A Semana na Imprensa

Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

  1. 4d ago

    Apreensão com o futuro impulsiona movimento anti-IA no mundo, incluindo cientistas e especialistas

    Menos de quatro anos depois de o uso da inteligência artificial se expandir pelo mundo, cidadãos e cientistas de diversas áreas – da tecnologia ao meio ambiente, passando pela economia e medicina – se mobilizam em um movimento anti-IA. Por temor em relação à perda do controle sobre as máquinas ou ao impacto, talvez irreversível, sobre o emprego e as relações humanas, os contestadores da ferramenta ganham terreno e alertam sobre os seus riscos. O tema é a reportagem de capa da revista francesa Le Nouvel Obs desta semana. A edição relata a realização de protestos, incluindo a greve de fome do ativista Michael Trazzi, e até uma tentativa de atentado contra Sam Altman, CEO da gigante de inteligência artificial OpenAI, na Califórnia. “Nem todos os opositores da IA são tão engajados como Trazzi, nem tão violentos como Daniel Moreno Gama - o texano que lançou um coquetel molotov contra a casa de Altman -, mas as suas ações simbolizam uma revolta surda contra a maré mundial da IA”, indica a revista. Nunca antes uma tecnologia foi tão massivamente adotada quanto esta, enfatiza Le Nouvel Obs, embora 50% dos franceses admitam não confiar na IA. Apenas 8% dos entrevistados em uma pesquisa Ifop no país disseram que desejam que o desenvolvimento da tecnologia seja acelerado. O movimento Pause IA, por exemplo, alega que a inteligência artificial gera “perigos extremos para a humanidade a curto prazo”, na medida em que avança sem regulamentação na maioria dos países do mundo. A organização destaca que o desenvolvimento da IA está nas mãos de “meia dúzia de tecno-oligarcas de escrúpulos duvidosos”, como Elon Musk e Mark Zuckerberg. Transumanista sueco desconfia da IA A semanal ressalta ainda que esse movimento de contestação inclui “alguns dos melhores cientistas dessa área”, que conhecem como ninguém os riscos de perda de controle dos humanos sobre a inteligência artificial. Também engloba nomes como a professora de Harvard, Stefanie Stantcheva, que defende a reflexão “urgente”, pelos países, sobre mecanismos de redistribuição de renda diante dos impactos da IA no mercado de trabalho. Ou ainda simplesmente moradores do interior que se recusam a ver as áreas rurais serem tomadas pela construção de data centers, essenciais para a tecnologia. Em entrevista à revista L’Express, o doutor em neurociências computacionais e “transumanista assumido” Anders Sandberg, sueco de 54 anos, exprime seus receios, embora seja um grande fã das tecnologias em geral. "Ainda não compreendemos os fundamentos da IA moderna, e é precisamente isso que deveria nos deixar apreensivos", afirmou ele à publicação. Questionado sobre como a máquina o descreveria, ele respondeu: "Como um homem que quer construir esferas de Dyson, viver para sempre e colonizar a Via Láctea, mas que ao mesmo tempo sustenta que não se pode confiar plenamente na IA".

  2. Jul 18

    Peça de Christiane Jatahy e Wagner Moura conquista a crítica francesa no Festival de Avignon

