RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 7h ago

    Christiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura

    A premiada diretora brasileira Christiane Jatahy estreou no Festival de Avignon de 2026 a peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, criada com Wagner Moura e Lucas Paraizo. Inspirada no clássico de Henrik Ibsen, a peça transforma o palco em tribunal popular e entrega ao público o papel de júri, debatendo democracia, verdade e responsabilidade coletiva num Brasil ficcional que ecoa urgências globais. Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Avignon A peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, que após a temporada brasileira e em alguns teatros europeus estreou na cena principal do Festival de Avignon, no sul da França, marca a primeira colaboração entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. Coproduzido pelo Festival Avignon, pelo Holland Festival e o Edinburgh International Festival, o espetáculo discute democracia, verdade, fake news, ecologia e responsabilidade coletiva, em três línguas, a partir de uma comunidade brasileira ficcional. A proposta nasceu de uma pergunta simples: o que teria acontecido depois do fim da peça de Ibsen? Segundo Jatahy, a resposta não estava em adaptar o texto original, mas em avançar sobre ele. “Wagner [Moura] sempre foi muito apaixonado por esse texto. A gente pensou muitas possibilidades, e, para mim, não fazia sentido montar o texto como ele é, apesar de que é bastante visionário. Me interessava perguntar sobre o que seria essa questão hoje.” Leia tambémWagner Moura, 'Inimigo do Povo'? Ator fala sobre estreia que revisita clássico de Ibsen em Avignon Cancelamento X verdade A diretora propôs imaginar um futuro possível para o protagonista. “E se Thomas Stockmann tivesse a possibilidade de, diante de um público neutro, não da sua própria comunidade, portanto num público de teatro, defender as suas ideias e, eventualmente, reverter o seu cancelamento que sofreu?” A partir dessa hipótese, nasceu uma dramaturgia nova, que dialoga com Ibsen sem se limitar ao texto original. “De fato, é um novo texto. A gente tem poucas coisas que são realmente do texto original, mas muitas referências. É realmente uma possível continuação.” O espetáculo, apresentado no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, transforma o palco em tribunal popular. O público é chamado a julgar Stockmann – agora interpretado por Wagner Moura – e decidir se ele continua sendo “inimigo do povo”. A estrutura responde ao interesse de Jatahy pelo presente. “Meu trabalho é sempre sobre como é que a gente lida com a questão do momento presente, do lugar que a gente está. A questão das línguas é um desafio e ao mesmo tempo muito interessante, porque abre outras perspectivas.” Em Amsterdã, Moura improvisou em inglês; em Avignon, sua filha Petra (interpretada por Julia Bernat) traduz para o francês.  A peça articula temas centrais da obra de Ibsen – verdade, maioria, democracia – com urgências contemporâneas. Jatahy explica: “A discussão política não é externa às relações íntimas. Ela está muito conectada às nossas proximidades, às nossas famílias.” Ela lembra um Brasil não muito longe de 2026: “Quando houve a eleição do Bolsonaro, quantas famílias romperam… impossível continuar dialogando.” Para ela, a democracia exige a reativação desse diálogo. “A democracia existe onde o diálogo é permitido.” Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira Reconstruir a escuta A diretora identifica o risco atual da polarização. “O extremismo e a impossibilidade de dialogar impedem que a gente avance em questões democráticas.” A diretora relaciona o contexto à crise da verdade. “Quando a gente, no início da peça, diz que a verdade acabou, que tudo se transformaria em versões, é exatamente sobre isso. As pessoas acreditam nas suas narrativas e isso vira um fato. Sem nenhuma possibilidade de dissenso. Isso vai minando a democracia.” Jatahy lembra, no entanto, que consensos democráticos já produziram tragédias. “A gente sabe quanto, em outros momentos históricos, quando Hitler ascendeu ao poder, foi através de um consenso democrático.” A peça sublinha a urgência de reconstruir a escuta. “Como é que a gente volta a escutar o outro, com todas as diferenças que algumas vezes são insuportáveis, mas que podem reconstruir uma ideia coletiva? É preciso proteger as minorias. A maioria das pessoas estão nas categorias que se intitulam minorias.” O teatro, para ela, ainda é capaz de produzir essa escuta. “Se eu não acreditasse, eu nem faria mais teatro”, aponta. A ficção, diz, abre espaço para esta sensibilidade. “O teatro acessa lugares em que às vezes a gente não está tão aberto.” A peça radicaliza essa ideia ao entregar ao público o papel de júri.  Leia tambémFestival de Avignon chega aos 80 anos com Wagner Moura, Nobel coreana e perguntas sobre o futuro Jatahy vê nisso uma retomada da Ágora grega (praça pública central das cidades da Grécia Antiga, onde se realizavam debates políticos). “A ideia é trazer para o espaço da Pólis (cidade-Estado constitutiva da Antiguidade grega) uma discussão que se coletiviza e não imprime uma resposta, mas coloca questões.” Para ela, teatro e democracia nascem do mesmo gesto. “É o lugar em que todos nós estamos juntos discutindo uma questão em comum.” A peça mantém sua identidade brasileira, mesmo em Avignon. “A gente localizou no Brasil. O personagem tem nome norueguês, mas é brasileiro. Inventamos o Vale do Rio Vermelho.” E cita Guimarães Rosa: “Quanto mais a gente fala de nós mesmos, mais a gente está falando para o mundo.”  Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo tem apresentações no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, nos dias 11, 12, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 21 e 22 de julho, sempre às 18h, com sessões adicionais às 22h nos dias 15 e 20. A criação de Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo tem duração de 2h15, é apresentada em português, inglês e francês. A venda de ingressos ocorre pelo site oficial do Festival de Avignon, com atualização diária de disponibilidade.

