Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 14h ago

    Brasília aposta em pragmatismo com Washington, mas espera teste político nas urnas dos EUA

    Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e a ida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, o governo brasileiro se prepara para renegociar as bases da relação bilateral com Washington. A aposta em Brasília é a de que ainda há espaço para um entendimento pragmático entre os dois países. Mas a dimensão dessa possibilidade dependerá, em boa medida, do resultado das eleições de meio de mandato americanas, na próxima terça-feira. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília A avaliação no Palácio do Planalto é que os dois países precisam primeiro concluir o reajuste de forças políticas pelo qual estão passando. Depois do Brasil, é a vez de os Estados Unidos irem às urnas para escolher senadores e deputados, em uma votação que deverá dar uma indicação mais clara do que esperar do presidente Donald Trump daqui para frente. No governo brasileiro, a leitura é que uma eventual perda de controle republicano de uma ou das duas Casas do Congresso pode criar dificuldades adicionais para o avanço da agenda de Trump. Isso, avaliam interlocutores do Planalto, poderia significar uma mudança de postura em relação ao Brasil. É justamente nesse ponto que está o principal desafio da diplomacia brasileira: calibrar o discurso da soberania nacional sem fechar as portas para a negociação. Segundo fontes, não há divergências consideradas incontornáveis entre os dois países. O problema, na avaliação do governo, é saber até que ponto Washington estará disposta a separar os interesses estratégicos da pressão política. Em Brasília, não se descarta a possibilidade de novas sanções norte-americanas contra o Supremo Tribunal Federal, especialmente contra o ministro Alexandre de Moraes, que determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro. Leia tambémDe Sanders a Mamdani: socialistas ressurgem fortalecidos antes das eleições de meio de mandato nos EUA Planalto vê legitimidade eleitoral como trunfo Ainda assim, integrantes do governo lembram que, mesmo sob sanções no ano passado, o Brasil continuou negociando com os Estados Unidos e conseguiu reverter parte das medidas adotadas por Washington. A margem de mais de 4,4 milhões de votos que garantiu a vitória de Lula é vista pelo Planalto como um fator adicional de legitimidade política e de redução do espaço para questionamentos externos ou tentativas de interferência norte-americana na política nacional. Do lado americano, porém, a eleição de Lula é percebida em Brasília como uma derrota política para a estratégia da administração Trump na região. O Brasil era considerado uma peça importante da política de Washington para ampliar sua influência no hemisfério em um contexto de avanço de forças políticas de direita na América Latina. As primeiras declarações de Trump depois da eleição brasileira reforçaram essa percepção ambígua. O presidente americano afirmou que não havia apoiado nenhum dos candidatos e declarou que gosta de Lula, mas também mencionou a possibilidade de fraude eleitoral. No Planalto, a avaliação foi a de que Trump tentou falar simultaneamente a públicos diferentes. Por isso, o governo decidiu não divulgar uma nota oficial nem orientar Lula a responder diretamente às declarações. Coube ao vice-presidente Geraldo Alckmin fazer o contraponto público, preservando o canal de diálogo entre os dois chefes de Estado. Leia tambémDa eleição brasileira aos protestos contra Trump, falta de transparência da Meta preocupa especialistas Casa Branca dá sinais contraditórios Essa estratégia, de acordo com interlocutores do governo, vem sendo adotada desde o ano passado, quando a relação bilateral começou a se deteriorar de forma mais acentuada. Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras afirmam perceber sinais de desgaste dentro do próprio governo americano em relação ao impasse com o Brasil. A leitura em Brasília é que a Casa Branca estaria dividida entre uma ala mais ideológica, associada ao secretário de Estado Marco Rubio, e setores mais técnicos que defendem a manutenção de negociações com o governo brasileiro. Mesmo diante dessas divergências, um canal formal de diálogo continua aberto entre os dois países. Após o último telefonema entre Lula e Trump, os governos criaram um grupo de trabalho para discutir modalidades de negociação que vão além da questão tarifária. Os Estados Unidos ficaram de apresentar uma proposta para ampliar a pauta das conversas, mas o processo acabou ficando em suspenso durante o período eleitoral brasileiro. Investimentos seguem na mesa de negociações Segundo fontes do governo, Brasília está aberta a receber investimentos americanos, inclusive em áreas consideradas estratégicas, como o setor de minerais críticos. O interesse brasileiro, contudo, vem acompanhado de uma condição: que sejam respeitados os interesses estratégicos do país. No governo, a disposição para negociar não significa abandonar a política externa de diversificação de parcerias construída nos últimos anos. A orientação é preservar simultaneamente os vínculos com os Brics, a China, a Índia, os países europeus e outros parceiros internacionais. A mensagem transmitida por integrantes do Executivo é a de abertura ao diálogo com Washington, mas sem concessões consideradas incompatíveis com a autonomia da política externa brasileira. O desafio para Brasília, portanto, vai muito além da disputa comercial. Mesmo que Trump saia politicamente enfraquecido das eleições de meio de mandato, continuará na Presidência até 2028. E será com ele que o governo Lula terá de negociar. Pendências diplomáticas permanecem sem solução A relação entre os dois países acumula ainda uma série de questões diplomáticas pendentes. O governo brasileiro adiou uma decisão sobre a indicação do deputado americano Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Ao mesmo tempo, continua sem solução a situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, cujo status migratório foi alterado há alguns meses, restringindo suas entradas em território americano. Nos bastidores da diplomacia, o tratamento dado ao futuro embaixador dos Estados Unidos pode levar em consideração o princípio da reciprocidade. Caso a indicação de Perez seja confirmada, a concessão de um visto de entrada única ou múltipla poderá se tornar parte desse delicado jogo diplomático entre os dois governos. Apesar das tensões acumuladas, não existem, por enquanto, pedidos formais para um encontro bilateral entre Lula e Trump. Uma oportunidade de contato poderá surgir em dezembro, durante a cúpula de líderes do G20, prevista para os dias 14 e 15 na Flórida. Até lá, o governo brasileiro continuará observando atentamente o resultado das eleições legislativas americanas, consideradas em Brasília um teste importante para medir o espaço político de Trump e as perspectivas da relação entre os dois países nos próximos anos.

