Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 8h ago

    Irlanda assume presidência da UE e tenta avançar em orçamento e relações com EUA

    A Irlanda assume nesta quarta-feira, 1º de julho, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia por seis meses. As prioridades do programa anunciado pelo Taoiseach (primeiro-ministro), Micheál Martin, no Castelo de Dublin, estão centradas em três pilares: competitividade, valores e segurança. Entre os principais desafios estão a negociação do próximo orçamento do bloco até o fim do ano e a tentativa de estabilizar as relações com os Estados Unidos. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Sob o mote “a força está na união”, a Irlanda assume o comando do bloco europeu em um momento crítico, marcado por desafios geopolíticos e econômicos intensos. Já neste primeiro dia da presidência irlandesa, Bruxelas dobra a tarifa de importação do aço para 50%, para proteger a indústria siderúrgica europeia. Na terça-feira (30), na Cúpula do Mercosul realizada no Paraguai, o anfitrião da reunião criticou as “assimetrias” do acordo de livre comércio com a União Europeia. A distribuição de cotas de exportação com preferências tarifárias no bloco regional para os produtos destinados à UE é um peso sobre os ombros do Mercosul, que precisa decidir como repartir esse volume entre seus países integrantes. Nesse cenário de tensões comerciais e negociações delicadas com parceiros estratégicos, a Irlanda está comprometida a “entregar” uma presidência bem-sucedida, e a previsão de gastos é bastante elevada, em torno de €300 milhões. Quase metade desse orçamento deve ser destinada a protocolos de segurança, já que o país é neutro e precisa reforçar sua capacidade para receber uma série de visitas de alto nível. Em novembro, por exemplo, líderes de 47 países devem participar de uma reunião da Comunidade Política Europeia em território irlandês. Desafios As negociações sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual, ou seja, o orçamento do bloco para o período de 2028 a 2034, são um dos grandes desafios desta que é a oitava vez em que a Irlanda assume a presidência rotativa da UE. Dublin terá que intermediar negociações ferozes que opõem os países que menos gastam aos maiores contribuintes comunitários. Os irlandeses deverão preparar uma “caixa de negociação” a ser discutida pelos líderes do bloco em outubro, com o objetivo de alcançar um acordo global até dezembro. A proposta orçamentária da Comissão Europeia, estimada em quase €2 trilhões, orienta os principais investimentos do bloco – da agricultura à defesa – para os próximos sete anos. Outro dossiê sensível será o possível alargamento da União Europeia. Montenegro é o país com mais chances de aderir ao seleto grupo de Bruxelas, enquanto Albânia, Moldávia e Ucrânia também devem registrar progressos nas negociações. No que se refere à guerra na Ucrânia, a Irlanda deve manter o apoio à Kiev e pode anunciar o 21º pacote de sanções contra a Rússia. Mediação Dublin deve tentar usar a tradicional ligação com os EUA para restabelecer as relações entre Washington e Bruxelas, estremecidas pela administração Trump. “Existe uma boa vontade em relação à Irlanda nos Estados Unidos; por isso, talvez possamos maximizar os nossos canais com a Casa Branca”, afirmou a embaixadora da Irlanda junto à UE, Aingeal O’Donoghue. Os irlandeses querem mais estabilidade na relação transatlântica, “mais progressos” nas trocas comerciais e soluções para questões relacionadas à indústria farmacêutica. Gigantes do setor, como Pfizer, Eli Lilly, AstraZeneca, Novartis e Sanofi, operam em solo irlandês e geram milhares de empregos. Nas últimas décadas, o país se consolidou como um dos maiores hubs farmacêuticos e de biotecnologia do mundo. Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a Irlanda por atrair empresas norte-americanas com baixos impostos e “roubar” receitas fiscais que, segundo ele, deveriam ter sido pagas ao Tesouro dos EUA. Aliás, a partir desta quarta-feira, dia 1º, Bruxelas vai eliminar tarifas sobre produtos americanos, em virtude do acordo firmado no ano passado com Washington. O acordo estabelece tarifas de, no máximo, 15% sobre a maioria das exportações da União Europeia para os EUA e taxas zero para produtos industrializados americanos que entrarem no bloco europeu. Maior polo de inovação da UE Tecnologia é uma área vital para a Irlanda, e o país ficou conhecido como o “Vale do Silício da Europa” por abrigar a sede europeia de gigantes do setor, atraídos por incentivos fiscais, como Google, Meta, Apple, Microsoft e OpenAI, entre outros. No segundo semestre deste ano, quando os irlandeses estiverem no comando do bloco, um impasse deve ganhar força: as regras de tecnologia e inteligência artificial (IA) da União Europeia estarão sendo renegociadas. E, segundo o jornal britânico The Guardian, a Irlanda, por seu peso no setor e pelos interesses econômicos envolvidos, pode adotar uma postura mais cautelosa nessas discussões, evitando avançar em propostas que ampliem a soberania tecnológica e digital do bloco.

