Os Continuadores da Revolução é o documentário sobre Moçambique onde o realizador Pedro Neves funde imagens de arquivo, do período da presidência de Samora Machel, com imagens do presente para nos oferecer um olhar sobre o pais. Com estreia mundial no festival de cinema DocLisboa, Os Continuadores da Revolução surge a partir da observação que o realizador Pedro Neves fez do trabalho que o fotógrafo Manuel Roberto desenvolveu em Moçambique. O filme Os Continuadores da Revolução incide, pois, no período do governo de Samora Machel, o primeiro Presidente pós-independência. Em Os Continuadores da Revolução, a ideia do que poderia ser a melhor República Popular do mundo ou a ideia do continuar, ou terminar, uma revolução são elementos de um trabalho sobre a memória, os fantasmas e a distorção. A RFI falou com Pedro Neves antes da estreia mundial do filme na capital portuguesa. O realizador começa por revelar como surgiu a ideia de fazer a longa-metragem Os Continuadores da Revolução. Pedro Neves, realizador : Surge a partir de uma série de fotografias de um amigo meu, que se chama Manuel Roberto, que é fotógrafo no Público, feitas na altura do período de pós-independência moçambicano, mais ou menos naquela altura do período revolucionário moçambicano, às quais ele chamava os Continuadores da Revolução. Aquilo, primeiro, foi um nome que me soou sempre muito bem, porque me deixava muito a pensar, como é que se continua uma revolução e quem são os Continuadores da Revolução? Mas, de facto, os Continuadores da Revolução existiam, ainda existem os Continuadores, que é um grupo formado pela primeira mulher do Samora Machel, antes da Graça Machel, que são uma espécie de pioneiros. Digo pioneiros para se ter uma comparação com os pioneiros da União Soviética, não é? Mas a ideia eram as crianças, que eram as flores que nunca murcham, era a juventude que era a seiva da nação, e eram as crianças que iam construir a melhor República Popular do mundo. E ele era um deles, porque naquela altura eles eram praticamente todos os Continuadores da Revolução. Curiosamente, ainda existem em Moçambique os Continuadores, mas já caiu a Revolução da frase, ficaram só Continuadores. Quem for ver este filme, o que é que pode encontrar, o que é que o Pedro, enquanto realizador, procurou trazer para este filme? Procurei, primeiro, entender não só essa ideia do que eram os Continuadores da Revolução, mas talvez não de uma maneira tão concreta, porque isso era fácil de perceber, os tais miúdos que tinham por missão construir a melhor República Popular do mundo, mas interessava-me talvez mais a ideia de abstracção e de perceber o que é isso, como é que afinal se continua uma revolução, quando é que ela acaba, quando é que ela termina, se é que alguma vez ela pode terminar, qualquer tipo de revolução. E, obviamente, aplicava um bocado essa ideia também à nossa. Das revoluções em geral, o que é isto das revoluções e como é que elas acabam, como é que elas continuam. E foi tentar pegar nos negativos dele, digitalizar grande parte daquelas imagens, eu acho que digitalizei mil oitocentas e tal fotografias, negativos, com as próprias perfurações da imagem e transportar ao mesmo tempo também aquilo para este presente. Foram muitas idas a Moçambique. Eu acho que ao todo foram mais ou menos seis meses de rodagem lá, divididos por alguns anos, à procura desses espaços e dessas conversas. Havia muitas coisas que eu lhe perguntava no início, como é que é isto? Como é que é aquilo? Ele estava-me sempre a dizer, tu tens que ir para entender. E, de facto, eu tinha que ir para entender e tinha que viajar muito por ali, tinha que ir a muitos sítios, tinha que perceber uma série de histórias e de vivências e de sentir o calor e de sentir a ideia ou essa coisa mais etérea daquilo que ainda anda no ar, do que é que já se desvaneceu e do que é que ainda existe e de conhecer, na verdade, os fantasmas que também habitam este filme, que anda à volta não só dessas imagens dele, como também de algumas imagens do próprio Arquivo Cinematográfico Moçambicano, mas com alguma contemporaneidade no modo. Não é só no modo de abordagem, é no modo como as conversas iam surgindo ao longo do caminho com uma série de protagonistas que me iam fazendo criar uma série de textos e de ideias que também fui maturando ao longo destes quase nove anos e que fui desenvolvendo ao longo destes anos todos e mudando muitas vezes de caminho e falando uma vez mais com muitos fantasmas também que por ali andavam, para tentar perceber qual era este caminho, se calhar para onde é que todos nós caminhamos, para além dos próprios moçambicanos. Para concluir o filme houve nove anos de idas e vindas de Moçambique. Como é que o Pedro Neves, enquanto realizador, sentiu evoluir, quer as pessoas com quem falava, quer o discurso, quer a percepção