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RFI Português

De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

  1. 1d ago

    Paraíso leva a Braga um debate sobre afrodescendência, memória e futuro

    Braga recebe a  4.ª edição do festival Paraíso, dedicada ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Cinema, música, dança, gastronomia e conversas servem de ponto de partida para pensar memória, representatividade e pertença. Para o coordenador do festival, Nuno Abreu, o objectivo é criar um espaço onde diferentes comunidades possam não apenas assistir, mas também participar na construção das narrativas. O Paraíso regressa a Braga com uma pergunta que atravessa toda a programação: o que fazer, no presente, com aquilo que se herda do passado? Na  4.ª edição, o festival escolheu colocar “Passado e Futuro na Afrodescendência” no centro de dois dias de cinema, dança, música, gastronomia e reflexão. Para o coordenador de Assessoria de Imprensa, Conteúdos e Acessibilidade do Paraíso, Nuno Abreu, juntar estas duas temporalidades não significa apenas olhar para trás e imaginar o que vem depois. Significa, sobretudo, interrogar o presente. “Todos os anos elegemos um tema associado às questões afrodescendentes. Este ano escolhemos passado e futuro porque queremos propor uma reflexão colectiva”, explica. Essa reflexão começa em Braga e com quem vive na cidade. O festival procura envolver estudantes, investigadores, artistas, agentes culturais e organizações locais na própria construção da edição. “Queremos pensar as formas de existir daquilo que recebemos desta herança que é a afrodescendência e pensar nas realidades que queremos construir e que, neste momento, já estão a ser construídas.” Entre os participantes estão representantes da Secção de Estudantes Africanos da Universidade do Minho, agentes culturais residentes na região e organizações que trabalham com comunidades migrantes e afrodescendentes. Para Nuno Abreu, esta ligação ao território é essencial. “O Paraíso quer demonstrar essa realidade: as pessoas que trabalham cá, que vivem cá e que querem mostrar à população e às comunidades o trabalho que tem sido feito para que a nossa sociedade seja o mais justa possível.” Mas programar culturas afrodescendentes envolve também um risco: transformá-las numa sucessão de manifestações artísticas apresentadas a partir de fora, como se fossem apenas objectos de exposição. É precisamente isso que o festival procura evitar. Em vez de construir toda a programação a partir de uma direcção central, o Paraíso entrega parte da curadoria a pessoas e organizações ligadas aos temas em discussão. “O que fazemos desde o início é convidar pessoas e organizações para fazerem a curadoria das várias áreas, tanto no pensamento como na mediação e nas artes de palco”, explica Nuno Abreu. “Convidamo-las para idealizarem aquilo que querem fazer, quem querem convidar e sobre o que querem conversar e discutir.” É também desta lógica que nasce, por exemplo, a curadoria de cinema entregue a Kitty Furtado, que escolheu uma obra da realizadora Vanessa Fernandes e participa na construção da conversa em torno do filme. A opção responde, segundo Nuno Abreu, a uma questão mais profunda de representatividade. “Talvez por falta de representatividade de artistas afrodescendentes nos teatros nacionais, nós convidamos sempre pessoas e organizações para fazerem a curadoria destes elementos.” A  4.ª edição cruza-se com as comemorações dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma associação que nasce precisamente de países ligados por uma história marcada também pelo colonialismo português. Nuno Abreu não foge à contradição. Pelo contrário, considera-a matéria para discussão. “Todas as contradições interessam para a construção de pensamento. Queremos que o Paraíso seja um espaço plural em termos de perspectivas sobre o que é a afrodescendência e também sobre o que é a afrodescendência lusófona.” A própria língua entra, assim, no debate. “O que é que a nossa língua representa para toda a gente? E o que representam outras línguas, como os crioulos dos vários países africanos de língua oficial portuguesa?”, questiona. Para o responsável, memória e futuro não precisam de aparecer como forças incompatíveis. “Falamos sobre o que são as heranças e sobre o que são as construções do futuro. Elas podem, se calhar, andar de mão dada.”  Também não é indiferente que esta conversa aconteça em Braga. Se grande parte dos debates sobre racismo, imigração ou afrodescendência tende a concentrar-se em Lisboa, o Paraíso nasceu precisamente da vontade de descentralizar essas discussões. “A maior parte da população afrodescendente reside em Lisboa, mas em Braga também reside, também existe”, lembra Nuno Abreu. “É preciso perceber se estas pessoas estão felizes cá, se usufruem culturalmente dos espaços, se são artistas ou investigadores e que espaço é que essas pessoas têm.” A questão, sustenta, é perceber como se vive a experiência afrodescendente fora da capital. “É importante Braga estar no mapa com um programa artístico como este e conseguir perceber de que forma todas estas pessoas vivem uma cidade como Braga e não uma capital.”  Essa preocupação conduz a outra palavra central do festival: acessibilidade. Não apenas no sentido físico de entrar num espaço cultural, mas também no sentido económico e simbólico de sentir que esse espaço é para todos. Cerca de 80% da programação do Paraíso é gratuita. Conversas, sessões de cinema e outras actividades podem ser frequentadas sem compra de bilhete. “Não é obviamente só uma população afrodescendente que tem dificuldade em comprar um bilhete para ir a um espectáculo. Uma população portuguesa que não seja afrodescendente também tem”, lembra Nuno Abreu. Por isso, acrescenta, “o Paraíso tem-se pautado por ser um evento maioritariamente gratuito, para que o número máximo possível de pessoas, de qualquer nacionalidade, que vivam em Braga sejam bem-vindas”. A ambição vai além de aumentar o público. “Queremos que partilhem este espaço, que espero que seja seguro. Um espaço de liberdade para pensar, para conhecer e para sonhar.” O festival concentra-se em dois dias, mas Nuno Abreu rejeita a ideia de que o sucesso possa ser medido apenas pelo número de pessoas que atravessam as salas durante esse período. “Sucesso na área das artes é sempre um pouco discutível”, reconhece. “Obviamente, temos vindo a assistir a um número cada vez maior de pessoas nas acções do Paraíso, mas talvez o mais importante seja existir continuidade.” É essa continuidade, considera, que impede que as questões debatidas no festival desapareçam quando se desmonta o palco. Artistas de diferentes nacionalidades, conversas, espectáculos e criações continuam a integrar a programação cultural da cidade ao longo do ano.

