O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”

    5D AGO

    Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”

    Filho de cabo-verdianos, nascido em Lisboa em 1976, Carlos Alberto Monteiro Lopes gravou no corpo, como assinatura de identidade, a frase “Blood of a Slave, Heart of a King”. Em português: “Sangue de pessoa escravizada, coração de rei”. As palavras, explica o convidado desta semana de “O Tal Podcast”, devem ler-se como uma homenagem aos seus antepassados, e inscrevem-se numa composição de 13 tatuagens que transporta na pele. O número, indicativo de sorte, inclui a figura de Nossa Senhora de Fátima, expressão de uma fé que levou o empresário a ser catequista, e até a equacionar a vida de padre.  “Sou muito crente. Todos os dias, de manhã e à noite, rezo, peço a Deus”, revela Carlos Lopes, que herdou dos pais a devoção católica. O legado familiar manifesta-se igualmente no mundo dos negócios, território no qual o anfitrião do Brooklyn Lisboa se estreou há cerca de 15 anos.  “Sempre tive a referência do meu pai como um exemplo a seguir. Ele foi um empresário de sucesso nos anos 90, teve altos e baixos, caiu, levantou-se”, conta Carlos, que, a determinada altura, decidiu mudar de rota. “Trabalhei durante 12 anos em comércio internacional, que foi toda a minha experiência profissional. Tinha uma vida muito estável, e hoje pergunto-me: o que me passou pela cabeça para abrir o [restaurante] Harlem?”. Primeiro no Cais do Sodré com o Harlem, e agora na Praça da Alegria com o Brooklyn, Carlos mantém a geografia inspiracional: “Sempre tive paixão pelos EUA. Toda a luta da cultura afro-americana, contra a segregação, com a música e a gastronomia à mistura, despertou-me como se eu tivesse nascido lá”. Também desde que tem memória, o empresário recorda-se de fazer planos para que a história das migrações negras seja conhecida e reconhecida. “O Brooklyn Lisboa conta a narrativa entre Cabo Verde, as Américas e Portugal”, assinala o convidado deste episódio de “O Tal Podcast”, sem nunca se desligar da sua relação pessoal com essa rota. “Os nossos pais emigraram para Lisboa no final da década de 60 e 70, e foram construindo a sua barraquita, o seu bairro de lata. Era ter no estrangeiro um mini país”, descreve, revisitando o quotidiano da sua primeira morada, acomodada entre Linda-a-Velha e Miraflores. “Temos um grande orgulho de termos nascido e crescido na Pedreira dos Húngaros, pela resiliência que a vivência do bairro trouxe a cada um, pela facilidade com que enfrentamos as dificuldades”. As memórias desses tempos conservam-se nas amizades que, década após década, se mantêm firmes. “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”. A par da sustentação que vai buscar às relações de sempre, Carlos conta que também encontra abrigo no terreno onde em tempos existiu a comunidade da Pedreira dos Húngaros. “Quando estou com o meu GPS emocional desregulado, passo ali na zona onde era o nosso bairro para lembrar a minha infância, a minha trajetória. É terapêutico”. Noutras viagens, é Cabo Verde que sobressai, como destino de expansão das raízes e dos negócios. Para conhecer nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode ouvir aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1h 1m
  2. Ao vivo no PodFest: Lei da Paridade, Consulta Aberta e O Tal Podcast

    6D AGO

    Ao vivo no PodFest: Lei da Paridade, Consulta Aberta e O Tal Podcast

    Veja também em youtube.com/@45_graus Maria Castello Branco é comentadora política e cronista, e é autora do podcast "Lei da Paridade”, juntamente com Leonor Rosas e Adriana Cardoso. ​Paula Cardoso e Georgina Angélica são comunicadoras e autoras de conteúdos, e autoras do "O Tal Podcast”.​ Margarida Santos é médica de família e autora do podcast "Consulta Aberta”. _______________ Episódio especial gravado ao vivo na 3.ª edição do Podfest do Expresso, que decorreu a 27 de janeiro no Auditório da Universidade NOVA de Lisboa. Neste painel juntaram-se quatro projetos com identidades e públicos distintos: o Lei da Paridade, representado por Maria Castello Branco, o Consulta Aberta, com Margarida Santos, o O Tal Podcast, por Paula Cardoso e Georgina Angélica — e, claro, o 45 Graus. A conversa partiu das novas vozes e dos nichos que hoje encontram espaço no áudio digital, e explorou o que muda quando um projeto independente passa a integrar um grande grupo de media. Falámos de representação, de literacia — política e em saúde —, da relação íntima que o formato cria com quem ouve, das surpresas que as estatísticas revelam sobre o público e também do outro lado da exposição: o entusiasmo, o sentido de missão e, por vezes, o confronto com o ruído e o ódio nas redes. Uma troca franca de ideias sobre como o podcasting abriu portas a protagonistas que antes ficavam de fora — e sobre a responsabilidade de as manter abertas. ______________ Esta conversa teve a sonoplastia de Hugo Oliveira See omnystudio.com/listener for privacy information.

