O Princípio da Inquietação

Um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas. Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma inquietação. A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

  1. 3d ago

    Marta Faustino, filósofa: Vida e morte andam de mãos dadas, mas são entidades distintas que não se cruzam

    A morte é um mal a evitar ou a condição que dá sentido à vida? Neste episódio gravado no ESPANTO — Festival Internacional de Filosofia em 2025, Marta Faustino leva-nos numa viagem por duas das mais influentes perspetivas filosóficas sobre a morte, colocando em diálogo Epicuro e Martin Heidegger. Embora ambos se debrucem sobre a mesma problemática, as suas respostas não podiam ser mais distintas. Para Epicuro, a morte é uma fonte de sofrimento apenas porque a tememos injustificadamente: “A morte não é um bem nem é um mal, é um acontecimento neutro” que nada significa para quem morre. Se não nos inquieta o facto de nada termos sido antes de nascer, também não deveria angustiar-nos o facto de deixarmos de existir depois da morte. Libertar-nos desse medo é, para Epicuro, a condição para viver serenamente e aproveitar a vida com tranquilidade — carpe diem. Heidegger, pelo contrário, não procura dissipar a consciência da morte, mas aprofundá-la. A morte não é apenas um acontecimento biológico, mas a possibilidade mais própria e extrema da existência: “a morte é a possibilidade da impossibilidade de todas as outras possibilidades.” Ao confrontarmo-nos com a nossa finitude, rompemos com a inautenticidade da vida quotidiana — em que a morte parece acontecer sempre aos outros, nunca a nós — e abrimos espaço para uma existência singular e autêntica (Dasein). No fundo, este episódio coloca-nos perante duas formas radicalmente diferentes de viver: procurar a tranquilidade libertando-nos do medo da morte ou assumir a finitude como a condição de uma vida verdadeiramente autêntica. Entre o carpe diem de Epicuro e o Dasein de Heidegger, que filosofia de vida faz mais sentido para si? Embarque nesta reflexão connosco e vemo-nos na próxima semana! See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  2. Aug 27

    Peter Sloterdjik, filósofo: Guerra com drones é um feitiço que causa danos à distância

    Neste episódio gravado no ESPANTO, Festival Internacional de Filosofia, em 2025, escutamos Peter Sloderdjik, um dos filósofos contemporâneos mais reconhecido. O que nos propõe é uma reflexão sobre o medo numa ótica um pouco diferente e ousada. Como passámos da magia à tecnologia? E porque continuamos a temer ameaças que atuam à distância? Sloterdijk submete uma proposta sobre a genealogia da tecnologia moderna, argumentando que ela não conflitua com o pensamento mágico, mas racionaliza-o. Da magia simbólica às máquinas, da gravidade de Newton aos mísseis, drones, hackers e guerras contemporâneas, o filósofo demonstra como o antigo desejo de agir à distância (actio in distans) continua presente nas novas formas tecnológicas de poder e destruição. A partir do conceito de telemalignidade, Sloterdijk analisa a evolução da violência remota, questiona a relação entre tecnologia, medo e poder, e introduz a ideia de imunidade como um conceito fundamental para compreender a condição humana. Num mundo em que as ameaças circulam cada vez mais depressa e mais longe, este episódio convida-nos a pensar de que forma podemos construir mecanismos de proteção que ultrapassem as fronteiras nacionais, religiosas e ideológicas. Uma reflexão sobre magia, técnica, guerra e filosofia, que desafia a forma como entendemos o presente e o futuro das sociedades humanas. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  3. Aug 13

    Michel Eltchaninoff, filósofo francês: Como viver com o medo em tempos de inquietação política?

    Neste episódio vamos ser desafiados a pensar sobre o medo como condição política do nosso tempo, enquanto assistimos à ascensão de lideranças transgressivas que redefinem as fronteiras do que é possível dizer e fazer no espaço público. Michel Eltchaninoff, filósofo francês e chefe de redação da “Philosophie Magazine”, afirma que leu todos os discursos de Vladimir Putin e que isso o levou a compreender algo perturbador: existe uma visão de mundo coerente por detrás do que muitos preferem considerar simples loucura. Fala-nos da “sideração”, um estado de bloqueio, de paralisia, em que ficamos quando confrontados com o excesso de provocações contraditórias que caracterizam o estilo de Trump e de Putin. Como nos diz Michel, “a provocação é uma estratégia da sideração.” Não é caos, é método. E o método funciona precisamente porque nos impede de pensar e de agir. Embora o panorama seja sombrio, Michel, inspirado na tradição filosófica que vai de Heráclito a Hannah Arendt, insiste que é possível e necessário resistir. Não através de grandes gestos, mas através da ação mínima, do pensamento claro, da recusa em deixar que a inquietação se transforme em submissão. A razão, diz-nos, não é um luxo. É uma forma de resistência. Michel conclui que vivemos num mundo de contingência radical, onde a imprevisibilidade não é exceção, mas regra. Apela: a vida, como uma novela, é imprevisível. E é precisamente essa imprevisibilidade que nos obriga a permanecer acordados, atentos e, acima de tudo, livres para pensar. * A sinopse deste episódio foi criada com o apoio de IA. Saiba mais sobre a aplicação de Inteligência Artificial nas Redações da Impresa  See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  4. Aug 6

    Uma pasta de dentes, Heidegger e Hannah Arendt: entrevista a Raquel Marinho, jornalista e storyteller

    Neste novo episódio, a convidada, Raquel Marinho, fala-nos das suas grandes inquietações que se enquadram nas grandes questões da filosofia: haverá vida depois da morte? Onde é que eu estava antes de ter existido? Existe Deus ou algum tipo de transcendência? Essa transcendência interfere ou não na minha vida?  Para Raquel Marinho, ainda não ter respostas não é um problema, pois, nas suas palavras “É a dúvida que alimenta a procura”. Este episódio está recheado de conversa e humildade: a resposta “eu não sei” deve continuar a ser válida.   Será possível dizer se uma poesia é boa ou má? Talvez não. Talvez haja outro critério para avaliar a sua qualidade: o desconforto. Fazendo das palavras da poeta portuguesa Ana Hatherly as suas, Raquel cita “Quando o poema é bom, não te aperta a mão, aperta-te a garganta”. Esse desconforto, essa inquietação gerada quando nos é retirado o chão, não é má em si mesma, entrega-nos uma imagem nova de algo que conhecíamos, mas não conseguíamos denominar.  Para que serve a poesia? Se calhar é chocante para uns, ou óbvio para outros, mas a poesia não serve para nada. Mesmo não tendo utilidade, acrescenta à vida coisas que não experimentaríamos sem ela. Nas palavras de Raquel, “A utilidade é uma palavra que não faz muito sentido quando falamos de poesia, mas ainda bem”.  Refletimos sobre o que realmente importa na vida, e através de um excerto de Amália Bautista, chegamos à conclusão de que há poucas coisas que realmente importam: amar e ser amado, e não morrer antes dos nossos filhos.  Tentámos ainda descobrir o grau de parentesco entre a Poesia e a Filosofia. Serão mãe e filha? Se sim, qual ocupa que papel? Serão irmãs ou primas afastadas? O que sabemos é isto “Partilham o Espanto”.  Por fim,  a frase de Manuel de Barros: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude”, marcou este podcast pela paz em reconhecer que somos incompletos. Sabendo isto, não encontrar respostas não nos deve fazer desistir de perguntar, pelo contrário, deve inquietar-nos e perguntar sempre mais.  See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Uma pasta de dentes, Heidegger e Hannah Arendt: entrevista a Raquel Marinho, jornalista e storyteller

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