O Princípio da Inquietação

Um podcast onde pensar é um verbo que se exercita a sós e em conversa. Filósofos nacionais e internacionais refletem em voz alta sobre o medo, enquanto Catarina G. Barosa, fundadora do Festival Internacional de Filosofia, Espanto, e David Erlich, professor e escritor, recebem convidados de várias áreas para diálogos sem rede. Aqui, as certezas são questionadas e a dúvida ganha estatuto de virtude. O objetivo é praticar a nobre arte de pensar, mesmo que isso conduza não a respostas, mas a novas perguntas. Todas as quintas-feiras um novo episódio, uma inquietação. A edição áudio e vídeo deste podcast é assegurada pela Tale House, com identidade sonora a partir da interpretação do músico e produtor Pedro Luís, da obra Inquietação, da autoria de José Mário Branco, inspirada na versão interpretada pelo grupo A Naifa. A capa é de Tiago Pereira Santos, com fotografia de Matilde Fieschi e logo do Expresso e do Festival Espanto. A coordenação está a cargo de Joana Beleza e a direção é de João Vieira Pereira.

  1. 5d ago

    Como viver com o medo em tempos de inquietação política?

    Neste episódio vamos ser desafiados a pensar sobre o medo como condição política do nosso tempo, enquanto assistimos à ascensão de lideranças transgressivas que redefinem as fronteiras do que é possível dizer e fazer no espaço público. Michel Eltchaninoff, filósofo francês e chefe de redação da “Philosophie Magazine”, afirma que leu todos os discursos de Vladimir Putin e que isso o levou a compreender algo perturbador: existe uma visão de mundo coerente por detrás do que muitos preferem considerar simples loucura. Fala-nos da “sideração”, um estado de bloqueio, de paralisia, em que ficamos quando confrontados com o excesso de provocações contraditórias que caracterizam o estilo de Trump e de Putin. Como nos diz Michel, “a provocação é uma estratégia da sideração.” Não é caos, é método. E o método funciona precisamente porque nos impede de pensar e de agir. Embora o panorama seja sombrio, Michel, inspirado na tradição filosófica que vai de Heráclito a Hannah Arendt, insiste que é possível e necessário resistir. Não através de grandes gestos, mas através da ação mínima, do pensamento claro, da recusa em deixar que a inquietação se transforme em submissão. A razão, diz-nos, não é um luxo. É uma forma de resistência. Michel conclui que vivemos num mundo de contingência radical, onde a imprevisibilidade não é exceção, mas regra. Apela: a vida, como uma novela, é imprevisível. E é precisamente essa imprevisibilidade que nos obriga a permanecer acordados, atentos e, acima de tudo, livres para pensar. * A sinopse deste episódio foi criada com o apoio de IA. Saiba mais sobre a aplicação de Inteligência Artificial nas Redações da Impresa  See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Como viver com o medo em tempos de inquietação política?
  2. Aug 6

    Uma pasta de dentes, Heidegger e Hannah Arendt: entrevista a Raquel Marinho, jornalista e storyteller

    Neste novo episódio, a convidada, Raquel Marinho, fala-nos das suas grandes inquietações que se enquadram nas grandes questões da filosofia: haverá vida depois da morte? Onde é que eu estava antes de ter existido? Existe Deus ou algum tipo de transcendência? Essa transcendência interfere ou não na minha vida?  Para Raquel Marinho, ainda não ter respostas não é um problema, pois, nas suas palavras “É a dúvida que alimenta a procura”. Este episódio está recheado de conversa e humildade: a resposta “eu não sei” deve continuar a ser válida.   Será possível dizer se uma poesia é boa ou má? Talvez não. Talvez haja outro critério para avaliar a sua qualidade: o desconforto. Fazendo das palavras da poeta portuguesa Ana Hatherly as suas, Raquel cita “Quando o poema é bom, não te aperta a mão, aperta-te a garganta”. Esse desconforto, essa inquietação gerada quando nos é retirado o chão, não é má em si mesma, entrega-nos uma imagem nova de algo que conhecíamos, mas não conseguíamos denominar.  Para que serve a poesia? Se calhar é chocante para uns, ou óbvio para outros, mas a poesia não serve para nada. Mesmo não tendo utilidade, acrescenta à vida coisas que não experimentaríamos sem ela. Nas palavras de Raquel, “A utilidade é uma palavra que não faz muito sentido quando falamos de poesia, mas ainda bem”.  Refletimos sobre o que realmente importa na vida, e através de um excerto de Amália Bautista, chegamos à conclusão de que há poucas coisas que realmente importam: amar e ser amado, e não morrer antes dos nossos filhos.  Tentámos ainda descobrir o grau de parentesco entre a Poesia e a Filosofia. Serão mãe e filha? Se sim, qual ocupa que papel? Serão irmãs ou primas afastadas? O que sabemos é isto “Partilham o Espanto”.  Por fim,  a frase de Manuel de Barros: “A maior riqueza do homem é a sua incompletude”, marcou este podcast pela paz em reconhecer que somos incompletos. Sabendo isto, não encontrar respostas não nos deve fazer desistir de perguntar, pelo contrário, deve inquietar-nos e perguntar sempre mais.  See omnystudio.com/listener for privacy information.

