicando novas sanções à ilha. Marco Rubio é filho de imigrantes cubanos nos EUA. Ele já havia se encontrado com o pontífice, nascido em Chicago, durante a Missa que marcou o início de seu papado. Naquela ocasião, também estava presente o vice-presidente Vance. No dia seguinte, 19 de maio, foi realizado um encontro bilateral entre Leão XIV, Vance e Rubio. Encontro com Giorgia Meloni O ataque do presidente dos Estados Unidos ao papa também desencadeou uma crise diplomática com a primeira-ministra Giorgia Meloni. Até então a premiê, líder do partido de extrema-direita Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia) era considerada por Trump como uma grande aliada europeia. No entanto, a guerra no Irã iniciada pelos Estados Unidos e Israel, com os danos econômicos do conflito, causou desaprovação no eleitorado conservador italiano. Por consequência, Meloni acabou se distanciando das posições do presidente americano. Diante das agressões de Trump a Leão XIV, a primeira-ministra chamou as palavras do presidente de “inaceitáveis”. O resultado é a Itália acabou na lista dos “vilões”. Trump acusou Meloni de  “falta de coragem”. “Não estou feliz com a Itália, ela não nos ajudou, acha que está tudo bem o Irã ter armas nucleares”, atacou o presidente, usando as mesmas palavras que também dirigiu à Espanha. Enquanto isso, na Alemanha, depois que o chanceler Friedrich Merz falou que os Estados Unidos estão sendo “humilhados” pelo Irã, o Pentágono anunciou a retirada de 5.000 soldados das bases no país. A Itália quer evitar que o governo de Trump decida aplicar uma medida semelhante e remover militares das bases estadunidenses na península que atualmente, conta com a presença de cerca de 12 mil militares americanos. Pauta com governo italiano O comunicado do Departamento de Estado dos EUA enfatiza que as reuniões com as autoridades italianas se concentrarão nos “interesses de segurança compartilhados e alinhamento estratégico” dos dois países. Isso significa que discutirão sobre a Otan e as bases militares americanas na Itália. Em março deste ano, a Itália impediu os Estados Unidos de usarem a base aérea de Sigonella, na Sicília, para uma operação no Oriente Médio porque aviões americanos planejavam pousar sem autorização nem consulta prévia. Após verificar que não eram voos rotineiros, o chefe do Estado-Maior informou o ministro da Defesa, Guido Crosetto, que ordenou negar o pouso. Entre outros temas na agenda está o Líbano — tendo em vista um possível encontro em Washington, no dia 11 de maio, entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente libanês Josef Aoun, ainda a ser confirmado por ambas as partes. Além disso, o papel da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) liderada pelo general italiano Diodato Abagnara. A retomada das tarifas também está na pauta, após o anúncio do presidente dos EUA, em 1º de maio, de um possível aumento de 25% nas tarifas sobre carros e caminhões provenientes da União Europeia.

    5 min
  3. 2D AGO

    Brasileiro detido em Israel tem prisão prorrogada e pode ser enquadrado na lei antiterrorismo do país

