Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

  1. 20h ago

    Um mês depois dos terremotos, EUA e Israel ampliam presença na Venezuela

    A atuação de militares dos dois países em La Guaira expõe a reconfiguração das alianças internacionais do chavismo após a queda de Nicolás Maduro. A tragédia venezuelana completa um mês nesta sexta-feira (24). Pedro Pannunzio, correspondente da RFI em Caracas Até o momento, os dados oficiais, divulgados diariamente pelo governo de Delcy Rodríguez, indicam que 5.400 pessoas morreram. A tendência é que esses números subam nas próximas semanas, já que os trabalhos agora estão centrados na busca pelos corpos dos sobreviventes. Desde o dia 24 de junho, quando os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 derrubaram centenas de edifícios, sobretudo no estado de La Guaira, a Venezuela recebeu quase 40 equipes internacionais de socorristas para auxiliar nas buscas por possíveis sobreviventes. Com a janela para um resgate com vida fechada, quase todas as missões voltaram aos seus países. Há, no entanto, ao menos duas equipes internacionais que permanecem em solo venezuelano – e que escancaram os novos rumos do chavismo após o sequestro de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas. Desde que La Guaira veio abaixo, militares dos Estados Unidos e de Israel trabalham lado a lado com o governo venezuelano. Parte do efetivo norte-americano está instalado no aeroporto de Maiquetía, o principal do país, localizado no epicentro da tragédia. Danificado pelos tremores, o aeroporto opera apenas voos diplomáticos e carregamentos humanitários. A operação comercial deve ser retomada em agosto, mas ainda não há uma data prevista. Do lado de fora do terminal, a devastação continua a ditar o ritmo da cidade. Enormes blocos de concreto permanecem empilhados onde antes havia edifícios, barracas improvisadas abrigam famílias desalojadas e milhares de motos cruzam, todos os dias, as ruas congestionadas por caminhões e maquinário pesado, para transportar suprimentos aos voluntários e afetados pelos terremotos. Posicionado em frente à costa de La Guaira, outro elemento passou a fazer parte da paisagem: o porta-aviões USS San Antonio, onde está baseada outra parcela do contingente militar norte-americano. Reconfiguração de alianças A presença do navio é apenas a face mais visível do envolvimento dos Estados Unidos na resposta ao desastre. Ao todo, cerca de 2 mil militares norte-americanos estão baseados na Venezuela. "Em termos da estrutura militar, obviamente, o que se percebe é que os Estados Unidos têm o controle operacional do aparato militar venezuelano, não apenas em relação aos equipamentos, mas também à sua disposição e estratégia", disse Alejandro Velasco, venezuelano e professor de história latino-americana na Universidade de Nova York. A presença de militares israelenses é outro indício da reconfiguração das alianças internacionais dos herdeiros de Hugo Chávez. Durante o governo do ex-presidente, Caracas rompeu relações diplomáticas com Israel, em 2009, na esteira dos ataques contra a Palestina. Hoje, militares israelenses circulam livremente pelo território venezuelano, apesar de os dois países ainda não terem restabelecido formalmente suas relações diplomáticas. “Organizamos um painel de monitoramento que permite, através de parâmetros estabelecidos a partir de big data, de grandes quantidades de dados de inteligência artificial e outras tecnologias desenvolvidas em Israel, priorizar onde começar primeiro, o que reparar e o que deve ser demolido”, disse Roni Kaplan, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, durante uma entrevista ao canal venezuelano Venevisión, ao falar sobre as ações realizadas em conjunto com o governo Delcy Rodríguez. Nessa semana, a delegação israelense foi recebida pela presidente interina. Em suas redes sociais, Kaplan publicou fotos do encontro e disse que “o chefe da delegação israelense, o brigadeiro-general Yosef (Yossi) Pinto, apresentou o trabalho conjunto realizado com nossos parceiros venezuelanos, tendo em vista o início da etapa de reconstrução das áreas afetadas pelos terremotos devastadores”. Para Velasco, a aproximação com antigos adversários escancara uma característica do chavismo: sua capacidade de adaptação. “O chavismo é, de certa forma, infinitamente adaptável. É profundamente camaleônico. Acho que isso é algo que muita gente não percebe, não entende ou talvez simplesmente não queira compreender.” Voluntários lideram as buscas Enquanto as delegações estrangeiras redesenham o tabuleiro político da Venezuela, as buscas continuam em La Guaira. Um mês depois dos tremores, familiares das vítimas ainda procuram pelos corpos que permanecem sob os escombros. Assim como nas primeiras horas após os desabamentos, a principal força que mantém os trabalhos de resgate é formada por voluntários. “Nós estamos aqui para apoiar, mas quem está comandando as buscas são os voluntários”, confessou à RFI, nesta quinta-feira, um agente da Defesa Civil venezuelana, enquanto os familiares das vítimas entravam nos buracos abertos no concreto do que era um edifício de 12 andares em busca de algum sobrevivente. Quase um mês depois da tragédia, eles ainda alimentavam a esperança de um milagre. Na noite anterior, disseram ter ouvido ruídos vindos debaixo da montanha de concreto. Equipes especializadas foram ao local e usaram aparelhos capazes de detectar sinais de vida. A possibilidade de haver sobreviventes foi descartada, para frustação dos familiares que acompanhavam as buscas sentados sob barracas improvisadas, numa tentativa de amenizar o calor. Embora alguns ainda se apeguem à esperança de encontrar sobreviventes, a maioria já aceita que isso não acontecerá. Agora, buscam apenas recuperar os corpos dos parentes desaparecidos para, enfim, iniciar o processo de luto.