    39 min
  3. Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”

    FEB 5

    Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”

    Ciência Política ou Engenharia do Ambiente? Dividida entre as duas licenciaturas, Margarida Valença precisou apenas de três meses para descartar a segunda opção. Apesar do gosto pelas cadeiras de Biologia, Química ou Física, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” conta que o curso não lhe despertava paixão. “Saí e fui procurar emprego para a Amnistia Internacional no ‘face-to-face’, que são aquelas pessoas que estão na rua e falam com as pessoas para angariar doadores”. A experiência, conta, trouxe-lhe boas conversas, e competências que vê como valiosas para o jornalismo, atividade que se tornou caminho ainda durante os estudos em Ciência Política. Curiosa nata, há muito que Margarida procura respostas para múltiplas inquietações.  “Andei num colégio de freiras do primeiro ao quarto ano. Foi um motor muito importante para eu começar a questionar o mundo”. Desde logo, a jornalista nota que quando passou a estudar numa escola não-católica, ficou “parva ao perceber que, afinal, as pessoas não acreditavam todas em Deus”. Terá encontrado aí uma ‘permissão’ para, também ela, se libertar de crenças religiosas? “Sinto que há muitas coisas a aprender sobre religiões, e tento ser uma pessoa que procura. Gosto muito dos princípios do hinduísmo, por exemplo. É uma religião que consegue encontrar validade em todas as religiões”.  Os questionamentos acentuam-se na política, tema ao qual sempre esteve exposta em casa, e que procurou aprofundar com ligações partidárias. “Quis juntar-me à Juventude Socialista. Queria de alguma maneira estar envolvida, não sabia muito bem como. Achei que havia ali um conjunto de valores com os quais me identificava”. Um ano depois de avançar, Margarida recuou, por sentir que “estava a ir a imensos eventos, mas não estava a fazer nada em concreto”. A desilusão não a desmobilizou, antes redirecionou-a para o Livre. Desta vez, porém, foram as práticas jornalística e partidária que se revelaram conflituantes. “Mesmo que não esteja na secção de política, e a ir ao parlamento, ela está em todo lado”.  A constatação não alimenta, contudo, pretensões de neutralidade. “Acho que um jornalista não é uma pessoa que deve estar desligada de opiniões, nem de fazer jornalismo com valores”. Idealista por natureza, Margarida sublinha que quando decidiu arrepiar caminho no mundo da comunicação social foi com a perspetiva de fazer coisas alinhadas com aquilo que idealiza. O mesmo impulso guiou a experiência partidária, da qual extrai várias lições. Por um lado, a jornalista observa que “um partido é feito de muita toxicidade, de toda a parte de discussão, de troca, de conflito”. Por outro lado, Margarida sugere que os partidos façam “uma reflexão muito grande” sobre a forma como chegam às pessoas, enquanto ela própria matuta nas suas reflexões. “Um exercício que ultimamente tenho feito é escrever ao computador, às vezes uma hora, para perceber aquilo que penso e sinto. Porque às vezes é uma coisa confusa, quando estamos imersos, e à nossa volta muitas pessoas têm muitas certezas”. Nos antípodas dessa amálgama de certezas, a jornalista lembra como começou a questionar aquilo em que ela própria acreditava. “Comecei a ler coisas de autores mais liberais e autores mais marxistas, e a tentar enquadrar-me”. Com que impacto? Ouça o episódio completo aqui.   See omnystudio.com/listener for privacy information.

