O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. 3d ago

    Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”

    Elga Fontes cresceu rodeada de histórias. Por influência dos pais e dos avós, cedo os livros tornaram-se parte da sua vida, e acabaram por se tornar parte essencial da sua identidade e percurso profissional. Hoje é tradutora, revisora, editora, criadora de conteúdos sobre livros e autora do projeto “Quem Me Lera”. Coordena ainda a Kiala — nome que significa “trazer luz” —, uma chancela da Vírgula d'Interrogação exclusivamente dedicada à publicação de autores negros em Portugal. Com raízes familiares em Angola e Cabo Verde e nascida em Portugal, Elga cresceu entre diferentes referências culturais, numa multiplicidade de vivências que lhe permitiu alargar os horizontes e questionar a ideia de uma única forma de ver e habitar o mundo. Mais tarde, enquanto leitora e profissional do setor editorial, deparou-se com uma realidade que a inquietava: a enorme sub-representação de autores negros no mercado português.  A criação da Kiala nasce dessa inquietação, mas também da vontade de intervir num mercado que considera pequeno e avesso ao risco. “Há muita produção de literatura por autores negros que não chega a Portugal. Muitos destes livros têm imenso sucesso, só que depois há um bloqueio que faz com que eles não cheguem cá.” Para Elga, esse ‘travão’ não pode ser dissociado do racismo estrutural: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar a uma editora.” Nesta conversa, fala ainda sobre a importância de divulgar livros e criar comunidades de leitores, estimulando hábitos de leitura, bem como sobre a experiência de partilhar recomendações literárias nas redes sociais, através do projeto “Quem Me Lera”. A aceitação do corpo, a liberdade de expressão e as referências que a foram transformando, não apenas como leitora, mas também como profissional, são também temas neste episódio, onde duas obras de Audre Lorde sobressaem: “Irmã Marginal | Sister Outsider”, e “Os Usos da Raiva”, ensaio que lhe permitiu repensar a forma de falar sobre o racismo. “Deu voz a tanta coisa que sentia e que tinha de calcar”, conta, peremptória na apreciação: “Mudou completamente a minha abordagem emocional à violência racista.” Entre sugestões de livros, publicações nas redes sociais e as novas funções editoriais, Elga reflete sobre identidade, representação e a procura de uma voz própria, mas também sobre a responsabilidade de abrir espaço para que outras vozes possam ser ouvidas. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Elga Fontes: “Portugal é um país racista e esse racismo acaba também por chegar às editoras. A literatura não tem cor”
  2. Sep 24

    Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”

