RFI Convida

Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

  1. 2D AGO

    'Sem o Brasil, Paper Tiger não estaria no Festival de Cannes', diz o produtor Rodrigo Teixeira

    O produtor brasileiro Rodrigo Teixeira marca presença constante no Festival de Cannes. Este ano, a produtora dele, a RT Features, produziu 2 filmes selecionados, “Paper Tiger”, do americano James Gray, na disputa pela Palma de Ouro, e “La Perra”, da chilena Domingas Sotomayor, com Selton Mello no elenco, que integra a mostra paralela Quinzena dos Cineastas. Em entrevista à RFI em Cannes, o produtor defendeu o papel do Brasil na participação de “Paper Tiger” em Cannes. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes A presença brasileira em Cannes nesta 79ª edição do festival é discreta. O país está representado na seleção principalmente com quatro coproduções, apresentados em várias mostras. Apenas um único filme autoral brasileiro, o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, foi selecionado na mostra La Cinef. Há cinco anos, Rodrigo Teixeira também era o único brasileiro na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de “Armageddon Time”, também dirigido pelo americano James Gray. Para o brasileiro, produtor de grandes sucessos como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o único paralelo entre os dois momentos “é o trabalho”. Teixeira, que é um dos produtores latino-americanos mais influentes do momento, participa do Festival de Cannes há 15 anos defendendo o cinema independente e autoral. Ele defende que, apesar de discreta, a participação do Brasil este ano é importante pela relevância dos filmes selecionados e garante, “sem o Brasil, 'Paper Tiger', de James Gray, não teria sido rodado e não estaria no Festival de Cannes”. RFI: Qual o paralelo você faz entre esta edição e a de cinco anos atrás, quando você também era o único brasileiro presente na competição oficial pela Palma de Ouro, como produtor de "Armageddon Time", do James Gray? Rodrigo Teixeira: Eu acho que o único paralelo é o trabalho. O cinema independente hoje depende de uma carreira de festivais. Então, o que a gente tem que fazer é trabalhar para que os nossos filmes possam estar presentes nesses festivais, possam participar desses festivais. Saber onde você vai colocar esses filmes é muito importante. RFI: E qual é a sua relação com o Festival de Cannes? RT: Eu tenho 15 anos de relação com esse festival. O primeiro filme que eu fiz que entrou nesse festival foi "O Abismo Prateado", do Karim Aïnouz, em 2011, na Quinzena dos Cineastas. Desde então, 12 filmes meus circularam por esse festival. É uma pena que o cinema brasileiro tenha uma presença discreta este ano, haja vista que no último ano a gente teve “O Agente Secreto”, que foi um estouro aqui no festival. Mas eu não vejo uma presença tão discreta assim, porque acho que há dois produtores importantes com filmes aqui que lideram esses processos. Tem a minha empresa, a RT Features, em parceria com outras pessoas, com “Paper Tiger”, e a Tatiana Leite com o filme “Elefantes na Névoa”, na mostra Un Certain Regard. Você tem dois profissionais que constantemente estão frequentando o Festival de Cannes. Por mais que seja discreta, ela é importante, porque ambos os filmes têm relevância no Festival de Cannes. Se não tivesse o Brasil dentro de "Paper Tiger", eu posso te garantir, o filme não seria realizado e não estaria no Festival de Cannes. Isso é uma prova de que o Brasil está, sim, presente. Qualquer coisa que "Paper Tiger" alcançar nesse festival, o Brasil tem uma responsabilidade muito grande. RFI: Você também está aqui representando o cinema autoral e independente americano, em um ano de ausência das grandes produções dos estúdios de Hollywood. É uma dupla responsabilidade? RT: O cinema de grandes estúdios americanos vinha frequentando o Festival de Cannes para apresentações especiais. Ele não está nas competições nem nas mostras paralelas. São premières. Eu acho que muitos deles têm um pouco de medo de vir para serem detonados pela crítica e ter