Braga recebe a 4.ª edição do festival Paraíso, este ano dedicado ao tema “Passado e Futuro na Afrodescendência”. Entre cinema, música, dança, gastronomia e conversas, o encontro propõe interrogar as heranças coloniais e imaginar outros futuros. Para a curadora Kitty Furtado, olhar o passado é também um exercício de reparação e de transformação do presente. No festival Paraíso, passado e futuro não aparecem como extremos de uma linha do tempo. Encontram-se, sobrepõem-se e ajudam a interrogar o presente. A 4.ª edição do encontro, em Braga, parte das experiências afrodescendentes para pensar aquilo que permanece do passado colonial, mas também aquilo que pode ser reconstruído a partir dele. É nesse cruzamento que surge um filme realizado por Vanessa Fernandes em 2015, escolhido por Kitty Furtado, crítica cultural, investigadora e curadora do festival. “A escolha deste filme tem precisamente a ver com essa relação que estabelece entre o presente, um futuro possível e o passado”, explica. A obra aborda a mutilação genital feminina, mas fá-lo também através daquilo que não se diz. Para Kitty Furtado, o filme mostra como determinadas tradições atravessam gerações e continuam a condicionar vidas muito depois de a sua origem se ter perdido no tempo. “É um filme que nos fala muito de leis, de tradições que vêm de um passado que se perde no tempo e que, de forma silenciosa, penetram as nossas vidas hoje e condicionam, neste caso, a vida de mulheres negras”, afirma. Há, acrescenta, uma transmissão que acontece através da ausência de palavras: “Fala-nos disto também através dos silêncios que se instalam nas famílias e da transmissão silenciosa desse passado.” Onze anos depois, a curadora considera que esse silêncio não desapareceu. Pelo contrário. “No caso português, é até mais silencioso hoje do que em 2015. Em 2015 estávamos a começar a conseguir falar sobre isto”, observa, criticando uma abordagem que, na sua perspectiva, tende a reaparecer sobretudo pela via da criminalização das comunidades e das mulheres afectadas. Mas a distância entre 2015 e 2026 não se mede apenas na forma como se fala deste tema. Kitty Furtado vê também uma mudança mais ampla no clima político e social português. Recorda um período em que persistia a ideia de que Portugal seria uma excepção numa Europa em transformação e em que ainda era comum negar a existência de racismo no país. “Hoje já não há vergonha, já não há pudor nos discursos racistas, nos discursos de ódio”, afirma. “Estamos num outro Portugal que nós sempre soubemos que existia, que sempre existiu.” Essa mudança no modo de olhar a sociedade conduz directamente a uma das ideias centrais do trabalho de Kitty Furtado: o conceito de Black Gaze. A investigadora evita traduzir a expressão simplesmente por “olhar”, porque considera que a palavra portuguesa não contém toda a dimensão política que lhe atribui. “Gaze implica essa relação de poder entre quem olha e quem é olhado. Implica a construção de um discurso sobre aquilo que se olha e implica uma duração do olhar”, explica. Durante séculos, argumenta, a cultura visual foi construída a partir de uma posição dominante. “O discurso da visualidade foi sempre construído por pessoas brancas, maioritariamente homens brancos, que se arrogam o direito de compreender e de dizer o que é o mundo.” O Black Gaze altera essa relação porque transfere o poder de enquadrar e narrar para quem durante muito tempo apareceu sobretudo como objecto de representação. “Quando dizemos Black Gaze, é o olhar daquele que sempre foi olhado. Ora, isto altera toda a mundivisão.” E essa inversão, sublinha, não transforma apenas quem olha. Transforma também aquilo que passa a ser visível. Permite “humanizar este outro que foi desumanizado”, recuperar histórias sistematicamente apagadas e “reformular, ressignificar a história tal como a conhecemos”. Nem sempre são necessárias narrativas extraordinárias. Muitas vezes, diz Kitty Furtado, basta deslocar o ponto de vista: “São as mesmas histórias de família, as mesmas histórias de viagem, os mesmos dramas amorosos. A matéria humana é a mesma. A perspectiva é que é outra.” É também dessa mudança de perspectiva que nasce a relação entre memória e reparação. Para a investigadora, não são dois processos separados. A memória é reconstruída a partir do