  2. 1d ago

    Lia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon

    A coreógrafa brasileira Lia Rodrigues assume, durante a edição 2026 do Festival de Avignon, a coordenação artística da Transmissão Impossível, programa de formação cocriado pelo Festival e pela Fundação Hermès. Com quase cinco décadas de trajetória entre criação, pedagogia e trabalho comunitário, Lia orienta 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, trazendo ao laboratório a experiência da Escola Livre de Dança da Maré e sua “pedagogia mutante”. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A chegada de Lia Rodrigues à coordenação do Transmissão Impossível sinaliza uma inflexão importante na política de formação do Festival de Avignon. O programa, cocriado com a Fundação Hermès, consolidou-se como laboratório de verão dedicado a jovens artistas do mundo inteiro. Em 2026, o festival confia essa função a uma coreógrafa brasileira cuja trajetória combina rigor estético, engajamento comunitário e uma visão de mundo construída entre o palco e a favela da Maré. Logo no início da conversa, Lia desmonta a ideia de futuro homogêneo com uma fala que oferece pistas para esta terceira edição do projeto:. “Eu acho que é impossível pensar no futuro sem pensar nos diferentes futuros que atingem diferentemente partes do planeta. Não é a mesma coisa o futuro de um jovem na França que o futuro de um jovem no Brasil, que são as realidades que eu conheço bastante aqui na Europa. Ou o futuro de um jovem que mora no continente africano, ou que mora na Austrália, um jovem negro, um jovem indígena, um jovem trans, um jovem hétero, cis. Então, não dá para falar de um futuro. São futuros.” A multiplicidade é o ponto de partida do laboratório, que reúne 55 jovens artistas de diferentes nacionalidades, entre eles 12 estudantes da Escola Livre de Dança da Maré. Para lidar com esse conjunto heterogêneo, Lia montou um time de confiança: Silvia Soter, Cristina Moura, Dani Lima e Calixto Neto. “Eu tenho uma equipe que eu confio muito, artisticamente, pedagogicamente, e juntos a gente consegue organizar essa diferença.”  Leia tambémCoreógrafa Lia Rodrigues dedica prêmio francês “aos artistas brasileiros que estão sendo atacados” A sucessão da francesa Mathilde Monnier, que coordenou as edições anteriores, não é apenas institucional. Lia e Monnier compartilham uma história de colaboração e afinidade pedagógica. “Eu conheço muito a Mathilde como artista, mas também nós trabalhamos juntas porque ela é uma grande pedagoga. Ela criou um programa de master em Montpellier, dirigiu o Centro Coreográfico de Montpellier, dirigiu o CND (Centro Nacional da Dança de Paris)... Ela foi para o Brasil conhecer a nossa escola, a gente fez vários projetos juntos”, conta. Por isso, assumir o programa tem peso simbólico: “Para mim é uma honra ter sido convidada também por ela, de ela pensar que eu poderia trazer alguma novidade”, considera. É na pedagogia que Lia desloca o eixo da formação. Ela faz questão de situar sua trajetória antes da Maré, mas reconhece que o Brasil impõe condições específicas ao trabalho artístico. “Eu sinto que eu sou reconhecida no Brasil, mas é muito difícil ainda contar com recursos do governo brasileiro para o meu trabalho.” A comparação com a França é inevitável: “Ser artista no Brasil tem zero a ver com ser artista na França. Sobreviver tantos anos como artista e ver tantos governos passarem… eu tenho mais ou menos 50 anos de carreira”, lembra. Escola Livre de Dança da Maré Lia chegou à Maré em 2004, em uma experiência inicialmente marcada pela escuta. “Eu cheguei para aprender primeiro, não para trazer alguma coisa.” Com a Redes da Maré, ela ajudou a criar um centro de artes: “Nós encontramos um galpão sem teto, destruído… e muito pouco a pouco ele se transformou.” Só em 2011, com apoio da Fundação Hermès, nasceu a Escola Livre de Dança da Maré. “Nós temos 320 alunos, entre 8 e 80 anos, e um grupo de jovens que recebe uma bolsa mensal. A questão da nossa escola não é virar artista, é ser cidadão. A pedagogia mutante vem de uma coisa muito simples, sabe o quê? Dinheiro”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira Quando o tema é corpo e política, Lia recusa qualquer separação entre vida e criação. “A política está na nossa vida. É impossível estar vivo sem ser político.” Ela enumera escolhas cotidianas: “Qualquer escolha que a gente faz, em quem a gente vota, em quem a gente não vota, se a gente se abstém de votar… tudo é político.” E amplia o conceito: “A política também é a política do sensível. O que é política? É muito vasto esse tema.” A consciência do próprio lugar aparece sem rodeios durante a entrevista. “Você vê uma mulher branca… no caso, eu sou velha, tenho 70 anos e sou muito privilegiada no Brasil. Eu tenho um compromisso, uma missão e uma responsabilidade para os jovens que não têm a mesma oportunidade que eu.” O Transmissão Impossível integra a iniciativa Artistes dans la Cité. Durante doze dias, jovens artistas têm acesso a masterclasses, debates, ensaios, encontros com criadores da programação e uma imersão completa no festival.  Leia tambémCorpos dissidentes ocupam claustro medieval de Avignon em obra radical de Rébecca Chaillon

