O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

    6D AGO

    Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

    Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas. Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno. O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas. Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil. Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens. “Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens. As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências. “Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”. Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”. Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”. Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude. Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras. “No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”. Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem. “Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”. Ouça a conversa completa aqui.     See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1h 4m
  2. Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    FEB 26

    Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    Aos cinco anos, na pré-primária, em Cabo Verde, Ana Josefa Cardoso tinha dores de barriga só de pensar em falar português. Hoje faz do ensino da ‘língua de Camões” profissão, enquanto mantém vivo o idioma materno. “A língua que une efetivamente todos os cabo-verdianos é o crioulo”, sublinha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que reflete sobre o papel da escola e do professor, num contexto cada vez mais desafiante. O ano de 1993 marca o início da carreira docente de Ana Josefa Cardoso, caminho que, mais de três décadas depois, continua a percorrer com o mesmo sentido de missão. “A tarefa do professor é inacabada. Um professor a sério é um eterno aprendiz”, destaca nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, lembrando que cada aluno é único. Desde sempre empenhada em valorizar e acolher a diversidade humana, a professora revela como forjou o seu compromisso com a inclusão a partir dos próprios processos de exclusão. “Fui para a pré-primária com 5 anos, em Cabo Verde, e foi o meu primeiro contacto com o português. Os alunos eram castigados por não falarem uma língua que não sabiam, e não tinham tido a oportunidade de aprender”. A experiência deixou marcas, indissociáveis da consciência pedagógica entretanto formada, igualmente moldada no ‘apagão’ que esvaziou as lembranças do primeiro ano de escolarização em Portugal. “Enquanto não falava português, entrava muda e saía calada [da escola]”, recorda a também investigadora, hoje consciente de que talvez o silêncio tenha sido o meio que encontrou para passar despercebida, e não se tornar alvo de chacota por causa do sotaque. Com ou sem memórias desse período, Ana Josefa nota que a escola pode ser o primeiro local de confronto com “o conflito, o desânimo, as frustrações”.  Aliás, acrescenta a professora, talvez venha desse reconhecimento – e da vontade de oferecer a proteção que não teve –, uma das motivações para ter escolhido o ensino. A opção, iniciada no ensino da Língua Portuguesa, estendeu-se ao ensino e investigação da Língua Cabo-Verdiana, mais recentemente alargado a lições de português como língua não-materna. “Os tempos vão mudando, o público é mais diverso, os desafios são maiores a todos os níveis. Se a escola não estiver aberta à mudança, não consegue ser hospitaleira”, defende, atenta ao impacto dos novos fluxos migratórios e linguísticos, bem como às transformações tecnológicas. “Temos que ter propostas para que as nossas aulas sejam aliciantes para todos. Por isso digo que o professor tem de ser um eterno estudante, porque precisa de se atualizar para dar resposta aos novos desafios”. Às vezes, assinala a docente, basta ativar a empatia. “Lembro-me da professora que tive a partir do 2.º ano: a dona Benvinda. Eu ia de lenço [na cabeça] para a escola, e ela levava o seu lenço ao pescoço e, várias vezes, pedia-me para lhe pôr como punha o meu”. O episódio é partilhado como um exemplo concreto do papel que a Educação deve assumir. “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”. Ouça a conversa completa aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1 hr
  3. ROD: “O futuro é queer. Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”

    FEB 19

    ROD: “O futuro é queer. Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”

