RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 1H AGO

    Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance

    Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d’être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte. A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação. Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. “Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo”, explica. “Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia”, afirma Juliana em entrevista à RFI.  Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. “É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual”, explica. As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse. “Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação”, detalha.  Observação das atletas nos Jogos Paris 2024 À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma.  O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje “teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta”: “Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo”, relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura. Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo – no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: “Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta”. Conhecimento e empoderamento  Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. “Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina”, descreve.  Para Juliana Antero, escutar o ciclo menstrual é uma forma concreta de empoderamento. “Significa entender que não funcionamos de maneira linear, mas cíclica, e aprender a tirar proveito dessa ciclicidade para gerenciar a própria saúde e o bem-estar”.  Por enquanto, ‘Votre Cycle Menstruel Mérite d’être Écouté’  está disponível apenas em francês. Segundo a autora, há uma tradução avançada para o chinês em andamento e outras propostas. Apesar do desejo de ver uma versão do seu livro em sua língua materna, ainda não há previsão de adaptação para o português. “As brasileiras querem cada vez mais entender o que acontece com seus corpos e melhorar a saúde”, afirma Juliana Antero.

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  2. 1D AGO

    Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil

    Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira. O livro “Estereótipos em cena” (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro. Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. “Stereos vem do grego ‘rígido’, ‘sólido’, e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa”, explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. “São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa”, resume. Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. “Quando a gente diz ‘o Brasil é o país do futebol’, independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa”, exemplifica. Estereótipo como sintoma social No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social. “Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos”, afirma. Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. “Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade”, observa. Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos. “As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos”, aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito. O que os estereótipos dizem sobre nós Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. “Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos”, diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil. “Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz ‘não sou racista’, mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no ‘não foi o que eu quis dizer’”. Para a pesquisadora, esses lapsos – que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos – revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. “O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade”, afirma. Falar a partir da branquitude Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. “A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo”, explica. A autora relaciona essa posição ao que chama de capital simbólico da branquitude, algo vivido desde a infância. “Eu venho de uma família pobre, mas havia um orgulho de ser branco, de ter olhos claros. Mesmo sem dinheiro, isso fazia com que se passasse por certos lugares quase sem questionamentos”, relata. Questionar esse privilégio costuma gerar resistência, acrescenta. “Algumas pessoas têm a sensação de que, ao mover essas ideias, vão perder algo, mesmo que isso não apareça de forma consciente”. Escuta e diálogo  O livro não oferece respostas prontas, mas aposta na escuta e no diálogo. A proposta, segundo Feré, é abrir espaço para outras vozes questionarem posições rígidas e ampliar o nível de consciência sobre a realidade do outro. Nesse sentido, “Estereótipos em cena” reúne textos de intelectuais, professores, poetas e artistas que abordam temas como gênero, envelhecimento, periferias e expressões culturais como o rap e o funk: “São vozes que ampliam o debate e ajudam a imaginar outras formas de relação”, conclui a autora.

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  3. APR 30

    Acordo UE‑Mercosul: desafio é transformar oportunidades em negócios, diz Tatiana Prazeres