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  2. 1d ago

    Mercosul lança negociações com Japão e amplia rede de acordos comerciais

    Sob pressão do tarifaço e de medidas unilaterais da administração de Donald Trump, o Mercosul vive uma fase mais ativa e aposta na ampliação de parcerias comerciais. O bloco deve lançar oficialmente, nesta terça-feira (30), a abertura de negociações para um acordo de livre comércio com o Japão, além de anunciar avanços em entendimentos com diferentes regiões do mundo. A 68ª Cúpula do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai, reúne sete chefes de Estado da região, de direita e de esquerda. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que desembarca na capital paraguaia pela manhã, quer mostrar a força da integração regional, uma de suas prioridades, que vem avançando a partir de acordos comerciais, a despeito da ampliação das lideranças de direita na região. A ideia é surfar a boa onda do bloco, impulsionada, em boa medida, pela pressão de Washington com seus tarifaços e pela imposição da lei do mais forte. O governo brasileiro tem pressa. Quer fechar o maior número possível de acordos ainda nesta gestão Lula 3.0. Estarão na cúpula Santiago Peña, do Paraguai, o anfitrião; Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador). Também estarão presentes os chanceleres de Colômbia, Chile e Panamá, Estados associados ao Mercosul. Além disso, participam convidados especiais, como representantes dos Emirados Árabes, de Trinidad e Tobago, da Alemanha e do Uzbequistão Aproximação com asiáticos e latino-americanos O bloco vai lançar formalmente as negociações com o Japão. Os entendimentos com o país estavam travados há décadas. A expectativa é de que a primeira rodada de negociações aconteça dentro de dois a três meses. Também deve ser anunciada a primeira rodada de negociações para um acordo de livre comércio com o Vietnã, em agosto deste ano. A cúpula deverá marcar ainda o lançamento das negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Panamá, além de avanços em entendimentos com República Dominicana, Guiana, Suriname e Trinidad e Tobago. O bloco trabalha para a implementação do acordo modernizado com o Chile e para a atualização de instrumentos comerciais com Colômbia e Peru. O acordo com o Canadá, que está mais avançado e tinha previsão de conclusão nesta cúpula, ainda precisa ser finalizado. A parte normativa já estaria cerca de 80% concluída. Falta ainda avançar na área de acesso a mercados, o que requer mais tempo. Ainda assim, há expectativa de que esse entendimento, assim como o que está sendo concluído com os Emirados Árabes Unidos, seja anunciado ainda este ano. O ingresso da Venezuela no Mercosul, que chegou a ser mencionado pelo vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, e tinha a simpatia da presidência pro tempore do Paraguai, ficou fora da agenda. A avaliação é de que, neste momento, não seria de bom tom, sobretudo diante da tragédia provocada pelo duplo terremoto que matou milhares de pessoas no país. De todo modo, a Venezuela hoje não reúne condições de se adequar às cláusulas do Mercosul. Medidas para facilitar circulação e integração Entre os avanços mais pontuais previstos para a cúpula está a assinatura do acordo que permitirá o reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para ingresso nos países do Mercosul e Estados Associados. Também será firmado um protocolo de reconhecimento mútuo de meios de identificação e autenticação eletrônica, aproximando sistemas digitais como o GOV.BR dos mecanismos adotados pelos demais países do bloco. Há ainda outras frentes em discussão, entre elas o combate ao crime organizado. A ideia é mostrar que o bloco continua ativo, trabalhando e atraindo atenção dentro e fora da região. Desde 1º de maio, está em vigor o acordo Mercosul-União Europeia, o maior já firmado pelo bloco dos países do Cone Sul, após um quarto de século de negociações. Em entrevista, a secretária de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, embaixadora Gisela Padovan, destacou a relevância estratégica do Mercosul para a América do Sul e para a economia mundial. Segundo ela, o bloco, que reúne 73% do território sul-americano, cerca de 65% da população da região e aproximadamente 70% do Produto Interno Bruto (PIB), completou 35 anos. Desde a sua criação, o comércio intra-regional cresceu 11 vezes, chegando a US$ 51 bilhões no ano passado. O pico ocorreu em 2011, quando atingiu US$ 53 bilhões.

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  3. 2d ago

    Espanha aprova penas de até dois anos de prisão para 'terapias de conversão'