    Saiu de casa dos pais ainda criança, para estudar numa cidade maior, onde morou com os tios até começar a viver sozinho, quando tinha apenas 14 anos. Hoje com cinco décadas de história, Rodrigo Saturnino, ou simplesmente ROD, conta, neste episódio de O Tal Podcast, como os seus primeiros anos de vida se inscrevem numa trajetória “mais comum do que parece”. Mas se o passado do pesquisador e artista visual encontra eco noutras narrativas oriundas do interior do Brasil, o presente solta-se de expetativas alheias, e o futuro apresenta-se ainda mais livre. Assumidamente queer. A história de vida de Rodrigo Saturno começou a cerca de 7.600 quilómetros de Lisboa, na pequena localidade de Jequitibá, localizada no estado brasileiro de Minas Gerais. Desde 2007 em Portugal, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso soma cerca de 16 anos de academia portuguesa – entre estudos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento –, percurso marcado por várias investigações sobre o mundo digital. É a partir dele que conserva, há quase duas décadas, os afetos familiares, ainda hoje fortemente enraizados na sua terra de nascimento, que descreve, afetuosamente, como uma “cidadezinha minúscula”. “Jequi, como a gente fala, tem 5 mil habitantes”, aponta o pesquisador e artista visual, precocemente habituado a gerir distâncias: “O meu senso de independência foi muito prematuro”. Desde os 10 anos longe da casa dos pais, de onde se mudou para morar com os tios e “poder receber melhor educação”, o cofundador do Coletivo Afrontosas e da União Negras das Artes, revela que embora tenha começado a desbravar caminho sozinho muito cedo, contou sempre com a supervisão parental. Além de revisitar, com assumido orgulho, algumas das principais etapas do seu percurso – onde se inclui a criação de uma faixa com a polémica frase “Não foi descobrimento, foi matança” –, ROD aborda, nesta conversa, como está a lidar com o avançar da idade. “Todo o mundo fala ‘você não parece que tem 50’. Aí pergunto: o que é parecer ter 50 anos? Ser velho, barrigudo, que desistiu da vida, entregou tudo?”. Contrariando eventuais expetativas, o convidado deste episódio de O Tal Podcast adianta que, nesta fase, se sente “mais livre” de qualquer pressão para encaixar dentro dos comportamentos associados à idade. Talvez resida aí um jeito queer de ser e de estar? “O queer tem essa característica de ser diferente. É outra coisa, outro universo, outra leitura do mundo. É outra explicação das coisas”, defende, perentório na antevisão de que “o futuro é queer”. Em que sentido? “Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”, explica, sem nunca perder de vista as múltiplas camadas que o atravessam. Das provações da imigração, que põem em choque processos de integração e assimilação, passando pelas expressões de racismo na academia, nos algoritmos e outras tecnologias, a conversa termina com um breve olhar sobre as lições que ficam de um passado de estudos religiosos. “Tenho aprendido que a espiritualidade não tem que ser doutrina, não tem que ser litúrgica. Mas tem que existir nessa relação com o mundo invisível”. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1h 2m
  4. Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”

    FEB 12

    Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”

    Filho de cabo-verdianos, nascido em Lisboa em 1976, Carlos Alberto Monteiro Lopes gravou no corpo, como assinatura de identidade, a frase “Blood of a Slave, Heart of a King”. Em português: “Sangue de pessoa escravizada, coração de rei”. As palavras, explica o convidado desta semana de “O Tal Podcast”, devem ler-se como uma homenagem aos seus antepassados, e inscrevem-se numa composição de 13 tatuagens que transporta na pele. O número, indicativo de sorte, inclui a figura de Nossa Senhora de Fátima, expressão de uma fé que levou o empresário a ser catequista, e até a equacionar a vida de padre.  “Sou muito crente. Todos os dias, de manhã e à noite, rezo, peço a Deus”, revela Carlos Lopes, que herdou dos pais a devoção católica. O legado familiar manifesta-se igualmente no mundo dos negócios, território no qual o anfitrião do Brooklyn Lisboa se estreou há cerca de 15 anos.  “Sempre tive a referência do meu pai como um exemplo a seguir. Ele foi um empresário de sucesso nos anos 90, teve altos e baixos, caiu, levantou-se”, conta Carlos, que, a determinada altura, decidiu mudar de rota. “Trabalhei durante 12 anos em comércio internacional, que foi toda a minha experiência profissional. Tinha uma vida muito estável, e hoje pergunto-me: o que me passou pela cabeça para abrir o [restaurante] Harlem?”. Primeiro no Cais do Sodré com o Harlem, e agora na Praça da Alegria com o Brooklyn, Carlos mantém a geografia inspiracional: “Sempre tive paixão pelos EUA. Toda a luta da cultura afro-americana, contra a segregação, com a música e a gastronomia à mistura, despertou-me como se eu tivesse nascido lá”. Também desde que tem memória, o empresário recorda-se de fazer planos para que a história das migrações negras seja conhecida e reconhecida. “O Brooklyn Lisboa conta a narrativa entre Cabo Verde, as Américas e Portugal”, assinala o convidado deste episódio de “O Tal Podcast”, sem nunca se desligar da sua relação pessoal com essa rota. “Os nossos pais emigraram para Lisboa no final da década de 60 e 70, e foram construindo a sua barraquita, o seu bairro de lata. Era ter no estrangeiro um mini país”, descreve, revisitando o quotidiano da sua primeira morada, acomodada entre Linda-a-Velha e Miraflores. “Temos um grande orgulho de termos nascido e crescido na Pedreira dos Húngaros, pela resiliência que a vivência do bairro trouxe a cada um, pela facilidade com que enfrentamos as dificuldades”. As memórias desses tempos conservam-se nas amizades que, década após década, se mantêm firmes. “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”. A par da sustentação que vai buscar às relações de sempre, Carlos conta que também encontra abrigo no terreno onde em tempos existiu a comunidade da Pedreira dos Húngaros. “Quando estou com o meu GPS emocional desregulado, passo ali na zona onde era o nosso bairro para lembrar a minha infância, a minha trajetória. É terapêutico”. Noutras viagens, é Cabo Verde que sobressai, como destino de expansão das raízes e dos negócios. Para conhecer nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode ouvir aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1h 1m
  5. Ao vivo no PodFest: Lei da Paridade, Consulta Aberta e O Tal Podcast

