RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 2d ago

    Festival em Paris exibe documentário sobre violência agrária e impunidade no Brasil

    Destaque do Festival Brasil em Movimentos, em cartaz até domingo (20) em Paris, o documentário "Pau d'Arco", da jornalista e documentarista Ana Aranha, revisita um dos mais graves massacres agrários da história recente do Brasil. O longa mostra como os conflitos pela terra continuam produzindo violência, medo e impunidade no país. O filme acompanha, durante sete anos, a luta por justiça de um sobrevivente sem terra e de seu advogado após a morte de dez trabalhadores rurais em uma operação policial no sul do Pará, em 2017. Depois de estrear nos cinemas brasileiros em 2025 e chegar à plataforma Netflix, o documentário segue em sua trajetória internacional. Para a diretora Ana Aranha, a participação em um festival voltado a conflitos sociais e ambientais do Brasil tem um significado particular. Segundo ela, trata-se de um cinema que busca não apenas entreter, mas aproximar realidades frequentemente invisíveis para quem vive nos grandes centros urbanos. "O filme serve para gerar conexão entre pessoas que têm acesso ao cinema e às plataformas e aquelas que vivem questões pouco visíveis no Brasil", resumiu Ana Aranha à RFI. Ela lembra que o massacre de Pau d'Arco recebeu ampla cobertura quando aconteceu. "Foi capa dos jornais e notícia internacional. Mas nós ficamos lá", conta. Enquanto a maior parte da imprensa acompanhou os desdobramentos imediatos do caso, a equipe decidiu seguir documentando a trajetória dos sobreviventes. No centro da narrativa está Fernando, trabalhador sem terra e homossexual que sobreviveu à chacina e teve coragem de depor contra os policiais envolvidos, ao lado do advogado que o acompanha na busca por justiça. Ao longo das filmagens, novos episódios dramáticos marcaram a vida dos dois protagonistas. "Fatos gravíssimos aconteceram com essas pessoas enquanto filmávamos. Tivemos uma oportunidade rara de registrar os acontecimentos enquanto eles aconteciam", conta Ana Aranha. Essa é uma das particularidades do documentário. Em vez de reconstruir fatos do passado por meio de entrevistas retrospectivas, "Pau d'Arco" acompanha a história em tempo real. Entre o jornalismo e o cinema Coordenadora de projetos especiais da agência Repórter Brasil e ex-chefe de redação do veículo, Ana Aranha diz que a própria força da história a levou a ultrapassar os limites da reportagem e a realizar seu primeiro longa-metragem. O ponto de virada ocorreu quando conheceu Fernando. "Ele tem uma força, um brilho e uma presença diante da câmera que me fizeram pensar: isso é cinema", relembra. A diretora afirma que foi a potência humana do personagem que atraiu outros profissionais do audiovisual para o projeto. Segundo ela, a narrativa acabou adquirindo uma estrutura próxima à de um filme de ficção, embora todos os acontecimentos registrados sejam reais. Derrubando preconceitos Nas discussões realizadas após as exibições, um aspecto chama particularmente a atenção da cineasta: a surpresa do público ao entrar em contato com a realidade dos trabalhadores sem terra. Segundo Aranha, isso ocorre tanto na França quanto no Brasil. "Existe muito preconceito e pouca informação sobre quem são essas pessoas", afirma. "Quando o espectador entra na vida do Fernando e entende o que significa querer transformar um pasto abandonado em uma plantação de mandioca, batata ou quiabo, ele passa a enxergar essa realidade de outra maneira." Para a diretora, o filme ajuda a desmontar estereótipos ao mostrar os motivos que levam famílias inteiras a participar de ocupações de terra. "As pessoas que ocupavam aquela fazenda estavam passando fome. Havia crianças e idosos em situação de insegurança alimentar. É preciso uma necessidade muito grande para correr um risco desses", observa. Ao acompanhar a vida de um sobrevivente da chacina, "Pau d'Arco" procura deslocar o olhar do espectador para quem vive diretamente os conflitos fundiários, e não para os grandes proprietários ou para as disputas políticas em torno do tema. "A proposta é criar uma conexão humana. O cinema permite isso. Quando as pessoas se emocionam com uma história, elas conseguem compreender realidades que antes lhes eram completamente desconhecidas", destaca Ana Aranha. O filme será exibido neste sábado (19), às 19h, no cinema 7 Parnassiens, na capital francesa.