uma relevância mercadológica menor no momento seguinte. E agora, falando da competição, você tem dois filmes com uma relevância muito importante. Isso é uma prova contínua de que o Thierry Frémaux [diretor-geral] e os selecionadores desse festival apoiam o cinema independente americano. E o cinema independente americano não é independente porque não tem um estúdio. Ele é independente porque tem liberdade de expressão. E esse cinema de liberdade de expressão está aqui. Ele é o filme do Ira Sachs, “The Man I Love”, e é o “Paper Tiger”, do James Gray. São dois diretores que respeitam a liberdade de expressão. Eles poderiam estar fazendo filmes de estúdio, poderiam não estar mais frequentando os festivais. Mas são generosos o suficiente para continuar a vir aqui apresentar filmes para serem julgados e, eventualmente, escrutinados. Eles estão aqui dando a cara para bater, apresentando filme. Você tem aí 10% dessa seleção americana, mas são filmes que têm coprodução francesa, brasileira, italiana. É como o cinema tem sido feito recentemente. O cinema americano hoje também depende dessas parcerias internacionais. Eu acho superimportante fazer parte de um filme americano também. Porque eu, como produtor latino-americano, estou viabilizando um filme deles também. Aqui, eu também represento uma bandeira que não é a minha e que eu não tenho nenhum problema de representar, mas faço isso com muito orgulho sendo latino-americano. RFI: O "Paper Tiger", se não me engano, é a sua terceira colaboração com James Gray, que já foi selecionado várias vezes, mas nunca venceu a Palma de Ouro. O filme está tendo uma excelente recepção. Qual é o seu palpite? RT: É difícil, porque meu coração é totalmente de torcedor nessa hora. É óbvio que eu adoraria que James Gray levasse o prêmio principal, mas é difícil prever. Você tem autores muito importantes, Pawel Pawlikowski, Hamaguchi, Rodrigo Sorogoyen, Cristian Mungiu, Zvyagintsev, o James, o Ira [Sachs], o [Pedro] Almodóvar. Eu estou esquecendo provavelmente muitos outros nomes, mas você tem muitos grandes autores e eu acho que esse júri é capaz de escolher o que eles entendem ser o melhor deste ano. Se eles entenderem que “Paper Tiger” é o melhor, eu vou ficar muito feliz e vai cumprir um sonho que eu tenho, que é um dia ter um filme laureado aqui com o principal prêmio. RFI: “La Perra”, de Dominga Sotomayor, é produzido pelo Brasil, a diretora é chilena, a roteirista uruguaia, é rodado em espanhol, mas tem brasileiro no elenco. Essa internacionalização é a tendência do cinema latino-americano e, pelo que você está dizendo, do cinema do continente americano? RT: É uma excelente pergunta. Você esqueceu só de mencionar uma nacionalidade: o filme é adaptado de um livro colombiano, “A Cachorra”, de Pilar Quintana. Então, esse é um filme extremamente latino-americano. É o meu projeto mais latino-americano, porque nós temos Chile, Uruguai, Brasil e Colômbia no mesmo filme. Essa colaboração fez com que o filme ficasse com a beleza que ele tem. Eu acho que ele talvez seja um dos trabalhos mais bonitos que já fiz. Eu tenho um orgulho muito profundo desse filme. Eu o considero um irmão de “Murina”, que é um filme croata que eu fiz e que ganhou o prêmio Caméra d’Or aqui. São dois dos filmes de que eu mais me orgulho. Agora estou fazendo um filme americano no Brasil ("Zero K", do diretor Michael Almereyda) e a minha condição para fazer esse filme foi essa. Vocês querem fazer comigo? É no Brasil. RFI: Esse é o seu novo projeto, novo desejo, de levar todas essas produções para o Brasil para que o país passe a ser um local de filmagem para produções internacionais? RT: Meu desejo é que o Brasil esteja inserido em quase tudo o que eu faço. Onde eu puder inserir o Brasil, vou inserir. É o meu país. Eu tenho muito orgulho de ser brasileiro. É o lugar onde eu nasci, é o lugar onde meu coração reside. Eu sou feliz vivendo lá. Tenho filhos brasileiros. Onde eu puder levar o Brasil, vou levar. Isso é o que eu posso dar em troca ao meu país. É levar o Brasil para onde for possível.