    A justiça israelense prorrogou até o próximo domingo (10) a prisão preventiva dos ativistas da "Flotilha de Gaza", detidos na costa da Grécia: o espanhol Saif Abu Keshek e o brasileiro Thiago Ávila. A decisão foi anunciada na audiência judicial realizada nesta terça-feira (5) em Ashkelon, no norte do país, onde os ativistas estão detidos.  Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel O tribunal israelense aprovou, no domingo, uma primeira prorrogação de dois dias da prisão preventiva dos dois ativistas que faziam parte da flotilha, que buscava romper o bloqueio de Israel e do Egito à Faixa de Gaza. No total, 20 embarcações foram interceptadas e todos os ativistas foram enviados à Grécia, à exceção de Thiago Avila e de Saif Abu Keshek. Keshek é suspeito de filiação a uma organização terrorista, segundo o Ministério das Relações Exteriores de Israel; já Thiago Ávila é suspeito de “atividade ilegal”.  Em resposta à RFI, o Ministério das Relações Exteriores israelense declarou que “Ávila expressou publicamente apoio a diversas organizações terroristas, incluindo o Hezbollah, o Hamas e o regime iraniano”.  Em fevereiro de 2025, Thiago Ávila compareceu ao funeral do secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, morto no final do ano anterior por Israel. “Ávila foi implicado em múltiplas alegações de corrupção e enfrentou acusações de conduta inadequada com mulheres que participavam da flotilha. Ele também foi detido brevemente para interrogatório nos últimos meses em aeroportos da Bélgica, Panamá, Tunísia e Argentina”, declarou o ministério israelense.  Em nota, os Ministérios das Relações Exteriores do Brasil e da Espanha descreveram a situação como “sequestro” de seus cidadãos.  “Os governos do Brasil e da Espanha exigem do governo de Israel o retorno imediato de seus cidadãos, com plenas garantias de segurança, e que se facilite o acesso consular imediato para sua assistência e proteção”. Brasileiro diz ter sofrido tortura A Adalah, organização de direitos humanos em Israel que defende os dois ativistas detidos, informou que ambos estão sofrendo maus-tratos e abusos psicológicos. Segundo os relatos das advogadas da organização, Thiago Ávila contou ter sido submetido a interrogatórios de até oito horas de duração.   Ainda de acordo com a Adalah, os interrogadores o ameaçaram explicitamente, afirmando que ele seria “morto” ou “passaria cem anos na prisão”. Os ativistas são mantidos em isolamento total. Suas celas têm iluminação constante de alta intensidade 24 horas por dia, uma prática conhecida do Serviço Prisional Israelense projetada para induzir privação de sono e causar desorientação.  A RFI conversou com Lubna Tuma, advogada da Adalah que esteve com Thiago Ávila e que é responsável pela defesa do brasileiro. Segundo ela, a organização de direitos humanos israelense continua a exigir a libertação imediata dos dois ativistas e o fim dos procedimentos legais.  Tuma explicou também que, segundo a acusação israelense, Thiago Ávila é suspeito de cinco ofensas de segurança que se enquadram na lei antiterrorismo de Israel, como filiação a uma organização terrorista e assistência ao terrorismo durante período de guerra.  “É importante deixar claro que a acusação está buscando enquadrá-lo como alguém realmente perigoso. Isso é uma tentativa de exagerar a situação”, explicou.  Se a Justiça israelense condenar os ativistas, o tempo de prisão pode variar entre cinco a até mais de 20 anos.  As posições dos governos de Israel e Brasil Diante da abordagem e captura das embarcações em águas internacionais, o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse à RFI que isso ocorreu devido ao “grande número de embarcações” e “à necessidade de evitar o rompimento de um bloqueio legal”. Israel considera que a ação ocorreu “em conformidade com o direito internacional”.  Sobre a acusação de violência contra os ativistas, o ministério disse à RFI que são “alegações falsas e infundadas preparadas previamente” e que Thiago Ávila e Saif Abu Keshek “não foram submetidos à tortura em momento algum”. Mas que causaram “obstrução física contra funcionários israelenses” que, por sua vez, “tiveram de agir para impedir tais ações”.  Ainda de acordo com a resposta de Israel aos questionamentos da RFI, “todas as medidas foram tomadas em conformidade com a lei”.  A RFI também entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil que, em resposta, afirmou “estar prestando toda a assistência consular ao cidadão brasileiro e acompanhado as audiências na Justiça”.  Espanha e Brasil pediram a libertação dos dois. Madri criticou duramente a prisão, ocorrida em águas internacionais e a centenas de quilômetros de Israel, classificando-a como “completamente ilegal” e “inaceitável”. O Ministério das Relações Exteriores espanhol afirmou ainda que Israel não apresentou “nenhuma prova” de vínculos com o Hamas, que governa Gaza. A flotilha contava inicialmente com cerca de 50 embarcações e tem como objetivo, segundo os organizadores, romper o bloqueio israelense ao território palestino devastado pela guerra, onde o acesso da ajuda humanitária segue fortemente restrito. Com AFP

    5 min
  4. 6D AGO

    Acordo UE-Mercosul entra em vigor e abre mercado trilionário a exportações brasileiras

