O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. 18h ago

    Yara B. Chidiamassamba: “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”

    Desde cedo habituada a quebrar barreiras, Yara Benedito Chidiamassamba aprendeu com os pais que pode ser o que quiser. Foi assim que, aos 10 anos, ousou aventurar-se no desporto, mundo que, na sua infância, ainda era profundamente masculino. Pouco mais de uma década depois, sagrou-se campeã mundial de Tang Soo Do por Moçambique, o seu país de nascimento, onde coloca a formação em Arquitetura ao serviço de uma cidade para viver e partilhar, ao mesmo tempo que leva consciência humana ao conflito em Cabo Delgado. De passagem por Portugal, no âmbito do projeto GirlMove Academy, conversou com “O Tal Podcast”. Incapaz de ficar quieta, Yara Benedito Chidiamassamba encontrou no desporto uma forma de se manter em movimento e no Tang Soo Do mais do que uma arte marcial, um modo de vida, que “associa treino físico, espiritual e mental”. Uma combinação que, defende a moçambicana, é uma via de autoconhecimento e de ignição da consciência coletiva. “O Tang Soo Do não é sobre violência. É sobre te poderes defender, estares seguro de ti, daquilo que tu és, defender a tua família, a tua sociedade e país”. Incentivada desde cedo a superar expectativas, Yara conta que em Moçambique, o seu país de nascimento, “as raparigas não são tão incentivadas a praticar desporto quanto os rapazes”. Apesar das barreiras de género, a convidada deste episódio d’  “O Tal Podcast” não só conseguiu sagrar-se campeã mundial de Tang Soo Do, em 2012, como foi a única da delegação moçambicana a levar uma taça para casa, nesse ano.  Cerca de 15 anos depois do título, a mentalidade vencedora de Yara está consolidada como um dos seus principais cartões de visita. Arquiteta de formação, ainda durante a faculdade criou a plataforma Maquetheia, com a qual dinamiza workshops para crianças, usando maquetes para promover o direito à cidade e estimular uma consciência urbana.  Empenhada na intervenção cívica, Yara acabou por ser selecionada para o programa da GirlMove Academy, dedicado à liderança feminina e empreendedorismo social, etapa fundamental para assumir o desafio que se seguiu: trabalhar em ajuda humanitária. Foi assim que, em 2021, trocou Maputo por Cabo Delgado, região que enfrenta, desde 2017, um conflito armado que provocou milhares de mortes e deslocou mais de um milhão de pessoas. Através do VAMOZ — Voluntários Anónimos de Moçambique —, tem escutado e apoiado pessoas afetadas por este conflito: “As comunidades sentem-se esquecidas por estarem tão longe. O mais marcante para mim é podermos chegar lá, e apoiar as pessoas com o pouco que temos”. Também em Cabo Delgado, Yara está envolvida num projeto que aposta no bambu para abrir novos caminhos aos agricultores locais. A ideia é transformar esta planta numa fonte de rendimento, criando oportunidades económicas para as comunidades enquanto se promove uma relação mais sustentável com o ambiente. Na liderança de várias frentes, a convidada deste episódio d’”O Tal Podcast” considera que “a liderança é poder ser uma referência para alguém que também quer ser líder”. É esta visão que leva para o movimento Manas, que reúne mais de 300 jovens mulheres moçambicanas ligadas à educação, ao desporto e ao empreendedorismo. “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”. Ouça aqui a conversa com Paula Cardoso e Georgina Angélica. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Yara B. Chidiamassamba: “Uma pessoa pode fazer a diferença, mas se todos nos unirmos, podemos amplificar cada vez mais o impacto que queremos causar nas nossas comunidades”
  2. Oct 22

    Yonara Mateus: "Achava que tinha medo de errar, mas percebi que o que me assustava era acertar e não saber lidar com o sucesso”

