A Semana na Imprensa

Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

  1. 3d ago

    ‘Cavalo de Troia’: Flávio Bolsonaro é peça de estratégia de Trump para ampliar poder na América Latina

    As revistas francesas desta semana repercutem as eleições no Brasil. Enquanto a L’Express analisa o voto sob o ângulo do projeto de influência dos Estados Unidos no Brasil e na América Latina, em uma entrevista na Le Point, o presidente argentino, Javier Milei, enquadra uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro como parte de uma guinada liberal e conservadora mais ampla no continente. A revista francesa L’Express apresenta Flávio Bolsonaro como a principal peça de uma estratégia que combina o projeto de retorno da família Bolsonaro ao poder com os interesses de Donald Trump na América Latina.  Candidato à presidência em disputa acirrada com Lula, Flávio aposta na proximidade do clã Bolsonaro com o governo americano e em um intenso trabalho de lobby em Washington. Em maio, ele esteve na Casa Branca ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro e de Paulo Figueiredo, onde pediu que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.  Segundo a revista, dois dias depois da visita, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atendeu ao pedido. O episódio foi apontado como exemplo da eficácia da influência dos Bolsonaro junto à administração Trump. Leia tambémDireita tem 'vitória política' após EUA classificarem PCC e CV como grupos terroristas, diz especialista No entanto, a reportagem sustenta que a ofensiva não se limita à candidatura de Flávio. Instalado nos Estados Unidos, Eduardo é apresentado como o principal articulador da família em Washington e responsável por cultivar há anos vínculos com a direita americana. A L’Express afirma que essa atuação contribuiu para medidas de pressão dos Estados Unidos contra o Judiciário brasileiro e relata que Trump também impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, posteriormente reduzidas a 25%. Para a revista, a convergência ultrapassa interesses eleitorais. Os Bolsonaro mantêm conexões com o universo político trumpista desde pelo menos 2018, quando Eduardo se aproximou de Steve Bannon e dos círculos da Conferência de Ação Política Conservadora. É nesse contexto que a L’Express define o clã Bolsonaro como o “cavalo de Troia” ideal para Trump no Brasil. Segundo a análise da revista, o presidente americano pretende restabelecer a supremacia dos Estados Unidos no continente, e a chegada de um aliado ao comando da maior economia latino-americana reforçaria esse projeto.  Flávio seria, assim, a face eleitoral brasileira dessa convergência, enquanto Eduardo atua nos Estados Unidos e outros integrantes da família desempenham funções complementares na reconquista do poder. Lula, por sua vez, procura transformar a ingerência americana em tema eleitoral e se apresentar como defensor da soberania nacional diante de um adversário que, segundo o pesquisador Oliver Stuenkel citado pela revista, estaria comprometendo interesses nacionais.  Leia tambémLula vai abrir Assembleia da ONU com defesa do multilateralismo e da soberania brasileira "Saneamento liberal" Enquanto a L’Express apresenta Flávio Bolsonaro como parte do projeto de influência de Trump na América Latina, uma entrevista com Javier Milei na revista Le Point mostra que o presidente argentino assume publicamente sua preferência por Flávio. Na longa entrevista publicada em duas partes no site da revista, Milei declara apoio explícito a Flávio Bolsonaro, a quem chama de “meu amigo”, e diz ter “grande esperança” de que ele vença a eleição presidencial de outubro.  Segundo Milei, uma vitória de Flávio permitiria realizar no Brasil o que ele define como o “saneamento liberal indispensável”. A declaração insere Flávio em uma articulação política regional mais ampla. Perguntado sobre o avanço de nomes conservadores no Chile e na Colômbia, Milei afirma que a América Latina vive uma reação popular contra o chamado “socialismo do século 21” e defende que essa mudança precisa produzir resultados concretos para se consolidar.