    Cinco mil produtos brasileiros ficaram isentos de tarifas no mercado europeu a partir deste 1° de maio. Após vinte e cinco anos de negociações, entra em vigor o acordo de livre comércio Mercosul-União Europeia. Nesta sexta-feira histórica, os líderes dos quatro países do Mercosul e os presidentes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa, participam de uma videoconferência para marcar a data. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília A Europa importa US$ 3,4 trilhões por ano. O valor é praticamente o mesmo que a soma das quatro economias do bloco do Cone Sul. Deste total comprado, a maior parte vem de dentro da própria UE, ou de nações com as quais o bloco europeu tenha acordos de preferência. Para o Brasil é uma espécie de "entrada em um clube". Pelos cálculos da ApexBrasil, dos cinco mil produtos isentos de tarifas, 543 itens se beneficiam da vantagem logo de cara, o que deve significar um aumento nas receitas de exportações de pouco mais de US$ 1 bilhão já no primeiro ano de vigência. Outros cinco mil produtos terão redução de impostos ao longo dos próximos anos. À RFI, o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, explicou que ingressar neste mercado é como entrar em uma sala exclusiva. "É um mercado que importa US$ 3,4 trilhões. E isso vai acontecer cinco vezes mais rápido para o Mercosul, em um mercado que é nove vezes maior do que o mercado que os europeus vão ter aqui”, disse Müller. A comparação se dá pelo fato de o Mercosul importar anualmente US$ 370 bilhões e de que mais produtos do Cone Sul estarem tendo tarifas zeradas neste primeiro momento do que os europeus. A União Europeia é o segundo maior importador do mundo, na frente da China, inclusive. Sistema de cotas Haverá cotas para alguns produtos. Vários itens, entre carnes bovinas, suínas, aves, mel, cachaça e alguns outros itens da pauta, terão cotas. Quer dizer, as exportações realizadas dentro desses limites terão tarifa zero. O que passar, não. As cotas ainda precisam ser distribuídas entre os países, e, dentro deles, entre as regiões, ou estados. Isso agora será conversado dentro dos blocos. O importante é que, uma vez rompida a barreira inicial, quer dizer, uma vez dentro do mercado europeu, fica mais fácil buscar as oportunidades. Isso porque os países dentro do bloco tendem a comprar muito entre si, ou de outras nações com quem tenham acordos preferenciais. É por isso que o presidente da ApexBrasil fala em "entrar em uma sala". A Alemanha, por exemplo, a maior economia da Europa, importa US$ 1,4 trilhão por ano. Só que 70% deste total vem da própria Europa, ou desses lugares com os quais o bloco tenha acordos. O difícil, segundo Laudemir Müller, era ter o acesso. Setores que vão decolar Entre os setores que se destacam com maior potencial de aumento de vendas estão aviões, por exemplo. A UE importa US$ 16 bilhões em aeronaves civis por ano, a uma tarifa de 2,7%. Mas esse percentual será zerado em quatro anos. E isso faz muita diferença e pode garantir vantagem competitiva sobre preço de um avião. O Brasil é o terceiro maior produtor de aeronaves do mundo e estava fora deste mercado. Líder mundial em motores elétricos de baixa tensão, o Brasil exportava para a UE apenas US$ 267 milhões. Mas o bloco importa quase US$ 10 bilhões por ano, também a uma tarifa de 2,7%. Para couros, como o Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, a tarifa vai cair dos atuais 2% a 7% para zero. Hoje, o país vende US$ 227 milhões em couros para a UE, que importa nada menos que US$ 1,7 bilhão por ano. O caso das chamadas uvas de mesa é um dos mais emblemáticos. Os europeus compram de fora US$ 3,3 bilhões por ano. Com a tarifa de 8%, o Brasil exportava apenas US$ 65 milhões. A partir de agora, a tarifa é zero. E, segundo Müller, como as uvas viajam de avião para se manterem frescas, se forem embarcadas a partir desta sexta, chegarão à mesa dos europeus em 48 horas. Uma longa lista de produtos se beneficia a partir de agora: máquinas e equipamentos, combustíveis, automóveis e autopeças, materiais de construção, frutas, calçados e componentes de calçados, pedras e muitos outros. O setor de energia também se torna atraente, dada a matriz energética mais limpa do Brasil e seus parceiros no Mercosul. As diretrizes europeias exigem o uso cada vez mais de energias limpas. E isso é uma grande vantagem num momento em que o mundo vive uma crise nos preços de combustíveis sem precedentes por conta dos conflitos no Oriente Médio. Celebração e vitória diplomática O momento histórico será celebrado pelos líderes dos quatro países do Mercosul e os presidentes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa, em videoconferência para marcar a data. A implementação do entendimento, negociado ao longo de um quarto de século, é considerada uma vitória pessoal do presidente Lula e um gesto simbólico em um momento de crise do multilateralismo, uma bandeira do seu governo

