O Princípio da Inquietação

Um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas. Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma inquietação. A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

Episodes

  1. 4d ago

    “O Estado fez da Insegurança o seu negócio mais rentável, a sua arma mais poderosa” argumenta Donatella Di Cesare, filósofa e ensaísta italiana

    Neste episódio, gravado em 2025 na primeira edição do ESPANTO – Festival Internacional de Filosofia, a filósofa e ensaísta italiana Donatella Di Cesare aborda o medo focando-se nas dinâmicas de poder. Diz-nos que “O medo é o grande recurso das autoridades públicas, partidos e organizações numa época em que as grandes ideias parecem ter perdido credibilidade.”  Guerras, alterações climáticas, desertificação, precariedade laboral, instabilidade económica e crises migratórias são apenas algumas das ameaças que Donatella Di Cesare menciona como ameaças que alimentam um sentimento permanente de insegurança. Neste contexto, a segurança, passa a ocupar um lugar central no discurso político, surgindo o chamado Estado de segurança, que promete proteção contra ameaças presentes e futuras. Contudo, essas promessas revelam-se falíveis. Enquanto promete proteger os cidadãos de determinados riscos, o Estado expõe-nos a outros, justificando essas escolhas com base nas leis da Economia ou da História. Di Cesare prefere denominar este fenómeno por fobocracia — do grego phobos (medo) e kratos (poder) —, ou seja, o governo do medo, onde o Estado se aproveita a difusão da ansiedade, do fomento do ódio, do aumento da incerteza e da desconfiança, procurando fortalecer o seu poder político, apropriando-se do medo como um dos seus recursos mais poderosos. Donatella Di Cesare argumenta que as elites ocidentais mantêm a capacidade de decidir sobre a guerra através de uma suspensão técnica da democracia e de um reforço da soberania do poder executivo. Talvez o soberado absoluto do passado monárquico não tenha completamento desaparecido, mas apenas se tenha transformado e evoluído com base em com novos recursos militares, tecnológicos e financeiros. Donatella Di Cesare é professora titular de Filosofia Teórica no Departamento de Filosofia da Universidade Sapienza de Roma, onde é membro do Colégio Doutoral, e na Escola de Estudos Avançados Sapienza (SSAS). O seu pensamento situa-se no âmbito da Filosofia Continental (hermenêutica, desconstrução – Nietzsche, Heidegger, Gadamer, Derrida), aprofundando os temas da verdade e da compreensão. O seu trabalho tem-se centrado na ligação entre tempo e linguagem (Walter Benjamin), considerando as questões éticas e políticas do outro e da alteridade (Emmanuel Levinas). A Shoah tornou-se central na sua reflexão (If Auschwitz is Nothing, 2023). Tendo já contribuído com numerosos estudos sobre este tema, no rescaldo da publicação dos Cadernos Negros de Heidegger, interrogou-se sobre a responsabilidade da Filosofia face ao extermínio (Heidegger, os judeus e a Shoah. Os Cadernos Negros, 2016). Tem examinado repetidamente a relação com a figura do estranho e do estrangeiro (Marranos. O Outro do Outro, 2019), incluindo também a questão da migração (Resident Foreigners. Philosophy of Migration, 2020). Na fronteira entre a biopolítica e a teologia política, analisou a soberania e as formas de dominação (Spinoza). Os desafios da violência, visível e invisível, do totalitarismo (Arendt) às suas formas contemporâneas (terror, tortura, guerra), levaram-na a repensar a vida nua e os direitos humanos. Apelou ao regresso da filosofia à pólis, esboçando a possibilidade de um pensamento radical capaz de conjugar existência e comunidade (A vocação política da filosofia, 2021). Nos últimos anos, tem articulado uma crítica da política estatal, contribuindo para uma reformulação do conceito de democracia (Democracia e Anarquia, 2024). See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  2. Jun 25

    A causa da ascensão dos fascismos pode estar na desumanização da nossa experiência humana, diz João Constâncio, filósofo