    A prática já era proibida na Espanha, sendo tratada, no entanto, apenas como infração administrativa. A reforma a transforma em delito e prevê pena de prisão, além de multa. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri A Espanha deu um passo importante em direção ao fim das chamadas “terapias de conversão” para pessoas LGBTQIA+. O Congresso do país aprovou na semana passada uma reforma que reconhece a prática como delito. A iniciativa cria um novo artigo no Código Penal e prevê penas de seis meses a dois anos de prisão, além de multa, para quem aplicar ou promover práticas destinadas a modificar, reprimir, eliminar ou negar a orientação sexual, a identidade sexual ou a expressão de gênero de uma pessoa. Isso vale mesmo que a vítima ou seu representante legal tenha dado seu consentimento. A pena será aplicada de maneira mais severa nos seguintes casos: se a vítima for menor de idade; se houver uso de violência, intimidação, engano ou abuso de poder; se o autor pertencer a uma organização ou associação dedicada a essas atividades ou se o delito for cometido com fins lucrativos. A prática das chamadas “terapias de conversão” já é proibida em nível nacional desde 2023 pela chamada Lei Trans, mas, até então, era tratada apenas como infração administrativa. Desde 2016, já havia normativas regionais que também condenavam a prática, considerada pela ONU como profundamente prejudicial. Delito existente, vítima reconhecida A RFI entrevistou Saúl Castro, advogado e presidente da associação espanhola contra as “terapias de conversão” No Es Terapia, uma das principais impulsionadoras da reforma. Atuando desde 2020, a entidade já identificou mais de cem promotores dessas práticas, acompanha cerca de cinquenta vítimas e atua na justiça em mais de vinte casos. Segundo Saúl Castro, se as chamadas “terapias de conversão” não forem consideradas delito, as pessoas submetidas a elas nem sequer podem ser reconhecidas legalmente como vítimas. Isso significa, por exemplo, que essas pessoas não têm acesso a direitos previstos na legislação espanhola, como participar do processo ou pedir indenização. “Em um procedimento administrativo sancionador, a vítima não tem direito de participar e não é reconhecida como vítima. Na Espanha, uma pessoa só tem acesso aos direitos garantidos às vítimas quando é vítima de um delito. Se não for vítima de um delito, legalmente falando, ela não é considerada vítima”, explica o presidente da associação No Es Terapia. Além disso, a criação do novo artigo no Código Penal é fundamental para garantir a punição dessas práticas, que já eram proibidas, mas até agora eram tratadas apenas como uma infrações administrativas – cuja punição, na prática, não vinha sendo aplicada. Nos últimos três anos, o Ministério da Igualdade recebeu 23 denúncias relacionadas às “terapias de conversão”. Dessas, 20 foram arquivadas e apenas três seguem em análise. Homofobia estrutural Antes de o Congresso espanhol reconhecer as chamadas “terapias de conversão” como delito, Saúl Castro, como advogado membro da associação No Es Terapia, tentou encontrar outros caminhos legais para buscar reparação para as vítimas. Entre as possibilidades avaliadas, estavam o enquadramento como delito de ódio ou até como publicidade enganosa – já que essas práticas não têm respaldo científico e prometem uma mudança que, segundo a literatura acadêmica, não é possível. Mas, segundo Castro, todas as alternativas encontraram obstáculos e o fato de essas condutas de “conversão” ainda não serem tipificadas como um delito específico acabava sendo determinante. Em um dos casos levados pela associação à Justiça, tanto a Promotoria de Delitos de Ódio de Madri quanto o tribunal acionado pela entidade entenderam que oferecer terapias de conversão a pessoas que buscassem esse tipo de prática de forma voluntária não configurava crime. A justificativa, na ocasião, era que deveria prevalecer a liberdade individual, segundo conta o advogado. “E esse era o caso de uma pessoa que oferecia, abertamente, até mesmo eletrochoque no centro de Madri, em um apartamento onde oferecia ‘terapias de conversão’”, lembra Castro. “Então, por um lado, não sei se por desconhecimento ou por causa da própria homofobia estrutural e institucional que também existe nos órgãos do sistema judiciário, vimos muita passividade e relutância na hora de investigar”. Vitória celebrada, mas a luta continua Apesar de reconhecer a importância da criação do novo artigo e de comemorar a aprovação da medida, Saúl Castro afirma que a mudança ficou aquém do que a associação almejava. A proposta defendida pela entidade previa também apoio psicológico, ajuda econômica e moradia para pessoas que precisassem denunciar familiares ou responsáveis por submetê-las a essas práticas. Segundo ele, a batalha por essas condições que possibilitem a denúncia continuará. Mesmo considerando que a novidade foi equivalente a dar “um primeiro passo” e a conseguir “algo muito grande”, Castro diz que é necessário continuar trabalhando, conscientizando, investigando e lutando. Para o advogado, as políticas públicas constroem o caminho para um sistema melhor e para um ordenamento jurídico melhor. E ele seguirá empenhado em que “as vítimas, agora que já têm um crime ao qual podem recorrer, estejam de fato empoderadas para fazer isso”. O texto que inclui as chamadas “terapias de conversão” no Código Penal espanhol seguirá para o Senado, que pode propor alterações antes de devolvê-lo ao Congresso para a votação final. Se não houver atrasos na tramitação, a expectativa é que a nova lei entre em vigor até outubro, segundo Castro.