presente e, no caso das populações negras, essa reconstrução enfrenta um problema adicional: a ausência ou destruição de grande parte do arquivo. “É um arquivo muito delapidado. Foi muitas vezes queimado, foi muitas vezes invisibilizado, mas, mais do que invisibilizado, foi mesmo destruído”, sublinha. Perante essas lacunas, reconstruir a memória implica juntar fragmentos, estabelecer relações e imaginar aquilo que desapareceu entre os documentos que sobreviveram. “É preciso ligar momentos deste arquivo, os documentos deste arquivo, imaginar o que está entre eles através desse exercício de fabulação crítica.” Esse gesto de reconstrução já é, para Kitty Furtado, uma forma de reparação. “Este exercício de reconstrução da memória, este exercício de pensamento sobre um passado, é, em si mesmo, um acto de reparação. De reparação histórica, de auto-reparação.” E essa auto-reparação, sustenta, não pode ser delegada em quem produziu a violência. “O trabalho de reparação dessa interioridade é nosso, não pode ser do perpetrador. Temos de ser nós a fazer esse exercício de auto-reparação.” O problema surge quando conceitos como reparação, representatividade ou decolonialidade entram no vocabulário das instituições sem alterarem necessariamente o seu funcionamento. Museus, universidades e bienais apropriaram-se progressivamente desta linguagem, mas Kitty Furtado alerta para a distância entre reconhecer uma crítica e transformar uma estrutura. “A alteração discursiva não implica uma alteração política, de facto”, afirma. Na sua leitura, instituições historicamente construídas dentro de relações de poder têm também uma grande capacidade de absorver os discursos que as contestam. “Conseguem fazer sobre si próprias um discurso muito elevado, de boas intenções, de capacidade de autocrítica, de construção de um mundo cada vez melhor, mais igualitário, cada vez menos violento. Mas essa construção fica no plano meramente discursivo.” Kitty Furtado aponta desigualdades persistentes no sistema prisional, no acesso à habitação, na organização das cidades e no funcionamento da justiça. “As coisas continuam como sempre foram, mas o discurso vai mudando para que tudo possa continuar na mesma.” O paradoxo estende-se às próprias instituições culturais. A crítica ao colonialismo entra hoje em museus, universidades e bienais que, historicamente, também participaram na construção das narrativas que agora são questionadas. Para Kitty Furtado, essa entrada pode produzir dois efeitos contraditórios. “Por um lado, corre realmente o risco de ficar numa gaveta muito bem arrumadinha” e até de funcionar como uma forma de legitimação: “Já reparámos, já nos corrigimos, agora somos diferentes.” Mas não é apenas isso que acontece. “O acesso a estes discursos, a discussão que estes eventos proporcionam, chega cada vez a mais pessoas”, reconhece. E a presença crescente de pessoas racializadas dentro dessas instituições tem permitido, segundo a investigadora, “uma alteração subtil no próprio funcionamento”, nomeadamente pela entrada de outros públicos, outras memórias e outras formas de produzir conhecimento. É neste ponto que o Paraíso se desloca do passado para o futuro, embora Kitty Furtado questione a própria ideia de que estes dois tempos possam ser rigorosamente separados. A curadora rejeita a expectativa de que artistas e intelectuais negros tenham de regressar permanentemente ao colonialismo, ao racismo ou ao trauma para legitimarem a sua criação. “Há uma geração de artistas africanos e afrodescendentes que está precisamente a negar fazer esse regresso ao arquivo”, observa. O afrofuturismo é uma das expressões dessa ruptura. Não porque abandone o passado, mas porque propõe outra relação com o tempo. “Há uma ideia de tempo circular em que passado, presente e futuro estão sempre a ser. Nós somos agora o resultado de um passado e uma semente de futuro.” É talvez aí que se encontra uma das ideias mais fortes desta edição do Paraíso: não pensar a memória apenas como aquilo que ficou para trás, nem o futuro como uma promessa distante. Entre os dois existe um presente em curso, onde cada gesto de criação pode também reconstruir aquilo que foi apagado. Nas palavras de Kitty Furtado, trata-se de pensar cada pessoa como “esse ponto no tempo que congrega todos os pontos do tempo”.