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  2. 3D AGO

    Arquitetas mineiras levam instalação imersiva à Nuit Blanche e ocupam túnel às margens do Sena

    Três arquitetas mineiras radicadas em Paris vão dar um toque brasileiro ao coração da capital francesa. O projeto “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências”, concebido por Vanessa Gambardella, Helena Caixeta e Luisy Silva, foi selecionado para a edição de 2026 da Nuit Blanche, que acontece na noite de 6 de junho. A instalação será apresentada no túnel das Tulherias, às margens do rio Sena, e propõe uma experiência sensorial que mistura luz, som e reflexões sobre identidade e diversidade. Criada em 2002, a Nuit Blanche é um dos principais eventos culturais de Paris: durante uma madrugada, espaços públicos, museus e ruas recebem intervenções artísticas gratuitas, convidando o público a percorrer a cidade de forma diferente, em contato direto com a criação contemporânea. No caso de “Multitudes”, a escolha do local é central para a proposta. O túnel das Tulherias, hoje reservado a pedestres, ciclistas e usuários de patinete, transformou-se em uma galeria de arte urbana desde 2022, em um projeto conduzido por Nicolas Laugero Lasserre, fundador da associação cultural Artistik Rezo e diretor da escola de arte ICART, que também apoiou a iniciativa das três artistas brasileiras. O espaço, marcado por uma acústica particular, acabou influenciando diretamente a criação. “As pessoas parecem se liberar lá dentro”, observa Vanessa Gambardella. A ideia do trio foi justamente amplificar essa sensação, criando “uma imersão de luz e som” que dialogue com o ambiente e com quem o atravessa. A trilha sonora, ainda mantida sob sigilo, terá “toques de brasilidade” que, segundo a arquiteta, devem surpreender o público. A concepção partiu da observação do próprio uso do túnel: gente que canta ao passar de bicicleta, visitantes que desaceleram, vozes que ecoam. “O público foi a nossa inspiração desde o começo”, resume. Encontro em Paris, raízes em Minas As três artistas se conheceram na França, mas compartilham a formação em arquitetura e urbanismo em Minas Gerais. Foi a afinidade entre prática profissional e expressão artística que aproximou o trio. “A gente descobriu que dividia esse papel entre arquitetas e artistas, assim como eu”, conta Vanessa, que convidou as colegas para integrar o coletivo Pogo, criado por ela em Paris. A oportunidade de participar da Nuit Blanche surgiu a partir de um edital aberto. Ao ver a chamada, Vanessa pensou imediatamente nas duas conterrâneas. “É muito legal ter ganhado com duas artistas brasileiras que me acompanham. A gente monta projetos com muitos artistas, e esse acabou sendo de três mineiras”, afirma. Espaço público e experiência coletiva Embora parta de uma intervenção artística, a instalação “Multitudes – Uma luz multiplicada como nossas existências” dialoga diretamente com questões urbanas. O túnel das Tulherias, antes destinado exclusivamente aos carros, foi incorporado ao circuito de mobilidade ativa da cidade – um símbolo, segundo Vanessa, do processo de transformação urbana em Paris. “É um espaço conquistado para o pedestre e a bicicleta. Para a gente, como arquitetas e urbanistas, isso já é um símbolo de liberação”, explica. A instalação nasce dessa leitura, combinando arte, arquitetura e uma dimensão sociológica voltada ao uso do espaço público. “A gente pensa sempre na sensação que aquilo vai despertar nas pessoas e em quem são os usuários daquele lugar.” A proximidade com outras obras reforça essa ideia de percurso. O trabalho das brasileiras ficará ao lado de uma intervenção do artista francês JR, inaugurada na mesma noite no Pont Neuf. A ponte mais antiga de Paris será transformada em uma espécie de “caverna” monumental, com estrutura inflável e efeito de trompe-l’œil que simula uma paisagem rochosa. A instalação de JR também convida o público a uma travessia imersiva, com criação sonora de Thomas Bangalter, ex-integrante do Daft Punk, explorando essa atmosfera entre fascínio e estranhamento que o próprio JR associa ao imaginário das cavernas. Vanessa espera que o público perceba essa continuidade entre as obras ao longo das margens do Sena. “A ideia é que as pessoas caminhem, passem pela obra dele e depois cheguem na nossa, com outra atmosfera sonora, com as brasilidades.” Entre a arte e o urbanismo A trajetória de Vanessa Gambardella ajuda a entender a transversalidade do projeto. Além de arquiteta e urbanista, ela reúne formação em cinema, cenografia e design, e hoje atua no desenvolvimento de projetos urbanos. Atualmente, integra uma agência francesa, onde participa, entre outras iniciativas, da concepção de um parque linear no 13º distrito de Paris. Sua atuação está diretamente ligada às transformações recentes da capital francesa, como a expansão de ciclovias, a criação de áreas verdes e a adaptação às mudanças climáticas. Esses projetos incluem, por exemplo, a chamada desimpermeabilização do solo, isto é, permitir que a água volte a ser absorvida pela terra e o planejamento de novas áreas vegetalizadas em um sistema de economia circular. “Sou um produto dessas mudanças na cidade”, diz. “Hoje a gente trabalha com gestão da água, escolha de espécies vegetais, adaptação ao aquecimento global.” A experiência entre Brasil e França também alimenta sua visão crítica. Para Vanessa, há uma troca possível entre os dois contextos. “A França aprende com o Brasil na gestão de crises, e o Brasil poderia aprender com a França na questão das subvenções e no planejamento de cidades mais verdes”, observa. Ao mesmo tempo, ela ressalta as diferenças de escala e de organização. “O Brasil é imenso, o que torna o trabalho mais complexo, mas o incentivo precisa estar presente”, destaca. Travessia de uma noite Instalado em um ponto emblemático da cidade, entre o Sena e o Louvre, o projeto “Multitudes” propõe uma travessia física e simbólica. Ao percorrer o túnel, o visitante é convidado a experimentar o espaço de outra forma, guiado por luz e som. “A expectativa é que o público encontre ali uma experiência diferente e se sinta parte dessa multiplicidade”, afirma Vanessa. A instalação poderá ser visitada na noite de 6 de junho (e madrugada do dia 7), das 19h às 2h, durante a Nuit Blanche.

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  3. 4D AGO

    Lucas Acher é o único diretor brasileiro na seleção oficial do 79° Festival de Cannes