  3. 5d ago

    Pierina Marinelli: conheça a estilista que ajudou a introduzir tecidos ecológicos na França

    Quando chegou à França, aos 24 anos, a paulistana Pierina Marinelli carregava um sonho difícil de realizar: tornar-se estilista em um dos países mais competitivos da moda mundial. “Vir do Brasil há mais de 30 anos e dizer ‘eu quero ser estilista’ era como ir ao Brasil e dizer ‘eu quero ser jogador de futebol’”, resume. Hoje, seu percurso reúne passagens por desfiles, prêmios, consultorias para a indústria têxtil, coleções vendidas internacionalmente e um showroom instalado em um castelo nos arredores de Paris. Em um momento em que a França endurece o combate à fast fashion e procura estimular um consumo mais consciente, o percurso de Pierina Marinelli parece estar em sintonia com as transformações em curso no setor. “Ele reflete realmente uma necessidade, um retorno a coisas mais verdadeiras”, afirma sobre seu trabalho de criação sob medida. “As pessoas estão cansadas desse esquema comercial.” A estilista acredita que existe uma demanda crescente por peças com história, identidade e durabilidade, em contraste com a lógica do consumo acelerado. Para ela, a valorização do artesanal e do trabalho personalizado responde a uma busca por autenticidade. Pioneira na moda sustentável Muito antes de a sustentabilidade se tornar palavra de ordem na indústria da moda, Pierina já participava de iniciativas consideradas pioneiras no setor. Uma delas foi o desenvolvimento de uma coleção em algodão orgânico para o grupo francês Léa Nature, referência no mercado de produtos ecológicos. Segundo ela, o projeto envolveu um investimento de longo prazo na Índia. “O que é bonito desse grupo é que eles financiaram duas cidades da Índia para a reconversão do algodão orgânico”, conta. O trabalho incluiu o acompanhamento dos agricultores durante anos e ajudou a criar uma cadeia de fornecimento que mais tarde seria utilizada por diversas marcas. Outra experiência marcante foi sua participação no lançamento de coleções produzidas com modal, fibra derivada da celulose vegetal que começava a ser apresentada como alternativa mais sustentável aos tecidos convencionais. “Ela dava um toque na malha que era maravilhoso, e que até hoje continua maravilhoso”, recorda. Encantada com as possibilidades do material, Pierina criou peças de lingerie com a nova fibra. Da renda brasileira aos prêmios franceses Foi, entretanto, uma renda inspirada no trabalho artesanal brasileiro que lhe rendeu um dos momentos decisivos da carreira. Recém-chegada à França, Pierina apresentou suas criações no Salão Internacional da Lingerie, um dos eventos mais importantes do setor. Em uma época em que jovens criadores ainda encontravam poucas oportunidades, ela chamou a atenção ao valorizar a renda renascença produzida no Brasil. “Todos os fabricantes vinham ao meu estande para ver esse trabalho que eu trouxe do Brasil”, lembra. Na mesma fase, recebeu um prêmio por uma renda de monogramas que reproduzia nomes de cidades. O material havia sido descartado por outros criadores, mas chamou sua atenção pela originalidade. “Eu lancei e fez um sucesso enorme no salão”, conta. Brasil, Itália e França Ao explicar sua identidade criativa, Pierina costuma recorrer às três culturas que marcaram sua história. “O Brasil traz alegria, perseverança e esperança”, diz. “É um povo que batalha, mas com alegria.” Da herança italiana, afirma ter herdado a ousadia. “Eu admiro os criadores italianos pela audácia com que trabalham as cores e as formas.” Já a França lhe ofereceu o refinamento estético que ela resume na expressão francesa chic parisien. “Existe realmente um estilo próprio de Paris”, afirma. Essa mistura se reflete também em sua história familiar. Quando era adolescente e anunciou à mãe que queria trabalhar com moda, ouviu um relato que mudaria sua percepção sobre a própria vocação. “Ela me contou que já existia, sete gerações antes, uma primeira Pierina Marinelli que fazia moda na Itália”, lembra. A descoberta a marcou profundamente. Anos depois, o nome da antepassada se transformaria também na marca que leva sua assinatura. Um castelo como showroom Apesar do reconhecimento conquistado, Pierina faz questão de lembrar que sua trajetória foi construída com persistência. “Todo o meu percurso foi de muita luta e muita perseverança”, diz. Uma das oportunidades surgiu de forma inesperada. Após participar de uma exposição para artesãos em um castelo na região de Chantilly, a proprietária do local se encantou com suas criações e decidiu abrir as portas para a estilista receber clientes. Hoje, Pierina mantém um showroom no Château de Pontarmé, onde desenvolve peças sob medida e recebe clientes em busca de criações exclusivas. “Tudo isso é feito com muitas pessoas que admiram o seu trabalho e te acompanham”, destaca. A técnica antes da inspiração Questionada sobre o que diria à jovem que deixou São Paulo sonhando com uma carreira na moda, Pierina não hesita: estudo. “A minha maior força para conseguir estar hoje aqui é o conhecimento”, afirma. Para ela, existe uma imagem romantizada da profissão que muitas vezes ignora o peso da formação técnica. “A moda é muito técnica, muito estudo e muita experiência”, lembra. A estilista costuma fazer uma provocação aos jovens criadores: “O que é moda?”. E responde em seguida: “É arte aplicada à indústria e ao comércio”. Na sua visão, o sucesso não está apenas na criatividade. “Meu trabalho é 97% conhecimento, experiência e técnica para 3% de criação”, calcula. Em uma época dominada pela exposição nas redes sociais e pela busca por visibilidade instantânea, ela acredita que o que permanece é outra coisa. “Hoje tem muito blá-blá-blá e muito show. Isso não perdura. O que perdura é um estilo justo, com técnica e conhecimento”, diz a estilista que mantém um loja-conceito chamada Aeternia. É exatamente essa filosofia que continua guiando seu trabalho. Para Pierina, a criação não deve estar acima da pessoa que veste a roupa. “Eu quero que ela seja bonita do jeito que ela é”, afirma. “A minha arte está ali para servir a cliente, e não o contrário.” A próxima oportunidade para conhecer o trabalho de Pierina Marinelli é um salão de moda que ela organiza na galeria AuMédicis, em frente ao Jardim de Luxembourgo, em Paris, entre os dias 8 e 15 de julho.