    Após 25 anos de negociações, começa a valer neste 1° de maio o Acordo Comercial entre Mercosul e União Europeia, o maior já firmado tanto pelo bloco sul‑americano quanto pelo Brasil. O pacto envolve 31 países, com um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões e um mercado potencial de mais de 720 milhões de consumidores.  A partir da entrada em vigor do tratado, nesta sexta-feira, mais de 10 mil produtos deixam de pagar tarifas de importação ou ganham vantagens, de ambos os lados. Segundo a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres, o acordo começa a produzir efeitos desde o primeiro dia de aplicação provisória. “O efeito imediato do acordo é a eliminação de imposto de importação do lado do Mercosul para um grupo de produtos e a eliminação do imposto de importação na UE para um universo maior de produtos que são originários do Mercosul”, explicou. Para o consumidor final, o acordo não altera as regras de importação de pequenos pacotes. “O regime da importação por pequenos pacotes não se altera com o acordo do Mercosul‑UE”, esclareceu Prazeres. Além da redução tarifária imediata, Prazeres destaca que outros dispositivos entram em funcionamento simultaneamente, criando uma base mais ampla de integração. “Uma série de outros dispositivos passam a vigorar, fortalecendo o relacionamento entre as duas regiões, promovendo investimentos, comércio, cooperação, integração”, afirmou. A Comissão Europeia também comemora este marco.  Sistemas preparados para o novo fluxo Para garantir a aplicação efetiva do acordo, Brasil e União Europeia avançaram na adaptação dos sistemas aduaneiros. Segundo a secretária, embora a redução do imposto de importação seja o aspecto mais visível, não é o único. Há também ajustes técnicos para possibilitar o uso de cotas negociadas. Essas medidas buscam assegurar que empresas do Mercosul consigam acessar, de fato, as vantagens previstas. “Outras medidas estão sendo adaptadas, como por exemplo, medidas para implementar cotas, ou seja, como garantir que o importador brasileiro ou de um sócio do Mercosul possa de fato usufruir do benefício da cota”, explicou. Apoio setorial e proteção aos segmentos sensíveis No Brasil, o acordo conta com amplo apoio de setores estratégicos da economia. A secretária ressalta que tanto a indústria quanto o agronegócio se manifestaram favoravelmente ao pacto, incluindo entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Há respaldo também de associações de diferentes ramos, como calçados, móveis e produtos químicos. Para Prazeres, esse apoio é resultado dos cuidados adotados ao longo das negociações. “O governo brasileiro tomou uma série de cuidados para levar em conta as sensibilidades da indústria brasileira, do agro‑brasileiro, de maneira que essa abertura, essa exposição à concorrência europeia vai ser calibrada, vai se dar ao longo do tempo”, afirmou. O acordo prevê instrumentos de proteção para setores mais vulneráveis. “Há mecanismos de salvaguarda para responder algumas dificuldades que os setores eventualmente venham a ter”, destaca Tatiana Prazeres, ressaltando que o objetivo é permitir uma adaptação gradual à concorrência. Ainda assim, a avaliação do governo é amplamente positiva quanto aos efeitos do tratado. Produtividade, consumo e inserção internacional “Estamos convencidos de que é um acordo altamente favorável ao Brasil […] que vai contribuir para obter a inserção externa do país, o aumento da produtividade no Brasil”, declarou a secretária. O acesso a tecnologias e insumos mais baratos é apontado como um dos ganhos centrais. O consumidor também tende a ser beneficiado, com maior oferta de produtos a preços mais competitivos. Ao mesmo tempo, o desenho do tratado levou em consideração setores que precisarão se adaptar a um cenário de concorrência ampliada. “O acordo foi planejado de maneira a que se levassem em conta setores que eventualmente precisarão concorrer com produtos europeus”, explicou. A secretária de Comércio Exterior lembra ainda que o mercado europeu já ocupa posição central na balança comercial brasileira. “É o segundo destino das nossas exportações, a segunda origem das nossas importações. Há investimentos históricos de um lado e de outro e oportunidades ainda a serem exploradas”, disse. Implementação e desafios iniciais Apesar da complexidade do acordo, equipes técnicas trabalham para assegurar que os dispositivos entrem em vigor sem sobressaltos. “Os governos dos quatro sócios, e também do lado europeu, estão trabalhando de maneira intensa para garantir que haja, de fato, a implementação plena dos dispositivos”, explicou Tatiana Prazeres. Ajustes pontuais poderão ser feitos, se necessário, na fase inicial. “É um acordo inédito para o Brasil e para o Mercosul. Trata‑se do principal acordo comercial desde a criação do Mercosul”, enfatiza. Energia, transição verde e novas oportunidades Questionada se o pacto com os europeus poderia funcionar como alternativa diante de eventuais perdas no comércio com os Estados Unidos, em um momento em que o Brasil ainda renegocia sua relação bilateral com Washington, marcada por altos e baixos e pelo risco de novas taxações ou penalidades, ela destacou: “O acordo contribui para que o Brasil diversifique seus parceiros e fortaleça vínculos comerciais baseados em regras, investimentos, fluxos de tecnologia e integração produtiva”. Essa diversificação amplia o leque de possibilidades para empresas brasileiras, ainda que os efeitos concretos dependam de cada setor e de cada perfil exportador. “Pode contribuir para que exportadores brasileiros que eventualmente tenham dificuldade em um ou outro mercado possam encontrar no mercado europeu uma alternativa para suas exportações”, disse, destacando que essa avaliação deve ser feita caso a caso, conforme as características de cada cadeia produtiva. No contexto geopolítico atual, marcado por uma crise sem precedentes no Oriente Médio, pela alta de preços do petróleo e um questionamento global sobre a dependência de combustíveis fósseis, o tratado cria condições mais favoráveis à cooperação no setor de energia. Ela cita, entre os exemplos concretos, o acesso do etanol brasileiro ao mercado europeu. “O etanol do Brasil terá acesso favorecido ao mercado europeu a partir da entrada em vigor do acordo”, dentro dos limites negociados. Mas o alcance vai além. “O que nos interessa são parcerias que podem ser desenvolvidas a partir deste momento em que o mundo está exposto […] aos desafios do acesso à energia”, afirmou. A elevada participação de fontes renováveis na matriz energética do Mercosul é vista como diferencial competitivo. “O Mercosul é uma região que tem uma matriz energética e elétrica renovável, num percentual muito elevado”, destacou, associando esse perfil à possibilidade de uma produção com menor pegada de carbono. “É uma oportunidade para uma inserção do Brasil na economia global, como talvez nunca vista antes”, conclui Tatiana Prazeres.