    "Laser-Gato", o curta do jovem diretor paulista, integra a mostra La Cinef, dedicada a filmes de escola de cinema. Lucas Acher e o produtor João Pereira Webber estão em Cannes e concederam à RFI a primeira entrevista deles no festival. Adriana Brandão, enviada especial da RFI a Cannes "Laser-Gato" foi selecionado entre mais de 2.700 candidatos do mundo inteiro. O filme de Lucas Acher concorre na La Cinef, que visa apoiar novos cineastas, com 18 curtas de vários países. “A seleção do curta-metragem 'Laser-Gato' para o La Cinef de Cannes esse ano foi uma surpresa. Me traz felicidade de estar representando o Brasil. Ser o único diretor brasileiro em competição no festival traz uma maior responsabilidade”, afirma. Lembrando a boa fase do cinema nacional potencializada desde as conquistas de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, no ano passado, e "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, na edição anterior, Lucas Acher lamenta não ter outros filmes autorais brasileiros na seleção. “Tem o lado ruim de ser a única seleção brasileira esse ano no festival, diante da quantidade de filmes muito bons que a gente produz por ano. Então, existe uma pressão”, diz. O produtor João Pereira Webber acredita que "Laser-Gato" integra essa “grande onda do cinema nacional” e agradece “a todos os filmes que vieram antes”. “Eu sonho que a gente possa continuar essa grande onda e expandir o que o Brasil representa no mundo do cinema”, espera. São Paulo como personagem "Laser-Gato" é o projeto de doutorado em Cinema de Lucas Acher na NYU. Rodado em São Paulo, o filme acompanha a travessia inquietante de um adolescente pela cidade, em uma única noite, tentando salvar um gato. A narrativa é de suspense, de uma corrida contra o tempo, com toques de elementos mágicos, fantásticos, mas sempre com algum senso de humor. O personagem avança em uma situação de emergência que piora a cada decisão. Lucas Acher quis mostrar São Paulo de uma maneira diferente, fora dos clichês. “Me dá muita animação poder mostrar um recorte de São Paulo que eu acho que não é tão mostrado. São Paulo vista sob um viés que conversa mais com o cinema de gênero”, salienta. No trama, “a cidade, silenciosamente, conspira contra o protagonista. É um personagem, mas também é o grande conflito do filme para mim. Como esse protagonista não consegue navegar pela cidade e como a cidade não o vê? A cidade é indiferente a ele”, explica o cineasta que nasceu e cresceu em São Paulo. Baixo orçamento O curta é a segunda colaboração entre Lucas Acher e João Pereira Webber, que também produziu o trabalho de conclusão do mestrado do diretor paulista na NYU. "Laser-Gato", produzido pela Bruto Films e pela Balcão Filmes, foi rodado com baixo orçamento e financiado principalmente com capital privado. Mas a expectativa com essa participação em Cannes é ganhar visibilidade e poder costurar coproduções para transformar "Laser-Gato" em um longa-metragem. “Com isso, a gente vai começar o processo de editais”, antecipa João Pereira Webber, explicando que “apesar de não ter produzido o curta com dinheiro público, a gente está aqui por causa de dinheiro público. O Brasil tem uma coisa muito forte de apoiar artistas nos momentos grandes de divulgação internacional”, como em Cannes. A expectativa de Lucas Acher com a recepção do curta no festival e uma possível vitória na mostra La Cinef é grande. “A ideia é seguir em frente e, quem sabe, transformar esse curta em um longa-metragem”, espera o cineasta que já é apontado como uma das promessas do cinema brasileiro. "Laser-Gato", de Lucas Acher, será exibido nesta terça-feira (19) na mostra La Cinef, seleção oficial do Festival de Cannes dedicada a apoiar novos talentos.

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  4. MAY 15

    Carla Juaçaba leva a Paris pensamento arquitetônico que une clima, técnica e política do espaço