    Na infância fez do dicionário companheiro de brincadeiras e acabou por se tornar a menina das palavras bonitas. Mais tarde, a vontade de cantar as músicas de Whitney Houston deu-lhe o impulso para aprender inglês, língua que se tornou ferramenta de trabalho. Hoje, Yonara Mateus desenvolve o projeto The English Affair, inicialmente focado no ensino do idioma de Shakespeare, e entretanto alargado a aulas de português para estrangeiros. Mais recentemente, aventurou-se na publicação do livro “Da boniteza das coisas”, com o qual iniciou uma trilogia em homenagem à sua ancestralidade feminina, em particular à sua avó Rosa.  Nascida em Angola, em 1983, Yonara mudou-se aos nove anos para Portugal, para fugir à guerra civil que assolava o seu país. Ao “O Tal Podcast”, revela uma infância marcada por um sentimento de não pertença, que a acompanhou até à idade adulta. De tal forma que a pergunta sobre onde seria, afinal, a sua terra nunca a abandonou: em Portugal, sentia-se rejeitada por ser negra; em Angola, para onde regressou aos 29 anos e viveu durante cinco, deparou-se com olhares moldados pelo colorismo, a partir da sua condição de “mulata”.  Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Yonara conta que alimentava a expectativa de contribuir para a mudança e melhoria das condições de vida em Angola, quando decidiu voltar, mas acabou por perceber que as soluções para os desafios locais teriam de ser construídas por quem os vivia mais de perto.  A experiência angolana também lhe permitiu desconstruir novas camadas da sua identidade, num caminho que culminou na capacidade de encontrar morada dentro de si. “Demorou quase 43 anos para chegar a esta conclusão de que a casa que eu procuro não é um lugar externo, um edifício, um país ou a minha dupla nacionalidade. É um mundo que tenho cá dentro e ao qual pertenço”. Em pequena, conta Yonara, era a criança que estudava o dicionário. Conhecida como a menina das palavras bonitas, foi através da tentativa de compreender o significado das letras das músicas de Whitney Houston que despertou a sua paixão pelo inglês. Essa relação com as línguas viria também a definir o seu percurso profissional: em 2013, fundou a The English Affair, uma escola dedicada ao ensino personalizado de inglês e português, onde procura criar experiências de aprendizagem mais humanas, flexíveis e ajustadas a cada pessoa: “Este gosto que tenho pelas línguas não era partilhado por toda a gente. Pelo contrário, para algumas pessoas era um sofrimento. É para essas pessoas que eu trabalho”. Entre a comunicação, o ensino e a escrita, há um fio condutor no seu percurso: a vontade de compreender o que nos torna humanos, e de encontrar formas mais autênticas de estar no mundo. Embora olhe muitas vezes para a vida e para o estado do mundo com desesperança, é na boniteza de ser que Yonara tem aprendido a encontrar o seu lugar, procurando sempre superar-se, mesmo perante os obstáculos que encontra pelo caminho. Foi também a escuta da sua intuição e a valorização da sua voz interior que a guiaram na criação do seu podcast ‘A Dor da Borboleta', projeto que reflete o seu próprio processo de transformação e a sua busca por uma maior humanidade e beleza, numa metamorfose constante, como a das borboletas.“Tudo o que tenho feito nos últimos anos para colocar a minha voz no mundo e sair do meu casulo tem nascido de um pedido cheio de amor, e de que é necessário dar voz àquilo que trago dentro de mim. Há pessoas que precisam de ouvir e eu própria preciso de o fazer para me transformar”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  3. Oct 8

    Welket Bungué: “Cresci a ouvir do meu pai que, para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300%. Isto diz muito sobre a ideia de meritocracia”