  2. 1d ago

    Deputado italiano pede investigação sobre processo de cidadania dos irmãos Bolsonaro

    O deputado italiano Angelo Bonelli, do partido Europa Verde, pediu explicações aos ministérios das Relações Exteriores e do Interior da Itália sobre as cidadanias italianas de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. O questionamento ocorre após Flávio Bolsonaro deixar a Argentina rumo aos Estados Unidos, na quarta-feira (28), usando um passaporte italiano, depois de ter o documento brasileiro cancelado por descumprir uma ordem da Polícia Federal para entregá-los. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Flávio e Eduardo tiveram a cidadania italiana reconhecida em 2023, enquanto Carlos recebeu o reconhecimento em 2024. O pedido foi feito com base no princípio do jus sanguinis – o direito à cidadania por descendência. A família teria apresentado como ascendente um bisavô de Jair Bolsonaro, originário do Vêneto, no norte da Itália. O questionamento sobre a obtenção dos passaportes foi encaminhado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália e ao Ministério do Interior, ainda na tarde de quarta-feira. Segundo o ofício, ao qual a RFI teve acesso, os processos de reconhecimento da cidadania de Flávio e Eduardo Bolsonaro foram concluídos em cerca de um ano. De acordo com datas fornecidas anteriormente pelo próprio governo italiano à Bonelli, os irmãos teriam feito a solicitação na Embaixada da Itália em Brasília nove dias depois de Jair Bolsonaro perder as eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o prazo legal máximo para a conclusão do processo seja de 730 dias, contados a partir da apresentação da documentação completa, a espera por uma convocação no consulado pode chegar a dez anos, em meio ao grande volume de pedidos no Brasil, segundo a interpelação. O documento apresentado pelo deputado italiano também afirma que, quando Flávio e Eduardo tiveram os processos concluídos, em 2023, ainda havia pessoas na fila inscritas desde 2018. Isso porque, por quase quatro anos, entre 2018 e 2022, as convocações para dar continuidade aos processos ficaram suspensas. A interpelação cita ainda que, em 2018, mais de 112 mil pedidos apresentados no Brasil aguardavam atendimento. Bonelli pede a abertura de uma investigação administrativa sobre o caso e solicita informações sobre as datas e etapas dos pedidos dos irmãos Bolsonaro, além de dados sobre a fila de espera à época. “A lei deve ser igual para todos: para os pobres coitados que esperam há dez anos e para os filhos dos poderosos”, afirmou o deputado em declaração enviada à RFI. A resposta à interpelação deverá ser dada oralmente em plenário, mas não há uma data prevista. Leia tambémQuem tem direito à cidadania italiana após aprovação da nova lei proposta pelo governo Meloni? Itália como possível destino futuro Flávio Bolsonaro e a família entraram nos Estados Unidos, na quarta-feira, com uma autorização temporária de permanência por motivos humanitários, conhecida como parole, segundo registros alfandegários. O prazo inicial de validade é de um ano, até outubro de 2027. A autorização não é um visto nem representa a concessão de asilo. Caso ele não consiga permanecer nos Estados Unidos, especula-se que a Itália possa ser um possível destino futuro. O caso também amplia na Itália o debate sobre aqueles que recorrem à cidadania italiana enquanto respondem à Justiça no Brasil. Essa preocupação aparece na interpelação apresentada por Bonelli, que menciona as investigações contra Flávio Bolsonaro por suspeitas de lavagem de dinheiro e irregularidades ligadas ao financiamento do filme Dark Horse. O texto cita Carla Zambelli, que tem cidadania italiana e foi condenada no Brasil a dez anos de prisão por invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça. Ela também foi condenada a cinco anos e três meses por constrangimento ilegal e porte ilegal de arma. Zambelli ficou presa por dez meses em Roma. O pedido de extradição referente ao primeiro caso foi negado. O segundo pedido, relacionado ao caso de porte ilegal de arma, ainda está em análise. “O caso da ex-deputada (...) demonstra o risco de a cidadania italiana ser usada para escapar à Justiça do próprio país”, afirma o deputado no documento enviado ao governo. Outro caso que ganhou repercussão é o de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Ele é réu no STF por acusações relacionadas à divulgação de mensagens sigilosas e atualmente vive na Itália. Tagliaferro não é um político, mas suas denúncias contra Moraes receberam amplo apoio de bolsonaristas. Carta de Flávio repercute na imprensa internacional A fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil e a carta que ele publicou na noite de quarta-feira ganharam destaque na imprensa italiana e em outros veículos europeus. Na primeira versão, o senador se declarou “o verdadeiro presidente eleito”. Depois, recuou e passou a se definir como “líder do Brasil”. O italiano Corriere della Sera informou que o presidente dos EUA, Donald Trump, depois de autorizar a entrada do senador e sua família nos Estados Unidos, afirmou que não pretendia se envolver na disputa sobre a eleição brasileira. No título, o jornal resumiu: “Trump o abandona”. O britânico The Guardian chamou a atenção para as diferentes versões da carta. Uma delas trazia um brasão antigo, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com Z – “o que alguns viram como mais um sinal da subserviência do clã Bolsonaro aos Estados Unidos”, escreveu o jornal. O nome oficial atual do país é “República Federativa do Brasil”. Já o espanhol El País destacou as comparações que Flávio fez entre sua saída do Brasil e a trajetória de líderes que viveram no exílio, como Charles de Gaulle, Rui Barbosa e José Martí.

