Nesta semana, uma série de protestos contra bancos e carteiras virtuais tem levado às ruas um problema que ganhou proporções históricas: 20,8 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa, estão endividados. Destes, seis milhões estão inadimplentes, equivalente a 30%. Por trás do problema, a perda acelerada do poder de compra dos argentinos que recorrem ao crédito para comer e pagar contas de serviços básicos. O presidente Javier Milei diz que “o problema é da esfera privada” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça dos devedores”, mas não impede juros de até 1.375% ao ano, um número 40 vezes maior do que a inflação anual. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares. O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, seis milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada “irrecuperável”. Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número que multiplica por sete o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos. Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência. Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro. Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas. No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais, sobem a 260%, mas há custos financeiros encobertos e elevam as taxas para 400%, 700% e até de 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a Fintech argentina MercadoPago, que também atua no Brasil. Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas. Quando se engloba os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Como comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial. Protestos crescem Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais. Por isso, nesta sexta-feira (21), às 15 horas, haverá um protesto no depósito de mercadorias da empresa MercadoLivre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do MercadoPago. A manifestação é convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro. “Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente”, explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia. A Mercado Livre e a MercadoPago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil. O dono é Marcos Galperín, que se tornou a cara do problema ao cobrar taxas anuais mais de 40 vezes superiores à inflação do país que, embora seja alta, acumula 33,8% nos últimos doze meses. Nesta quinta-feira (20), centrais sindicais e movimentos sociais foram até a Praça de Maio para pressionar o governo por uma solução. O protesto foi também contra o plano econômico do presidente Javier Milei, apontando como a origem do problema. O alvo inicial da manifestação era o Ministério da Economia, ao lado da Casa Rosada, mas o governo colocou barreiras para impedir o protesto. Na quarta-feira (19), o coletivo político Libres del Sur foi até a MercadoPago para expor a empresa líder das carteiras virtuais e o seu dono. No protesto na Praça de Maio, Silvia Amarilla, de 46 anos, empregada doméstica desempregada, convocada pela Libres del Sur, explica à RFI que a família depende do baixo salário do marido, um trabalhador informal. “Antes de o presidente Milei assumir o cargo, podíamos reformar a casa, podíamos comer, podíamos comprar roupa e sobrava para comprar um cachorro-quente para os meus filhos. Não sobrava muito, mas chegávamos ao final do mês. Agora, a renda só dura até o dia 12 de cada mês. Nossos três filhos menores de idade não entendem de dívida. Perguntam o que há para comer e, por mais que expliquemos a situação, continuam com fome”, descreve Silvia. Há um ano, Silvia pediu 200 mil pesos argentinos ao MercadoPago, o equivalente a 650 reais. Já pagou o equivalente ao capital inicial, mas ainda deve 400 mil pesos e acaba de se tornar inadimplente ao entrar no terceiro mês sem pagamento do crédito. Os 200 mil pesos originais se triplicaram e a dívida continua a subir. “Provoca tristeza, raiva e muita frustração porque você vive o dia-a-dia sem saber se terá o suficiente para comer no dia seguinte”, lamenta. A família cortou o jantar como refeição diária, cortou elementos de higiene pessoal e de limpeza da casa. “Suprimimos o jantar, a higiene pessoal e a da casa. É desesperador perder coisas necessárias”, desabafa Silvia à RFI. Carolina Daniel, de 33 anos, perdeu o emprego numa cooperativa há nove meses, quando passou a trabalhar como doméstica. O marido mantém o emprego, mas a renda é insuficiente para cobrir os gastos até final do mês. “Para sobreviver, abrimos uma venda de comida na porta de casa e compramos um carrinho de cachorro-quente para vender na praça. Temos dois filhos. Tivemos de nos endividar para comprar alimentos e para pagar o colégio das crianças”, conta Carolina à RFI. Há um ano, Carolina pediu um milhão e meio de pesos, equivalentes a 500 reais. Hoje deve três milhões e meio de pesos e caiu na inadimplência. A dívida é com o Banco Patagonia, controlado pelo Banco do Brasil na Argentina. “Queremos pagar as dívidas, que o salário aumente, que as tarifas de luz, gás e água diminuam e que o presidente preste atenção no bolso dos trabalhadores e não no negócio dos empresários”, pede. Silvia e Carolina esperam que o governo ajude a refinanciar as dívidas, aumentando prazos e contendo as taxas de juros. Governo, mero analista do mercado O governo mostra-se insensível ao problema que o próprio presidente Javier Milei gerou ao liberar as taxas de juros, que passaram a não ter teto. Salários dos servidores públicos e aposentadorias foram diluídos. Os salários do setor privado, em geral, também perderam para a inflação.No ano passado, para conter uma corrida ao dólar, Milei subiu as taxas de juros de referência a 95%, mas, antes, para incentivar o crédito, disse que “o pior do ajuste fiscal já tinha passado” e que “o futuro seria melhor”. Confrontado com o problema, Milei disse que a inadimplência é um “problema entre privados” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça (dos devedores) para tomarem um crédito”. Já o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que “empatia não pode ser confundida com política pública” e “que taxas de juros de 400% ou de 700% são abusivas”, mas “nada impede que sejam cobradas”. Ou seja: o governo comenta a realidade como um mero espectador. “Se o Estado sabe que milhões de trabalhadores estão endividados e que as carteiras virtuais concentram níveis de inadimplência superiores aos dos bancos, não pode lavar as mãos, permitindo que empresas como MercadoPago façam um negócio extraordinário com a necessidade das famílias”, criticou Gabriel Solano. A origem do endividamento pessoal Desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, os salários registrados perderam para a inflação. No caso do setor privado, a média é de 6,5%, mas com perdas de até 12,6% em determinados setores. Para os funcionários públicos e aposentados, as perdas foram de 36,5%. Mais de 20% dos funcionários públicos foram demitidos por Milei. São pessoas que ficaram sem renda formal. O “salário disponível”, ou seja, o montante que sobra depois de pagar as tarifas públicas, perdeu 20% do poder aquisitivo. As tarifas de serviços públicos representavam 6% dos salários médios; hoje, representam 15%. Uma pesquisa da consultora Zentrix indica que, para seis de cada dez argentinos, o salário termina antes do dia 20 de cada mês. São 61% que não passam do dia 20. Outros 24,3% não chegam até o dia 30, totalizando mais de 85% da população, um número em linha com a quantidade de devedores totais do sistema.