  2. 1d ago

    Debate na sede da ONU em Nova York abre nova etapa da sucessão de António Guterres

    A ONU realiza, nesta quinta-feira (23), um debate público com os candidatos ao cargo de secretário-geral na sede das Nações Unidas, em Nova York. O encontro terá transmissão ao vivo pela UN Web TV e pela Bloomberg. Ao todo, seis candidatos disputam a sucessão de António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro de 2026. Após uma década à frente das Nações Unidas, Guterres deixa o cargo ao fim do último mandato permitido. Os seis concorrentes à sucessão apresentam, nesta semana, suas propostas em debates públicos promovidos pela oeganização. O próximo secretário-geral assumirá em um dos momentos mais delicados da história recente da ONU. Além de lidar com um número crescente de conflitos internacionais e com sucessivas violações do direito internacional, terá de enfrentar uma grave crise financeira, agravada pela redução das contribuições de grandes doadores e por cerca de US$ 4 bilhões, aproximadamente R$ 20 bilhões, em pagamentos atrasados dos Estados Unidos. A escolha começa no Conselho de Segurança, onde os cinco membros permanentes – Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido – têm poder de veto. Apenas o candidato aprovado pelo Conselho segue para a votação final na Assembleia Geral da ONU, que faz a nomeação oficial. América Latina concentra metade dos candidatos A América Latina é a região com maior representação na disputa, com três dos seis candidatos: a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o argentino Rafael Grossi, e a costa-riquenha Rebeca Grynspan, atual secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Bachelet tenta se tornar a primeira mulher a comandar a ONU e defende uma organização mais firme na defesa dos direitos humanos. Grossi aposta na experiência acumulada à frente da agência nuclear da ONU para lidar com crises internacionais e propõe uma reforma administrativa para tornar a organização mais eficiente. Já Grynspan defende uma ONU mais ousada e um Conselho de Segurança mais representativo, com maior participação de países da África e da América Latina. Essa ampla presença latino-americana reforça o peso político da região na disputa, embora a decisão final dependa, sobretudo, do aval dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que têm poder de veto. Quem são os demais candidatos Além dos representantes latino-americanos, a disputa conta com outros dois nomes de destaque. Um deles é o ex-presidente do Senegal Macky Sall, que governou o país entre 2012 e 2024 e aposta na experiência política e na defesa de uma maior presença africana nas instâncias de decisão global. A outra candidata é a diplomata Carolyn Rodrigues-Birkett, da Guiana, atual representante permanente do país na ONU. De origem indígena ameríndia, ela entrou mais recentemente na disputa e defende o fortalecimento do multilateralismo, uma ONU mais eficiente e capaz de responder aos desafios contemporâneos. Em fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o Brasil apoiaria a candidatura de Michelle Bachelet, assim como o México. Processo de escolha ganha mais transparência A principal mudança em relação às eleições anteriores é o aumento da transparência. Desde 2016, a ONU passou a adotar um processo mais aberto para a escolha do secretário-geral, e as regras foram reforçadas por uma resolução aprovada no ano passado. Agora, as candidaturas são divulgadas oficialmente, junto com os currículos, as propostas de cada concorrente e informações sobre o financiamento das campanhas. Outra novidade é a realização de debates e diálogos públicos, como o desta quinta-feira, em que os candidatos apresentam suas prioridades e respondem a perguntas de representantes dos Estados-membros e da sociedade civil. Embora a decisão continue nas mãos do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral, o processo se tornou mais transparente e permite um escrutínio muito maior por parte da comunidade internacional. Quais serão os próximos passos Findada a etapa de debates públicos, o processo entra na fase de negociações diplomáticas. A escolha passa para o Conselho de Segurança, onde o candidato precisa obter pelo menos nove votos favoráveis e, principalmente, não ser vetado por nenhum dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Só depois dessa recomendação é que o nome segue para a Assembleia Geral da ONU, formada pelos 193 Estados-membros, responsável pela nomeação oficial. O mandato é de cinco anos, com possibilidade de uma recondução. A eleição deste ano também pode marcar um momento histórico. Se Michelle Bachelet ou Rebeca Grynspan forem escolhidas, a organização terá, pela primeira vez em seus 80 anos, uma mulher no comando das Nações Unidas.

  3. 2d ago

    Tarifaço de Trump atinge US$ 7,4 bi do Brasil, mas Planalto evita confronto antes da eleição