    Neste episódio, junta-se a nós um filósofo, também professor catedrático de Filosofia. Na semana do Espanto - Festival Internacional de Filosofia, onde o tema em debate é o desejo, não poderíamos deixar de conversar com João Constâncio, autor do livro Três Discursos sobre Eros - Meditação sobre o Fedro de Platão, e também tradutor e co-autor da introdução de Lisístrata, de Aristófanes, obra sobre a qual também conversamos. Estas duas obras são clássicas incontornáveis da Filosofia que durante este episódio nos ajudam a olhar para o desejo a partir de um ponto de vista muito especial, inclusivamente, político. O desejo erótico e a forma arrebatadora como a paixão se instala em nós e nos leva à loucura foi um tema em debate.  João Constâncio, suportando-se nos Três Discursos de Eros, frisa: “é a ideia de que quando se é atacado por Eros, tudo aquilo que antes se valorizava passa a parecer algo que não parece nada, que não vale nada, por exemplo, o lar, os pais, mãe, irmãos, os amigos, a fortuna que se tem ou não se tem,  tudo isso de repente não tem importância nenhuma. É um estado de loucura.” Sobre a obra Lisístrata de Aristófanes quisemos conhecer melhor o plano da personagem principal para terminar com a guerra do Peloponeso e João Constâncio explicou: “ é a ideia de as mulheres se negarem sexualmente aos maridos até que todos os homens façam a paz entre si.”  Para a época, ou seja 411 a.C., e segundo o nosso convidado, talvez “seja prudente evitar chamar feminista, mas eu creio que é sem dúvida proto feminista. Um discurso que inclui a defesa de que não há razão para as mulheres não falarem em público, não há razão para as mulheres não governarem a cidade, não governarem as finanças da cidade. É um discurso que implica todo um elogio da sensatez das mulheres e mesmo a ideia de que elas nunca fariam a guerra.” O que acontece nesta obra de Aristófanes, de acordo com o nosso convidado, é “uma crítica do poder dos homens, uma crítica, no fundo, da estrutura normativa, da polis grega, que é uma estrutura desigual e que a peça representa claramente como injusta. Isto é uma estrutura na qual os homens governam e as mulheres obedecem, tratam da casa, tratam do nascimento e da morte, basicamente, na esfera do privado”. Houve ainda tempo para falar de inteligência artificial (IA) uma vez que ela vem espicaçar os nossos desejos mais fúteis.  João Constâncio vê claramente uma relação entre a IA e o desejo “A relação que eu vejo entre os dois temas é bastante profunda. Podemos falar do desejo, de um ponto de vista filosófico, talvez a dois níveis diferentes: temos o tipo de reflexão que eu acho que prioritariamente vos está a interessar, o desejo tal como se manifesta quando estamos apaixonados, o desejo no amor sexual, é, portanto, o desejo nesse sentido mais estrito. Mas, num segundo nível, é o de um desejo que não tem necessariamente essa particularização. Por exemplo, alguns filósofos pensam no desejo de viver, o próprio desejo de estar vivo numa relação com o mundo, o próprio desejo pelo mundo, um sentimento de encantamento em relação ao mundo. Talvez genericamente o desejo seja o desejo de beleza, é assim que Platão, por exemplo, pensa nele.” João Constâncio considera que com a inteligência artificial estamos a abdicar de tudo o que é humano, “de sermos nós a fazer arte, sermos nós a pensar, sermos nós a escrever, e entregar isso às máquinas, a uma realidade a que nós temos acesso através de um olhar objetificante, que desfaz o nosso olhar humano, o nosso olhar valorativo, o olhar com que sentimos, com que encontramos beleza no mundo.” O filósofo vê nesta forma objectificante de relação com o mundo e com os outros, uma desumanização que considera ser parecido com o que “está em causa na ascensão dos fascismos, no genocídio, na forma como a guerra se voltou a banalizar e a proliferar nos nossos dias.” Finamente, era importante perceber - tal como faz Sócrates ao dirigir-se a Fedro, nos Três Discursos de Eros: “De onde vens e para onde vais?”, João Constâncio? A resposta é bela porque o nosso convidado veio, está e fica na Filosofia, ou seja, há locais de onde nunca se pode sair: “eu entrei para o curso de Filosofia quando tinha 18 anos. Entrei porque queria muito entrar, porque queria muito estudar Filosofia.  E aqui estou passado muitos, muitos anos. Nunca deixei de fazer isso. E é isso que eu faço. Conto já não ir para outro lugar, senão este mesmo onde tenho estado.” Neste episódio não poderia faltar a Caixa dos Desejos filosóficos e o nosso convidado abdicou de muitos objetos: lâmpada, gravata, chocolate, mola de roupa e até uma pastilha para a máquina de lavar loiça, para ficar com uma andorinha. As razões pelas quais o fez são belas e profundamente filosóficas. BIO Resumida  João Constâncio é professor catedrático do Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), onde se doutorou, em 2005, com uma dissertação sobre imagens e conceções da vida humana em Platão, e onde exerce os cargos de diretor do Instituto de Filosofia da Nova (IFILNOVA) e coordenador do Doutoramento em Filosofia. É autor do livro Arte e Niilismo: Nietzsche e o enigma do mundo (Tinta-da-china, 2013), bem como coorganizador de cinco livros sobre Nietzsche — incluindo, com Maria João Mayer Branco e Bartholomew Ryan, Nietzsche and the Problem of Subjectivity (Walter de Gruyter, 2015). Tem escrito e lecionado igualmente sobre questões fundamentais da Estética, da Antropologia Filosófica e da Filosofia da História nas obras de Platão, Kant, Hegel, Schopenhauer e Heidegger. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    A causa da ascensão dos fascismos pode estar na desumanização da nossa experiência humana, diz João Constâncio, filósofo
  3. Jun 11