  4. Jul 7

    Tuca Vieira: um atlas fotográfico para revelar uma Paris além dos cartões-postais

    Como fotografar uma das cidades mais conhecidas e mais fotografadas do mundo sem repetir as imagens que todos já conhecem? Essa é a pergunta que orienta o trabalho do fotógrafo brasileiro Tuca Vieira durante sua residência artística na Cité internationale des arts, em Paris, realizada por meio de um programa da Académie des beaux-arts. Fotógrafo há mais de três décadas, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela USP e vencedor do Prêmio Jabuti de 2021 com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, Vieira desenvolve na capital francesa o projeto Atlas Photographique de Paris. A proposta é construir um retrato da metrópole para além de seus monumentos e cartões-postais. "Basta pronunciar a palavra Paris e uma série de imagens já nos vem à cabeça", diz. "Mas a Paris de hoje é uma metrópole de cerca de 13 milhões de habitantes, muito mais complexa do que essa imagem cristalizada. É essa cidade que me interessa investigar." Em vez da Torre Eiffel ou da avenida Champs-Élysées, o fotógrafo procura registrar bairros residenciais, periferias, ruas comuns e espaços do cotidiano. "Eu busco a cidade do nosso cotidiano. Não me interesso muito pelo espetacular nem pelas coisas muito particulares." A inspiração vem, em parte, do fotógrafo francês Eugène Atget, que documentou Paris entre o final do século XIX e o início do século XX. "O trabalho de Atget está no centro da fotografia como linguagem. É um trabalho que transita entre o documental e o artístico." Fotografar devagar Para realizar o projeto, Vieira utiliza uma câmera apoiada sobre um tripé. O equipamento, tradicionalmente empregado na fotografia de arquitetura, exige preparação cuidadosa antes de cada imagem e permite corrigir as perspectivas dos edifícios. Em uma época marcada pela produção incessante de fotografias em celulares, ele vê essa escolha como uma forma de reflexão sobre o próprio ato de fotografar. "Eu sempre me pergunto qual é o papel do fotógrafo. Como produzir uma imagem que consiga se destacar nesse oceano de fotografias efêmeras que circulam hoje?" Todo o trabalho é realizado a partir do nível da rua, opção que Vieira considera também uma forma de posicionamento diante da cidade. "Se a gente quer fazer uma intervenção na cidade, tem que fazê-la a partir do ponto de vista de seus cidadãos." Um método criado em São Paulo O projeto parisiense dialoga diretamente com o Atlas Fotográfico da Cidade de São Paulo, publicado em 2021. Durante dois anos, Vieira dividiu a capital paulista em 203 setores, baseado em antigos guias de ruas, e percorreu cada um deles para produzir ao menos uma fotografia. "São Paulo era a minha cidade, mas eu não a conhecia. A fotografia acabou sendo uma desculpa para conhecer lugares onde eu jamais iria naturalmente." O método agora é adaptado para Paris, mantendo o mesmo objetivo: compreender a cidade por meio do deslocamento e da observação sistemática de seu território. A fotografia de Paraisópolis Foi ainda como fotógrafo da Folha de S.Paulo que Vieira produziu, em 2004, uma das imagens mais conhecidas da fotografia brasileira: a vista aérea que contrapõe os edifícios de alto padrão do bairro paulistano do Morumbi à favela de Paraisópolis. A fotografia foi realizada durante uma reportagem sobre os 450 anos da cidade de São Paulo. "Na época eu fotografei em película e nem tinha ideia da repercussão que aquela imagem teria." Além de ir para a primeira página da Folha, fotografia passou a ilustrar livros, pesquisas e exposições sobre urbanismo e desigualdade social em diversos países. Na França, integra livros didáticos de geografia e história. "Quando professores franceses viram essa fotografia, ficaram até mais indignados do que nós diante daquela desigualdade à qual, infelizmente, muitas vezes estamos acostumados." Hoje, além do Atlas de Paris, Vieira continua desenvolvendo a pesquisa Hipercidades, dedicada às grandes metrópoles contemporâneas. Em todos esses projetos, a fotografia funciona menos como registro e mais como uma forma de compreender o território e as transformações urbanas.

