Entre 4 e 25 de julho, o sul da França volta a se transformar em um dos principais epicentros das artes cênicas do mundo com a 80ª edição do Festival de Avignon, sob a direção do português Tiago Rodrigues. À frente do evento desde 2023, ele propõe um método: "fazer perguntas", "sustentar dúvidas" e "recusar respostas fáceis" num tempo de "discursos violentos". É também o retorno de Wagner Moura aos palcos, um reencontro com o teatro que acontece no maior festival do gênero no mundo. A imagem escolhida para o cartaz oficial desta edição do Festival de Avignon sintetiza a intenção de Tiago Rodrigues: um enorme ponto de interrogação. Tiago Rodrigues explica que “o questionamento foi uma forma bastante livre de nós darmos um tema a este festival, de relembrarmos o público que este festival faz muito trabalho sobre a sua história, sobre o seu arquivo, ao chegar à 80ª edição, queria estar muito concentrado também no presente e no futuro, e perguntar, agora, o que é que vamos fazer nos próximos 80 anos de festival? Essa é uma das perguntas que nos interessa”. A proposta, segundo ele, não é retrospectiva, mas prospectiva, um deslocamento do olhar para o que ainda pode ser construído. Esse gesto se desdobra na própria definição do papel do festival. Para Rodrigues, trata-se de “fazer perguntas juntos, mas fazer perguntas através da arte”, lembrando que “é isso que o festival faz há 80 edições e queríamos relembrar-nos nós, os artistas, mas também o público, que é isso que nós fazemos aqui num mundo onde estamos cheios de más respostas, poucas respostas, mas más na maioria dos casos, respostas violentas, respostas simplistas, respostas pouco informadas”. Leia tambémDezenas de igrejas se convertem em teatros na 'Cidade dos Papas' durante o Festival de Avignon Nesse contexto, o festival se coloca como espaço de fricção e elaboração coletiva, onde “queremos colocar as boas perguntas, perguntas às vezes complexas, perguntas também com prazer, perguntas com dúvida, perguntas que permitam o debate em vez de respostas que criam a violência”, já que, segundo ele, “as artes podem ter esta função e certamente um festival onde vêm pessoas do mundo inteiro e se reúnem numa cidade que dobra a sua população no momento do festival para acolher o mundo inteiro que a visita. Esse é o momento em que podemos fazer perguntas juntos”. Leia tambémWagner Moura estreia em maior encontro de artes cênicas do mundo ao lado de destaques da cena brasileira A dimensão política dessa proposta se articula também a uma reflexão sobre o acesso à cultura. Rodrigues afirma que “o acesso democrático às artes não é um exercício populista, uma flor que se põe na lapela nos dias de festa. É um trabalho quotidiano que deve permitir o acesso fácil à criação exigente, criação de grande qualidade, feita em liberdade e à qual todas e todos devem ter acesso”. E conclui: “se fosse fácil, não era um serviço público, é um serviço público, a cultura, porque não é fácil de fazer. É preciso tempo, é preciso investimento e é preciso sonhar”. É nesse cenário que a presença brasileira ganha centralidade nesta edição histórica. Entre os destaques está a diretora e dramaturga Christiane Jatahy, que retorna ao festival com um novo trabalho - Um Julgamento - Depois de O Inimigo do Povo - ao lado do ator Wagner Moura, com texto de Jatahy, Moura e Lucas Paraizo, marcando também o retorno do ator ao teatro, após 16 anos dedicados ao cinema e à televisão, período em que se tornou uma das figuras brasileiras de maior projeção internacional. Ao comentar o retorno de Jatahy ao festival, Rodrigues sublinhou a relação de longa data entre a artista e Avignon, bem como a força do novo projeto que ela apresenta ao lado de Wagner Moura. Segundo ele, “Christiane Jatahy é já uma artista muito amada pelo público do festival, muito conhecida em França, uma encenadora que também é muito conhecida do público lusófono, seja no Brasil, seja em Portugal, e que tem marcado as cenas europeias nos últimos anos com as suas adaptações do repertório”. Rodrigues destaca ainda o caráter inédito da parceria artística apresentada nesta edição: “desta vez, pela primeira vez, trabalha com Wagner Moura, que decide voltar ao teatro 16 anos depois. Ele tem vivido a sua aventura cinematográfica e televisiva e neste momento é talvez o ator brasileiro mais conhecido no mundo”. Para o diretor, o reencontro de Moura com o palco tem um peso simbólico particular, sobretudo pela forma como se articula com o trabalho da encenadora brasileira. Sobre o projeto, Rodrigues reforça a dimensão de retorno ao essencial do ofício do ator: “é muito comovente ver Wagner Moura a regressar ao teatro com essa vontade de quem regressa à essência do trabalho de ator”. De volta ao festival Jatahy descreve