  2. 3d ago

    Camila Fremder apresenta 'É noia minha?' pela primeira vez na Europa

    A escritora, roteirista e apresentadora de podcasts brasileira Camila Fremder inicia sua primeira temporada de apresentações na Europa. A turnê, que passa por oito cidades e termina em Paris, já acumula sessões extras e ingressos quase esgotados. Em entrevista à RFI, ela fala sobre o sucesso do espetáculo e suas próprias paranóias antes da viagem. Vitória Barreto, de Paris Entre os dias 19 e 27 de setembro, Camila Fremder apresenta o "É Noia Minha?" em Londres, Dublin, Amsterdã, Lisboa, Porto, Berlim, Barcelona e Paris. O criador de conteúdo Fábio Cruz, conhecido como Fabão, participa de toda a turnê, que também terá convidados brasileiros como a comediante Julia Rabelo, no Porto, e a atriz e apresentadora Fernanda Rodrigues, em Lisboa. O podcast, que ficou famoso por reunir convidados para discutir as paranoias da vida adulta, acumula cerca de 77 milhões de plays no Spotify e mais de 4,5 milhões de visualizaçoes no Youtube, segundo a assessoria da podcaster. Entre os convidados que já passaram pelo programa estão nomes como Lázaro Ramos, Regina Casé, Emicida e Taís Araújo.  Mesmo sendo um dos podcasts de maior visibilidade do Brasil, Camila admite que ficou chocada com a demanda pelos shows na Europa. Depois do sucesso da turnê pelo Brasil, veio o convite de uma produtora que organiza apresentações de humor para brasileiros no continente.  “Eu achei tudo muito surreal, porque para mim já era inacreditável ter público em Recife e Porto Alegre”, afirma a apresentadora.  Na turnê da Europa, a capacidade é de quase quatro mil ingressos, e, segundo a assessora da apresentadora, com mais de 75% vendidos, com sessões extras em Dublin, Londres e Berlim.  Em Paris, a procura foi tão grande que o espetáculo precisou ser transferido para um teatro maior e hoje, restam poucos ingressos. Em Barcelona, a sessão já está esgotada e não há espaço na agenda para uma apresentação extra.  Todo mundo tem uma nóia Para quem ainda não acompanha o “É Noia Minha?”, Camila garante que ouvir o podcast não é um pré-requisito para assistir ao espetáculo.  “Todo mundo tem nóia com alguma coisa. Às vezes a noia é boa, às vezes pesa e toma conta de uma parte do nosso cérebro e fica ali martelando. Mas eu encontrei no (podcast) noia uma maneira de colocar as coisas em outra perspectiva. Quando a gente decide debater uma noia, seja sobre relacionamento ou trabalho, [...} ela diminui de tamanho porque você percebe que não é uma pessoa esquisita. Você reconhece isso em outras pessoas também. Então é um abraço, né?”  Antes do espetáculo, os espectadores escrevem e entregam à produção algo que os preocupa ou inquieta. Durante a apresentação, Camila e Fabão podem comentar alguns desses relatos. Diferentemente do podcast, que passa por roteiro e gravação e só recebe o retorno do público semanas depois do lançamento, o espetáculo se constrói quase em tempo real.  Um tema recorrente, no entanto, já apareceu em episódios anteriores e deve voltar à tona: o constrangimento de cometer gafes fora do Brasil, seja por palavras parecidas que têm significados diferentes em outro idioma, seja pelo desconhecimento de costumes locais.  Barreira das línguas Perguntada sobre suas próprias ansiedades em relação à turnê, Camila não hesitou: o grande número de voos em tão pouco tempo já é, por si só, motivo de nervosismo, mas conversar em outra língua é sua maior noia.  “Em Paris, por exemplo, a gente sabe três palavras em francês, então eu fico meio perturbada. Será que vou conseguir me comunicar? Ao mesmo tempo, é muito doido porque eu trabalho me comunicando, né? Meu filho fala uma coisa muito engraçada: ‘Mamãe, você ganha dinheiro para conversar’. E é mais ou menos isso mesmo [...] Eu ganho dinheiro conversando e vou para um monte de lugares onde justamente conversar é a minha maior barreira.”  Camila Fremder tem uma longa trajetória na comunicação. Formada em publicidade, começou a carreira como redatora publicitária, manteve blogs, trabalhou como ghostwriter e publicou diversos livros, antes de se tornar uma das podcasters mais populares do Brasil. Apesar de admitir que sentiu ansiedade nas primeiras apresentações ao vivo, Camila afirma que logo se encantou pelos palcos. “O teatro é fantástico porque é imediato. Você fala uma coisa e vê a reação das pessoas, seja porque ficaram espantadas, porque acharam engraçado ou porque concordaram com você. Ver 300 cabecinhas concordando com você é algo viciante. Eu sou muito feliz fazendo apresentações ao vivo.”

  3. 3d ago

    Crise no STF expõe desgaste institucional e desafia credibilidade da Corte, aponta cientista político

    Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou-se como um dos principais protagonistas da vida pública brasileira, acumulando decisões de forte impacto político e institucional. Ao mesmo tempo, a Corte passou a enfrentar questionamentos crescentes sobre os limites de sua atuação e sobre sua capacidade de preservar a confiança da sociedade. A crise mais recente, desencadeada pelos desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, aprofundou o debate sobre transparência, imparcialidade e prestação de contas no Judiciário.  Maria Paula Carvalho, da RFI Para o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o episódio se insere em um contexto mais amplo de instabilidade política que o país atravessa desde as eleições de 2022.  "O país parecia que, com a vitória de Lula em 2022, iria entrar no rumo normal. Mas não entrou. E isso agora está agravado pela crise do Supremo Tribunal Federal, que hoje está completamente desacreditado", afirma.  "Essa fraude do Banco Master não atinge só o Supremo, atinge vários políticos e atinge todo mundo. Atinge o próprio Flávio Bolsonaro, que é um dos candidatos. Então, o país está numa crise muito grande", diz.  Apesar das críticas ao momento atual da Corte, Ranulfo faz questão de destacar o papel desempenhado pelo Judiciário brasileiro durante os anos de maior tensão institucional do governo Jair Bolsonaro.  "Quem garantiu a democracia no Brasil, no governo Bolsonaro, foi o Supremo e foi o TSE depois", afirma. "Sem um Judiciário independente e forte, a democracia no Brasil teria piorado muito."  O cientista político considera que existe uma aparente contradição entre o prestígio conquistado pela Corte ao atuar como barreira contra ameaças institucionais e a atual crise de credibilidade. Segundo ele, parte desse desgaste decorre de erros cometidos pelos próprios ministros.  "O Supremo se enredou em uma série de problemas. Decisões monocráticas e ministros se envolvendo onde não deveriam se envolver ou estabelecendo relações com empresários daqui e dali, aceitando convites para isso ou para aquilo. E aí acaba se desmoralizando", avalia.  Ranulfo também ressalta que o tribunal vem sendo alvo de uma campanha sistemática de ataques por parte da extrema direita, sobretudo após as condenações relacionadas aos atos golpistas. "A extrema direita não aceita a prisão do Jair Bolsonaro. Acha que o julgamento foi uma fraude. Não foi. As provas são evidentes. Os caras tentaram o golpe", afirma.  Imagem do Judiciário é abalada Ainda assim, ele reconhece que as revelações recentes envolvendo integrantes da própria Corte contribuíram para enfraquecer a imagem institucional do STF.  "No caso Master, dois ministros foram pegos com problemas. Primeiro foi o caso do Dias Toffoli. Agora, o caso do Moraes, que era um personagem emblemático na defesa da democracia no Brasil e foi pego em diálogos comprometedores com Daniel Vorcaro", aponta.  Na avaliação do professor da UFMG, esse cenário fortalece politicamente grupos que defendem mudanças profundas no tribunal. "Quando esse negócio vira um escândalo nacional, esses candidatos se fortalecem e aí o Supremo perde credibilidade", diz.  Renovação do STF Para além da crise imediata, Ranulfo chama atenção para outro fator que poderá marcar o futuro da Corte: a ampla renovação em sua composição nos próximos anos. Segundo ele, independentemente de quem vença a próxima eleição presidencial, haverá um volume expressivo de indicações para o STF.  "O próximo presidente, seja ele quem for, vai nomear cinco ministros do Supremo", afirma. Para o cientista político, esse processo torna ainda mais delicada a tarefa de recompor a autoridade institucional do tribunal. "A recuperação da sua credibilidade não depende das urnas. Essencialmente, é por isso que o problema é mais amplo", conclui.  A análise sugere que a crise atual ultrapassa os desdobramentos do caso Banco Master e os embates políticos do momento. Mais do que o resultado de investigações ou julgamentos específicos, o desafio colocado diante do STF é reconstruir a confiança pública em uma instituição que foi decisiva para a preservação da democracia brasileira nos últimos anos, mas que hoje enfrenta questionamentos sobre sua própria legitimidade.