    5 min
  5. APR 30

    Comissão Europeia aposta em benefícios iniciais do acordo com Mercosul para destravar ratificação

    Com aplicação provisória a partir desta sexta-feira,1° de maio, acordo comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul inicia redução de tarifas sobre produtos estratégicos e já projeta impactos na economia europeia. Em Bruxelas, a Comissão Europeia aposta que os primeiros ganhos para empresas e consumidores ajudarão a consolidar apoio político à ratificação definitiva do tratado no Parlamento Europeu. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas  A UE estima que nesta primeira fase de implementação, as novas quotas vão impulsionar em 50% as exportações de produtos agrícolas para o Mercosul. Além disso, a partir do mês que vem, a Europa terá 344 Indicações Geográficas Protegidas (IGPs) como o Parmigiano Reggiano e o vinho Bordeaux com proteção legal, impedindo a imitação desses produtos no mercado sul-americano. Ainda pendente de validação definitiva pelo Parlamento Europeu e sob análise da Justiça do bloco, o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul já altera o cenário comercial, com cortes imediatos de impostos em alguns setores estratégicos. Na sexta-feira entra em vigor provisoriamente o iTA (Interim Trade Agreement), Acordo Comercial interino, etapa que contempla a redução gradual de tarifas entre os dois blocos.  Principal articuladora do acordo, a Comissão Europeia vê a implementação interina como uma oportunidade para demonstrar, na prática, os benefícios econômicos do tratado e ampliar o apoio político para sua ratificação final. Em entrevista à RFI, o porta-voz de comércio da Comissão Europeia, Olof Gill, afirmou que a aplicação provisória deve trazer ganhos imediatos para empresas, trabalhadores e consumidores dos dois lados do Atlântico. A expectativa em Bruxelas é que os primeiros resultados concretos ajudem a convencer governos e eurodeputados ainda reticentes. Na sexta-feira, uma videoconferência entre líderes do Mercosul, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, deve marcar simbolicamente o início da nova fase do acordo. Primeiros impactos  Embora a eliminação tarifária completa esteja prevista para ocorrer ao longo de 15 anos, com 91% dos produtos europeus contemplados, alguns setores começam a sentir os efeitos imediatamente. Entre os produtos que já terão tarifas reduzidas ou até zeradas a Comissão espera observar benefícios imediatos nas exportações de automóveis, peças automotivas, maquinário, vinhos, azeite de oliva e produtos farmacêuticos, áreas consideradas prioritárias. No caso de automóveis e farmacêuticos, o potencial é especialmente significativo, já que esses itens enfrentavam algumas das tarifas mais elevadas no mercado sul-americano. A Comissão Europeia estima que o acordo permitirá uma economia de cerca de € 4 bilhões por ano em impostos para produtores europeus. Leia tambémUnião Europeia e Mercosul assinam acordo histórico de livre comércio após 25 anos de negociações Ratificação na UE Além do impacto econômico, a entrada em vigor provisória também revela a estratégia política adotada por Bruxelas para destravar o acordo. A Comissão Europeia dividiu o tratado em duas partes: o iTA, voltado ao comércio e redução tarifária, e o EMPA (EU-Marcosur Partnership Agreement), Acordo de Parceria, centrado em cooperação política. A separação permitiu avançar com a parte comercial sem depender de unanimidade no Conselho da União Europeia nem da ratificação pelos parlamentos nacionais dos 27 países do bloco. Apesar de o Conselho ter aprovado o texto por margem apertada, o Parlamento Europeu decidiu pedir uma análise da Justiça europeia para verificar se o procedimento adotado pela Comissão está em conformidade com as regras do bloco. Enquanto aguarda o parecer, Bruxelas acionou seu direito de colocar o acordo em aplicação interina. Se o tribunal validar o processo, o texto seguirá para votação no Parlamento Europeu, onde precisará de maioria simples. Segundo avaliações em Bruxelas, a disputa também promete ser apertada. É justamente nesse cenário que a Comissão aposta no efeito político dos primeiros resultados econômicos. A lógica em Bruxelas é que, se o acordo começar a gerar ganhos concretos para setores produtivos e consumidores europeus, aumentam as chances de transformar a implementação provisória em aprovação definitiva.