    Ator, realizador e artista multidisciplinar, o guineense-português Welket Bungué é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, no qual se cruzam as diferentes geografias, linguagens artísticas e cinematografias que marcam o seu percurso. Profissionalmente dividido entre Portugal, a Alemanha e o Brasil, Welket tem integrado várias produções internacionais, destacando-se o papel em “Crimes of the Future”, de David Cronenberg, que chegou à competição oficial do Festival de Cannes, mas não o projetou junto da imprensa portuguesa. A espiritualidade e a procura de um maior conhecimento de si próprio ganharam um lugar central na sua vida. Depois de uma experiência traumática vivida em 2023, no Rio de Janeiro, Welket iniciou um processo mais profundo de autoconhecimento, aproximando-se de diferentes tradições filosóficas, espirituais e conhecimentos ancestrais.  Ao “O Tal Podcast”, fala sobre a reprogramação da mente, a intuição, a oração, a gratidão e a importância de reconhecer tanto a luz como a sombra que existem em cada pessoa. “Quando se trabalha para ascender espiritualmente, isso implica agir conscientemente, praticar atos de bondade, às vezes sacrificando-te pelos outros, e isolares-te para meditar e ouvir o teu coração, o teu Eu Superior - essa mente universal e cósmica que pode dialogar connosco quando estamos em silêncio.” Para o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso, “o tempo é espiralar, circular e multidimensional”, e a forma como o vivemos não pode ser dissociada da cultura, do lugar, e da nossa própria compreensão de identidade. Questionando a lógica da produtividade associada às oito horas de trabalho, Welket defende a necessidade de recuperar tempo para cuidarmos de nós. É também a partir do seu próprio percurso que olha para o mundo artístico português. O esforço necessário para conquistar as oportunidades que lhe chegaram, a entrada no Conservatório e, mais tarde, a chegada a Cannes fizeram-no repensar a ideia de meritocracia e aquilo que está, ou não, ao alcance de um artista negro em Portugal. “Para ter uma oportunidade igual à dos meus pares, teria de trabalhar a 300% e não apenas a 100%”, afiança. Aliás, mesmo depois de integrar o elenco principal de um filme de David Cronenberg em competição oficial em Cannes, sentiu que o reconhecimento em Portugal ficou aquém do que esperava. Hoje, aponta que um dos problemas do país é “a incapacidade de absorção do talento dos filhos e das filhas que são produzidos neste território.” Entre a experiência e a transformação, Welket encontra na arte uma forma de transmutar o que viveu e de o devolver aos outros, ao mesmo tempo que vai demarcando o ofício de ator, da sua missão de vida. “A missão é perceber como, através do teu ofício, alavancas o que há de melhor nos outros.” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  4. Oct 1

    Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”

    Elga Fontes cresceu rodeada de histórias. Por influência dos pais e dos avós, cedo os livros tornaram-se parte da sua vida, e acabaram por se tornar parte essencial da sua identidade e percurso profissional. Hoje é tradutora, revisora, editora, criadora de conteúdos sobre livros e autora do projeto “Quem Me Lera”. Coordena ainda a Kiala — nome que significa “trazer luz” —, uma chancela da Vírgula d'Interrogação exclusivamente dedicada à publicação de autores negros em Portugal. Com raízes familiares em Angola e Cabo Verde e nascida em Portugal, Elga cresceu entre diferentes referências culturais, numa multiplicidade de vivências que lhe permitiu alargar os horizontes e questionar a ideia de uma única forma de ver e habitar o mundo. Mais tarde, enquanto leitora e profissional do setor editorial, deparou-se com uma realidade que a inquietava: a enorme sub-representação de autores negros no mercado português.  A criação da Kiala nasce dessa inquietação, mas também da vontade de intervir num mercado que considera pequeno e avesso ao risco. “Há muita produção de literatura por autores negros que não chega a Portugal. Muitos destes livros têm imenso sucesso, só que depois há um bloqueio que faz com que eles não cheguem cá.” Para Elga, esse ‘travão’ não pode ser dissociado do racismo estrutural: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar a uma editora.” Nesta conversa, fala ainda sobre a importância de divulgar livros e criar comunidades de leitores, estimulando hábitos de leitura, bem como sobre a experiência de partilhar recomendações literárias nas redes sociais, através do projeto “Quem Me Lera”. A aceitação do corpo, a liberdade de expressão e as referências que a foram transformando, não apenas como leitora, mas também como profissional, são também temas neste episódio, onde duas obras de Audre Lorde sobressaem: “Irmã Marginal | Sister Outsider”, e “Os Usos da Raiva”, ensaio que lhe permitiu repensar a forma de falar sobre o racismo. “Deu voz a tanta coisa que sentia e que tinha de calcar”, conta, peremptória na apreciação: “Mudou completamente a minha abordagem emocional à violência racista.” Entre sugestões de livros, publicações nas redes sociais e as novas funções editoriais, Elga reflete sobre identidade, representação e a procura de uma voz própria, mas também sobre a responsabilidade de abrir espaço para que outras vozes possam ser ouvidas. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”
  5. Sep 24

    Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”