    6 min
  4. APR 29

    Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa

    A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis". Luiza Ramos, da RFI em Paris A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora. "O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz. O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas. Identidade Indígena e o direito à cidade Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua. "Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá. "Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora. Desafios da tradução para o francês A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa. "Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que implicam uma inferioridade. Então aqui politicamente a gente adotou como palavra autochtone e peuple, para reconhecer a soberania plurinacional e também uma forma mais respeitosa de se referir a eles", explica Trudruá Dorrico. Em Paris, Trudruá Dorrico também assina a curadoria da exposição 'Passeurs' no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, em cartaz até 18 de julho. A mostra propõe um diálogo sensível entre artistas indígenas contemporâneos e a relação com a natureza. Ao convidar o público a reconhecer as cosmovisões indígenas como saberes vivos, a curadoria de Trudruá articula memória ancestral e presente histórico, afirmando territórios, existências e lutas no campo das artes. Dia 19 de maio, em função da divulgação de seu livro na versão em francês, a autora participa de um encontro literário na livraria feminista Un Livre et Une Tasse de Thé, no 10° distrito de Paris. Já no dia 30 maio, ela e outros autores estarão na Maison de l’Amérique Latine, em uma mesa redonda dedicada à literatura latino-americana. Todas as informações estão disponíveis no Instagram de Trudruá Dorrico.

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  5. APR 27

    'Carnaval é política', diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí

    O documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”, dirigido por Saullo Farias Vasconcelos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro. “O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro”: diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcelos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de “o Carnaval Popular do Rio”. Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco. Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de “griô” (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. “Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado”, afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. “Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela”, diz. Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. “Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até”, conta. A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. “Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação”, diz. Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. “O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa”, observa. Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. “Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba”, diz. Aumento dos feminicídios no Brasil No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. “Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades”, declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista.   “Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. “Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: ‘meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão’”, relembra. “Depois que acabou a sessão [no festival], várias mulheres vinham falar comigo e com ela, agradecendo a fala dela e também a denúncia. O percurso de Maria Moura sempre foi de denúncia. Ela nunca foi de ficar calada. Ela mesmo diz que só chegou até aqui porque teve que falar muito, teve que insistir muito no que queria, porque senão ela não ia conseguir conquistar o que conquistou”, aponta. Segundo Saullo, o filme fará sua estreia no Brasil em outubro, no Festival do Rio. O diretor também inscreveu o documentário em outros festivais, como o de Biarritz, no sudoeste da França, e no de Xangai, na China. “Eu gostaria muito de levar o filme para lá, porque acho que é um país muito interessante dentro da tradição, principalmente do carnaval. Eles dialogam muito com a gente e acho que eles vão se reconhecer um pouco na nossa tradição”, diz. Associação La Terreirada Saullo também é o fundador da associação La Terreirada, em Paris. O espaço promove a cultura brasileira e acolhe artistas vindos do Brasil. Na programação do local, está um evento dedicado ao Super 8 em 24 de maio, com a presença do cineasta pernambucano Ivan Cordeiro. Em 27 de junho, a Terreirada acolhe uma festa junina. Nos dias 11 e 12 de julho, a associação promoverá um festival de verão, com a previsão de projetar, durante o evento, “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”.