  2. 1d ago

    “Há um antes e um depois do 11 de Setembro”, conta jornalista que cobriu os atentados

    Henrique Mano foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero depois do ataque de há 25 anos às Torres Gémeas, em Nova Iorque, no qual morreram cerca de três mil pessoas. À hora dos atentados, a 11 de Setembro de 2001, o repórter já estava no Jornal Luso-Americano de Newark e contou-nos como foi cobrir o trágico acontecimento que mudou o mundo e a sua própria vida na cidade onde vivia e ainda vive. “Há um antes e um depois do 11 de Setembro”, resume o jornalista. Já passou um quarto de século desde os ataques que são considerados como um momento de viragem na história contemporânea. A 11 de Setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas da Al-Qaeda, com dois deles a colidirem de forma intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, que acabariam por desabar algum tempo depois. O terceiro avião de passageiros colidiu com o edifício do Pentágono, nos arredores de Washington, e o quarto caiu num campo no estado da Pensilvânia, depois de alguns passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controlo do aparelho. Morreram cerca de três mil pessoas nesse dia e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então. A queda dos edifícios libertou uma nuvem tóxica e provocou um desastre ambiental urbano sem precedentes nos Estados Unidos, ao qual foram expostas quase 500 mil pessoas e cujo impacto ainda perdura. Neste programa, falamos com Henrique Mano, editor do Jornal Luso-Americano de Newark, que foi um dos primeiros jornalistas portugueses a chegarem ao Ground Zero e que ajudou a identificar vítimas luso-americanas. Esta sexta-feira, o jornalista vai cobrir uma cerimónia inédita em Newark, “um pequeno Portugal”, que vai lembrar as vítimas dos atentados, nomeadamente as de ascendência portuguesa, paralelamente às homenagens que vão decorrer em Nova Iorque. “A cidade de Newark é onde está concentrada a grande comunidade portuguesa na costa leste dos Estados Unidos, é uma espécie de pequeno Portugal. Uma das vítimas portuguesas nasceu aqui, cresceu aqui. Eu digo aqui porque estou na redacção do jornal e o jornal está também sediado em Newark. O vereador português de Newark, o Michael Silva, pela primeira vez, vai fazer uma cerimónia do içar da bandeira, que é uma tradição americana, para lembrar as vítimas não só luso-americanas, mas todas as vítimas dos atentados. Eu vou estar ocupado a fazer a cobertura desse evento”, conta Henrique Mano. Há 25 anos, quando os aviões embateram nas Torres Gémeas de Nova Iorque, a cidade onde vivia e vive, o repórter “tinha acabado de chegar à redacção”, em Newark, nos arredores de Nova Iorque. “Nesse dia já não consegui regressar a Nova Iorque porque os acessos da cidade estavam todos interrompidos. Não havia comboios, os túneis estavam fechados. Portanto, só no dia seguinte, logo de manhã, consegui apanhar um comboio e fui para Nova Iorque. Fui imediatamente para a zona do Ground Zero tentar sobretudo auscultar a comunidade portuguesa que havia ali nos bairros de Soho e Tribeca - que estavam literalmente à sombra das Torres”, acrescenta. A partir daí, o jornalista e a equipa do jornal Luso-Americano ajudaram na identificação das nove vítimas portuguesas e lusodescendentes dos atentados, ajudando a compor uma lista oficial que até hoje é usada pelas autoridades portuguesas e norte-americanas. Há memórias que continuam muito presentes e são dificilmente imagináveis: “Morreram ali quase 3.000 pessoas no espaço de uma hora. Isto é difícil de explicar às pessoas, mas dos escombros das duas torres emanava um cheiro a morgue - estavam ali 3.000 corpos - que se manteve na ilha toda de Manhattan, para aí, durante uma semana. Nós em casa, dentro de casa, sentíamos este cheiro. Para além do aspecto prático de termos percebido que, em uma hora, as nossas vidas tinham mudado completamente, as medidas de segurança, a forma como viajamos, tudo isso. Há um antes e um depois do 11 de Setembro.” Na terça-feira, o presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, anunciou a divulgação de dezenas de milhares de documentos que mostram que a cidade não revelou tudo o que sabia sobre a toxicidade do ar após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Nos anos seguintes, mais de 9.400 pessoas morreram de doenças relacionadas com a exposição à área, de acordo com um programa federal de monitorização médica. Após a nuvem de poeira inicial que se seguiu ao colapso do World Trade Center, meses de poluição e poeira persistente causaram cancros que ainda afectam milhares de nova-iorquinos. "Estes documentos mostram o que a cidade sabia sobre o ar tóxico em redor do Ground Zero, quando o soube e como agiu para limitar a responsabilidade", disse o autarca de Nova Iorque, Zohran Mamdani numa conferência de Imprensa após a divulgação online de 170 mil páginas de documentos sobre preocupações com a saúde, a qualidade do ar e a resposta da cidade aos ataques. A divulgação faz parte de um acordo com a 9/11 Health Watch, um grupo de defesa das vítimas que interpôs uma ação judicial para obrigar a cidade a tornar os documentos públicos. "Durante 25 anos, quatro Administrações municipais diferentes ocultaram do público, do Congresso dos EUA e da Câmara Municipal documentos que mostravam o que a cidade realmente sabia sobre o perigo dos produtos químicos tóxicos no sul de Manhattan e no oeste de Brooklyn após o colapso do World Trade Center, mesmo enquanto as autoridades municipais continuavam a afirmar ao público que o ar era 'seguro e aceitável'", disse o director do grupo, Benjamin Chevat, em comunicado. Como milhares de pessoas, Henrique Mano também se expôs e continuou a fazer as suas reportagens no local, sem nunca ter colocado qualquer máscara. Conta até que conheceu um bombeiro lusodescendente que “trabalhou no Ground Zero durante seis meses na operação de recuperação dos restos mortais, a identificar pedaços de corpos que encontravam” e que “teve que se reformar prematuramente porque contraiu uma doença pulmonar associada ao 11 de Setembro”. “[As autoridades] não alertaram. A documentação agora prova que até as companhias de seguros estavam cientes do perigo e optaram por fazer segredo disso. Portanto, nem sei se não é matéria criminal. Não sei como é que as autoridades vão agora lidar com o assunto, mas isso tem sido muito falado agora, nesta semana dos 25 anos”, acrescenta o jornalista. Oiça a entrevista neste programa.