    Há cerca de dois anos, Arlinda Norris foi atropelada em Nova Iorque, acidente que abriu um novo capítulo na sua história, recém-partilhada no livro biográfico “She Kept Going”. Em português: “Ela seguiu em frente”. Nascida em Portugal, e durante cinco anos educada em Cabo Verde, a autora e ex-bailarina do cantor Emanuel, popularizada como “Nani do Pimba”, recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como viveu o sonho e o pesadelo americano. Aos 50 anos, Arlinda Norris olha para a sua história e revisita cada recomeço. “O que fiz quando perdi tudo? Quando estava a um dia de ficar ilegal nos Estados Unidos? Quando não tinha casa para morar, e estava com os meus filhos na rua? Quando não havia comida?”. As respostas, encontradas nos momentos mais difíceis da sua vida, ajudaram-na a construir o “Método RLynda”, traduzido em seis passos que prometem deixar para trás qualquer adversidade: Libertar, Escutar, Ceder, Navegar, Discernir e Reconhecer. Expressão das suas aprendizagens, o método voltou a ser testado há pouco mais de dois anos, quando Arlinda foi atropelada em Nova Iorque. “Estava na passadeira, a luz estava verde. Lembro-me de estar feliz. De repente, senti um grande impacto.”  Seguiram-se 13 operações e dois anos de reconstrução física e emocional. “Só me caiu a ficha mais ou menos um mês depois de estar em casa”, conta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso. A experiência determinou a escrita do livro “She Kept Going”, em que partilha os capítulos mais decisivos da sua trajetória.  Nascida e criada em Lisboa, com uma forte ligação às origens cabo-verdianas, Arlinda recorda como a sua infância e início de adolescência foram profundamente marcadas pela mudança para a Ilha do Fogo. “Fomos por 15 dias e voltámos cinco anos depois.” Sem os privilégios a que estava habituada em Portugal, a autora reconhece que foi aí que aprendeu a adaptar-se às circunstâncias. Mais tarde, já de volta à casa lisboeta, começou a dançar para músicos, como o angolano Paulo Flores, que acabaria por se tornar o seu primeiro namorado. Foi, contudo, com o português Emanuel que correu o país de lés-a-lés e pisou vários palcos do mundo, percurso que lhe valeu o epíteto de “Nani do Pimba”.  Até que o chamamento da maternidade se começou a impor. “Os 25 estavam a chegar, já estava cansada de estrada, de televisões, e disse: ‘Vou parar de dançar’”. Parou, viajou para tentar a sorte na cidade de Boston, mas viu-se na iminência de ficar em situação ilegal, desfecho que evitou com uma noite de trabalho num clube de striptease. Anos mais tarde, já casada com um basquetebolista, regressaria aos EUA para desfrutar o sonho americano, intensamente vivido até voltar a perder tudo. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Arlinda Norris: “O meu nome era para ser Ana Cristina, mas a ir para o registo, o meu pai ouviu uma música de uma Arlinda. A minha mãe quase que o matou”
  3. Sep 17

    Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”

    Estiveram cerca de 10 anos sem se ver, mas nunca perderam o contacto. Didier Ferreira e Diogo Rodrigues, professor e antigo aluno, respetivamente, voltaram a encontrar-se neste episódio d’ “O Tal Podcast, especialmente gravado para assinalar o arranque do novo ano letivo. Além de partilharem a importância do vínculo entre professores e alunos, os convidados de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflectem sobre a missão da escola.  Diogo estava no 11.º ano, com resultados que eram um “descalabro total” a Português, quando o professor Didier entrou em cena. Conheceram-se num centro de explicações e, no início, estavam ligados por um objetivo modesto: cabia ao professor garantir que o aluno conseguisse uma nota positiva no exame, para não prejudicar a média. Contudo, a relação próxima, divertida e comprometida que se estabeleceu entre os dois acabou por levar Diogo a exame com um 15, e a conseguir um 17 nessa prova final. O segredo? Para Diogo, está na capacidade de um professor ouvir, conhecer e reconhecer o outro, identificando as suas capacidades, limitações, pontos fortes e pontos fracos para, a partir daí, adaptar a mensagem a quem a recebe. Foi precisamente essa disponibilidade que encontrou em Didier, que rapidamente percebeu que o problema não estava na capacidade ou na inteligência do aluno, mas na sua motivação para a disciplina. A experiência com Diogo acabaria também por transformar Didier enquanto professor. “Antes via-me como um professor transmissor — que tem o conhecimento e o transmite ao aluno. Só que quando o aluno não quer aprender, que era o caso do Diogo, o que é que faço? Tornei-me um professor condutor e, acima de tudo, um aliado, um amigo.” A diferença, explica, é que deixou de pensar no seu papel apenas como o de alguém que transmite conhecimento, e passou a colocar a relação com o aluno no centro da sua prática pedagógica. No caso de Diogo, o gosto partilhado pela poesia e pelo rap tornou-se um dos elementos facilitadores e incentivadores do estudo. Por exemplo, se Diogo mantivesse as notas acima de 14, parte das aulas poderia ser dedicada à análise de poemas e letras de rap.  Mais do que uma estratégia para melhorar resultados, o acordo permitiu que a aprendizagem partisse dos interesse do aluno, e que a explicação se tornasse um espaço de descoberta e experimentação. “Não esqueço que também fui aluno. Muitos professores esquecem que foram alunos”, nota Didier, dando, como exemplo, a distribuição do tempo. “Se a aula tem 45 minutos, vou dividir para que seja sempre no máximo 15 a 20 minutos de aula teórica, e a seguir prática. Tento não dar seca a ninguém, porque eu também não gostava.” Da gramática a “Os Lusíadas”, passando pelo “Sermão de Santo António aos Peixes”, o professor partilha algumas vias que utiliza para aproximar conteúdos complexos dos alunos: recorre a analogias, situações do quotidiano e exercícios que os desafiem a considerar outras perspetivas. Resumidamente, implementa uma pedagogia em que o aluno deve ser a “estrela” da sala de aula, enquanto o professor assume o papel de quem trabalha “na sombra”, conduzindo e criando condições para que cada um encontre o seu próprio caminho. Neste episódio, questiona-se também o papel da escola perante as transformações sociais, e os desafios que os alunos enfrentam. A conversa passa igualmente por uma reflexão sobre a burocratização da profissão docente, a distância entre os métodos de ensino e os interesses das novas gerações, o cyberbullying e as desigualdades sociais. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Didier Ferreira: “Sou amigo dos meus alunos. Gosto de me dar bem com eles, mas antes não pensava assim. Muitos professores esquecem que foram alunos”
  4. Sep 10

    Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”

    Miriam Pires dos Santos nasceu e cresceu entre três geografias: São Tomé e Príncipe, Angola e Portugal. A imersão em diferentes contextos culturais e sociais, aliada ao olhar atento às várias formas de ser e estar no mundo, despertou-lhe desde cedo um fascínio pelo comportamento humano. Essa curiosidade conduziu-a até à psicologia, área que ajuda a transformar a partir do trabalho da plataforma AfroPsis, um dos temas em destaque neste episódio d’ “O Tal Podcast”. Enquanto estudava no ISPA - Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Miriam Pires dos Santos estranhou a ausência de alunos negros, limitada, em toda a faculdade, a outra colega, e extensiva, ao longo da formação académica, a um vazio de referências às comunidades afrodescendentes.  Já em contexto profissional, foi a importância da sua presença que a interpelou, em particular numa casa de acolhimento onde a maioria dos jovens eram negros, levando-a a constatar a existência de um olhar pouco atento às questões de saúde mental das comunidades afrodescendentes. Entre inquietações, a psicóloga encontrou numa conferência sobre multiculturalismo, ao ouvir o colega Henda Vieira Lopes, o “clique” de que precisava. Nascia assim uma parceria que, de contacto em convite, levou à criação da AfroPsis, plataforma de psicólogos, psicoterapeutas e técnicos de Saúde Mental afrodescendentes em Portugal. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miriam Pires dos Santos fala sobre aquilo que é comum na experiência de pessoas negras no contexto da psicologia, explicando a importância de encontrarem terapeutas que reconheçam as suas subjetividades. “As pessoas negras, africanas, afrodescendentes, quando chegam até mim, frequentemente relatam um alívio de não terem que estar continuamente a justificar os seus contextos familiares e culturais.”  Debruçando-se sobre as especificidades étnico-raciais, a psicóloga lembra também a existência de hierarquias raciais que persistem desde a escravatura e o colonialismo, e chama a atenção para as formas, muitas vezes subtis, através das quais se continuam a manifestar.  Miriam partilha também uma reflexão pessoal sobre o seu percurso terapêutico, e sobre o “músculo psicológico” que foi desenvolvendo ao longo dos anos, para lidar com o sofrimento e com as pressões que atravessam a sua experiência. Uma trajetória que lhe permite reconhecer a complexidade da condição humana: por um lado a nossa capacidade para as “maiores violências e atrocidades”; por outro para “as maiores misericórdias e atos de bondade”. É nesse lugar que mantém a “esperança de que o bem e a capacidade para fazê-lo não esteja totalmente esmagada”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.   See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Miriam Santos: “Quando me dizem: ‘Prefiro procurar um psicólogo negro’, são pessoas que estão à procura de um espaço onde não sejam traumatizadas de novo”
  5. Sep 3

