RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 6H AGO

    Premiado na França, curta-metragem ‘Crônicas Marginais’ mostra como a Rocinha se reinventa pelo cinema

    A trajetória da Academia de Cinema da Rocinha (ACR) ganhou projeção internacional com a exibição do curta “Crônicas Marginais” no Festival Cinéma de Femmes d’Amérique du Sud, mostra realizada todo mês de março em Paris, dedicada a destacar o trabalho de diretoras sul‑americanas. Eleito o melhor curta-metragem do festival, o filme integrou uma programação que reuniu cerca de 80 produções, entre curtas e longas de países como Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, México, Peru e Paraguai. Para o cineasta Marcos Braz, idealizador e cofundador da escola carioca, estar na capital francesa apresentando um filme feito por moradores da comunidade simboliza uma virada histórica na forma como a Rocinha é vista – e como se vê a si mesma. “Foi incrível poder sair um pouquinho da nossa zona de conforto”, contou Marcos à RFI. “Sempre apresentamos o filme em contextos de favela, em lugares de favela. Quando atravessamos para outro lugar, principalmente numa mostra competitiva, encontramos projetos incríveis, e isso foi um momento desafiador e de grande aprendizado.” Ao relembrar sua infância na Rocinha nos anos 1980, Marcos destaca o peso dos estigmas: “Nós éramos considerados pessoas perigosas só por morar naquele lugar. O estereótipo nos acompanhou durante muitos anos”. Segundo ele, o audiovisual foi decisivo para transformar esse olhar. Primeiro, quando começou a trabalhar como jornalista de TV; depois, com a criação da ACR. “A escola veio nesse lugar de transformar visibilidade em narrativa. O que só a gente via ali, agora chega ao mundo, inclusive aqui em Paris”, diz o realizador, com um largo sorriso no rosto. Mutirão de cinema O processo de criação de “Crônicas Marginais” traduz, em forma audiovisual, a filosofia colaborativa da Academia de Cinema da Rocinha. Ao contrário da lógica comum do “curta de guerrilha”, com equipes pequenas e baixo orçamento, a escola mobilizou mais de 70 pessoas, entre alunos, moradores que atuaram como figurantes e profissionais voluntários do mercado audiovisual. Marcos explica como o filme nasceu de oito histórias criadas por alunos da primeira turma da Academia. “Os estudantes estavam concorrendo a um recurso que recebemos da Marieta Severo. Mas eles disseram: por que não pegar um pedaço de cada história e transformar num único curta?” Assim surgiu a “gincana criativa” que resultou no roteiro final. O método de criação cinematográfica coletiva foi inspirado nos próprios mutirões das favelas. “A forma comunitária que usamos na Academia vem das construções da favela. Para chegar água, para chegar luz, tudo era mutirão. Então batizamos de ‘mutirão de roteiro’: onde um tem dificuldade, o grupo inteiro ajuda”, destaca.  O cineasta fez questão de sublinhar que nem todos os alunos que participaram do projeto tinham um grau de educação formal. “Geralmente, a pessoa que chega em uma escola de cinema tem que ter um nível médio, uma escolaridade mínima universitária. Nós aceitamos pessoas com baixa escolaridade. Em alguns casos, baixíssima escolaridade.” A filmagem envolveu quatro diárias de gravação, cenas nas ruas e em quatro diferentes locações da comunidade, especialmente num anfiteatro abandonado, onde foi registrada “a cena mais linda, a do pianista palhaço”, nas palavras de Marcos.  A presença de profissionais experientes, que vieram de grandes produções de plataformas como Netflix e Globoplay, reforçou o caráter pedagógico do projeto. “Ali no set era tudo muito caloroso. Era educação na prática. Ver aqueles profissionais circulando normalmente na comunidade era impensável nos anos 1980.” Como resultado, os alunos não apenas finalizaram o filme, mas também conquistaram novos caminhos. “De 30 alunos, surgiram 30 oportunidades profissionais. Cinco foram trabalhar em filmes para streaming e alguns no cinema. Isso tem uma relevância muito grande para a gente.” A montagem, concluída somente na 19ª versão, também foi uma escola em si. “Eles nunca tinham visto uma ilha de edição. Mas puderam criar sem muito pudor. Por mais que tivesse uma técnica, os alunos tiveram liberdade artística suficiente para expressar as suas realidades. Queriam até atuar em suas próprias histórias!”, relembra Marcos. Apoio da atriz Marieta Severo  Responsável pela produção, Dani Castro viu de perto as dimensões práticas e afetivas do desafio. O primeiro foi conseguir apoio financeiro. A atriz Marieta Severo forneceu o principal apoio financeiro à produção. Depois veio a etapa mais difícil: coordenar dezenas de alunos e supervisores, além de buscar equipamentos emprestados, sempre que possível. “Fazemos cinema de verdade com câmera, lente, som, mas sempre correndo atrás. Nós não temos equipamentos na escola.” Para Dani, o trabalho revelou também algo sobre a própria atividade: poucos alunos quiseram trabalhar em produção. "Produção é ralação – é valioso, mas cansativo”, confidencia. A Academia já concluiu as filmagens de seu segundo curta, “Novo Retrato”, realizado pela turma seguinte da escola. Desta vez, sem patrocínio, foi preciso fazer uma vaquinha. “Recebemos muitas doações pequenas. Mas pequenas doações fazem filmes acontecerem”, diz a produtora. Rocinha como 'polo de cinema' Ao ser perguntado sobre o futuro da Academia, Marcos não hesita: “Hoje eu vejo a Rocinha como um polo de cinema. Um polo no sentido amplo, com espaço para produção, exibição, realização, escolas de cinema. E que isso reverbere em empregabilidade e qualidade de vida.” Ele lembra que a comunidade, com cerca de 200 mil habitantes, vive uma transformação profunda: passou o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar em números de visitação turística. “A Rocinha deixou de ser considerada a mais violenta para ser a mais visitada. Isso tem uma importância enorme", sublinha. A participação da Academia em Paris só foi possível graças a um financiamento vinculado ao Parque de Inovação Tecnológico, Ambiental e Social da Rocinha (PISTA), uma iniciativa com apoio da Faperj. Mas para que essa iniciativa cresça e possa proporcionar outras interações profissionais, a equipe da Rocinha precisa do apoio financeiro de empresários e instituições.   Marcos deixa um recado ao público e possíveis parceiros. “Por conta de um filme, olha quanta oportunidade profissional surgiu. Quantas vidas foram atravessadas. Existem muitas outras favelas no Brasil, muita gente criativa que precisa só de um espaço para se expressar. A Academia está nesse lugar.”

