Rendez-vous cultural

Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

  1. 4 days ago

    Fotografia brasileira ganha destaque na 57ª edição dos Encontros de Arles

    A cidade de Arles, no sul da França, se prepara para mais uma temporada como vitrine privilegiada da fotografia mundial. Sob o tema "Mundos para reler", são mais de 40 exposições espalhadas pela cidade, conhecida por importantes monumentos romanos e que também serviu de inspiração para Van Gogh. Os Encontros de Arles acontecem de 6 de julho a 4 de outubro. Patrícia Moribe, em Paris Na programação oficial, o fotógrafo carioca Gui Christ participa da coletiva "Nous ne sommes pas seuls – Images extraterrestres" (Não estamos sozinhos – Imagens extraterrestres). Apresentada na seção Croisière, a mostra tem curadoria de Philippe Baudouin e explora a "cultura da dúvida visual" por meio de arquivos da NASA e de obras contemporâneas que investigam o fenômeno dos OVNIs. Gui Christ contribui com imagens realizadas no Vale do Amanhecer, um complexo espiritual próximo a Brasília que reúne doutrinas de diferentes tradições em um cenário visualmente instigante, semelhante a um parque temático futurista e místico. "Fiz esse trabalho para a National Geographic em 2018. O Vale do Amanhecer é uma religião brasileira fundada por Tia Neia, uma médium, na década de 1960 em Planaltina, Goiás. É uma religião que possui uma característica muito presente na religiosidade brasileira, a capacidade de reunir diferentes tradições espirituais, diferentes formas de compreender o mundo", explica. "Dentro dessa religião, convivem referências do cristianismo, do espiritismo, dos saberes indígenas, de religiões afro-brasileiras e também a crença em extraterrestres. Mais do que fotografar a religião e as pessoas, o que me interessou foi entender como a fotografia pode tornar visíveis mundo que existem para além do olhar ocidental", acrescenta Gui Christ. Na categoria Prêmio Descoberta Fondation Louis Roederer 2026, o laboratório La.Ima, coordenado em Paris por Ioana Mello e Oleñka Carrasco, apresenta o trabalho do senegalês Souleymane Bachir Diaw. Sua série, intitulada "Sutura", será exibida no espaço Monoprix e investiga as "verdades não ditas" presentes nas estruturas patriarcais. Segundo a curadora Ioana Mello, o projeto aborda a masculinidade no Senegal e como ela "se revela dentro da estrutura patriarcal familiar e no deslocamento do artista, que hoje mora em Paris; de como ele vê essas verdades a partir desse novo olhar, desse novo contexto". Utilizando tecidos e imagens performáticas, a obra propõe uma "reparação das feridas íntimas e sociais". No festival Arles OFF, Carolina Arantes apresenta "First Generation". Com curadoria de Denise Camargo e Azu Nwagbogu, a mostra é resultado de uma pesquisa sobre mulheres francesas de ascendência africana. O projeto reúne depoimentos e entrevistas das mulheres retratadas, com design sonoro de Isadora Dartial e mixagem de Sulivan Clabaut. "O trabalho é sobre como essa identidade vai sendo construída por meio da vida privada delas, no cotidiano. É sobre como o espaço público da história de um país e a vida pessoal dessas mulheres se encontram nesse processo de construção de uma França contemporânea", explica Carolina Arantes. A exposição combina esses registros sonoros a retratos íntimos, arquivos de família e fotografia documental, criando um mosaico das pessoas que definem a nova geração da sociedade francesa. A Associação Iandé, organização francesa que estabelece pontes entre a fotografia brasileira e a Europa, organiza exposições imersivas de artistas brasileiras sob o tema "Os Arquivos e o Íntimo", com curadoria de Gláucia Nogueira e Jonathan Pierredon. "A partir de arquivos pessoais, Rochelle Zandavale, Melissa Flores e Luciana Petrelli constroem narrativas onde a memória vira imagem e o privado conversa um pouco a história coletiva. Também há uma série chamda 'I've Never Been to Japan', que fala sobre a imigração japonesa no Brasil a partir de arquivos pessoais. É uma forma também de celebrar o bicentenário da fotografia", explica Gláucia Nogueira. Retrospectivas e atividades paralelas A 57ª edição do festival propõe uma imersão em narrativas que atravessam o continente africano e a região do Mediterrâneo para questionar identidades e histórias. Além dos destaques individuais, o evento reúne grandes nomes da fotografia contemporânea e histórica, como Omar Victor Diop e Lee Shulman (com o projeto The Anonymous Project – Being There), Clément Cogitore (Memory Palace), além de mostras dedicadas a Paul Kodjo, Rebekka Deubner e Orianne Ciantar Olive. Há também novas releituras de nomes consagrados, como William Klein e Harry Gruyaert. O festival organiza ainda uma ampla programação paralela voltada tanto para profissionais quanto para amadores, incluindo leituras de portfólios, prêmio de edição, feira de livros, além de debates e conferências.