  3. 2d ago

    Angola aposta no espaço para reforçar soberania digital

    Angola quer transformar o investimento no espaço numa ferramenta de soberania digital, desenvolvimento económico e formação. Em Paris, onde participa na Cimeira Internacional do Espaço, o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, defendeu a criação de capacidades nacionais, sem abdicar da cooperação, e destacou as aplicações dos satélites nas comunicações, agricultura e protecção dos oceanos. Angola chegou à Cimeira Internacional do Espaço, em Paris, com uma ambição que ultrapassa a presença de um satélite em órbita. O objectivo, segundo o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, Mário Oliveira, é adquirir progressivamente conhecimento, infra-estruturas e recursos humanos que permitam a Angola reduzir dependências e construir aquilo a que Luanda chama “soberania digital”. “Temos um programa espacial nacional, temos um satélite de comunicações em órbita e estamos a trabalhar num satélite de observação da Terra”, explicou Mário Oliveira. “Estamos a trabalhar no sentido de criarmos capacidades próprias e de interagir com aquilo que se passa um pouco por todo o mundo, particularmente em África.” O ministro refere-se ao ANGOSAT-2, utilizado nas telecomunicações, e ao futuro ANGEO-1, primeiro satélite angolano dedicado à observação da Terra. O projecto ANGEO-1 arrancou oficialmente em Março nas instalações da Airbus Defence and Space, em Toulouse, e integra a estratégia angolana de reforço da capacidade tecnológica nacional. Para o ministro das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, porém, soberania digital não significa produzir tudo dentro das fronteiras. Significa sobretudo adquirir capacidade para dominar e gerir as tecnologias utilizadas pelo país. “Passa não só pelo ecossistema de satélites, mas também por todo o ecossistema de comunicações, aplicações e formação”, afirma. É precisamente na formação que o governante coloca uma das maiores apostas. “Estamos fortemente empenhados em formar jovens angolanos para que possam ser os angolanos a gerir e a criar plataformas”, sublinha. A intenção é diminuir gradualmente uma dependência tecnológica que reconhece existir. Num território extenso e com populações dispersas, os satélites e a fibra óptica são apresentados como instrumentos para levar comunicações a regiões onde a instalação de redes convencionais é pouco atractiva comercialmente. O representante angolano destaca projectos destinados a aumentar a cobertura móvel, levar Internet a localidades remotas e equipar escolas públicas com salas de informática. “Temos estado a levar Internet e comunicações a zonas recônditas do país, a escolas públicas situadas nas vilas e nas aldeias”, afirma. A tecnologia espacial é também associada à diversificação económica. “O Governo tem estado a apostar muito no agronegócio, na agro-indústria e na agricultura”, lembra o ministro. “A agricultura hoje já não se faz como nos anos 60 e 70. Exige muita tecnologia, exige acesso à Internet.” É nesse contexto que o ministro angolano vê os investimentos em satélites e fibra óptica como infra-estruturas que podem servir também os produtores agrícolas, dando-lhes acesso a comunicações, informação e serviços digitais. “Temos estado a levar essas facilidades aos nossos empresários agrícolas”, explica. A participação em Paris serve para procurar conhecimento fora do país. Angola tem contactos previstos com diferentes actores do sector, entre os quais a Agência Espacial Africana, a Agência Espacial Portuguesa e a Airbus Defence and Space. Para o ministro, não se trata de substituir incapacidade interna por soluções estrangeiras, mas de acelerar a aprendizagem. “O ecossistema das tecnologias exige troca de experiências. Nós começámos o nosso programa espacial há relativamente pouco tempo”, afirma. No plano africano, considera que a criação da Agência Espacial Africana oferece uma oportunidade adicional: “África tem estado junta à procura do seu espaço no ecossistema de satélites.” Com Portugal, Mário Oliveira destaca a relação entre as respectivas estruturas espaciais. “Temos uma boa relação ao nível do nosso Gabinete de Gestão do Programa Espacial e da Agência Espacial Portuguesa. Sempre que podemos estar juntos, conversar sobre as nossas ideias, sobre os nossos projectos e sobre aquilo que pode ser o intercâmbio entre nós, essas oportunidades são bem-vindas.” A França ocupa também uma posição importante. É em parceria com a Airbus que está a ser desenvolvido o ANGEO-1, e jovens angolanos deverão deslocar-se para formação especializada. “Está a chegar, nos próximos dias, uma equipa de jovens angolanos que vai fazer mestrado e formação ao nível dos satélites”, anunciou o ministro. O objectivo é fazer com que o investimento em equipamentos seja acompanhado pela criação de conhecimento dentro do país. “Sem formação podemos fazer todos os programas que quisermos”, mas será difícil assegurar a sustentabilidade, reconhece. Angola pretende, por isso, avançar também para formação especializada no ensino superior nacional. “Estamos a preparar-nos para, juntamente com o Ministério do Ensino Superior, podermos ter em Angola uma formação específica nesta matéria”, adianta. “Temos grandes ambições. É para isso que estamos aqui, junto dos melhores e dos maiores.” A estratégia estende-se agora também ao Atlântico. Angola assinou durante a cimeira a adesão à iniciativa Space4Ocean, que procura utilizar tecnologias e dados espaciais na protecção dos mares e na exploração sustentável dos recursos oceânicos. “Temos uma costa extensa e hoje falamos muito da economia azul no país”, explica. A adesão vai permitir, segundo o governante, conhecer tecnologias já utilizadas por outros Estados “em defesa do mar, da costa e da própria economia marinha” e integrá-las no trabalho que Angola desenvolve nesta área. A Cimeira Internacional do Espaço decorre a 9 e 10 de Setembro no Grand Palais, em Paris, reunindo responsáveis políticos, agências, cientistas, astronautas e empresas de dezenas de países para discutir a transformação de um sector que adquiriu uma dimensão económica e estratégica crescente.

