Brasil-Mundo

Reportagens de nossos correspondentes em várias partes do mundo sobre fatos políticos, sociais, econômicos, científicos ou culturais, ligados à realidade local ou às relações dos países com o Brasil.

  1. 2d ago

    Diretor de 'Kardec' e 'Nosso Lar' faz estreia mundial de 'As Irmãs Fox' em Hollywood

    Wagner de Assis é conhecido por transformar em cinema histórias que questionam os limites entre o que podemos ver e o que escolhemos acreditar. Responsável por levar multidões às salas brasileiras com os sucessos da franquia "Nosso Lar" e a cinebiografia "Kardec", o cineasta agora atravessa fronteiras para estrear seu projeto mais ambicioso, o primeiro totalmente em língua inglesa. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles O lançamento mundial de "As Irmãs Fox", coprodução com os Estados Unidos, aconteceu no North Hollywood CineFest e traz a fascinante e conturbada trajetória de Leah, Kate e Maggie Fox, jovens norte-americanas, que, em meados do século XIX, se transformaram nas figuras centrais de um movimento que se espalhou dos Estados Unidos para diferentes partes do mundo. Se em trabalhos anteriores o diretor carioca buscou a consolidação doutrinária ou a jornada após a morte, esse novo longa combina drama histórico, suspense, elementos sobrenaturais e desperta debates sobre ciência, crença e os limites entre o mundo material e o espiritual. Segundo Assis, a trama funciona quase como uma reparação histórica. Para ele, trazê-la, principalmente, ao público norte-americano é expor um capítulo negligenciado da própria cultura local. "Essas mulheres eram as mais famosas da América no século XIX e a minha maior surpresa foi descobrir que foram quase apagadas da história. As poucas coisas registradas sobre elas dizem que eram uma fraude, que eram mentira e isso não é verdade. Quando eu entendi que esse tipo de história merecia ser contada, comecei a descobrir o quanto essa América inteira do século XIX tinha desaparecido", contou o diretor à RFI. Para fazer a produção e o roteiro, também assinados por ele, foram cerca de 10 anos de pesquisas e imersão em arquivos históricos. "Eu conhecia a história delas de uma maneira muito enciclopédica. Quando eu decidi fazer o filme, percebi a quantidade de livros que existiam naquela época. Pelo menos duas biografias, um livro da Leah Fox, que a gente menciona no próprio filme. Jornais, artigos, elas chegaram a frequentar a Casa Branca para ajudar como médiuns. Eu fui para lugares impensáveis. A costa leste norte-americana tinha mais de 70 jornais espiritualistas", detalha. "Eu tinha feito a biografia do Kardec e falei: 'Acho que é bom fechar o ciclo.' Começa com elas, o que o Arthur Conan Doyle chamou de uma 'invasão organizada dos espíritos'. Porque quando explode o movimento, explode para o mundo inteiro e depois chega a Kardec, eu achei que seria válido entender essa realidade e colocar na tela", explica Assis. O Brasil como cenário A história se passa totalmente nos Estados Unidos; é uma produção de época, mas a maioria das filmagens foi no interior de casarões históricos no Rio de Janeiro, com algumas cenas no país norte-americano. “Olhar para o passado é muito fácil. Julgar o passado é muito fácil e distorcer o passado é muito fácil também. Mas talvez tirar um pouco desse julgamento, pular lá para trás e tentar respirar aquela época e deixar essa época funcionar é um desafio de produção enorme. A gente precisava de um desenho de produção potente e de interpretações que absolutamente estão à altura", avalia Assis. Mas foram as filmagens no próprio país onde aconteceu a história que flertaram com o extraordinário. Nas locações no estado de Connecticut, a equipe precisava de paisagens cobertas pela neve para retratar com autenticidade passagens cruciais do roteiro. "E eu queria muito que tivesse neve, porque naquele dia 31 de março de 1848, tinha um relato de que nevou muito na área. Quando a gente começou a ver a previsão do tempo, as pessoas diziam assim: ‘não há a menor condição de ter neve’ porque não neva há quatro anos. E eu falei: 'claro, se não tiver neve, vou ter que colocar neve digital. Mas bem que podia ter neve'. Eu falei só isso. E no dia em que a gente ia filmar o exterior, que precisaria filmar com neve, caíram 10, 15 centímetros de neve pesada, e depois não nevou mais. Falei: 'Gente, é quase uma bênção'. Sei que é só um fenômeno da natureza, mas gosto de falar que a natureza ajudou a arte", lembra o diretor. O elenco reúne talentos dos Estados Unidos e do Brasil. As irmãs Fox são interpretadas pelas norte-americanas Sionne Elise, Jamie Hughes e Marie McHugh (essa última também com cidadania brasileira). No papel de Margareth Fox, mãe das três, está a atriz paulista Daniela Galli. "A família Fox tem uma linhagem de mulheres fortes para a época em que viveram. Pesquisando sobre a minha personagem, soube que ela cresceu no Canadá, em uma família de imigrantes russos e mudou para os Estados Unidos porque se casou com um norte-americano", explica a atriz. "O marido enveredou pelo alcoolismo, ela decidiu se separar e criou a primeira filha sozinha num país que não era o dela no início do século 19. Então, as mulheres da família Fox também sofreram as consequências sociais e o preconceito por terem uma vida diferente dos padrões morais e do conhecimento disponível na época”, conclui Daniela Galli. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 24 de setembro.