    55 min
  4. Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”

    JAN 29

    Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”

    Entre a calma de São Tomé e Príncipe, onde nasceu e cresceu, e a agitação da vida que encontrou em Portugal, há mais de uma década, Silvania de Barros recorda, neste episódio de “O Tal Podcast”, como lidou com esse contraste de realidades. “Venho de uma cidade pequena, e não me sentia preparada para viver em Lisboa. Eu dizia: é muito ruído, sinto que a minha cabeça vai explodir, são muitas vozes, muitas línguas”. O processo de adaptação trouxe impactos na saúde, física e mental, um dos temas desta conversa. Formada em Gestão pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Silvania de Barros dedica-se, desde a adolescência, vivida em São Tomé e Príncipe, a projetos de intervenção social. Cidadã ativa em defesa da igualdade de género, a são-tomense lembra que continua a ser necessário assinalar o óbvio: esta não é uma luta apenas sobre mulheres. Justamente por isso, ao cocriar com um grupo de amigas o grupo de leitura “Obirin”, para promover autoras negras, fez questão de o manter aberto a todas as pessoas. “As mulheres já escrevem há séculos, só não têm visibilidade”, lamenta, recomendando a todas as pessoas que, a cada leitura, façam um exercício de reflexão. “Quem é que escreve o livro? Do que está a falar?”. Atenta às assinaturas, temas e geografias que acompanham as obras, Silvania recorda que a iniciativa literária surgiu online na altura da pandemia, permitindo ir além da “bolha de Lisboa”. A cidade para a qual a são-tomense admite que não estava preparada quando, em 2014, “aterrou” no rebuliço da zona do Intendente. “Os meus amigos diziam: tens que sair de casa, faz uma caminhada e estás na Graça, tens esse privilégio porque não precisas de apanhar transportes. E eu dizia: não consigo, é muito ruído”. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de trabalhar o silêncio e a solitude. “Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”. Além dos ajustes de movimento, a ativista destaca os efeitos que ainda hoje sente no corpo e na mente. Dos ganhos e perdas de peso, às dificuldades com o clima, Silvania partilha, neste episódio, como as consultas médicas, de várias especialidades, se tornaram uma rotina. “São Tomé é um país quente, mas húmido. Quando vim para Portugal, comecei a sofrer muito com a respiração. Fui a uma consulta e o médico ficou incrédulo: nunca viu alguém que pudesse fazer tantas alergias”. Os desafios clínicos estendem-se à própria relação com os profissionais, e dinâmicas do Serviço Nacional de Saúde. “Tinha baixado 20 quilos e agora aumentei 30. E não tenho sentido um acompanhamento verdadeiro. A primeira endocrinologista pediu as análises, a segunda já estava a passar-me antidepressivos, porque dizia que precisava de dormir”. Já num terceiro momento, Silvania conta que recebeu como recomendações uma cirurgia bariátrica ou a toma de Ozempic, medicamento indicado para o tratamento da diabetes, que tem sido prescrito para a perda de peso. Apesar das provações, a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso não tem dúvidas sobre a escolha da sua geografia. “Sei de onde sou, tenho muito fincada a minha identidade, as minhas origens, mas também gosto de me sentir um corpo livre. Estou onde consigo descansar, onde o meu coração está em paz”. Ouça aqui a conversa completa. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    59 min
  5. Ismael Santos: “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”

    JAN 22

    Ismael Santos: “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”