    7 min
  2. 1D AGO

    Cantora franco‑brasileira Gildaa lança primeiro disco guiado pela força da linhagem feminina

    A cantora franco‑brasileira Gildaa lançou neste mês de março, na França, o seu primeiro disco, um álbum que nasce diretamente do espetáculo híbrido que a revelou no Centro Cultural 104, em Paris, e que desde então vem lotando salas e se expandindo para além do palco. O trabalho reúne 12 faixas em português e francês, mantendo intacta a dramaturgia que ela vem construindo desde os tempos de estudante de arte dramática no Conservatório Nacional. Musicalmente, o disco reúne samba, canção francesa, jazz latino, soul, R&B e ritmos afro‑brasileiros, e já vem sendo apresentado como “álbum do mês” nas lojas da Fnac. Segundo a artista, o repertório é o mesmo que foi apresentado no palco. “A ordem das músicas chegou sozinha, é essa e não vou mudar", conta. A abertura do álbum, “Mainha”, funciona como um verdadeiro rito de passagem: uma alma que pede licença para reentrar no mundo, afirmando que já esteve aqui, mas “sem se lembrar da regra do jogo”.  A ancestralidade brasileira é um dos pilares mais fortes do álbum. Em “Vela Velha”, dedicada à bisavó materna Teresa, Gildaa compõe num registro emocional imediato: “Eu estava sozinha em casa, uma vela começou a dançar e Teresa apareceu no meu pensamento. A música veio inteira”. Teresa, que ela nunca conheceu, aparece como guia invisível: “Acho que ela abriu um caminho para a gente e nos protege.” Questões espirituais atravessam o disco. Mas sobre sua relação pessoal com o candomblé, ela prefere preservar o silêncio: “É uma coisa minha, que eu não vou falar agora, não”. A família de músicos, especialmente a irmã Yndi, tem papel central na construção do álbum. “Ela realmente dirigiu o disco. A gente cresceu numa festa constante, no samba, na canja. A música sempre esteve ali”, diz.  'Uma entidade' Gildaa relembra seu percurso múltiplo: violino na infância, teatro na adolescência, dança, circo, composição e percussão. É nesse momento que deixa escapar sua identidade civil: “Meu nome é Camille, Camille Constantin da Silva. Mas Gildaa é essa entidade [um alter ego], essa personalidade que carrega nossa linhagem inteira”. Encruzilhadas e ciclos de renascimento também estão presentes na faixa inspirada em Perséfone, deusa da primavera e rainha do mundo dos mortos na mitologia grega, que Gildaa relaciona a Oiá, orixá do vento, das transformações e do movimento entre mundos. “Perséfone ajuda a entender esse momento entre a sombra e a luz, esse equilíbrio que tantas mulheres estão buscando hoje.” Dualidade cultural A recepção do público francês tem sido intensa e curiosa. Uma jornalista chegou a chamá‑la de “OVNI”, termo que também ouviu em sua primeira apresentação no Brasil, no ano passado. Ela não se incomoda. “Adorei. Significa só que a energia é diferente – e não é só a minha”. A dualidade cultural, diz, é sua força: “A Gildaa provoca uma queda de circuito. Obriga o público a parar e estar ali, naquele instante”. Em turnê pela França, com datas também na Bélgica e na Suíça, Gildaa se prepara para um dos shows mais importantes deste ciclo, na sala de espetáculos parisiense La Cigale, em 28 de maio. O retorno ao Brasil está nos planos. “Quero muito voltar. Só falta encontrar a melhor maneira de reunir o público”, afirma. Entre o espetáculo e o disco, ela já imagina o futuro: “Esse é só o primeiro de sete álbuns. Não sei se vou conseguir chegar lá, mas o gol é esse”.