  4. 4d ago

    Eleição presidencial no Brasil se tornou um 'duelo de rejeições', diz cientista político

    As eleições de 4 de outubro no Brasil serão acompanhadas não apenas como uma disputa pelo comando do país, mas também como um importante termômetro da relação dos brasileiros com os partidos políticos, as instituições e a própria democracia. Em um ambiente marcado pela polarização e pela desconfiança em relação ao sistema político, o comportamento do eleitorado poderá indicar os rumos da política nacional nos próximos anos. Maria Paula Carvalho, da RFI Em entrevista à RFI, o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que o pleito atual apresenta características singulares. Segundo ele, os dois candidatos que lideram as pesquisas carregam índices elevados de rejeição.  "É um duelo de rejeições", resume o professor. "Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro têm rejeição acima de 50%. Isso por si só é complicado porque, ganhe quem ganhar, a outra metade do país estará insatisfeita."  Na avaliação de Ranulfo, o Brasil permanece preso à polarização iniciada em 2018. "O país está cristalizado numa disputa que se inicia em 2018 e vai até hoje. Isso não é bom. Quem assumir continuará governando em meio a uma guerra política na qual a verdade acaba ficando de lado", afirma.  O cientista político também vê no crescimento recente de candidatos fora do eixo petismo-bolsonarismo um sintoma do desgaste dessa polarização. Segundo ele, parte do eleitorado demonstra estar em busca de uma alternativa às duas correntes que dominam a cena política brasileira há mais de uma década.  "Vemos um súbito crescimento de um outsider. Nas pesquisas, um escritor de autoajuda [Augusto Cury, candidato pelo partido Avante] tem se destacado", diz. "Mas o negócio dele é autoajuda, ele não entende absolutamente nada de eleições, de política ou de governo, mas está subindo na preferência do eleitorado", completa. "Ele começou a subir feito foguete porque as pessoas estão procurando uma alternativa ao petismo ou bolsonarismo", conclui.  PT enfrenta dificuldade para renovar lideranças  Questionado sobre a capacidade do Partido dos Trabalhadores (PT) de construir novas lideranças além de Lula, Ranulfo avalia que o partido enfrenta dificuldades para promover uma renovação interna.  "O Lula tem claramente uma fadiga de material. Ser presidente quatro vezes facilita o discurso de quem defende uma mudança", afirma. Segundo ele, embora novas lideranças tenham surgido, "a força do Lula é tão grande que não há espaço para lideranças novas".  Do outro lado do espectro político, o pesquisador observa que a derrota de Bolsonaro em 2022 não enfraqueceu seu movimento político.  "O bolsonarismo hoje é uma força muito enraizada no Brasil", avalia. Para ele, um eventual enfraquecimento desse campo político dependerá do desempenho eleitoral de seus principais representantes. Ao mesmo tempo, destaca que setores da direita tradicional também demonstram resistência à influência bolsonarista.  Centrão seguirá decisivo  Independentemente do resultado das urnas, Carlos Ranulfo Félix de Mello acredita que o Centrão continuará ocupando posição estratégica na sustentação do próximo governo.  Segundo ele, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo contam com núcleos relativamente fiéis no Congresso, enquanto a maior parte dos parlamentares se concentra em partidos do chamado Centrão.  "O Congresso vai continuar sendo predominantemente de direita e conservador", afirma. Para o cientista político, a principal disputa deverá ocorrer no Senado, envolvendo a direita tradicional e o bolsonarismo.  Embora avalie que o bolsonarismo deverá ampliar sua presença na Casa, Ranulfo considera improvável que conquiste maioria absoluta.  Governabilidade dependerá da composição política  Sobre a relação entre Executivo e Legislativo, o professor destaca que o cenário será distinto conforme o vencedor da eleição.  "Flávio Bolsonaro conseguiria maioria mais facilmente. Ideologicamente, o Centrão é muito mais próximo dos Bolsonaros do que de Lula", afirma.  Para ele, um eventual quarto mandato de Lula encontraria dificuldades maiores que as enfrentadas no terceiro governo. O cientista político associa esse quadro à longa crise de representação vivida pelo país e à transformação do sistema partidário brasileiro.  Segundo Ranulfo, partidos que anteriormente estruturavam o centro político, como PSDB, PFL e Democratas, perderam protagonismo ao longo dos últimos anos. "A pá de cal nesse sistema foi a vitória de Jair Bolsonaro, que desarticulou completamente o centro e fortaleceu o bolsonarismo", avalia.  Ampliação do poder do Congresso preocupa  Outro ponto destacado pelo pesquisador é o fortalecimento do Congresso Nacional, impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares. Segundo ele, a mudança constitucional que tornou obrigatória a execução dessas emendas alterou profundamente o equilíbrio entre os poderes da República.  "Hoje o Congresso está executando cerca de R$ 50 bilhões por ano. É muito dinheiro", afirma.  Ranulfo faz críticas ao modelo atual e sustenta que a situação é incomum em comparação com outras democracias. "Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Um Legislativo que ordena despesas do orçamento é uma jabuticaba que só tem no Brasil", declara.  Democracia corre menos riscos do que em 2022  Apesar da polarização persistente, o cientista político acredita que o resultado das urnas será mais amplamente aceito desta vez.  "Essa eleição não terá as turbulências da eleição passada", afirma. Segundo ele, lideranças da extrema direita compreenderam que não há espaço para rupturas institucionais ou aventuras golpistas.  "Seja qual for o resultado, ele será respeitado", avalia.  Ainda assim, o professor alerta para desafios que permanecerão após o encerramento da disputa eleitoral. Entre eles, destaca o avanço do conservadorismo na sociedade brasileira e as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal.  "A democracia não corre tanto risco como corria na eleição passada porque a extrema direita aprendeu que não há espaço para golpe de Estado. Mas temos uma crise séria no STF que não se resolve pelas eleições", conclui.