  3. 2d ago

    Portugal vota orçamento do Estado em meio a crise habitacional

    Com protestos às suas portas, o Parlamento português vota nesta quarta-feira a proposta do Orçamento do Estado para 2027. A crise da habitação tornou-se o tema central do debate político no país, inflamada pelas recentes intervenções policiais contra acampamentos de manifestantes em Lisboa e no Porto. Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa O debate orçamentário no Parlamento abriu nesta terça-feira (27), sob o impacto direto de manifestações pelo direito à habitação digna que tomaram a região do Rossio, em Lisboa, e a Praça D. João I, no Porto, nas últimas semanas. Na madrugada de domingo, houve episódios de violência. A Polícia de Segurança Pública (PSP) cumpriu ordens para desocupar as praças onde dezenas de manifestantes acampavam, utilizando cacetetes e cães. Quem estava lá, invocando o direito constitucional à manifestação, recusava-se a sair. A intervenção resultou em pelo menos 33 feridos — nenhum deles policial — e 31 detidos por desobediência. A violência da ação policial contra grupos que ocupavam o espaço público de forma pacífica tensionou ainda mais o cenário. Na segunda-feira, a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), uma espécie de corregedoria da polícia, abriu um processo para apurar as circunstâncias da ação. A lista de demandas dos manifestantes inclui o fim imediato dos despejos e demolições quando não é oferecida uma alternativa habitacional, o congelamento e um teto para os aluguéis, um freio à compra de imóveis por fundos imobiliários e um aumento da oferta de habitação pública. Governo defende ação policial Em declarações na plenária parlamentar, o primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu a intervenção, dizendo que a polícia agiu com “profissionalismo e equilíbrio”. O partido Chega, de extrema direita, avaliou que houve vandalismo por parte dos manifestantes e que a ação policial foi justificada. Dos partidos mais à esquerda, todos criticaram a violência da repressão, vista como desproporcional. Nas discussões sobre o orçamento, também há desacordos. O primeiro-ministro alega que a falta de casas é reflexo de dez anos sem construção por governos anteriores e que não há margem para incluir novas medidas no Orçamento de 2027. Depois, elencou o que já fez no setor da habitação, como inventariar 83 mil prédios públicos que devem ser reformados e usados para moradia, mudar a lei de heranças para facilitar a venda de imóveis mesmo quando algum dos herdeiros não esteja de acordo e alterar a lei dos aluguéis para facilitar despejos, o que, segundo ele, vai dar mais confiança para que proprietários coloquem seus imóveis no mercado. Todos os outros partidos, contudo, pedem mais verbas para habitação pública, assim como há quem defenda a suspensão da nova lei dos aluguéis, por facilitar os despejos e deixar a população mais vulnerável. Crise habitacional Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que, após atingir um mínimo histórico em 2015, com apenas 9.625 casas concluídas, a construção de novas habitações voltou a subir a partir de 2016, alcançando cerca de 27 mil a 30 mil casas concluídas por ano atualmente, entre construções públicas e particulares. Esse ritmo de recuperação fica aquém da demanda real: o país constrói hoje apenas 23% do volume do início do século. Em 2002, por exemplo, foram concluídas 130 mil casas. Para complicar, entre 2019 e 2025, Portugal ganhou mais de 1 milhão de residentes — impulsionado sobretudo pelo saldo migratório —, enquanto construiu apenas 170 mil novas casas. Isso significa uma média de 6,4 novos residentes para cada casa construída, criando um enorme descompasso estrutural entre a oferta e a procura. A coligação do governo, liderada pelo Partido Social Democrata (PSD), que não tem votos suficientes para a aprovação, já tinha costurado uma aliança com o Partido Socialista (PS) para aprovar o Orçamento. Porém, isso foi antes de estourarem as manifestações por moradia. Ontem, mais uma vez, milhares de pessoas se reuniram em protesto em Lisboa, desta vez, às portas do Parlamento. O líder dos socialistas pediu a revogação da nova lei dos aluguéis, deixando subentendido que essa seria uma nova condição para seu apoio. Ainda não há indicações se Montenegro deve ceder em algum ponto para ajudar a viabilizar a lei orçamentária do próximo ano.