  5. Jun 27

    Música bilíngue lançada nas redes viraliza e muda trajetória de estudante brasileira em Paris

    Fernanda Coelho, uma brasileira de 25 anos que faz mestrado em Paris, conquistou um sucesso inesperado na música e já começa a tocar em rádios francesas. A partir de um projeto pessoal, a jovem lançou a canção “Clichê”, que rapidamente acumulou quase 2 milhões de visualizações nas redes sociais e milhares de streams. A artista aposta em uma sonoridade pop bilíngue, combinando português e francês e incorporando referências musicais dos dois países. Com a rápida viralização, a jovem natural de São Paulo assinou contrato com uma gravadora alemã e prepara novos lançamentos. Apesar da surpresa, a relação com a música é antiga. “Eu comecei a cantar muito cedo, com cinco anos, já me apresentando em palco com o incentivo dos meus pais. Eu acho que tem coisas que a gente não explica. Às vezes a gente tem um amor, um talento. Eu era aquela aluna que preferia estar se apresentando no recreio”, conta. Na hora de escolher o rumo profissional, Fernanda acabou optando pela arquitetura, e o caminho acadêmico se tornou a via mais segura. A jovem foi a Paris continuar os estudos, em um mestrado na área. Já o viés musical ressurgiu após conhecer o atual namorado, o produtor musical francês Ulysse Molho, que reacendeu nela a vontade de voltar a cantar. “Ele me convidou para o estúdio para nos divertirmos e para eu ‘desbloquear’ um pouco, já que eu não cantava desde que entrei na faculdade”, explica. Primeira composição de forma natural Foi nesse contexto despretensioso que surgiu “Clichê”. A ideia era clara: reunir as duas culturas que hoje fazem parte da vida da artista. A canção mistura referências como o funk brasileiro e influências da música eletrônica francesa, como Daft Punk. “A música saiu na terceira tentativa de melodia”, lembra Fernanda.  “O Brasil é muito ‘trend’ no exterior, mas as pessoas ainda não conhecem a cultura profundamente, e eu quero apresentar isso. Acho que é muito interessante misturar o pop brasileiro com o pop francês. Acho que é um casamento perfeito: o pop francês tem uma batida única e o brasileiro tem uma vibração especial”, opina Fernanda.  Ela conta que, inicialmente, o plano era somente postar a faixa nas redes sociais. “Não tínhamos intenção de lançar, até porque estou no meio do meu mestrado”, diz. Mesmo assim, a canção ganhou forma em português e francês. “Cheguei a fazer cover no YouTube com 16 anos, mas foi a primeira música que compus. Escrevi a base inteira em português, que é mais natural para expressar meus sentimentos”, explica. “Hoje, para mim, é tão natural passar do português para o francês que senti que isso deu um toque especial, porque não é forçado, reflete os dois mundos que estou vivendo.” Viralização orgânica O sucesso veio de forma orgânica e vertiginosa. “Passamos de apenas família e amigos curtindo para subir mil seguidores por dia”, conta. Em poucos dias, o projeto saiu do anonimato para ter milhares de seguidores. “Quando passou de 200 para 10 mil seguidores em uma semana, vimos que algo estava acontecendo ali.”  Os números confirmaram a percepção: passada uma semana, 100 mil streams no Spotify foram alcançados. “Meu produtor avisou que isso é raro para uma artista iniciante.” Em seguida, veio o interesse de gravadoras e produtoras, que culminou em um contrato com o selo alemão Bamboo Artists. Agora, com novos lançamentos previstos, Fernanda quer seguir explorando a mistura cultural que marcou sua estreia, explorando ritmos brasileiros.   Para ela, a proposta vai além da estética sonora: trata-se de identidade. “A música é uma maneira de explorar minha experiência como estrangeira, fazendo relações entre as diferenças do Brasil e da França.” A autenticidade é central no seu projeto, já que Fernanda acredita que o mais importante é “colocar a alma, especialmente com o crescimento da inteligência artificial” no meio artístico. Dividida entre o fim do mestrado e o início da nova fase artística, a artista ainda mantém os pés nos dois mundos, mas já sabe qual escolher, se for preciso. “Se eu conseguir viver disso e continuar no projeto, não tenho dúvidas do que escolheria.”