  2. 3d ago

    Brasileira lança romance depois de descobrir ser descendente do bibliotecário de D. João VI

    Radicada em Portugal há seis anos, Deborah Trois se divide entre a contabilidade e o fascínio pela genealogia, área a que se dedica há 11 anos. Nas pesquisas, descobriu ser a descendente direta do bibliotecário real de D. João VI, na transferência da corte de Portugal para o Brasil. Fábia Belém, correspondente da RFI em Portugal Contadora apaixonada por genealogia, Deborah Trois decidiu investigar o passado da família quando ainda morava em Niterói, sua cidade natal. Localizou as raízes franco-suíças da mãe e, quando mudou-se para Portugal em 2020, dedicou-se a pesquisar as origens do pai. O que ela não esperava era descobrir um antepassado ligado à corte portuguesa, o que acabou por dar origem ao seu primeiro livro — o romance de ficção histórica “O Segredo de Marrocos”. “Tive essa grande surpresa de ser descendente direta. Eu sou sexta neta de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, que foi o bibliotecário real de D. João VI na transferência da corte de Portugal para o Brasil”, explica. Em 1811, três anos depois da transferência da corte, Marrocos partiu de Lisboa para o Rio de Janeiro com a missão de acompanhar a segunda remessa de livros e manuscritos da Real Biblioteca, que constituíram o acervo inicial da Biblioteca Nacional do Brasil, instalada na capital fluminense. Na nova sede, ele foi encarregado de organizar os manuscritos da Coroa Portuguesa, o que o levou a trabalhar no Paço Imperial, onde ficava o gabinete do então príncipe regente D. João, que se tornou rei D. João VI, em 1816, com a morte da sua mãe. Como sublinha Trois, Marrocos “tinha uma proximidade grande com Dom João VI; ele participava do 'beija-mão' (cerimônia na qual suditos prestavam reverência ao rei). Então, ele estava por dentro daquela corte”. Pesquisa documental Até chegar a Luiz Joaquim dos Santos Marrocos, a autora brasileira recorreu a registros paroquiais do Arquivo Distrital de Lisboa e a documentos oficiais da Torre do Tombo, que é o Arquivo Nacional português. Ela também utilizou plataformas digitais de genealogia e de coleções históricas da imprensa da época. Toda a investigação seguiu o Padrão de Prova Genealógica, método que serve para confirmar a exatidão de dados históricos. Nesse processo, alguns documentos serviram como peças-chave para ajudar a desvendar o passado da família paterna de Deborah. “Quando eu obtive a certidão do meu avô, a avó dele já era uma Marrocos”, recorda Deborah Trois.   Depois que descobriu ser descendente do bibliotecário real, a autora começou mais uma investigação que durou cerca de dois anos. O pilar da pesquisa foi o epistolário de Marrocos — o conjunto de 186 cartas que ele escreveu à família, em Lisboa, entre 1811 e 1821, ano em que D. João VI embarcou de volta a Portugal. Os documentos, muito usados por historiadores, revelam os bastidores da corte e a rotina da colônia. Deborah Trois, que, à época, não tinha o epistolário de Santos Marrocos, conta que “foi uma corrida nos sebos e alfarrabistas (livrarias especializadas em livros raros)" para conseguir o acervo. E, depois de ler todas as correspondências, “consegui ter uma visão, a minha visão do homem inteiro. Eu, como descendente, fui [pesquisar] desde o nascimento até o fim”, afirma. Livro 'O Segredo de Marrocos' A coletânea de cartas do bibliotecário real foi a principal matéria-prima do livro “O Segredo de Marrocos”, publicado pela editora portuguesa Cordel d'Prata e lançado em agosto na cidade do Porto. Sem dar detalhes, a autora diz que a obra “conta mais sobre o homem inteiro do que só sobre aquela parte do epistolário, que é mais usada pelos historiadores”. “Esse livro não esconde nada. Ele abre o arquivo em vez de fechá-lo. E eu acho que essa é a minha grande missão: abrir esse arquivo do Luiz Joaquim e deixar que as pessoas o conheçam, nem absolvendo o Luiz Joaquim, nem condenando o Luiz Joaquim, [mas] conhecendo ele por inteiro”, antecipa Trois, lançando um tom de mistério para os futuros leitores. E sem revelar o segredo de Marrocos, a autora garante que o livro guarda uma descoberta pessoal, porque “vai além da vida que ele construiu no Rio de Janeiro e com um achado inédito meu, que nunca foi falado, nunca foi escrito por nenhum historiador”. 'Dobra no tempo' A expectativa de Deborah é que “O Segredo de Marrocos” seja lançado no Brasil até o início de outubro, mas ainda este mês a autora já tem agendada uma sessão de autógrafos em Lanhelas, no norte de Portugal. Foi nessa vila do município de Caminha, a cerca de 100 quilômetros da cidade do Porto, que Trois localizou os descendentes da família Marrocos que permaneceram em Portugal — um encontro que imprimiu uma face contemporânea à própria pesquisa. “Eu me sinto exatamente como se fosse uma dobra no tempo. Luiz sempre quis muito voltar a Portugal, [mas] acabou por ficar no Brasil, e acabou que uma descendente de sexta geração volta e reencontra os Marrocos que ficaram aqui. É muito bonito; é um ciclo que se fecha e um ciclo que se abre”, analisa a autora.