  4. 4d ago

    Festival Paraíso cruza memória, reparação e futuro na afrodescendência

    Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, este ano dedicado ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Entre cinema, música, dança, gastronomia e conversas, o encontro propõe interrogar as heranças coloniais e imaginar outros futuros. Para a curadora Kitty Furtado, olhar o passado é também um exercício de reparação e de transformação do presente. No festival Paraíso, passado e futuro não aparecem como extremos de uma linha do tempo. Encontram-se, sobrepõem-se e ajudam a interrogar o presente. A 4.ª edição do encontro, em Braga, parte das experiências afrodescendentes para pensar aquilo que permanece do passado colonial, mas também aquilo que pode ser reconstruído a partir dele. É nesse cruzamento que surge um filme realizado por Vanessa Fernandes em 2015, escolhido por Kitty Furtado, crítica cultural, investigadora e curadora do festival. “A escolha deste filme tem precisamente a ver com essa relação que estabelece entre o presente, um futuro possível e o passado”, explica. A obra aborda a mutilação genital feminina, mas fá-lo também através daquilo que não se diz. Para Kitty Furtado, o filme mostra como determinadas tradições atravessam gerações e continuam a condicionar vidas muito depois de a sua origem se ter perdido no tempo. “É um filme que nos fala muito de leis, de tradições que vêm de um passado que se perde no tempo e que, de forma silenciosa, penetram as nossas vidas hoje e condicionam, neste caso, a vida de mulheres negras”, afirma. Há, acrescenta, uma transmissão que acontece através da ausência de palavras: “Fala-nos disto também através dos silêncios que se instalam nas famílias e da transmissão silenciosa desse passado.” Onze anos depois, a curadora considera que esse silêncio não desapareceu. Pelo contrário. “No caso português, é até mais silencioso hoje do que em 2015. Em 2015 estávamos a começar a conseguir falar sobre isto”, observa, criticando uma abordagem que, na sua perspectiva, tende a reaparecer sobretudo pela via da criminalização das comunidades e das mulheres afectadas. Mas a distância entre 2015 e 2026 não se mede apenas na forma como se fala deste tema. Kitty Furtado vê também uma mudança mais ampla no clima político e social português. Recorda um período em que persistia a ideia de que Portugal seria uma excepção numa Europa em transformação e em que ainda era comum negar a existência de racismo no país. “Hoje já não há vergonha, já não há pudor nos discursos racistas, nos discursos de ódio”, afirma. “Estamos num outro Portugal que nós sempre soubemos que existia, que sempre existiu.” Essa mudança no modo de olhar a sociedade conduz directamente a uma das ideias centrais do trabalho de Kitty Furtado: o conceito de Black Gaze. A investigadora evita traduzir a expressão simplesmente por “olhar”, porque considera que a palavra portuguesa não contém toda a dimensão política que lhe atribui. “Gaze implica essa relação de poder entre quem olha e quem é olhado. Implica a construção de um discurso sobre aquilo que se olha e implica uma duração do olhar”, explica. Durante séculos, argumenta, a cultura visual foi construída a partir de uma posição dominante. “O discurso da visualidade foi sempre construído por pessoas brancas, maioritariamente homens brancos, que se arrogam o direito de compreender e de dizer o que é o mundo.” O Black Gaze altera essa relação porque transfere o poder de enquadrar e narrar para quem durante muito tempo apareceu sobretudo como objecto de representação. “Quando dizemos Black Gaze, é o olhar daquele que sempre foi olhado. Ora, isto altera toda a mundivisão.” E essa inversão, sublinha, não transforma apenas quem olha. Transforma também aquilo que passa a ser visível. Permite “humanizar este outro que foi desumanizado”, recuperar histórias sistematicamente apagadas e “reformular, ressignificar a história tal como a conhecemos”. Nem sempre são necessárias narrativas extraordinárias. Muitas vezes, diz Kitty Furtado, basta deslocar o ponto de vista: “São as mesmas histórias de família, as mesmas histórias de viagem, os mesmos dramas amorosos. A matéria humana é a mesma. A perspectiva é que é outra.” É também dessa mudança de perspectiva que nasce a relação entre memória e reparação. Para a investigadora, não são dois processos separados. A memória é reconstruída a partir do presente e, no caso das populações negras, essa reconstrução enfrenta um problema adicional: a ausência ou destruição de grande parte do arquivo. “É um arquivo muito delapidado. Foi muitas vezes queimado, foi muitas vezes invisibilizado, mas, mais do que invisibilizado, foi mesmo destruído”, sublinha. Perante essas lacunas, reconstruir a memória implica juntar fragmentos, estabelecer relações e imaginar aquilo que desapareceu entre os documentos que sobreviveram. “É preciso ligar momentos deste arquivo, os documentos deste arquivo, imaginar o que está entre eles através desse exercício de fabulação crítica.” Esse gesto de reconstrução já é, para Kitty Furtado, uma forma de reparação. “Este exercício de reconstrução da memória, este exercício de pensamento sobre um passado, é, em si mesmo, um acto de reparação. De reparação histórica, de auto-reparação.” E essa auto-reparação, sustenta, não pode ser delegada em quem produziu a violência. “O trabalho de reparação dessa interioridade é nosso, não pode ser do perpetrador. Temos de ser nós a fazer esse exercício de auto-reparação.” O problema surge quando conceitos como reparação, representatividade ou decolonialidade entram no vocabulário das instituições sem alterarem necessariamente o seu funcionamento. Museus, universidades e bienais apropriaram-se progressivamente desta linguagem, mas Kitty Furtado alerta para a distância entre reconhecer uma crítica e transformar uma estrutura. “A alteração discursiva não implica uma alteração política, de facto”, afirma. Na sua leitura, instituições historicamente construídas dentro de relações de poder têm também uma grande capacidade de absorver os discursos que as contestam. “Conseguem fazer sobre si próprias um discurso muito elevado, de boas intenções, de capacidade de autocrítica, de construção de um mundo cada vez melhor, mais igualitário, cada vez menos violento. Mas essa construção fica no plano meramente discursivo.” Kitty Furtado aponta desigualdades persistentes no sistema prisional, no acesso à habitação, na organização das cidades e no funcionamento da justiça. “As coisas continuam como sempre foram, mas o discurso vai mudando para que tudo possa continuar na mesma.” O paradoxo estende-se às próprias instituições culturais. A crítica ao colonialismo entra hoje em museus, universidades e bienais que, historicamente, também participaram na construção das narrativas que agora são questionadas. Para Kitty Furtado, essa entrada pode produzir dois efeitos contraditórios. “Por um lado, corre realmente o risco de ficar numa gaveta muito bem arrumadinha” e até de funcionar como uma forma de legitimação: “Já reparámos, já nos corrigimos, agora somos diferentes.” Mas não é apenas isso que acontece. “O acesso a estes discursos, a discussão que estes eventos proporcionam, chega cada vez a mais pessoas”, reconhece. E a presença crescente de pessoas racializadas dentro dessas instituições tem permitido, segundo a investigadora, “uma alteração subtil no próprio funcionamento”, nomeadamente pela entrada de outros públicos, outras memórias e outras formas de produzir conhecimento. É neste ponto que o Paraíso se desloca do passado para o futuro, embora Kitty Furtado questione a própria ideia de que estes dois tempos possam ser rigorosamente separados. A curadora rejeita a expectativa de que artistas e intelectuais negros tenham de regressar permanentemente ao colonialismo, ao racismo ou ao trauma para legitimarem a sua criação. “Há uma geração de artistas africanos e afrodescendentes que está precisamente a negar fazer esse regresso ao arquivo”, observa. O afrofuturismo é uma das expressões dessa ruptura. Não porque abandone o passado, mas porque propõe outra relação com o tempo. “Há uma ideia de tempo circular em que passado, presente e futuro estão sempre a ser. Nós somos agora o resultado de um passado e uma semente de futuro.” É talvez aí que se encontra uma das ideias mais fortes desta edição do Paraíso: não pensar a memória apenas como aquilo que ficou para trás, nem o futuro como uma promessa distante. Entre os dois existe um presente em curso, onde cada gesto de criação pode também reconstruir aquilo que foi apagado. Nas palavras de Kitty Furtado, trata-se de pensar cada pessoa como “esse ponto no tempo que congrega todos os pontos do tempo”.