daquilo que é uma revolução? Para além da revolução era o próprio pulsar das coisas. No cinema documental o que mais me interessa eu acho que é mesmo o trabalho sobre a memória. E sobre a memória interessa-me aquilo que ela distorce, porque, na verdade, a memória toda é uma distorção, é uma coisa que é tudo menos um teorema matemático. Aquilo que nós achamos hoje não achamos amanhã ou muito mais. Amanhã, nós, ainda conseguimos ir lá, mas daqui a trinta anos se calhar já distorcemos isto ainda mais. E isto é muito humano. Ao mesmo tempo, não tem que ser uma distorção deliberada, propagandista ou com alguma má intenção, faz um bocado parte da vida. Faz-me lembrar muitas vezes, isso é uma coisa muito portuguesa, daquele “dantes é que era bom”. Depois uma pessoa pergunta: "Dantes, mas era bom o quê? Quando iam ao hospital, como é que era? Mas que hospital? Ah, mas não havia. E quando se calçavam? Mas calçávamos o quê se não havia sapatos?" Mas há uma efabulação da memória que diz que “dantes é que era bom”. O que se entende, porque dantes não havia dores de costas, dantes os pais eram vivos, os primos eram vivos, o contexto familiar, apesar de tudo, estavam todos vivos mesmo que miseráveis. E de repente cria-se uma ideia de uma memória que corresponde a uma expectativa de memória e de realidade que nem sempre é correspondida com a realidade e com a verdade. Interessa-me esse trabalho da memória, esse trabalho de percebermos o tempo passado para podermos chegar ao presente e inclusivamente até pensarmos no futuro. E Moçambique, para além de muitas particularidades, teve os tempos da guerra. Uma guerra muito violenta, 16 anos, com mais de um milhão de mortos, portanto esta guerra civil. Fora a guerra de libertação nacional contra os portugueses, que foram mais uma carrada de anos com mais não sei quantos milhares de mortos e massacres e desaparecidos, etc. Mas fizeram com que houvesse um país a pensar muito pouco no futuro e a pensar muito só no presente, o presente agora, não é o presente amanhã. Há uma coisa muito comum, que é perguntar-se às pessoas como é que elas estão, e é o hoje estou bem. Hoje é o hoje, não é, porque há ali uma ideia muito de o amanhã não se sabe, o amanhã é uma incógnita. Agora, enquanto realizador, enquanto alguém que trabalha no cinema documental, porque é isso que eu faço, a permanência ajuda-nos depois a ir entendendo cada vez melhor os espaços. O entender, às vezes, é nós depararmos e refutarmos inclusivamente muito daquilo que pensamos, porque a realidade vai mudando também. É um pouco esta ideia de quando chegamos ou falamos com alguém, aquilo que nos dizem muitas vezes é aquilo que acham que nós queremos ouvir, ou há uma determinada desconfiança porque não há conhecimento. Depois com a permanência as conversas abrem-se e aparece uma parte muito mais sincera, mais honesta e, essencialmente, uma parte em que, de repente, nós estamos todos a pensar em conjunto e estamos todos a refletir em conjunto. Isso acontece muitíssimas vezes durante as próprias viagens, durante as viagens de carro, durante o jantar, muito daquilo que acontece numa viagem destas ou numa permanência destas acontece quando as câmaras não estão ligadas e isso era uma coisa que eu ia percebendo sem saber exactamente como é que ia resolver esse problema, porque ninguém filma 24 horas por dia. Era pegar nessas frases, nesse conhecimento, nessas reflexões, pegar também nos livros todos que fui lendo, foram dezenas de livros, nomeadamente romances, porque me interessam. Claro que me interessa a parte histórica e de contexto histórico, mas depois também me interessa muito esta ideia da ficção sobre a própria realidade moçambicana escrita por moçambicanos. Eu li muitos dos poetas da mata, da guerrilha, a Paulina Chiziane, o Mia Couto, o João Paulo Borges Coelho, que, inclusivamente, me ajudaram muito a pensar nestas coisas. Era esta ideia de frases e contextos e textos, pegar neles e quase transformá-los nesta ideia destas fantasmagorias que, na realidade, não são muito mais do que evocações de memória, do modo como nós podemos caminhar com visões distintas. É aquela ideia de tu vês um campo verdejante e eu vejo um campo minado. Isso é uma coisa que me ficou sempre muito na cabeça porque isso aconteceu-me lá, uma vez, com o Manuel Roberto, eu estava de facto a ver um campo verdejante e ele estava a ver um sítio que tinha sido povoado de minas. O que encontro depois, mais tarde, num livro do João Paulo Borges Coelho, exactamente com esta frase, que é uma coisa que acaba por estar no filme. Isto, para mim, são os tais fantasmas, é o modo como duas pessoas conseguem ver exatamente a mesma coisa de uma maneira tão diferente e tão distinta e como conseguem senti-la de uma maneira distinta. Quando falo um bocado nesta ideia da abstracção e da subjectividade tem m