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  4. 5d ago

    Venezuela: 'Tivemos que retirar sozinhos nossas famílias dos escombros', diz moradora de La Guaira

    Moradores de prédios atingidos pelos terremotos na Venezuela aguardam laudos sobre a segurança das estruturas e ainda não sabem quando poderão voltar para suas casas. O governo diz que pelo menos 250 edifícios foram afetados. Em La Guaira, região mais afetada pelos tremores, a 30 quilômetros de Caracas, moradores contaram à RFI que escavam os destroços dos prédios que desabaram com as próprias mãos. Com informações de Pedro Pannunzio, de São Paulo, e Alice Campaignolle, de Caracas O governo da Venezuela atualizou nesta sexta-feira (25) o número de mortos no duplo terremoto que atingiu o país na quarta-feira (24). "Infelizmente, já temos 589 mortos", disse a presidente interina, Delcy Rodríguez, durante uma reunião com autoridades militares e civis, transmitida pela televisão estatal. O número anterior de mortos era de 235. Pelo menos 4.300 pessoas ficaram feridas. O Aeroporto Internacional de Maiquetía, o principal do país, em La Guaira, região mais atingida pelos terremotos, continua fechado. Durante os tremores, a pista de pouso e parte da estrutura do terminal sofreram danos, e ainda não há previsão de reabertura. Com isso, o acesso a Caracas tem sido feito por aeroportos que permanecem em operação, como o de Valência, cidade localizada a cerca de duas horas da capital venezuelana. Além da busca por sobreviventes, moradores de prédios atingidos convivem com a incerteza sobre quando poderão voltar para casa. Em diferentes bairros de Caracas, edifícios apresentam grandes rachaduras e ainda aguardam vistorias técnicas para avaliar as condições das estruturas. Enquanto algumas pessoas deixaram os imóveis e passaram a viver na casa de parentes ou amigos, outros permanecem em seus apartamentos, mesmo sem um laudo que ateste a segurança dos edifícios. 'Pessoas foram enterradas vivas' A reportagem da RFI foi até La Guaira, a cerca de 30 quilômetros de Caracas, onde cerca de 50 prédios com mais de dez andares desabaram. Centenas estão afetados, com estruturas deformadas e inabitáveis. A venezuelana Francelys tem diante de si o corpo de seu padrasto, deitado sobre destroços, coberto por um lençol.  “Conseguimos deixar nosso prédio ontem. A essa altura, não resta mais ninguém lá. Mas as torres ao lado estão completamente destruídas, com pessoas que foram enterradas vivas”, diz. Sobre a montanha de escombros, três pessoas vasculham os destroços sem equipamentos de proteção adequados, como capacetes. Não são socorristas, mas moradores em busca de seus familiares. Uma jovem conta que, na véspera, a ajuda tardou a chegar a este setor. “Não recebemos nenhum apoio. Tivemos que nos virar para retirar nossas famílias debaixo dos escombros”, afirma, sob anonimato. “Apesar da dimensão da catástrofe, o socorro demorou demais ontem. Apenas algumas ambulâncias circulavam pelas ruas da cidade”, acrescenta. Dois brasileiros entre as vítimas Nesta quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou a morte de dois brasileiros. Segundo o Itamaraty, as vítimas são um homem e uma mulher. Em nota, o governo informou que presta assistência consular às famílias e manifestou pesar pelas mortes. Outros detalhes sobre a identidade das vítimas não foram divulgados. Além dos brasileiros, seis outros estrangeiros fazem parte da lista de mortos: um homem nascido em Caracas em 1970 com nacionalidade italiana, dois espanhóis, um português e dois chineses.  O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta quinta-feira (25) com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, e anunciou o envio de ajuda humanitária ao país. Segundo o governo brasileiro, uma equipe formada por bombeiros e agentes da Defesa Civil será enviada nesta sexta (26) para reforçar os trabalhos de resgate. No sábado (27), a previsão é que um outro avião desembarque na Venezuela transportando equipamentos para a montagem de um hospital de campanha, cem purificadores de água movidos a energia solar, além de medicamentos e materiais médicos para cirurgias. Após a conversa, Delcy Rodríguez agradeceu, em publicação nas redes sociais, a manifestação de solidariedade do presidente brasileiro e o apoio oferecido pelo Brasil às vítimas dos terremotos. Desaparecidos Modelos de previsão do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicam alta probabilidade de que o número de mortos ultrapasse 10 mil pessoas. Já um site criado para localizar desaparecidos, compartilhado no X por líderes da oposição, muitos deles no exílio, reunia mais de 35 mil nomes ontem, no meio da tarde. Em contraste, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou em sua conta no Facebook que havia 157 desaparecidos e “mais de 200 pessoas identificadas como presas nos escombros”. Mas o número real pode ser bastante superior e estar na casa dos milhares.  A forte discrepância entre os dados evidencia que ainda não há um balanço consolidado das vítimas, e que os números permanecem preliminares e sujeitos a revisão.

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  5. 6d ago

    Após divergências, Macron e Meloni buscam reaproximação em cúpula bilateral inédita