    Convidada das Palestras Chaillot, na Cité de l’Architecture, em Paris, a arquiteta brasileira Carla Juaçaba apresenta um percurso que articula duas décadas de produção entre o Rio de Janeiro e a Europa. Professora na Accademia di Mendrisio e vencedora, em 2026, do concurso para o Museu de Arte Kurpark Bad Ragaz, na Suíça, ela chega à capital francesa com uma obra consolidada por exposições, instalações e projetos, sempre guiada pela tensão entre natureza, técnica e história. Desde 2000 à frente de um escritório independente no Rio de Janeiro, Carla Juaçaba construiu uma trajetória que oscila entre comissões privadas e programas culturais, com presença frequente em instituições internacionais. Premiada com o ArcVision Women and Architecture Prize, em 2013, e o Emerging Architecture Award, da Architectural Review, em 2018, ela participou da Bienal de Veneza no mesmo ano, quando também construiu uma capela para o Vaticano — hoje integrada ao patrimônio italiano e ao acervo do Centre Pompidou, em Paris. Professora da Accademia di Architettura de Mendrisio desde 2019, onde se tornou titular em 2023, ela transita com naturalidade entre prática e reflexão. Em exposições e instalações — de Lisboa a Genebra, de Nova York a São Paulo —, sua arquitetura se aproxima das artes visuais, insistindo na ideia de que espaço não se separa de contexto. “Acho que estamos num momento em que o mundo ficou muito pequeno, e passamos a falar de uma arquitetura de reflexos internacionais”, afirma. Ainda assim, resiste a paralelos rápidos. “Não consigo comparar muito a arquitetura francesa com a brasileira, porque a questão climática, quando estou fazendo trabalhos no Brasil e na Suíça, muda completamente a perspectiva e o modo de fazer”. A diferença não é apenas técnica. “A questão climática transforma o modo de fazer.” No Brasil, segundo Juaçaba, isso se traduz em margem de liberdade. “A arquitetura brasileira tem uma liberdade dada pelo próprio clima. Não preciso enfrentar todas as camadas que a França precisa para se proteger do frio”. É uma diferença que se materializa no projeto. “No museu que está sendo feito no Brasil, o chão é de terra. Eu nunca poderia fazer isso na Europa.” Para a arquiteta, o clima, mais do que condicionante, torna-se linguagem. “É um problema global, mas sempre com questões locais, que exigem reação e reflexão.” Paisagem como estrutura, não ornamento Nos projetos recentes, essa atenção ao contexto assume forma quase programática. “Um museu na Suíça, em uma montanha com neve, e outro no Brasil respondem diretamente a esses contextos.” Em ambos, a paisagem não aparece como fundo, mas como estrutura. “Vejo a arquitetura como uma inserção em que natureza e objeto se misturam, um dentro do outro.” A consequência é a recusa do paisagismo como acabamento. “O projeto paisagístico precisa nascer junto com o projeto de arquitetura. Não é algo secundário, que vem depois.” A crítica é direta. “O paisagismo não deveria aparecer como um elemento decorativo, aplicado depois para tornar o projeto mais bonito.” Na prática, isso implica um olhar atento ao território. “[O paisagismo] precisa surgir junto, ligado às questões ambientais, atento à vegetação local e capaz de fazer coexistir essas duas dimensões.” Uma posição que atravessa desde instalações efêmeras, como o Pavilhão Humanidade, até trabalhos recentes apresentados em circuitos internacionais. Em Paris, Juaçaba opta por destacar projetos brasileiros, entre eles o Flor de Café, em Minas Gerais. “Vou falar principalmente de projetos do Brasil. Um deles é o Flor de Café, pensado para pequenos agricultores.” Ali, arquitetura, economia e história se entrelaçam. “É um projeto de longo prazo, ainda em busca de financiamento. Foi iniciado por uma mulher, que reuniu pequenos agricultores, valorizou o café que produziam e que antes era vendido por quase nada.” O desdobramento aponta para um programa maior. “Hoje, eles vendem o próprio produto.” O projeto inclui ainda um centro cultural. “Eles querem criar um centro do café ligado ao agriturismo, que também abrigará um museu sobre a história do Brasil a partir da exploração do café — uma história marcada pela destruição da Mata Atlântica.” A dimensão ambiental vem associada. “O projeto tem o apoio do instituto criado por Sebastião Salgado, que já atua no reflorestamento da região.” Leia tambémArtista brasileira Laura Lima abre sua maior exposição solo em Londres Museu como extensão da paisagem Na Suíça, onde Carla acaba de vencer um concurso internacional, a lógica se mantém. “O museu em Bad Ragaz fará parte de um circuito cultural nas montanhas, onde já existem instituições em lugares como Davos.” O processo seletivo foi restrito. “Foram convidadas 12 mulheres do mundo inteiro, com um júri de 14 pessoas, e acabei vencendo”, conta. Ao descrever o projeto, Juaçaba sintetiza sua abordagem. “É muito brasileiro, mas realizado com tecnologia suíça.” A relação com o terreno é determinante. “Ele se desdobra entre as árvores existentes, mantém um pé no chão e permite que se caminhe pelo jardim e pelo museu no mesmo nível.” No Brasil, o museu dedicado à artista Laura Lima avança ainda mais nessa direção. “É um museu pensado para uma única artista, no Instituto Paz, ao lado de Inhotim.” A arquitetura, nesse caso, abdica de protagonismo. “Não é um museu que simplesmente abriga a obra. É um espaço concebido para ela, que só funciona a partir do trabalho dela.” A consequência é uma redefinição da própria ideia de edifício. “Existe algo de efêmero na obra dela, e o museu, embora não seja efêmero, carrega uma fragilidade.” A solução espacial explicita essa tensão. “É um museu que não tem chão. Ele pisa diretamente na terra, no barro vermelho de Minas Gerais.” Arquitetura e política do espaço Se o território condiciona a forma, a história orienta escolhas. “Eu penso nisso. O modelo da casa-grande e senzala é um programa brasileiro. Nunca fiz uma casa-grande e senzala moderna. Não gosto e não me sinto bem fazendo. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que não desejam isso, mas sim casas integradas à natureza do Rio”, aponta. A escala doméstica, nesse sentido, torna-se política. “São casas com as dimensões necessárias para viver.” Para a arquiteta brasileira, o modelo tradicional perpetua desigualdades. “A casa-grande e senzala pressupõem porta social e porta de serviço, o que é inaceitável.”

    7 min
  5. MAY 13

    Diácono brasileiro mostra como o luto pode ser pedagógico em livro nascido na pandemia