    O novo tarifaço de Donald Trump já produz efeitos sobre a economia brasileira. Desde a meia-noite desta quarta-feira (22), os Estados Unidos passaram a cobrar uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações do Brasil, atingindo cerca de US$ 7,4 bilhões em vendas externas. Enquanto setores industriais calculam perdas, o governo Lula evita movimentos bruscos, amplia programas de apoio e adia retaliações. Em ano eleitoral, Brasília aposta na cautela e na negociação. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília A tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos passaram a cobrar atinge cerca de um quinto das exportações brasileiras e não é a única sobretaxa. Outros 12,5% devem ser aplicados nos próximos dias. O Brasil é um dos países mais penalizados pelo que vem sendo chamado de "tarifaço 2.0" de Donald Trump. O governo brasileiro ainda não bateu o martelo sobre possíveis retaliações. Sem detalhes, avisou que pretende usar a Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso no ano passado. Antes, porém, quer ouvir os setores atingidos. De todo modo, a avaliação é de que pouco deve acontecer até a eleição. Pelos cálculos do governo, essa nova tarifa atinge 18% da pauta de exportações brasileiras. O percentual é menor do que aquele do ano passado (50%) e o universo de isenções é bem maior. São mais de dois mil produtos isentos. Os Estados Unidos retiraram da lista produtos que consideram que, se taxados, ficariam mais caros para o consumidor americano, como café, carne, pescados, mel e muitos outros itens, ou que poderiam prejudicar cadeias produtivas e empregos no país, como partes e peças de aviões. Trump tem eleições de meio de mandato em novembro e está preocupado porque registra seus piores índices de popularidade. Ainda assim, o tarifaço atinge o equivalente a US$ 7,4 bilhões em exportações, majoritariamente ligadas ao setor industrial, com maior valor agregado. Ainda não está claro como o governo pretende responder. O que já está certo é que o Plano Brasil Soberano, criado no ano passado para ajudar os setores atingidos pelo tarifaço de 50%, será ampliado. Além disso, o governo vai intensificar os esforços para abrir novos mercados e até reposicionar os produtos que não vão conseguir competir no mercado americano. Leia tambémTarifas dos EUA empurraram Brasil para outros parceiros comerciais, mas dependência chinesa preocupa Exportações brasileiras para a UE Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, as exportações brasileiras à União Europeia cresceram US$ 2 bilhões nos dois primeiros meses de vigência provisória do acordo com o Mercosul, com um aumento de 12,8% nas vendas ao bloco. No mesmo período, os embarques aos Estados Unidos caíram 13%. Por mais que diga que vai recorrer à Lei de Reciprocidade, ninguém no governo fala em datas precisas, ou os segmentos da economia americana que poderiam ser penalizados. A ideia é conversar antes com o setor produtivo brasileiro. Afinal, não adianta taxar do lado de lá e prejudicar o lado de cá. "Olho por olho, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos”, disse Alckmin ao final de uma reunião com parte dos setores atingidos na terça-feira. Entre as opções sobre a mesa está o que se convencionou chamar de reciprocidade cruzada. Em vez de aplicar uma ou mais tarifas sobre todas as exportações americanas, o governo poderia escolher um ou mais setores estratégicos, como já aconteceu no passado. Estariam na mira do governo os setores de patentes, propriedade intelectual e audiovisual e streaming, por exemplo. Essas são grandes indústrias americanas presentes no Brasil e que podem provocar mobilização. Foi assim quando a Organização Mundial de Comércio (OMC) permitiu uma retaliação brasileira contra os Estados Unidos no processo sobre algodão em 2018. Etapas De todo modo, o processo tem várias etapas. Isso significa que deve levar de dois a três meses para começar a andar. Ou seja, depois da eleição presidencial no Brasil. A avaliação, porém, é que os Estados Unidos também devem deixar a situação em banho-maria até lá, para saber quem sairá vencedor das urnas: Lula, com quem já sabem como as negociações acontecem, ou o pré-candidato do PL, senador Flávio Bolsonaro, que esteve recentemente em Washington e demonstrou maior disposição para ceder às demandas americanas. O momento agora é de decantação. Às vésperas da eleição, o próprio governo quer evitar movimentos bruscos para não trazer para si a responsabilidade pelo tarifaço. Pesquisas de opinião recentes indicam que a maioria da população atribui a Flávio e ao clã Bolsonaro essa responsabilidade. E não é só isso. Está claro, pelo documento divulgado pelos americanos junto com o novo tarifaço, que novas medidas podem ser adotadas caso o Brasil resolva retaliar. Ou seja, a situação pode ficar ainda pior. A tarifa de 25% foi decidida após uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o país ainda no ano passado. Há também uma tarifa adicional de 10% a 12,5%, resultante de outra investigação aberta neste ano contra 60 países, entre eles o Brasil. Os americanos acusam esses países de não terem legislação contra o uso de trabalho forçado na produção ou de não aplicarem adequadamente as leis existentes. O Brasil foi enquadrado na alíquota de 12,5%. Essas novas tarifas, por sua vez, buscam substituir as tarifas alfandegárias temporárias de 10% instituídas por Trump após a invalidação, pela Suprema Corte, das sobretaxas estabelecidas no ano passado. No fim de fevereiro, a mais alta corte dos Estados Unidos anulou boa parte das tarifas impostas por Trump, ao considerar que ele havia feito uma interpretação inconstitucional de um dispositivo legal para justificá-las.

  4. 3d ago

    Reforma eleitoral de Meloni pode reduzir peso de eleitores italianos no exterior, alerta deputado