    Inglaterra substituiu o Exército nos planos de vida de Ismael Santos. Atraído pela possibilidade de um percurso académico que em Portugal não vislumbrava, o convidado deste episódio de "O Tal Podcast" conta como se desencantou com a via militar, e partiu à aventura para Londres, destino que trouxe um “grande abre-abrolhos”: a formação em Economia. Mas é no desporto, como personal trainer, que Ismael vive a grande paixão, e transforma em projeto os seus três pilares de vida – fé, legado e resiliência. Entre trabalhar em Economia, onde investiu três anos de estudos superiores, e especializar-se como personal trainer, área na qual se iniciou após cinco meses de formação intensiva, Ismael Santos não hesitou. “Entrei num caminho sem volta”, diz, recordando o encantamento que o afastou da escolha académica. “Fui ganhando experiência como personal trainer, criando relações, comecei a fazer contactos. Dei por mim tão envolvido nessa área, que nem considerei trabalhar em Economia”. Agora à frente do seu projeto – o Alphastry Club –, Ismael aplica as aprendizagens do curso universitário para promover saúde e bem-estar, desafiando mais pessoas a “adicionarem vida aos seus anos”. Com uma proposta que combina exercício físico e mental, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso lembra a importância da resiliência, um dos pilares que fazem parte da sua história, a par da fé e do legado. A família destaca-se nessa tríade, enquanto fonte de motivação e inspiração diária, indissociável da vivência que teve em casa. “No seio dos meus amigos, sou dos poucos que tinham os pais juntos”. Hoje com três filhos, todos menores de idade, Ismael recorda nesta conversa um dos momentos mais difíceis que ultrapassou, com a então parceira de quase 10 anos de vida. “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”. A experiência aconteceu no início da mudança para Inglaterra, destino de emigração que arriscou há mais de uma década, depois de uma curta passagem pelo Exército. “Quando caímos, levantamo-nos. Esses momentos ajudam a solidificar a resiliência mental, e a construir uma nova identidade”. Já refeito da culpa que acompanhou essa rutura conjugal, o personal trainer lembra que há sempre um contexto para cada história. “Entrava às 6h no ginásio. Saía de um, ia para o outro, e chegava a casa às 23h30, esgotado. Mas quando temos a barriga vazia, temos de ir atrás”. Mais do que seguir no encalço do que é preciso, Ismael empenha-se, dia após dia, em incentivar outras pessoas a fazerem-no, algo que se liga à influência familiar. “Sou o mais velho de cinco irmãos. Sempre olharam para mim como a referência”, nota o primogénito dos Santos, que, com a decisão de emigrar para Inglaterra inspirou a família a seguir-lhe as pisadas. Entretanto regressado a Portugal, o personal trainer revisita diferentes etapas da temporada no estrangeiro, incluindo uma passagem de má memória pela Escócia. “Em Edimburgo tive algumas experiências desagradáveis. O supervisor dos seguranças do centro comercial onde trabalhava tinha uma suástica tatuada”, recorda neste episódio de "O Tal Podcast". Ouça a conversa na íntegra aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    55 min
  6. Cleo Diára: “Digo a mim mesma: tu és uma reparação histórica. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”

    JAN 15

    Cleo Diára: “Digo a mim mesma: tu és uma reparação histórica. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”

    Presença confirmada no programa europeu de talentos "Shooting Stars" – que vai decorrer durante o 76.º Festival de Cinema de Berlim, de 12 a 22 de fevereiro –, Cleo Diára continua a firmar créditos internacionais, depois de vencer o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a também encenadora revisita as emoções de Cannes, recorda a infância em Cabo Verde, partilha as primeiras impressões sobre Portugal, e a inesperada trajetória artística, trilhada depois de uma passagem pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. É aos primeiros anos de vida, em Cabo Verde, que Cleo vai buscar o fascínio por enredos que lhe aguçam a criatividade. “Quando me contam histórias, começo a imaginar, fico a criar as minhas imagens”, revela a atriz que, na infância, em casa da avó materna, descobriu a magia dos contos populares. Hoje com 38 anos, e desde os 10 em Portugal, a atriz conta, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que o encanto pelos universos narrativos se mantém. “Não é a importância de estar num palco ou filme que me move, mas como posso honrar as histórias que conto, que esperanças posso brotar”. Formada na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), Cleo ainda ensaiou uma temporada de estudos no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. “Ser atriz era uma vontade que toda a gente sabia que eu tinha, mas que continuava a ser recalcada”, partilha, lembrando que, quando anunciou que pensava candidatar-se à ESTC, ouviu de toda a gente um sonoro: “Não vais entrar”. Cleo tinha 23 anos, nenhuma referência artística na família, e pouca exposição à dramaturgia. “Os primeiros tempos na ESTC foram duros. Não andei, tive de correr, de dar saltos”. Ao revisitar o percurso, já consagrado com o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes – pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho –, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” faz questão de partilhar o palco. “O Mário Coelho foi super importante, porque eu estava a lidar com as inseguranças de não ter vindo de uma família artista, de não saber as coisas. E ele dizia: tu sabes o que sabes, tens a tua cultura, as outras pessoas têm a delas”. Tal como o amigo e encenador Mário, Nádia Yracema e Isabél Zuaa, amigas e parceiras no coletivo “Aurora Negra”, compõem o elenco de protagonismos da história de Cleo, reconfigurada a partir do encontro com as duas atrizes. “Estávamos a desenvolver o guião, a estrutura do espetáculo [Aurora Negra], e a falar sobre a nossa ancestralidade. E elas iam falando dos povos de onde vinham, tanto da Guiné quanto de Angola. Eu não tinha para onde ir além de saber que era cabo-verdiana. Então decidi investigar a minha família, encontrar os apelidos dos meus avós e bisavós”. Dessa busca surgiu a identidade Diára, nome que emprestou à personagem que viveu em "O Riso e a Faca”, e com o qual homenageia a sua africanidade, indissociável do exemplo da bisavó Ana. É com ela nos pensamentos que afirma: “Digo a mim mesma ‘tu és uma reparação histórica’. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    1h 12m
  7. Miguel de Barros: “A combinação entre a falta de consciência histórica, o vedetismo e a mercantilização das relações está a produzir seres egoístas”