esse retorno a Avignon como profundamente significativo, especialmente por ocorrer sob a direção de Rodrigues. Ela afirma que “é muito importante, muito legal pra mim e muito significativo estar voltando para Avignon agora sob a direção do Tiago Rodrigues, que é um artista que eu tenho muita relação, um amigo e alguém que eu respeito muito, e eu fico muito feliz de estar dentro da programação criada por ele e pela Magda [Bizarro, mulher do diretor e co-fundadora, a seu lado, da Cia Mundo Perfeito]”. Para a diretora, o contexto atual amplia ainda mais o alcance simbólico de sua participação, já que “essa volta está conectada também à união de três festivais, o Festival de Avignon, o Festival de Edimburgo e o Holland Festival, que escolheram este ano uma artista, um trabalho para apoiar e para juntar forças para que esse trabalho possa ter sido realizado”. Leia tambémTeatro: Christiane Jatahy revisita fantasmagorias de 'Hamlet' em Paris com seu maquinário de revolução e desejo No centro da criação está o reencontro artístico com Wagner Moura, que, segundo ela, carrega uma longa expectativa compartilhada: “vem também com uma outra parceria muito significativa com ele, que é um ator com quem eu tenho uma relação de muito tempo e é muito tempo que a gente deseja fazer um trabalho juntos”. O projeto nasce dessa convergência, como ela define, “é um trabalho muito sobre o nosso encontro e sobre as coisas que a gente tem vontade de falar”. A peça, que se estrutura em torno da ideia de julgamento e da "crise contemporânea da verdade", parte de uma inquietação contemporânea sobre verdade e política. Jatahy explica que “a gente entra na questão do julgamento, a gente leu muitas coisas, a gente pensou muitas coisas, e para mim sempre é muito importante que o trabalho esteja numa reflexão, numa conexão, lançando perguntas sobre o que a gente está vivendo hoje”. Ela acrescenta que “claro que é sempre um aspecto íntimo e pessoal, mas também é político, porque não tem como separar uma coisa da outra”, situando o trabalho num campo em que a criação artística se confunde com a leitura crítica do presente. Essa dimensão se radicaliza na própria estrutura dramatúrgica da peça, que se relaciona diretamente com a obra “O Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Jatahy descreve o projeto como “um desdobramento de O Inimigo do Povo, uma possibilidade de continuidade dessa peça”, como se o personagem Thomas Stockmann “fosse à cena, fosse ao teatro, pedir a possibilidade de ter a sua defesa e de ter a sua reparação, e essa decisão vai caber ao público”. Nesse movimento, a obra transforma o espectador em instância de julgamento, deslocando o eixo tradicional da representação teatral. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A outra grande presença brasileira no festival é a artista e encenadora Carolina Bianchi, que retorna a Avignon após sua revelação em 2023. Agora, ela apresenta o terceiro capítulo de sua trilogia “Cadela Força”, intitulado “Uma Luz Cordial”, além de propor uma maratona que reúne os três trabalhos em sequência. Diretora brasileira lançada pelo festival volta a Avignon Ao lado desse reencontro, o diretor Tiago Rodrigues também destacou o percurso de Carolina Bianchi, que regressa a Avignon após o impacto de sua participação em 2023. Rodrigues relembra a presença e o desdobramento internacional da artista: “o que aconteceu a seguir é do conhecimento geral, Carolina Bianchi depois desse espetáculo ganha o Leão de Prata da Bienal de Veneza, torna-se uma artista que faz todas as cenas europeias e mundiais, é revelada por esse festival”. Sobre o novo projeto apresentado no festival, o diretor destaca a ambição dramatúrgica da artista brasileira: “ela sonhava fazer uma trilogia com três espetáculos consagrados à questão da violência, sobretudo da violência contra as mulheres”. Bianchi define esse retorno como o fechamento de um ciclo longo de investigação: “é muito, muito emocionante estar voltando para Avignon, sobretudo encerrando a trilogia, chegando em julho para estrear o último capítulo desse grande ciclo, que tomou muitos anos de trabalho, de estudos e de investigação”. Ela descreve a estrutura do projeto como algo em constante expansão, no qual “são três peças independentes, mas que são atravessadas por perguntas que vão se acumulando, que vão se borrando, que vão se confundindo, voltando, gerando novas questões”, configurando um campo de criação em que as fronteiras entre obras se tornam porosas. O novo capítulo, explica ela, desloca o foco para o próprio ato de escrever. “Uma Luz Cordial é uma peça sobretudo sobre a escrita, sobre esse lugar de onde a gente escreve”, afirma, acrescentando que se trata de um trabalho que poderia inclusive anteceder os demais, pois