    10 min
  3. 2D AGO

    'A fotografia me levou a lugares maravilhosos', diz a fotógrafa brasileira Isadora Tricerri em Paris

    Entre Brasil e Europa, a fotógrafa, filmmaker e diretora de fotografia Isadora Tricerri, 28 anos, constrói uma trajetória que combina pesquisa estética, projetos autorais, moda, retrato e cinema independente. Jovem, mas já com quase uma década de carreira, ela se afirma como um dos nomes sensíveis e inquietos de sua geração. Maria Paula Carvalho, da RFI No Instagram, a paulista sintetiza o resultado dessa jornada: “A Isadora de 10 anos atrás jamais imaginaria quantos sonhos seriam possíveis através da fotografia. E, acima de tudo, provar que é possível viver de arte. Não só viver. Viver e existir das formas mais lindas, loucas, inspiradoras e inesperadas.” A fotografia também surgiu como um espaço íntimo de elaboração emocional. “Eu tenho depressão, eu tenho ansiedade, então ela veio como uma forma de externalizar isso para o mundo através do meu olhar”, conta. “Fiz conexões incríveis, conheci pessoas que vou levar para a vida, fiz projetos que sou apaixonada e ela está me levando a lugares maravilhosos, inclusive Paris”, completa. Entre os trabalhos recentes, Isadora desenvolve um filme inspirado na obra de Marguerite Duras, dirigido por sua mãe, Christiane Tricerri, e protagonizado por Viviane Fuentes. Um trabalho que aborda o silêncio, imagem e a presença feminina, temas frequentes no seu olhar. “Eu atuo com fotografia e cinema desde 2016, já são quase dez anos de carreira”, explica. “O filme é uma homenagem à Marguerite Duras, sobre silêncio, fotos, memórias e o feminino no audiovisual. Está sendo um projeto muito especial”, disse em entrevista à RFI. Filmar em Paris, ao lado da mãe, tem uma dimensão afetiva profunda. “Eu venho de uma família de artistas, então sempre tive esse apoio. Estar aqui com a minha mãe, trazendo esse olhar feminino em conjunto, é magnífico.” Bastidores da moda Durante sua temporada em Paris, Isadora integrou a cobertura de 15 desfiles realizados no Palais Garnier, ao lado da renomada fotógrafa Celin May, para a Moda Productions. “Foi uma experiência incrível”, relembra. “Transitávamos entre backstage e passarela. Registramos não só o momento final, mas todo o processo. Fizemos imagens muito poéticas e uma revista de Nova York já publicou algumas das fotos”, comemora. A estética de Isadora nasce da fusão entre cinema e retrato. A luz natural, a atmosfera intimista e a composição narrativa são marcas constantes. “Meu estilo de foto vem muito do cinema. Eu sempre tento pensar a imagem estática para além dela mesma, trazendo movimento. E gosto de representar mulheres da forma como elas querem ser vistas. É sobre elas estarem confortáveis, e isso transparece”, continua. Ainda em Paris, Isadora Tricerri realizou uma série de retratos com o ex-jogador Raí, com styling de Marcela Pontara e Dione Occhipinti. “A experiência com o Raí foi excepcional”, diz. “Ele tem projetos sociais e culturais muito importantes. Ele falou que ninguém tinha conseguido registrar essa relação dele com Paris dessa forma. As fotos ficaram lindíssimas”, avalia. Olhares Delas: a força de uma rede feminina Em 2017, Isadora fundou o coletivo Olhares Delas, uma iniciativa que mapeia, divulga e conecta fotógrafas brasileiras. “Eu via fotógrafos homens se divulgando o tempo todo, mas não via isso entre mulheres”, conta. “Resolvi mapear essas fotógrafas espalhadas pelo Brasil. Hoje somos mais de 150 mulheres em um grupo de WhatsApp, fomentando eventos, exposições, encontros. Virou uma grande rede de apoio.” Para ela, o olhar feminino carrega experiências que atravessam a imagem. “O olhar feminino traz nossas vivências como mulher na sociedade. Quando vou fotografar outra mulher, já sei as inseguranças que ela tem. Estamos acostumadas a ver a fotografia por um olhar masculinizado, então trazer novas perspectivas é muito especial”, explica. Foto digital Embaixadora da fabricante de máquinas fotogróficas Canon, Isadora cresceu já inserida no universo digital, mas guarda carinho pela fotografia analógica. “Comecei a fotografar quando ganhei meu primeiro celular com câmera, em 2012. Adorava pensar em sombra e luz. Depois comprei minha primeira câmera, uma Canon T5, que uso até hoje”, lembra. “O mundo digital é muito imediatista, então às vezes a gente perde essa relação com o analógico. Eu sinto falta disso.” Entre filmes, editoriais, retratos, viagens e projetos independentes, Isadora Tricerri constrói uma obra guiada pela sensibilidade e pela força das imagens. O seu trabalho continua se expandindo entre Brasil e Europa e as múltiplas histórias que ela encontra pelo caminho.