  5. 4d ago

    EUA e Israel podem ter cometido crimes de guerra contra o Irão

    Os Estados Unidos da América e Israel lançaram uma série de ataques conjuntos contra áreas densamente povoadas de Teerão, em março de 2026, que deixaram dezenas de mortos e feridos. A Amnistia Internacional, num novo relatório publicado hoje, defende de que estes ataques devem ser investigados com urgência, de forma independente e imparcial, para determinar se constituem crimes de guerra. Em entrevista à RFI, André Julião, um dos porta-vozes da Amnistia Internacional, começa por dar conta de que foram utilizadas armas explosivas em áreas onde existia uma grande concentração de pessoas. "Segundo este novo relatório lançado pela Amnistia Internacional, foram utilizadas armas explosivas de amplo raio de acção em áreas densamente povoadas, matando e ferindo civis e causando danos com enorme extensão. Estes ataques dos Estados Unidos e de Israel em Teerão foram investigados pela Amnistia Internacional. Podem constituir ataques indiscriminados, o que equivale a crimes de guerra. Como tal, devem ser objecto de investigações independentes, imparciais e eficazes o mais brevemente possível", começou por explicar, evocando o relatório publicado esta terça-feira pela Amnistia Internacional. André Julião dá conta de que a Amnistia Internacional tem, na sua posse, várias provas de que foram efectivamente usadas estas armas: "A Amnistia Internacional analisou imagens de satélite e verificou mais de 60 vídeos publicados online relacionados com três ataques aéreos, nomeadamente nas cidades de Niloufar, Resalat e Javadieh. E, além disso, analisou declarações públicas oficiais feitas pelas autoridades do Irão, de Israel e dos Estados Unidos, tendo ainda realizado entrevistas com várias pessoas no Irão". A RFI questionou ainda como é que pode ser garantida uma investigação independente quando os próprios países envolvidos no conflito podem ter interesse em controlar e contestar as provas. André Julião evoca a necessidade da realização de inquéritos por parte da Comissão Internacional de Apuramento de Factos humanitários. "A Amnistia Internacional apela a todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos e Israel e o Irão, para que convidem a Comissão Internacional de apuramento de Factos humanitários a conduzir inquéritos sobre as alegações de violações do Direito internacional humanitário por todas as partes. Desta forma, conseguir se ia uma investigação imparcial, independente e de facto, pudesse conduzir a conclusões e as reparações devidas", rematou o responsável. Entretanto, o Irão continua a usar o estreito de Ormuz como arma de guerra. Nas últimas horas, Teerão atacou navios e um drone naval dos EUA que fazia a travessia do Estreito de Ormuz. Os bloqueios dos últimos meses aumentam os receios de que possamos assistir a uma crise energética generalizada em breve, uma vez que esta é uma das rotas mais estratégicas do mundo. É pelo Estreito de Ormuz que passa cerca de 25% do petróleo e do gás natural liquefeito a nível mundial.