  3. Aug 1

    Atriz brasileira leva Clarice Lispector aos palcos de Hollywood

    Clarice Lispector morreu em 1977 e agora, quase meio século depois, vive um renascimento literário impulsionado pelas redes sociais. O que antes era descoberto nas estantes das bibliotecas ou por indicação de professores, hoje viraliza em vídeos de poucos segundos ao redor do mundo.  Do saudoso Orkut ao TikTok, passando por Facebook, YouTube e Instagram, novas gerações têm encontrado, em uma das mais importantes escritoras brasileiras, uma voz surpreendentemente atual. Influenciadores literários, criadores de conteúdo e clubes de leitura online compartilham as frases marcantes de Clarice Lispector e ajudam a transformar suas obras em verdadeiros fenômenos internacionais. É nesse momento de redescoberta da autora brasileira de origem ucraniana que a atriz e produtora catarinense Bruna Fachetti, radicada em Los Angeles, sobe ao palco do Broadwater Theater, em Hollywood, para apresentar uma adaptação teatral de “A Hora da Estrela”, último romance de Clarice Lispector, publicado pouco antes de sua morte. Sob a direção de Alex Tietre, a montagem terá cinco apresentações entre o fim de julho e o início de agosto e pretende aproximar ainda mais o público norte-americano de uma das maiores obras da literatura brasileira. " ‘A Hora da Estrela’ é um livro que sempre me tocou profundamente, desde que eu era pré-adolescente. Eu tive uma fase, nos meus 20 anos, em que li muitos livros de Clarice, e, para mim, esse sempre foi o que mais me tocou. Eu acredito que, como artista, a gente sonha com a nossa ‘hora da estrela’, e Macabéa, personagem principal desse livro, sonhava também em ser artista de cinema. Mas, na verdade, ela não tinha essa consciência, pois se sentia invisível para o mundo, sem, de fato, poder desejar, sem ter essa permissão”, conta Bruna. A identificação com a personagem também ajudou a definir onde essa história deveria ganhar vida. Los Angeles, cidade conhecida por atrair pessoas do mundo inteiro em busca de fama e reconhecimento artístico, pareceu o cenário perfeito para apresentar Macabéa a uma nova audiência. "Achei que tinha tudo a ver com Los Angeles, porque é uma cidade onde muitas pessoas estão em busca da sua ‘hora da estrela’ e também, às vezes, vivem, de certa maneira, com muita indignidade, trabalhando muito em condições talvez não muito dignas de sobrevivência e até sem perceber. Então, eu acho que essa história se conecta muito com a realidade de Los Angeles, que também pode ter um pouco a ver com a questão das aparências. Além disso, há muitas vozes maravilhosas, cada uma com a sua grandeza, que ainda não tiveram a oportunidade de se expressar ou que estão em busca dessa autenticidade ou do seu lugar no mundo." Clarice viraliza nas redes sociais As novas traduções para o inglês publicadas pela editora New Directions (2011–2015) contribuíram para apresentar Clarice Lispector a uma nova geração de leitores estrangeiros, mas a redescoberta ganhou força mesmo nas redes sociais, desde a era do Orkut. A comunidade literária do TikTok, conhecida como BookTok, levou Clarice a milhares de jovens leitores. Vídeos comentando ‘A Hora da Estrela’, ‘Água Viva’ e ‘A Paixão Segundo G.H.’ acumulam milhões de visualizações e frequentemente descrevem a autora como uma experiência de leitura transformadora e impossível de explicar. Uma das responsáveis por esse movimento é a influenciadora norte-americana Courtney Henning Novak, que conquistou milhares de seguidores ao compartilhar sua jornada de leitura. Depois de descobrir Clarice Lispector, Novak passou a recomendar os livros, frequentemente, e a indicar a autora para quem busca uma literatura mais profunda. A influenciadora mora nos arredores de Los Angeles, e já anunciou nas redes sociais que está ansiosa e vai estar presente na performance, pois considera Clarice uma grande experiência. O reconhecimento da obra de Clarice também chegou às estrelas da Sétima Arte. Durante uma cerimônia de premiação no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, a atriz Cate Blanchett citou Clarice Lispector como uma das escritoras que mais admira, ajudando a apresentar seu nome a um público ainda maior. “Clarice, hoje, está em alta nos Estados Unidos", comenta Bruna, que percebe esse fenômeno de perto. "As pessoas ficam muito admiradas com a singularidade da sua escrita. Eu, quando liguei para a livraria Barnes & Noble, que a gente queria fazer um evento lá de divulgação da peça, a moça me falou ao telefone: ‘vendemos muito os livros da escritora brasileira; ela está trending’. Eu e o Alex Tietre, diretor da peça, fomos fazer a divulgação na Calçada da Fama, em Hollywood. Uma moça muito jovem estava com o namorado, os dois norte-americanos, e ela me viu segurando o livro e falou: 'Meu Deus, eu amo essa autora.’ E aí a gente perguntou para ela de onde conhecia Clarice, e ela tinha ouvido falar em algum vídeo do YouTube". Uma história brasileira com alcance universal Enquanto novas gerações descobrem Clarice Lispector por meio de vídeos curtos, Bruna Fachetti aposta que a força de sua literatura continua exatamente onde sempre esteve: na capacidade de fazer o leitor olhar para dentro de si. A atriz acredita que a jornada de Macabéa, embora profundamente brasileira, fala diretamente com pessoas de qualquer nacionalidade e que o poder das obras está justamente na maneira como Clarice consegue revelar sentimentos universais de pertencimento, invisibilidade e esperança. A adaptação busca preservar a poesia do romance e explorar uma linguagem teatral baseada na imaginação, na luz, no figurino e na interpretação, sem abrir mão da essência da obra original. “A gente quer muito que essa peça chegue para além de um público que já foi conquistado por Clarice, a um público realmente que possa se beneficiar dessa história, dessa montagem, que queira fazer essa troca e que possamos compartilhar essa parte do nosso Brasil para um público novo”, afirma Bruna Fachetti.