  4. 3d ago

    Israelenses vão às urnas em eleição de resultado incerto e decisiva para o futuro do país

    Os israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27) para eleger os 120 deputados da Knesset, o Parlamento de Israel, na primeira eleição legislativa realizada desde os ataques de 7 de Outubro, ocorridos em 2023. Cerca de 7,3 milhões de eleitores estão aptos a votar neste pleito, considerado decisivo para o futuro político do país e para a permanência do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no poder. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Ao todo, 34 partidos disputam as eleições, após a retirada de duas legendas. A disputa é liderada pelo Likud, partido da direita nacionalista comandado por Netanyahu, e pelo partido centrista Yashar, do ex-chefe do Exército israelense Gadi Eisenkot. Também figuram entre as principais forças o bloco centrista de Naftali Bennett e Yair Lapid, além de partidos como Os Democratas, de Yair Golan, e Israel Beiteinu, de Avigdor Lieberman. Netanyahu, o primeiro-ministro mais longevo da história de Israel, busca um novo mandato apostando no discurso de segurança pós-trauma do 7 de Outubro, enquanto a oposição tenta capitalizar o desgaste do governo após três anos de guerra em Gaza. No cenário atual, seguem em andamento a guerra na Faixa de Gaza, duas guerras contra o Irã, uma guerra contra o Hezbollah e a ocupação do sul do Líbano.  Os últimos quatro anos de mandato de Netanyahu foram intensos. As divisões internas em Israel começaram antes mesmo dos ataques do Hamas em 7 de Outubro. A grande discussão anterior às ações do Hamas girava em torno do projeto de Reforma do Judiciário, que foi apresentado pela atual coalizão de governo ao assumir o poder, em 29 de dezembro de 2022. Apenas seis dias depois da posse, o ministro da Justiça, Yariv Levin, anunciou o projeto da reforma, cujo objetivo central era alterar profundamente o equilíbrio de poderes em Israel, enfraquecendo o Judiciário e fortalecendo o Executivo e o Legislativo. As grandes manifestações de oposição ao projeto foram interrompidas pelos ataques do Hamas, que mudaram a história de Israel, dos palestinos e o curso dos acontecimentos em todo o Oriente Médio. Entendimento sobre importância histórica das eleições atuais Há um senso de marco histórico na imprensa israelense, mas também nas conversas do cotidiano e entre especialistas. Gal Ariely, cientista político da Universidade Ben Gurion, foca sua pesquisa no estudo da democracia em Israel. “A sociedade israelense precisa tomar uma decisão nessas eleições: manter Israel como um Estado judaico, democrático e liberal. Ou torná-lo um Estado autoritário”, disse em entrevista à RFI. Mas Ariely considera que é preciso aguardar, até porque as eleições atuais podem resultar em um impasse político, talvez levando Israel a voltar às urnas novamente. Segundo ele explica, existe uma divisão histórica no país entre esquerda e direita. Mas Benjamin Netanyahu, considerado personagem central do sistema político nos últimos anos – em especial desde 2019 –, transformou o questionamento de ser a favor ou contra Bibi (apelido de Netanyahu) no tema principal da política israelense. Ariely faz menção ao ano de 2019 porque este foi um marco que iniciou impasses sucessivos em que nenhum dos blocos, nem o governo, nem a oposição, conseguiu formar uma coalizão de pelo menos 61 parlamentares, a maioria mínima das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense, levando Israel a uma sequência de cinco eleições. Ksenia Svetlova é analista política e foi parlamentar israelense entre 2015 e 2019 pelo então bloco de centro-esquerda União Sionista. “Depois de quatro anos de governo extremista, os israelenses não vão escolher apenas partidos ou o futuro primeiro-ministro, mas que tipo de país querem. As eleições vão decidir se Israel será ou não um Estado democrático”, afirmou à RFI. O cenário atual As pesquisas apontam que nenhum dos blocos políticos consegue obter o mínimo de 61 parlamentares para a formação de uma coalizão de governo. Uma das figuras-chave no processo eleitoral é o presidente de Israel, Isaac Herzog. Se, durante os mandatos governamentais, o presidente atua como uma espécie de embaixador de Israel pelo mundo, após as eleições ele tem função primordial. Cabe ao presidente israelense se reunir com os partidos políticos depois da publicação dos resultados finais e então escolher qual legenda deverá ter o direito de tentar a formação de uma coalizão. Normalmente, o presidente dá o direito ao líder do partido mais votado de tentar essa formação. Mas ele leva em consideração o cenário mais amplo e busca entender as possibilidades para o estabelecimento de um governo. Segundo a imprensa israelense, o presidente Isaac Herzog estaria articulando nos bastidores uma tentativa de formar um governo de união nacional entre Gadi Eisenkot, líder do partido de centro-direita Yashar e que lidera a maior parte das pesquisas eleitorais, e o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do Likud, de direita. De acordo com informações de bastidores, Herzog estaria justificando este esforço por entender que, diante dos traumas pós-7 de Outubro, a sociedade israelense sofreria ainda mais impactos num cenário de sucessivos impasses e necessidade de eleições em sequência. O gabinete de Isaac Herzog negou a veracidade desses relatos, afirmando que o presidente não discutiu qualquer futura articulação com representantes políticos, mas confirmou que “Herzog havia falado sobre a importância de estabelecer um governo estável, sem manifestar preferência por nenhuma coalizão específica”. Leia tambémIsrael vai às urnas após guerra e enfrenta eleição mais imprevisível desde o ataque do Hamas