  5. 4d ago

    Negação da ditadura alimenta avanço da extrema direita, alerta autora de livro sobre a tortura

    Num contexto internacional marcado pelo avanço de movimentos de extrema direita e pela circulação massiva de desinformação, revisitar a história tornou-se também uma forma de compreender os desafios do presente. É o que propõe a jornalista e escritora Leneide Duarte-Plon em "A tortura como arma de guerra: da Argélia ao Brasil", lançado recentemente em francês pela editora L'Harmattan. Publicado no Brasil há dez anos e posteriormente traduzido na Argélia, o livro "La torture comme arme de guerre, de l'Algérie au Brésil" chega ao público francês num momento em que as disputas em torno da memória histórica, do autoritarismo e da democracia voltam a ocupar lugar central no debate público. Em Paris, onde participa de uma sessão de autógrafos e de um debate com os historiadores Maud Chirio e Rodrigo Nabuco de Araujo, Leneide revisita as conexões entre a repressão francesa na Guerra da Argélia (1954 e 1962) e a ditadura brasileira, estabelecendo pontes entre os sistemas repressivos do passado e os desafios políticos do presente. Em entrevista à RFI, Leneide detalha como a chamada teoria do "inimigo interno", formulada no contexto das guerras coloniais francesas, ajudou a moldar as estratégias repressivas adotadas pelas ditaduras sul-americanas, especialmente no Brasil. Segundo ela, a novidade dessa doutrina era identificar a ameaça não como um exército estrangeiro, mas como um adversário que estaria "dentro do país", disfarçado entre professores, estudantes, sindicalistas, religiosos ou intelectuais. A autora também reflete sobre os efeitos duradouros da Lei da Anistia brasileira. Para ela, a negociação que permitiu o retorno dos exilados ao país teve como contrapartida a impunidade dos agentes da repressão. "Nenhum torturador foi para a prisão, nenhum torturador esteve no banco dos réus", afirma. Na avaliação de Leneide, essa ausência de responsabilização ajudou a criar um ambiente em que setores da extrema direita ainda conseguem negar ou relativizar os crimes cometidos pela ditadura. Dever de memória Ao abordar as disputas em torno da memória histórica, a escritora sustenta que "é importante para a extrema direita reescrever a história e apagar a história", minimizando a violência de Estado e o legado da tortura. Em sua avaliação, o desconhecimento desse passado pelas novas gerações torna ainda mais urgente o que ela define como um "dever de memória". Comparando o caso brasileiro com iniciativas de reconhecimento promovidas pelo Estado francês, Leneide cita um episódio que a marcou profundamente: a visita do presidente Emmanuel Macron, em 2018, à viúva do matemático e militante anticolonialista Maurice Audin, preso, torturado e morto por militares franceses durante a Guerra da Argélia. Na ocasião, Macron reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado francês pelo desaparecimento e pela morte de Audin, encerrando décadas de silêncio institucional. Para a jornalista, aquele gesto teve um valor histórico que ultrapassa as fronteiras francesas. "Isso foi talvez o maior momento do governo Macron", afirma. "Ele fez uma coisa que nem o presidente François Hollande, de esquerda, teve a coragem de fazer." Na avaliação de Leneide, o reconhecimento dos crimes cometidos pelo Estado é um passo essencial para a construção da memória democrática. A autora lamenta que o Brasil nunca tenha realizado um movimento semelhante em relação aos crimes da ditadura militar. "Isso deveria ter sido imitado no Brasil pelos militares: reconhecer torturas, reconhecer execuções sumárias e reconhecer desaparecidos", diz. "Até hoje tem uma lista enorme de desaparecidos no Brasil. Isso não foi feito por nós." Para ela, a dificuldade em enfrentar esse passado ajuda a explicar por que ainda há espaço para a negação ou a relativização das violações cometidas durante o regime militar. "Quanto menos a gente contar essa realidade, melhor para a extrema direita", resume. Debate reúne especialistas O debate que acompanha nesta quarta-feira (16) o lançamento francês da obra reúne pesquisadores cujos trabalhos dialogam diretamente com as questões levantadas por Leneide. Maud Chirio, autora com Mariana Joffily do livro "Torturadores", investigou o perfil dos agentes da repressão e os mecanismos institucionais que sustentaram a prática sistemática da tortura durante a ditadura brasileira. Rodrigo Nabuco de Araujo, por sua vez, estudou a transferência para o Brasil das doutrinas francesas de guerra contrarrevolucionária e tem se dedicado mais recentemente à análise das direitas e extremas direitas contemporâneas, explorando as relações entre conservadorismo, anticomunismo, democracia e autoritarismo. Juntas, essas pesquisas ajudam a iluminar os vínculos entre os sistemas repressivos do passado e os debates atuais sobre memória, radicalização política e democracia.

