Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 2d ago

    Alemanha volta às urnas, com olhos voltados para desempenho de partido de extrema direita AfD

    Depois da vitória, há duas semanas, no estado da Saxônia-Anhalt, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) terá mais dificuldades em repetir o bom desempenho em outras duas regiões do país neste domingo (20). Em Berlim, a AfD pode atingir sua maior votação histórica, mas aparece em terceiro nas pesquisas. Já em Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a sigla tem reais chances de vitória, mas enfrenta uma disputa acirrada com a atual governadora. Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf (Alemanha) A Saxônia-Anhalt foi um bom exemplo de como a AfD vem obtendo vitórias apenas relativas nestas eleições regionais de setembro. No estado do centro-leste do país, o partido fez a sua maior votação na história, chegando a 43,8% dos votos. Mesmo assim, a sigla ainda patina para chegar ao poder, já que não obteve maioria absoluta. A primeira reunião do novo parlamento no estado está marcada para outubro e ainda não se sabe se haverá condições de se formar um acordo para um governo da AfD. Neste domingo a votação ocorre em outro estado que fazia parte da antiga Alemanha Oriental, Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, e também em Berlim, que era dividida entre Alemanha Oriental e Ocidental. Em nenhum dos dois a AfD deve atingir uma votação tão alta quanto na Saxônia-Anhalt, mas deve conseguir seu melhor desempenho até então em ambos. Nas duas últimas semanas, a popularidade do chanceler Friedrich Merz chegou a um dos níveis mais baixos desde que assumiu o governo. Isso se reflete em baixa intenção de voto no seu partido, a CDU, que representa a direita mais tradicional da Alemanha e que governa grande parte do país. Também dominaram o noticiário local as declarações em favor da Rússia da líder nacional da AfD, Alice Weidel. Ela disse que a Alemanha deveria voltar a comprar gás russo, cortar qualquer ajuda à Ucrânia e inclusive exigir que a Ucrânia devolva a ajuda enviada pelos alemães até aqui. A vitória da AfD na Saxônia-Anhalt foi saudada tanto por Vladimir Putin quanto por Donald Trump, que são duas figuras com baixa popularidade entre os alemães. Este é o cenário de fundo e nacional das votações deste domingo, mas o que mais pesa – assim como nas eleições para governador no Brasil – é a realidade local de cada estado. Votação fragmentada em Berlim Pobreza, lixo e moradia resumem bem a pauta do debate eleitoral na região da capital alemã, que é uma cidade-estado. Ao contrário da maioria dos outros países europeus, na Alemanha a capital tem um peso menor no PIB do país. Berlim é uma cidade-estado menos rica se comparada às outras metrópoles da Alemanha, como Munique, e está entre os estados alemães com maior proporção da população dependente de benefícios sociais. Os problemas se acumulam, com deficiência de limpeza urbana e acúmulo de lixo, além de um preço de aluguel que disparou nos últimos anos. O custo da moradia foi um dos principais temas do debate entre os candidatos na quarta-feira (16). O debate não contou com a presença do atual governador, Kai Wegner, que desistiu de tentar a reeleição. Wegner foi muito criticado pela maneira como lidou com o apagão que atingiu Berlim em janeiro deste ano, quando um grupo extremista atacou cabos de energia, deixando milhares de pessoas sem luz. Mas o partido de Wegner, a CDU, segue com boas intenções de voto. A última pesquisa mostra uma votação fragmentada, com nenhum partido despontando na liderança isolada. O Die Linke lidera a pesquisa com 22%, seguido de perto pela CDU, com 20%, AfD com 18%, Verdes com 15% e SPD com 12%. A atual coalizão que governa a cidade é das duas tradicionais forças políticas do país: CDU e SPD, centro-esquerda com centro-direita. Só que, se estes resultados da pesquisa se concretizarem, dessa vez os dois partidos não terão maioria para governar. Será preciso uma coalizão de três partidos. O certo é que o Die Linke, mesmo que chegue em primeiro, terá dificuldade em formar alianças. Dentro da esquerda, o próprio SPD tem divergências centrais com o Die Linke, como na proposta de estatização de empresas privadas de habitação. A diferença entre social-democratas e a esquerda radical fica cada vez mais evidente nesta eleição. AfD pode levar virada em Meclemburgo No estado de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste da Alemanha, a AfD vinha liderando as intenções de voto até a quinta-feira (17) à noite, mas parece estar havendo uma virada de última hora. A atual governadora social-democrata da SPD, Manuela Schwesig, vinha há dias crescendo e na última pesquisa teria ultrapassado a AfD, agora num apertado 37% contra 36%. Schwesig é uma figura popular no estado, e ficou conhecida por enfrentar um câncer sem deixar a cadeira de governadora. Ela tem feito uma campanha bem personalista contra a AfD, com o slogan Die Frau gegen Blau ("A mulher contra o azul", em referência à cor da AfD). A expectativa é que a extrema-direita atinja sua maior votação da história nos dois estados que votam no domingo, mas nada parecido com os 44% conquistados na Saxônia-Anhalt.