    20 min
  6. APR 21

    Brasileiros no exterior têm até 6 de maio para regularizar título e votar nas eleições presidenciais

    Os brasileiros que vivem no exterior e desejam participar das eleições presidenciais de outubro no Brasil precisam ficar atentos: o prazo para emissão de título, transferência do domicílio eleitoral, atualização de dados cadastrais ou regularização de pendências termina no dia 6 de maio. Para esclarecer dúvidas e orientar a comunidade brasileira residente na França, o embaixador Fabio Mendes Marzano, cônsul-geral do Brasil em Paris, e o cônsul adjunto Murilo Vieira Komniski falaram à RFI sobre os procedimentos. O segredo é não deixar para a última hora. Maria Paula Carvalho, da RFI O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno acontece no dia 26 de outubro. Embora o pleito seja de eleições gerais – com escolha de governadores, deputados e senadores – , no exterior o voto é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República. Ainda assim, estar em dia com a Justiça Eleitoral é fundamental.   Segundo o embaixador Fabio Marzano, o prazo de 6 de maio (até as 23h59 pelo horário de Brasília) é único e vale para todos os serviços eleitorais, desde a emissão do primeiro título até a transferência para o exterior ou a regularização de pendências.  “Vale para todos os tipos de serviços. Essas solicitações têm que ser feitas diretamente na página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É um processo bastante simples, e nós colocamos instruções passo a passo também nas nossas mídias sociais”, explicou.  Após o envio, o pedido é analisado pela Justiça Eleitoral no Brasil, e o andamento pode ser acompanhado pelo próprio sistema. Uma vez aprovada a solicitação, o eleitor passa a ter acesso ao novo título pelo aplicativo e‑Título.  Caso haja pendências no Brasil, como ausência em votações anteriores, o sistema pode apontar erro. Nesses casos, basta quitar a situação. “A multa é pequena. O TSE disponibiliza um boleto, e o pagamento pode ser feito por banco brasileiro ou transferência. Até o dia 6 de maio, dá tempo de regularizar tudo”, reforçou o cônsul-geral.  Voto é obrigatório; irregularidade traz consequências  Diferentemente da França, o voto no Brasil é obrigatório. Quem não vota nem justifica a ausência fica em situação irregular perante a Justiça Eleitoral. “Isso afeta muitos brasileiros que procuram o consulado para renovar passaporte, porque é obrigatório apresentar a certidão de quitação eleitoral”, alertou o embaixador.  A justificativa de ausência não pode ser feita presencialmente em Paris por quem está inscrito no Brasil. Ela deve ser realizada exclusivamente pelos canais digitais do TSE – seja por quem está viajando, seja por quem mora em outra cidade da França e não consegue comparecer ao local de votação.  Os dois turnos são considerados eleições independentes: mesmo quem não votou no primeiro pode votar no segundo. A justificativa pode ser feita no dia da eleição ou até 60 dias após cada turno, inclusive pelo aplicativo e‑Título.  Imigrantes em situação irregular também podem votar  Um ponto pouco conhecido é que a situação migratória na França não interfere no direito de voto nas eleições brasileiras. “Imigrantes em situação irregular na França têm plenos direitos do ponto de vista da legislação brasileira. Se estiverem com a situação eleitoral regularizada, podem votar sem problema algum”, explicou Murilo Komniski.  O processo foi significativamente simplificado desde as eleições de 2022, ainda durante a pandemia de Covid-19. Para a regularização eleitoral, basta enviar pelo site do TSE uma selfie com documento oficial brasileiro – como RG, passaporte ou CNH – e um comprovante de residência no exterior, como conta de água, luz ou telefone.  Para os homens entre 18 e 45 anos, é necessário também estar em dia com as obrigações militares, exigência que já aparece no próprio formulário do TSE.  Cresce o número de eleitores brasileiros na França  O número de eleitores brasileiros inscritos para votar na França vem crescendo de forma significativa. Em 2022, eram pouco menos de 23 mil. Atualmente, já são mais de 27 mil, e a expectativa é ultrapassar 30 mil eleitores até o fim do prazo, em 6 de maio. “O brasileiro tem certa tradição de deixar para a última hora”, observou o embaixador.  Esse crescimento reflete o aumento do número de brasileiros residentes no país. A estimativa mais recente é de cerca de 100 mil brasileiros vivendo na França, entre estudantes, trabalhadores e famílias. "É uma pressão considerável em termos de prestação de serviços", destaca Murilo Komniski. Onde será a votação?  Tradicionalmente, as eleições ocorrem em Paris, mas o local exato ainda não foi confirmado. Em 2022, a votação registrou longas filas. Diante do aumento do eleitorado, o Consulado propôs um novo espaço, maior e igualmente bem localizado, mas a decisão final cabe ao Tribunal Superior Eleitoral. “Não posso ainda divulgar o endereço definitivo. Estamos aguardando a confirmação do TSE”, disse Marzano. "Da última vez, o TSE resolveu concentrar todas as sessões aqui em Paris. Então nós tivemos 57 ou 59 sessões eleitorais. Por isso o local estava com muito movimento", explica. A novidade quase certa para este ano é a abertura de seções eleitorais em Marselha, no sudeste da França, onde o novo consulado brasileiro já está em funcionamento e atenderá aos eleitores que moram na região. Mesários e voluntários  A organização das eleições no exterior depende fortemente de trabalho voluntário. O consulado já iniciou a divulgação de convites para mesários e equipes de apoio. “Talvez precisemos de mais de 300 mesários este ano. Cada sessão precisa de três a quatro pessoas, além de apoio de retaguarda”, explicou o embaixador.  Também há espaço para a atuação de observadores eleitorais, nos mesmos moldes das eleições no Brasil.  Atendimento consular e aumento da demanda  Questionado sobre as reclamações quanto à dificuldade de atendimento no Consulado em Paris, Fábio Marzano afirmou que a equipe tem conseguido atender cerca de 99% das demandas, apesar do aumento expressivo da procura. “Para mim, todo pedido de brasileiro é prioritário. A casa do brasileiro aqui é o consulado”, afirmou.  Segundo ele, o crescimento da comunidade brasileira se reflete nas estatísticas de emissão de passaportes, registros de nascimento e outros serviços.  Convite à participação  Para encerrar, o embaixador deixou um convite à comunidade brasileira na França: “Participar das eleições é participar da festa da democracia. Quem quiser ou puder, transfira o título, regularize sua situação e vote. O processo é simples, rápido e a multa, quando existe, é irrisória,” concluiu.  A transferência do título para a França é opcional. Quem pretende votar no Brasil pode manter o domicílio eleitoral original.  Contatos para dúvidas eleitorais: Telefone: +55 61 3048 1770  E-mail: eleitor.exterior@tre-df.jus.br