  6. 5d ago

    Karol Maia leva a festival na França reflexão sobre heranças da escravidão nas casas brasileiras

    O documentário "Aqui Não Entra Luz", da cineasta paulista Karol Maia, é um dos destaques da programação do Festival Brasil em Movimentos, que acontece de 17 a 19 de setembro em Paris. Filha de uma trabalhadora doméstica, Karol parte de memórias pessoais para investigar como os quartos de empregada revelam a permanência de hierarquias sociais e raciais herdadas da escravidão.  Ao cruzar relatos de mulheres negras, pesquisa histórica e reflexão sobre o espaço doméstico, o filme discute a forma como essas estruturas continuam moldando a sociedade brasileira. Nas sessões realizadas na Europa, Karol diz ter percebido uma reação recorrente do público estrangeiro: a surpresa diante da relação de proximidade e dependência entre patrões e empregadas domésticas no Brasil. "Na Europa, aparentemente, essa dinâmica de trabalho não acontece da mesma forma. Mas, sobretudo, o fato de ter uma funcionária dormindo na sua casa é o que mais causa estranhamento", afirma. O documentário reúne relatos de seis trabalhadoras domésticas, entre elas a própria mãe da diretora. Ao longo da narrativa, o filme mostra como o espaço reservado às empregadas dentro das residências revela hierarquias sociais herdadas da escravidão e ainda presentes no cotidiano brasileiro. Para Karol, um dos principais obstáculos para enfrentar essas desigualdades está justamente na naturalização da profissão. Segundo ela, o trabalho doméstico permanece invisível porque está profundamente incorporado à vida social brasileira. "É uma profissão que está dentro da nossa vida de uma forma bastante natural e a gente não para muito para conversar sobre ela", observa. "Culturalmente, ela não tem um valor social, cultural e econômico dentro da sociedade brasileira." A cineasta aponta que a presença da empregada doméstica é constante na cultura nacional, mas quase sempre tratada de forma superficial. "A gente liga a televisão, assiste uma novela, e aquela figura surge às vezes como alívio cômico e depois desaparece. Mas estamos falando de pessoas quase onipresentes, que de alguma forma ditam como a sociedade brasileira funciona hoje." Salários no centro do debate Após as exibições no Brasil, Karol relata ter recebido reações muito diversas, de filhos de empregadas domésticas a pessoas criadas por babás. Nos debates com o público, ela procura deslocar a discussão para um aspecto concreto: a remuneração dessas profissionais. "Eu sempre tento provocar sobre a questão financeira, sobre a valorização pela via do dinheiro", explica. "É um dos mecanismos que a gente pode usar para que essa profissão seja mais considerada dentro do sistema de trabalho e da economia do país." Embora reconheça que mudanças de comportamento dependem de escolhas individuais, a diretora acredita no potencial transformador dos encontros promovidos pelo filme. "Quero acreditar que quem se abre para as histórias do filme também esteja aberto a rever seu próprio comportamento." Filme realiza sonho de trabalhadora mineira  Um dos efeitos mais marcantes da trajetória do documentário, segundo ela, tem sido o impacto na vida das mulheres retratadas. O caso que mais a emociona é o de Rosarinha, trabalhadora doméstica mineira que conta no filme ter abandonado o sonho de se tornar professora. Recentemente, Rosarinha passou a participar de aulas em cursos de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discutindo os temas abordados no documentário. Em uma das iniciativas, tornou-se colaboradora de uma disciplina inspirada no filme. "Fiquei muito emocionada", conta Karol. "O filme acabou sendo um mediador para a realização desse sonho dela." Segundo a diretora, o professor responsável pela disciplina entendeu que não faria sentido discutir o tema sem a presença de uma trabalhadora doméstica. "A Rosarinha tem sido essa representante do filme dentro da sala de aula." Violência social e racial O documentário também dialoga com discussões mais amplas sobre violência social e racial. Karol lembra que ficou profundamente impactada pelo caso do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu após cair do 9º andar de um edifício no Recife, em 2020, depois de ser deixado sozinho no elevador pela empresária e primeira-dama de Tamandaré, Sarí Côrte Real, no prédio onde sua mãe, Mirtes Renata, trabalhava como empregada doméstica. "Quando vi a notícia, passei a noite sem dormir pensando na Mirtes e no Miguel", recorda. A cineasta acompanha desde então a trajetória de Mirtes e diz ter se emocionado ao vê-la concluir recentemente o curso de Direito. Para ela, a história evidencia como a desvalorização do trabalho doméstico afeta também as famílias dessas mulheres. "O Miguel é um exemplo de como essa profissão é desvalorizada e, consequentemente, como as famílias dessas trabalhadoras também são." Karol observa que o filme aborda diversas formas de violência associadas ao trabalho doméstico. Ela cita a história de uma personagem que teme perder os vínculos com a própria filha por passar mais tempo cuidando dos filhos da patroa, e outra que relata ter tido a filha afastada de sua convivência. "Existe uma dinâmica bastante violenta em relação à valorização da maternidade dentro dessas casas", afirma. "E tudo isso está atravessado pelas questões de raça e classe." Ao comentar os frequentes casos de trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão, a cineasta defende respostas mais firmes das instituições brasileiras. "É importante o Brasil dar nome para esses monstros que nos cercam, esses monstros que a escravidão foi deixando no nosso caminho", diz. Para ela, casos recentes envolvendo trabalhadoras domésticas submetidas a décadas de exploração mostram que o país ainda convive com práticas herdadas de seu passado escravista. Risco de retrocesso Apesar do reconhecimento alcançado pelo filme, Karol admite preocupação com o cenário político brasileiro e com o espaço ocupado por discursos conservadores. Ela lembra que o ex-presidente Jair Bolsonaro votou contra a chamada PEC das Domésticas quando era deputado federal e vê uma continuidade dessas posições no debate público atual. "Não é um pensamento político preocupado com a vida das trabalhadoras domésticas, nem com a vida das mulheres", afirma. Entre memórias familiares, denúncia social e reflexão histórica, "Aqui Não Entra Luz" propõe um olhar sobre um dos ambientes mais invisibilizados da arquitetura brasileira para revelar algo maior: a permanência de desigualdades que atravessam as paredes das casas e continuam moldando as relações sociais no país. "A semente a gente está plantando", resume Karol. "Espero que as pessoas saiam dessas conversas dispostas a mudar." O Festival Brasil em Movimentos tornou-se uma das mais importantes mostras de documentários brasileiros da Europa. Sua programação é dedicada a filmes que exploram questões sociais, políticas e ambientais do Brasil contemporâneo. "Aqui Não Entra Luz" será exibido ao público na próxima sexta-feira (18), no Cinema 7 Parnassiens, em Paris. Após a sessão, às 19h30 (horário local), Karol Maia participará de um debate com o público e especialistas. No Brasil, o documentário está disponível em streaming na plataforma Doc Canal Brasil.