  2. 3d ago

    Na ONU, Lula vai insistir em soberania e rejeitar interferência externa em assuntos internos dos países

    Em seu discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (AGNU), na próxima terça-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistirá no tema da soberania e vai defender a não interferência externa em assuntos internos dos países. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília O risco de os Estados Unidos tentarem ajudar a campanha do senador do PL Flávio Bolsonaro, visto pela atual administração americana como um forte aliado, permanece no topo da lista de preocupações do governo, sobretudo diante da crise instalada no Supremo Tribunal Federal e da proximidade entre os dois candidatos nas intenções de voto, apontada pelas últimas pesquisas de opinião. A viagem para Nova York será rápida, a última deste terceiro mandato, e com uma comitiva mais enxuta do que as anteriores. Mas o presidente não quer deixar de falar aos 193 países-membros e aos dois Estados observadores neste que pode ser seu décimo e último discurso de abertura, caso seja derrotado na eleição de outubro. Tradicionalmente, cabe ao Brasil abrir os trabalhos da Semana de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas. Na saída, é possível que Lula "esbarre" em Donald Trump no corredor de acesso ao plenário, já que o presidente americano discursará em seguida. Até o momento, não há previsão de um encontro bilateral entre os dois. Mas a hipótese também não está descartada. Foi o que aconteceu no ano passado, quando tiveram uma breve conversa de 39 segundos, marcada por uma "boa química", como ambos teriam confirmado depois. O momento não é dos melhores para a relação bilateral, embora Lula e Trump tenham tido uma conversa telefônica cordial no mês passado, a pedido do brasileiro. Um encontro entre os dois ocorreria dias depois de Washington acusar o Brasil de "falhar no combate ao PCC e ao CV". Este é um dos assuntos que têm provocado tensão entre os dois países, sobretudo depois que os Estados Unidos resolveram classificar as duas facções como grupos terroristas. E não é só. O governo brasileiro teme novas tentativas de interferência americana no processo eleitoral. Os Estados Unidos deixaram claro seu interesse no que vem sendo chamado de "onda azul" na América Latina, marcada pela ascensão de líderes de direita alinhados a Washington, o que torna a eleição brasileira ainda mais estratégica para a Casa Branca. Risco nas redes sociais No Palácio do Planalto, não está claro em que momento essa interferência poderia ocorrer, nem de que forma se daria. Acredita-se que o entorno de Trump, sobretudo os aliados ligados ao secretário de Estado, Marco Rubio, esteja considerando alguma iniciativa entre o primeiro e o segundo turnos. A ideia seria evitar que uma nova ação acabasse atrapalhando o desempenho de Flávio Bolsonaro. Até recentemente, o discurso da soberania vinha rendendo pontos a Lula, que atribui ao clã Bolsonaro a responsabilidade pelo tarifaço e por outras sanções. Com as pesquisas de opinião mostrando Lula e o filho do ex-presidente cada vez mais próximos nas intenções de voto, algumas delas até com leve vantagem para Flávio, a avaliação é de que qualquer movimento pode acabar influenciando o resultado final da eleição. Crise no Supremo O julgamento no STF, por exemplo, traz à tona um tema polarizador desta campanha que já havia sido alvo da atenção dos americanos: a atuação do Judiciário. Em julho do ano passado, Trump editou um decreto presidencial por meio do qual impunha um tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras como suposta resposta ao que chamou de "caça às bruxas", em referência aos processos judiciais que levaram à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em seguida, impôs sanções financeiras ao ministro do STF Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky. As medidas foram retiradas meses depois, após negociações entre os dois governos. Mas, em julho deste ano, Washington reeditou o decreto. Como a tarifa de 50% foi derrubada pela Suprema Corte americana no início do ano, permanece a possibilidade de que a Lei Magnitsky volte a ser utilizada contra Moraes e até mesmo contra outros ministros do STF. Há outro temor, revelado por fontes do governo: a disseminação de informações falsas, amplificadas pelos algoritmos por meio da instrumentalização das big techs. O fato é que os riscos são considerados evidentes no entorno do presidente Lula. Comitiva enxuta Em Nova York, a comitiva presidencial deste ano será enxuta. Lula será acompanhado pelo chanceler Mauro Vieira, pela ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, pelo ministro dos Povos Indígenas, Luiz Eloy Terena, e pela ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira. Lula chega a Nova York na noite de domingo (20) e terá reuniões bilaterais ainda a serem confirmadas no dia seguinte. Entre elas, está em análise pelo entorno do petista uma conversa com o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, um dos principais opositores de Donald Trump. O democrata socialista assumiu o cargo no início deste ano. A avaliação no governo é que uma eventual reunião seria acompanhada de perto pela Casa Branca e poderia ser vista como uma provocação em um dos piores momentos da relação bilateral em 200 anos.

