Em novembro, a convite de uma aluna do doutorado, tive a oportunidade de levar a situação das mulheres afegãs ao VI Encontro de Pós-graduandos da Filosofia da Unifesp, no campus Guarulhos. O tema, oportuníssimo: Da presença da ausência: vozes conjurando uma filosofia do agora. Comigo estava Rafael Domingos, doutorando em História na mesma universidade, para fazer uma reflexão sobre a questão Palestina e o papel da academia e das pessoas, discentes e docentes, quando o assunto é genocídio do povo palestino. As nossas falas completas e as ótimas reflexões que rolaram no final, com uma síntese temática sobre colonialismo, podem ser vistas aqui no canal do YouTube da Unifesp/Filosofia. No momento da preparação da minha fala, eu ainda estava bastante imersa na obra de Milagros, que estávamos acabando de colocar no mundo pela Ginna. Entre os muitos insights que a medievalista espanhola me ofereceu durante o processo de publicação dessa obra, ficou pairando em meus pensamentos sua análise sobre a expressão da diferença de ser homem a partir da ética e das emoções. Em um trecho (p. 110-1, destaques meus), ela diz: As emoções eram deixadas para as mulheres, enquanto os homens procuravam se reger por princípios universalizáveis, que colocavam em segundo plano o componente pessoal, como é próprio da ética, em especial desde Immanuel Kant no século XVIII. As emoções e os sentimentos não são entendidos como fonte de conhecimento pela maioria dos homens. A ética, por sua vez, é uma fonte importantíssima de poder e de domínio. A proposta de Seidler é recuperar o sentido da emotividade masculina, para que a análise daquilo do que se sente em cada situação ganhe espaço sobre o velho costume masculino de resolver tudo recorrendo aos princípios impessoais da ética. Pois entende-se que apenas ao recuperar as emoções pessoais concretas um homem é capaz de se implicar nas relações, partindo de si. A retórica da ética, impessoal e distante como dito, permite que os “bons camaradas” se vejam livres da própria responsabilidade e implicação no sistema de dominação masculina — que abrange desde os feminicídios no Brasil até o apartheid sexual no Afeganistão — utilizando palavras bonitas e recebendo aplausos. Daí o título da fala “Ouvindo as mulheres afegãs: além da ética, a política a partir de si”. O partir de si demanda que nos impliquemos na questão; o que, por sua vez, significa dar o espaço devido às emoções, inclusive às viscerais, como nojo, indignação e repulsa, pois o combustível da ação é a emoção. Ouvindo as mulheres afegãs: além da ética, a política a partir de si Eu abro aqui minha fala hoje denotando o meu ponto de partida. Ele não é a academia, no sentido de que “mulheres afegãs” não são meu “objeto de pesquisa”. O meu ponto de partida, assim como para as mães do feminismo na academia, é a experiência vivida e a solidariedade para com outras mulheres possibilitada sobretudo por essa experiência vivida como mulher em uma sociedade patriarcal. Na academia, meu trabalho e meus esforços têm sido direcionados à compreensão do mundo a partir de uma perspectiva feminista e tenho centrado minha atenção na intersecção “mulheres e natureza”, mas eu me tornei feminista primeiro e meu chamado foi a vida. Depois que compreendi e teorizei na academia, aprendi sobre o chão comum que compartilhamos, mulheres, ao redor do globo, ainda que de formas diversas e usando calçados distintos, quando não nenhum. Isso é importante dizer e destacar, pois se tornou comum a distorção histórica que coloca a academia na frente do feminismo, quando a história registrada pelas próprias mulheres em diferentes regiões do mundo, muitas vezes em redes internacionais, se prova bem diferente disso. Há mais de 10 anos, eu tenho buscado e encontrado muitas histórias de mulheres para conhecer e contar, sobretudo por meio do trabalho com o Instituto Modefica, mas não só. Por meio do jornalismo, da pesquisa e, agora, da edição de livros, tenho me dedicado a espalhar essas histórias para que mais pessoas, sobretudo mulheres, as conheçam. Como partem da realidade vivida, e não de teorizações abstratas, são histórias capazes de radicalizar as práticas de libertação e liberação das mulheres que as descobrem. Foi assim que eu me aproximei do Movimento de Mulheres Curdas, por exemplo. Atualmente, na Ginna, estamos trabalhando em uma obra bem robusta, feita em dois tomos, escrita por mulheres que construíram o movimento e registraram a história justamente por reconhecerem a importância, legada de nossas matriarcas feministas, de registrar a história das mulheres e passá-la adiante. No ambiente acadêmico isso sempre foi e segue sendo muito desafiador. Citando a historiadora feminista María-Milagros Rivera Garretas que a gente acabou de publicar, as universidades se encheram de mulheres, mas o