  7. Sep 7

    Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador

    A vitória da sigla AfD durante a eleição regional em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, reacendeu o debate sobre os limites das estratégias usadas para conter a extrema direita. Para o sociólogo Sérgio Costa, da Freie Universität Berlin, o fenômeno combina heranças da antiga divisão entre leste e oeste, ressentimentos sociais persistentes e erros dos partidos tradicionais. Ele afirma que copiar o discurso da direita radical fortalece a própria AfD e não responde às frustrações do eleitorado. Durante décadas, a Alemanha cultivou a convicção de que o enfrentamento sistemático de seu passado nazista funcionaria como uma espécie de vacina democrática contra o retorno da extrema direita. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), no entanto, vem submetendo essa certeza a um teste cada vez mais severo. Para o sociólogo brasileiro Sérgio Costa, professor-titular da Freie Universität Berlin, o fenômeno não pode ser reduzido ao crescimento da imigração, à crise econômica ou mesmo às particularidades do leste alemão. O que está em jogo, afirma, é uma combinação entre heranças históricas da reunificação, mudanças profundas na maneira como a política é produzida e consumida e erros sucessivos cometidos pelos partidos tradicionais ao tentar responder ao avanço da direita radical. A primeira explicação, segundo ele, está na própria história alemã do pós-guerra. Embora a memória dos crimes do nazismo tenha se tornado um dos pilares da cultura política do país, esse processo ocorreu de forma desigual entre as duas Alemanhas. "O primeiro fator a se destacar é que esse estado da eleição que houve domingo é um estado que faz parte da antiga Alemanha Oriental", afirma. "Esse trabalho de processamento, de discussão dos horrores do nazismo, foi muito menos pronunciado no leste do que no oeste." Costa observa que a chamada "pedagogia da memória", concebida como instrumento para impedir a repetição dos erros do passado, foi muito mais desenvolvida na antiga Alemanha Ocidental do que na parte oriental do país. Para o sociólogo, essa diferença ajuda a compreender parte da força da AfD no leste alemão, mas não é suficiente para explicar, sozinha, o avanço da extrema direita. Na avaliação do pesquisador, o fenômeno deve ser inserido em um contexto internacional mais amplo. "O segundo fator é, de fato, uma mudança na política global. A extrema direita vem crescendo no mundo todo. Enfim, poucos países são aí uma exceção", afirma. Segundo Costa, a própria dinâmica da disputa política se transformou nos últimos anos. "É uma dinâmica diferente da política. É a política que é feita pelas redes sociais, sem uma discussão profunda de conteúdos, sem um conhecimento da história." Para ele, esse ambiente favorece o fortalecimento de forças radicais. "Tudo isso leva a esse resultado tão favorável a um partido que é considerado pelos organismos de vigilância constitucional na Alemanha como um partido de extrema direita." Uma divisão que persiste, mas já não explica tudo Quase quatro décadas após a queda do Muro de Berlim, os mapas eleitorais continuam revelando uma Alemanha atravessada por divisões que a reunificação não conseguiu eliminar completamente. "Qualquer pessoa que olhe no mapa da Alemanha vai ver que o partido de extrema direita AfD tem muito mais votação no lado leste do que no lado oeste, ou seja, muito mais na antiga Alemanha socialista do que na Alemanha capitalista." Segundo ele, essa realidade está ligada a frustrações acumuladas ao longo das últimas décadas, embora a interpretação de uma simples "questão oriental" seja insuficiente diante do crescimento do partido em outras regiões do país. O sociólogo ressalta que a reunificação produziu avanços significativos e rejeita a ideia de que a persistente força da AfD no leste seja consequência de um fracasso econômico. "Os padrões de vida nos dois lados da Alemanha hoje são muito mais uniformes do que eram alguns anos atrás", afirma. Na sua avaliação, "a unificação foi exitosa nesse trabalho de promover o desenvolvimento econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, de alguma maneira articulá-los e vinculá-los". Ainda assim, ele chama atenção para desigualdades que permanecem visíveis, sobretudo na distribuição de riqueza. "A diferença significativa que existe é em termos de patrimônio. Os alemães ocidentais têm até hoje um patrimônio muito maior do que os alemães orientais, o que se explica através da história." Mas, para Costa, a chave da questão talvez esteja menos nos indicadores econômicos do que na percepção de perda de relevância experimentada por parcelas da população. "Por que essa análise, ainda que importante, é insuficiente? Porque há outros fatores. A AfD está crescendo muito também no leste", observa. Segundo ele, cidades industriais que ocupavam posições centrais perderam influência