  3. 4d ago

    Trump e China defendem avanço da IA enquanto CEOs americanos discutem limites e segurança

    A discussão sobre o crescimento, ou os limites, do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) ganha, a cada dia, novas camadas. Os debates colocam em primeiro plano os CEOs das empresas que estão construindo os sistemas mais poderosos do mundo, alguns dos quais já defendem frear o ritmo dessa corrida. No contraponto, Donald Trump diz que o medo da IA é uma farsa. O governo chinês também tem interesse em impedir que essa discussão seja usada para criar barreiras que prejudiquem sua corrida tecnológica. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Diante das preocupações com a segurança da IA e apelos para um maior controle desta tecnologia, três grandes empresas do setor – OpenAI, Anthropic e Google DeepMind – anunciaram na terça-feira (15) que trabalham na criação de um órgão de autorregulação. No entanto, a iniciativa esbarra na visão de dois dos maiores governos do mundo: Estados Unidos e China. Na última segunda-feira (14), durante o All-In Summit, em Los Angeles, Trump proporcionou uma cena inusitada mesmo não estando presente fisicamente no evento. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, estava no palco justamente discutindo o futuro da inteligência artificial quando recebeu uma ligação – que disseram que foi inesperada – do presidente americano. Huang colocou o republicano em viva-voz, diante de centenas de pessoas, e o presidente chamou de "hoax" – uma farsa – os temores de que os “robôs vão assumir o controle” no mundo e defendeu que os Estados Unidos continuem acelerando o desenvolvimento da IA. Trump chegou a dizer que quem estiver à frente da corrida da inteligência artificial vai vencer uma disputa estratégica global e chamou os data centers de “o petróleo dos próximos 20 ou 25 anos”. Para Trump, a IA não é apenas uma questão tecnológica: é a moeda de poder econômico e geopolítico. É bom lembrar que quem recebeu a ligação e colocou o telefone no microfone nessa ligação "inesperada" foi o diretor-geral da Nvidia, atualmente a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo, com valor de mercado acima de US$ 5 trilhões. Em quatro anos, a Nvidia, que fabrica chips que são a infraestrutura fundamental que alimenta os grandes modelos de IA generativa, multiplicou mais de dez vezes seu valor de mercado, impulsionada pela corrida da inteligência artificial e talvez seja a empresa mais diretamente beneficiada por essa explosão do setor. Quanto mais rápido as empresas de IA avançam, maior é a demanda por chips e data centers. Desacelerar ou não, eis a questão Esse episódio aconteceu no momento em que nomes como Sam Altman, CEO da OpenAI, e Dario Amodei, CEO da Anthropic, pediem mais cautela e regras de segurança no desenvolvimento da IA. É, praticamente, uma demonstração pública de que Trump está escolhendo um lado na guerra que começou dentro do próprio Vale do Silício e que questiona: acelerar a IA ou desacelerar a corrida o suficiente para a segurança acompanhar. Foi esse o contexto do artigo publicado por Dario Amodei no último final de semana, no qual o argumento central é que a IA está avançando tão rapidamente que os mecanismos de segurança podem não conseguir acompanhar. E o interessante é que ele é o CEO de uma das principais empresas de IA do mundo, a criadora do Claude. Sam Altman, da OpenAI, escreveu que concorda que é preciso desacelerar o avanço da fronteira da IA e disse que sua companhia também adotaria a ideia de avaliadores independentes. Elon Musk, dono da empresa de inteligência artificial xAI, responsável pelo Grok, também apoiou o alerta. Em uma publicação no X, respondeu ao texto de Amodei com apenas três palavras: "Dario está certo". Alertas Na semana passada, Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic, revelou ter deixado o emprego e publicou alertas sobre os riscos da tecnologia. O matemático britânico não desencadeou uma crise, mas ajudou a transformar uma preocupação que já existia dentro das empresas em uma discussão pública muito maior. Jacob disse que o temor não é que a IA tenha desenvolvido consciência, mas que esteja encontrando soluções que seus criadores não conseguem prever. Em julho, num teste da OpenAI, agentes de IA conseguiram se comunicar entre si e acessar sistemas da Hugging Face. O episódio acendeu o alerta sobre esse grau de autonomia que esses sistemas já estão alcançando, e Jacob citou, inclusive, esse evento. A partir daí, especialistas estão falando de aberturas para agentes de IA capazes de operar com autonomia, ataques cibernéticos, uso militar e desinformação. O americano Dan Selsam, pesquisador da OpenAI, publicou nesta segunda-feira (14) outro alerta e afirma que apenas desacelerar o desenvolvimento dos modelos mais avançados não é suficiente para evitar "o apocalipse da IA", como o fenômeno já está sendo chamado, e defende mais supervisão e coordenação para lidar com sistemas cada vez mais poderosos e difíceis de controlar. É interessante frisar também que todas essas falas respingam no mercado financeiro. Na última semana, as ações da Nvidia recuaram cerca de 6%, e os analistas já relacionam a queda à crescente preocupação dos investidores com os riscos e o ritmo do desenvolvimento da inteligência artificial. Sem previsão de leis No Congresso dos Estados Unidos, a pressão está crescendo, mas ainda não há acordo. Senadores dos dois partidos negociam propostas para obrigar as empresas a prevenir riscos graves e permitir que o governo bloqueie modelos considerados perigosos. O senador da oposição Bernie Sanders e o deputado Greg Casar querem ir muito além: eles lançaram o Ban Artificial Superintelligence Act, que propõe proibir a chamada superinteligência artificial e pausar temporariamente o desenvolvimento dos sistemas mais avançados, até que existam regras de segurança. Mas é difícil prever que seja aprovado em um horizonte próximo. Do outro lado do mundo A China reagiu acusando os CEOs das gigantes de tecnologia de espalhar medo. Pequim também rejeita a ideia de desacelerar o desenvolvimento da IA e afirma que esse confronto pode atrapalhar a criação de regras globais. No fim, Washington e Pequim, apesar de estarem em lados opostos em praticamente toda essa disputa tecnológica, convergem em um ponto: nenhum dos dois quer abrir mão da velocidade do desenvolvimento da inteligência artificial. E é justamente aí que ganha força a frase de Trump, que resume a dimensão geopolítica dessa corrida: “Quem vencer a IA vence”.