    6 min
  4. 3D AGO

    "Avaliação de Petro é mais positiva do que se imaginava", diz cientista político sobre eleições na Colômbia

    A esquerda colombiana ligada ao presidente Gustavo Petro saiu fortalecida das eleições legislativas realizadas neste domingo (8). O Pacto Histórico ampliou sua presença no Congresso, tornando-se novamente a principal força política da Colômbia, enquanto o partido opositor Centro Democrático terminou em segundo lugar — mas viu seu fundador, o ex-presidente Álvaro Uribe, perder a cadeira pela primeira vez desde sua entrada na política nacional. Apesar do avanço governista, o novo Parlamento permanece profundamente fragmentado e dependerá de alianças para aprovar qualquer reforma. “O que vimos foi que a avaliação do governo é mais positiva do que se imaginava. O Pacto Histórico não apenas resistiu após quatro anos de Petro, como aumentou seu número de cadeiras”, afirma o cientista político Gaspard Estrada, membro da Unidade Sul Global da London School of Economics, de Londres. As projeções feitas após a votação e com mais de 95% das urnas apuradas indicam que, para o Senado, o Pacto Histórico alcançou 25 cadeiras, ou seja, cinco a mais do que no Congresso atual. O Centro Democrático surge como a segunda maior força política com 17 cadeiras, seguido do Partido Liberal, com 13, uma a menos do que na legislatura anterior. “A governabilidade vai continuar sendo complicada. Não é a primeira vez que a eleição legislativa na Colômbia tem um resultado de fragmentação partidária. Já é o caso hoje. O Congresso seguirá dividido. Tanto a esquerda quanto a direita, se vencerem a presidencial, terão de construir alianças para governar. A fragmentação não é novidade, mas deve se intensificar com a polarização”, avalia Estrada. O cientista político constata que o resultado das urnas refletiu de maneira até surpreendente a satisfação da população colombiana com o governo de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda do país. “Eu acho que a grande novidade política desta eleição é essa resiliência do Gustavo Petro e dos seus candidatos, quatro anos após sua chegada ao poder. Os resultados foram uma boa notícia para o Pacto Histórico, que demonstrou a força territorial dos candidatos governistas e um pouco da capacidade do Petro de transferir o seu prestígio pessoal aos aliados”, acrescentou. Primárias de partidos e coligações Nas eleições de domingo, além da renovação do Congresso para o período de 2026 a 2030, foram realizadas as primárias dos partidos e coligações que definiram Iván Cepeda, aliado de Petro, e a senadora Paloma Valencia, do Centro Democrático, como os principais nomes para a eleição presidencial de 31 de maio. Aliado de Petro, Iván Cepeda tem cerca de 30% das intenções de votos segundo as sondagens, mas terá pela frente uma adversária difícil, segundo Estrada. Com mais de 3 milhões de votos entre os candidatos de direita e de centro, a senadora Paloma Valencia sai reforçada da votação para a disputa da presidência da Colômbia. Apesar de assumidamente conservadora, Valencia não tem um discurso tão radical quanto o candidato da extrema direita Abelardo de la Espriella , conhecido como o “Milei colombiano.”  “Paloma Valencia emerge hoje como uma candidata muito mais competitiva na direita, com maior respaldo das elites tradicionais do que o nome outsider que vinha sendo testado”, explica Gaspard Estrada. Outro marco nas eleições deste domingo foi a derrota do ex-presidente Álvaro Uribe, que não conseguiu se eleger para o Senado. “É natural que, após 20 anos, haja uma fadiga em torno de sua figura. Mas isso não significa que o uribismo vai desaparecer. Suas ideias seguem presentes e sua influência estrutura boa parte da oposição”, conclui.

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  5. MAR 5

    A língua como acolhimento ao imigrante: pesquisadora avalia desafios no Brasil e na Europa