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  7. APR 20

    Premiada na França por 'Menos que Um', Patrícia Melo foi destaque no Salão do Livro de Paris

    A escritora brasileira Patrícia Melo foi uma das convidadas do Salão do Livro de Paris. Ela esteve no evento para falar de "Menos que Um", seu mais recente romance traduzido para o francês. A obra denuncia a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua em São Paulo. O romance recebeu, na França, o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, em janeiro, logo após seu lançamento no país. "Menos que Um" foi traduzido por Élodie Dupau e publicado pela editora Buchet Chastel com o título "Ceux qui ne sont rien". Segundo a própria Patrícia Melo, o livro é uma rapsódia da vida e dos sonhos que se cruzam, formando um caleidoscópio da miséria brasileira. Este é o 12° romance de Patrícia Melo e o 12° a ser traduzido para o francês. Ao analisar a publicação, as críticas brasileira e francesa evocam "Os Miseráveis", de Victor Hugo, revisitados e retirados da invisibilidade à brasileira. O prêmio conquistado por "Menos que Um" foi a segunda recompensa literária de Patrícia Melo na França. Em 2024, a tradução do livro "Mulheres Empilhadas", que em francês recebeu o título "Celles qu’on tue", venceu o prêmio da revista Madame Figaro. Patrícia Melo, que atualmente mora em Lisboa, veio a Paris participar do Salão do Livro para falar de sua literatura, que ficou muito mais engajada nos útimos anos. "Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem", afirma nessa entrevista à RFI. RFI: Patrícia Melo, com esse prêmio você participou do Salão do Livro de Paris já coroada de sucesso. Patrícia Melo: Pois é, foi uma surpresa para mim esse prêmio, fiquei muito feliz. Isso dá mais visibilidade ao livro, e eu acho muito importante esse reconhecimento que a gente ganhou para colocar a obra mais em evidência. RFI: O que você achou da comparação entre "Menos que Um" e "Os Miseráveis", o grande romance do século XIX, de Victor Hugo? P.M.: Victor Hugo é uma grande paixão. Ele foi uma inspiração no sentido de registrar a miséria e, ao mesmo tempo, mostrar o movimento político, a organização e a revolta. Foi inspirador. É claro que foi muito lisonjeiro para mim que as pessoas percebam essa referência. Mas não é só Victor Hugo. Tem também Jorge Amado. Outro livro que me inspirou muito foi "Capitães da Areia". RFI: Você participou da tradução. O que achou do título em francês? "Menos que Um" virou "Ceux qui ne sont rien". P.M.: Eu gostei muito. Achei que ele tem uma sonoridade mais poética. Faz também uma espécie de eco com o título do romance anterior. Achei muito interessante. Aqui na França, minha editora fez uma observação da qual eu não tinha me dado conta. Talvez tenha a ver com meu afastamento do Brasil, mas ela acha que esses dois últimos livros funcionam como um registro dos anos terríveis que a gente viveu recentemente, quando a direita tomou o poder no país. RFI: Você acerta contas com o governo Bolsonaro? P.M.: Acho que ali fica registrado o quanto foi um período pesado. RFI: Desde o seu primeiro romance, "O Matador", você denuncia a violência brasileira. Você diria que, com o tempo, sua obra ficou mais explícita e engajada? P.M.: Acho que sim, houve uma guinada política. Não foi uma decisão voluntária. Foi uma emoção, uma indignação, um espanto diante do que estava acontecendo, que entrou na minha literatura. Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem. RFI: O fato de morar fora do Brasil facilita essa análise? Esse distanciamento ajuda? P.M.: Acho que sim. Em termos de forma, comecei a querer compor grandes painéis, fazer grandes panorâmicas do Brasil. Isso não era um desejo consciente desde o início. A gente percebe quase no final da escrita, quando o livro já está com uma forma definida. Eu tinha a ideia de criar um livro coral, com muitos personagens, e ele acabou se tornando um grande retrato da miséria. RFI: Para quem ainda não leu o livro, "Menos que Um" é um romance polifônico, com muitos personagens, ambientado no centro de São Paulo, especialmente em uma praça. Também há poesia e solidariedade. P.M.: Sim. A gente costuma pensar que a vida nas ruas é só feita de dificuldades, mas fiquei muito surpresa ao perceber a solidariedade que existe entre essas pessoas. Elas precisam se unir para se defender, para conseguir dormir, porque são vulneráveis 24 horas por dia e invisíveis quase sempre. Só se tornam visíveis quando sofrem violência. Há muita organização, companheirismo, amizade, amor, poesia e sonho. Uma das coisas que mais me marcou na pesquisa foi perceber o quanto o sonho estrutura a vida dessas pessoas. É uma espécie de colchão amortecedor para aguentar as quedas constantes. RFI: No Salão do Livro, você participa de uma mesa com o escritor haitiano James Noël, intitulada Haiti–São Paulo: da raiva à revolta. Os dois países têm em comum a violência como herança? P.M.: Acho que sim. A violência está profundamente enraizada na cultura dos dois países. Ela faz parte do tecido da vida. É muito perceptível tanto na realidade brasileira quanto na haitiana. São países com uma história de violência contínua, que nunca foi devidamente revisitada ou reparada. O Brasil, por exemplo, nunca lidou bem com sua história da escravidão. RFI: No final de "Menos que Um", o personagem escritor começa a escrever o livro que acabamos de ler. Como ele afirma, escrever é mais fácil do que viver? P.M.: Acho que sim. Esse escritor tem um pouco de mim ali. Sempre fui uma pessoa medrosa. A vida imaginada, da fábula e do sonho, é mais fácil. Não sei como essas pessoas, como meus personagens, aguentam o tranco. A realidade de quem vai para a rua é uma sequência de perdas que nunca acabam. RFI: Você é uma das escritoras brasileiras de maior visibilidade, com todos os livros traduzidos para o francês e vários idiomas. Você teme esse recuo de leitores no mundo? P.M.: Acho que isso faz parte da revolução tecnológica que a gente vive. Houve uma história da leitura que acompanhou a humanidade e que agora está se perdendo. As pessoas estão menos aptas à introspecção, ao silêncio e à concentração. A leitura exige um tempo que muita gente já não tem mais. Essa queda de leitores é real e global. Acontece no Brasil, na França, na Alemanha. É um fenômeno mundial, consequência direta dessa revolução tecnológica. RFI: A inteligência artificial é preocupante? P.M.: Acho que sim. Não sabemos exatamente o que estamos criando nem como isso vai ser utilizado. O mais grave é que as bases éticas que sustentam nossa civilização talvez não deem conta dessa revolução. Ainda nem começamos a pensar seriamente em legislação para a inteligência artificial. Vamos ter que produzir muita filosofia e muitos códigos éticos para lidar com essa realidade. Vivemos uma revolução sem perceber, e ela é muito mais veloz do que qualquer outra. RFI: Isso tudo já modificou ou vai modificar sua prática como escritora? P.M.: Em parte, sim. Uso a inteligência artificial para pesquisa, para levantar dados e estatísticas. Ela agiliza bastante. Mas não substitui o olhar do pesquisador. Meu modo de escrever, de pensar a literatura, isso não mudou. RFI: Seu último livro é tão sombrio quanto os dois anteriores? P.M.: Acho que ele fecha esse ciclo sombrio dos últimos anos. É um livro ambientado na floresta, levemente inspirado na história de Bruno Pereira e Dom Phillips. Minha editora francesa diz que estou encerrando uma espécie de trilogia dos anos Bolsonaro. Acho uma leitura muito sensível do que venho tentando fazer nesses romances. Clique na foto principal para ouvir a entrevista na íntegra.