    Ideologia e terror. Será a solidão a condição subjacente a todos os movimentos totalitários?

    Neste episódio vamos ser desafiados a refletir sobre a solidão na nossa era de isolamento, enquanto assistimos à ascensão da nova extrema-direita em várias partes do mundo. Samantha Rose Hill, filósofa americana especializada no pensamento de Hannah Arendt, afirma: “Nunca pensei, ao longo da minha vida, tendo estudado isto profissionalmente, que testemunharia o alinhamento entre o que hoje se chama antissemitismos e a nova extrema-direita.” Fala-nos da solidão como condição subjacente a todos os movimentos totalitários e diz-nos que “agora vivemos num mundo onde as pessoas estão isoladas e com medo umas das outras o tempo todo”. Embora vivamos uma forma estranha de solidão, Samantha, inspirada no pensamento de Arendt, insiste que é importante não se deixar levar pela maré. A ideologia é a maré que nos afasta da experiência de estar no mundo como um ser humano único que vive com os outros. Nesta palestra, há um apelo à ação e à coragem. A coragem, como disse Arendt no seu livro “Condição Humana”, é a virtude política por excelência, porque quando se entra na esfera pública e se fala, pode-se ser acusado de estar errado. Pode ser-se morto, pode sentir-se terror. É preciso coragem para falar. É preciso coragem para falar em tempos sombrios. É preciso coragem para agir. Samantha conclui que ninguém sabe o que vai acontecer e apela: “Das pessoas que dizem que sabem o que vai acontecer, fuja, bandeira vermelha, fuja. Pessoas que dizem: 'Eu tenho uma solução para isso'. Fuja.” See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Ideologia e terror. Será a solidão a condição subjacente a todos os movimentos totalitários?
  4. May 28

    António de Castro Caeiro: A possibilidade de Resistência

    O filósofo António de Castro Caeiro propõe-nos pensar o assombro como uma sensação de estranheza e inospitalidade perante a perda de objetos ou de pessoas, atitudes inesperadas, mudanças súbitas no familiar ou situações como a doença na infância e as despedidas. É o insólito que irrompe no quotidiano, tornando o conhecido desconhecido e provocando a perceção de que tudo mudou. Desde cedo, experiências radicais (como a morte, a separação ou a ausência) revelam a vulnerabilidade do tempo e do ser: “A morte apresenta-se como um agente patológico”, e o assombro nasce desse confronto com o outro, com o inesperado e com a transformação. Leva à consciência da passagem do tempo, da sua escassez e da esperança que pode emergir após longos períodos de letargia. No fundo de todas as coisas, o assombro é o surgimento do ser, a revelação da vida no próprio ato de resistir ao desaparecimento. A inquietação perante o desconhecido e o desconforto quando este se manifesta retiram o véu da nossa vulnerabilidade e finitude. “E, no assombro, pode parecer que estamos sempre expostos a coisas diferentes, quando podemos estar sempre expostos à mesma coisa.” Nesta jornada filosófica, António de Castro Caeiro leva-nos não apenas pela epistemologia e pela etimologia do assombro, mas também pela realidade intangível com que todos nos deparamos na vida quotidiana, muitas vezes sem disso nos apercebermos. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    António de Castro Caeiro: A possibilidade de Resistência
  5. May 21