  4. 5d ago

    Eleitorado brasileiro cresce nos EUA, mas distância e medo do ICE desafiam votação em Nova York

    A menos de um mês das eleições presidenciais no Brasil, os Estados Unidos se preparam para receber o maior contingente de eleitores brasileiros fora do país. O número de pessoas aptas a votar em território americano cresceu cerca de 45% desde a última eleição presidencial, ao mesmo tempo em que consulados reorganizam locais de votação para atender à demanda e a um desafio novo: o temor provocado pelo endurecimento das operações de controle de imigração no país.   Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918,9 mil brasileiros estão aptos a votar no exterior nas eleições de 2026. Em 2022, eram 697,1 mil – um crescimento de 31,8% em quatro anos. O eleitorado brasileiro no exterior mais do que quadruplicou desde 2010, quando estava na casa dos 200 mil. Os Estados Unidos concentram o maior colégio eleitoral brasileiro fora do Brasil. São cerca de 265 mil eleitores registrados, contra quase 183 mil em 2022, um salto de aproximadamente 45%. Eles estão distribuídos entre diferentes postos de votação pelo país. Boston reúne o maior eleitorado brasileiro nos Estados Unidos, com 53,4 mil pessoas aptas a votar. Na sequência aparecem Miami, com 40.109 eleitores, e Nova York, com 39.026. Em Nova York, o eleitorado aumentou significativamente em relação a 2022, quando cerca de 28 mil brasileiros estavam aptos a votar. O crescimento ocorre em um momento em que a Justiça Eleitoral e o Itamaraty ampliam a estrutura para receber os brasileiros que vivem fora do país. Em abril, o TSE aprovou a transferência de R$ 13,2 milhões para a locação de imóveis no exterior. Neste ano, o Itamaraty trabalha com 66 endereços adicionais para a realização das eleições, 14 deles nos Estados Unidos. De Manhattan para o Queens Nas eleições de 2022, a votação de Nova York ocorreu em Manhattan. Mas este ano, o Consulado-Geral do Brasil decidiu transferir o pleito para uma instituição de ensino no Queens, provocando reclamações entre parte dos eleitores. A mudança ocorre justamente em um dos distritos com maior concentração de imigrantes da cidade e que tem sido alvo de operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), em meio ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump. O novo local fica a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado, em Manhattan, e não tem acesso direto ao metrô. A jurisdição consular de Nova York também atende brasileiros que vivem em Nova Jersey e na região da Filadélfia, que precisam se deslocar até a cidade para votar. É o caso de Amanda Lourenço, que trabalha com marketing e vive nos Estados Unidos há sete anos. Moradora da Pensilvânia, ela conta que já precisava dirigir cerca de uma hora e meia para votar em Nova York. Em 2022, conseguiu participar do primeiro turno, mas acabou não voltando para o segundo por causa da distância. Agora, com a transferência para o Queens, seu percurso ficará pelo menos meia hora mais longo. “Eu preferia quando era em Manhattan, que era mais central, a gente não tinha que atravessar para o outro lado. Estou considerando se vou ou não. Acho que vou sim, porque para mim votar é importante. Mas a verdade é que deu uma desanimada de pensar que é mais longe ainda”, diz a eleitora. A decisão já provocou uma mobilização de brasileiros que pedem ao Consulado a transferência da votação de volta para Manhattan. Medo do ICE também pesou na escolha Mas a distância não foi o único fator considerado na definição do novo endereço. Em meio ao aumento das operações de imigração nos Estados Unidos, o medo de abordagens de agentes do ICE também entrou no cálculo das autoridades brasileiras. O local escolhido no Queens permite que as filas sejam organizadas dentro do complexo educacional, evitando que milhares de brasileiros tenham de esperar nas calçadas. Segundo as informações reunidas sobre a preparação do pleito, a Secretaria de Relações Internacionais da Prefeitura de Nova York e a polícia da cidade também participaram do mapeamento de alternativas consideradas mais seguras. O mesmo complexo foi utilizado pelo Consulado-Geral do Peru para sua eleição presidencial em abril. A preocupação ganha peso em uma comunidade muito maior do que o eleitorado registrado. Estimativas do Itamaraty apontam para cerca de 2 milhões de brasileiros vivendo atualmente nos Estados Unidos, enquanto apenas cerca de 265 mil estão aptos a votar. Histórico de filas e abstenção A organização das filas já havia sido um desafio em Nova York nas últimas eleições presidenciais. Em 2022, eleitores chegaram a enfrentar cerca de meia hora de espera para percorrer aproximadamente 500 metros. Também houve tensão entre apoiadores de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, levando a polícia de Nova York a instalar barreiras e manter os dois grupos em lados diferentes da rua. Apesar do crescimento do número de eleitores cadastrados, levar esses brasileiros efetivamente às urnas continua sendo um dos principais desafios da eleição no exterior. Em 2022, a abstenção entre brasileiros que votavam fora do país chegou a 63,36% no primeiro turno e 61,44% no segundo. Assim como no Brasil, o voto é obrigatório para eleitores alfabetizados entre 18 e 70 anos, embora quem esteja ausente possa justificar a falta. No pleito passado, o eleitorado brasileiro nos Estados Unidos deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro: o então presidente recebeu cerca de 65% dos votos válidos no país. Miami foi seu principal reduto, com 81,2%. Lula venceu em apenas três dos dez postos consulares, obtendo seu melhor resultado em São Francisco, onde alcançou 60,1%. Em 2026, portanto, o desafio das autoridades brasileiras será duplo: acomodar um eleitorado muito maior e transformar o crescimento dos registros em participação efetiva nas urnas, em uma eleição realizada sob um cenário migratório muito diferente daquele de quatro anos atrás.