    A peça “Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo”, da diretora brasileira Christiane Jatahy em parceria com o ator Wagner Moura e o dramaturgo Lucas Paraizo, vem recebendo elogios da imprensa francesa após sua estreia no Festival de Avignon 2026, na França. Concebida como uma continuação contemporânea de “Um Inimigo do Povo”, clássico de Henrik Ibsen, a montagem foi saudada por revistas semanais pela atualidade de seus temas, a inovação cênica e a atuação de Moura. A revista cultural Télérama destacou a capacidade de Jatahy e Moura de imaginar uma sequência para a obra de Ibsen, que mantém viva a reflexão sobre os conflitos entre interesses econômicos, questões ambientais e o bem comum. Para a revista, o público é privilegiado de acompanhar o embate entre visões de mundo opostas representadas pelos irmãos Thomas e Peter Stockmann. Já a revista Le Nouvel Obs ressaltou o desempenho de Wagner Moura, descrevendo o ator como um convincente “denunciante”, figura central da trama. Na crítica, o veículo lembra que “Um Julgamento” retoma a história no ponto exato no qual Ibsen a encerrou, transferindo-a para a América do Sul contemporânea. Thomas Stockmann, agora brasileiro, enfrenta um tribunal popular após denunciar a contaminação das águas que garantem a economia de sua comunidade. Segundo a revista, a peça aborda temas de grande relevância atual, como corrupção, negacionismo, fake news, crise ambiental e o isolamento enfrentado por denunciantes que desafiam interesses econômicos poderosos. Embora faça algumas ressalvas ao ritmo de determinadas passagens do espetáculo, observando que "a encenação se mostra por vezes estranhamente monótona, e as falas, alternadas entre português, inglês e francês, podem se tornar cansativas", a crítica insiste que o trio de protagonistas sustenta o interesse do público. Le Nouvel Obs salienta ainda a interpretação “febril e combativa” de Wagner Moura. "Máquina teatral" Os elogios mais entusiasmados nesta primeira semana de apresentações vieram da revista Les Échos Week-End, que descreveu a peça como uma “formidável máquina teatral” e afirmou que o espetáculo “conquistou Avignon”. A publicação destacou como Christiane Jatahy transpõe a ação para o Brasil contemporâneo sem perder a força original do texto de Ibsen. "É teatro de alto nível, elevado pela presença magnética e intensa de Wagner Moura", avalia. Como a Nouvel Obs, Les Échos Week-End chama a atenção para a inserção de vídeos no palco, apontando que "a osmose teatro-cinema é perfeita". A publicação sublinha um dos elementos que considera mais originais da montagem: o julgamento acontece ao vivo e o veredito pode mudar a cada apresentação, já que 11 espectadores, escolhidos por sorteio, formam o júri responsável por decidir se Thomas Stockmann é ou não um “inimigo do povo”. Segundo a revista Les Échos Week-End, o aparato cênico ajuda a abordar tanto o fortalecimento das chamadas “verdades alternativas” e a manipulação dos regimes democráticos, quanto os desafios de comunicar e fazer aceitar verdades que incomodam. A revista lembra ainda que o espetáculo foi criado no Brasil e a experiência do governo Bolsonaro "certamente teve um impacto em sua concepção".

  3. Jul 11

    França: magnatas da mídia de extrema direita e esquerda antecipam duelo das eleições presidenciais

    O confronto que se anuncia nas eleições presidenciais francesas de 2027, entre os prováveis candidatos de extrema direita, Marine Le Pen, e de esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, tem como pano de fundo o duelo entre os dois magnatas da mídia. Nos últimos anos, o bilionário francês Vincent Bolloré construiu um império que reúne emissoras de rádio e TV como Europe1, Canal+ e Cnews. Do outro lado, a esquerda conta com o apoio explícito de outro rico empresário, Matthieu Pigasse, conhecido como o “banqueiro de esquerda”, aponta a revista L’Express desta semana. Nos veículos de Bolloré, interferências editoriais nos veículos, cada vez mais à direita, aconteceram aos poucos e se consolidaram. Lideranças ultraconservadoras encontram palco para se expressar livremente. Já Pigasse tem um longo histórico de investimentos na mídia progressista, como os jornais Libération e Le Monde, além de uma série de sites e revistas independentes, como Les Inrocks. O apoio ao Partido Socialista também é antigo, mas desde que o PS perdeu influência em meio à ascensão de outras correntes da esquerda, inclusive o partido França Insubmissa (LFI), o empresário tem impulsionado também os veículos simpatizantes à sigla de Mélenchon. O carro-chefe do “combate à extrema direita” de Pigasse, como ele próprio definiu, é a Radio Nova, cuja audiência dobrou de 2025 para 2026.   “Os programas assumiram uma virada militante”, uma “escolha deliberada de Pigasse em sua batalha cultural” contra o império de Vincent Bolloré, salienta L’express. Influência no regime bolivariano da Venezuela Uma amostra do seu engajamento político ocorreu no início do ano, quando seu banco Centerview Partners conseguiu vencer o contrato de renegociação da dívida da Venezuela, mostra reportagem de capa da Le Point esta semana. Diante do risco de vitória do Reunião Nacional nas eleições previstas para abril e maio, o próprio Matthieu Pigasse “não descarta” até se candidatar – o que muitos consideram como uma “jogada oportunista para se promover”, observa a publicação.