    Os dois países mantêm uma parceria histórica, mas as relações se distanciaram nos últimos anos em meio a divergências entre Macron e Meloni. A cúpula busca relançar a cooperação bilateral, com defesa e segurança entre os principais temas da agenda. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A primeira cúpula bilateral entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, acontece nesta quinta-feira (25), em Antibes, no sul da França. Embora os dois líderes se encontrem com frequência em diversas ocasiões, esta é a primeira vez que os governos organizam uma cúpula bilateral para discutir exclusivamente a relação entre Itália e França. A expectativa é que o encontro sirva para descongelar a parceria entre Roma e Paris e relançar uma cooperação que perdeu força nos últimos anos. Em 2021, ainda durante o governo de Mario Draghi, os dois países assinaram o Tratado do Quirinale, com o objetivo de reforçar a cooperação em áreas como defesa, migração, cultura e energia. O acordo também previa a realização de uma cúpula anual para acompanhar o avanço dessa parceria. No entanto, Meloni assumiu o cargo de primeira-ministra no ano seguinte à assinatura do tratado, e as divergências políticas com Macron acabaram contribuindo para que o acordo, apesar de estar em vigor, não apresentasse novos avanços. Meloni dirige um governo de direita, liderado pela extrema direita, enquanto Macron é um centrista que governa com a direita, com uma agenda econômica liberal. Por isso, a cúpula é vista como uma oportunidade para destravar esse tratado e definir um roteiro para reforçar a cooperação entre os dois países. Cada delegação será representada por nove ministros, em discussões que devem abranger diversos temas.  Defesa e segurança No centro dos debates deve estar o fortalecimento da defesa europeia e da cooperação entre as indústrias de defesa da França e da Itália. Há ainda a expectativa de avanços em acordos ligados à segurança no Mediterrâneo. Em entrevista à imprensa italiana, Giorgia Meloni indicou que também estará em pauta o futuro da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano. O mandato da missão termina no fim deste ano e, então, está prevista a retirada gradual das tropas. Em meio às tensões na região, porém, Itália e França devem buscar uma cooperação para manter a presença internacional no sul do Líbano. Na véspera, Macron e Meloni se reuniram em Berlim A cúpula bilateral acontece um dia depois de Macron e Meloni participarem de uma reunião com Alemanha, Reino Unido e Polônia – grupo chamado de E5. O foco foi a preparação para a cúpula da OTAN, que acontece nos dias 7 e 8 de julho, em Ankara, na Turquia. O encontro contou também com a participação remota do secretário-geral da aliança, Mark Rutte. O objetivo era demonstrar unidade entre as principais potências europeias antes da reunião da OTAN. Dois temas estiveram no centro das discussões: o reforço da defesa europeia e a guerra na Ucrânia. A questão ucraniana vinha sendo discutida principalmente pelo chamado E3, formado por França, Alemanha e Reino Unido. A exclusão de Roma incomodava Meloni, que defende um formato mais amplo e representativo dos países europeus. Por isso, a participação da Itália no encontro de quarta-feira também teve um peso simbólico importante. Em relação à Ucrânia, no entanto, ainda existem diferenças entre Macron e Meloni. O presidente francês não descarta o envio de tropas europeias após um eventual cessar-fogo e defende uma adesão mais rápida de Kiev à União Europeia. A premiê italiana, por outro lado, adota uma posição mais cautelosa e se opõe às duas propostas. Sobre a entrada da Ucrânia no bloco, Meloni defende que o processo siga as regras tradicionais, sem prejudicar países dos Bálcãs que aguardam há anos para ingressar na União Europeia. França e Itália sinalizam deixar as divergências de lado A relação entre Emmanuel Macron e Giorgia Meloni foi marcada por divergências nos últimos anos. Macron defende uma Europa mais integrada, enquanto Meloni adota uma linha mais nacionalista. Ainda assim, a premiê italiana moderou o discurso desde que chegou ao poder. Apesar das diferenças com Macron, evitou apoiar abertamente adversários políticos do francês ideologicamente mais próximos a ela, como Marine Le Pen e Jordan Bardella. Mesmo assim, os dois líderes acumularam momentos de tensão ao longo dos últimos anos. Um dos episódios mais delicados foi a polêmica sobre o direito ao aborto durante a cúpula do G7 realizada na Puglia, em 2024. A ausência de uma referência explícita ao tema no documento final desagradou Emmanuel Macron, que fez críticas ao governo italiano. Outro ponto de atrito foi a tentativa de Meloni de se apresentar como uma ponte entre Donald Trump e os países europeus, estratégia que nunca foi vista com muito entusiasmo pelo governo francês. Por isso, a cúpula desta quinta-feira é interpretada como um gesto importante de reaproximação. O encontro sinaliza que Roma e Paris estão dispostas a deixar de lado parte das divergências dos últimos anos para fortalecer a cooperação entre os dois países.

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  6. Jun 24

    Alemanha se junta à França em projeto para desenvolver 'tanque do futuro'