  2. Sep 26

    Leão XIV na França: mobilização popular e disputas dentro da Igreja marcam visita de papa

    As revistas francesas desta semana analisam a visita de Leão XIV à França, marcada por grandes mobilizações populares e por importantes questões religiosas, políticas e diplomáticas. Le Point analisa aprofunda as conexões pessoais, espirituais e históricas de Leão XIV com a França, examinando a viagem sob diferentes perspectivas. A publicação destaca, entre outros aspectos, a ligação do pontífice com figuras e referências espirituais francesas, particularmente sua devoção ao carmelita Laurent de la Résurrection, uma das figuras espirituais que mais influenciaram sua trajetória. Leão XIV visita, em Paris, o antigo convento dos Carmelitas, atualmente integrado ao Instituto Católico de Paris, onde viveu o religioso do século XVII. A revista também aborda a relação entre a visita e a realidade religiosa francesa, marcada por um processo de secularização, mas também por sinais recentes de renovação, especialmente entre adultos e jovens. A programação da viagem inclui uma grande missa na Praça da Concórdia e na avenida dos Champs-Élysées, para a qual as autoridades esperam cerca de 600 mil pessoas. Divergências L'Express, por sua vez, volta seu olhar para os bastidores políticos e diplomáticos e para a complexa relação institucional entre o Vaticano e a República Francesa. A visita ocorre em um contexto de divergências entre a Igreja e o governo francês em questões relacionadas ao fim da vida e à legislação sobre a chamada assistência para morrer. O encontro acontece também a cerca de sete meses da eleição presidencial de 2027. A viagem, oficialmente classificada como uma “viagem apostólica”, não terá o formato de uma visita de Estado tradicional. A publicação também aborda a dimensão logística excepcional do evento. A Igreja da França estima em € 27 milhões o orçamento necessário para organizar os quatro dias de visita, que incluem Paris, Lourdes e Metz. Mais de um milhão de pessoas são esperadas nos diferentes momentos do programa. Abusos sexuais Já Le Nouvel Obs concentra sua análise nas divisões ideológicas que atravessam o catolicismo francês, examinando a tensão entre diferentes correntes e suas visões sobre o lugar da religião na sociedade e no espaço público. A publicação aborda particularmente a oposição entre católicos mais progressistas, que defendem uma relação compatível entre fé e laicidade, e setores tradicionalistas e identitários que buscam uma presença mais forte do catolicismo no espaço público e cultural. Nesse contexto, são analisados também o papel das redes sociais, dos influenciadores e das novas formas de mobilização católica. A visita de Leão XIV ocorre, assim, em um momento de forte exposição pública da Igreja na França: de um lado, a instituição enfrenta o legado dos abusos sexuais cometidos no seu interior e as questões relacionadas à secularização; de outro, mobiliza centenas de milhares de pessoas em torno da visita do papa. O pontífice deverá inclusive encontrar, em Lourdes, sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero.

  3. Sep 19

    Inteligência Artificial pode dominar a internet? Especialistas divergem sobre os riscos