  6. Jun 26

    'A alma é carioca, o corpito é português': Roberta Medina fala sobre o presente e o futuro do Rock in Rio Lisboa

    À sombra do Tejo, com uma “brisa carioca”, o Rock in Rio Lisboa se prepara para seu último fim de semana de shows. Enquanto milhares de fãs aguardam as apresentações que encerram mais uma edição do festival, a vice-presidente executiva do evento, Roberta Medina, recebeu a RFI para uma conversa descontraída durante o tradicional evento-teste que antecede a abertura dos portões. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa Entre histórias de bastidores, comparações entre Brasil e Portugal e planos para ampliar a presença internacional do festival, Roberta mostrou por que o Rock in Rio continua sendo muito mais do que uma sequência de concertos. "A alma é carioca, o corpito é português", resumiu, sorrindo, ao olhar para o novo recinto instalado às margens do Tejo. O espaço, que pode receber até 100 mil pessoas por dia, representa uma nova fase para o festival em Portugal. "É um lugar muito especial. Tem uma energia maravilhosa. A expectativa é de dias quentes, então estamos reforçando algumas mensagens importantes para o público: usar transporte coletivo, vir com roupa leve, sapato confortável e beber bastante água", recomenda.  O ensaio geral antes da multidão Antes da chegada das dezenas de milhares de espectadores, o festival realiza um evento-teste. Embora pouco conhecido pelo público, ele é fundamental para o funcionamento da operação. "Só que abrir as portas sem testar é como bater prego no escuro", brinca Roberta. Ela explica que o objetivo é colocar toda a estrutura para funcionar simultaneamente antes da estreia oficial. "O evento-teste ajuda a descobrir se há uma fuga de água, um problema numa estrutura ou alguma questão operacional. Depois que entram milhares de pessoas, já não existe mais ensaio". A dimensão impressiona: mais de 15 mil profissionais são credenciados para trabalhar no festival e cerca de 10 mil entram diariamente para fazer a máquina funcionar. "Tem muita regra para uma coisa deste tamanho dar certo. Desde saber qual portão usar até conferir se a credencial está correta". Quem imagina que a executiva conhece todos os segredos dos artistas pode se surpreender. Questionada sobre as participações especiais que costumam marcar o Rock in Rio, Roberta revelou que muitas vezes também é pega de surpresa. "Comigo acontece imenso", conta, usando uma expressão típica do português europeu. "Às vezes sobe alguém ao palco e eu penso: 'Olha!' Depois digo para a equipe: 'Mas por que não me contaram? Eu podia ter aproveitado isso na comunicação'." Mesmo assim, ela admite gostar do fator surpresa. "Eu gosto de ser surpreendida. Faz parte da magia." O mesmo Rock in Rio, mas diferente Ao longo dos seus 22 anos em Portugal, o Rock in Rio Lisboa construiu uma identidade própria. Ainda assim, segundo Roberta, a essência permanece a mesma. "Eles são muito diferentes e, curiosamente, são o mesmo Rock in Rio", Roberta Medina, vice-presidente executiva do evento. A executiva lembra que o festival brasileiro nasceu em 1985 e se tornou um marco histórico e cultural. "O Rock in Rio Brasil não é apenas um evento incrível. Ele é um fato histórico." Já em Lisboa, a trajetória começou em 2004. "Aqui ele é um evento incrível que cresce pela Europa. Não tem a mesma história de 1985, mas já começa a deixar marcas importantes na indústria portuguesa". Brasileiros e portugueses: energias diferentes Um dos momentos mais divertidos da entrevista aconteceu quando a conversa chegou ao comportamento do público. Roberta não esconde o carinho pelos dois lados do Atlântico, mas reconhece diferenças. "Os portugueses são muito calorosos. Os artistas adoram tocar aqui. Mas o ritmo e a energia do brasileiro estão um andar acima." Ela ri ao imaginar uma situação comum em festivais lotados. "Se você pedir para 90 mil portugueses darem um passinho para o lado, eles vão. No Brasil... esquece". A observação vem da experiência acumulada em décadas de organização de grandes eventos. "Em termos de operação, aqui tudo é mais suave." O impacto econômico Além da música, o Rock in Rio também movimenta a economia portuguesa. Segundo dados citados por Roberta Medina, um estudo realizado após a última edição apontou um impacto de cerca de 120 milhões de euros em apenas quatro dias de evento. "É uma coisa impressionante". O perfil dos visitantes reforça esse peso econômico. "60% do público vem de fora da Grande Lisboa e 80% de fora da cidade. Temos pessoas de 125 países."  A internacionalização aparece agora como uma das grandes apostas da organização.  "Hoje recebemos entre 16 e 17 mil visitantes internacionais. Esse número pode ser triplicado ou quadruplicado com tranquilidade". Segundo ela, quanto maior for a presença de turistas estrangeiros, maior será o retorno para a cidade. "Isso amplia o impacto econômico, fortalece o turismo e deixa mais recursos em Lisboa".  Um festival que continua crescendo Ao entrar no último fim de semana da edição de 2026, o Rock in Rio Lisboa parece viver um momento de maturidade. O novo recinto oferece espaço para crescer, as marcas investem cada vez mais em experiências para o público e a organização aposta numa presença internacional mais forte. Para Roberta Medina, o objetivo continua sendo o mesmo que inspirou a criação do festival há mais de quatro décadas. "Quanto mais relevante o Rock in Rio for para a cidade, mais forte fica o projeto", resume Roberta. E enquanto os últimos artistas se preparam para subir ao palco, ela já tem sua própria prioridade na programação. Quando perguntada sobre quem gostaria de assistir, respondeu sem hesitar: "Shaggy."

