O Princípio da Inquietação

Um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas. Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma inquietação. A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

Episodes

  1. António de Castro Caeiro: A possibilidade de Resistência

    May 28

    António de Castro Caeiro: A possibilidade de Resistência

    O filósofo António de Castro Caeiro propõe-nos pensar o assombro como uma sensação de estranheza e inospitalidade perante a perda de objetos ou de pessoas, atitudes inesperadas, mudanças súbitas no familiar ou situações como a doença na infância e as despedidas. É o insólito que irrompe no quotidiano, tornando o conhecido desconhecido e provocando a perceção de que tudo mudou. Desde cedo, experiências radicais (como a morte, a separação ou a ausência) revelam a vulnerabilidade do tempo e do ser: “A morte apresenta-se como um agente patológico”, e o assombro nasce desse confronto com o outro, com o inesperado e com a transformação. Leva à consciência da passagem do tempo, da sua escassez e da esperança que pode emergir após longos períodos de letargia. No fundo de todas as coisas, o assombro é o surgimento do ser, a revelação da vida no próprio ato de resistir ao desaparecimento. A inquietação perante o desconhecido e o desconforto quando este se manifesta retiram o véu da nossa vulnerabilidade e finitude. “E, no assombro, pode parecer que estamos sempre expostos a coisas diferentes, quando podemos estar sempre expostos à mesma coisa.” Nesta jornada filosófica, António de Castro Caeiro leva-nos não apenas pela epistemologia e pela etimologia do assombro, mas também pela realidade intangível com que todos nos deparamos na vida quotidiana, muitas vezes sem disso nos apercebermos. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    32 min
  2. Entre um lápis e uma flor: a escolha de Joana Bértholo diz muito sobre nós

    May 21

    Entre um lápis e uma flor: a escolha de Joana Bértholo diz muito sobre nós

    Neste episódio, a conversa flui com Joana Bértholo, escritora que, em paralelo com a criação literária, escreve regularmente para dança e para teatro.Falamos de utopias e distopias e do papel da imaginação. Joana revela ser uma pessoa de muitas inquietações, vinda de um longo período a pensar em fantasmas, ausências e perdas, como a própria refere: “no meio deste processo criativo, dei por mim a falar com oráculos, a pensar nos oráculos, o que é muito interessante porque é um diálogo transcultural, ou seja, desde sempre e em diversas culturas havia sistemas de adivinhação”.A conversa segue para as utopias e distopias como modalidades de pensamento que nos permitem criar uma espécie de laboratório para pensar o futuro. Poderá a Joana vir a escrever uma utopia? Ou será que se sente desconfortável com esta modalidade literária? Será uma paródia?A contemporaneidade, onde todos têm opiniões e normalmente opiniões imediatas, é sinal, para a nossa convidada, da doença dos nossos tempos: “Não há tempo para pensar, não há tempo para duvidar, não há tempo para discordar e muitas vezes sente-se que se apanha a boleia de uma espécie de movimento coletivo e isso é perigoso porque gera movimentos coletivos de pensamento”.Joana Bértholo reforça que “estamos a viver uma realidade, um mundo, uma época com fortes traços distópicos, o que é muito perigoso”, “a partir do momento em que aceitarmos que estamos a viver uma distopia estamos a abdicar de muito poder”.A conversa termina com a habitual caixa dos desejos filosóficos e a escritora deixa-nos uma escolha que nos faz pensar na verdadeira importância da relação com o não humano.Joana Bértholo é um exemplo indiscutível de uma escritora onde a imaginação pode, na verdade, não ter limites e o sucesso dos seus livros pode compreender-se ainda melhor depois de a escutar neste episódio. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    40 min
  3. José Gil: O Medo que vem aí

    May 14

    José Gil: O Medo que vem aí

    O medo protege-nos, mas também nos pode aniquilar. Segundo José Gil, “retira ao sujeito a sua capacidade de agir”. Gil é um dos maiores filósofos portugueses da atualidade. Neste episódio do Princípio da Inquietação, faz uma caracterização do medo que hoje se anuncia através dos perigos trazidos pelas alterações climáticas, pelos avanços da extrema-direita, pela inteligência artificial e por outros fatores. Analisa ainda diversos tipos e funções sociais do medo, para descrever o sentimento que parece estar a invadir e a moldar as subjetividades contemporâneas. Relembra o medo da ditadura salazarista, o medo político e alguns dos aspetos da repressão do regime de Salazar.José Gil nasceu em Moçambique, fez o curso de Filosofia em Paris, onde terminou o doutoramento com uma tese (doctorat d’État) sobre O corpo como campo do poder. Em 1982 voltou a Portugal, onde lecionou Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Paralelamente, lecionou no Collège International de Philosophie de Paris, na New School for Dance Development, em Amesterdão, e na Universidade de São Paulo (PUC-SP). Orientou vários seminários em Porto Alegre, Fortaleza (Brasil) e Medellín (Colômbia) sobre Estética e sobre Fernando Pessoa. Publicou artigos e ensaios científicos em revistas e enciclopédias de todo o mundo, além de romances e numerosos ensaios, alguns traduzidos em francês, espanhol, inglês e italiano. Entre as suas obras destacam-se: Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações; Salazar — a retórica da invisibilidade; A imagem-nua e as pequenas perceções; Movimento total; Portugal, hoje — o medo de existir; O impercetível devir da imanência — sobre a filosofia de Deleuze; A arte como linguagem; O humor e a lógica dos objetos de Duchamp (em colaboração com Ana Godinho); Caos e ritmo; e Morte e democracia. Foi o primeiro filósofo a ser homenageado pelo Espanto — Festival Internacional de Filosofia. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    32 min

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