    Há cerca de dois anos, Arlinda Norris foi atropelada em Nova Iorque, acidente que abriu um novo capítulo na sua história, recém-partilhada no livro biográfico “She Kept Going”. Em português: “Ela seguiu em frente”. Nascida em Portugal, e durante cinco anos educada em Cabo Verde, a autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, popularizada como “Nani do Pimba”, recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como viveu o sonho e o pesadelo americano. Aos 50 anos, Arlinda Norris olha para a sua história e revisita cada recomeço. “O que fiz quando perdi tudo? Quando estava a um dia de ficar ilegal nos Estados Unidos? Quando não tinha casa para morar, e estava com os meus filhos na rua? Quando não havia comida?”. As respostas, encontradas nos momentos mais difíceis da sua vida, ajudaram-na a construir o “Método RLynda”, traduzido em seis passos que prometem deixar para trás qualquer adversidade: Libertar, Escutar, Ceder, Navegar, Discernir e Reconhecer. Expressão das suas aprendizagens, o método voltou a ser testado há pouco mais de dois anos, quando Arlinda foi atropelada em Nova Iorque. “Estava na passadeira, a luz estava verde. Lembro-me de estar feliz. De repente, senti um grande impacto.”  Seguiram-se 13 operações e dois anos de reconstrução física e emocional. “Só me caiu a ficha mais ou menos um mês depois de estar em casa”, conta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso. A experiência determinou a escrita do livro “She Kept Going”, em que partilha os capítulos mais decisivos da sua trajetória.  Nascida e criada em Lisboa, com uma forte ligação às origens cabo-verdianas, Arlinda recorda como a sua infância e início de adolescência foram profundamente marcadas pela mudança para a Ilha do Fogo. “Fomos por 15 dias e voltámos cinco anos depois.” Sem os privilégios a que estava habituada em Portugal, a autora reconhece que foi aí que aprendeu a adaptar-se às circunstâncias. Mais tarde, já de volta à casa lisboeta, começou a dançar para músicos, como o angolano Paulo Flores, que acabaria por se tornar o seu primeiro namorado. Foi, contudo, com o português Emanuel que correu o país de lés-a-lés e pisou vários palcos do mundo, percurso que lhe valeu o epíteto de “Nani do Pimba”.  Até que o chamamento da maternidade se começou a impor. “Os 25 estavam a chegar, já estava cansada de estrada, de televisões, e disse: ‘Vou parar de dançar’”. Parou, viajou para tentar a sorte na cidade de Boston, mas viu-se na iminência de ficar em situação ilegal, desfecho que evitou com uma noite de trabalho num clube de striptease. Anos mais tarde, já casada com um basquetebolista, regressaria aos EUA para desfrutar o sonho americano, intensamente vivido até voltar a perder tudo. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  6. Sep 17

    Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”