    As revistas semanais francesas analisam as declarações apocalípticas sobre o poder destruidor da IA, impulsionadas por alertas emitidos por figuras importantes do setor de tecnologia. Entre os nomes citados nas matérias estão Dario Amodei (CEO da Anthropic), que alertou para o risco de um enxame de agentes de IA assumir o controle de toda a internet em um prazo de seis a 12 meses; Jacob Coxon (ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic), que afirmou que as pessoas que desenvolvem IA acreditam que a tecnologia poderia "matar a todos nós até o final da década"; Alex Turner (ex-pesquisador da Google DeepMind), que estima em 25% a 30% a probabilidade de a IA causar a morte de pelo menos um bilhão de pessoas até 2050; e Bill Gates (cofundador da Microsoft), que recentemente intensificou seus alertas sobre os impactos da IA no mercado de trabalho e os riscos sociais associados à tecnologia. A revista Le Nouvel Obs concentra sua análise na viabilidade técnica e econômica de "desconectar" ou desligar a inteligência artificial diante de uma emergência. A publicação destaca a extrema dificuldade de acionar um "botão de emergência", uma vez que as IAs modernas operam de forma descentralizada em centenas de milhares de servidores essenciais ao funcionamento dos hospitais e da economia global. Além disso, a revista ressalta experimentos em que modelos de IA sabotaram mecanismos de desligamento ou se autorreplicaram, somados à relutância dos gigantes da tecnologia em interromper sistemas que geram bilhões de dólares em receitas. Perda da capacidade de aprender Já Le Point aborda o tema a partir do ponto de vista de Aidan Gomez, cofundador da Cohere e um dos criadores da arquitetura Transformer, apresentado como uma "voz discordante" diante do alarmismo do Vale do Silício. Gomez rejeita os cenários de fim do mundo, argumentando que o debate está encurralado entre promessas utópicas e o catastrofismo existencial. Ele defende a implantação de modelos previsíveis, voltados ao mercado corporativo e submetidos a estrito controle humano. Para Gomez, a IA é fundamental para relançar o crescimento econômico mundial, e o verdadeiro perigo não está na destruição da humanidade pelas máquinas, mas em um "apocalipse cognitivo" provocado pela perda de nossa capacidade de aprender. Em entrevista exclusiva à L’Express, Bill Gates defende a necessidade de regulamentação para mitigar os impactos da IA sobre o emprego nos países ricos, ao mesmo tempo em que destaca o potencial transformador da tecnologia nas áreas da saúde e da agricultura em países em desenvolvimento da África e da Ásia. O cofundador da Microsoft alerta ainda que não se deve confiar nas limitações atuais dos modelos de linguagem nem presumir que a atual transição tecnológica seguirá os padrões do passado. Segundo ele, os efeitos sobre o mercado de trabalho poderão ser significativos já nos próximos dois a três anos. Gates também defende o debate sobre medidas como a taxação de robôs e a reserva de determinadas vagas para trabalhadores humanos. Ao mesmo tempo, ressalta que a IA poderia melhorar a gestão pública, inclusive nos sistemas fiscais e previdenciários, desde que alimentada com dados adequados.