  7. Jun 16

    Única mulher no TSE, Estela Aranha defende representatividade e denuncia violência de gênero

    A ministra do Tribunal Superior Eleitoral Estela Aranha falou à RFI, em Lisboa, sobre os desafios da participação feminina na política, o avanço da violência contra mulheres nas redes sociais e os impactos da inteligência artificial nas eleições brasileiras. Desde sua posse, em agosto de 2025, ela é a única mulher entre os ministros titulares. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Lisboa As mulheres representam cerca de 52% do eleitorado brasileiro, mas continuam sub-representadas nos espaços de poder. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, entre 2016 e 2022, elas responderam por apenas um terço das candidaturas registradas e ocuparam somente 15% dos cargos conquistados nas urnas. É nesse contexto que a advogada paulista Estela Aranha integra o Tribunal Superior Eleitoral. Especialista em direitos digitais, ela atuou como assessora da Presidência do TSE antes de assumir a vaga destinada à classe dos juristas. Também foi secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, integrou o Conselho de Alto Nível das Nações Unidas sobre Inteligência Artificial e presidiu a Comissão Especial de Proteção de Dados do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. O TSE é composto por sete ministros: três oriundos do Supremo Tribunal Federal, dois do Superior Tribunal de Justiça e dois representantes da classe dos juristas, indicados pelo presidente da República. Atualmente, entre os membros titulares da Corte, Estela Aranha é a única mulher. Em entrevista à RFI durante um evento realizado em Lisboa, a ministra afirmou que a representatividade feminina continua sendo um desafio dentro das instituições brasileiras. “Eu sou a única mulher que vai compor [o tribunal]. A sociedade é igualitária no número das mulheres e acho que tem que ter representatividade”, afirmou. Para ela, a presença feminina nos espaços de decisão não se limita à defesa de pautas voltadas às mulheres. Segundo a ministra, a diversidade de experiências e trajetórias contribui para ampliar perspectivas em todos os temas debatidos dentro das instituições. “Acho que tem que ter mulher julgando sobretudo todos os temas. Você traz sua vida, sua experiência, seus backgrounds, e isso influencia a forma como você vê as questões”, disse. Violência política e ataques às mulheres Apesar dos avanços observados nos últimos anos, a participação feminina na política ainda enfrenta obstáculos importantes. Nas eleições de 2022, apenas 18% dos eleitos para cargos legislativos foram mulheres. Entre os principais desafios apontados por Estela Aranha está o aumento da violência política de gênero, especialmente no ambiente digital. “Estou vendo a violência política contra a mulher e contra mulheres jornalistas nas redes aumentando muito”, alertou. A ministra destacou que a violência direcionada às mulheres costuma assumir características diferentes daquela enfrentada pelos homens em posições públicas. “Quando xingam uma mulher, o ataque geralmente é moral. Muitas vezes envolve aspectos sexuais e pessoais muito graves”, afirmou. Segundo ela, esse tipo de violência pode desestimular a participação feminina na política e em posições de liderança, além de dificultar a permanência das mulheres em espaços de poder. Aranha também chamou atenção para as dificuldades de conciliar responsabilidades profissionais e pessoais. Na avaliação da ministra, a sobrecarga relacionada ao cuidado da família e da casa ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, limitando suas oportunidades de ascensão. Inteligência artificial e eleições de 2026 Além da questão da representatividade feminina, a ministra abordou um dos temas que devem marcar o próximo ciclo eleitoral brasileiro: o avanço da inteligência artificial generativa. Para ela, a tecnologia cria desafios inéditos para a Justiça Eleitoral, especialmente no combate à desinformação e à manipulação de conteúdos durante as campanhas. “A inteligência artificial generativa é um desafio novo. A Justiça Eleitoral tem tradição de se antecipar a muitas questões tecnológicas porque os impactos costumam aparecer primeiro nas eleições”, afirmou. A ministra defendeu a necessidade de aperfeiçoar mecanismos de monitoramento e regulação, sem comprometer a liberdade de expressão e o debate político. “Tem conteúdos que são considerados ilegais pela Justiça Eleitoral e haverá atuação quando isso for necessário. Mas o debate político é importante e a liberdade de expressão continua sendo um valor fundamental”, disse. Segundo ela, um dos grandes desafios será adaptar ao ambiente digital princípios já consolidados no sistema eleitoral brasileiro, como a garantia de igualdade de condições entre os candidatos. Experiência brasileira vira referência internacional Estela Aranha também destacou o papel desempenhado pelo Brasil na construção de mecanismos de cooperação entre a Justiça Eleitoral e as plataformas digitais durante os últimos processos eleitorais. De acordo com a ministra, a experiência brasileira passou a ser observada por outros países que enfrentam desafios semelhantes relacionados à desinformação e à moderação de conteúdos durante campanhas eleitorais. “A relação construída com as plataformas digitais para atuar durante as eleições foi uma experiência muito importante e que hoje é observada em diferentes partes do mundo”, afirmou. Ao assumir uma das cadeiras do TSE, Estela Aranha chega à Corte em um momento em que democracia, tecnologia e representatividade feminina se tornaram temas cada vez mais conectados. Para a nova ministra, ampliar a participação das mulheres nos espaços de decisão e fortalecer a integridade do processo eleitoral são desafios que caminham lado a lado.