  5. Sep 11

    Vice de Trump adota tom mais moderado e discursa como herdeiro político para 2028 em convenção

    Por dois dias, os principais nomes do Partido Republicano estiveram reunidos no Texas na primeira convenção nacional da legenda para as eleições de meio de mandato. Na noite de encerramento, os discursos do presidente Donald Trump e do vice JD Vance mostraram estratégias diferentes para tentar mobilizar o eleitorado antes da votação de novembro. Patrícia Vasconcellos, de Dallas, especial para a RFI Trump subiu ao palco prometendo ser breve, depois de ter discursado por quase duas horas no dia anterior. Cumpriu a promessa: falou por menos de meia hora. O presidente voltou a pedir para os eleitores votarem em novembro como se o nome dele estivesse nas cédulas e repetiu a promessa de pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste a maioria das cadeiras no Congresso. “Se os democratas dominarem, eles vão destruir tudo o que foi feito”, afirmou. Trump, no entanto, não explicou como seria feito o pagamento dos US$ 5 mil, nem de onde viriam os recursos. Também culpou os democratas pela inflação e o aumento da imigração ilegal nos Estados Unidos nos últimos anos. Para Vance, democratas 'são o partido do ódio' A imigração, carro-chefe da campanha presidencial republicana de 2024 e uma das principais bandeiras do atual  governo, teve espaço muito menor no discurso de JD Vance. O vice-presidente adotou um tom mais moderado do que Trump e outras autoridades que passaram pelo palco. Seguiu de perto o discurso preparado no teleprompter e mencionou a imigração ao afirmar que o governo havia revertido o fluxo de entrada ilegal de estrangeiros. O tema voltou a aparecer quando um manifestante na plateia exibiu uma bandeira do México. Vance respondeu que ele deveria então ir para o país latino-americano, mas não prolongou o assunto. Em outro momento, o vice-presidente fez uma declaração que soou como um reconhecimento de que existe descontentamento entre eleitores com algumas decisões do governo: “Não entreguem o país nas mãos de malucos porque vocês não concordam com uma política ou outra deste governo”, disse. Vance também tentou inverter a acusação de que o Partido Republicano promove um discurso de divisão. Segundo ele, são os democratas que representam o “partido do ódio”, enquanto os republicanos querem proporcionar “uma vida melhor” aos americanos. O vice-presidente concentrou boa parte da fala em temas como preços mais baixos, empregos e educação – uma combinação que reforçou a impressão de um discurso voltado não apenas para as eleições legislativas de novembro, mas também para uma possível candidatura presidencial em 2028. Vice ganha espaço como possível herdeiro de Trump O espaço dado a Vance na segunda noite também reforçou sua posição como possível herdeiro político de Trump. Oficialmente, o presidente disse estar cansado. Nos bastidores da convenção, porém, o desenho da agenda pareceu dar ao vice-presidente a oportunidade de se apresentar a um público nacional. Vance falou em tom de presidenciável e citou a própria mulher, Usha Vance, filha de imigrantes indianos, ao retomar uma disputa com Abdul El-Sayed, político democrata e candidato ao Senado por Michigan. A controvérsia começou depois que El-Sayed insinuou que o avô de Vance poderia ter problemas em conhecer Usha por causa de sua origem familiar. Na convenção, o vice-presidente negou a premissa e classificou a insinuação como uma demonstração do que chamou de “ódio” dos democratas. O contraste com Trump também apareceu na discussão sobre cidadania. Na quarta-feira (9), o presidente havia falado em assinar uma ordem executiva para proteger os Estados Unidos de uma “invasão estrangeira”. Vance não retomou essa retórica e fez uma declaração sobre identidade americana. “Toda criança nasce com o direito de ser americana, não pela forma como ela aparenta ou de onde seus antepassados vieram, mas porque ela é americana”, afirmou. A declaração chama atenção diante da política defendida por Trump de restringir a cidadania automática por nascimento para filhos de determinados imigrantes que estejam nos Estados Unidos sem autorização ou com status migratório temporário. Irã fica fora da última noite A guerra contra o Irã, que se estende há meses e pressiona os preços dos combustíveis, praticamente desapareceu do encerramento da convenção. Trump havia tratado do assunto no primeiro dia, quando afirmou que não negociaria com “lunáticos” e voltou a dizer que não permitiria que o Irã tivesse armas nucleares. Na última noite em Dallas, porém, o conflito no Oriente Médio não ganhou destaque. Trump preferiu falar da Venezuela, afirmando que os Estados Unidos “tomaram o petróleo” do país latino-americano, e insistiu repetidamente na necessidade de os republicanos comparecerem às urnas em novembro. Depois dos dois dias de convenção, ficou evidente a tentativa da liderança republicana de concentrar a mensagem eleitoral em economia, custo de vida, empregos e mobilização da base. Temas mais controversos da administração, como a guerra contra o Irã, as prisões e deportações em massa de imigrantes e as declarações de Trump sobre territórios estrangeiros, entre eles a Groenlândia e o Canadá, podem representar um problema principalmente entre republicanos mais moderados e eleitores independentes. Convenção deve ter efeito limitado nas pesquisas Apesar da dimensão do evento em Dallas, é improvável que a convenção, sozinha, provoque uma mudança significativa nos índices nacionais de aprovação de Trump. O público presente era majoritariamente formado por eleitores e ativistas fortemente identificados com o movimento MAGA – Make America Great Again (“Faça a América Grande Novamente”). Nas eleições de novembro, o desempenho republicano deverá depender também das disputas locais e das campanhas individuais para a Câmara e o Senado. Trump chega a essa etapa da campanha enfrentando forte desaprovação, em um cenário no qual inflação e custo de vida permanecem entre as principais preocupações dos eleitores.