  4. Jul 4

    Apesar de ameaças de Trump, saída dos Estados Unidos da Otan é improvável

    Às vésperas da próxima cúpula da Otan, sediada em Ancara, na Turquia, os países europeus se preparam para voltarem a ser cobrados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os seus gastos com Defesa. A ameaça do líder republicano de retirar o seu país da aliança militar atlântica, repetida diversas vezes, tende a não se concretizar, agora que a maioria dos países do bloco acelerou as despesas com a pasta. Em 2025, os valores subiram 20% segundo dados da própria Otan, e todos já atingiu a meta mínima de 2% do PIB destinados à defesa. Entre os europeus, também avança a reflexão sobre como o bloco pode reforçar a sua própria proteção e quebrar a dependência do “padrinho americano”, desde o aumento das tensões entre os aliados. Na cúpula prevista para os dias 7 e 8 de julho, “ninguém tem dúvida sobre quem fará o papel de líder: Donald Trump perguntará a cada um dos 31 outros membros da aliança quanto eles subiram os seus orçamentos militares, e vai lhes classificar conforme esse critério simples”, antecipa a revista francesa L’Express, na edição desta semana. “Os Estados Unidos provavelmente não deixarão a Otan porque a postura de padrinho incontestável da família, ao qual cada membro deve demonstrar fidelidade, lhe convém”, salienta a publicação. Além disso, um recente reestruturação do comando integrado da organização colocou nas mãos do Pentágono americano a chefia do Exército, da Marinha e da Aeronáutica da aliança, lembra L’Express. Washington não tem interesse em deixar nas mãos dos próprios europeus as forças aliadas no continente, no qual está engajado desde os anos 1950. Esse controle é fundamental para o monitoramento das bombas atômicas na Europa, pilares do guarda-chuva nuclear americano. Redução da participação americana O governo do presidente informou aos aliados, em maio, sobre sua decisão de reduzir a presença militar na Europa. No fim de junho, o secretário-geral da organização, Mark Rutte, foi aos Estados Unidos explicar a Trump, de forma didática, o quanto o presidente conseguiu acelerar a guinada dos gastos europeus com proteção e capacidade de ataque. É esperado que a Otan anuncie, durante a reunião anual em Ancara, que os europeus supriram quase todas as lacunas deixadas por Wasington nos planos de defesa coletiva, embora ainda não tenha sido possível compensar a retirada de um bombardeiro estratégico disponibilizado pelos americanos. Na última cúpula da aliança atlântica, marcada pela forte pressão de Trump, os países da Otan concordaram em destinar pelo menos 5% de seu Produto Interno Bruto (PIB) a gastos com segurança até 2035. Espanha "decepcionou" "Alguns aliados estão fazendo mais do que outros, e temos países como a Polônia, as nações escandinavas, os Estados bálticos e a Alemanha liderando o grupo", afirmou o embaixador americano na Otan, Matt Whittaker, em uma coletiva de imprensa. "Mas há alguns que estão ficando para trás, seja porque não estão gastando o suficiente ou porque não estão em uma trajetória confiável para cumprir os compromissos assumidos em Haia", acrescentou ele, sem citar países específicos. A Espanha é um dos países europeus que "decepcionaram" o presidente dos Estados Unidos ao se recusarem a atingir a marca de 5%. Já na cúpula de Haia, Madri sustentava que alcançar esse percentual não era necessário para cumprir os requisitos de capacidade de defesa da Otan. RFI com Reuters e AFP

  5. Jun 27

    No aniversário da independência dos EUA, revistas francesas retratam relação complexa entre os dois países