    Rodrigo Cardoso: “Eu e os meus irmãos fomos alvos de uma intervenção da CPCJ. Tinha 9, 10 anos. A educação era o único meio onde podia refugiar-me das minhas circunstâncias”

    Nascido e criado na Buraca, Rodrigo Cardoso, o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, cresceu num contexto familiar que desde cedo o levou a procurar na educação um espaço de refúgio e de possibilidade. Bolseiro de mérito, concluiu o ensino secundário com 19 valores, a licenciatura com 18, e agora prepara-se para tirar um mestrado em Jornalismo e Relações Internacionais na Sciences Po Paris, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do mundo. Rodrigo Cardoso tem apenas 21 anos, mas já traz consigo uma história recheada de desafios, conquistas e experiências que o fizeram questionar a ideia de que o mérito, por si só, é suficiente para abrir portas. Ainda criança, foi acompanhado pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), num período particularmente desafiante para a família. Fala da mãe com enorme orgulho e reconhece nela o seu maior exemplo de resiliência: uma mulher que conseguiu ultrapassar as dificuldades que enfrentou, recuperar a tutela dos filhos e reconstruir a própria vida. Foi também na escola que Rodrigo encontrou algumas das pessoas que mais contribuíram para o seu percurso. Duas professoras do primeiro ciclo foram fundamentais para lhe reconhecerem as capacidades e lhe mostrarem, desde cedo, que era um bom aluno. Mais do que o impacto no desempenho escolar, tiveram um papel determinante na construção da sua autoconfiança, dando-lhe a segurança necessária para acreditar que poderia ir mais longe e abrir caminho para outras possibilidades. “Foram as minhas professoras que me deram este boost de confiança e de aposta em mim próprio”, recorda. Hoje, com uma licenciatura concluída com uma média de 18 valores, a passagem por mais de 30 países e experiências em importantes fóruns internacionais, como as Nações Unidas, Rodrigo continua a questionar a ideia de que todos partimos do mesmo lugar. É crítico da narrativa da meritocracia e defende a importância do Estado Social e das políticas públicas na criação de oportunidades. “Não nascemos nas mesmas circunstâncias. Isso é um facto, não somos iguais.” Quando percebeu que não teria acesso à bolsa de estudo que esperava para prosseguir os estudos em Paris, Rodrigo recorreu a um crowdfunding. Em apenas 24 horas, conseguiu reunir os 14 mil euros de que precisava para financiar o mestrado, numa experiência que reforçou a sua convicção na importância da solidariedade e da responsabilidade coletiva. Também as bolsas de mérito que recebeu ao longo do percurso, nomeadamente da Fundação Calouste Gulbenkian, foram determinantes para chegar a lugares que, de outra forma, seriam difíceis de alcançar. Olha para o seu futuro com vontade de contar histórias. Quer produzir documentários, explorar a relação entre as gerações diaspóricas, as suas raízes e a arte, e trabalhar mais próximo das pessoas e das comunidades. “O meu lugar no mundo, neste momento, é transformar a minha história, aquilo que sei e tudo aquilo por que passei, numa espécie de nova chave que possa abrir mais portas.” Neste episódio de “O Tal Podcast”, Rodrigo fala também sobre a pressão que sente em contextos de grande exposição, como a ONU, sobre a dificuldade em aceder a apoio psicológico e sobre a relação da sua geração com o telemóvel. Partilha ainda uma experiência de saúde que viveu no Brasil, onde uma situação de urgência acabou por exigir uma intervenção cirúrgica, e explica por que decidiu tornar público um episódio sobre o qual, considera, ainda se fala pouco. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Rodrigo Cardoso: “Eu e os meus irmãos fomos alvos de uma intervenção da CPCJ. Tinha 9, 10 anos. A educação era o único meio onde podia refugiar-me das minhas circunstâncias”
  6. Aug 27