política, econômica e simbólica ao longo do tempo. O resultado, afirma, é uma sensação difusa de declínio e perda de status que a AfD conseguiu explorar politicamente. "Então há uma sensação de perda de poder. A AfD, através da sua propaganda, através da sua capilaridade nas redes sociais, faz reavivar, faz ressuscitar esse ressentimento e essa possibilidade de uma mudança no quadro atual." Mais do que capitalizar uma divisão histórica entre leste e oeste, conclui, o partido tem conseguido transformar descontentamentos diversos em força eleitoral. "Ela mobiliza frustrações dos dois lados da Alemanha." Leia tambémUnião com esquerda radical pode viabilizar governo de extrema direita na Alemanha após vitória em eleição estadual O dilema do "cordão sanitário" À medida que a AfD amplia sua votação, cresce também a pressão sobre o chamado Brandmauer, o "cordão sanitário" erguido pelos partidos tradicionais para impedir qualquer coalizão com a legenda. Para Costa, porém, essa estratégia continua plenamente justificada. "O cordão sanitário que é feito para impedir que um partido de extrema direita chegue ao poder é uma ação democrática", afirma. Na sua avaliação, a medida não representa uma limitação da democracia, mas um mecanismo de defesa institucional." Embora reconheça o peso eleitoral alcançado pela AfD, o sociólogo argumenta que o debate não pode ignorar os "efeitos concretos" de uma eventual chegada do partido ao governo. Ao comentar o caso da Saxônia-Anhalt, Costa ressalta que, apesar de ter pouco mais de 2 milhões de habitantes, o estado possui uma relevância simbólica que ultrapassa seu tamanho. "É um estado muito pequeno, menor do que a minha cidade natal, Belo Horizonte, mas ele tem um papel simbólico muito importante." Segundo ele, lideranças da própria AfD já indicaram algumas das mudanças que pretendem implementar. "A AfD chegando ao poder nesse estado, e já disse que vai fazer isso, vai, por exemplo, abolir o dever das pessoas enviarem crianças à escola." O pesquisador cita ainda propostas relacionadas à imigração e ao funcionamento do aparato estatal. "Ela vai basicamente abolir o direito de asilo político, que é um direito constitucional" e "vai seguramente se valer do serviço secreto, no nível estadual, para perseguir inimigos, para acumular informações". Diante desse cenário, conclui, "impedir que esse partido chegue ao poder é uma ação democrática". Um caso que assusta a Europa A extrema direita cresce em diversos países europeus, mas Costa considera que a Alemanha continua ocupando um lugar singular nesse debate. "O que torna o caso alemão diferente é o fato de que o cordão sanitário havia funcionado até agora", afirma, referindo-se à recusa dos partidos tradicionais em formar coalizões com a AfD. Mas, na sua avaliação, a excepcionalidade alemã vai além das estratégias partidárias. "É singular pela sua história." Para o sociólogo, o peso simbólico do fenômeno é inevitável. "O país que protagonizou os horrores do nazismo, menos de cem anos depois, chega a ter esse partido, que se parece muito com o Partido Nazista outra vez chegando ao poder", diz. Embora ressalte que "é preciso guardar as proporções", Costa não esconde a preocupação diante desse cenário. "É algo muito assustador." Leia também'Choque fascista': imprensa francesa reage à vitória da extrema direita na Alemanha O erro de copiar a extrema direita Se há um ponto em que Costa é categórico, é ao analisar as estratégias adotadas pelos partidos tradicionais para conter a AfD. Ele identifica um primeiro equívoco na forma como parte da classe política enxergou os eleitores da extrema direita. "O primeiro erro foi entender que os eleitores que votavam na extrema direita não sabiam o que estava acontecendo e eram, portanto, vítimas da sua própria ignorância." Para o sociólogo, essa interpretação sempre esteve fadada ao fracasso. "Considerar o eleitor ignorante é um péssimo diagnóstico para quem quer ganhar os votos desse eleitor." Na avaliação do pesquisador, porém, um segundo erro continua sendo cometido. "O segundo erro, e esse é particularmente o erro que os partidos de centro têm cometido, de centro-direita, não só na Alemanha, é pensar que com um discurso semelhante ao da AfD eles podem conquistar os eleitores da AfD." A experiência recente aponta justamente na direção contrária, afirma. "Isso não vem acontecendo. Quanto mais os partidos de centro e de centro-direita se aproximam em suas reivindicações, em suas bandeiras da AfD, mais eles perdem votos, mais eles fortalecem a AfD." Para Costa, a resposta não está na imitação da extrema direita, mas na construção de uma alternativa capaz de canalizar insatisfações legítimas para um projeto político democrático. "O que falta é construir um horizonte político novo que permita que esse ressentimento realment

  8. Sep 4

    Escândalo do Banco Master reforça desconfiança na política e torna eleição mais instável, diz cientista político

    Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o escândalo envolvendo o Banco Master contribui para ampliar a deslegitimação do sistema político brasileiro em um momento de forte desinteresse eleitoral. Em entrevista à RFI, ele afirma que o caso atinge inclusive instituições que mantinham altos índices de credibilidade junto à população e avalia que o Brasil ainda não retomou uma trajetória de estabilidade democrática.  Maria Paula Carvalho, da RFI Faltando poucas semanas para as eleições presidenciais de 4 de outubro, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que o Brasil atravessa mais um momento de instabilidade democrática. Autor de diversos trabalhos sobre democracia, participação cidadã e instituições políticas, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que o país ainda vive um ciclo marcado por avanços e retrocessos na consolidação democrática.  Segundo Avritzer, as eleições brasileiras dos últimos anos deixaram de ser apenas disputas convencionais de poder e passaram a envolver a própria continuidade da ordem democrática. Na sua avaliação, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e os acontecimentos posteriores evidenciaram essa fragilidade institucional.  “O Brasil não tem uma construção democrática estável. Pelo contrário, nós temos ainda idas e vindas na nossa democracia”, afirma. Para ele, embora tenha havido alguma recuperação institucional após a eleição de 2022, o cenário continua longe da estabilidade. Como exemplo, cita a força eleitoral do Partido Liberal (PL) nas eleições proporcionais e a presença do filho de Bolsonaro na atual disputa presidencial.  Desânimo eleitoral e escândalo político  Ao analisar o atual processo eleitoral, Avritzer destaca dois elementos centrais. O primeiro é o que descreve como um profundo desinteresse da população pela campanha. Segundo ele, esse fenômeno pode ser observado tanto na pouca mobilização das ruas quanto no comportamento dos candidatos.  “O processo eleitoral é marcado por um enorme desânimo, desinteresse da população brasileira em relação ao próprio processo eleitoral”, afirma.  O segundo fator é o escândalo envolvendo o Banco Master. Embora ressalte que o caso não afeta diretamente o governo federal, Avritzer considera que ele contribui para enfraquecer a confiança dos brasileiros nas instituições.  “O pano de fundo é um escândalo de corrupção bastante forte ligado ao Banco Master”, observa.  Ele menciona o envolvimento de figuras influentes da política nacional e também as repercussões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF).  "Ainda que o escândalo do Banco Master tenha características muito específicas e não seja um caso sistêmico de corrupção envolvendo o conjunto do sistema político, como foram o mensalão e a Lava Jato, ele acaba transmitindo a impressão de que o sistema político está à venda", resume Avritzer. Segundo o cientista político, trata-se sobretudo de um caso envolvendo um banqueiro que teria buscado ampliar a influência de sua instituição por meio da aproximação com figuras de grande poder na República. "Por exemplo, podemos citar o ministro Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner, que aparecem entre os implicados. Ainda que não existam provas contundentes e nenhum dos envolvidos tenha sido condenado, o caso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro pode ser influenciado por interesses privados", reitera. Mudanças no equilíbrio entre os Poderes  Para Avritzer, a atual conjuntura também reflete transformações profundas na relação entre os três Poderes da República.  Historicamente, afirma, o Executivo sempre ocupou posição central na política brasileira, particularmente desde os anos 1930. No entanto, a Constituição de 1988 fortaleceu o STF ao ampliar suas prerrogativas institucionais. Mais recentemente, o Congresso Nacional também ganhou influência política com o fortalecimento das emendas parlamentares.  O resultado, segundo ele, é uma configuração inédita na história recente do país.  “Hoje nós vivemos uma situação no Brasil diferente da nossa trajetória histórica. O Executivo é o poder mais fraco, mais dependente dos outros dois poderes”, avalia.  Polarização persiste, mas é mais intensa nas redes  Questionado sobre a polarização política, Avritzer considera que o fenômeno continua presente, sobretudo nas redes sociais. No entanto, ele chama atenção para pesquisas que apontam uma realidade diferente quando se observa o comportamento dos brasileiros fora do ambiente digital.  Segundo ele, levantamentos recentes mostram que a maioria dos eleitores não rejeita relações pessoais com pessoas de posicionamentos políticos diferentes. Esse cenário contrastaria, por exemplo, com o observado atualmente nos Estados Unidos.  Para o pesquisador, isso sugere que a polarização social pode ser menos intensa do que a polarização observada nas plataformas digitais.  Diferenças regionais e de gênero no comportamento eleitoral  Ao analisar as motivações do eleitorado, Avritzer identifica diferenças importantes entre regiões do país.  Segundo ele, os eleitores mais pobres, especialmente do Nordeste, tendem a dar maior importância às políticas de proteção social, ao valor do salário mínimo e à expectativa de melhoria das condições de vida. Já no Sudeste, afirma, é mais forte a rejeição ao sistema político, ao Estado e às empresas estatais.  O cientista político também destaca diferenças entre homens e mulheres. Em sua avaliação, os homens apresentam posições mais conservadoras e maior rejeição às políticas sociais, enquanto as mulheres tendem a reconhecer mais claramente a importância dos mecanismos de proteção social.  Partidos seguem no centro da disputa  Apesar da baixa confiança dos brasileiros nos partidos políticos, Avritzer observa que eles continuam sendo os principais organizadores da competição eleitoral.  Segundo ele, pesquisas mostram níveis muito elevados de desconfiança da população em relação às legendas. Ainda assim, PT e PL concentram atualmente cerca de 70% das intenções de voto, demonstrando que a disputa política continua estruturada em torno dos partidos.  Para o professor, a maior dificuldade surge no Congresso Nacional, onde a fragmentação partidária permanece elevada e contribui para os desafios de governabilidade enfrentados pelos sucessivos governos.  Juventude entre participação e afastamento  Em relação aos jovens, Avritzer considera que o cenário é ambivalente. Por um lado, pesquisas indicam crescimento do número de jovens entre 16 e 24 anos que se identificam com posições de direita. Por outro, ele observa que esse mesmo grupo continua demonstrando interesse em obter o título de eleitor mesmo quando o voto é facultativo.  Ao mesmo tempo, ressalta, os jovens também figuram entre os segmentos que mais se abstêm de votar, o que torna difícil afirmar se estão efetivamente se aproximando ou se afastando da política institucional.  Para Avritzer, essa combinação de fatores ajuda a explicar um dos principais desafios das eleições de 2026: a coexistência entre a permanência das disputas políticas tradicionais e uma crescente desconfiança dos eleitores em relação ao sistema político brasileiro.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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