    Uma pasta de dentes, Heidegger e Hannah Arendt: entrevista a Raquel Marinho, jornalista e storyteller
  3. Jul 16

    “O Estado fez da Insegurança o seu negócio mais rentável, a sua arma mais poderosa” argumenta Donatella Di Cesare, filósofa e ensaísta italiana

    Neste episódio, gravado em 2025 na primeira edição do ESPANTO – Festival Internacional de Filosofia, a filósofa e ensaísta italiana Donatella Di Cesare aborda o medo focando-se nas dinâmicas de poder. Diz-nos que “O medo é o grande recurso das autoridades públicas, partidos e organizações numa época em que as grandes ideias parecem ter perdido credibilidade.”  Guerras, alterações climáticas, desertificação, precariedade laboral, instabilidade económica e crises migratórias são apenas algumas das ameaças que Donatella Di Cesare menciona como ameaças que alimentam um sentimento permanente de insegurança. Neste contexto, a segurança, passa a ocupar um lugar central no discurso político, surgindo o chamado Estado de segurança, que promete proteção contra ameaças presentes e futuras. Contudo, essas promessas revelam-se falíveis. Enquanto promete proteger os cidadãos de determinados riscos, o Estado expõe-nos a outros, justificando essas escolhas com base nas leis da Economia ou da História. Di Cesare prefere denominar este fenómeno por fobocracia — do grego phobos (medo) e kratos (poder) —, ou seja, o governo do medo, onde o Estado se aproveita a difusão da ansiedade, do fomento do ódio, do aumento da incerteza e da desconfiança, procurando fortalecer o seu poder político, apropriando-se do medo como um dos seus recursos mais poderosos. Donatella Di Cesare argumenta que as elites ocidentais mantêm a capacidade de decidir sobre a guerra através de uma suspensão técnica da democracia e de um reforço da soberania do poder executivo. Talvez o soberado absoluto do passado monárquico não tenha completamento desaparecido, mas apenas se tenha transformado e evoluído com base em com novos recursos militares, tecnológicos e financeiros. Donatella Di Cesare é professora titular de Filosofia Teórica no Departamento de Filosofia da Universidade Sapienza de Roma, onde é membro do Colégio Doutoral, e na Escola de Estudos Avançados Sapienza (SSAS). O seu pensamento situa-se no âmbito da Filosofia Continental (hermenêutica, desconstrução – Nietzsche, Heidegger, Gadamer, Derrida), aprofundando os temas da verdade e da compreensão. O seu trabalho tem-se centrado na ligação entre tempo e linguagem (Walter Benjamin), considerando as questões éticas e políticas do outro e da alteridade (Emmanuel Levinas). A Shoah tornou-se central na sua reflexão (If Auschwitz is Nothing, 2023). Tendo já contribuído com numerosos estudos sobre este tema, no rescaldo da publicação dos Cadernos Negros de Heidegger, interrogou-se sobre a responsabilidade da Filosofia face ao extermínio (Heidegger, os judeus e a Shoah. Os Cadernos Negros, 2016). Tem examinado repetidamente a relação com a figura do estranho e do estrangeiro (Marranos. O Outro do Outro, 2019), incluindo também a questão da migração (Resident Foreigners. Philosophy of Migration, 2020). Na fronteira entre a biopolítica e a teologia política, analisou a soberania e as formas de dominação (Spinoza). Os desafios da violência, visível e invisível, do totalitarismo (Arendt) às suas formas contemporâneas (terror, tortura, guerra), levaram-na a repensar a vida nua e os direitos humanos. Apelou ao regresso da filosofia à pólis, esboçando a possibilidade de um pensamento radical capaz de conjugar existência e comunidade (A vocação política da filosofia, 2021). Nos últimos anos, tem articulado uma crítica da política estatal, contribuindo para uma reformulação do conceito de democracia (Democracia e Anarquia, 2024). See omnystudio.com/listener for privacy information.

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  4. Jun 25

    A causa da ascensão dos fascismos pode estar na desumanização da nossa experiência humana, diz João Constâncio, filósofo