  6. 5d ago

    Estrada "íngreme", "sem guarda metálica" e sobrelotação do autocarro podem ter causado acidente no Fogo

    O acidente de sábado na ilha do Fogo, em Cabo Verde, que vitimou mortalmente 25 pessoas, entre elas muitas crianças, aconteceu numa estrada conhecida por ser perigosa e estreita. O autocarro levaria também mais passageiros do que o limite aconselhado. Um acidente que deve "unir forças" para implementar mais medidas de segurança rodoviária no Fogo e em todo o país. Na ilha do Fogo, em Cabo Verde, um acidente matou no ssábadp 25 pessoas, entre elas muitas crianças, e fez 14 feridos. Será o acidente rodoviário com maior número de mortos no arquipélago desde que há registos e aconteceu numa estrada perigosa, com um autocarro sobrelotado. Djoy Gonçalves é técnico de segurança rodoviária em Cabo Verde e diz que o Fogo é a ilha com mais dificuldades na circulação rodoviária e que precisa de mais cuidados por parte do Governo, alertando ainda que também é importante mudar o comportamento dos condutores no país, já que o arquipélago regista cerca de cinco mil acidentes nas estradas por ano. "Eu conheço essa estrada. É uma estrada traiçoeira porque é muito íngreme e é bem estreita. E, infelizmente, a estrada ainda não terminou a sua construção, ou seja, falta a colocação de guarda metálica. Mas o condutor dessa viatura especifica era um condutor experiente, conhece bem a ilha, uma pessoa com mais de 40 anos de condução. São falhas que acontecem no ser humano. Só ele sabe o que aconteceu. Na verdade, pela minha experiência, pelo meu conhecimento como condutor, como instrutor, eu acredito que ele tenha exagerado no peso das pessoas. Se repararmos nos números, foram 25 mortes, 14 feridos, chegamos rápido a 39 pessoas, independentemente do peso. Sendo crianças, é claro que o peso é menor, mas não há assentos para toda essa gente. Isso quer dizer que havia pessoas de pé", deduziu Djoy Gonçalves. o grupo de adultos e crianças estariam numa viagem organizada pelo motorista, Henrique Cardoso, também conhecido como "Djijino", para encerrar as férias escolares e marcar o regresso à escola. O condutor é uma das vítimas mortais do acidente. Devido à sua geografia, o Fogo é uma das ilhas que, segundo Djoy Gonçalves, precisa de mais atenção por parte das autoridades em Cabo Verde. "A Ilha do Fogo é uma ilha que precisa de segurança rodoviária de fundo. [...] Nós fizemos parte do Plano Nacional de Segurança Rodoviária e no plano do Fogo está bem escrito como é a ilha com mais dificuldade na circulação rodoviária, pelo número de habitantes, pelo número de viaturas e a ilha que precisa de mais atenção, mais cuidado. Sendo sincero, a falha é nossa. Eu faço parte integrante da segurança rodoviária. [...] Eu fui lá, eu fiz um levantamento, vi as necessidades, eu aconselhei uma urgência de intervenção na Ilha do Fogo. Ligaram-me na sexta feira e disseram 'Vamos trabalhar no plano para o Fogo'. Morreram no sábado. Já era tarde para eles. Agora eu espero que tenham tirado lições sobre os avisos que nós fizemos. Já morreram. Não podemos voltar atrás. Agora é preciso fazer um trabalho para que não volte a acontecer. Nem no Fogo, nem qualquer outra ilha de Cabo Verde", detalhou Djoy Gonçalves. Actualmente há quatro pessoas em estado grave e foi mobilizada para o Hospital Regional São Francisco de Assis, no Fogo, uma equipa especializada de 16 médicos para responder às necessidades dos feridos deste acidente. Djoy Gonçalves espera agora que este acidente seja uma forma de mudar consciências, desde logo dos condutores, mas também das autoridades já que, por ano, há cerca de 5 mil acidentes rodoviários por ano que fazem dezenas de mortes e centenas de feridos. "E o acidente com maior perda de vida em Cabo Verde. Em 2011, 30 de Novembro, ocorreu até então o maior acidente de Cabo Verde. Perderam a vida na altura 16 pessoas e através dessa data marcou-se o 30 de Novembro como o Dia Nacional de Segurança Rodoviária. E agora temos número maior? A mim não me passava pela cabeça que depois de 15 anos íamos ter um acidente com maior perda de vida. É impensável. Eu posso dizer e afirmar que nesta parte não avançamos. Não avançamos. Cabo Verde tem anualmente 5000 acidentes e perdemos, por ano, 54 vidas ao longo de 15 anos, 1700 feridos, 570 feridos graves. É muito. Com o tratamento médico e evacuação, gasta-se em Cabo Verde aproximadamente 10 milhões de euros por ano em acidente, comparando com outro país não é muito. Mas pela nossa pequenez, pelo número de pessoas, somos tão poucos. É muita perda. É muito desperdício, muito, muita, muita dor, muito luto que não havia essa necessidade. É preciso fazer esforços e juntar forças", concluiu.