    Entre um lápis e uma flor: a escolha de Joana Bértholo diz muito sobre nós

    Neste episódio, a conversa flui com Joana Bértholo, escritora que, em paralelo com a criação literária, escreve regularmente para dança e para teatro.Falamos de utopias e distopias e do papel da imaginação. Joana revela ser uma pessoa de muitas inquietações, vinda de um longo período a pensar em fantasmas, ausências e perdas, como a própria refere: “no meio deste processo criativo, dei por mim a falar com oráculos, a pensar nos oráculos, o que é muito interessante porque é um diálogo transcultural, ou seja, desde sempre e em diversas culturas havia sistemas de adivinhação”.A conversa segue para as utopias e distopias como modalidades de pensamento que nos permitem criar uma espécie de laboratório para pensar o futuro. Poderá a Joana vir a escrever uma utopia? Ou será que se sente desconfortável com esta modalidade literária? Será uma paródia?A contemporaneidade, onde todos têm opiniões e normalmente opiniões imediatas, é sinal, para a nossa convidada, da doença dos nossos tempos: “Não há tempo para pensar, não há tempo para duvidar, não há tempo para discordar e muitas vezes sente-se que se apanha a boleia de uma espécie de movimento coletivo e isso é perigoso porque gera movimentos coletivos de pensamento”.Joana Bértholo reforça que “estamos a viver uma realidade, um mundo, uma época com fortes traços distópicos, o que é muito perigoso”, “a partir do momento em que aceitarmos que estamos a viver uma distopia estamos a abdicar de muito poder”.A conversa termina com a habitual caixa dos desejos filosóficos e a escritora deixa-nos uma escolha que nos faz pensar na verdadeira importância da relação com o não humano.Joana Bértholo é um exemplo indiscutível de uma escritora onde a imaginação pode, na verdade, não ter limites e o sucesso dos seus livros pode compreender-se ainda melhor depois de a escutar neste episódio. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Entre um lápis e uma flor: a escolha de Joana Bértholo diz muito sobre nós
  6. May 14

    José Gil: O Medo que vem aí

    O medo protege-nos, mas também nos pode aniquilar. Segundo José Gil, “retira ao sujeito a sua capacidade de agir”. Gil é um dos maiores filósofos portugueses da atualidade. Neste episódio do Princípio da Inquietação, faz uma caracterização do medo que hoje se anuncia através dos perigos trazidos pelas alterações climáticas, pelos avanços da extrema-direita, pela inteligência artificial e por outros fatores. Analisa ainda diversos tipos e funções sociais do medo, para descrever o sentimento que parece estar a invadir e a moldar as subjetividades contemporâneas. Relembra o medo da ditadura salazarista, o medo político e alguns dos aspetos da repressão do regime de Salazar.José Gil nasceu em Moçambique, fez o curso de Filosofia em Paris, onde terminou o doutoramento com uma tese (doctorat d’État) sobre O corpo como campo do poder. Em 1982 voltou a Portugal, onde lecionou Filosofia na Universidade Nova de Lisboa. Paralelamente, lecionou no Collège International de Philosophie de Paris, na New School for Dance Development, em Amesterdão, e na Universidade de São Paulo (PUC-SP). Orientou vários seminários em Porto Alegre, Fortaleza (Brasil) e Medellín (Colômbia) sobre Estética e sobre Fernando Pessoa. Publicou artigos e ensaios científicos em revistas e enciclopédias de todo o mundo, além de romances e numerosos ensaios, alguns traduzidos em francês, espanhol, inglês e italiano. Entre as suas obras destacam-se: Fernando Pessoa ou a metafísica das sensações; Salazar — a retórica da invisibilidade; A imagem-nua e as pequenas perceções; Movimento total; Portugal, hoje — o medo de existir; O impercetível devir da imanência — sobre a filosofia de Deleuze; A arte como linguagem; O humor e a lógica dos objetos de Duchamp (em colaboração com Ana Godinho); Caos e ritmo; e Morte e democracia. Foi o primeiro filósofo a ser homenageado pelo Espanto — Festival Internacional de Filosofia. See omnystudio.com/listener for privacy information.

    José Gil: O Medo que vem aí

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