    O luto e as pequenas permanências que resistem ao tempo são o tema do livro do diácono permanente da Diocese de Ilhéus e escritor Rodrigo Dias de Souza, O Sabor das Coisas que Ficam (Nocego), lançado no ano passado e já traduzido para duas línguas, espanhol e italiano. A obra apresenta uma narrativa marcada pela espiritualidade e pelo afeto. “Durante a Covid, assim como no Brasil e em todo o mundo, enfrentamos a dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, de realizar os rituais de despedida das pessoas que amamos", lembra o diácono, para explicar a origem de seu quinto livro. "Diante daquela circunstância tão dolorosa para o povo brasileiro, sobretudo para aqueles que perderam um número imenso de parentes e amigos, fiquei pensando em uma geração que não teve a oportunidade de vivenciar o luto”, resume o autor. Segundo ele, o projeto parte dessa perspectiva. “Não apenas do luto pela pessoa que perdemos, mas também dos tantos lutos que experimentamos ao longo da vida: a perda de uma amizade, a perda daquilo que amamos”. “Assim, a pandemia surge como pano de fundo, mas sob a perspectiva de que o luto é pedagógico”, afirma. A obra percorre paisagens simbólicas e existenciais – da romaria de Bom Jesus da Lapa, no coração do sertão baiano, às ruas de Roma, aos rios da Itália e também a Belém – para narrar histórias de pessoas comuns. Este é o primeiro romance de Dias de Souza. O anterior, Em tempos de e-mail: cartas para Irene, aborda a exigência de rapidez nas sociedades contemporâneas, influenciadas pelas tecnologias – uma ideia que também fundamenta sua obra mais recente. “Todo escritor não escreve a partir do abstrato. A gente escreve daquilo que a gente vive. Meu cotidiano é profundamente marcado pela presença das pequenas coisas, das miúdas coisas da vida. E elas, de fato, me marcam. Esse é o meu traço literário, o meu jeito de ser”, afirma. "A proposta do livro Em tempos de e-mail: Cartas para Irene, que foi um divisor de águas na minha vida, é perceber outras urgências: a urgência de parar numa praça, de observar as pessoas, de contemplar o pôr do sol, algo tão necessário nos tempos em que vivemos, de observar os detalhes da vida, porque ela é feita de pequenos detalhes e eles mudam profundamente o destino de uma pessoa”, acrescenta. Poesia do cotidiano Rodrigo Dias de Souza participou, em 12 de maio, de um encontro sobre poesia lusófona, promovido pela Biblioteca Gulbenkian, na Cidade Universitária de Paris, ao lado dos poetas Alice Machado, António Topa e José Vala. O objetivo do evento foi promover o encontro entre autores de língua portuguesa de diferentes países, e leitores. Para ele, o momento foi "muito importante para encontrar e conhecer pessoas, além de destacar a poesia do cotidiano”. “A poesia que encanta é aquela que nasce da vida concreta, do que é mais simples, como um pequeno quarto, frequentemente presente nas minhas poesias. Fiquei muito feliz de estar aqui, de participar desse evento, de conhecer outras pessoas. Mas, sobretudo, de perceber que a poesia simples do cotidiano ainda toca a alma das pessoas”, conclui.

    6 min
  6. MAY 13

    'Povo Brasileiro': a travessia sonora de Pierre Aderne inspirada em Darcy Ribeiro