  7. Sep 4

    Eleições na Saxónia-Anhalt, na Alemanha, marcam ascensão da AfD

    Neste fim de semana, a AfD, partido de extrema-direita alemão, pode conseguir uma grande vitória elegendo o seu primeiro líder estadual na Saxónia-Anhalt. Ulrich Siegmund tem 35 anos, diz-se pró-russo e anti-imigração, tendo já participado em reuniões europeias que defendem o regresso do regime nazi. No domingo, o estado federado da Saxónia-Anhalt, na Alemanha, vai a votos e pode fazer história. Pode ser o primeiro estado alemão desde a Segunda Guerra Mundial a eleger um líder de extrema-direita. O candidato à frente de todas as sondagens é Ulrich Siegmund, de 35 anos, uma estrela do partido AfD, Alternativa para a Alemanha, que se apresenta como pró-russo e anti-imigração, jogando com a nostalgia da antiga República Democrática da Alemanha, que abrangia a Saxónia-Anhalt, e que sabe utilizar as redes sociais a seu favor. A revista Der Spiegel chama-lhe o homem mais perigoso da Alemanha. No entanto, para chegar a ministro-presidente deste estado, Siegmund terá de assegurar uma maioria que lhe permita governar, já que o sistema de coligações na Alemanha permitirá aos outros partidos formar Governo, mesmo em caso de vitória da extrema-direita. Em entrevista à RFI, Domingos Luvumbo, economista e residente na Alemanha há quase 40 anos, explica quem é Ulrich Siegmund. "Ele é classificado oficialmente na República Federal da Alemanha como fazendo parte do braço mais radical da AfD, Alternativa para a Alemanha, e é considerado oficialmente como um racista. Já fez parte de encontros e reuniões da extrema-direita, onde políticos falam abertamente a favor do nazismo, e faz parte daqueles políticos racistas alemães que dizem que na República Federal da Alemanha alguém que só em alemão quem tem sangue alemão. Os outros, independentemente de serem de raça negra, de serem asiáticos, de serem também pessoas da raça branca que tenham vindo de um outro canto do mundo, devem ser considerados como alemães do papel que para eles a definição ao alemão biológico. Eles gostariam de expulsar todos os estrangeiros ou indivíduos de origem estrangeira e mandarem regressar à República Federal da Alemanha todos os emigrantes alemães que abandonaram o território alemão já há muito tempo. Estou a falar de gerações. É oficialmente o homem mais perigoso, tal todo o seu grupo", explicou Domingos Luvumbo. Durante o domínio soviético de uma parte da Alemanha, a Saxónia-Anhal encontrava-se atrás da cortina de ferro e desde a queda do Muro de Berlim que a Alemanha tenta equilibrar as desigualdades geradas ela cortina de ferro. No entanto, e apesar de a reunificação já ter ocorrido oficialmente há mais de 35 anos, os seis Estados que constituíam a RDA defendem que são tratados de forma diferente dos estados alinhados com o Ocidente e dizem-se discriminados sobretudo no que diz respeito ao nível de vida e medidas financeiras decididas por Berlim. Para Domingos Luvumbo estas são algumas das principais razões para adesão em massa da população às ideias da AfD. "Eles estiveram sob um regime comunista durante 40 anos, portanto, eles sentem-se mais próximos da antiga União Soviética, e hoje sentem-se mais próximos da Federação Russa do que da Alemanha Federal. Apesar de os alemães terem feito quase o impossível a nível de reconstrução e bastava passar nos estados da antiga Alemanha do Leste, para ver o atraso em que os homens estavam mergulhados, eles dizem que são discriminados, o que não é verdade. Até pode haver alguma diferença, mas, contas feitas, os alemães fizeram tudo para devolver-lhes a dignidade. Dizem que, mesmo em termos de investimentos, que o Estado Central tem feito alguma discriminação para com aquela área, o que não é verdade. E são estados onde as pessoas são abertamente racistas, porque durante 40 anos estiveram isolados, nem podiam deixar o território da Alemanha do Leste. Podemos ver isso também a nível da Europa, como a Polónia, a Hungria, a ex-república da Checoslováquia que agora está dividida, em todos eles há mais racismo abertamente do que qualquer país da Europa Ocidental. Portanto, ainda continua aquele isolamento que viveram durante 40 anos", considerou. Resta agora saber se no domingo Ulrich Siegmund conseguirá uma maioria, tendo em conta o sistema de coligações na Alemanha. Mesmo não conseguindo ser líder no seu estado, o estatuto de Ulrich Siegmund faz prever um crescimento ainda mais acelerado da AfD um pouco por toda a Alemanha. "A nível federal, a AfD não tinha impacto, mas já têm. Porque basta ver a líder que a senhora doutora Alice Weidel, presidente deste partido fascista, é da Alemanha Ocidental. É assim que eles começaram, porque antes dificilmente se encontrava alguém da Alemanha Ocidental que fizesse parte desta formação política. Mas a partir do momento que começaram a juntar-se e a dizer 'vamos expulsar os estrangeiros'. Uma das filosofias muito perigosas que estão a utilizar é que a República Federal da Alemanha tem desperdiçado mais de mil milhões de euros anualmente, ajudando outros países ou ajudando pessoas provenientes de países do terceiro mundo. E se estes indivíduos forem expulsos, mesmo aqueles que não trabalham passaram a viver bem, e com isso, então eles vão ganhando terreno", concluiu.