    Estiveram cerca de 10 anos sem se ver, mas nunca perderam o contacto. Didier Ferreira e Diogo Rodrigues, professor e antigo aluno, respetivamente, voltaram a encontrar-se neste episódio d’ “O Tal Podcast, especialmente gravado para assinalar o arranque do novo ano letivo. Além de partilharem a importância do vínculo entre professores e alunos, os convidados de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflectem sobre a missão da escola.  Diogo estava no 11.º ano, com resultados que eram um “descalabro total” a Português, quando o professor Didier entrou em cena. Conheceram-se num centro de explicações e, no início, estavam ligados por um objetivo modesto: cabia ao professor garantir que o aluno conseguisse uma nota positiva no exame, para não prejudicar a média. Contudo, a relação próxima, divertida e comprometida que se estabeleceu entre os dois acabou por levar Diogo a exame com um 15, e a conseguir um 17 nessa prova final. O segredo? Para Diogo, está na capacidade de um professor ouvir, conhecer e reconhecer o outro, identificando as suas capacidades, limitações, pontos fortes e pontos fracos para, a partir daí, adaptar a mensagem a quem a recebe. Foi precisamente essa disponibilidade que encontrou em Didier, que rapidamente percebeu que o problema não estava na capacidade ou na inteligência do aluno, mas na sua motivação para a disciplina. A experiência com Diogo acabaria também por transformar Didier enquanto professor. “Antes via-me como um professor transmissor — que tem o conhecimento e o transmite ao aluno. Só que quando o aluno não quer aprender, que era o caso do Diogo, o que é que faço? Tornei-me um professor condutor e, acima de tudo, um aliado, um amigo.” A diferença, explica, é que deixou de pensar no seu papel apenas como o de alguém que transmite conhecimento, e passou a colocar a relação com o aluno no centro da sua prática pedagógica. No caso de Diogo, o gosto partilhado pela poesia e pelo rap tornou-se um dos elementos facilitadores e incentivadores do estudo. Por exemplo, se Diogo mantivesse as notas acima de 14, parte das aulas poderia ser dedicada à análise de poemas e letras de rap.  Mais do que uma estratégia para melhorar resultados, o acordo permitiu que a aprendizagem partisse dos interesse do aluno, e que a explicação se tornasse um espaço de descoberta e experimentação. “Não esqueço que também fui aluno. Muitos professores esquecem que foram alunos”, nota Didier, dando, como exemplo, a distribuição do tempo. “Se a aula tem 45 minutos, vou dividir para que seja sempre no máximo 15 a 20 minutos de aula teórica, e a seguir prática. Tento não dar seca a ninguém, porque eu também não gostava.” Da gramática a “Os Lusíadas”, passando pelo “Sermão de Santo António aos Peixes”, o professor partilha algumas vias que utiliza para aproximar conteúdos complexos dos alunos: recorre a analogias, situações do quotidiano e exercícios que os desafiem a considerar outras perspetivas. Resumidamente, implementa uma pedagogia em que o aluno deve ser a “estrela” da sala de aula, enquanto o professor assume o papel de quem trabalha “na sombra”, conduzindo e criando condições para que cada um encontre o seu próprio caminho. Neste episódio, questiona-se também o papel da escola perante as transformações sociais, e os desafios que os alunos enfrentam. A conversa passa igualmente por uma reflexão sobre a burocratização da profissão docente, a distância entre os métodos de ensino e os interesses das novas gerações, o cyberbullying e as desigualdades sociais. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”
  7. Sep 10

    Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”

    Miriam Pires dos Santos nasceu e cresceu entre três geografias: São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. A imersão em diferentes contextos culturais e sociais, aliada ao olhar atento às várias formas de ser e estar no mundo, despertou-lhe desde cedo um fascínio pelo comportamento humano. Essa curiosidade conduziu-a até à psicologia, área que ajuda a transformar a partir do trabalho da plataforma AfroPsis, um dos temas em destaque neste episódio d’ “O Tal Podcast”. Enquanto estudava no ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Miriam Pires dos Santos estranhou a ausência de alunos negros, limitada, em toda a faculdade, a outra colega, e extensiva, ao longo da formação académica, a um vazio de referências às comunidades afrodescendentes.  Já em contexto profissional, foi a importância da sua presença que a interpelou, em particular numa casa de acolhimento onde a maioria dos jovens eram negros, levando-a a constatar a existência de um olhar pouco atento às questões de saúde mental das comunidades afrodescendentes. Entre inquietações, a psicóloga encontrou numa conferência sobre multiculturalismo, ao ouvir o colega Henda Vieira Lopes, o “clique” de que precisava. Nascia assim uma parceria que, de contacto em convite, levou à criação da AfroPsis, plataforma de psicólogos, psicoterapeutas e técnicos de Saúde Mental afrodescendentes em Portugal. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miriam Pires dos Santos fala sobre aquilo que é comum na experiência de pessoas negras no contexto da psicologia, explicando a importância de encontrarem terapeutas que reconheçam as suas subjetividades. “As pessoas negras, africanas, afrodescendentes, quando chegam até mim, frequentemente relatam um alívio de não terem que estar continuamente a justificar os seus contextos familiares e culturais.”  Debruçando-se sobre as especificidades étnico-raciais, a psicóloga lembra também a existência de hierarquias raciais que persistem desde a escravatura e o colonialismo, e chama a atenção para as formas, muitas vezes subtis, através das quais se continuam a manifestar.  Miriam partilha também uma reflexão pessoal sobre o seu percurso terapêutico, e sobre o “músculo psicológico” que foi desenvolvendo ao longo dos anos, para lidar com o sofrimento e com as pressões que atravessam a sua experiência. Uma trajetória que lhe permite reconhecer a complexidade da condição humana: por um lado a nossa capacidade para as “maiores violências e atrocidades”; por outro para “as maiores misericórdias e atos de bondade”. É nesse lugar que mantém a “esperança de que o bem e a capacidade para fazê-lo não esteja totalmente esmagada”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.   See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”

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