    5 min
  6. APR 29

    Dinamarca avalia reduzir idade penal para prisão perpétua para 15 anos

    Proposta prevê punição máxima em casos graves, como homicídio, e surge depois de um crime que chocou o país. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague O partido do Povo Dinamarquês, uma legenda de extrema direita, apresentou uma proposta para mudar o Código Penal e permitir que adolescentes de 15 anos possam ser condenados à prisão perpétua ou à detenção por tempo indeterminado em casos de homicídio e crimes considerados extremamente graves. A iniciativa reacendeu o debate sobre responsabilidade penal juvenil no país escandinavo. O partido do Povo Dinamarquês, é conhecido por defender políticas mais duras nas áreas de segurança e imigração, e agora, quer equiparar jovens de 15 a 17 anos aos adultos em determinadas situações criminais. Atualmente, menores de 18 anos não podem receber prisão perpétua na Dinamarca. Para essa faixa etária, a pena máxima aplicada gira em torno de 12 anos de prisão. A Dinamarca já prevê prisão perpétua para adultos condenados por crimes graves, embora a legislação permita revisão posterior da pena. “Se você tem idade suficiente para cometer esse tipo de crime, também tem idade suficiente para ser julgado pelo sistema de justiça criminal”, afirmou Anders Vistisen, eurodeputado do Partido do Povo Dinamarquês, em entrevista à emissora pública DR. Caso Hjallerup A proposta ganhou força após a decisão recente da Suprema Corte da Dinamarca em um caso que gerou forte repercussão nacional. Os juízes mantiveram a pena de 12 anos de prisão para um jovem de 17 anos condenado por estuprar e matar uma menina de 13 anos em Hjallerup, no norte do país. O caso voltou ao noticiário neste mês, quando os pais da vítima falaram publicamente pela primeira vez. Em entrevista a uma emissora de TV dinamarquesa, a mãe da menina afirmou que “não passa um dia sem pensarmos nela”, ao relatar o impacto permanente da tragédia sobre a família. Na decisão, a Corte destacou que o condenado era menor de idade no momento do crime e não possuía antecedentes criminais. Já o Conselho Médico-Legal havia avaliado que o jovem representava risco para outras pessoas e defendia uma pena de duração indeterminada. “Estou pronto para deixar que os tribunais julguem de acordo com as mesmas regras para pessoas com mais de 18 anos”, declarou Anders Vistisen ao defender a mudança na legislação. Crimes graves são raros Em um país de cerca de seis milhões de habitantes, dados da Rigsrevisionen, órgão estatal de auditoria e fiscalização da Dinamarca, mostram que cerca de seis mil crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos aparecem todos os anos em estatísticas criminais no país. Apenas uma pequena parcela acaba recebendo pena de prisão, o que indica que crimes de violência extrema cometidos por menores seguem sendo relativamente raros na Dinamarca. Especialistas em reintegração social defendem que adolescentes devem receber tratamento diferente dos adultos, com foco em recuperação e prevenção da reincidência. Mudança na lei Na Dinamarca, para uma lei ser aprovada é necessária maioria simples no Parlamento. Se todos os 179 deputados participarem da votação, são necessários ao menos 90 votos favoráveis no Folketing, o Parlamento nacional. O Partido do Povo Dinamarquês não tem força suficiente para aprovar sozinho a mudança e dependeria do apoio de outras legendas, especialmente do bloco de direita. O debate recoloca no centro da política dinamarquesa o equilíbrio entre segurança pública, punição e reabilitação juvenil.