  8. Sep 4

    Apesar de avanços na prevenção e tratamento, a malária continua a ser endémica na Guiné-Bissau

    Na Guiné-Bissau, apesar dos avanços, o paludismo continua a ser uma doença endémica e uma das maiores preocupações de saúde pública, sobretudo no leste, no sul e no arquipélago dos Bijagós. Em entrevista à RFI, a coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, a doutora Vanira Pires de Almada, destaca que, embora o país já esteja a administrar vacinas em crianças e distribuir regularmente cerca de um milhão e meio de mosquiteiros com o apoio do Fundo Mundial, o grande desafio continua a ser a adesão da população ao uso correcto das redes. Garantir testes, medicamentos a tempo e recursos humanos no interior profundo são as metas apontadas para caminhar rumo à pré-eliminação da doença. O paludismo continua a ser uma das principais preocupações do Ministério da Saúde nas regiões sanitárias de Bafatá, Gabu, Biombo, Bolama, Quinará e Tombali. Embora o financiamento da estratégia nacional dependa quase na totalidade do Fundo Mundial, que sofreu cortes em 2024, o programa conseguiu alargar a Quimioprevenção do Paludismo Sazonal (QPS) de três para quatro meses, administrando medicamentos preventivos a cerca de 300 mil crianças menores de cinco anos. A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, diz que, apesar de todas as dificuldades, a Guiné-Bissau tem feito progressos assinaláveis. "Nos últimos anos, conseguimos avançar e reforçar a prevenção, diagnóstico e tratamento oportuno, ou seja, atempado, e aumentar a utilização das intervenções, como o uso dos mosquiteiros impregnados e ampliar a prevenção do paludismo sazonal nas crianças. Em 2024, conseguimos fazer a extensão da faixa etária no que diz respeito à prevenção do paludismo sazonal na região sanitária de Bafatá, Gabu, Bolama, Tombali, conseguimos fazer a extensão de três meses a 120 meses, mas devido ao corte do fundo não conseguimos progredir ou prosseguir para o próximo ano. Quer dizer, em 2025. Mas conseguimos alcançar o objectivo. Conseguimos dar a cobertura para aquelas crianças naquele ano, cerca de 295.000 crianças. Também é importante destacar que em 2024, praticamente todos os casos suspeitos foram testados e os casos confirmados tiveram o tratamento ou acesso ao tratamento, segundo a política do programa do Paludismo", destaca a responsável. Com o apoio do Fundo Mundial, são regularmente distribuídos de forma gratuita mosquiteiros impregnados com insecticidas aos agregados familiares com crianças menores de cinco anos e grávidas. A 6.ª campanha de distribuição entregou cerca de um milhão e quinhentos mil mosquiteiros. O problema continua a ser o uso daqueles artefactos, pois muita gente simplesmente se recusa a dormir debaixo dos mosquiteiros. "Existem várias razões. Algumas pessoas sentem calor ou desconforto. Outras pessoas não percebem imediatamente o benefício, o porquê de usar mosquiteiro. O mosquito é invisível e a doença pode aparecer dias depois da picada, conforme a epidemiologia nos indica. Também existem crenças na nossa comunidade, hábitos familiares e, em alguns casos, problemas relacionados com a instalação e conservação dos mosquiteiros. Porque há populações que não percebem como instalar ou montar e desmontar um mosquiteiro e em que período deve usar mosquiteiros. Por isso, a nossa abordagem não deve ser apenas distribuir o mosquiteiro. Temos que explicar as razões pelas quais protege, demonstrar como deve ser instalada e utilizar perante a família e há uma mensagem muito simples acerca disso. O mosquiteiro não é apenas para quando há muitos mosquitos. Deve ser utilizado todas as noites e durante todo o ano. Significa que a utilização do mosquiteiro é permanente, segundo a recomendação da OMS", sublinha Vanira Pires de Almada. A Guiné-Bissau é um dos países de África que já estão a administrar vacinas de prevenção contra o paludismo em crianças. A coordenadora do Programa Nacional de Luta contra o Paludismo, Vanira Pires de Almada, observa, no entanto, que o combate à doença envolve vários mecanismos que devem ser combinados. "O combate ao paludismo não depende de uma única intervenção. O programa aborda esta situação em várias ocasiões. Temos mosquiteiros impregnados de longa duração e acção. Temos diagnóstico precoce e tratamento eficaz dos casos. A prevenção do paludismo durante a gravidez. O programa fornece o tratamento preventivo e intermitente, a administração de ansiedade durante a gestação e depois, actualmente, o programa tem a vacina aprovada e já há implementação contra o paludismo para as crianças menores de cinco anos. Temos uma maior prevenção no paludismo sazonal, que é a que se faz a campanha anualmente durante os meses de pico, quer dizer, de alta transmissão que são são a partir de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro, quatro meses consecutivos ao ano. E cada mês, a criança deve tomar três medicamentos, quer dizer, três dias consecutivos. Isso se faz nas zonas de alta transmissão", explicita a médica. Por tudo o que já foi feito, a Guiné-Bissau até pode admitir que caminha para a fase da pré-eliminação do paludismo nas comunidades. A coordenadora do programa nacional de combate à doença elenca as metas que devem ser atingidas, impreterivelmente, nos próximos anos. "Se queremos caminhar para a eliminação, precisamos de saber exactamente onde estão os casos e onde persiste a transmissão. E, finalmente, queremos reforçar o papel das comunidades e dos agentes comunitários, porque não conseguiremos eliminar o paludismo apenas através da estrutura sanitária. O apoio do Fundo Global é muito importante, mas o objectivo é utilizá-lo estrategicamente para alcançar os resultados e, simultaneamente, fortalecer o sistema de saúde", conclui a responsável. Outros desafios consistem em garantir que os mosquiteiros sejam usados por todos e de forma correcta, que os testes e medicamentos sejam disponibilizados no tempo certo nas comunidades, que os meios de diagnóstico cheguem às regiões do interior profundo da Guiné-Bissau, e que haja recursos humanos e financiamento suficientes para evitar retrocessos. Estas são as preocupações elencadas pela médica Vanira Pires de Almada, coordenadora nacional do Programa de Luta contra o Paludismo na Guiné-Bissau.

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De segunda a sexta-feira (ou, quando a actualidade o justifica, mesmo ao fim de semana), sob forma de entrevista, analisamos um dos temas em destaque na actualidade.

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