  4. Sep 5

    O que pensa o coach de alguns dos principais empresários da França

    O psiquiatra e coach francês Éric Albert é uma figura relativamente desconhecida do grande público, mas extremamente influente nos bastidores do empresariado da França. A revista Le Point acaba de publicar uma extensa reportagem sobre ele, que já trabalhou com dirigentes de cerca de dois terços das empresas do índice CAC 40, as maiores companhias listadas na Bolsa de Paris. Para Éric Albert, o sucesso dos grandes executivos depende menos da inteligência técnica e mais da capacidade de administrar emoções, escutar equipes e lidar com o próprio ego. A principal tese defendida pelo coach é que a inteligência emocional diferencia os líderes de alto desempenho, segundo a reportagem. Albert argumenta que os melhores alunos nem sempre são aqueles que chegam mais longe profissionalmente. O fator decisivo seria a capacidade de controlar impulsos, gerir ansiedade e adaptar comportamentos diante de situações complexas. Essa ideia é ilustrada pela reportagem com o famoso "teste do marshmallow", experiência psicológica que mede a capacidade de adiar recompensas imediatas. Para Albert, essa competência é mais determinante para a liderança do que os diplomas de elite obtidos em instituições como a École Polytechnique ou a antiga École Nationale d'Administration (ENA), ambas na França.  O maior perigo para os dirigentes: a arrogância Outro ponto que chama atenção é a visão de Albert sobre o chamado "hubris", termo grego associado ao excesso de confiança e à arrogância. Segundo ele, muitos líderes acabam acreditando que não precisam de ajuda porque são inteligentes ou ocupam posições de poder. A reportagem relata inclusive que, apesar de intermediários tentarem organizar encontros entre ele e Emmanuel Macron, o presidente francês jamais aceitou. Para Albert, a crença de que não se precisa de aconselhamento está entre os maiores riscos para quem exerce funções de comando.  O poder da escuta Ao contrário da imagem estereotipada dos coaches motivacionais, que apresentam fórmulas prontas e discursos sobre alta performance, Albert é descrito por seus clientes como alguém cuja principal qualidade é ouvir. Seu trabalho consiste em oferecer aos dirigentes um espaço onde possam falar livremente sobre dúvidas, medos, conflitos internos e decisões estratégicas sem receio de vazamentos. A reportagem destaca que ele se torna depositário de segredos empresariais, financeiros e humanos, conhecendo muitas vezes antecipadamente processos de sucessão, fusões e mudanças de gestão. A condição fundamental para esse trabalho é a confidencialidade absoluta.  O líder não precisa só decidir, precisa convencer Talvez a observação mais relevante para gestores seja sua distinção entre competência técnica e capacidade de liderança. Segundo Albert, muitos executivos chegam ao topo por serem especialistas brilhantes. O problema surge quando passam a liderar equipes numerosas. Em suas palavras, ninguém ensina verdadeiramente a gerir pessoas. A partir daí, o sucesso depende da capacidade de persuadir, tranquilizar, ouvir e criar consenso. A reportagem cita como contraexemplo o ex-dirigente da Stellantis, Carlos Tavares. Embora reconheça sua competência estratégica, Albert avalia que ele teria operado dentro de um repertório comportamental muito limitado, baseado excessivamente em pressão e cobrança, sem conseguir adaptar seu estilo às diferentes circunstâncias. A necessidade de alguém que diga a verdade Outro ensinamento interessante é que, quanto mais alto alguém sobe na hierarquia, menor tende a ser o número de pessoas dispostas a contradizê-lo. A matéria reproduz o depoimento de Éric Lombard, ex-ministro da Economia da França, segundo o qual dirigentes acabam frequentemente tratados como "deuses vivos". Por isso, precisam ao seu redor de alguém capaz de dizer verdades incômodas. O papel de Albert seria justamente funcionar como esse interlocutor independente, livre das pressões políticas e corporativas que cercam os grandes executivos.  O segredo das empresas familiares A reportagem também mostra que parte importante de seu trabalho ocorre nas grandes empresas familiares. Um dos exemplos relatados é o processo sucessório da Sodexo. Em vez de o fundador impor sozinho a escolha do sucessor, Albert teria incentivado os herdeiros a construir coletivamente o método de seleção. O resultado foi a escolha de Sophie Bellon, aceita consensualmente pela família. Segundo a revista, a solução evitou conflitos e preservou a estabilidade do grupo.  A inteligência coletiva acima dos egos Para Albert, a grande questão das organizações modernas não é apenas encontrar líderes talentosos, mas fazer com que líderes talentosos trabalhem juntos. Seu foco está nos comitês executivos, os grupos que concentram o poder das grandes empresas. Ele considera que reuniões dominadas por disputas de ego ou pela falta de atenção comprometem a qualidade das decisões. Seu objetivo seria desenvolver o que chama de "inteligência coletiva", fazendo prevalecer o interesse comum sobre as rivalidades individuais. A grande mensagem da reportagem pode ser resumida assim: Os maiores líderes empresariais não fracassam por falta de inteligência ou conhecimento técnico. Eles fracassam quando deixam de controlar o próprio ego, perdem a capacidade de ouvir e deixam de compreender as emoções humanas.