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  2. 19 Jun

    Exposição em Paris traz o design barroco, colorido e elaborado do estilista Gianni Versace

    Com cerca de 450 peças entre roupas, acessórios, desenhos, fotografias, vídeos e documentos, o Museu Maillol, em Paris, apresenta uma retrospectiva dedicada ao estilista italiano Gianni Versace. A mostra reúne criações produzidas entre as décadas de 1970 e 1990 e traça um panorama da trajetória de um dos estilistas que ajudaram a definir a moda das décadas de 1980 e 1990. Patrícia Moribe, da RFI em Paris Nascido na Calábria, no sul da Itália, em 1946, Versace incorporou referências da cultura greco-romana à sua obra. A Medusa, transformada em símbolo da marca, é um dos exemplos mais conhecidos. Suas coleções também dialogaram com o barroco, a arte clássica e a cultura pop. Ao longo da carreira, o estilista manteve relações próximas com artistas como Elton John, Prince, Madonna e Sting, além de vestir personalidades como a princesa Diana. A mostra em Paris tem um significado particular. Foi na capital francesa que Versace passou a exibir regularmente suas coleções de alta-costura, fazendo da cidade um dos principais palcos de seu trabalho. A mostra também recupera a relação do estilista com a cena cultural parisiense, reunindo fotografias, documentos e peças associadas aos desfiles e eventos que marcaram sua passagem pela cidade. Pensada como uma grande passarela, a exposição percorre duas décadas da produção de Versace por meio de um acervo reunido por colecionadores privados. Distribuída em 11 núcleos temáticos, a mostra aborda temas como a influência da cultura greco-romana, o barroco, a cultura das celebridades, o fenômeno das supermodelos, as estampas de seda que se tornaram uma de suas marcas registradas e suas incursões pelo teatro e pela dança. A retrospectiva foi concebida pelos curadores Saskia Lubnow e Karl von der Ahé, que desenvolvem o projeto desde 2017. Segundo Von der Ahé, a importância de Versace está na combinação entre a criatividade do estilista e as condições oferecidas pela indústria italiana naquele período. "Ele tinha acesso a um conhecimento extraordinário em áreas como tecelagem, estamparia, joalheria e produção têxtil. Conseguiu reunir esses recursos com uma compreensão muito clara das transformações sociais e culturais de seu tempo", afirmou à RFI. "Foi a era de ouro da moda italiana. Havia designers ambiciosos e uma infraestrutura muito forte, especialmente no norte da Itália." Para o curador, Versace soube traduzir mudanças sociais em linguagem visual. "Ele combinou as vantagens tecnológicas que existiam na Itália com sua capacidade de compreender a sociedade e as transformações no design." Mostra independente Diferentemente de mostras institucionais ligadas a grandes marcas, com o objetivo de autopromoção, a mostra em Paris foi construída sem participação da empresa Versace ou da família do estilista. Von der Ahé conta que procurou a companhia ainda em 2016, quando o projeto começou a ser desenvolvido. "A resposta foi que eles não interfeririam em atividades privadas envolvendo peças de coleções particulares", afirma. Para o curador, a independência é um elemento central da proposta. "Não temos nada a ver com o mercado da moda e não dependemos de estratégias de marketing ou da imagem da empresa", explica. "Falamos de Gianni Versace como uma figura histórica. Nunca tratamos do período posterior à sua morte, em 1997." O acervo foi reunido a partir de uma rede internacional de colecionadores, ex-clientes e antigos colaboradores do estilista. "Temos centenas de peças completamente independentes do arquivo Versace", diz Von der Ahé. "Isso nos permite construir cada exposição com novos recortes, novas peças e narrativas atualizadas." Entre os empréstimos estão roupas adquiridas por antigos clientes, peças compradas diretamente dos desfiles e arquivos preservados por profissionais que trabalharam com o estilista em Milão. Nos últimos anos, os próprios organizadores também passaram a adquirir peças para ampliar o acervo. "Há um ou dois anos começamos a comprar peças importantes em diferentes partes do mundo", acrescenta o curador. O estilista calabrês morreu assassinado diante de sua mansão em Miami, em 1997.  A retrospectiva Gianni Versace está em cartaz no Museu Maillol, em Paris, durante todo o verão europeu.