    Entre a França, o Brasil e Portugal, Pierre Aderne construiu uma trajetória musical marcada pelo trânsito e pela escuta. Nascido em Toulouse, criado no Rio de Janeiro e radicado em Lisboa, o músico e produtor apresenta agora “Povo Brasileiro”, novo álbum do coletivo Rua das Pretas, projeto que sintetiza essa experiência entre margens do Atlântico. O grupo lançou o disco esta semana no L’Ermitage, em Paris, e chega ao Brasil para uma apresentação no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio. O disco reúne músicos do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde em uma leitura contemporânea desse território comum: plural, miscigenado e sem hierarquias impostas. Gravado na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer em Maricá (RJ), o álbum propõe um encontro orgânico entre linguagens musicais. Samba carioca, fado português, morna cabo‑verdiana, referências à capoeira, aos ijexás e afoxés se cruzam sem a pretensão de uma “fusão” planejada. Segundo Aderne, essa conversa aconteceu de forma natural, como sempre ocorreu na música brasileira. “Assim como ninguém sabe exatamente por que a música brasileira chega à capoeira, a um ponto de candomblé ou a um frevo. Quando a gente é submetido a um campo novo de conhecimento, aquilo vira um sotaque orgânico.” Essa forma de criar nasce da própria história da Rua das Pretas, coletivo fundado há cerca de 15 anos, em Lisboa, a partir de encontros musicais realizados na casa de Aderne. Inspirados nos saraus cariocas da rua Nascimento Silva, onde morou Tom Jobim, esses encontros reuniam músicos de trajetórias diversas e ampliaram o contato do artista com a África que também fala português – ainda que ele rejeite o termo “lusofonia”. “É uma palavra desequilibrada. Prefiro pensar que essas matrizes nos pertencem a todos: portugueses, brasileiros, africanos. Isso me ajudou a entender melhor como se deu a nossa construção musical no Brasil.” Com o tempo, essas reuniões informais se transformaram em um espaço constante de troca e criação, que deu identidade à Rua das Pretas como projeto musical e político, mais interessado na convivência entre histórias do que em categorias formais. Darcy Ribeiro como chão simbólico Embora o conceito do álbum venha sendo tecido há anos, especialmente na parceria com Moacir Luz, com quem Aderne compõe há cerca de cinco anos, a gravação em Maricá trouxe uma dimensão simbólica decisiva. A relação com Darcy Ribeiro também atravessa a vida pessoal do músico: sua mãe trabalhou com o antropólogo na Universidade de Brasília, no projeto que deu origem aos CIEPs. “Gravar na casa do Darcy foi um encontro quase espiritual. A oportunidade de montar um estúdio dentro do museu.  A gente estava, sem saber, construindo a trilha sonora daquele livro, O Povo Brasileiro, que foi tão estrutural para mim.” O disco conta ainda com arranjos escritos por Kiko Horta, um dos criadores do Cordão do Boitatá, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Aderne descreve esse encontro como a junção de uma “orquestra humana” – músicos do morro, da cidade e da África – com uma escrita musical que evoca nomes como Tom Jobim, Moacir Luz e outros mestres. “Foi como uma lavagem das caravelas. Como se a gente tivesse chegado a Maricá numa caravela diferente, dessa vez com músicos de três continentes.” Vozes femininas e travessias Entre as vozes femininas do álbum estão a cantora Zulu, da Ilha da Boa Vista, em Cabo Verde; a fadista portuguesa Ana Margarida Prado; e a flautista Letícia Malvares, brasileira radicada em Madri. Para Aderne, o impacto da gravação naquele espaço histórico foi profundo, especialmente para as intérpretes africana e portuguesa. “Cabo Verde é quase uma clave de sol no meio do oceano, entre Lisboa e o Rio. Para a Zulu, estar ali foi muito simbólico. E a Ana Margarida ficou tocada ao lembrar daquela narrativa das lavadeiras portuguesas que, no início do século 20, cantavam fados na Fonte da Saudade, na Lagoa, com saudade da terrinha.” Essas presenças femininas ajudam a ampliar o alcance emocional e histórico do álbum, conectando diferentes tempos e deslocamentos atlânticos. Nilson Dourado, parceiro de Aderne na Rua das Pretas há dez anos – “um paulistano baiano, radicado em Sintra, multi-instrumentista, cantor, compositor, pai de santo“ –, completou o mutirão.   O filme como extensão do disco “Povo Brasileiro – Rua das Pretas” ganha ainda uma dimensão visual com um curta‑metragem filmado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, dirigido pelo próprio Aderne, com roteiro do escritor e jornalista cabo‑verdiano Jorge Araújo. O projeto não nasceu como documentário, mas como um registro do processo. Foi durante as filmagens em Maricá que a narrativa audiovisual se impôs. “Quando subi um drone em frente à casa do Darcy, tive a sensação de que aquela era a primeira imagem que os portugueses tiveram ao chegar ali. Maricá é território Tupinambá. Aquilo me tocou profundamente.” A partir dali, o filme passou a assumir outra ambição: não explicar a história, mas navegar por ela. Imagens, memórias e deslocamentos se articulam como uma espécie de vestimenta do álbum. “O filme acaba sendo o figurino do disco. Mesmo falando de encontros forçados, de um Atlântico que uniu e esmagou, existe uma doçura na narrativa. E isso é extremamente importante agora. Ao invés de a gente se separar e buscar as diferenças, a gente deve sentar com propriedade nesse patrimônio que é nosso.” Um patrimônio comum Para Pierre Aderne, o disco e o filme propõem um gesto de reconciliação com esse patrimônio compartilhado, em vez de reforçar separações nacionais ou identitárias. “A música de língua portuguesa é uma das mais ricas do planeta por conta desses encontros. A gente passou tempo demais tentando separar o que é brasileiro, português ou africano. Isso é impossível – e ainda bem.” Em “Povo Brasileiro”, Aderne não busca respostas definitivas sobre origem ou pertencimento. Prefere celebrar o caminho comum, feito de travessias, sotaques e sobreposições. Como ele resume, ao lembrar de povos que partiram do mesmo ponto e tomaram rumos distintos, mas conectados: “Por mais que a gente não saiba exatamente de onde veio, veio do mesmo lugar”.