    Alexandre Teixeira: “Alguém que paga 6 mil euros a um traficante de pessoas para vir para a Europa, se tivesse um processo migratório regulado, não teria de passar por tantas dificuldades”

    Filho de angolanos que deixaram Luanda em 1975, para se fixarem em Lisboa, Alexandre Nuno Teixeira aprendeu cedo como os processos migratórios podem desestruturar a vida familiar. Atento e sensível aos desafios que surgem com a integração num novo país, o convidado desta semana d’ “O Tal Podcast” tem na área das migrações não apenas um território de especialização profissional, mas também de intervenção cívica. A chegada a Portugal confrontou a família Teixeira com uma realidade inesperada. “Vivíamos à beira da ribeira do Jamor durante a década de 70, 80, em que se jogava o lixo para a ribeira, nas traseiras”, conta Alexandre, explicando que as condições de vida adversas forçaram uma nova mudança. “O meu pai passou por um processo de integração muito complicado, que levou a que tivesse que emigrar. A  primeira vez que veio a Portugal de férias eu nem o reconheci”, recorda o jurista que, nesta conversa, revisita a infância e a adolescência. Embora tenha nascido em Oeiras, é na margem Sul do Tejo que situa grande parte do seu património de memórias, marcado por convívios familiares ímpares, que vê como especialmente formativos da sua personalidade e identidade. Essas vivências acabaram por moldar decisivamente a forma como olha para o mundo: Alexandre construiu uma sensibilidade particular para as questões da integração e da inclusão, aprofundada no trabalho com migrantes e refugiados. Empenhado em criar pontes e encontrar vias de entendimento – sobretudo num tempo em que a desinformação tantas vezes aumenta distâncias e preconceitos –  este especialista em migrações não mede esforços para aproximar pessoas e mundos. É assim que, em vez de alimentar o confronto, prefere dar a conhecer experiências positivas. “Às vezes convidam-me para ir a universidades falar sobre migrações. As pessoas estão à espera, muitas vezes, de um discurso reivindicativo. E eu opto por dar exemplos. Tenho centenas de exemplos de integração maravilhosos, de projetos lindos, de pessoas lindas e maravilhosas.” Nas histórias que encontra, à semelhança do que acontece na sua, há um lugar primordial ocupado pela família, hoje alargada às filhas. “A partir de certa altura, principalmente quando somos pais, chega um momento em que o nosso maior legado é deixar memórias.” Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Alexandre Teixeira: “Alguém que paga 6 mil euros a um traficante de pessoas para vir para a Europa, se tivesse um processo migratório regulado, não teria de passar por tantas dificuldades”
  7. Aug 20

    Iolanda Évora: “Estamos cheios de verdades. Não haver esse ‘não sei, vou procurar saber’, acaba por nos consumir. Dá a impressão que tens que saber tudo, ter opinião sobre tudo”