    FEB 11

    Ao vivo no PodFest: Lei da Paridade, Consulta Aberta e O Tal Podcast

    Veja também em youtube.com/@45_graus Maria Castello Branco é comentadora política e cronista, e é autora do podcast "Lei da Paridade”, juntamente com Leonor Rosas e Adriana Cardoso. ​Paula Cardoso e Georgina Angélica são comunicadoras e autoras de conteúdos, e autoras do "O Tal Podcast”.​ Margarida Santos é médica de família e autora do podcast "Consulta Aberta”. _______________ Episódio especial gravado ao vivo na 3.ª edição do Podfest do Expresso, que decorreu a 27 de janeiro no Auditório da Universidade NOVA de Lisboa. Neste painel juntaram-se quatro projetos com identidades e públicos distintos: o Lei da Paridade, representado por Maria Castello Branco, o Consulta Aberta, com Margarida Santos, o O Tal Podcast, por Paula Cardoso e Georgina Angélica — e, claro, o 45 Graus. A conversa partiu das novas vozes e dos nichos que hoje encontram espaço no áudio digital, e explorou o que muda quando um projeto independente passa a integrar um grande grupo de media. Falámos de representação, de literacia — política e em saúde —, da relação íntima que o formato cria com quem ouve, das surpresas que as estatísticas revelam sobre o público e também do outro lado da exposição: o entusiasmo, o sentido de missão e, por vezes, o confronto com o ruído e o ódio nas redes. Uma troca franca de ideias sobre como o podcasting abriu portas a protagonistas que antes ficavam de fora — e sobre a responsabilidade de as manter abertas. ______________ Esta conversa teve a sonoplastia de Hugo Oliveira See omnystudio.com/listener for privacy information.

    39 min
  6. Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”

    FEB 5

    Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”