    O sistema eleitoral dos italianos no exterior pode mudar. As alterações estão previstas no projeto de reforma eleitoral apresentado pelo governo da premiê Giorgia Meloni, a cerca de um ano das próximas eleições legislativas na Itália. A Câmara dos Deputados já aprovou o texto. A proposta segue agora para análise do Senado, onde os partidos de direita que apoiam o governo têm maioria. A oposição acusa a primeira-ministra de tentar mudar as regras do jogo para se beneficiar nas urnas. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma A reforma eleitoral prevê mudanças significativas no sistema de votação na Itália e para os cidadãos italianos no exterior. Atualmente, os italianos residentes no exterior elegem oito deputados e quatro senadores em diferentes áreas geográficas, divididas em quatro circunscrições eleitorais: Europa; América do Sul; América do Norte e Central; e uma quarta que reúne África, Ásia, Oceania e Antártida. No entanto, uma emenda aprovada pela maioria dos deputados aliados do governo prevê que essas circunscrições eleitorais sejam reduzidas de quatro para duas na Câmara dos Deputados, sendo uma para a Europa e a outra para os demais continentes. Para o Senado, a mudança é ainda mais drástica: deixa de existir a divisão regional e passa a haver um único colégio eleitoral mundial para a escolha dos senadores eleitos no exterior. Em entrevista à RFI, o deputado ítalo-brasileiro Fabio Porta, do Partido Democrático, eleito pela circunscrição da América do Sul, ressaltou que, caso a lei seja aprovada, algumas regiões podem não conseguir eleger representantes ligados às suas comunidades. Ele lembra que a chamada “lei da cidadania”, aprovada em 2025, já restringiu a transmissão da cidadania por direito de sangue ("jus sanguinis"), afetando comunidades de ítalo-descendentes no exterior, principalmente em países como o Brasil, um dos principais destinos de imigrantes italianos nos séculos XIX e XX. “Depois das restrições ao direito à cidadania, esta é mais uma lei que vai aumentar a distância entre o eleitor, o cidadão italiano que vive no exterior, e a Itália. Estamos criando com esta lei uma única circunscrição eleitoral no Senado e duas na Câmara. Isso significa que a relação do senador ou deputado com o próprio território – seja a América do Sul, a América do Norte, a Europa ou a Austrália – será mais complicada. Pela dimensão da circunscrição, o parlamentar deverá dar conta de áreas imensas, piorando a relação entre o eleitor e o eleito”, comenta Porta. Risco de fraude Segundo Porta, se a lei for confirmada no Senado, “será um retrocesso na relação com a comunidade italiana no exterior”. O deputado Porta também alerta para o risco de fraude. O voto dos italianos no exterior é feito de forma antecipada e pelos correios. “Uma campanha eleitoral com uma circunscrição deste tamanho terá um custo altíssimo, uma dificuldade enorme em atingir um eleitor que fica em quatro ou cinco continentes, com um perigo muito grande. No meu discurso na Câmara, falei que o perigo de fraudes eleitorais vai aumentar, além do perigo de infiltrações de poderes ilícitos numa campanha democrática. Portanto, existe a possibilidade de colocar mais uma vez em risco voto do eleitor italiano no exterior, prejudicando também a nossa imagem”, afirma o político ítalo-brasileiro. Em janeiro de 2022, Fabio Porta ganhou uma vaga no Senado por causa da cassação do mandato do senador ítalo-argentino Adriano Cario, acusado de fraude eleitoral. Eleito em 2018 pela circunscrição da América do Sul pelo partido União Sul-Americana de Emigrantes Italianos (USEI), Cario foi destituído do cargo em dezembro de 2021 devido a uma adulteração comprovada. Peritos grafotécnicos da Procuradoria de Roma e do Senado constataram que milhares de cédulas na Argentina apresentavam votos preenchidos pela mesma pessoa, evidenciando padrões de escrita idênticos em um grande número de cédulas. Outras alterações na lei eleitoral Pelas regras atuais, 63% dos deputados e senadores são eleitos pelo sistema proporcional, no qual recebem um número de cadeiras de acordo com o percentual de votos obtido por cada partido ou coalizão. Enquanto os 37% restantes são escolhidos em uma espécie de voto distrital, com a divisão da Itália em diversos colégios majoritários, nos quais é eleito apenas o candidato mais votado em cada um dos colégios. A principal mudança prevista é o fim do sistema majoritário. Com isso, 100% dos assentos da Câmara e do Senado passariam a ser distribuídas pelo sistema proporcional, com o chamado “prêmio de governabilidade”. Pela proposta, a coalizão que alcançar pelo menos 42% dos votos válidos receberá automaticamente 70 assentos na Câmara dos Deputados e 35 no Senado. Próximas etapas O texto segue agora para o Senado, onde a coalizão de direita e extrema direita que sustenta o governo de Giorgia Meloni conta com maioria. Dos 200 senadores, 120 pertencem a partidos que apoiam o Executivo. A aprovação final da reforma está prevista para ocorrer a partir de setembro de 2026. Ainda não há uma data específica para a votação, pois o calendário oficial dos trabalhos legislativos não foi formalizado. Caso o Senado aprove emendas ao texto, a proposta terá de retornar à Câmara dos Deputados para nova análise. A tramitação da reforma eleitoral ocorre poucos meses após um revés político para Giorgia Meloni. Em março de 2026, os italianos rejeitaram em referendo uma reforma judicial patrocinada pelo governo, com cerca de 54% dos votos contrários. Considerada uma das principais bandeiras do Executivo, a derrota expôs os limites da maioria governista perante o eleitorado e fortaleceu a oposição às vésperas do ciclo político que culminará nas eleições legislativas de 2027.