    Para um imigrante que acaba de chegar a um novo país – muitas vezes em situação de crise, sem planejamento e sem domínio do idioma local –, a comunicação é o primeiro passo para sobreviver, acessar direitos e reconstruir a vida. No Brasil, essa necessidade deu origem ao conceito de “língua de acolhimento”, abordagem pedagógica voltada para as urgências práticas do recém-chegado. Em entrevista à RFI, a professora e pesquisadora Nukácia Araújo, da cátedra Sérgio Vieira de Mello, criada pela Unesco na Universidade Estadual do Ceará (UECE), explica os desafios que as cidades brasileiras enfrentam para facilitar a integração de imigrantes. Ela faz atualmente um pós‑doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3), onde acompanha iniciativas brasileiras e francesas de acolhimento linguístico.  Essa forma de ensinar o idioma do país receptor leva em consideração que quem chega em uma situação de crise não pode esperar por longos cursos tradicionais. Segundo Nukácia, a língua de acolhimento é, na verdade, uma forma de ensinar a língua para quem migra compulsoriamente e precisa dela para questões de urgência. "É uma maneira de ensinar voltada para a sobrevivência, para que a pessoa obtenha direitos básicos rapidamente." No Brasil, isso significa priorizar vocabulário prático e situações reais do cotidiano: tirar documentos, acessar o sistema de saúde, matricular filhos na escola, procurar emprego. O foco inicial são temas do dia a dia assim que se chega. São necessidades urgentes que determinam a permanência e a segurança dessas pessoas no país. A experiência brasileira e a crítica ao modelo português O conceito de língua de acolhimento chega ao Brasil por volta de 2012, importado de Portugal. Mas, para a pesquisadora, as realidades dos dois países diferem muito. "Em Portugal, a política linguística é de assimilação: há um certo apagamento da cultura e dos saberes do migrante para que ele se integre. No Brasil, criticamos esse modelo, apesar de usarmos o nome ‘língua de acolhimento’." Cidades como Brasília, São Paulo e capitais do Sul já desenvolviam ações anteriores ao aumento do fluxo migratório no Ceará, que se intensificou com a chegada de venezuelanos em 2017. As dificuldades, porém, se repetem em todos os estados: documentação, emprego, acesso a serviços públicos. "Sem o domínio mínimo da língua, a pessoa não tem como abrir uma conta no banco para receber auxílio, (...) não consegue explicar sintomas em um posto de saúde, (...) não passa por uma entrevista de trabalho. Essa dificuldade é a mesma no Brasil e aqui na França", observa a pesquisadora. Quando a língua de integração apaga a identidade Nukácia observa que o termo língua de acolhimento não existe na política pública francesa. O equivalente seria o ensino de língua de integração, que tem outro foco. "A integração, pelo próprio nome, pressupõe que eu preciso me tornar como um francês para estar nessa sociedade. Isso dificulta demais para quem chega, especialmente migrantes do mundo árabe, que não conhecem nem o alfabeto latino, diz a pesquisadora." O ensino de francês para estrangeiros prioriza estrutura, gramática e fonemas desde o início, o oposto do que propõe a abordagem brasileira. "Aqui, as questões gramaticais são extremamente importantes. Ensina-se francês escolar para quem precisa, primeiramente, de francês para viver", destaca a especialista. Multilinguismo como política pública Um dos pontos mais defendidos pela pesquisadora é o reconhecimento das diversas línguas presentes no processo migratório. "As múltiplas línguas das pessoas precisam ser consideradas no ensino e nos serviços públicos. Não podemos esperar que alguém resolva toda a sua documentação sem um mediador linguístico." Para ela, equipes multilíngues ou ao menos tradutores deveriam estar distribuídos em instituições que atendem migrantes, desde bancos até postos de saúde. Leia tambémAumento da demanda por apoio psicológico entre migrantes gera novas frentes em saúde mental Da França, Nukácia prepara publicações sobre o tema, ao lado do professor Leonardo Tonus, também da Sorbonne Nouvelle. Um dos estudos traz um título que resume bem as tensões presentes no ensino de línguas a imigrantes. "O artigo se chama ‘A língua que acolhe também é a língua que exclui’. Porque acolhe quando considero como o outro fala e sua história. Mas exclui quando não reconheço isso e torno tudo mais difícil porque a pessoa não sabe a língua", conclui a pesquisadora.

    9 min
  6. MAR 4

    Diretor brasileiro Sérgio Tréfaut participa do Festival de Cinema Português de Paris