    JAN 8

    Miguel de Barros: “A combinação entre a falta de consciência histórica, o vedetismo e a mercantilização das relações está a produzir seres egoístas”

    Ainda não tinha 40 anos quando foi distinguido como a personalidade mais influente da África Ocidental, no mesmo ano de 2018 em que também recebeu o prémio humanitário Pan-Africano de Excelência em Pesquisa e Impacto Social.  Hoje com 45 anos, Miguel de Barros, convidado deste episódio de ‘O Tal Podcast’, continua a somar distinções, num palmarés a que se juntou, em 2025, o reconhecimento da Fundação Amílcar Cabral, com o medalhão comemorativo do centenário do líder histórico. É caso para perguntar: como é que o legado cabralista influencia o pensamento e a ação do sociólogo e investigador guineense? Descendente de “uma família revolucionária de Bissau, que esteve na génese do movimento libertador, tanto na clandestinidade como na frente armada e diplomática”, Miguel de Barros conta que, embora a sua casa tenha sido um espaço de confluência de nacionalistas africanos, tanto da Guiné como dos outros PALOP, o ensinamento de Cabral não veio de berço. “Foi uma descoberta fruto das necessidades que tive, e não algo inculcado”, nota o sociólogo, recuando aos primórdios da ligação ao pensamento e prática do líder histórico. “Aprendi no meu percurso enquanto cidadão”, revela Miguel, a partir da adolescência ativamente envolvido nos então incipientes movimentos juvenis guineenses. Nessa fase, de transformação do país para a liberalização política, o investigador recorda que o fator mais determinante para a sua formação cívica foi a escola da Tiniguena. “Tiniguena significa ‘esta terra é nossa’, um movimento que apareceu quando havia uma abordagem dos atores públicos de desengajamento do Estado, de privatização”. Cofundador da chamada Geração Nova da Tiniguena, cujo slogan era ‘Conhecer para amar, amar para proteger’, o sociólogo sublinha a importância ambiental e cívica desse projeto educativo, que, através de um programa de visitas de estudo, aproxima adolescentes de sítios de património natural, cultural e histórico do país. “A Tiniguena marcou e transformou a minha vida”, revela o guineense, que se preparava para seguir planos de uma carreira na medicina quando uma dessas incursões pela Guiné lhe trocou as voltas. “Queria ser cirurgião, estudei os agrupamentos necessários, mas quando saí da visita disse que não. O médico tem um papel mecânico na sua atuação. Eu queria transformar a sociedade, acabar com as desigualdades”. Do ímpeto adolescente para o compromisso adulto, Miguel reconfigurou não apenas a escolha profissional, mas também a gestão dos tempos livres. “Não viajo para férias. Viajo para interagir e trabalhar com comunidades, com ONGs, cooperativas que têm interesse em imaginar memórias do futuro, pensar processos de planificação estratégica participada, fazer mapeamentos territoriais, e colocar isso ao serviço da sociedade”. Entre idas e vindas, o sociólogo foi aprofundando a leitura crítica da realidade africana e global. “As grandes revoluções já aconteceram”, defende, acrescentando que “nunca vamos conseguir fazer aquilo que a geração de Cabral fez”, e que “só não somos felizes porque houve traição à memória dessa geração”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o investigador guineense apela ainda à refundação do sistema educativo e à mudança do sistema financeiro global, enquanto alerta para os ‘pecados’ da geração atual. “A combinação entre a falta de consciência histórica, o vedetismo e a mercantilização das relações está a produzir seres egoístas”. Ouça o episódio completo aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    58 min
  8. Rita Cruz: “Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”