  5. 4d ago

    Mundial de 2026 bate recordes e tem final mais assistida da história

    Entre recordes de público e audiência, expansão do torneio, protagonismo político de Donald Trump e restrições migratórias, o Mundial de 2026 deixa um legado que vai muito além dos gramados.  Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York A maior e mais assistida Copa do Mundo da história chegou ao fim neste domingo (19), coroando a Espanha como campeã após a vitória sobre a Argentina no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A decisão também entrou para a história por contar, pela primeira vez em um Mundial, com um show musical no intervalo, em um formato inspirado no Super Bowl. A Copa de 2026 já havia começado marcada por novidades. Foi a primeira edição disputada em três países – Canadá, Estados Unidos e México – e também a primeira com a participação de 48 seleções, 16 a mais do que no formato utilizado entre 1998 e 2022. Ao longo de mais de um mês de competição, o torneio bateu recordes de público, audiência e engajamento digital. Mas também foi marcado por polêmicas políticas, dificuldades migratórias e questionamentos sobre a crescente proximidade entre a Fifa e o governo do presidente americano, Donald Trump. Calcula-se que a final entre Espanha e Argentina tenha sido acompanhada por cerca de 1,8 bilhão de pessoas em todo o mundo, somando as transmissões pela televisão e pelas plataformas de streaming. Caso a projeção seja confirmada, esta terá sido a final mais assistida da história das Copas, superando o alcance de aproximadamente 1,5 bilhão de espectadores registrado na decisão do Catar, em 2022. Dentro do MetLife Stadium, os 80.663 lugares foram ocupados. A arena recebeu quase 484 mil torcedores ao longo de seis partidas e terminou o torneio com o maior público acumulado entre todas as sedes. A Copa de 2026 também estabeleceu um novo recorde de público presencial. Mais de 6,5 milhões de torcedores passaram pelos estádios dos três países, tornando esta a edição mais assistida presencialmente da história. A taxa média de ocupação das arenas foi de 99,7%. Nas plataformas digitais, a Fifa também registrou números inéditos. Mais de 20 bilhões de visualizações de vídeos foram contabilizadas nas redes sociais da entidade durante a competição. A mobilização foi além dos estádios. As Fifa Fan Festivals espalhadas pelas cidades-sede receberam mais de 7,7 milhões de visitas, mostrando que o torneio conseguiu atrair não apenas turistas estrangeiros, mas também moradores dos Estados Unidos e do Canadá, países onde o futebol não ocupa tradicionalmente o mesmo espaço que em outras partes do mundo. Impacto econômico Em Nova York, bares e restaurantes registraram forte aumento no movimento durante os jogos, com casas lotadas para acompanhar as partidas. O impacto econômico, no entanto, não foi uniforme. O setor hoteleiro teve um desempenho bem abaixo das expectativas. A projeção inicial era de que a Copa gerasse cerca de US$ 300 milhões em receitas adicionais para os hotéis da cidade. A estimativa mais recente indica que esse aumento deve ficar em torno de US$ 150 milhões, metade do previsto. Entre todas as sedes, o Estádio Cidade do México teve a maior média de público por partida. Foram aproximadamente 80,8 mil torcedores por jogo, com um total de mais de 404 mil espectadores em cinco confrontos. O sucesso comercial e de público fortaleceu a avaliação positiva da Fifa sobre o novo formato da competição. A edição de 2026 foi a primeira com 48 seleções e 104 partidas, mas a entidade já discute uma expansão ainda maior. A Fifa analisa a possibilidade de elevar o número de participantes para 64 seleções a partir de 2030. A mudança aumentaria o total de partidas para 128 e permitiria que quase um terço das 211 federações filiadas à entidade disputasse o Mundial. A Copa de 2030 já terá uma configuração inédita. Espanha, Portugal e Marrocos serão as sedes principais, enquanto Uruguai, Argentina e Paraguai receberão partidas comemorativas do centenário da competição. Caso a expansão seja aprovada, será o maior torneio já organizado pela Fifa. A presença de Trump O presidente Donald Trump também acabou se tornando um dos protagonistas da Copa, ainda que a final tenha sido a primeira partida do torneio a que ele assistiu presencialmente. Trump esteve no MetLife Stadium ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, participou da cerimônia de premiação e aproveitou o evento para reforçar a parceria entre a Casa Branca e a entidade responsável pelo futebol mundial. Ao longo da competição, o presidente americano já havia protagonizado uma das principais polêmicas do torneio. Trump revelou que telefonou para Infantino para pedir a revisão da suspensão do atacante americano Folarin Balogun, expulso durante a partida entre Estados Unidos e Bósnia. Dias depois, a Fifa reverteu a punição, permitindo que o jogador voltasse a campo. A decisão, considerada inédita, provocou críticas de dirigentes e especialistas e levantou questionamentos sobre uma possível interferência política nas regras esportivas. A controvérsia se estendeu até a cerimônia de encerramento. Depois de entregar a taça ao capitão espanhol ao lado de Infantino, Trump permaneceu no palco durante a celebração da equipe campeã. Mesmo após o presidente da Fifa deixar o local e jogadores indicarem que aquele seria o momento da foto exclusiva da seleção, Trump atravessou o palco e se posicionou ao lado dos atletas espanhóis. A cena repercutiu nas redes sociais e na imprensa internacional. A relação próxima entre Trump e Infantino ficou evidente durante todo o Mundial. O presidente da Fifa agradeceu publicamente o apoio da Casa Branca e afirmou que o sucesso comercial e logístico do torneio não teria sido o mesmo sem a colaboração do governo americano. Infantino também entregou a Trump um simbólico “Prêmio da Paz”, em reconhecimento ao que classificou como iniciativas diplomáticas promovidas pelo presidente. A homenagem reforçou os questionamentos sobre a proximidade entre a direção da entidade e o presidente dos EUA. Política migratória deixa marcas Se dentro dos estádios não houve operações do ICE, como chegou a ser especulado antes do início do Mundial, as rígidas políticas migratórias do governo Trump acabaram deixando marcas nos bastidores da competição. O caso mais emblemático foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escalado pela Fifa para atuar no torneio, mas impedido de entrar nos Estados Unidos ao desembarcar em Miami. As autoridades americanas alegaram questões de segurança e o árbitro acabou excluído da Copa antes mesmo do início dos jogos. As restrições também afetaram diretamente a seleção do Irã. Sem autorização para permanecer em território americano durante a fase de grupos, a equipe foi obrigada a estabelecer sua base em Tijuana, no México, e cruzar a fronteira antes de cada partida disputada nos Estados Unidos. A logística foi duramente criticada pela comissão técnica e pelos jogadores, que denunciaram desgaste físico, dificuldades de preparação e tratamento desigual em relação às demais seleções. O técnico Amir Ghalenoei chegou a classificar o Irã como "a equipe mais oprimida desta Copa", enquanto o capitão Mehdi Taremi acusou a Fifa de não garantir condições equivalentes às oferecidas aos outros participantes.

  6. Jul 17

    Excesso de confiança ao volante é maior em países com estradas mais perigosas, como Brasil, alerta estudo