  4. Jul 18

    Brenda Liz, uma brasileira em um restaurante 3 estrelas Michelin em Hollywood

    Em uma discreta rua de West Hollywood, onde apenas 14 clientes por noite conseguem um lugar à mesa, uma brasileira está na cozinha de um dos restaurantes mais exclusivos do mundo. O Somni, comandado pelo chef catalão Aitor Zabala, conquistou três estrelas Michelin apenas sete meses após a inauguração – e todas de uma vez, um feito raríssimo e histórico na gastronomia mundial. Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles Entre os cozinheiros responsáveis por manter esse alto padrão, está a capixaba Brenda Liz Rocha Vieira, de apenas 30 anos. Sua história revela não apenas o caminho de uma brasileira até um dos endereços mais cobiçados da alta gastronomia, mas também como a profissão de chef ganhou uma nova dimensão nas últimas décadas. Há pouco mais de 20 anos, cursar Gastronomia ainda era visto no Brasil como uma escolha pouco convencional. Hoje, impulsionada por escolas especializadas, reality shows e pelo reconhecimento internacional da culinária brasileira, a profissão passou a atrair jovens que enxergam na cozinha uma carreira de excelência. "Eu acho que mudou, sim. Eu acho que tem um pouco mais de respeito pela profissão. Antes, era a segunda, terceira opção de carreira", diz a chef. A paixão pela cozinha, ou a vontade de comer bem, veio muito antes das estrelas Michelin entrarem no seu horizonte. "Eu sempre tive muita curiosidade na cozinha, desde pequena. Cresci com a minha avó, e ela é uma cozinheira muito boa. Eu mudei para a casa da minha mãe quando era adolescente e ela não cozinhava. Eu comecei a sentir muita falta da comida da minha avó e quis muito aprender a cozinhar." Brenda formou-se em Gastronomia em Vila Velha (ES) e começou a carreira em restaurantes brasileiros até seguir para o exterior, onde transformou cada país por onde passou em uma etapa de aprendizado. "Eu sempre busquei trabalhar em restaurantes que tenham alguma coisa que eu não sei e preciso aprender", conta. Essa busca a levou para o Canadá e também para Barcelona, onde trabalhou em restaurantes estrelados. Foi ali que começou a acompanhar o trabalho de Aitor Zabala, um dos nomes mais respeitados da gastronomia espanhola. Quando soube que o chef reabriria o Somni em Los Angeles, decidiu criar a própria oportunidade: comprou passagem e pediu para passar um dia trabalhando no local para conhecer a cozinha. Brenda insistiu por uma vaga e o que não imaginava era que o chef também enxergaria nela o perfil que procurava. Segundo Zabala, experiência e talento podem ser adquiridos ao longo da carreira, mas o que ele considera indispensável é outra característica: “atitude”, contou o badalado chef espanhol. Brenda mostrou que tem esse ingrediente e o chef trouxe a brasileira para o seu elenco. Disciplina por trás das três estrelas Ao contrário do glamour que muitos imaginam, trabalhar em um restaurante três estrelas Michelin significa viver uma rotina rígida de disciplina constante. Em Los Angeles – cidade cheia de estrelas do cinema –, há apenas dois restaurantes que ostentam o topo do guia francês, que leva em conta a qualidade dos ingredientes, o domínio das técnicas culinárias, harmonia e equilíbrio dos sabores, a personalidade do chef e a consistência ao longo do tempo. Para conseguir o feito, o caminho é árduo e para manter a constelação, é necessário rigor e precisão absoluta. "O que eu quero muito é treinar o que você tem que aprender como profissional para ter um restaurante desse nível. O que eu vejo todo dia é muita disciplina, foco e consistência. Todos os dias, nos mínimos detalhes, são milhares de detalhes. Aqui, tudo é feito todos os dias. Nada congelado. Nada cortado antes. Nada. Tudo chega todos os dias, tudo é feito todos os dias". Conseguir uma mesa no Somni não é fácil. O restaurante, que recebe clientes do mundo inteiro, possui apenas 14 lugares e as reservas costumam se esgotar rapidamente. A clientela é confidencial, mas já passaram pelo local Selena Gomez, Kanye West e Aaron Paul, astro de Breaking Bad. A cozinha mistura raízes espanholas e catalãs com ingredientes californianos e técnicas francesas, sempre em um menu altamente criativo. Para Brenda, trabalhar nesse nível também significa cozinhar para pessoas que conhecem profundamente gastronomia e que investem muito na experiência. O sonho continua sendo brasileiro Mesmo construindo uma carreira internacional entre Canadá, Espanha e Estados Unidos, Brenda nunca deixou de pensar na cozinha brasileira. Ela já levou inspirações nacionais para restaurantes onde trabalhou anteriormente, mas ainda não teve o gostinho de trazê-las para Hollywood. Embora nunca tenha visitado o Brasil, Aitor Zabala demonstra curiosidade pela culinária do país. Ele admite à RFI que conhece apenas os pratos mais tradicionais, mas acredita que ainda há muito a descobrir. O chef conta que já conversa com Brenda sobre futuras colaborações com sabores brasileiros. Mas, por enquanto, o projeto dele é seguir com as estrelas conquistadas com sua própria alquimia. Enquanto isso, Brenda vai descobrindo e aproveitando esse brilho, e aperfeiçoa a receita do seu próprio sonho: aprender entre os melhores do mundo para, um dia, colocar a alta gastronomia brasileira ainda mais em evidência. "Eu quero abrir um restaurante de comida brasileira, um fine dining brasileiro. Algo que remeta ao Brasil, à minha trajetória, a tudo que aprendi, mas a minha comida é brasileira."