  5. 4d ago

    Lula promete 'mudar o jeito de governar’ e prega reconciliação; Flávio quer anular eleição

    No discurso da vitória das eleições presidenciais de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito com 51,79% dos votos neste domingo (25), disse que aprendeu "muitas lições" e vai ‘mudar o jeito de governar’ no seu quarto mandato. O petista salientou que será o presidente de 215 milhões de brasileiros. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, não reconheceu o resultado da eleição.   Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo "Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição”, afirmou Lula, ao celebrar a reeleição, depois de uma virada histórica nas urnas. Contrariando todas as pesquisas de intenções de voto, ele reverteu os resultados negativos do segundo turno, vencendo com uma vantagem de 4,3 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, o candidato bolsonarista teve 2,1 milhões a mais. Foi a primeira vez na história da democracia brasileira que um candidato perdedor da primeira votação promove uma virada desta amplitude. Em um hotel em São Paulo, ele agradeceu à participação massiva dos eleitores no pleito, dos jovens aos idosos, e à mobilização nas ruas e na internet. “Eu nunca ganhei eleição no meu primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno”, brincou o presidente, ao lado de caciques do PT e aliados. Flávio diz ser ‘impossível’ reconhecer derrota Flávio Bolsonaro acompanhou a apuração em Brasília, onde sua campanha havia preparado uma festa da vitória. Após a divulgação dos números finais da votação, ele disse que “é impossível” atestar a lisura do pleito, alegando que a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin de determinar a prorrogação do horário de votação por duas horas, devido a transtornos nos transportes de eleitores, significava “mudar as regras” do pleito. "Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo, mais uma vez, pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal”, disse o candidato derrotado. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, que durante a campanha foi acusado de favorecer Flávio, garantiu ter “absoluta segurança” de todo o processo eleitoral e parabenizou Lula pela "expressiva vitória nas urnas”. Ele sublinhou que a extensão da votação até às 19h não interferiu no resultado final do pleito. Lula diz estar pronto para lidar com Congresso mais conservador Em São Paulo, Lula salientou que “ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base no respeito à Constituição". "Já tem gente falando: 'o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador'. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, apontou o presidente. A partir de janeiro, o petista vai encontrar um Congresso ainda mais hostil do que no atual mandato: o PL conquistou a maior bancada da Câmara e do Senado, com 121 deputados e 21 senadores. "Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira”, destacou o petista. "Eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo”, reiterou, em referência ao candidato do PL. Regulação de plataformas digitais e acenos à direita Em seu discurso, o petista sinalizou que haverá mudanças na comunicação digital do governo e ressaltou o papel das plataformas durante o pleito. Ele prometeu regular a atuação das redes sociais. "A gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais”, frisou. “Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.” No pronunciamento e na comemoração da vitória na sequência, na Avenida Paulista lotada, Lula deu destaque ao papel do vice-presidente, Geraldo Alckmin, que, segundo ele, “salvou a democracia duas vezes”. Depois, mencionou as "muitas lições que aprendeu na campanha". "Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país”, indicou. O presidente também agradeceu a novos nomes da nova geração do partido: o deputado federal mineiro André Janones, que liderou a iniciativa nas redes Exército de Lula, e o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles. Fez, ainda, um aceno para o eleitorado da direita, ao prometer políticas de segurança pública. "Nós vamos devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, disse. Depois de participar da festa da vitória na Avenida Paulista, onde voltou a discursar e cantou o hino da Independência e o hino nacional junto com a multidão, Lula anunciou que voltaria a Brasília durante a madrugada.