    7 min
  7. MAY 11

    Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França

    Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil”, da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L’Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul. Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado. Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende. Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje. RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente? Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung. A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados. RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou? O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas. Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil. RFI – Você foi a única jornalista brasileira a entrevistar longamente Paul Aussaresses, um dos principais teóricos e executores dessa doutrina, já no fim da vida. Como surgiu essa oportunidade e qual foi o peso desse testemunho para o livro? A primeira entrevista longa com ele foi publicada em 2008, na Folha de S.Paulo. Naquele momento, perguntei se estava disposto a continuar a dar entrevistas para um livro sobre a ditadura brasileira, a Guerra da Argélia e a influência da escola francesa na América do Sul. Ele aceitou. Fui várias vezes à Alsácia para entrevistá‑lo. Ele assinou uma autorização para transformar aquelas entrevistas em livro e nunca pediu para reler ou controlar nada do que eu escreveria. O testemunho dele foi central para compreender como a tortura se tornou uma política de Estado institucionalizada. RFI – E ele falava sem arrependimento. Pelo contrário, defendia o que fez. Exatamente. Ele assumia tudo, inclusive a tortura, e dizia que tudo foi feito pela França. Mesmo reconhecendo que todo aquele massacre foi inútil, porque a Argélia se tornou independente, não demonstrava nenhum arrependimento. Ele queria deixar registrada a versão dele dos fatos. RFI – Seu livro saiu no Brasil em 2016, foi traduzido e publicado na Argélia antes de chegar à França. O que explica essa demora francesa? Em um primeiro momento, apresentei o livro a dois ou três editores que me disseram que o público francês não tinha interesse em reabrir a ferida da Guerra da Argélia. Mas a França avançou muito nesse debate. Em 2018, o presidente Emmanuel Macron reconheceu, em entrevista a um jornalista argelino, que a colonização foi um crime contra a humanidade. Reconheceu também que a tortura, a morte e o desaparecimento do professor de matemática Maurice Audin, de 24 anos, na Argélia, foram crimes de Estado. Em setembro de 2018, Macron pediu perdão à viúva de Audin. Foi um ato de grande coragem política, uma evolução formidável na maneira como a França passou a olhar para o seu passado colonial. Macron teve a coragem que François Hollande não teve, nem Nicolas Sarkozy, nem mesmo François Mitterrand [ex‑presidentes franceses]. Os historiadores cobram isso: que a França encare o seu passado colonial com coragem e faça uma revisão histórica, reconhecendo que esse passado é uma vergonha, uma mancha na história francesa. RFI – Seu livro é mais um tijolo na construção dessa consciência e também permite aos franceses saber o que aconteceu durante a ditadura brasileira. O que mais me surpreendeu foi que os franceses mantiveram na capa do livro o mesmo título e subtítulo da edição brasileira, o que é bastante forte: “Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado”. É um ato de coragem da editora L’Harmattan. RFI – No Brasil de hoje, em ano eleitoral, o papel político dos militares voltou ao centro do debate. Que riscos essas histórias não resolvidas ainda representam para a democracia? A anistia perdoou crimes e criminosos, e isso nunca foi revisto. Isso faz com que os militares queiram sempre voltar a comandar ou a dar as cartas na história do Brasil, o que é inaceitável. Tivemos uma tentativa de golpe em 2022 e já se fala novamente em anistia. Ao mesmo tempo, há uma evolução na sociedade brasileira. Cresce a compreensão de que a interferência militar no poder civil é inaceitável.

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  8. MAY 11

    Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral

    A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem “Elefantes na Névoa”, selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo. No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com “O Riso e a Faca”, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, “O Riso e a Faca” inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro. Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: “É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente”, afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético. É nesse contexto que se insere “Elefantes na Névoa”, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. O filme é uma coprodução de Tatiana Leite, pela Bubbles Project, e de Leonardo Mecchi, pela Enquadramento Produções, em parceria com produtoras do Nepal, Alemanha, França e Noruega. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. No Brasil, o longa será distribuído pela Imovision. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas. A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos e sociais, além dos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. “Elefantes na Névoa” marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas‑metragens, após uma trajetória que inclui dois curtas e a escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais. “O Riso e a Faca”: chegada ao Brasil Enquanto “Elefantes na Névoa” se prepara para sua première mundial, “O Riso e a Faca” ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo. A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens. Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. “Na verdade, é um filme que te arrebata”, observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, “essas três horas e meia passam totalmente fluidas”, acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso. Produzir entre países, culturas e modos de fazer Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. “É tão desafiador quanto genial”, resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada país participante. Festivais como Cannes, Berlim, Roterdã e Locarno surgem, nesse percurso, como espaços estratégicos de encontro, onde equipes dispersas ao longo do ano conseguem se reunir para discutir projetos em andamento e definir caminhos comuns. Para a produtora, esse trabalho coletivo, muitas vezes comparável a um grande quebra‑cabeça, é também o que dá densidade humana e artística aos filmes. Ao olhar para o cinema brasileiro contemporâneo, Tatiana reconhece avanços importantes na democratização e na regionalização da produção, com o surgimento de novos realizadores em distintas regiões do país. Ao mesmo tempo, aponta as dificuldades persistentes no financiamento de longas‑metragens. Ainda assim, segue apostando em projetos que, segundo ela, tenham uma contribuição singular para o cinema. “Busco filmes que não sejam apenas vistos e esquecidos, mas que permaneçam com as pessoas”, afirma. Novos filmes O horizonte da Bubbles Project permanece marcado pela diversidade de territórios e pela aposta em autores singulares. Entre os projetos em desenvolvimento, Tatiana Leite prepara uma produção inicialmente portuguesa, baseada em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, em parceria com a brasileira Matizar Filmes e coproduções com França, Itália e Holanda. Dirigido por Miguel Gomes, o filme será rodado em Canudos, cenário central da obra. A produtora também está envolvida em um novo longa do cineasta argentino Benjamín Naishtat, diretor de “Puan”, que será filmado em Buenos Aires, em coprodução entre Brasil, Argentina e França. Completam a lista um primeiro longa‑metragem venezuelano, “Meninos Banhando‑se no Lago”, ambientado na região de Maracaibo e coproduzido com Brasil, França, Alemanha e Chile, além de projetos documentais híbridos, como “Debaixo do Embondeiro”, da cineasta pernambucana Valentina Homem, com filmagens em Moçambique, e um novo filme de Jean da Costa, também em regime de coprodução entre Brasil e França.

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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.

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