    O parlamento da Alemanha deve se reunir nos próximos dias para aprovar ou não a aquisição da empresa de armamentos KNDS pelo governo do país. Berlim anunciou esta semana sua intenção de adquirir 40% da companhia, que é conhecida por ser a fabricante dos dois principais tanques de guerra europeus, o alemão Leopard e o francês Leclerc. O objetivo é juntar forças com o governo da França, que já é proprietário de 50% da KNDS, para trabalhar no desenvolvimento de um veículo que está sendo chamado de “tanque do futuro”.  Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf O movimento faz parte de um tabuleiro complexo que envolve a invasão da Ucrânia e a redução do poder bélico dos Estados Unidos na Europa. A aquisição significa um posicionamento estratégico da Alemanha para os próximos anos e também um reforço da parceria com a França para aumentar o poder de defesa da União Europeia, em um contexto em que a Rússia está gastando mais do que nunca em equipamentos bélicos. A KNDS é uma empresa que foi formada em 2015 com a fusão da alemã Krauss-Maffei Wegmann com a francesa Nexter.  Atualmente, o governo francês é dono de 50% da companhia, e a outra metade pertence à família alemã proprietária da Krauss-Maffei Wegmann. É essa parte, que vale em torno de € 16 bilhões, que o governo alemão pretende comprar. A empresa anunciou nesta quarta-feira (24) uma oferta pública de ações, o chamado IPO, nas bolsas de Frankfurt e Paris. Os governos da França e da Alemanha chegaram a um acordo para equalizar suas participações na empresa. Inicialmente, cada país deve deter cerca de 40%, com os 20% restantes destinados ao mercado. Ao longo dos anos, essa fatia estatal deverá ser reduzida para aproximadamente 30% para cada governo. Tanques ou drones? A importância dos tanques em um contexto de guerra moderna está no centro do debate, em um momento em que a Ucrânia ataca Moscou com drones, que são equipamentos baratos e leves, justamente o oposto de um tanque. Mas vale lembrar que a própria Ucrânia recebeu e está utilizando mais de 100 tanques alemães Leopard, justamente produzidos pela KNDS. E eles são considerados cruciais no embate com a Rússia, ainda que os drones sejam os protagonistas da guerra.  No mês de abril houve relatos de que as Forças Armadas da Ucrânia teriam alcançado um novo recorde utilizando tanques Leopard do tipo 2A6. Ele teria destruído um tanque russo T-72 B3 a uma distância de 5,5 quilômetros. Nunca antes um duelo de tanques tinha conseguido atingir uma distância tão longa. O recorde anterior era de 1991, da Guerra do Golfo, quando um tanque Challenger 1 da Guarda Real Escocesa destruiu um tanque T-55 iraquiano a uma distância de cerca de 5,1 quilômetros com um único projétil. Esses relatos do front carecem de uma comprovação exata, mas dão a dimensão da importância que os tanques de guerra ainda têm e terão num cenário de guerra europeia que a Alemanha considera certo nos próximos anos.  Quem passou pela feira militar Eurosatory, em Paris, na semana passada, foi apresentado ao protótipo de um sucessor do tanque de batalha Leopard 2. O conceito se chama MBT Vision 2032 e é criação de uma joint venture justamente entre a KNDS e a Rheinmetall, outra gigante da indústria bélica, que teve forte participação na Segunda Guerra Mundial. Como o nome indica, o MBT Vision 2032 está sendo planejado para 2032 e será uma espécie de Leopard 3, a terceira versão deste que é considerado o melhor tanque de guerra do mundo. Mas dessa vez, ele será alemão e também francês, em um cenário bastante diferente daquele da Segunda Guerra Mundial. Retirada americana da Europa O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse essa semana que a Europa precisa substituir rapidamente as capacidades militares que os Estados Unidos vão retirar do continente. Ele alertou que, se não forem tomadas medidas rápidas, esta retirada representará “um convite aberto” para o presidente russo, Vladimir Putin, "testar" a capacidade de dissuasão dos aliados europeus. Em Bruxelas já é dado como certo que os Estados Unidos reduzirão sua capacidade bélica na Europa em termos materiais, não exatamente em tropas.  Guerra antes e depois da Ucrânia A Ucrânia passou de problema a solução. As forças armadas do país estão testando todo tipo de armas e estratégias que a OTAN e a indústria bélica europeia não eram capazes de testar desde a Segunda Guerra Mundial. A KNDS construiu postos avançados de manutenção dentro do território ucraniano, não só para consertar mas também para aperfeiçoar armas de guerra em pleno combate.  A Ucrânia foi o primeiro país a receber o novo obuseiro sobre rodas RCH 155, também produzido pela KNDS. O Comissário Europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, disse também que as forças armadas da Ucrânia são "as mais fortes e poderosas da Europa" e acrescentou que "não há exército na Europa ou nos Estados Unidos capaz de conduzir uma guerra moderna" como a Ucrânia está fazendo. Ele defendeu a integração da Ucrânia na arquitetura de defesa europeia a partir de agora. Nesta quarta-feira (24), os líderes da Alemanha, França, Itália, Polônia e Reino Unido se reúnem em Berlim, com participação remota do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, para discutir caminhos diplomáticos para o fim da guerra na Ucrânia.

