O Festival Olá Paris! promove pelo segundo ano consecutivo a riqueza e a diversidade do cinema português contemporâneo. O evento acontece na tradicional sala de cinema Club de l’Étoile, ao lado do Arco do Triunfo, na capital francesa, de 6 a 8 de março. Entre os 7 longas selecionados está o premiado “Raiva”, do cineasta brasileiro Sérgio Tréfaut, filho de mãe francesa e pai português. Sérgio Tréfaut nasceu no Brasil e se mudou para a França aos 10 anos com a família, que fugia da Ditadura Militar brasileira. Na juventude, foi para Portugal, onde começou a carreira como cineasta. Seu primeiro filme, o curta-metragem "Alcibíades", é de 1992. Em seguinda, não parou mais. Tréfaut dirigiu mais de 10 longas-metraggens, entre ficção e documentários. Entre eles, os premiados "Alentejo, Alentejo" (2014), "Treblinka" (2016), "Raiva" (2018) e "A Noiva" (2022). Em 2018, voltou a morar no Brasil e rodou seu primeiro filme no país natal, o documentário “Paraíso”, lançado em 2022. O festival Olá Paris! é uma boa oportunidade para constatar que, como o cinema brasileiro, a cinematografia portuguesa vive uma boa fase. Sérgio Tréfaut, que mora no Rio, vem a Paris para participar da sessão de “Raiva”, no sábado, 18 de março, e concedeu uma entrevista à RFI. O longa, rodado em preto e branco, é uma adaptação do romance “Seara de Vento” de Manuel da Fonseca, um clássico do neorrealismo português. Apesar de ter sido lançado há oito anos, “Raiva” ainda rende convites e repercussão internacional, como prova a participação no Festival de Cinema Português de Paris. Por isso, a seleção junto com filmes recentes não surpreendeu Tréfaut. “O filme teve um peso gigante na cinematografia portuguesa. Ganhou todos os prêmios da academia quando foi lançado e marcou muito", ressalta. Ele lembra que o longa “criou um ator”, ao lançar Hugo Bentes, e conta com a participação icônica de Isabel Ruth. A força da história, da fotografia e a temática universal de "injustiça social" contribuiu para que o público de vários países se identificasse com a obra. “No Brasil fizeram paralelos com ‘Vidas Secas’, do Nelson Pereira dos Santos, também adaptado de um romance”, conta. Cinema político Sobre influências, o diretor observa que “Raiva” tem muitas referências, mas dialoga mais com o cinema soviético, do que com o Cinema Novo brasileiro, por exemplo. O neorrealismo está presente sobretudo pela adaptação literária. “A minha adaptação é muito seca, não tem idealismo. Fala de pobres e ricos, e da raiva de quem não consegue ultrapassar ciclos de injustiça”. Questionado sobre o caráter engajado de sua obra, Tréfaut concorda que seus "filmes são políticos" e "lutam por justiça", mas diz que não faz um cinema "militante". Ele relembra o impacto de “Lisboetas” (2004), que ajudou a impulsionar debates sobre imigração e chegou a ter pré-estreia no Parlamento português. O tema também está presente em “Viagem a Portugal”, baseado em um caso real de expulsão ilegal. Ao comentar a programação do Olá Paris!, o diretor afirma estar muito curioso" em assistir à maior parte desses novos filmes”. Ele ressalta "Ice Merchants", de João Gonzales, nomeado para o Oscar em 2023, na categoria de melhor curta de animação. O cineasta elogia a proposta do evento de tentar atrair um novo público para descobrir o cinema português. "Eu acho brilhante a estratégia de tirar o cinema português do seu nicho e levá-lo para um público mais alargado", afirma. Com “Raiva” coproduzido pela França, ele celebra a oportunidade de voltar a exibi-lo em Paris. Vitalidade do cinema português Como o Brasil, o cinema português vive uma excelente fase. Nos dois últimos festivais de Cannes, por exemplo, foi recompensado pelos excelentes “Grand Tour”, de Miguel Gomes, em 2024, e “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho, em 2025. No entanto, esse dinamismo não é tão badalado quanto o brasileiro. Tréfaut avalia que o cinema de Portugal sempre ocupou um espaço particular no panorama internacional. Segundo ele, trata-se “de um cinema tradicionalmente de nicho, muitas vezes marcado por uma certa melancolia e, ao mesmo tempo, profundamente inovador”. Para o diretor, essa combinação faz com que a produção portuguesa seja artisticamente ousada, embora nem sempre voltada ao grande público. Ao comparar com o Brasil, o diretor destaca uma diferença estrutural decisiva. “O cinema brasileiro tem por trás uma máquina promocional gigante, que gasta tanto ou mais em promoção do que no próprio filme”, salienta. Essa força industrial, diz ele, explica em parte a visibilidade de diversas produções brasileiras no circuito internacional e nas grandes premiações. “Existem filmes fantásticos que chegam aos prêmios muito também por causa dessa máquina. Portugal não tem isso”, observa. Sobre o Oscar, cuja cerimônia acontece em 15 de março, Tréfaut está na torcida, ainda que com cautela. “Eu tenho muito carinho pelo ‘O Agente Secreto’. Adoraria que ganhasse. Não acredito que um filme valha por um prêmio, mas o prêmio reforça a importância do cinema brasileiro no mundo”. Focado no Brasil e na América Latina Radicado atualmente no Rio, o cineasta foca agora seus projetos na América Latina. Ele prepara “El Rio”, inspirado no romance "O General Em Seu Labirinto", de Gabriel García Márquez, sobre o fracasso do idealismo bolivariano: “É um filme sobre soberania e independência”. Também pesquisa um projeto sobre as Guianas, explorando o passado colonial da região, que foi "um laboratório do pensamento capitalista mais extremo no mundo”.