  8. Jun 15

    Brasil mira mercado global no Eurosatory, principal salão de defesa do mundo que começa em Paris

    O Brasil quer ampliar sua presença no mercado internacional de defesa durante o Eurosatory 2026, principal salão mundial do setor, que acontece de 15 a 19 de junho em Villepinte, na região da Grande Paris. O evento reúne mais de 2 mil expositores de 65 países, em um ambiente que combina feira comercial, demonstrações militares e debates estratégicos, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual. Maria Paula Carvalho, da RFI Para o coronel Antônio Ribeiro, diretor de projetos da ABIMDE, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Defesa e Segurança, a participação brasileira será voltada à consolidação de parcerias e à apresentação de tecnologias nacionais. “Nós vamos estar com um estande de mais de 100 metros quadrados, com 19 empresas, oferecendo aos nossos parceiros aquilo que a gente tem de melhor em tecnologia e soluções na área de defesa”, afirma. O chamado Espaço Brasil reúne empresas que atuam em áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. Segundo Ribeiro, trata-se de uma vitrine estratégica para ampliar exportações e atrair investidores. “A gente considera o evento estratégico porque ele consegue aglutinar parceiros comerciais de todos os cantos do mundo”, diz. A expectativa é iniciar negociações e fortalecer acordos em curso com países da Ásia, do Oriente Médio, da África e das Américas. Hoje, os principais clientes da indústria brasileira de defesa estão no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, no norte da África e na América Latina, com abertura recente também na Europa Central. Em termos de concorrência, o coronel destaca que o Brasil já disputa espaço com grandes grupos internacionais. “Felizmente, hoje nós temos tecnologia adequada a um preço adequado para fazer concorrência com empresas da Europa e da América do Norte, em determinados setores”, afirma. Conflitos impulsionam demanda por defesa O aumento das tensões internacionais tem impulsionado a demanda por equipamentos militares. Embora evite uma análise geopolítica, Ribeiro reconhece o impacto dos conflitos recentes. “O que a gente vê é um aquecimento da demanda, fruto do conflito na Europa Central e também no Oriente Médio. Existem oportunidades que estão se abrindo frente a essas regiões”, diz. Nesse contexto, o Brasil busca se posicionar como fornecedor confiável e competitivo, explorando nichos nos quais já possui expertise, como aeronáutica, sistemas de monitoramento e radares. “O Brasil já foi um dos dez maiores exportadores de material de defesa. Tivemos uma queda, mas estamos voltando numa curva ascendente”, explica. Entre os destaques tecnológicos, estão radares de vigilância e meteorológicos desenvolvidos no país e utilizados internacionalmente. “Um grande grupo europeu, o Thales, adotou uma solução brasileira como padrão mundial, com radares da Omnisys”, exemplifica. Submarino nuclear e cooperação com a França Outro projeto estratégico é o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, em parceria com a França. De acordo com Ribeiro, enquanto o casco tem origem francesa, a tecnologia nuclear vem do Brasil. “Toda a parte de desenvolvimento do reator é 100% brasileira”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que a eventual exportação dessa tecnologia depende de decisões governamentais. Apesar da tradição diplomática brasileira, o reforço das capacidades militares também entra na agenda. “Se você quer a paz, prepare-se para a guerra”, cita o coronel, evocando  um provérbio em latim Si vis pacem, para bellum. Segundo ele, o contexto atual abre espaço para investimentos e modernização das Forças Armadas. Outro trunfo da indústria nacional é o custo competitivo. “Nossos equipamentos têm preço bastante adequado, além de um pós-venda e uma capacidade de customização muito fortes”, destaca. O Eurosatory, porém, não deve resultar em acordos imediatos. “Essa feira não vai gerar nenhum contrato a curto prazo. Ela serve para apresentar o material, despertar interesse e iniciar tratativas”, explica Ribeiro. A meta brasileira é, sobretudo, ampliar sua rede de contatos e posicionar seus produtos no mercado global.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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