    Ciência Política ou Engenharia do Ambiente? Dividida entre as duas licenciaturas, Margarida Valença precisou apenas de três meses para descartar a segunda opção. Apesar do gosto pelas cadeiras de Biologia, Química ou Física, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” conta que o curso não lhe despertava paixão. “Saí e fui procurar emprego para a Amnistia Internacional no ‘face-to-face’, que são aquelas pessoas que estão na rua e falam com as pessoas para angariar doadores”. A experiência, conta, trouxe-lhe boas conversas, e competências que vê como valiosas para o jornalismo, atividade que se tornou caminho ainda durante os estudos em Ciência Política. Curiosa nata, há muito que Margarida procura respostas para múltiplas inquietações.  “Andei num colégio de freiras do primeiro ao quarto ano. Foi um motor muito importante para eu começar a questionar o mundo”. Desde logo, a jornalista nota que quando passou a estudar numa escola não-católica, ficou “parva ao perceber que, afinal, as pessoas não acreditavam todas em Deus”. Terá encontrado aí uma ‘permissão’ para, também ela, se libertar de crenças religiosas? “Sinto que há muitas coisas a aprender sobre religiões, e tento ser uma pessoa que procura. Gosto muito dos princípios do hinduísmo, por exemplo. É uma religião que consegue encontrar validade em todas as religiões”.  Os questionamentos acentuam-se na política, tema ao qual sempre esteve exposta em casa, e que procurou aprofundar com ligações partidárias. “Quis juntar-me à Juventude Socialista. Queria de alguma maneira estar envolvida, não sabia muito bem como. Achei que havia ali um conjunto de valores com os quais me identificava”. Um ano depois de avançar, Margarida recuou, por sentir que “estava a ir a imensos eventos, mas não estava a fazer nada em concreto”. A desilusão não a desmobilizou, antes redirecionou-a para o Livre. Desta vez, porém, foram as práticas jornalística e partidária que se revelaram conflituantes. “Mesmo que não esteja na secção de política, e a ir ao parlamento, ela está em todo lado”.  A constatação não alimenta, contudo, pretensões de neutralidade. “Acho que um jornalista não é uma pessoa que deve estar desligada de opiniões, nem de fazer jornalismo com valores”. Idealista por natureza, Margarida sublinha que quando decidiu arrepiar caminho no mundo da comunicação social foi com a perspetiva de fazer coisas alinhadas com aquilo que idealiza. O mesmo impulso guiou a experiência partidária, da qual extrai várias lições. Por um lado, a jornalista observa que “um partido é feito de muita toxicidade, de toda a parte de discussão, de troca, de conflito”. Por outro lado, Margarida sugere que os partidos façam “uma reflexão muito grande” sobre a forma como chegam às pessoas, enquanto ela própria matuta nas suas reflexões. “Um exercício que ultimamente tenho feito é escrever ao computador, às vezes uma hora, para perceber aquilo que penso e sinto. Porque às vezes é uma coisa confusa, quando estamos imersos, e à nossa volta muitas pessoas têm muitas certezas”. Nos antípodas dessa amálgama de certezas, a jornalista lembra como começou a questionar aquilo em que ela própria acreditava. “Comecei a ler coisas de autores mais liberais e autores mais marxistas, e a tentar enquadrar-me”. Com que impacto? Ouça o episódio completo aqui.   See omnystudio.com/listener for privacy information.

    55 min
  7. Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”

    JAN 29

    Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”

    Entre a calma de São Tomé e Príncipe, onde nasceu e cresceu, e a agitação da vida que encontrou em Portugal, há mais de uma década, Silvania de Barros recorda, neste episódio de “O Tal Podcast”, como lidou com esse contraste de realidades. “Venho de uma cidade pequena, e não me sentia preparada para viver em Lisboa. Eu dizia: é muito ruído, sinto que a minha cabeça vai explodir, são muitas vozes, muitas línguas”. O processo de adaptação trouxe impactos na saúde, física e mental, um dos temas desta conversa. Formada em Gestão pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Silvania de Barros dedica-se, desde a adolescência, vivida em São Tomé e Príncipe, a projetos de intervenção social. Cidadã ativa em defesa da igualdade de género, a são-tomense lembra que continua a ser necessário assinalar o óbvio: esta não é uma luta apenas sobre mulheres. Justamente por isso, ao cocriar com um grupo de amigas o grupo de leitura “Obirin”, para promover autoras negras, fez questão de o manter aberto a todas as pessoas. “As mulheres já escrevem há séculos, só não têm visibilidade”, lamenta, recomendando a todas as pessoas que, a cada leitura, façam um exercício de reflexão. “Quem é que escreve o livro? Do que está a falar?”. Atenta às assinaturas, temas e geografias que acompanham as obras, Silvania recorda que a iniciativa literária surgiu online na altura da pandemia, permitindo ir além da “bolha de Lisboa”. A cidade para a qual a são-tomense admite que não estava preparada quando, em 2014, “aterrou” no rebuliço da zona do Intendente. “Os meus amigos diziam: tens que sair de casa, faz uma caminhada e estás na Graça, tens esse privilégio porque não precisas de apanhar transportes. E eu dizia: não consigo, é muito ruído”. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de trabalhar o silêncio e a solitude. “Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”. Além dos ajustes de movimento, a ativista destaca os efeitos que ainda hoje sente no corpo e na mente. Dos ganhos e perdas de peso, às dificuldades com o clima, Silvania partilha, neste episódio, como as consultas médicas, de várias especialidades, se tornaram uma rotina. “São Tomé é um país quente, mas húmido. Quando vim para Portugal, comecei a sofrer muito com a respiração. Fui a uma consulta e o médico ficou incrédulo: nunca viu alguém que pudesse fazer tantas alergias”. Os desafios clínicos estendem-se à própria relação com os profissionais, e dinâmicas do Serviço Nacional de Saúde. “Tinha baixado 20 quilos e agora aumentei 30. E não tenho sentido um acompanhamento verdadeiro. A primeira endocrinologista pediu as análises, a segunda já estava a passar-me antidepressivos, porque dizia que precisava de dormir”. Já num terceiro momento, Silvania conta que recebeu como recomendações uma cirurgia bariátrica ou a toma de Ozempic, medicamento indicado para o tratamento da diabetes, que tem sido prescrito para a perda de peso. Apesar das provações, a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso não tem dúvidas sobre a escolha da sua geografia. “Sei de onde sou, tenho muito fincada a minha identidade, as minhas origens, mas também gosto de me sentir um corpo livre. Estou onde consigo descansar, onde o meu coração está em paz”. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    59 min
  8. Ismael Santos: “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”