    O Festival Olá Paris! promove pelo segundo ano consecutivo a riqueza e a diversidade do cinema português contemporâneo. O evento acontece na tradicional sala de cinema Club de l’Étoile, ao lado do Arco do Triunfo, na capital francesa, de 6 a 8 de março. Entre os 7 longas selecionados está o premiado “Raiva”, do cineasta brasileiro Sérgio Tréfaut, filho de mãe francesa e pai português.  Sérgio Tréfaut nasceu no Brasil e se mudou para a França aos 10 anos com a família, que fugia da Ditadura Militar brasileira. Na juventude, foi para Portugal, onde começou a carreira como cineasta. Seu primeiro filme, o curta-metragem "Alcibíades", é de 1992. Em seguinda, não parou mais. Tréfaut dirigiu mais de 10 longas-metraggens, entre ficção e documentários. Entre eles, os premiados "Alentejo, Alentejo" (2014), "Treblinka" (2016), "Raiva" (2018) e "A Noiva" (2022). Em 2018, voltou a morar no Brasil e rodou seu primeiro filme no país natal, o documentário “Paraíso”, lançado em 2022. O festival Olá Paris! é uma boa oportunidade para constatar que, como o cinema brasileiro, a cinematografia portuguesa vive uma boa fase. Sérgio Tréfaut, que mora no Rio, vem a Paris para participar da sessão de “Raiva”, no sábado, 18 de março, e concedeu uma entrevista à RFI. O longa, rodado em preto e branco, é uma adaptação do romance “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca, um clássico do neorrealismo português. Apesar de ter sido lançado há oito anos, “Raiva” ainda rende convites e repercussão internacional, como prova a participação no Festival de Cinema Português de Paris. Por isso, a seleção junto com filmes recentes não surpreendeu Tréfaut. “O filme teve um peso gigante na cinematografia portuguesa. Ganhou todos os prêmios da academia quando foi lançado e marcou muito", ressalta. Ele lembra que o longa “criou um ator”, ao lançar Hugo Bentes, e conta com a participação icônica de Isabel Ruth. A força da história, da fotografia e a temática universal de "injustiça social" contribuiu para que o público de vários países se identificasse com a obra. “No Brasil fizeram paralelos com ‘Vidas Secas’, do Nelson Pereira dos Santos, também adaptado de um romance”, conta. Cinema político Sobre influências, o diretor observa que “Raiva” tem muitas referências, mas dialoga mais com o cinema soviético, do que com o Cinema Novo brasileiro, por exemplo. O neorrealismo está presente sobretudo pela adaptação literária. “A minha adaptação é muito seca, não tem idealismo. Fala de pobres e ricos, e da raiva de quem não consegue ultrapassar ciclos de injustiça”. Questionado sobre o caráter engajado de sua obra, Tréfaut concorda que seus "filmes são políticos" e "lutam por justiça", mas diz que não faz um cinema "militante". Ele relembra o impacto de “Lisboetas” (2004), que ajudou a impulsionar debates sobre imigração e chegou a ter pré-estreia no Parlamento português. O tema também está presente em “Viagem a Portugal”, baseado em um caso real de expulsão ilegal. Ao comentar a programação do Olá Paris!, o diretor afirma estar muito curioso" em assistir à maior parte desses novos filmes”. Ele ressalta "Ice Merchants", de João Gonzales, nomeado para o Oscar em 2023, na categoria de melhor curta de animação. O cineasta elogia a proposta do evento de tentar atrair um novo público para descobrir o cinema português. "Eu acho brilhante a estratégia de tirar o cinema português do seu nicho e levá-lo para um público mais alargado", afirma. Com “Raiva” coproduzido pela França, ele celebra a oportunidade de voltar a exibi-lo em Paris. Vitalidade do cinema português Como o Brasil, o cinema português vive uma excelente fase. Nos dois últimos festivais de Cannes, por exemplo, foi recompensado pelos excelentes “Grand Tour”, de Miguel Gomes, em 2024, e “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho, em 2025. No entanto, esse dinamismo não é tão badalado quanto o brasileiro.  Tréfaut avalia que o cinema de Portugal sempre ocupou um espaço particular no panorama internacional. Segundo ele, trata-se “de um cinema tradicionalmente de nicho, muitas vezes marcado por uma certa melancolia e, ao mesmo tempo, profundamente inovador”. Para o diretor, essa combinação faz com que a produção portuguesa seja artisticamente ousada, embora nem sempre voltada ao grande público. Ao comparar com o Brasil, o diretor destaca uma diferença estrutural decisiva. “O cinema brasileiro tem por trás uma máquina promocional gigante, que gasta tanto ou mais em promoção do que no próprio filme”, salienta. Essa força industrial, diz ele, explica em parte a visibilidade de diversas produções brasileiras no circuito internacional e nas grandes premiações. “Existem filmes fantásticos que chegam aos prêmios muito também por causa dessa máquina. Portugal não tem isso”, observa. Sobre o Oscar, cuja cerimônia acontece em 15 de março, Tréfaut está na torcida, ainda que com cautela. “Eu tenho muito carinho pelo ‘O Agente Secreto’. Adoraria que ganhasse. Não acredito que um filme valha por um prêmio, mas o prêmio reforça a importância do cinema brasileiro no mundo”. Focado no Brasil e na América Latina Radicado atualmente no Rio, o cineasta foca agora seus projetos na América Latina. Ele prepara “El Rio”, inspirado no romance "O General Em Seu Labirinto", de Gabriel García Márquez, sobre o fracasso do idealismo bolivariano: “É um filme sobre soberania e independência”. Também pesquisa um projeto sobre as Guianas, explorando o passado colonial da região, que foi "um laboratório do pensamento capitalista mais extremo no mundo”.