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  7. Jun 23

    Referendo do Brexit completa 10 anos, em meio a nova crise política no Reino Unido

    A votação pela saída do Reino Unido da União Europeia completa uma década nesta terça-feira (23), em meio à renúncia de mais um primeiro-ministro britânico. Dez anos depois, o cenário político continua tumultuoso: o país teve seis chefes de governo nesse período. Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres Após a vitória histórica dos trabalhistas em 2024, que marcou o retorno do partido ao poder com a promessa de restaurar a normalidade, Keir Starmer – hoje um dos líderes mais impopulares do país – abre caminho para uma possível renovação interna no partido. O nome mais cotado para ocupar o cargo de primeiro-ministro é o de Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, um político carismático e que muitos acreditam estar mais alinhado aos problemas enfrentados. Ele é apontado como único capaz de conter a ascendência do arquiteto do divórcio do Reino Unido com a União Europeia, Nigel Farage, líder do Reform UK.  Farage comanda o avanço da extrema direita e causa apreensão tanto em conservadores moderados quanto em liberais, com a pauta anti-imigratória, que continua sendo o ponto central da agenda política que motivou o Brexit. Ainda assim, uma pesquisa recente da consultoria Ipsos indica uma mudança de humor: quase 60% dos britânicos votariam hoje pelo retorno ao bloco europeu em um novo referendo. O sentimento é diferente entre residentes da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia. Uma pesquisa do YouGov indicou que entre os escoceses a insatisfação com o Brexit sobe para 75%. Imigração Durante o período em que vigorou o acordo de livre circulação de mercadorias e pessoas, o número de europeus vivendo no Reino Unido subiu substancialmente. Com a aprovação do Brexit – que muita gente acreditou ser o preço a se pagar para erguer muros nas fronteiras e melhorar a economia –, o número de imigrantes, no entanto, continuou a aumentar. Sem os europeus, as universidades passaram a recrutar estudantes internacionais de outras partes do mundo, muitos deles acompanhados de suas famílias. O sistema público de saúde também precisava – e ainda precisa – de mão de obra estrangeira para dar conta do serviço. O governo britânico concedeu vistos humanitários a ucranianos e cidadãos de Hong Kong. Os conservadores apertaram as regras de imigração, e o fluxo de entradas e saídas foi controlado, mas esses dados não estão diretamente relacionados ao Brexit. Conflitos ao redor do mundo, além das crises climática e econômica no pós-Covid, forçaram muitos migrantes sem documentação, especialmente da África e da Ásia, a enfrentar a travessia perigosa do Canal da Mancha em embarcações precárias, chegando à Inglaterra para pedir asilo político. Dez anos depois da votação, a questão migratória continua a dividir o país e alimenta a ascensão do partido Reform UK, de Nigel Farage. Economia A previsão pós-Brexit era catastrófica, e é importante também levar em conta o impacto das guerras, do tarifaço do presidente norte-americano, Donald Trump, e da pandemia. O país não chegou a mergulhar numa recessão, mas está mais pobre – ou menos rico – do que antes. A economia encolheu cerca de 6%, segundo o Banco Central da Inglaterra, enquanto os investimentos caíram 18%. A União Europeia continua, de longe, a ser o principal parceiro comercial do Reino Unido, embora agora em condições menos favoráveis desde a saída do bloco, com barreiras alfandegárias, exigências sanitárias e maior regulação. A promessa de autonomia para negociar com quem bem entendesse resultou em acordos de livre comércio com Índia, Austrália e Nova Zelândia, do outro lado do mundo, mas não foi suficiente para compensar a perda de dinamismo nas trocas com os vizinhos europeus. Política abalada com Brexit Durante a última campanha eleitoral, que levou à vitória histórica dos trabalhistas em 2024, e ao longo dos anos recentes, a centro-esquerda do primeiro-ministro Keir Starmer evitou tocar no tema do Brexit – em parte porque muitos de seus eleitores, sobretudo em cidades pós-industriais, votaram pela saída do bloco. Com o crescimento do partido Reform, de Nigel Farage, Starmer passou a adotar um discurso mais duro sobre imigração e chegou a afirmar que, sem controle das fronteiras, o Reino Unido se tornaria uma “ilha de estranhos”. A declaração gerou críticas, e o premiê recuou – tarde demais. Uma parcela significativa dos eleitores trabalhistas, decepcionados com políticas sociais consideradas mais alinhadas à direita, migrou para o Partido Verde ou até mesmo para o Reform, de extrema direita, em busca de algo novo. Resta saber qual será a política migratória adotada por seu possível sucessor, Andy Burnham. Embora tenha se posicionado contra a saída do Reino Unido da União Europeia, ele foi eleito em um reduto que votou a favor no referendo. Com a percepção crescente de que o Brexit foi um péssimo negócio para o país, o governo britânico tem buscado uma reaproximação com a Europa continental. Um exemplo concreto era a cúpula marcada para 22 de julho, que deveria tentar fechar um novo acordo sanitário e um programa de mobilidade para jovens voltarem a estudar e trabalhar entre o Reino Unido e a União Europeia. Com a renúncia de Starmer, o encontro foi temporariamente adiado, nesta terça-feira, até a confirmação do novo chefe de governo britânico.