  5. Jun 27

    Brasileiro Rodrigo Torres realiza sua primeira exposição individual na Itália

    A galeria italiana Rhinoceros recebe em Roma a primeira exposição individual do artista brasileiro Rodrigo Torres na Itália. Intitulada "Água Mole em Pedra Dura", a mostra é fruto de uma parceria com a galeria brasileira A Gentil Carioca e permanece em cartaz até 13 de agosto. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma A RFI encontrou o artista em Roma, na pré-estreia da exposição. “Eu apresento um conjunto de esculturas em cerâmica com essa técnica trompe-l'oeil de imitação de papelão, de papel rasgado, de pedra. Tudo que você vê aqui não é o que parece, e eu trago também muitas referências de Roma”, conta Rodrigo Torres. Inspirado nos monumentos da Cidade Eterna e na natureza do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde nasceu e cresceu, o artista apresenta um novo ciclo de obras. Entre as peças, estão esculturas em cerâmica, além de uma série de desenhos e pinturas em papel, nunca antes exibidos publicamente. “Todas as obras são em cerâmica, em pintura, mas quando você olha parece que é um papelão ou um papel. Algumas peças parecem pedras, porque a cor se assemelha a cor da pedra, assim como a pintura sobre papel dá a impressão de estar rasgado, mas não está, que é uma colagem, mas não é”, diz Márcio Botner, um dos fundadores e sócio da galeria A Gentil Carioca. Convergências com a natureza Na Floresta da Tijuca, árvores centenárias tombam e encostas cedem sob a ação do vento e da água. Em Roma, Rodrigo Torres encontrou a situação inversa: rachaduras são reparadas, superfícies estabilizadas e estruturas reforçadas para adiar o colapso. Dessa observação surgiu uma série de esculturas com efeito de colagem, evocando a possibilidade iminente de uma ruptura. Da presença constante da água nas inúmeras fontanas de Roma nasce a obra Por um Fio de Água, uma fonte apoiada sobre pedras. A fonte em cerâmica criada pelo artista brasileiro dá a impressão que é feita de tubos de papelão pintados amarrados por barbantes. “Eu já trabalho há algum tempo fazendo fontes de água. Aqui, eu pensei nela como agente de erosão e como isso se combina com os materiais e toda a cultura de Roma”, esclarece Rodrigo Torres. A Cidade Eterna é fonte de inspiração e de descoberta de novos materiais, destaca Márcio Botner. “Em Roma, Rodrigo descobre ainda mais elementos, a força da questão histórica com a conexão da natureza. Aqui ele descobre um barro para fazer a cerâmica que é diferente do Brasil, que tem uma cor muito similar ao tufo, que é essa pedra vulcânica.” Projeto O projeto das galerias é expor a criação de artistas estrangeiros depois de residirem em Roma por um breve período. Em 2023 a Rhinoceros teve a ideia de colaborar com outras galerias internacionais que não têm uma sede em Roma. A colaboração com A Gentil Carioca começou em março deste ano, inaugurando a mostra “O Tempo Mora em Mim” de Miguel Afa, o primeiro artista brasileiro a expor individualmente nesta galeria romana. “Esse projeto com a Rhinoceros nasce do convite para realizar uma parceria. A ideia foi trazer dois artistas. O primeiro (Miguel Afa) residiu aqui na capital italiana por quase três meses, realizando suas obras em Roma”, conta o fundador da A Gentil Carioca. “Essa experiência do artista de poder se aprofundar na cidade de Roma traz trabalhos inéditos. Roma é uma cidade que a cada esquina você descobre um pouco, uma nova página da história, e isso os artistas trouxeram intensamente dentro de cada obra”, salienta Botner. A Rhinoceros Gallery “O artista vive em Roma e imprime sua própria alma, o próprio espírito, seu olhar sobre a beleza de Roma, e de alguma forma isso transparece nas obras em exposição. Portanto, é uma ponte de comunicação.” afirma Alessia Caruso Fendi, fundadora da galeria Rhinoceros, à RFI. Para ela, o projeto com o Brasil representa o dinamismo do espaço artístico. "É um momento importante para nós também.” A galeria já apresentou exposições de grande impacto, incluindo uma da Galeria François Ghebaly, seguida por uma exposição individual do designer francês Ronan Bouroullec e a exposição coletiva Profili e Gesti, com obras de outros designers importantes, ambas com curadoria da Galerie kreo. Mais recentemente, também acolheu a galeria parisiense Nathalie Obadia e a trilogia de exposições da Galeria Bigaignon. As galerias convidadas podem trazer a sua própria identidade e curadoria para o espaço ou desenvolver projetos concebidos para Roma, por vezes produzindo obras diretamente na cidade.  Experiência em Roma Depois de morar quase três meses na Cidade Eterna, Rodrigo Torres descreve esta experiência nas suas criações: “Em Roma eu andei por aí, fiz vários desenhos, busquei referências em materiais como os mármores”, indica. “Esta é uma edição realmente especial para Roma, onde você vê aqui obras que provavelmente eu não vou produzir novamente, porque são feitas especialmente para cá.”

  6. Jun 21

    Copa do Mundo impulsiona estreia da LiveModeTV em Portugal com Cristiano Ronaldo como sócio