    13 min
  8. APR 16

    De Cuiabá aos festivais internacionais: Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio-São Paulo

    Fora do eixo tradicional Rio–São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Maria Paula Carvalho, da RFI Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação. “A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro”, afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. “Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso”, comemora. Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro. “Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público”, explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. “Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias”, afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos. Um quebra-cabeça narrativo A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme. “Eu considero uma forma inteligente de engajar o público”, diz. “O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas.” Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. “Ele se sente parte da construção do filme.” A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. “São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa”, explica. O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos. Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção. “O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades, então a dureza vem”, afirma. “Mas vem também a leveza, vem a esperança.” No filme, os personagens enfrentam perdas profundas, mas encontram no outro a possibilidade de reconstrução. “Isso conversa muito com as características do nosso país.” Do periferia de Cuiabá para o mundo Após Gramado, "Cinco Tipos de Medo" iniciou uma trajetória internacional que já passou por Havana, Barcelona, Manchester e Paris, com exibição prevista em Chicago ainda este mês. Para Bruno Bini, mais do que reconhecimento artístico, essa circulação abre caminhos concretos para a comercialização do filme e para novas parcerias. “Está sendo uma experiência incrível perceber como uma história da periferia de Cuiabá encontra ressonância no coração de pessoas com origens tão diversas”, reflete. “A gente percebe que tem muito mais pontos em comum do que diferenças”, acrescenta. Na França, parte da crítica classificou o filme como um exemplo de cinema de ação latino-americano, associado ao thriller social – definição que o cineasta acolhe sem reservas. “É assumidamente um filme de ação, um filme de gênero. E aceito a definição de thriller social porque ele insiste em lidar com temas socialmente relevantes”, pontua. Um novo momento do cinema brasileiro O sucesso de "Cinco Tipos de Medo" se insere em um contexto mais amplo de visibilidade internacional do cinema brasileiro, com produções recentes ganhando destaque em festivais como Cannes e no Oscar. Para Bini, esse movimento é resultado de mudanças estruturais no setor. “Hoje existe um ajuste de olhar do poder público federal em relação à distribuição e à democratização do acesso aos recursos”, afirma. Segundo ele, essas políticas têm impacto direto nas regiões fora do eixo Rio–São Paulo. “O Brasil está se redescobrindo através das telas de cinema”, continua. O resultado é um panorama mais diverso, com histórias vindas do Amazonas, do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sul ganhando espaço ao lado das produções dos grandes polos tradicionais. “O cinema brasileiro está voando, indo cada vez mais longe, e isso puxa toda uma cadeia produtiva junto”, avalia. Próximos projetos Em meio ao reconhecimento internacional, Bruno Bini já se prepara para os próximos passos. Entre eles, está o longa de ficção científica "Três Tempos", atualmente em fase de captação de recursos, com filmagens previstas para o próximo ano. O cineasta também atua como produtor em um novo filme do diretor Fábio Baldo e desenvolve o projeto "Antes que a Música Pare", um drama investigativo. Com uma filmografia firmemente ancorada em seu território de origem, Bruno Bini segue ampliando o alcance do cinema brasileiro – mostrando que, longe dos centros tradicionais, também se produzem histórias capazes de atravessar fronteiras.

    12 min

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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