    O excesso de confiança dos motoristas pode ser um perigo nas estradas. Um novo estudo global realizado pela Economist Enterprise, com o apoio da fornecedora italiana de tecnologia de freios Brembo, revela uma discrepância entre a percepção de segurança dos motoristas e a avaliação dos especialistas em segurança viária. O Brasil está entre os países com maior risco de acidentes no trânsito. Gina Marques, correspondente da RFI em Roma Enquanto nove em cada dez motoristas afirmam se sentir seguros ao volante, menos da metade dos especialistas em segurança viária compartilha essa percepção.  O estudo intitulado 'Safety in Motion: Driving Trust in Modern Mobility' (Segurança em Movimento: promovendo confiança na mobilidade moderna, em português), revela uma diferença de 45 pontos percentuais entre a percepção dos motoristas e a avaliação dos profissionais de transporte responsáveis por projetar, desenvolver e operar sistemas de mobilidade. Para os especialistas, esta “lacuna de confiança” significativa pode comprometer os esforços para reduzir as vítimas de acidentes de trânsito. Estima-se que anualmente 1,2 milhão de pessoas morrem nas estradas do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre crianças e jovens de 5 a 29 anos. Para elaborar o relatório foram ouvidas mais de 6.100 pessoas, entre elas mais de mil especialistas do setor dos transportes, no Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos – que, juntos, respondem por cerca de 75% da produção global de veículos. Jean Todt, enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas para a segurança rodoviária, alertou que o excesso de confiança pode se tornar um risco à segurança em si, se incentivar os motoristas a assumirem riscos desnecessários ou a se tornarem menos atentos ao volante. “Muitos motoristas não entendem as capacidades dos sistemas de direção autônoma. Não devemos presumir que a tecnologia possa substituir nossa atenção”, disse. Todt, que é ex-executivo da Peugeot e da Ferrari, também atuou como presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), durante a coletiva de imprensa em 8 de julho da qual a RFI participou. Desafios de segurança Os autores do estudo afirmam que os desafios de segurança estão mudando à medida que os veículos se tornam cada vez mais avançados e automatizados. Falhas mecânicas não são mais vistas como a principal ameaça. Apenas 3% dos profissionais do setor identificaram defeitos em veículos como uma das principais causas de acidentes. Em vez disso, 30% afirmam que o uso inadequado ou a má compreensão dos sistemas de assistência ao motorista representam a principal causa dos problemas de segurança na mobilidade. Enquanto 24% apontam os recursos que desviam a atenção dos condutores como o risco mais relevante. Os próprios usuários também classificam seu comportamento ao volante como a principal preocupação. Influência da publicidade Quase dois terços dos entrevistados do setor disseram que a publicidade tende a exagerar as capacidades dos sistemas avançados de assistência ao condutor (ADAS), podendo assim influenciar a percepção da realidade da segurança que os veículos oferecem. Muitos acreditam que as mensagens promocionais podem dar aos motoristas a impressão de que menos atenção é necessária. Segundo os especialistas, a forma como as tecnologias de assistência ao condutor são divulgadas também pode contribuir para o problema: 65% afirmam que a publicidade superestima as capacidades dos sistemas; 62% afirmam que ela transmite a impressão de que o motorista precisa prestar menos atenção e 60% consideram que os benefícios são enfatizados, enquanto as limitações recebem pouca visibilidade. Brasil: motoristas confiantes em estradas perigosas A pesquisa aborda vários fatores de acordo com o padrão de confiança encontrado. Segundo o relatório, os motoristas brasileiros, chineses e indianos declaram se sentir mais seguros comparados aos condutores de outros países. Paradoxalmente, a confiança dos motoristas aumenta nos países onde as estradas são mais perigosas, demonstrando que sua percepção é menos influenciada pela tecnologia do que por outros fatores, como a cultura local.    Segundo Pratima Singh, responsável pela área de Políticas Públicas e Insights da Economist Enterprise e chefe da pesquisa, nos países emergentes a confiança dos motoristas aumentou rapidamente acompanhando a modernização. “No Brasil, na China e na Índia, a confiança do público cresceu acompanhando um processo acelerado e visível de modernização – com novas infraestruturas, veículos mais inteligentes e tecnologias mais avançadas. Mas essa confiança evoluiu mais rapidamente do que os indicadores reais de segurança. Quando as pessoas acreditam que os sistemas são mais seguros do que realmente são, tendem a não manter o nível de atenção necessário para preservar sua segurança nas vias.” disse Singh. Diferentes perfis da população A pesquisa também detalha a percepção de seguridade de diferentes grupos, de acordo com a renda e faixa etária. A confiança na segurança da mobilidade não é uniforme entre os diferentes perfis da população. Motoristas de baixa renda têm quase o dobro de probabilidade de relatar baixa ou moderada confiança na segurança de seus deslocamentos diários em comparação com pessoas de renda média e alta. Entre as gerações, os Millennials (nascidos entre 1980 e 1996) são os mais confiantes (94% relatam alto nível de confiança), enquanto a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) e os Baby Boomers (entre 1945 e 1964) demonstram maior ceticismo – 12% e 16%, respectivamente, afirmam ter baixa ou moderada confiança em sua segurança no dia a dia. Público quer medidas mais rigorosas de segurança Apesar do elevado nível de confiança, 88% dos motoristas apoiam a adoção de medidas mais rigorosas de segurança viária – incluindo a redução dos limites de velocidade e uma maior fiscalização – e afirmam que estariam dispostos a pagar mais por sistemas de transporte mais seguros. Ainda assim, 68% dos especialistas apontam a falta de coordenação entre reguladores e indústria como o principal obstáculo para o avanço da segurança. “Reduzir essa lacuna de confiança exige uma ação conjunta de todo o ecossistema da mobilidade”, afirmou Matteo Tiraboschi, Presidente Executivo do Conselho de Administração da Brembo. “A indústria precisa continuar inovando de forma responsável, enquanto os formuladores de políticas públicas devem criar marcos regulatórios eficazes. Juntos, também precisam ajudar as pessoas a compreender tanto as capacidades quanto as limitações das novas tecnologias”, concluiu Tiraboschi. Leia tambémPor falta de fiscalização, Paris é a capital dos motoristas embriagados

  7. Jul 16

    Itália torna obrigatório o seguro contra terceiros para usuários de patinetes elétricos