    JAN 22

    Ismael Santos: “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”

    Inglaterra substituiu o Exército nos planos de vida de Ismael Santos. Atraído pela possibilidade de um percurso académico que em Portugal não vislumbrava, o convidado deste episódio de "O Tal Podcast" conta como se desencantou com a via militar, e partiu à aventura para Londres, destino que trouxe um “grande abre-abrolhos”: a formação em Economia. Mas é no desporto, como personal trainer, que Ismael vive a grande paixão, e transforma em projeto os seus três pilares de vida – fé, legado e resiliência. Entre trabalhar em Economia, onde investiu três anos de estudos superiores, e especializar-se como personal trainer, área na qual se iniciou após cinco meses de formação intensiva, Ismael Santos não hesitou. “Entrei num caminho sem volta”, diz, recordando o encantamento que o afastou da escolha académica. “Fui ganhando experiência como personal trainer, criando relações, comecei a fazer contactos. Dei por mim tão envolvido nessa área, que nem considerei trabalhar em Economia”. Agora à frente do seu projeto – o Alphastry Club –, Ismael aplica as aprendizagens do curso universitário para promover saúde e bem-estar, desafiando mais pessoas a “adicionarem vida aos seus anos”. Com uma proposta que combina exercício físico e mental, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso lembra a importância da resiliência, um dos pilares que fazem parte da sua história, a par da fé e do legado. A família destaca-se nessa tríade, enquanto fonte de motivação e inspiração diária, indissociável da vivência que teve em casa. “No seio dos meus amigos, sou dos poucos que tinham os pais juntos”. Hoje com três filhos, todos menores de idade, Ismael recorda nesta conversa um dos momentos mais difíceis que ultrapassou, com a então parceira de quase 10 anos de vida. “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”. A experiência aconteceu no início da mudança para Inglaterra, destino de emigração que arriscou há mais de uma década, depois de uma curta passagem pelo Exército. “Quando caímos, levantamo-nos. Esses momentos ajudam a solidificar a resiliência mental, e a construir uma nova identidade”. Já refeito da culpa que acompanhou essa rutura conjugal, o personal trainer lembra que há sempre um contexto para cada história. “Entrava às 6h no ginásio. Saía de um, ia para o outro, e chegava a casa às 23h30, esgotado. Mas quando temos a barriga vazia, temos de ir atrás”. Mais do que seguir no encalço do que é preciso, Ismael empenha-se, dia após dia, em incentivar outras pessoas a fazerem-no, algo que se liga à influência familiar. “Sou o mais velho de cinco irmãos. Sempre olharam para mim como a referência”, nota o primogénito dos Santos, que, com a decisão de emigrar para Inglaterra inspirou a família a seguir-lhe as pisadas. Entretanto regressado a Portugal, o personal trainer revisita diferentes etapas da temporada no estrangeiro, incluindo uma passagem de má memória pela Escócia. “Em Edimburgo tive algumas experiências desagradáveis. O supervisor dos seguranças do centro comercial onde trabalhava tinha uma suástica tatuada”, recorda neste episódio de "O Tal Podcast". Ouça a conversa na íntegra aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    55 min

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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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