    4 min
  7. APR 28

    Guerra no Irã, tensão com Trump e caso Epstein marcam início de visita de Charles III aos EUA

    O rei Charles III e a rainha Camilla iniciaram na segunda-feira (27) uma visita aos Estados Unidos, a primeira do atual reinado. A viagem histórica é marcada por uma crise diplomática entre Londres e Washington e cobranças de respostas dentro do escândalo Jeffrey Epstein. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A visita, que marca os 250 anos da independência americana, inclui uma agenda simbólica e política intensa, com jantar oficial, compromissos em Nova York e um discurso do monarca nesta terça-feira (28) diante do Congresso americano. No entanto, o deslocamento de Charles III e Camilla acontece em um momento delicado. Além das tensões diplomáticas provocadas pela guerra no Irã e de um recente incidente de segurança em Washington, a viagem tem como pano de fundo as ligações do ex-ministro britânico e ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, Peter Mandelson, com o criminoso sexual Jeffrey Epstein. Discurso no Congresso é o ponto alto da agenda A terça-feira concentra os momentos mais simbólicos e políticos da visita. Enquanto Donald Trump recebe o rei Charles III para uma reunião bilateral na Casa Branca, a primeira-dama americana, Melania Trump, e a rainha Camilla participam de um evento com estudantes, em uma agenda paralela que busca reforçar o “soft power” da relação entre os dois países. O ponto alto do dia é o discurso do monarca no Capitólio. Charles será o segundo soberano britânico a falar diante de uma sessão conjunta do Congresso americano. A única a fazê‑lo antes dele foi a rainha Elizabeth II, em 1991. O pronunciamento acontece em um momento delicado para a aliança histórica entre Estados Unidos e Reino Unido, pressionada pela guerra no Irã, pelas tensões dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e pelo impacto global no mercado de energia. A expectativa é de uma declaração cuidadosamente diplomática, com uma mensagem indireta sobre cooperação internacional e estabilidade global. Situações constrangedoras Nos bastidores, políticos britânicos temem que a viagem do rei acabe exposta a situações constrangedoras devido ao estilo imprevisível de Donald Trump. A relação foi abalada depois que o presidente americano criticou a decisão do Reino Unido de não apoiar ações militares contra o Irã. Trump chegou a criticar diretamente o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, dizendo que ele não é um novo Winston Churchill. Discussões vazadas no Pentágono sobre uma possível revisão do apoio dos Estados Unidos à posição britânica na disputa pelas Ilhas Falklands — chamadas de Malvinas pela Argentina — também elevaram a tensão da visita. Mesmo assim, Trump tem separado a relação com o governo britânico da relação pessoal com o rei, que ele descreve como um amigo. A aposta é que a presença da monarquia ajude a estabilizar os laços entre os dois países. Escândalo Epstein pressiona visita e chega ao Congresso O escândalo envolvendo o príncipe Andrew e suas ligações com Jeffrey Epstein também voltou ao centro do debate e chegou ao Congresso americano. O deputado democrata Ro Khanna levará vítimas do criminoso sexual ao Capitólio nesta terça-feira e defende que o rei Charles tenha um encontro com elas.  Segundo ele, “o povo britânico tem sido muito firme nesse caso, exigindo responsabilidade e justiça, até mais do que o governo americano”. Para Khanna, o monarca poderia apoiar as vítimas sem entrar nos detalhes do envolvimento do irmão com Epstein. Nos bastidores, o tema também gerou desconforto dentro da própria família real. A jornalista Emily Maitlis revelou que, até duas semanas atrás, a rainha Camilla demonstrava interesse em encontrar vítimas junto de Melania Trump, destacando sua atuação histórica em defesa de mulheres e sobreviventes. A ideia, no entanto, foi abandonada. O Palácio de Buckingham deixou claro que não haverá esse tipo de encontro durante a visita, citando riscos legais ligados a investigações em andamento nos Estados Unidos e no Reino Unido. Agenda ambiental encerra visita  A viagem terminará com uma agenda simbólica, focada em uma das principais bandeiras do rei Charles III: o meio ambiente. Na quarta-feira (29), o monarca segue para o estado da Virgínia, no leste dos Estados Unidos, onde visita um parque nacional e participa de eventos comunitários e apresentações culturais, reforçando o compromisso com causas ambientais que ele defende há décadas. Essa é a primeira visita de Estado de Charles aos Estados Unidos desde que assumiu o trono, em 2022, apesar de ele já ter estado no país outras 19 vezes ao longo da vida. Depois da visita, o rei e a rainha seguem para Bermuda, território britânico no Caribe, dando continuidade à agenda internacional dentro da Commonwealth, bloco que reúne o Reino Unido e países e territórios que mantêm laços históricos.