    A Copa do Mundo de 2026 está servindo de palco para a primeira expansão internacional da LiveModeTV. A empresa brasileira criada por executivos responsáveis pelo antigo Esporte Interativo e pelo sucesso da CazéTV no Brasil escolheu Portugal para lançar sua operação fora do país e, poucos dias após o início do Mundial, já acumula números históricos. O projeto ganhou ainda mais dimensão com a entrada de Cristiano Ronaldo como investidor e sócio estratégico. Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa Nos primeiros dias da competição, a LiveModeTV alcançou mais de 1,26 milhão de dispositivos únicos nas transmissões realizadas pelo YouTube, o equivalente a cerca de 30,5% dos lares portugueses. A partida entre Brasil e Marrocos tornou-se, segundo dados da plataforma Playboard, a maior transmissão ao vivo da história do YouTube em Portugal, com mais de 302 mil dispositivos conectados em simultâneo. A emissão também entrou para o Top 10 das maiores lives do mundo naquele dia. Segundo dados da própria empresa, 71,4% da audiência está concentrada na faixa entre 18 e 44 anos, justamente o público que a LiveModeTV pretende aproximar do esporte por meio das plataformas digitais. Por trás do projeto estão executivos que acompanham a transformação do consumo esportivo há mais de uma década. Para Fábio Medeiros, Diretor de Conteúdos da LiveMode TV, a história começou ainda nos tempos do Esporte Interativo, quando o grupo iniciou as primeiras experiências com transmissões digitais. “Naquela época, as pessoas estranhavam. Depois, passaram a esperar. Foi ali que começamos a perceber que existia uma mudança de comportamento”, afirma. Segundo Medeiros, a empresa nunca teve a pretensão de alterar os hábitos do público. “A gente nunca nem se sentiu capaz de mudar o comportamento de ninguém. A gente entendeu que ele já estava mudando e que existia uma demanda por esse tipo de conteúdo no lugar onde as pessoas já estavam. O jovem já estava no YouTube. Então, se você leva o conteúdo para onde ele já está, você aumenta muito as possibilidades de sucesso.” Mais do que uma empresa de transmissões esportivas, a LiveModeTV foi construída em torno da ideia de comunidade. “A sensação de comunidade é diferente de simplesmente assistir. A pessoa sente que faz parte do projeto”, explica. Essa participação influencia diretamente o conteúdo das transmissões. “O chat muda o nosso roteiro. É como uma conversa entre amigos. Você pode até ter alguns assuntos preparados, mas alguém traz um tema novo e a conversa segue outro caminho.” Essa relação com a audiência vem desde os tempos do Esporte Interativo e foi sendo aperfeiçoada ao longo dos anos, destaca Medeiros. “A sensação de ser parte do projeto é diferente de apenas assistir a um projeto. Quando a pessoa sente que aquilo está sendo valorizado, ela tem mais prazer em participar.” Outro elemento central da estratégia é a escolha dos criadores de conteúdo. “O direito por si só gera uma conexão superficial. Você precisa das pessoas aqui no meio, que se conectam com o fã do outro lado.” A expansão para Portugal, segundo o executivo, exigiu a construção de uma equipe local. “Não adianta trazer um influenciador do Brasil com milhões de seguidores. A gente precisava de pessoas que já tivessem essa linguagem orgânica com o público português.” Por isso, a LiveModeTV apostou em criadores portugueses vindos do universo digital, além de narradores com forte ligação com o esporte. “A gente precisava de uma equipe que tivesse conhecimento, informação, mas também linguagem. Porque, senão, você perde a conexão com quem está do outro lado.” Portugal como primeiro capítulo da expansão internacional Depois do sucesso da CazéTV no Brasil, a internacionalização tornou-se um passo natural. “Portugal não é um teste. É o primeiro capítulo de um projeto internacional”, resume Medeiros. Nascido nos Açores e criado em Portugal até os 10 anos, antes de se mudar com a família para o Brasil, o executivo sempre manteve uma forte ligação com o país e admite que a chegada da LiveMode ao mercado português também representa a realização de um projeto pessoal. Para João Mesquita, diretor geral da LiveModeTV, as razões que explicaram o sucesso do modelo brasileiro não estavam restritas ao Brasil. “À medida que fomos desenvolvendo e entendendo as razões do sucesso do projeto no Brasil, percebemos que elas não eram exclusivas daquele mercado. O crescimento do consumo de vídeo no ambiente digital, a influência dos criadores de conteúdo, a importância das comunidades e da participação são tendências globais.” Segundo Mesquita, o desafio nunca foi reproduzir a experiência brasileira. “Não tentamos copiar o que foi feito no Brasil. Procuramos adaptar a mesma filosofia ao contexto português e ao comportamento da juventude em Portugal.” Na avaliação do executivo, as novas gerações continuam interessadas em esporte, mas muitas vezes não se identificam com os formatos tradicionais. “O jovem quer participar dos grandes eventos esportivos. Muitas vezes ele apenas não os encontra na sua linguagem. O que nós quisemos fazer foi aproximar a transmissão esportiva da forma como essas gerações já vivem todo o resto do entretenimento.” Para ele, o sucesso do projeto confirmou que a estratégia estava correta. “O sucesso acabou por confirmar que essa hipótese estava certa e que poderia haver uma procura muito forte por uma experiência mais próxima, mais participativa e mais integrada com a cultura digital.” Cristiano Ronaldo e a validação da ambição global A entrada de Cristiano Ronaldo na operação portuguesa da LiveModeTV como investidor e sócio estratégico acrescenta peso a um projeto que, desde a origem, foi pensado para ganhar dimensão internacional. “Cristiano Ronaldo entra como sócio estratégico porque acredita neste modelo de mídia esportiva e acredita que a LiveModeTV tem capacidade para alcançar uma escala global”, afirma João Mesquita. Embora a gestão continue nas mãos da equipe da empresa, o General Manager destaca a experiência internacional do capitão da seleção portuguesa. “Ele tem uma compreensão muito profunda da relação entre atletas, fãs e plataformas digitais. Mas talvez o mais importante seja que a entrada dele representa uma validação definitiva da visão, da ambição e do potencial de crescimento da LiveModeTV.” Fã declarado de Cristiano Ronaldo, Medeiros admite que a parceria também tem um significado pessoal. “Para mim, indiscutivelmente, ele é o maior de todos.” Segundo ele, a chegada do craque português não alterou a estratégia da empresa. “Na verdade, ela reforçou aquilo que a gente já acreditava. Existe um alinhamento de visão sobre como usar inovação e tecnologia para aproximar o esporte dos jovens e levá-lo para o mundo digital.” Ao todo, a LiveModeTV transmitirá 34 partidas da Copa do Mundo e produz cerca de oito horas diárias de programação.“O nosso foco agora é entregar um Mundial que seja um exemplo”, resume Medeiros. “O projeto veio para ficar”, conclui.