    JAN 1

    Rita Cruz: “Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”

    Escreve, encena, interpreta e também canta. Artista para muitos espetáculos e produções, Rita Cruz está habituada a desdobrar-se entre o teatro, a televisão, o cinema e a música. “O problema é estar quieta”, diz a autora do single ‘Cuidado’, gravado com Dino d’Santiago. Além de nos apresentar esta sua novidade discográfica, a convidada desta semana de ‘O Tal Podcast’ revela como a “teimosia” e uma “escolha um pouco inconsciente e meio infantil” se concretizaram numa carreira no mundo da representação. Ainda pequena, Rita Cruz sonhou e anunciou o próprio futuro: “vou ser atriz”. A certeza, conta nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, foi-se acentuando enquanto crescia, nas “pequenas rábulas” que fazia na escola. “Era mais forte do que eu, essa necessidade de colocar a criatividade em prática”. Os planos artísticos acabaram, contudo, adiados, ao esbarrarem em alertas de precariedade laboral. Por um lado, a mãe aconselhou-a a tirar um curso superior com uma saída profissional estável. Por outro lado, o pai estava bem consciente dos desafios da vida de artista. “Era músico, mas também tinha uma profissão dita normal. Acho que ele via em mim este gosto pela arte, mas também me dizia: vai por uma coisa mais segura”. Rita foi, e por isso formou-se em Reabilitação e Inserção Social, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, antes de seguir o destino que desde cedo reconheceu como seu. Licenciada em Teatro – Atores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, avançou para os palcos e nunca mais recuou. “Cofundei o Teatro do Eléctrico já com a vontade de construir oportunidades. Só mais tarde percebo a importância que teve, porque jovens vieram ter comigo: ‘olha, fui para a escola de teatro porque te vi num palco, nunca tinha visto uma atriz negra’”. Hoje consciente da importância de todas as pessoas se sentirem identificadas na ficção, Rita defende que a “falta de representatividade fecha-nos a possibilidade de sonhar”. Ela própria ‘órfã’ de referências negras – “Em criança via quem? A Whoopi Goldberg, e pouco mais” –, reconhece que a sua trajetória foi construída a partir de uma “grande vontade de fazer”, combinada com uma certa dose de inconsciência. “Ouvi muitos “nãos’ e ‘mais vale não vires ao casting porque não fazes parte do perfil’. Eu percebia o que se queria dizer, era pura e simplesmente a cor. Mas ia, e aconteceu-me variadíssimas vezes o encenador ter gostado da minha prestação e ficar com o papel”. Contra as probabilidades, numa altura em que “não via Ritas na televisão, na publicidade, ou na música”, a multifacetada artista considera que, a partir da exposição a outras Ritas, as novas gerações expandiram o imaginário, e, com isso as aspirações. “Há uns tempos, tivemos uma conversa com diferentes gerações, em que se falou de representatividade, e viu-se a diferença geracional: os miúdos de 20 anos são muito mais frontais, [dizem]: “isto é um direito meu’”. Além das palavras, a atriz sublinha a importância de combater atos de discriminação, algo que procura fazer também através da educação do filho. “Quando eu era mais jovem sentia-me sozinha e não sabia porquê. Era um sítio de solidão, este não dizer, sentir, mas não saber dar nome, este não lugar. Portanto, acho muito importante falar [sobre racismo] com os pais, com a professora, e com o meu filho”. Um dos temas de discussão, aponta Rita, tem sido o lápis cor de pele. “Basta colocar várias mãos à frente, e conseguem perceber que há diferentes tons de pele. Isto é muito importante para as crianças não se sentirem sozinhas, num sítio de exclusão”. O compromisso com a inclusão, presente na representação e na maternidade, estende-se à música, e tem no tema ‘Cuidado’, gravado com Dino d’Santiago, um sonoro manifesto. “Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”. Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    56 min

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Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

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