    6 min
  8. APR 27

    Charles III visita os EUA em meio à crise na relação entre Londres e Washington

    O rei Charles III inicia nesta segunda-feira (27) uma visita de quatro dias aos Estados Unidos, onde será recebido pelo presidente Donald Trump, em um momento em que a relação entre Londres e Washington, aliados históricos, está abalada. A viagem, planejada antes da guerra com o Irã, marca os 250 anos da independência americana. A segurança do monarca foi reforçada após um homem armado invadir, no sábado à noite, um jantar com a imprensa, com a intenção de atirar em Trump. Apesar do incidente, a visita foi mantida. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Trata-se de uma viagem arriscada do ponto de vista diplomático, mas também de uma oportunidade para tentar reaquecer a chamada “relação especial” entre Estados Unidos e Reino Unido. Alguns historiadores britânicos classificam o momento como a pior crise anglo-americana em um século. Charles III chega a Washington com a missão de apaziguar um presidente considerado imprevisível, mas que demonstra respeito e admiração pelo monarca. Tradicionalmente, a monarquia britânica defende valores como democracia, liberdade e paz, princípios que vão de encontro à atual situação geopolítica no Oriente Médio. A visita foi organizada antes da ofensiva de Trump e do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, contra o Irã. Após intensos debates, o compromisso foi mantido na agenda do rei, que, além de representar o governo britânico, é também comandante-chefe das Forças Armadas. Trump tem criticado publicamente o primeiro-ministro Keir Starmer. Já chamou os porta-aviões britânicos de “brinquedos”, além de fazer outras comparações ofensivas ao que historicamente é seu principal aliado. Em uma delas, afirmou que Starmer “não é Winston Churchill”. O rei também é chefe da Igreja Anglicana, e a imagem, posteriormente apagada, criada por inteligência artificial que mostrava Trump como Jesus não é exatamente confortável para Charles III. É nesse cenário turbulento que o rei e a rainha Camila terão de atuar. Caso Epstein e Malvinas O escândalo envolvendo o irmão do rei, Andrew Mountbatten-Windsor, e o pedófilo Jeffrey Epstein ainda paira sobre a monarquia. Charles III foi criticado por se recusar a se encontrar com sobreviventes de Epstein durante a visita. Como gesto compensatório, a rainha Camila deverá conversar com vítimas de violência doméstica. O caso também atinge o governo de Keir Starmer, que enfrentou uma semana difícil após revelações de que o embaixador indicado para Washington — também ligado a Epstein — não havia sido aprovado em processos de segurança, mas assumiu o cargo mesmo assim. Para agravar o cenário, um e-mail do Pentágono vazado na semana passada indicou que os Estados Unidos poderiam rever o apoio ao Reino Unido na questão da soberania das Ilhas Malvinas. O governo britânico reagiu rapidamente, reafirmando que o arquipélago — ainda alvo de disputa — pertence ao Reino Unido desde 1833, e não à Argentina. Embora a Casa Branca não tenha se pronunciado oficialmente, o documento é interpretado como uma forma de pressionar membros da OTAN que, na visão de Trump — especialmente Reino Unido e Espanha —, não estariam oferecendo apoio suficiente à guerra contra o Irã. Além disso, Trump é alinhado politicamente com o presidente argentino Javier Milei. Segurança reforçada e agenda oficial O Palácio de Buckingham e o governo americano trabalham em conjunto para garantir a segurança dos monarcas após o incidente de sábado. A agenda pode sofrer ajustes, mas a visita está confirmada. Charles III e a rainha Camila chegam a Washington nesta segunda-feira, participam de um chá privado com Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump, e seguem para uma recepção no jardim da Casa Branca. Na terça-feira, o rei será recebido com honras militares e terá um encontro privado com Trump, inicialmente sem a presença da imprensa. À tarde, fará um discurso no Congresso americano e, à noite, participará de um banquete oficial. Na quarta-feira, o casal segue para Nova York, onde prestará homenagem às vítimas dos atentados de 11 de setembro e participará de um evento com representantes das indústrias criativas. Na quinta-feira, a agenda continua no estado da Virgínia, em celebrações pelos 250 anos da independência americana. Serão quatro dias intensos, com diversas ocasiões para discursos públicos que devem ser analisados com atenção. A expectativa é que o rei consiga, como sugeriu Trump, contribuir para a reaproximação entre os dois países.

    7 min

About

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

More From RFI Brasil

You Might Also Like