  7. Jun 6

    Luso-brasileiros estão entre os vencedores do 'Concurso Sardinhas' de Lisboa

    Os artistas conquistaram o júri da competição que reuniu trabalhos de 66 países, como Brasil, Moçambique, Dinamarca, Canadá, Chile e Austrália Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa A sardinha está para os Santos Populares em Portugal assim como o milho para as festas juninas no Brasil. E, neste ano, há dois talentos luso-brasileiros ajudando a dar cara nova ao peixe: o carioca Eduardo Ferrão e Letícia Amaral de Araújo, natural de Belo Horizonte. Eles são dois dos cinco vencedores da 16ª edição do “Concurso Sardinhas” de Lisboa, que neste ano recebeu 3.128 desenhos, enviados por 1.762 autores de 66 países. O resultado surpreendeu Letícia e Eduardo. “Quando chegou o e-mail [com o resultado], eu até tive que conferir algumas vezes. Eu não sabia se era golpe ou coisa do tipo, né? Para ver se era sério mesmo. E eu fiquei super satisfeito, porque é um concurso que acho muito bonito”, conta o designer gráfico. A notícia, que chegou por meio de uma ligação telefônica, foi recebida por Letícia com surpresa e felicidade. Ela também explica que, por retratar na sardinha uma cena tipicamente portuguesa, havia o receio de cometer algum equívoco. No entanto, a aprovação do júri português afastou qualquer dúvida. “Achei que [o resultado] validou a minha ideia”, afirma a designer. O concurso foi criado em 2011 pela EGEAC, empresa pública que promove ações culturais em Lisboa. O objetivo dos organizadores é estimular a participação e a criação artística, desafiando amadores e profissionais das artes a criar novas roupagens para a sardinha. As propostas vencedoras são utilizadas como imagem da campanha visual das tradicionais festas dos santos populares, equivalentes às festas juninas no Brasil. 'Bolo de arroz' Para participar da competição, Eduardo Ferrão se inspirou no projeto “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”, lançado por uma associação de moradores que busca proteger, valorizar e dar visibilidade a cafés e pastelarias que fazem parte da história dos bairros. Chamou a atenção do designer gráfico a notícia de que muitos desses estabelecimentos tradicionais estão fechando as portas devido ao aumento do preço dos aluguéis e das matérias-primas, além de estarem sendo substituídos por comércios voltados a turistas e moradores estrangeiros com alto poder aquisitivo. Quando leu sobre o assunto, ele não teve dúvidas. “Foi como uma revelação, sabe? E aí a ideia estava ali”, relembra. A “Bolo de Arroz”, assinada pelo luso-brasileiro, molda o famoso doce português no formato de sardinha. A ilustração destaca a textura fofa da massa, a icônica crosta de açúcar no topo e a base envolta na clássica cinta de papel vegetal. “Fico realmente esperando que [a minha ilustração] abra o apetite das pessoas, sabe? Assim que passarem por uma pastelaria, peçam um bolo de arroz”, pede o carioca, que espera que sua criação também possa ajudar a manter o bolo de arroz e sua receita tradicional nas pastelarias portuguesas. “O Telefone das Coscusvilheiras” Na sardinha, a que deu o nome de "O Telefone das Coscuvilheiras”, Letícia Amaral de Araújo recorreu ao bom humor ao fazer uma leitura de uma cena cotidiana: a coscuvilhice de quem fica à janela ou na sacada dos apartamentos a fofocar e até a monitorar a vida alheia. “Este exagero visual não busca realismo, mas sim evidenciar um comportamento social reconhecível: o prazer na conversa e na construção coletiva de histórias”, destaca a EGEAC na descrição oficial do projeto. A ilustração da mineira destaca duas varandas tradicionais com uma senhora em cada lado a estender roupa na espinha dorsal da sardinha, que ganha nova vida como um varal e um "telefone de lata” ao mesmo tempo. Uma cena que resgata os conhecidos telefones de copinho ou de barbante das brincadeiras infantis. “E essas duas senhoras estão a se comunicar por meio de um telefone de lata, que eu fiz essa analogia com o varal”, explica Letícia. Sardinhas de Lisboa Além das sardinhas “Bolo de Arroz” e “O Telefone das Coscuvilheiras”, também conquistaram o júri da competição as ilustrações portuguesas “Sardinha Guitarrista” e “Patrimônio Fragmentado” e a “Tomatazo”, do Uruguai. O autor de cada uma delas ganhou um prêmio em dinheiro no valor de 1.500 euros (quase R$ 9 mil na cotação atual). A maior recompensa para os vencedores, contudo, é ter as sardinhas exibidas nos ônibus e no metrô da capital, nos painéis publicitários e nas decorações dos arraiais. Eduardo Ferrão, que vive na cidade do Rio de Janeiro, pensa até em ir a Lisboa para não perder a festa. “Eu ainda estou considerando isso, se pego semana que vem um voo. Enfim, vamos ver. É um evento muito relevante para a cidade, e eu gostaria muito de fazer parte desse momento”, confessa. Letícia, que mora há seis anos em Lisboa, já teve a chance de ver o resultado de seu trabalho e testemunhar a reação das pessoas. “Foi muito interessante. Eu fiquei mais como espectadora, vendo as pessoas com a sardinha na mão, conversando nesse contexto popular das festas, e senti uma sensação de orgulho”, disse. Ícone pop O Concurso Sardinha celebra um dos mais populares símbolos da identidade do país. Alimento básico das comunidades pesqueiras e de quem vivia e trabalhava no campo, a sardinha se tornou uma das marcas da capital portuguesa, uma espécie de ícone pop, estampada em roupas, acessórios e peças de decoração. E é no pico do verão deste lado do atlântico, que ela chega ao ponto para ser consumida. O preparo é nas grelhas ao ar livre às portas das casas e tascas. Para a designer mineira Letícia, que assim como Eduardo, gosta de sardinha, a partir de agora, a iguaria vai ter “esse gostinho especial, essa memória afetiva que vai ficar pra sempre”.