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  8. Jun 22

    Ultraliberal eleito na Colômbia promete respeitar a Constituição e governar para os que pensam diferente

    A Colômbia elegeu o advogado penalista e empresário Abelardo de la Espriella, de 47 anos, para governar o país pelos próximos quatro anos. O ultraliberal passa a ser a peça colombiana num mapa regional dominado pela extrema direita. O candidato da esquerda, Iván Cepeda, aceitou de forma provisória o resultado da contagem rápida, à espera do definitivo dentro de alguns dias. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires No discurso de vitória, Abelardo de la Espriella adotou um tom mais amistoso e prometeu respeito à Constituição de 1991 e à oposição política, maioria no Congresso. Diante de uma diferença de apenas 250 mil votos e de uma polarização que dificulta a governabilidade, o eleito pediu a união dos colombianos, inclusive dos que pensam diferente. O candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, sem nenhuma experiência prévia na política, venceu com 49,6% dos votos. O senador Iván Cepeda ficou com 48,7%. A diferença entre os dois foi de apenas 250 mil 830 votos – menos de 1 ponto percentual, exatamente 0,96%. Num país onde o voto não é obrigatório, votaram 63,6% dos colombianos aptos a votar, um recorde. Mas esse resultado preliminar, tão apertado, leva à possibilidade de uma recontagem, pelo menos parcial, dos votos. Com um tom sereno, o candidato derrotado, Iván Cepeda, reconheceu o resultado preliminar, mas avisou que vai pedir a impugnação de 33 mil mesas de votação. Cepeda disse que “este primeiro resultado não é oficial nem vinculante” até que venha “o resultado final” da contagem oficial. O presidente Gustavo Petro foi mais enfático ao afirmar que “ainda não é possível proclamar nenhum eleito”, que “só a contagem definitiva determina quem é o presidente” e que há “evidências de que o processo teve muitas irregularidades”. O procurador-geral, Gregorio Eljach, no entanto, afirmou que não houve um único fato que tenha afetado a transparência nem a tranquilidade da eleição. Derrota implicitamente reconhecida Apesar das ressalvas, Iván Cepeda fez um discurso em que a derrota estava implicitamente reconhecida, sem admiti-la de forma definitiva. Avisou ao eleito que “não permitirão um recuo nas conquistas sociais que foram construídas na Colômbia ao longo destes quatro anos” do governo de Gustavo Petro. Disse também que está disposto ao diálogo e a acordos, desde que sejam respeitosos, e que decisões não podem ser impostas de forma arbitrária ou autoritária. Assinalou ainda que o eleito deve “procurar um acordo nacional para resolver os problemas colombianos”. Ou seja, Cepeda assumiu o papel de oposição. Vencedor jura defender a Constituição Já o eleito, Abelardo de la Espriella, fez um discurso de vitória atrás de um vidro blindado. Ciente de um país dividido em partes praticamente iguais, pediu união como forma de facilitar a governabilidade. “Serei o presidente de todos os colombianos. Vou governar para todos”, afirmou. Garantiu que não haverá retaliações nem perseguições contra aqueles que pensam diferente ou que não votaram nele. Diante da resistência do presidente Gustavo Petro em reconhecer a derrota do candidato governista, Iván Cepeda, o eleito pediu que “respeitem a vontade do povo colombiano” e que “se abstenham de desatar um incêndio social”. Abelardo de la Espriella fundou o partido Defensores da Pátria em julho do ano passado, numa ascensão meteórica. Ao longo de 11 meses, passou de uma versão mais radical a uma mais moderada. Há dúvidas sobre até onde estaria disposto a forçar as instituições democráticas para aprovar propostas consideradas controversas, como retirar a Colômbia da Organização dos Estados Americanos ou das Nações Unidas. Para responder às críticas, o eleito jurou “defender a Constituição com extrema coerência” e afirmou que vai respeitar a atual Carta de 1991, afastando a ideia de uma nova Assembleia Constituinte. Em conversa com o cientista político Fabián Cárdenas, do Departamento de Direito Internacional da Universidade Javeriana de Bogotá, a avaliação é que, se mantiver esse compromisso, Espriella fará um governo democrático. Ajuste fiscal A possibilidade de reação social a um ajuste fiscal é considerada real, especialmente se houver cortes em direitos adquiridos. O déficit fiscal do país é de 6,5%, e o eleito prometeu reduzir o tamanho do Estado em 25% ao longo do mandato. Segundo Humberto Librado, diretor do Departamento de Ciência Política da mesma universidade, há risco de tensão nas ruas caso benefícios sociais sejam atingidos. Para Fabián Cárdenas, a capacidade de mobilização social está sobretudo na esquerda ligada a Gustavo Petro e Iván Cepeda, do Pacto Histórico. Ele avalia, porém, que será difícil eliminar direitos adquiridos, já que as mudanças precisam passar pelo Congresso, onde o Pacto Histórico tem a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado. Ciente da capacidade de mobilização da esquerda, Abelardo de la Espriella pediu que opositores se abstenham de “semear o terror”. Disse que terão todas as garantias para exercer a oposição, desde que dentro da lei, e advertiu contra qualquer tentativa de estimular a violência. Mudança no mapa regional Com esta eleição, a América do Sul fica metade à direita ou à extrema direita; metade à esquerda, considerando que o Brasil ocupa metade do mapa. No Brasil, que terá eleições dentro de quatro meses, a expectativa é que líderes da extrema direita da região usem as redes sociais para apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula. Segundo Fabián Cárdenas, o impacto dessa influência externa tende a ser “nenhum” ou “muito limitado a determinados segmentos políticos”, já que o Brasil tem um processo eleitoral próprio e já passou por uma experiência recente com a extrema direita.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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