    As relações entre a França e os Estados Unidos são marcadas por grande proximidade, mas também por conflitos célebres. Às vésperas das comemorações da independência americana, a revista Le Parisien Weekend desta semana destaca a história turbulenta de amizade entre os dois países e relembra alguns de seus momentos mais importantes. Os Estados Unidos comemoram no próximo dia 4 de julho os 250 anos de sua declaração de independência da Inglaterra do rei George III, em 1776. Entre os personagens centrais desse processo está o general La Fayette, transformado em um verdadeiro mito pelos americanos. A publicação destaca ainda a vitória francesa na Batalha de Chesapeake, considerada decisiva para o desfecho da Guerra de Independência dos Estados Unidos. O conflito foi oficialmente encerrado por uma série de tratados assinados em 1783, principalmente em Paris e Versalhes, o que simboliza o papel fundamental desempenhado pela França. No entanto, a revista lembra que George Washington não demorou a se aproximar novamente de Londres, firmando acordos comerciais com os britânicos à revelia do rei francês Luís XVI. A revista também aborda os presentes trocados entre as duas nações, entre eles a Estátua da Liberdade, financiada em grande parte pelo povo francês. Dessa forma, a gigantesca escultura é apresentada como “um presente do povo francês ao povo americano”. Outro destaque é o engajamento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, bem como as inúmeras ligações culturais e econômicas entre os dois países. Le Parisien Weekend lembra que escritores americanos como William Faulkner e Ernest Hemingway viveram na França, enquanto artistas franceses alcançaram reconhecimento em Hollywood, como Marion Cotillard, Jean Dujardin e Simone Signoret, todos vencedores do Oscar. Na música, nomes como Édith Piaf e Charles Aznavour também conquistaram o público americano. A influência francesa se estende ainda à gastronomia, com exemplos populares como as famosas french fries. Apesar dessa longa história de cooperação, a amizade entre França e Estados Unidos permanece marcada, segundo a revista, por uma permanente disputa de influência e poder. Constrangimentos A revista Le Point também dedica espaço ao aniversário da independência americana. Para a publicação, ao receber Donald Trump em Versalhes, após a cúpula do G7 em Évian, Emmanuel Macron colocou a França em posição privilegiada nas celebrações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. A publicação semanal relembra diversas comemorações realizadas ao longo do tempo entre os dois países para celebrar a Declaração de Independência, mas observa que, em muitos casos, algum tipo de constrangimento diplomático de uma das partes acabava ofuscando as festividades. O texto conclui afirmando que toda comemoração é fruto de sua época e reflete as circunstâncias políticas e históricas do momento. Segundo a revista, essa lógica da memória também se aplica naturalmente às celebrações do 250º aniversário da independência americana.

  6. Jun 20

    Brexit: dez anos depois, Reino Unido enfrenta crise, tabu político e reaproximação com a UE