  6. Sep 10

    Em Portugal, pedidos de ajuda financeira para voltar ao Brasil crescem mais de 50% no primeiro semestre

    A Organização Internacional para Migrações, OIM, entidade ligada à ONU, mantém em Portugal um dispositivo para ajudar imigrantes que desejam deixar voluntariamente o território português e voltar ao seu país de origem. Um balanço recente aponta um aumento no número de brasileiros que recorrem ao sistema. Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Portugal O programa chama-se Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração. Ele é destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, independente da região onde vivam, ou de estarem com a situação migratória regularizada. Recentemente, o que chamou a atenção foi o crescimento no número de brasileiros recorrendo a essa ajuda. Nos primeiros sete meses deste ano, a quantidade de pessoas pedindo o apoio subiu mais de 50% em comparação ao mesmo período do ano passado. É um indicativo de que o “sonho português” tem virado desilusão para muitos. No formato atual, o programa começou em 2024, mas desde então a tendência é crescente. Em todo o ano de 2024, 432 brasileiros fizeram a inscrição, pedindo apoio para o retorno. Um volume que já foi ultrapassado apenas nos sete primeiros deste ano. Até julho de 2026, o número chegou a 470 pedidos de ajuda. Os relatórios da Organização Internacional para Migrações, entidade que organiza o programa, apresentaram em 2025 uma média de 44 pedidos de brasileiros por mês; este ano, a média mensal está em 67, o que significa um aumento de 52%. Há inscritos de vários países, como Venezuela, Sri Lanka e Moçambique, mas o Brasil representa a maioria dos atendimentos. Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal, sendo 30% do total de imigrantes, mas representam 80% do total de pedidos de retorno. E são do Brasil quase todas as crianças que participam do programa. Ano passado, 85 crianças regressaram ao país com esse apoio oficial, o que mostra que são famílias inteiras que estão desistindo de viver em Portugal. O apoio ao retorno inclui a compra da passagem aérea e uma ajuda de custo de € 70 para as despesas durante a viagem. A passagem e o dinheiro são entregues em mãos, no dia, por um funcionário do programa. Muitas pessoas se inscrevem, mas acabam não completando o processo; a porcentagem de concretização do retorno costuma ser metade dos inscritos. A OIM não detalha os dados dos processos, mas há alguns obstáculos importantes: um deles é que é preciso comprovar a vulnerabilidade econômica e mostrar que não tem como voltar por meios próprios. Outro ponto importante é que quem participa do programa fica por três anos impedido de entrar tanto em Portugal como em qualquer outro país do Espaço de Schengen, zona de livre circulação que abrange 29 países europeus. Como muitas vezes o sonho de viver em Portugal acaba sendo substituído pelo sonho de viver em outro país da Europa, algumas pessoas preferem esperar um pouco mais, fazer algum sacrifício e se reogarnizar sozinho para poder partir para outro destino. As histórias de pessoas decepcionadas com a vida em terras portuguesas são cada vez mais frequentes. E há vários perfis, desde gente que veio de forma irregular e teve dificuldade para conseguir emprego e documentação, até quem chegou já com visto, com emprego certo, mas depois se deparou com um alto custo de vida e de moradia, e acabam preferindo voltar para o Brasil.