  5. Aug 29

    Dilemas da inteligência artificial na França: o desafio escolar, as urnas de 2027 e a ameaça biológica

    As revistas semanais francesas mostram a inteligência artificial como uma força cada vez mais presente e transformadora, capaz de mexer com áreas centrais da sociedade — da educação à democracia e à segurança internacional. A Nouvel Obs aborda o impacto da IA sobre o sistema educacional francês. O uso dessas ferramentas pelos estudantes se tornou tão disseminado que já provoca debates sobre plágio, dependência e o chamado “descarregamento cognitivo”, quando parte do esforço intelectual é transferida para a máquina. Para os professores, isso cria um problema prático: como avaliar trabalhos feitos em casa quando não é possível saber quanto foi produzido pelo aluno e quanto pela inteligência artificial? As respostas ainda estão em construção e vão da reformulação dos métodos de ensino à adoção de medidas de precaução. Neurocientistas, por exemplo, defendem que assistentes de IA não sejam usados em sala de aula antes dos 12 anos, para preservar a aprendizagem de competências básicas e o desenvolvimento do pensamento crítico. Impacto político A L’Express, por sua vez, analisa o impacto político da IA nas eleições presidenciais francesas de 2027. Uma pesquisa exclusiva mostra o grau de desconfiança dos eleitores: 86% temem que a tecnologia seja usada para influenciar o resultado das eleições, e 40% a consideram uma ameaça direta à democracia. Apenas 3% dizem que seguiriam a recomendação de uma IA para escolher seu candidato — uma parcela pequena, mas que, em termos absolutos, representa cerca de 1,5 milhão de eleitores. A pesquisa também revela uma forte exigência de autenticidade, sobretudo entre os mais jovens. Os eleitores rejeitam especialmente o uso da IA em tarefas que envolvem diretamente a responsabilidade política dos candidatos, como escrever discursos ou elaborar propostas. Perigo das armas biológicas Já a Le Point chama atenção para outro risco muito grave: o potencial da inteligência artificial para facilitar o desenvolvimento de armas biológicas. A revista relata um experimento coordenado pelo MIT, no qual estudantes conseguiram encomendar fragmentos do vírus da gripe espanhola de 1918 a empresas de síntese genética, expondo falhas nos atuais sistemas de biossegurança. Com ferramentas de IA cada vez mais sofisticadas, pesquisadores demonstraram que é possível modificar moléculas biológicas perigosas de maneira a preservar suas características nocivas e, ao mesmo tempo, escapar dos mecanismos de detecção utilizados pelas empresas de síntese. O avanço tecnológico, nesse caso, está ocorrendo mais rapidamente do que a capacidade de governos e empresas de criar mecanismos eficazes de controle. Apesar dos alertas feitos por nomes importantes do próprio setor de tecnologia, a regulamentação continua fragmentada e não existem, em escala global, controles obrigatórios capazes de rastrear de forma sistemática transações potencialmente suspeitas.

  6. Aug 22

    Dificuldade de recrutar soldados revela desgaste russo e reconfigura guerra na Ucrânia