  6. Oct 23

    Reta final da eleição tem Lula e Flávio Bolsonaro empatados e eleitores em suspense

    A campanha eleitoral chega à reta final afunilada, com empate numérico entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, deixando eleitores com emoção à flor da pele num resultado em que a única certeza é que será apertado. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília       A apuração dos votos no Brasil terá clima de apreensão, como uma final de Copa do Mundo em que os dois times têm chances iguais de vitória e torcedores apaixonados, mas apresentam projetos de país diferentes. Apoiadores de Lula, que passaram as últimas semanas apreensivos, mostram-se um pouco mais esperançosos e tentam explorar temas que repercutem desde o primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro. “O presidente Lula foi acusado das piores coisas. E hoje acabou de ser entregue, está à disposição da Justiça eleitoral e de todo o público, o sigilo do cartão corporativo do presidente, das visitas ao Palácio do Alvorada, as entradas no Palácio do Planalto, os voos da FAB, as contas pessoais do presidente, a autorização de quebra de sigilo de todos os parentes, filhos do presidente, netos, da esposa e primeira-dama. Está tudo aqui”, afirmou o secretário-geral da presidência, Guilherme Boulos.  Flávio Bolsonaro que no começou não consentiu, depois sentiu o peso, fez ponderações e entregou à justiça eleitoral procuração que permite as quebras de seus sigilos fiscal, bancário e telefônico. “Nós queremos saber o sigilo da compra da mansão de R$ 10 milhões do Flávio no acordo do BRB aqui em Brasília. Queremos saber o que tem na conta conjunta dele no banco Santander com o bandido Willer Tomaz na Iha da Madeira. Queremos saber todos os ganhos e entradas de Flávio nesse período”, instigou Boulos. A campanha do PL tem se mostrado um tanto perdida desde as críticas que o candidato recebeu no debate da Band, a ponto de o empresário Fábio Marçal, que até há alguns dias era parte importante da campanha de Flávio, sugerir a influenciadores ligados à direita que não critiquem Lula. “Falar mal de um cara que passou a vida tirando pessoas da miséria, ajudando pessoas a se formarem numa universidade? Não precisa falar mal dele. Mas a gente precisa admitir. Lula é como uma laranja. A laranja depois que dá todo o suco, vira um bagaço.” Para o cientista político Cláudio Couto (FGV-SP), muita coisa está em jogo, inclusive pela composição do Congresso Nacional.  “Se Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai ter uma facilidade significativa de compor uma maioria ali. O Lula, por sua vez, se ganhar terá mais dificuldade. O que, por outro lado, dá uma importância maior a uma eventual vitória dele no que se refere a freios e contrapesos, algo importante para o funcionamento da democracia.”                         Concentração de poder “Um presidente com um perfil populista como Flávio Bolsonaro, com maioria na Câmara, maioria no Senado, um bom número de governadores e ainda com chance de obter uma maioria na composição do Supremo Tribunal Federal, pode gerar muita concentração de poder e tendo em vista o caráter autoritário do bolsonarismo, a meu ver isso representa um perigo para a democracia brasileira”, destaca Couto. Um conjunto de fatores acendeu o sinal amarelo na campanha de Flávio Bolsonaro às vésperas do segundo turno. Uma das fontes de preocupação são as apurações da Polícia Federal que apontam proximidade e possíveis negócios entre Flávio e o empresário Willer Tomaz, que além das suspeitas no caso do INSS, movimentou R$ 5 bilhões em Bets. Até uma sala secreta para armazenar dinheiro, atribuída a Willer, foi descoberta no aeroporto de Brasília. Ele e Flávio são alvo de inquérito por lavagem de dinheiro. Outro destaque foi o engajamento de eleitores de Lula após o primeiro turno com atuações orquestradas nas redes sociais. Em transmissão ao vivo na internet, com participação de artistas, Lula pediu gás na reta final. “Nós temos uma grande batalha para fazer. E nosso exército é movido por uma causa. A causa chama-se Brasil, chama-se democracia, chama-se a luta contra o feminicídio, a luta pelo fim da jornada 6x1, a luta para garantir às mulheres que sejam tratadas com respeito nesse país.”           Já para recalcular a rota da campanha, Flávio cancelou uma transmissão ao vivo que também faria nessa quinta-feira. Um dia antes, em vídeo ao lado do cantor Gustavo Lima, o candidato prometeu manter programas sociais. “Eu estou aqui de coração aberto para colocar minha vida dedicada a quem precisa, ajudar as pessoas que precisam, consertar esse país de verdade. Está garantido o Bolsa Família, está garantido a aposentadoria, estão garantidos servidores.” Flávio e Lula se encontram na noite desta sexta-feira no debate da TV Globo.