    Neste episódio, junta-se a nós um filósofo, também professor catedrático de Filosofia. Na semana do Espanto - Festival Internacional de Filosofia, onde o tema em debate é o desejo, não poderíamos deixar de conversar com João Constâncio, autor do livro Três Discursos sobre Eros - Meditação sobre o Fedro de Platão, e também tradutor e co-autor da introdução de Lisístrata, de Aristófanes, obra sobre a qual também conversamos. Estas duas obras são clássicas incontornáveis da Filosofia que durante este episódio nos ajudam a olhar para o desejo a partir de um ponto de vista muito especial, inclusivamente, político. O desejo erótico e a forma arrebatadora como a paixão se instala em nós e nos leva à loucura foi um tema em debate.  João Constâncio, suportando-se nos Três Discursos de Eros, frisa: “é a ideia de que quando se é atacado por Eros, tudo aquilo que antes se valorizava passa a parecer algo que não parece nada, que não vale nada, por exemplo, o lar, os pais, mãe, irmãos, os amigos, a fortuna que se tem ou não se tem,  tudo isso de repente não tem importância nenhuma. É um estado de loucura.” Sobre a obra Lisístrata de Aristófanes quisemos conhecer melhor o plano da personagem principal para terminar com a guerra do Peloponeso e João Constâncio explicou: “ é a ideia de as mulheres se negarem sexualmente aos maridos até que todos os homens façam a paz entre si.”  Para a época, ou seja 411 a.C., e segundo o nosso convidado, talvez “seja prudente evitar chamar feminista, mas eu creio que é sem dúvida proto feminista. Um discurso que inclui a defesa de que não há razão para as mulheres não falarem em público, não há razão para as mulheres não governarem a cidade, não governarem as finanças da cidade. É um discurso que implica todo um elogio da sensatez das mulheres e mesmo a ideia de que elas nunca fariam a guerra.” O que acontece nesta obra de Aristófanes, de acordo com o nosso convidado, é “uma crítica do poder dos homens, uma crítica, no fundo, da estrutura normativa, da polis grega, que é uma estrutura desigual e que a peça representa claramente como injusta. Isto é uma estrutura na qual os homens governam e as mulheres obedecem, tratam da casa, tratam do nascimento e da morte, basicamente, na esfera do privado”. Houve ainda tempo para falar de inteligência artificial (IA) uma vez que ela vem espicaçar os nossos desejos mais fúteis.  João Constâncio vê claramente uma relação entre a IA e o desejo “A relação que eu vejo entre os dois temas é bastante profunda. Podemos falar do desejo, de um ponto de vista filosófico, talvez a dois níveis diferentes: temos o tipo de reflexão que eu acho que prioritariamente vos está a interessar, o desejo tal como se manifesta quando estamos apaixonados, o desejo no amor sexual, é, portanto, o desejo nesse sentido mais estrito. Mas, num segundo nível, é o de um desejo que não tem necessariamente essa particularização. Por exemplo, alguns filósofos pensam no desejo de viver, o próprio desejo de estar vivo numa relação com o mundo, o próprio desejo pelo mundo, um sentimento de encantamento em relação ao mundo. Talvez genericamente o desejo seja o desejo de beleza, é assim que Platão, por exemplo, pensa nele.” João Constâncio considera que com a inteligência artificial estamos a abdicar de tudo o que é humano, “de sermos nós a fazer arte, sermos nós a pensar, sermos nós a escrever, e entregar isso às máquinas, a uma realidade a que nós temos acesso através de um olhar objetificante, que desfaz o nosso olhar humano, o nosso olhar valorativo, o olhar com que sentimos, com que encontramos beleza no mundo.” O filósofo vê nesta forma objectificante de relação com o mundo e com os outros, uma desumanização que considera ser parecido com o que “está em causa na ascensão dos fascismos, no genocídio, na forma como a guerra se voltou a banalizar e a proliferar nos nossos dias.” Finamente, era importante perceber - tal como faz Sócrates ao dirigir-se a Fedro, nos Três Discursos de Eros: “De onde vens e para onde vais?”, João Constâncio? A resposta é bela porque o nosso convidado veio, está e fica na Filosofia, ou seja, há locais de onde nunca se pode sair: “eu entrei para o curso de Filosofia quando tinha 18 anos. Entrei porque queria muito entrar, porque queria muito estudar Filosofia.  E aqui estou passado muitos, muitos anos. Nunca deixei de fazer isso. E é isso que eu faço. Conto já não ir para outro lugar, senão este mesmo onde tenho estado.” Neste episódio não poderia faltar a Caixa dos Desejos filosóficos e o nosso convidado abdicou de muitos objetos: lâmpada, gravata, chocolate, mola de roupa e até uma pastilha para a máquina de lavar loiça, para ficar com uma andorinha. As razões pelas quais o fez são belas e profundamente filosóficas. BIO Resumida  João Constâncio é professor catedrático do Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), onde se doutorou, em 2005, com uma dissertação sobre imagens e conceções da vida humana em Platão, e onde exerce os cargos de diretor do Instituto de Filosofia da Nova (IFILNOVA) e coordenador do Doutoramento em Filosofia. É autor do livro Arte e Niilismo: Nietzsche e o enigma do mundo (Tinta-da-china, 2013), bem como coorganizador de cinco livros sobre Nietzsche — incluindo, com Maria João Mayer Branco e Bartholomew Ryan, Nietzsche and the Problem of Subjectivity (Walter de Gruyter, 2015). Tem escrito e lecionado igualmente sobre questões fundamentais da Estética, da Antropologia Filosófica e da Filosofia da História nas obras de Platão, Kant, Hegel, Schopenhauer e Heidegger. See omnystudio.com/listener for privacy information.

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