    As principais revistas francesas que chegaram às bancas nesta semana abordam a guerra na Ucrânia, em um momento em que o avanço terrestre russo está bloqueado pela falta de efetivo. Para as publicações, a nova fase do conflito, marcada por bombardeios e ataques de longo alcance, é um sinal de que a paz continua distante. A Nouvel Obs publica uma reportagem sobre a crescente dificuldade de recrutamento na Rússia. Oficialmente, o ingresso nas Forças Armadas do país é voluntário e regido por contrato, afirma a revista. Mas, diante das perdas no campo de batalha, as autoridades têm recorrido a métodos cada vez mais coercitivos. Relatos nas redes sociais que conseguem driblar a rígida censura russa descrevem jovens capturados nas ruas, detidos e ameaçados de responder por tráfico de drogas caso se recusem a assinar o alistamento. O presidente russo, Vladimir Putin, corre contra o relógio ao mesmo tempo que Kiev intensifica sua campanha de bombardeios com drones em território russo. Esse é, aliás, o foco de uma análise publicada pela revista Courrier International, que afirma ser “incontestável” o sucesso técnico das operações ucranianas. Os ataques ucranianos atingiram duas refinarias russas no início deste mês, reduzindo a capacidade de processamento do país em um terço. A Ucrânia também passou a mirar em armazéns da gigante do comércio online Wildberries, que fornece equipamentos militares a Moscou, causando prejuízos próximos de € 3 bilhões. “Paralelamente, os ataques no mar de Azov, que atingiram 236 navios-alvo somente em julho, reduziram a circulação marítima russa em três quartos nesse eixo crucial”, observa o semanário. Kerch: eterno campo de batalha A revista L’Express traz uma reportagem sobre o Estreito de Kerch, único ponto de passagem entre o mar de Azov e o mar Negro, descrito no título como “o eterno campo de batalha entre Rússia e Ucrânia”. “A crise no Estreito de Ormuz mostrou bem como os estreitos têm um papel crucial no comércio mundial”, explica o texto, ao recapitular as décadas de disputa pelo Estreito de Kerch entre Moscou e Kiev. A publicação lembra que, desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, as hostilidades se intensificaram na região, com a Ucrânia multiplicando ataques contra a ponte que liga a península da Crimeia à Rússia – território ucraniano anexado por Moscou em 2014. Em julho deste ano, uma vasta campanha ucraniana mirou em navios na região, atingindo uma centena de embarcações e afetando o tráfego marítimo russo. Para a revista, o principal objetivo é asfixiar a península da Crimeia, em uma batalha territorial, econômica e simbólica.

  7. Aug 15

    Israel investe em indústria bélica nacional e pressiona por alistamento de ultraortodoxos

    As edições semanais das revistas francesas abordam diferentes aspectos de Israel. L'Express trata da questão militar e L'Obs traz uma reportagem sobre os enclaves ultraortodoxos. Segundo a revista L'Express, o governo israelense está articulando um plano estratégico para reduzir sua dependência militar histórica dos Estados Unidos, prevendo um investimento de mais de € 90 bilhões nos próximos dez anos para fortalecer sua indústria nacional de defesa. Essa mudança de postura ocorre em um momento de desgaste diplomático, no qual apenas 16% da opinião pública americana apoia o envio incondicional de armas para o país. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem enfatizado que o futuro de Israel depende de sua própria força e de um sistema de produção de armamentos independente. Embora Israel continue dependente de tecnologias de ponta que não consegue fabricar, como os caças F-35 ou submarinos alemães, o país busca autonomia total na produção de munições, bombas de alta potência e drones. A reportagem de L’Express destaca que a relação com Washington está evoluindo para uma "Aliança 2.0" por meio de projetos como a "seção 224", que prevê uma integração profunda entre os complexos militares-industriais em áreas como inteligência artificial, computação quântica e fusão de dados de inteligência. Esse novo modelo de cooperação visa garantir a superioridade constante de Israel frente aos seus inimigos, mesmo diante de possíveis restrições políticas nas entregas de material bélico convencional. A realidade à parte dos ultraortodoxos Já a reportagem da L'Obs mergulha nas tensões internas da sociedade ao retratar os enclaves ultraortodoxos (Haredim), que vivem em uma realidade à parte e resistem ferrenhamente ao serviço militar. Com uma taxa de fecundidade de mais de seis filhos por mulher, essa comunidade representa hoje 14% da população, mas pode chegar a um quarto dos israelenses até 2050. Em bairros como Mea Shearim, a vida é regida pela observância estrita da lei judaica, sem smartphones ou televisão, e o foco principal dos homens é o estudo dos textos sagrados em detrimento da integração econômica ou social. Essa resistência à conscrição, herdada de 1948, foi invalidada pela Suprema Corte em 2024, gerando um impasse com as Forças de Defesa de Israel (Tsahal), que enfrentam escassez de soldados em meio aos conflitos atuais. A questão é explosiva para o governo, pois os partidos ultraortodoxos na Knesset possuem um peso político crescente e ameaçam derrubar a coalizão de Netanyahu caso seus membros sejam forçados a servir. Enquanto isso, a comunidade lida com altos índices de pobreza (34% das famílias) e uma estrutura social em que 80% das mulheres trabalham para sustentar os lares, enquanto a maioria dos homens se dedica exclusivamente à vida religiosa.