    Doutorada em Psicologia Social, investigadora associada do CESA - Centro de Estudos sobre África e Desenvolvimento, e professora universitária, Iolanda Évora é a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast. Nascida em Moçambique, viveu a independência do país, passou pelo Brasil recém-saído da ditadura militar e integrou um programa de reforma administrativa em Cabo Verde, país das suas raízes familiares. Nesta conversa, revisita esse percurso e explica como influenciou o seu olhar sobre a  sociedade. As pessoas estão no centro da forma como Iolanda Évora pensa o mundo. Nesta conversa, a psicóloga social regressa várias vezes à importância das relações, da interação e do coletivo na construção da identidade. "Para você se identificar como um indivíduo, passa por esse reconhecimento coletivo", afirma. "A gente precisa ter mais consciência daquele ir e voltar. Ir e individualizar, mas individualizar coisas que partilhamos com os outros." A economia solidária também faz parte do seu percurso académico, a partir de uma tese de mestrado sobre cooperativismo, que a levou a estudar modelos de organização assentes na cooperação e na partilha, um interesse que mantém até hoje através da ligação ao Instituto Paul Singer, no Brasil.  Ao longo do episódio, Iolanda Évora revisita ainda o debate sobre identidade, racismo e imigração, questionando a forma como essas discussões têm sido conduzidas. "Estão sempre a pedir-nos para descrever o que é ser negro, o que é ser imigrante", observa, defendendo que continua por conhecer o outro lado da discussão, referindo-se às conversas que acontecem entre quem ocupa posições historicamente dominantes, raramente presentes no espaço público. "Eu quero saber qual é essa conversa", reitera a investigadora, acrescentando: "Sei que há famílias [brancas] que vivem um grande desconforto quando se encontram, precisamente porque não concordam entre si. Não sei qual é a conversa que acontece ali." A investigadora partilha ainda a sua frustração com a pressão por resultados rápidos na academia, e defende uma investigação capaz de acompanhar a complexidade dos fenómenos sociais. Explica por que privilegia metodologias qualitativas, que permitem compreender a dinâmica dos processos para lá de um simples retrato da realidade. "A pesquisa quantitativa dá-te uma fotografia daquele momento. Mas, se tu queres entender como é que o processo funciona, dificilmente consegues isso com métodos quantitativos." A reflexão passa igualmente pela importância de se recuperar a humildade intelectual. "Estamos cheios de verdades", observa, perante um espaço público e académico onde considera existir demasiada pressa para chegar a conclusões. Ouça aqui a conversa completa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Iolanda Évora: “Estamos cheios de verdades. Não haver esse ‘não sei, vou procurar saber’, acaba por nos consumir. Dá a impressão que tens que saber tudo, ter opinião sobre tudo”
  8. Aug 13

    Miguel Sambé:  “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”

    Especialista em análise geoespacial e ciência climática, videógrafo e fotógrafo, Miguel de Andrade Sambé é o único português na Agência Espacial da Tailândia, onde desenvolve projetos ligados às alterações climáticas através de imagens de satélite. Nesta conversa para “O Tal Podcast”, este filho de pai guineense e mãe angolana, nascido e criado em Portugal, fala sobre a “triangulação de identidades” que marca profundamente a forma como olha para o mundo. Quando aos 28 anos viajou pela primeira vez para a Guiné-Bissau, Miguel somava já mais de 20 países na sua rota de voos. Mas foi esse destino, de encontro com a terra natal do pai, que marcou um antes e depois.“Em África aprendi a não olhar, mas sim a observar”, conta o geoengenheiro que, a par das viagens, tem na geografia uma grande paixão. Desde a infância estimulado pelos pais a aprender, foi com eles que o também videógrafo despertou a curiosidade pelo mundo e pelo conhecimento. Mais tarde, dividido entre o atletismo de alta competição no Sporting e a ciência, acabou por seguir uma carreira internacional na área da engenharia geográfica, desenvolvendo a fotografia e a videografia como linguagens complementares ao trabalho científico. “A ciência dá-me a confirmação matemática; a fotografia e o vídeo dão-me a confirmação e a conexão espiritual com a Terra.” Ao longo da conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Miguel reflete sobre a importância de valorizar o conhecimento local, defendendo que pescadores, agricultores e comunidades tradicionais possuem saberes essenciais para compreender fenómenos ambientais e enfrentar as alterações climáticas. Para o investigador, a ciência deve aprender a escutar essas vozes. “O conhecimento científico é apenas um acessório. A base, essa, é o conhecimento local.” Outro dos grandes temas abordados neste episódio é a necessidade de a humanidade abrandar. “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano.'” Miguel de Andrade Sambé aborda também o racismo que enfrentou durante a infância, a educação exigente que recebeu dos pais e a forma como essas experiências moldaram a sua identidade. Partilha ainda a visão de um cientista que acredita que o futuro passa por aproximar o conhecimento académico dos saberes locais, e por reaprender a observar a natureza. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso  See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Miguel Sambé:  “Desacelerar não é importante apenas para o planeta; é também importante para nós, enquanto seres humanos. É por isso que gosto tanto desta frase: 'Sou ser humano, mas não sei ser humano'”

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