    Dez anos após o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia, a avaliação predominante no país é negativa. Segundo uma longa reportagem da revista semanal L’Express, o Brexit deixou o Reino Unido mais pobre, mais dividido e politicamente instável, além de ter enfraquecido sua posição internacional. O governo britânico descarta um retorno à União Europeia, mas a publicação francesa aponta que o país vem, na prática, se reaproximando do bloco. Apesar do diagnóstico crítico da imprensa francesa, o contexto político britânico mostra outra realidade. Hoje, a maioria da população considera o Brexit um erro. Ainda assim, nenhum grande partido defende sua reversão. O tema virou tabu no debate político. A agenda é dominada por outras prioridades, como o custo de vida, a imigração e a crise dos serviços públicos. Nesse cenário, cresce o peso de forças populistas e o receio de reabrir uma discussão altamente polarizadora. O texto da L’Express relembra a noite de 23 de junho de 2016, quando a população do Reino Unido votou pela saída do bloco. Em seguida, mostra como, quase uma década depois, o país vem se reaproximando da União Europeia na prática. A reportagem cita recentes acordos comerciais, a cooperação em defesa e o retorno previsto ao programa Erasmus. Esse movimento reflete uma opinião pública cada vez mais favorável a uma reaproximação com a UE. Dados citados pela revista indicam perdas econômicas significativas: queda do PIB por habitante entre 6% e 8%, redução dos investimentos estrangeiros e impacto negativo no emprego e na produtividade. Ao mesmo tempo, o país registra piora nos indicadores sociais, como a queda no ranking global de felicidade. Crescimento da extrema direita no Reino Unido O Brexit também teria provocado uma transformação política profunda, com o avanço de partidos populistas e uma instabilidade inédita, com seis primeiros-ministros em dez anos. Além disso, aprofundou divisões internas, especialmente entre as quatro nações do Reino Unido, onde crescem movimentos independentistas. Já o editorial da revista Le Point, publicado nesta quinta-feira (18), não menciona diretamente o Brexit, mas descreve tensões identitárias e sociais, como o recente caso das violentas revoltas em Belfast, na Irlanda do Norte. Provocadas por um ataque com faca cometido por um refugiado sudanês, elas se espalharam por outras cidades, como Glasgow e Edimburgo, relembra o editorial.  Leia também'Nada justifica a violência', diz Starmer após protesto anti-imigração na Irlanda do Norte A Le Point insiste menos na ruptura com a União Europeia e mais nas tensões ligadas à imigração e ao multiculturalismo. Dois diagnósticos distintos, portanto, que apontam para uma mesma realidade: a de um Reino Unido cada vez mais fragilizado socialmente. A revista francesa questiona e responde: “Essa sociedade britânica à deriva seria o destino que espera a França amanhã? Por enquanto, trata-se de uma versão agravada do nosso país”. Em seguida, compara o primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer a um “sub-Macron”, criticando-o por encarnar, assim como o presidente francês, “uma impotência inflada, com ainda menos visão”. Leia também"Humilhação": popularidade de Macron despenca em meio a caos político na França

  7. Jun 13

    Avanço da IA no setor militar acirra disputa por soberania entre Europa e Estados Unidos

    Um dos temas que mais ganham destaque na imprensa semanal francesa é o avanço da inteligência artificial nos setores de defesa e estratégia. Antes associada principalmente à inovação econômica, a tecnologia passa a ocupar um papel central nas disputas de poder, tanto no campo militar, em operações terrestres, quanto no espaço, na corrida por capacidade orbital. Nesse cenário, a empresa francesa Mistral busca reduzir a dependência europeia em relação às tecnologias militares dos Estados Unidos. Em reportagem publicada pela revista L’Express esta semana, intitulada “Inteligência Artificial é o novo grande medo”, a start-up francesa Mistral AI aparece no centro dessa transformação. O movimento reflete as novas tensões geopolíticas globais e a busca europeia por autonomia estratégica. A empresa, considerada uma das principais apostas da French Tech, está agora ampliando seu campo de atuação para além das aplicações civis, entrando de forma direta no universo militar.  Segundo a revista, a Mistral firmou parcerias com o Ministério das Forças Armadas francês e com o grupo Airbus, com o objetivo de integrar seus modelos de inteligência artificial a diferentes frentes, desde sistemas aeronáuticos a operações de defesa e análise de dados estratégicos.  Em um contexto marcado pela guerra na Ucrânia, pelo reposicionamento das grandes potências e pela corrida tecnológica global, a inteligência artificial passou a ser vista como um elemento central de dissuasão militar. Como resume o CEO da empresa, Arthur Mensch, citado pela L’Express, a capacidade de responder com sistemas baseados em IA se tornou indispensável diante de exércitos que já utilizam amplamente essa tecnologia, como no caso de drones militares.  Leia tambémUcrânia aposta em drones para resistir a aumento de ataques da Rússia Soberania tecnológica Outro ponto importante levantado pela reportagem é a questão da soberania tecnológica. Ao desenvolver soluções próprias e implantá-las inclusive em redes classificadas do Estado, a Mistral AI se insere em uma estratégia mais ampla de reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a reportagem mostra que, apesar das ambições francesas e das iniciativas europeias, especialistas reconhecem que as soluções americanas continuam à frente.  Essa evolução dialoga diretamente com outra reportagem publicada pela revista Le Point, que comenta o domínio crescente da SpaceX, de Elon Musk, sobre a órbita baixa da Terra. Segundo a revista, a empresa já controla mais de 10 mil satélites, o que significa dois terços dos satélites ativos no mundo e, na prática, impõe suas próprias regras de circulação no espaço, obrigando até agências públicas a coordenarem seus movimentos para evitar colisões.  “Somos obrigados a avisar a SpaceX quando transitamos por essa altitude, se não quisermos ser destruídos” por uma colisão, explicou Caroline Laurent, diretora de sistemas orbitais e aplicações do Centro Nacional de Estudos Espaciais (Cnes), em referência aos satélites de observação militar da França, durante um fórum, organizado pela revista Le Point em abril, em Paris.  Se, no caso da Mistral, a questão central é a autonomia tecnológica europeia frente à hegemonia americana em inteligência artificial, no caso da SpaceX, o desafio diz respeito à apropriação de um espaço físico estratégico por uma empresa privada.   Controle de dados Os dois fenômenos citados se encontram em um ponto comum destacado nas duas revistas: o controle dos dados.  A Mistral AI busca estruturar a superioridade informacional no campo de batalha, analisando grandes volumes de dados para orientar decisões militares. Já a SpaceX, com seus satélites, não apenas garante conectividade global, mas também se posiciona para mapear, vigiar e potencialmente controlar tudo o que circula nos “data centers em órbita”.  Nos dois casos, a Europa aparece em posição reativa. Na França, a aposta recai sobre atores nacionais, como a Mistral, para reduzir a dependência tecnológica. Já no setor espacial, especialistas ouvidos pela Le Point reconhecem que o continente ainda está distante de oferecer uma alternativa à altura da liderança norte-americana, seja no setor público ou no privado.