  7. Sep 9

    Oposição israelense ataca Netanyahu após denúncia sobre alerta antes de 7 de Outubro

    Segundo o jornal Haaretz, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria recebido um telefonema do presidente dos Emirados Árabes Unidos, o xeque Mohamed Bin Zayed, alertando-o sobre uma operação planejada pelo Hamas uma semana e meia antes dos ataques de 7 de Outubro de 2023. Especialistas, porém, avaliam que a revelação dificilmente alterará de forma significativa o resultado da eleição, servindo mais para aprofundar a polarização política em Israel. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel A ligação telefônica teria durado cerca de 45 minutos. O gabinete do primeiro-ministro classificou a matéria como “uma completa mentira”. O comunicado divulgado à imprensa afirma que "durante o período em questão, Netanyahu não conversou com o presidente dos Emirados Árabes Unidos e não recebeu qualquer aviso dele”.  O governo dos Emirados Árabes Unidos não negou a informação, mas preferiu não comentá-la diretamente.   “Órgãos dos governos dos Emirados e de Israel têm mantido linha direta de comunicação desde o início da relação [entre os países] mais de cinco anos atrás. Quando necessário, toda a informação de inteligência foi e continua a ser comunicada entre os órgãos relevantes”.  Em Israel, as lideranças dos partidos de oposição partiram para o ataque. Gadi Eisenkot, líder do partido Yashar, que neste momento ocupa a liderança em parte das pesquisas de intenção de voto para a eleição de 27 de outubro, declarou que “cada vez mais indícios apontam que Netanyahu conduziu Israel cegamente ao fracasso dos ataques de 7 de Outubro”.  Ainda segundo Eisenkot, “Netanyahu recebeu dezenas de avisos e ignorou todos. Ele é incompetente”. Ele prometeu também formar uma comissão de investigação estatal para "esclarecer o que Netanyahu sabia e o que não sabia”. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, líder do partido Yahad, de centro-direita, afirmou que “a informação é verdadeira” e que “Netanyahu tem responsabilidade pessoal e direta pela omissão que levou às mortes de milhares de israelenses”.  O líder do partido de esquerda Os Democratas, Yair Golan, disse que “as desculpas de Netanyahu acabaram e que ele é culpado”. Golan também prometeu formar uma comissão estatal de investigação "que revelará toda a verdade”. “Por negligência, Netanyahu é responsável pelo massacre de 1.200 israelenses em 7 de Outubro”, afirmou.  Timing pode ser chave Faltam menos de 50 dias para a eleição geral, justamente a primeira a ocorrer após o 7 de Outubro, após as guerras em Gaza, no Líbano e no Irã.  Ainda não se sabe qual será o impacto eleitoral desta notícia. Até agora, antes da revelação, as pesquisas mostravam que os partidos que atualmente estão no governo liderado pelo primeiro-ministro Netanyahu não conseguem formar uma nova coalizão majoritária.  Dois especialistas ouvidos pela RFI em Israel avaliam as possíveis consequências da reportagem do Haaretz com certa cautela. João Miragaya, mestre em história pela Universidade de Tel Aviv e cofundador do podcast 'Do Lado Esquerdo do Muro', não acredita que a revelação poderá mudar de forma decisiva o rumo das eleições.  “Durante a campanha, Netanyahu decidiu voltar a ‘trabalhar’ o 7 de Outubro para reconstruir a narrativa sobre o papel dele. Mas a teoria de conspiração que ele buscou emplacar de que ele não teria sido acordado de propósito deu errado.”  Miragaya faz referência à madrugada entre os dias 6 e 7 de outubro, uma vez que a ofensiva do Hamas começou às 6h29 do dia 7.  “A partir dessa reportagem, é provável que Netanyahu tente mudar de assunto. Do ponto de vista eleitoral, eu não acho que nem meio mandato vai mudar de lado devido a esta informação, por mais bombástica que ela possa parecer. Os eleitores dele não se importam com isso. Não importa a verdade, mas sim no que eles [os eleitores de Netanyahu] querem acreditar”, diz Miragaya sobre as revelações da reportagem.  Dan Orbach, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, também não acredita em consequências mais dramáticas.  “Aqueles que odeiam Netanyahu acreditarão nisso [na informação divulgada pelo Haaretz]. Já os apoiadores do primeiro-ministro irão entender como difamação e perseguição. Acredito que o efeito sobre o eleitor marginal será pequeno. Isso vai reforçar a polarização, reforçar a adesão de ambos os lados”, avalia Orbach.  Listas eleitorais concluídas Terminou às 22h de 8 de setembro o prazo legal para a entrega das listas de todos os partidos. Como Israel é um regime parlamentarista, os eleitores votam em partidos, não em candidatos. Assim, as listas com os nomes e as posições que cada candidato ocupa são fundamentais para que os eleitores tenham clareza sobre o processo.  O Knesset, o parlamento israelense, tem 120 cadeiras. Para formar uma coalizão de governo é preciso obter a metade mais um dos assentos, ou seja, no mínimo de 61 parlamentares.  A ordem apresentada por cada partido à comissão eleitoral é fundamental, pois indica ao eleitor quem são os candidatos e em que posição cada um aparece na lista. Por exemplo, as pesquisas apontam que o Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, deve obter entre 22 e 25 cadeiras. O número um da lista é Netanyahu, líder da legenda. Um candidato da lista do Likud que ocupe a 30ª posição dificilmente terá assento na próxima legislatura. Assim funciona com todos os partidos, que negociam internamente as posições de seus candidatos. Não há uma regra sobre a quantidade de membros presentes nas listas de cada partido.  O cenário político interno de Israel é dominado por 14 partidos e coalizões. Para obter pelo menos quatro assentos no Knesset, cada um deles deverá ultrapassar a cláusula de barreira de 3,25% do total de votos válidos.