  8. Aug 8

    Imprensa francesa vê eleição brasileira como pleito decisivo entre soberania e ingerências de Trump

    A imprensa francesa descreve a eleição brasileira de outubro como um duelo marcado pelo desgaste, pela polarização e pela influência direta de Donald Trump. De acordo com Le Point, Les Échos, Le Figaro e Le Monde, Lula tenta se afirmar como "defensor da soberania" enquanto enfrenta críticas sobre economia, segurança e corrupção. Flávio Bolsonaro, por sua vez, carregaria o peso das investigações que cercam sua família e da eterna pressão norte-americana sobre o Brasil. O Le Point descreve a eleição brasileira de outubro como decisiva para o país e para a região. A revista francesa afirma que o Brasil, vulnerável no novo cenário de disputa entre potências, enfrenta uma democracia abalada pela guerra cultural. O texto apresenta a disputa como um novo confronto, ou um "eterno retorno", entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, agora por meio de Flávio Bolsonaro. Para o semanário, Lula, aos 80 anos, tenta se firmar como "defensor da soberania" e do vínculo com a China, enquanto Flávio Bolsonaro se apoia na figura paterna e enfrenta o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acusado de fraude. Leia tambémEleições brasileiras estão na mira da extrema direita global Instabilidade Le Point detalha ainda a situação econômica: crescimento baixo, inflação elevada, déficit público e dívida alta. O país, segundo a revista, vive uma “mexicanização”, com organizações criminosas controlando parcela significativa do PIB. O sistema político fragmentado e a polarização alimentam a instabilidade. Para a revista, a postura internacional do Brasil, baseada no multilateralismo, é pressionada pela disputa entre China e Donald Trump, que impôs tarifas de 50% e depois 37,5% sobre produtos brasileiros. O acordo Mercosul-União Europeia, firmado em 1º de maio de 2026, permanece, segundo a publicação, limitado pela falta de ambição europeia e pelo "ressentimento histórico do Sul global". Já o Les Échos adota uma leitura mais irônica ao destacar o desgaste de Lula após décadas de vida pública. O jornal observa que o presidente evita escolher um sucessor e insiste que “ninguém tem tanta experiência quanto eu”. A publicação ressalta que, num ambiente dominado pela polarização, o eleitor vota mais contra do que a favor. O jornal também lembra que Flávio Bolsonaro, seguindo os passos do pai, foi atingido por suspeitas de corrupção, reforçando a sensação de que a disputa se apoia mais no medo do adversário do que em projetos claros. Leia tambémLula larga na frente de Flávio, mas voto independente e direita pulverizada favorecem segundo turno A sombra de Trump Para o Le Figaro, a campanha aparece sob a sombra de Donald Trump. O jornal destaca que o presidente norte‑americano apoiou candidatos de direita na região e impôs tarifas sucessivas ao Brasil, reacendendo tensões comerciais. Lula reage com a bandeira da “soberania”, acusando Flávio Bolsonaro de incentivar Washington a prejudicar a economia brasileira. Segundo o jornal, o governo brasileiro chegou a negar vistos a representantes dos EUA para evitar “instrumentalização política” antes do pleito. O Le Monde reforça esse quadro ao relatar a convenção do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, onde Lula lançou sua campanha afirmando estar “em plena forma”. O jornal descreve o ambiente de forte polarização, o peso da criminalidade e da corrupção, e lembra que tanto Flávio Bolsonaro quanto um dos filhos de Lula enfrentam investigações. A publicação também menciona o discurso do presidente sobre defesa militar e proteção das terras raras, num contexto de disputa geopolítica envolvendo China, EUA e Europa.

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