    A partir desta quinta-feira (16), todo patinete elétrico na Itália precisa ter um seguro de responsabilidade civil que, em caso de acidente, cobre danos físicos e materiais causados a terceiros. Segundo a associação de consumidores Assoutenti, o custo da apólice deve ficar entre € 35 e € 55 por ano. A multa para quem descumprir a exigência pode variar de € 100 a € 400. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A regra vale tanto para os patinetes particulares quanto para os compartilhados, alugados por aplicativo. Neste último caso, as empresas de aluguel precisam contratar o seguro.  Essa é a mais recente das mudanças previstas pela reforma do Código de Trânsito italiano, aprovada em 2024. As demais regras já estavam em vigor, como o uso obrigatório de capacete, a idade mínima de 14 anos para conduzir o veículo, a definição de limites de velocidade e a proibição de levar passageiros ou circular pelas calçadas. Outra mudança importante, implementada em 16 de maio, é a obrigatoriedade de emplacar todos os veículos. A placa custa € 35 e deve ser solicitada pelo portal do governo. Até agora, 133.135 patinetes já foram registrados no país, sendo 33.316 em Milão e 27.900 em Roma. A Assoutenti estima, no entanto, que existam cerca de 1 milhão de patinetes particulares na Itália. Isso significa que apenas um em cada dez já possui placa. Número de acidentes aumentou nos últimos anos Os patinetes elétricos começaram a se popularizar na Itália em 2018 e, nos anos seguintes, ganharam espaço como uma alternativa mais barata e sustentável para os deslocamentos urbanos. Segundo o Observatório ASAPS, desde 2020, 97 pessoas morreram na Itália em acidentes envolvendo patinetes elétricos. Em 2020, foi registrada uma vítima fatal. Já em 2024, ano com o maior número de mortes, foram 23. Em 2026, foram registrados seis casos. Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística italiano (Istat) revelam que, em 2024, 3.751 pessoas, entre condutores e passageiros, ficaram feridas em acidentes com patinetes. A maioria dos incidentes (78%) envolve quedas sem a participação de outros veículos, de acordo com um estudo conduzido pelos Ortopedistas e Traumatologistas Hospitalares da Itália (Otodi), focado em acidentes no centro histórico de Roma entre 2018 e 2024. Entre as principais causas estão buracos nas ruas e distrações provocadas pelo uso do GPS no celular. A expectativa do governo é que as novas regras, somadas ao reforço da fiscalização, ajudem a reduzir o número de ocorrências. Em Turim, a quarta maior cidade do país, as autoridades divulgaram um primeiro balanço da fiscalização desde a entrada em vigor da exigência das placas, em maio. Em dois meses, foram aplicadas 998 multas. A maior parte por estacionamento irregular, mas também 166 por falta de capacete, 29 por transporte de passageiros e 80 por ausência de placa. Países europeus endurecem regras A preocupação com a segurança dos patinetes elétricos não é exclusividade da Itália. Em vários países europeus, o tema também tem levado à adoção de regras mais rígidas, especialmente para os patinetes alugados por aplicativo. Em Paris, o serviço de patinetes elétricas de aluguel foi proibido em 2023. Em Madri, em 2024. Em janeiro deste ano, Praga também decidiu retirá-los das ruas, e Bruxelas já anunciou que fará o mesmo a partir de 2027. No entanto, como esses veículos ainda circulam em grande escala em muitas cidades europeias, os governos buscam outras formas de regulamentação. Na Alemanha, por exemplo, está em discussão um projeto que prevê responsabilizar as empresas de compartilhamento em casos de acidentes e pedidos de indenização. No mês passado, Bélgica, Holanda e Luxemburgo pediram à União Europeia a criação de regras comuns para o setor. A tendência também é de regras mais rígidas para os patinetes particulares. Na Alemanha, o seguro de responsabilidade civil já é obrigatório. Já no Reino Unido, os patinetes particulares não podem circular em vias públicas, apenas em propriedades privadas.

  8. Jul 15

    Argentina x Inglaterra: mais do que futebol, um confronto de simbologia histórica e geopolítica