  8. Sep 8

    Campanha eleitoral entra no segundo mês de forma desafiadora para Lula

    A 26 dias do primeiro turno das eleições, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscam conter os impactos políticos do caso Master/Moraes sobre a campanha à reeleição. Do outro lado, a direita tenta associar a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal ao PT para desgastar o governo. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Mais do que o número de pessoas nas manifestações pelo dia da Independência do Brasil, a semana começou marcada por dados da pesquisa Quaest que mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) exatamente empatados no segundo turno, com 41% das intenções de voto. O resultado reflete não um avanço do candidato do PL, que permanece estável, mas uma oscilação negativa do desempenho do presidente. O sinal de alerta na esquerda desta vez vem em um momento de profunda crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O escândalo do Banco Master, que era até então o calcanhar de Aquiles de Flávio Bolsonaro, por causa da gravação em que ele pede recursos a Daniel Vorcaro, virou hoje um telhado de vidro ainda maior para o governo Lula, uma vez que, no epicentro do caso, está Alexandre de Moraes, relator do inquérito que condenou os golpistas do 8 de Janeiro. “A princípio, o escândalo do Master afetou mais Flávio Bolsonaro. Porém, agora, mais próximo das eleições e com o alvo muito bem definido no momento, que é Alexandre de Moraes, essa crise desfavorece muito mais a campanha de Lula à reeleição”, afirmou à RFI o cientista político André Rosa. “O discurso bolsonarista anti-Alexandre de Moraes começa a ser um pouco mais palatável para aquele eleitor que antes desconfiava, que o achava exagerado e até uma certa perseguição. Esse eleitor, antes indeciso, pode ter alguma base para associar a imagem de Lula à do próprio Alexandre de Moraes”, explica o analista. Ciente disso, Lula chegou a defender, em vídeo e sem citar nomes, uma investigação total contra todos os suspeitos, doa a quem doer, e tem procurado deixar para a presidência da Corte a busca por uma saída, sem assumir protagonismo na crise institucional. A aposta da direita Outro detalhe que não passou despercebido foi a declaração do meteoro Augusto Cury, psiquiatra até então conhecido como escritor de livros de autoajuda e que vem se consolidando como terceiro colocado nas pesquisas. Ele já havia defendido anistia à maioria dos condenados pelo 8 de Janeiro e, nesta segunda-feira, encerrou um discurso mandando um abraço especial ao ministro André Mendonça, do STF, numa demonstração de que pode estar mais próximo de Flávio do que de Lula em um eventual segundo turno. A indicação de apoio na segunda etapa não significa que os votos migram automaticamente, mas pode sugerir uma tendência, o que tem peso numa disputa acirrada entre os dois principais candidatos e se torna mais um motivo de preocupação para a esquerda. “A definição dos apoios e o redesenho dos votos no segundo turno são decisivos. Lula disputa praticamente sozinho no campo da centro-esquerda. Já na direita de Flávio Bolsonaro tem o Zema, tem o Caiado e até Renan Santos, que, mesmo sem declarar apoio a qualquer um dos candidatos, tem eleitores que tendem a migrar mais fortemente para Flávio no segundo turno. E o fator Augusto Cury hoje é o coringa da questão porque está em terceiro”, avalia André Rosa. “Se Lula conseguir atrair Cury para a campanha, mesmo com a maioria dos eleitores dos demais nomes apoiando Flávio, o petista tem mais chances. Agora, se Cury apoiar Flávio Bolsonaro, numa composição com os eleitores dos demais candidatos, aí realmente ficaria muito complicado para a campanha petista.” Alexandre de Moraes na linha de tiro A direita organizou manifestações pelo 7 de Setembro em várias capitais brasileiras, enquanto o presidente Lula participou de evento ao lado dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. Os ataques a Alexandre de Moraes e a tentativa de ligá-lo ao PT foram uma das bandeiras das mobilizações bolsonaristas, especialmente após novas revelações sugerirem uma profunda articulação entre o magistrado e o banqueiro Daniel Vorcaro.                                  “Quem viu o dossiê que eu fiz contra Alexandre de Moraes? Coincidentemente, horas depois, saiu um áudio meu com Vorcaro, o famoso pastel de vento. Eu e minha esposa nunca fizemos contrato de R$ 208 milhões com Vorcaro. Os meus filhos nunca receberam cartão de crédito do Banco Master. Eu não troquei meu celular durante as conversas com Vorcaro. Senão, não me chamaria Nikolas Ferreira. Eu me chamaria Alexandre de Moraes. E o teu lugar, Xandão, é na cadeia”, afirmou o deputado mineiro, em discurso ao lado de Flávio Bolsonaro. Já o mote governista no 7 de Setembro esteve mais ligado à soberania nacional, inclusive com críticas ao enorme boneco do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inflado durante a manifestação bolsonarista na Avenida Paulista. “Que vergonha! Traidores da pátria, no Dia da Independência vocês levaram o boneco do Trump, justamente ele, que está atacando o Brasil com tarifas. É uma aliança contra o Brasil. E levaram a bandeira norte-americana para as ruas. E tem mais uma coisa. Bolsonaristas falam de Vorcaro com Moraes. E Vorcaro com Flávio Bolsonaro? Foram R$ 134 milhões”, destacou o deputado Lindbergh Farias (PT).

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