conhecimento aqui produzido não se feminizou. Milagros vai trazer alguns exemplos, mas basta pegarmos qualquer lista de referências obrigatórias de qualquer curso de graduação e pós-graduação para confirmarmos. Em um texto da historiadora feminista especializada em iconografia feminina Max Dashu, que hoje está com seus bons 75 anos, sobre a importância de pesquisar a história das mulheres de todos os lugares do mundo, de diferentes realidades, etnias, classes e cores, ela diz algo que se repete, no mundo todo, quando as mulheres conhecem as histórias das mulheres que foram escondidas de nós: Depois das minhas palestras visuais, década após década, mulheres continuam me perguntando, com rostos doloridos e certa indignação: “Por que não sabemos nada disso?” e eu só posso responder que foi ocultado de nós. Homens julgaram que era sem importância, “primitivo”, “supersticioso” — ou se sentiram ameaçados por isso e se posicionaram como guardiões do conhecimento. Sobretudo quando a história contada é sobre práticas de libertação e liberação das mulheres ao longo dos séculos e nos lugares mais diversos, maior é o sentido de liberdade no qual ela nos firma. Provavelmente é por isso que os homens se impõem a tarefa de garantir que esse conhecimento permaneça ausente. Citando Dashu novamente: Há muito a dizer sobre ausências, as lacunas nas narrativas históricas, povos e regiões inteiros omitidos do que nos ensinam e mostram — mulheres acima de tudo. Nossa tarefa é trazer à tona presenças que estão simplesmente ocultas, ou em gavetas de museus: artefatos removidos para coleções coloniais distantes. Hoje, eu venho, conectada a essa rede placentária feminista, para citar a historiadora Suzana Veiga no prefácio à edição brasileira do livro da Milagros, pois há muito a dizer sobre a ausência das mulheres afegãs nas nossas demonstrações de solidariedade internacional, e trago à tona sua presença por meio da história de liberdade que elas estão escrevendo em meio a um criminoso apartheid sexual, ao insistirem no direito à educação, criarem redes de educação para mulheres clandestinamente e se arriscarem para que elas e suas conterrâneas possam ser tratadas como seres humanos. Elas fazem o que María-Milagros chama de política a partir de si, uma experiência bem típica da história das mulheres. É a política “que atua partindo de si, sem representantes, e que é portadora de uma verdade viva de quem a faz” (p. 227). Eu vou ler para vocês um breve relato da jovem engenheira Yal Bano, que precisou fugir do seu país pela perseguição sofrida pelo Talibã após sua retomada ao poder, em 2021. Yal e sua família foram perseguidas e forçadas a migrar, pois Yal começou a dar aulas online para outras jovens mulheres, barradas de terem acesso à educação formal pelo regime fundamentalista. Yal é uma das muitas mulheres que encontrei nessa minha jornada pesquisando e contando sobre as histórias das mulheres. Antes, porém, precisamos fazer um brevíssimo resumo de como o Talibã veio a ser, pois bem sabemos que [citando Suzana Veiga novamente] as genealogias femininas são atravessadas pelo colonialismo e pelo capitalismo. O Talibã de hoje foi possível graças ao imperialismo de ontem, hoje e sempre. Quando vemos as fotos de mulheres usando minissaias, frequentando o espaço público e seus sorrisos aparentes no Afeganistão da década de 1970 versus a ausência de mulheres no espaço público do país em 2025, poucos sabem o que aconteceu. Para entender [essa transformação], precisamos voltar um pouco na história do Afeganistão, marcada pela disputa imperial sobre o território desde o século XVIII. Eu vou ser o mais breve possível aqui, focando em alguns fatos e datas centrais. O Império Durrani, também conhecido como Império Afegão, começou a ruir no século XVIII. Foi quando o Islã se enraizou na região, após a invasão de vários conquistadores árabes. Em 1823, estabeleceu-se o Emirado do Afeganistão e, 15 anos depois, iniciaram-se as incisivas britânicas para anexar o Afeganistão ao seu império. Depois de três tentativas fracassadas, o Afeganistão torna-se uma nação monárquica independente, em 1921. Em 1953, o primeiro-ministro começa uma aproximação com a União Soviética e passa a introduzir várias reformas sociais, inclusive permitir maior presença das mulheres no espaço público. Em 1957, as reformas continuam e mulheres afegãs são permitidas de estudar e trabalhar. A monarquia foi derrubada em 1973 por um golpe do Partido Democrático do Povo do Afeganistão, de tradição marxista-leninista, inaugurando a República do Afeganistão. Uma nova constituição foi proposta para garantir direitos às mulheres e trabalhadores, visando “modernizar” o estado afegão. Contudo, em 1978, um golpe bem-sucedido do Partido Comunista Afegão, alinhado ao nacionalismo islâmico e às ideias de justiça socioe