  7. Oct 23

    Apoio de Trump a Netanyahu não muda cenário eleitoral polarizado em Israel

    No início desta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que apoiará o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante as eleições gerais do país no próximo dia 27.  Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel Apesar disso, do ponto de vista das pesquisas eleitorais, o cenário não mudou. O eleitorado segue dividido e nenhum dos blocos, nem o de Netanyahu e dos partidos que formam seu atual governo, nem o bloco de oposição consegue atingir o número mágico. Ou seja, os pelo menos 61 mandatos necessários para formar uma coalizão majoritária mínima no Knesset, o parlamento.  Mas houve reações. Gadi Eisenkot, líder do partido de centro-direita Yashar e que está em primeiro lugar na maioria das pesquisas, respondeu algumas horas depois ao anúncio de Trump durante entrevista ao vivo no telejornal mais assistido do país.  O ex-general e ex-chefe do Exército declarou que respeita o presidente norte-americano, mas afirmou que tem capacidade para substituir Netanyahu que, segundo ele, “lidera o pior governo da história de Israel”.  A imagem de Donald Trump em Israel O apoio a Trump já foi maior em Israel. Pesquisa do Índice de Democracia de Israel (IDI) divulgada em junho mostrava que 44% dos israelenses diziam acreditar que a segurança do país era uma preocupação central do presidente dos Estados Unidos. Mas este percentual já foi de 60% em março deste ano.  Há uma diferença de percepção entre as populações árabe e judaica de Israel. Entre os árabes-israelenses, houve crescimento diante da mesma pergunta: eram 43% em março, mas 59% em junho.  Já entre os judeus israelenses houve a queda que acabou por influenciar no resultado final da pesquisa: 41% disseram acreditar, durante o levantamento de junho, que a segurança do país era um tema central para Trump; mas em março, este dado chegou a 64%.  Em maio deste ano, em conversa com jornalistas nos Estados Unidos, Donald Trump chegou a brincar ao dizer que tinha “99% de aprovação em Israel” e que poderia se candidatar ao cargo de primeiro-ministro.  Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em junho mostrou que 81% dos israelenses têm opinião favorável sobre os Estados Unidos, o índice mais alto entre os 36 países onde a pesquisa foi realizada.  A campanha a quatro dias das eleições Um elemento que tem influenciado a campanha é a possibilidade de uma nova guerra com o Irã.  Segundo informação obtida pela RFI com fontes de segurança, os israelenses não acreditam que Estados Unidos e Irã vão chegar a um acordo. Na avaliação técnica dessas fontes – que não são políticos –, um novo confronto com o regime iraniano é apenas uma questão de tempo.  Mas também há o uso político deste tema. Especialmente por parte do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que declarou que o Irã voltou a desenvolver armamento nuclear. Em discurso durante cerimônia de graduação de oficiais do exército, Netanyahu acusou o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, de retomar as ambições nucleares do país.  “Só há uma forma de eliminar esta ameaça de uma vez por todas: derrubar o regime iraniano. Esta é a minha diretriz para as Forças de Defesa de Israel, o Mossad (o serviço de inteligência), e as agências de segurança”, declarou em discurso.  O que pode ocorrer em caso de guerra? Nunca houve o cancelamento de eleições em Israel, mas o adiamento ocorreu uma única vez, em 1973, devido à Guerra do Yom Kippur, quando uma coalizão de países árabes liderada por Síria e Egito invadiu Israel durante o dia do perdão, uma das datas mais solenes do calendário judaico.  As eleições estavam marcadas para acontecer em 30 de outubro, mas por causa da guerra foram realizadas em dezembro do mesmo ano.  Em entrevista ao Canal 12 israelense, o ex-primeiro-ministro Ehud Barak acusou Netanyahu de “se preparar para entrar em guerra de forma a adiar as eleições”.  No entanto, nos bastidores, o próprio Likud, partido liderado por Netanyahu, teme que um novo confronto antes das eleições possa ter efeito exatamente oposto no público israelense.  Segundo uma fonte de alto escalão do partido revelou ao Jerusalem Post, uma guerra contra o Irã e a possibilidade de haver prédios destruídos, ataques com mísseis, feridos e mortos em Israel “poderia dar a vitória (eleitoral) a Eisenkot e seus aliados”.  O chefe do Estado-Maior do Exército de Israel, Eyal Zamir, também manifestou preocupação com a realização das eleições no caso de um novo confronto.  Segundo a imprensa israelense, Zamir têm repetido em reuniões que uma nova guerra poderá levar ao adiamento do processo eleitoral. Em declarações públicas, tem deixado claro que neste período “a missão primária do exército é garantir que as eleições democráticas ocorram de forma segura e no cronograma estabelecido”.