  8. Jun 6

    Aplicações práticas da IA não superam os riscos de exclusão econômica e desinformação

    As revistas semanais francesas trazem a Inteligência Artificial como destaque em reportagens. As publicações exploram desde as críticas aos grandes líderes do setor até as aplicações práticas que estão transformando o cotidiano das pessoas. Segundo a L'Obs, vivemos um período de "IA ansiedade", marcado pela crescente preocupação com os efeitos nocivos dessa tecnologia na sociedade, como o impacto ambiental dos centros de dados e a possível destruição de empregos qualificados. A revista destaca o que chama de "falsos profetas da IA", referindo-se a bilionários do setor como Elon Musk, Sam Altman e Mark Zuckerberg, cujas promessas de um futuro radiante esconderiam uma vontade de dominação econômica e poder político. No centro do debate, a publicação traz a encíclica "Magnifica Humanitas" do Papa Leão XIV, que apela pelo "desarmamento da IA" para que ela não domine o ser humano, defendendo uma revolução antropológica que coloque a dignidade humana acima do lucro. Já a revista L'Express traz uma perspectiva fundamentada no debate econômico e filosófico sobre a mesma encíclica papal. Em entrevista, os economistas David Thesmar e Augustin Landier analisam o texto de Leão XIV, classificando-o como "tecnoansioso" por se concentrar excessivamente em riscos como a exclusão econômica e a desinformação. Embora Landier reconheça que a Igreja acertadamente identifica a IA como uma disrupção fundamental que remodela a sociedade, Thesmar diverge da ideia de desaceleração. Acelerar ou controlar? Para ele, a humanidade deve, na verdade, acelerar o progresso técnico para enfrentar desafios globais, argumentando que a estagnação organizada da IA não seria benéfica para o bem-estar humano. Finalmente, Le Point trata do impacto direto da tecnologia no mercado imobiliário, mostrando como a IA está otimizando a busca por imóveis. Através de assistentes inteligentes como o ZIA e o ARI, os interessados podem agora realizar buscas por critérios ultraprecisos, como "vista para a Torre Eiffel" ou "proximidade de boas escolas". Além de reduzir sensivelmente o tempo de pesquisa, a tecnologia permite visualizar o potencial de reformas através de home staging virtual e obter orçamentos detalhados de renovação em poucos segundos. Para os profissionais do setor, a IA atua na liberação de tarefas administrativas repetitivas, permitindo que os agentes imobiliários se dediquem mais ao acompanhamento humano e estratégico de seus clientes.

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