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  7. MAR 2

    Livro resgata poeta francesa esquecida que batizou o Rio de 'Cidade Maravilhosa'

    Ao contrário do que muita gente pensa, a origem da expressão “Cidade Maravilhosa”, imagem que se transformou internacionalmente no símbolo do Rio de Janeiro, não é a famosa marchinha de Carnaval de André Filho, escrita em 1935. Uma pesquisa inédita do jornalista Rafael Sento Sé resgata a verdadeira autora: a poeta francesa Jane Catulle Mendès. Rafael Sento Sé revela a história no livro "A poeta da Cidade Maravilhosa; Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque", publicado pela editora Autêntica. A escritora e jornalista "engenhosa, de personalidade marcante, que na França desafiava convenções sociais" visitou o Rio de Janeiro em 1911 e foi a primeira a falar em "Cidade Maravilhosa". Rafael Sento Sé conta que chegou à poeta quase por acaso, durante suas pesquisas sobre a memória e a história da cidade. Ele buscava a origem do epíteto e encontrou referências ao livro "La Ville Merveilleuse", escrito por Jane após sua viagem ao Rio. Ao tentar publicar trechos dos poemas, percebeu que jamais haviam sido traduzidos para o português. O espanto o levou a aprofundar a investigação. “Eu me dei conta de que nenhum dos poemas que ela escreveu sobre o Rio nunca tinham sido traduzidos para o português”, diz. A pesquisa se estendeu por 13 anos e envolveu consultas a acervos digitais e visitas a Paris. “O forte da pesquisa eu fiz remotamente, mas fui a Paris em duas ocasiões para complementar informações.” Jane Catulle Mendès (1867-1955), crítica teatral, jornalista e poeta, foi também uma pioneira em questões relacionadas à emancipação feminina. Quando chegou ao Rio, já era viúva de Catulle Mendès, um dos fundadores do parnasianismo, e percorria o mundo dando conferências, pagas, sobre literatura e a mulher francesa. Embora não se declarasse feminista, sua postura influenciou outras mulheres do período. "A liberdade com a qual a Jane se expressava e expressava o desejo feminino em suas poesias me chamou muito a atenção", lembra o biógrafo. Belle Époque carioca No Rio da Belle Époque, ela encontrou um movimento feminino nascente. O Partido Republicano Feminino, fundado por Leolinda Daltro, tinha acabado de ser fundado. Durante sua visita, aproximou-se de Júlia Lopes de Almeida, que foi uma escritora que fez muito sucesso naquela época e foi uma das fundadoras da Academia Brasileira de Letras, embora, por machismo, nunca tenha ocupado uma vaga na instituição. Posteriormente, quando voltou a Paris, Jane homenageou Júlia em um dos "Gala Franco-Brésilien" que promovia para celebrar a cultura do Brasil e do Rio. "Foi um momento de muito reconhecimento da cultura brasileira. E ela convidou as maiores escritoras francesas daquela época. Muitos artistas, tanto franceses quanto os brasileiros, também compareceram a esse jantar. Foi um momento do qual os cariocas e os brasileiros se orgulharam muito", ressalta Sento Sé.   O livro também reconstrói o cenário do Rio no início do século XX, quando a cidade disputava com Buenos Aires o título de “Paris dos Trópicos” e acabava de realizar grandes reformas urbanísticas inspiradas pelo barão de Haussmann. A recepção calorosa que Jane recebeu explica seu impacto. Ela pretendia ficar três semanas, mas acabou permanecendo três meses. “Quando ela escreve que o Rio é uma cidade maravilhosa, aquilo foi um motivo enorme de orgulho”, indica. "La Ville Merveilleuse" O livro "La Ville Merveilleuse" foi publicado em 1913, dois anos depois de Jane voltar do Brasil. Ele é composto por 33 poemas parnasianos, gênero já quase em desuso no momento da publicação. Além do título, o verso “Límpida manhã, oh cidade maravilhosa!”, do poema "Meditação", reforça a imagem do Rio. A obra foi muito bem recebida pela crítica, tanto brasileira, quanto francesa. O poeta Olavo Bilac e e o escritor João do Rio, por exemplo, elogiaram a publicação e ajudaram a difundir o epíteto. Rafael Sento Sé defende que, embora haja registros anteriores isolados da expressão, foi Jane quem realmente lhe deu sentido e propagação. “Teve quem falasse antes, mas caiu no esquecimento. O que a Jane falou foi referendado pelo João do Rio, pelo Olavo Bilac. Eu não tenho dúvidas de que foi ela que inventou esse epíteto." Apagamento histórico Apesar disso, "La Ville Merveilleuse" jamais foi traduzido ou publicado no Brasil, o que contribuiu para seu apagamento, acredita o biógrafo. “É um tipo de poesia muito rebuscado, difícil de acompanhar, e isso pode ter desencorajado tradutores”, diz o autor. Com a entrada dos poemas em domínio público agora em 2026, ele planeja lançar uma tradução integral. O esquecimento da poeta, segundo ele, tem múltiplas causas: a ascensão das vanguardas após a Primeira Guerra, que desvalorizou o parnasianismo; a disputa de paternidade da expressão com a família do escritor Coelho Neto que reivindica a primazia; e o machismo da época. "A marchinha 'Cidade Maravilhosa' foi o que consagrou definitivamente a expressão. Nunca mais ninguém deixou de cantar essa música. Este ano, são 90 carnavais da marchinha desde que ela se consagrou, estourou, no carnaval de 1936. E a Jane, o que aconteceu? Tem certamente uma dose de misoginia e de algum preconceito contra a mulher. É difícil dar o braço a torcer que uma mulher tenha criado algo tão popular", analisa. Ao celebrar o resgate histórico de Jane Catulle Mendès, Rafael Sento Sé conclui a entrevista com um “viva a Cidade Maravilhosa”, lembrando que o Rio de Janeiro completou 461 nesse 1° de março.