  8. Oct 21

    Itália cria novo crime para punir violência em manifestações; medida faz parte de pacote de segurança

    O governo italiano aprovou um decreto com novas medidas de segurança dois dias após protestos estudantis se tornarem violentos em Milão, com saques a lojas e depredação de espaços públicos. O pacote inclui medidas voltadas a menores de idade, que representam a maioria dos detidos nos atos, segundo as autoridades. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O novo pacote foi anunciado na noite de terça-feira (20), após uma reunião do Conselho de Ministros. Uma das principais medidas é a criação do crime de participação violenta em manifestações. Quem participar de um grupo de cinco ou mais pessoas e, por exemplo, lançar pedras ou bombas, poderá pegar até cinco anos de prisão e pagar multa de até 20 mil euros. A pena aumenta se a pessoa estiver com o rosto coberto ou se alguém for ferido. O decreto também prevê que pais ou responsáveis paguem pelos danos causados por menores, tanto a bens públicos quanto privados. Outra mudança afeta a responsabilização penal de jovens de 14 a 18 anos. Agora, presume-se que pessoas dessa faixa etária são capazes de entender seus atos, a menos que provem o contrário. A maioridade penal na Itália continua aos 18 anos, mas, por lei, a partir dos 14, o adolescente já pode responder na Justiça juvenil.  A detenção preventiva, que antes valia apenas para adultos, agora também poderá ser aplicada por até 24 horas a menores considerados um risco. Além disso, o governo decidiu enviar 500 militares a mais para Milão, que permanecerão até o fim do ano. Manifestações vêm sendo realizadas em várias cidades italianas, como Turim, Bolonha e Roma. Milão, porém, concentrou os episódios de violência mais graves, com saques e danos a lojas e ao espaço público, no último fim de semana. Segundo a Confederação do Comércio (Confcommercio), os prejuízos devem chegar a 1 milhão de euros.  Ao anunciar o decreto, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que a violência vista em Milão é injustificável: “Não há nada de revolucionário em destruir e roubar. Destruir e roubar não é protesto: é crime. E a resposta do Estado precisa ser firme”, afirmou. A premiê disse ainda que entende a dificuldade dos jovens e trabalha para enfrentar estes problemas. “O sofrimento social nunca pode servir de desculpa para a violência. Em primeiro lugar, porque a violência aumenta esse sofrimento, não o resolve”, completou. Segundo Meloni, 330 pessoas foram detidas no país entre sábado e domingo. Ela, que lidera um governo de extrema direita com uma agenda anti-imigração, ainda fez questão de destacar que metade dos detidos é de origem estrangeira. De acordo com dados da polícia de Milão, dos 271 jovens levados à delegacia, 220 são menores de idade. As pautas dos protestos Os atos na Itália começaram, de certa forma, inspirados pelas manifestações estudantis na França, mas também têm pautas próprias. Na sexta-feira (16), estudantes protestaram por mais recursos e melhores condições nas escolas. Também se manifestaram contra a decisão do governo, no mês passado, de limitar o número de estudantes estrangeiros em cada sala de aula. Já o ato de sábado (17), em Milão, foi convocado, principalmente, com foco no alto custo de vida e para expressar a preocupação dos jovens com o futuro. A Itália está entre os países europeus com os salários mais estagnados. Segundo a OCDE, nos últimos 30 anos, os salários médios no país subiram apenas 2,3%, já descontada a inflação. Nesse contexto, aumenta a fuga de jovens, que buscam emprego em países vizinhos, com condições mais atrativas. Além dessas reivindicações, o governo Meloni também sofre pressão de outros setores. No sul do país, caminhoneiros bloqueiam estradas em protestos contra o alto custo dos combustíveis. Os bloqueios têm prejudicado o abastecimento de supermercados. Movimento estudantil marca novo protesto para sábado Depois dos últimos protestos, surgiu nas redes sociais um grupo que se apresenta como “Movimento 17 de Outubro” e que anunciou mobilizações todos os sábados, em oito cidades italianas, até a queda do governo. Nas postagens online, o movimento diz não confiar nas instituições nem no governo e critica a repressão. Em Milão, as autoridades locais se reúnem nesta quarta-feira (21) para coordenar as ações em atos futuros, em especial para o próximo sábado (24). O prefeito Giuseppe Sala, de centro-esquerda, afirmou que é preciso entender a origem do descontentamento dos jovens. Hoje, ele participa de um protesto convocado por uma central sindical com o lema “Milão não quer violência”.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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