    Quando Argentina e Inglaterra se enfrentarem pela segunda partida da semifinal do Mundial de Futebol de 2026, estará em jogo bem mais do que futebol. Para os argentinos, mais do que uma rivalidade, há uma inimizade baseada em questões de geopolítica e de história que transcende o esporte e que remete diretamente à Guerra das Malvinas, de 1982, e ao forte sentimento de nacionalismo. Enquanto as autoridades tentam manter a disputa apenas no campo esportivo, milhões de torcedores veem o orgulho e o legado heróico de Maradona em questão.   Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Com o Brasil, os argentinos têm uma rivalidade limitada ao folclore do futebol, mas com os ingleses o sentimento beira o ódio. A inimizade da Argentina com a Inglaterra remonta às invasões inglesas de 1806 e 1807 que uniram os argentinos contra os invasores, mas também serviram de estopim para a Independência. Porém, o ponto alto dessa relação conflitante foi mesmo a Guerra das Malvinas, de 1982, ainda uma ferida para os argentinos. Desde 1965, a ONU emite resoluções a favor da Argentina, reconhecendo uma disputa por soberania com o Reino Unido, mas enquadrando essa disputa numa situação colonial, com o objetivo de eliminar toda forma de colonialismo. As ilhas foram invadidas pelos ingleses em 1833, quando a Argentina já tinha 17 anos de Independência. Por isso, os jogadores argentinos estão obrigados a ganhar não apenas pelo resultado que classifica para a final, mas pelos 649 argentinos mortos em combate, pelas famílias deles e por milhões de argentinos que veem no campo de jogo uma chance de justiça simbólica que não foi possível no campo de batalha. Na noite de terça-feira (14), os argentinos foram ao Obelisco da Avenida 9 de Julho com bandeiras, faixas e instrumentos para celebrarem, mas também para pressionarem os jogadores. Esse local do Centro de Buenos Aires é o ponto de celebrações depois das vitórias, mas, pela primeira vez, foi também palco da antessala da partida. “Enfrentar a Inglaterra implica Justiça para este lado. Justiça”, sintetiza à RFI o torcedor Nicolás Adi, de 32 anos. Argentina paralisada O país vai parar. As empresas vão interromper a jornada de trabalho duas horas antes da partida. Muitas outras permitiram o trabalho remoto, Home Office. Os transportes públicos terão uma frequência reduzida e, em muitas cidades, interrompida durante o jogo. Nos hospitais, as consultas foram adiadas, a pedido dos pacientes torcedores. Só casos de emergência, como infartos do coração serão atendidos. Aliás, no jogo de sábado (11) contra a Suíça pelas quartas de final, uma pessoa de 51 anos morreu por parada cardíaca. Vários casos similares foram atendidos. “Jogar contra a Inglaterra, além de ser um jogo de futebol, é sempre algo que nós, argentinos, levamos para fora do campo: está em jogo o orgulho. Trata-se de vencer os ingleses em tudo. Eles não são apenas rivais. É mesmo uma inimizade que vem da Guerra das Malvinas, do que eles fizeram conosco. Então, é sempre uma questão de querer sair por cima e derrotar os ingleses”, desabafa à RFI o torcedor Lucas Bonilla, de 24 anos. O heroísmo de Maradona Como a letra da famosa cantiga repete, “Aquele que não pula é um inglês”. Essa canção marcou os argentinos em 1986 quando Diego Maradona eliminou a Inglaterra com a “Mão de Deus” e com o antológico “Gol do Século”. Os jogadores daquela seleção de 40 anos atrás recebiam cartas e vídeos nos quais os argentinos diziam que podiam até perder na final, mas jamais para a Inglaterra. A partida de 1986 é a imagem que todos os argentinos têm de heroísmo. Coincidência ou obra do destino, a Argentina vai jogar agora com a mesma camiseta azul da reserva, usada há 40 anos. E o grande herói daquele confronto foi Maradona. O gol de mão foi ilegal, mas os argentinos usam como argumento o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Na Argentina, os ingleses são chamados de “piratas” que roubaram as Malvinas. E a postura de Maradona é vista como uma rebeldia perante aqueles que inventaram o futebol. Já sobre o segundo gol, de tão bonito, dizem que valeu por dois e compensou a irregularidade do primeiro. “Tomara que se repita o feito de 1986”, diz à RFI o torcedor César Alberto, de 43 anos. “Contra os ingleses, há muito em jogo: a nossa história, o legado de Maradona naquela Copa, o legado de Messi nesta”, avalia. As cantigas de futebol na Argentina, em geral, fazem referência às ilhas Malvinas. A atual, chamada “A quarta estrela”, feita para este campeonato Mundial, diz num trecho que “Pelas Malvinas, por Diego (Maradona), pela última do Leo (Messi)”, unindo o futebol à causa patriótica. A cantiga do campeonato anterior, vencido no Catar em 2022, também incluía a causa nos versos “Na Argentina, nasci /Terra de Diego e Lionel / Dos rapazes das Malvinas / Que jamais esquecerei”. “Existe um sentimento extra em torno do assunto. Nós o relacionamos à Guerra das Malvinas. Eu era um soldado em 1989, quando prestei o meu serviço militar. Fui treinado por veteranos da Guerra das Malvinas. Eles nos treinaram mentalmente, preparando-nos para voltar às Malvinas e recuperá-las”, recorda à RFI o torcedor Lucio Molina, de 58 anos.As equipes se enfrentaram cinco vezes: três resultaram em vitórias para os europeus (1962, 1966 e 2002), uma para os sul-americanos (1986) e um empate (1998), no qual a Argentina se classificou nos pênaltis. Euforia ou depressão Os argentinos têm vivido dias de muito patriotismo nos quais futebol e nacionalismo se misturam. Na semana passada, no dia 9 de Julho, foram os 210 anos da Independência do país. A Argentina vinha de uma vitória épica contra o Egito pelas oitavas de final. As autoridades tentam transmitir a ideia de apenas uma disputa esportiva. O técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni, disse que “se trata apenas de um jogo de futebol” e que “misturar as coisas seria uma loucura”. O major Alan Nuñez é diretor da banda militar “Tambor de Tacuarí” do regimento de Infantaria 1 “Patrícios”, o mais antigo do Exército Argentino. O regimento foi criado em 1806 como resposta às invasões inglesas. Teve papel na Guerra das Malvinas de 1982. Para o major, o confronto é meramente esportivo, mas reconhece que futebol e nacionalismo se nutrem. “Acho que os argentinos ainda podem nutrir algum sentimento em relação aos britânicos devido aos eventos da Guerra das Malvinas. Mas acredito que precisamos separar essa questão do aspecto esportivo. Faz parte da nossa história termos enfrentado os britânicos, que sempre foram um dos exércitos mais poderosos do planeta. Nós os enfrentamos em várias ocasiões. Mas, enfim, continua sendo uma competição esportiva, que certamente será apreciada por ambos os povos, argentino e inglês”, pondera. “Quando a seleção de futebol obtém vitórias nos une com as causas da pátria. Essas datas nacionais, conjugadas com o Mundial de futebol, traz esse sentimento de euforia dos argentinos”, indica à RFI. Na terça-feira (14), depois de uma reunião no Centro Internacional de Cooperação Policial, em Virginia, nos Estados Unidos, o FBI, a FIFA e o Ministério da Segurança da Argentina classificaram a partida como de “alto risco” e decidiram proibir a entrada no estádio de bandeiras, faixas e camisetas que façam referência às Malvinas ou às Falklands, como os ingleses chamam o arquipélago. Seja como for, uma vitória sobre a Inglaterra tem um valor duplo para os argentinos, mas uma derrota também tem um peso na mesma proporção. Os argentinos ficariam muito tristes se perdessem a final, mas mais tristes ficariam se perdessem para a Inglaterra. Portanto, ou teremos um país em euforia ou um país afundado na depressão.

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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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