    13 min
  8. FEB 27

    Especialista dos EUA diz que corrida por minerais críticos no Brasil não precisa repetir erros do passado

    Os minerais críticos se tornaram um dos eixos centrais da disputa geopolítica global. Essenciais para a transição energética, a indústria de tecnologia, sistemas de defesa e telecomunicações, esses recursos passaram a ocupar o topo da agenda do governo dos Estados Unidos, que busca reduzir a dependência da China e assegurar cadeias de suprimentos consideradas estratégicas. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Nesse cenário, o Brasil voltou ao centro do mapa. O país concentra algumas das maiores reservas globais de terras raras, além de cobre, níquel e nióbio. Autoridades americanas passaram a classificar o Brasil como um parceiro “muito promissor” e já apoiam financeiramente projetos no país, como Serra Verde e Aclara, por meio da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, a DFC. Mas o interesse internacional levanta uma pergunta central: o Brasil está diante de uma oportunidade histórica de se reposicionar nas cadeias globais de valor, ou corre o risco de repetir um modelo extrativista marcado por impactos ambientais e sociais? Para tentar responder a essa pergunta, a RFI conversou com a geógrafa Julie Michelle Klinger, professora da Universidade de Delaware e autora do livro Rare Earth Frontiers: From Terrestrial Subsoils to Lunar Landscapes. Especialista na geopolítica das terras raras, Klinger pesquisa há anos os impactos da mineração no Brasil e na China. Ela chama atenção para o peso da história nas parcerias entre Brasil e Estados Unidos no setor mineral.“Há precedentes históricos importantes. No início do século 20 e durante a Segunda Guerra Mundial, parcerias de mineração entre Estados Unidos e Brasil estiveram associadas a sérios abusos trabalhistas e ambientais. Esse histórico mostra que é preciso vigilância para que isso não se repita.” Responsabilidade compartilhada Segundo Klinger, a responsabilidade não recai apenas sobre os países produtores. Ela afirma que existe uma corresponsabilidade clara entre quem extrai e quem importa esses minerais.“Os países importadores precisam garantir que as empresas que operam no exterior cumpram padrões ambientais e sociais elevados. Ao mesmo tempo, os países produtores precisam aplicar de forma consistente as leis que já existem para proteger as pessoas e o meio ambiente.” No caso brasileiro, o desafio não seria a falta de legislação, mas a desigualdade na aplicação das regras.“Precisa-se verificar quais são as medidas de controle de poluição do solo, água e ar e quais são as proteções para os trabalhadores. Brasil, assim como os Estados Unidos, é um país muito grande e diverso. E isso também significa que há uma diversidade real em como as leis ambientais e trabalhistas existentes são aplicadas com rigor.” Um dos pontos centrais da análise de Julie Klinger é a crítica à ideia de que expandir a produção de minerais críticos exige, necessariamente, abrir novas minas, muitas vezes em áreas ambientalmente sensíveis. Recuperação de minerais presentes em rejeitos Ela defende que o Brasil pode aumentar sua produção sem avançar sobre áreas protegidas.“Você pode ter tudo e fazer tudo. Você pode aumentar sua produção e exportação de minerais críticos e elementos de terras raras. E você pode fazer isso sem abrir novas minas ou desregulamentar áreas protegidas porque esses materiais podem ser encontrados nos resíduos das operações de mineração que ocorreram no país nos últimos 200 anos ou mais.” Essa abordagem, chamada de mineração acima do solo, envolve a recuperação de minerais presentes em rejeitos, barragens e resíduos de antigas operações minerárias. Segundo Klinger, além de reduzir impactos ambientais, essa estratégia ajuda a resolver passivos históricos.“A recuperação acima do solo ajuda a proteger ecossistemas críticos e comunidades, ao mesmo tempo em que contribui para metas climáticas e de biodiversidade e limpa passivos ambientais antigos.” Falta de vontade política “A tecnologia e as técnicas para cada forma de mineração acima do solo que estou defendendo já existe", aponta a especialista. "Cientistas em todo o mundo têm trabalhado nisso por décadas. A única razão pela qual isso ainda não é nosso paradigma é porque a estrutura política não a apoiou.” O obstáculo, segundo a pesquisadora, está menos na capacidade técnica e mais na falta de clareza regulatória, incentivos e modelos de financiamento que deem escala a essas soluções. O Brasil, afirma ela, tem mão de obra qualificada e conhecimento técnico, mas carece de decisões políticas que viabilizem esse caminho.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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