  8. May 30

    Exposição de fotógrafo brasileiro em Portugal transforma basquete de rua em manifesto visual

    Entre o concreto das cidades e o eco das quadras, o basquete de rua ganha densidade, memória e significado no olhar do fotógrafo brasileiro Dante Prochet. Em sua primeira exposição, no Porto, ele constrói uma narrativa visual que ultrapassa o esporte e se firma como um retrato sensível de identidade, pertencimento e vida urbana. Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Lisboa Nas imagens de Dante Prochet a quadra não é apenas um espaço delimitado por linhas, mas também um território simbólico. É ali que corpos se movem, histórias se cruzam e comunidades se formam. É dessa matéria viva que nasce a mostra “Basquete: O Manifesto”. A exposição de estreia do fotógrafo brasileiro em Portugal revela um olhar autoral consistente. Aos 20 anos, vivendo há cinco no país, o fotógrafo apresenta um trabalho que surpreende pela maturidade e pela clareza de intenção. O projeto teve origem em um livro, concebido como trabalho final acadêmico e, que ganha escala e intensidade em novo contexto. As imagens, ampliadas, impressas com cuidado e distribuídas de forma a manter o ritmo narrativo do livro, convidam o espectador a uma experiência mais lenta, quase imersiva. “Manifesto”, aqui, não é metáfora vazia e sim, como define o próprio artista, uma declaração. “Quis mostrar, pelas minhas fotos, a cultura do basquete de rua”, explica. Ele faz isso deslocando o olhar do jogo em si para os elementos que o sustentam e carregam história: os encontros, os códigos, os gestos e os espaços.   Lisboa e Nova York O trabalho se organiza a partir de um eixo geográfico e simbólico, entre Lisboa e Nova York. Duas cidades que, à primeira vista, pouco têm em comum, mas que se aproximam na linguagem universal do basquete de rua. “Nova York é o centro desse universo, com quadras icônicas por onde passaram e ainda passam jogadores da NBA e grandes nomes do basquete mundial. São espaços carregados de história, quase míticos dentro da cultura do esporte. O que me interessava era justamente colocar isso em diálogo com a realidade portuguesa, muito mais discreta em termos de projeção, mas que, para mim, tem o mesmo peso em significado. São contextos diferentes, mas que se encontram na forma como o basquete de rua constrói comunidade e identidade”, afirma. Um manifesto entre memória e território Nas imagens feitas na cidade americana, as quadras surgem como espaços carregados de memória, lugares onde passaram jogadores profissionais, onde nasceram lendas e onde o jogo se mistura à própria construção da identidade local. Em Lisboa, por outro lado, o olhar se volta também para as ausências, como a precariedade, a falta de incentivo, a fragilidade de estruturas das quais, muitas vezes, dependem comunidades inteiras. É nesse ponto que o trabalho ganha densidade crítica. Fotografias como Quadra Quebrada condensam essa tensão. A imagem nasceu de uma experiência pessoal, depois que uma quadra próxima à casa do fotógrafo teve a cesta retirada após reclamações de barulho. “Ali existia uma comunidade. Quando tiraram a cesta, aquilo simplesmente acabou”, lembra. O que se vê, então, não é apenas a ausência de um equipamento, mas o esvaziamento de um espaço de convivência. Uma estética que aproxima A força das imagens também reside na linguagem utilizada. Influenciado por nomes como William Klein, nova-iorquino e um dos fotografos mais influentes do século XX, Prochet aposta em uma estética mais crua, menos polida, que aproxima o espectador da ação. Há movimento, ruído, tensão. Ao mesmo tempo, referências como Robert Adams, fotógrafo americano ligado ao movimento New Topographics, ajudam a construir momentos de pausa e composição mais limpa, criando um equilíbrio que sustenta a narrativa visual. Outro contraste entre o basquete de rua e o basquete federado atravessa o trabalho. Enquanto o segundo é marcado por regras, uniformes e controle, o primeiro se afirma como espaço de liberdade. “Na rua, você joga como quer, se veste como quer. Existe uma liberdade total”, diz Prochet. Essa autonomia aparece não apenas nos gestos dos jogadores, mas também na forma como ocupam o espaço e constroem sua identidade. Em um tempo dominado pela circulação acelerada de imagens, o jovem também propõe uma reflexão sobre a materialidade da fotografia. Para ele, há uma diferença decisiva entre ver uma imagem na tela do celular e encontrá-la em uma parede. “Você perde detalhes importantes no digital, como o brilho e a textura do papel. Isso muda completamente a experiência”, afirma. Ainda assim, reconhece a ambivalência das redes sociais que, ao mesmo tempo em que ampliam o alcance do trabalho, também reduzem parte de sua potência sensorial. A estreia em Portugal surge a partir da relação com um coletivo artístico local, e o resultado, segundo o próprio fotógrafo, supera as expectativas iniciais. Mais do que um primeiro passo, Basquete: O Manifesto se apresenta como um gesto inaugural que já carrega identidade. Há, no trabalho de Dante Prochet, uma compreensão clara de que o essencial não está apenas no jogo, mas em tudo o que o cerca. E é nesse entorno, feito de pessoas, histórias e espaços, que sua fotografia encontra força, sentido e permanência. A exposição “Basquete: O Manifesto”, em cartaz na Temporada Social Club, no Porto, segue aberta ao público até 14 de julho

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Reportagens de nossos correspondentes em várias partes do mundo sobre fatos políticos, sociais, econômicos, científicos ou culturais, ligados à realidade local ou às relações dos países com o Brasil.

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