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  3. 12 Jun

    Cinco vozes contra o machismo: grupo 'Wild Wild Women' redefine espaço da mulher no rap indiano

    Um coletivo feminino de rap vindo da Índia começa a romper uma das barreiras mais persistentes da música urbana no país: o domínio masculino. Com cinco vozes em cinco línguas, o Wild Wild Women transforma a experiências de exclusão em matéria artística e projeta, inclusive fora da Ásia, um movimento ainda raro por lá — o de mulheres que não pedem espaço, mas o ocupam. Com informações de José Marinho, enviado especial da RFI à Ilha da Reunião Em um país onde o hip-hop por muito tempo permaneceu um espaço masculino, elas escolheram ocupar o microfone. Wild Wild Women, “as mulheres indomáveis”, chegam da Índia com cinco vozes, cinco trajetórias e cinco línguas. Hindi, marathi, tâmil, canarês e inglês: o rap delas atravessa fronteiras ao mesmo tempo em que desafia estereótipos. O hindi é a língua mais falada do país. O marathi marca a região de Mumbai, onde o grupo nasceu. O tâmil e o canarês vêm do sul da Índia, com identidades culturais muito próprias. E o inglês funciona como ponte das garotas com o mundo. Grande revelação da 22ª edição do Sakifo — festival internacional realizado na Ilha da Reunião, território francês no oceano Índico, próximo à África —, essas artistas de 24 a 32 anos formam o primeiro coletivo feminino de rap indiano. A poucas horas do encerramento do evento, no sábado (7), elas transformaram o microfone em território de conquista. Leia tambémNova geração de mulheres do rap francês rouba a cena com 'feminismo pop' Revelação Revelação do festival, elas representam um movimento ainda emergente na Índia, onde a cena do rap se expandiu rapidamente nas últimas duas décadas, mas continua marcada por desigualdades de gênero. É difícil acreditar ao vê-las empolgar o público na cidade de Saint-Pierre, no sul da ilha. E, no entanto, o Wild Wild Women existe há apenas alguns anos. Por trás da energia explosiva e da segurança exibida no palco, existe uma história de resistência. É o que lembra Pratika: “Quando íamos a batalhas de rap e eventos de hip-hop na Índia, havia muito poucas mulheres no palco. E as que estavam lá não eram levadas a sério. Todas enfrentavam alguma forma de exclusão vinda dos homens. Então, em vez de esperar que nos dessem um espaço, nós ocupamos o nosso. Foi assim que nasceu o nosso coletivo feminino, o Wild Wild Women.” “Nossas músicas contam essa realidade” O grupo nasceu em Mumbai, capital econômica da Índia e megacidade com mais de 12 milhões de habitantes. "Uma cidade de promessas, mas não para todos", explica Hashtag Preeti.“Mumbai é a cidade dos sonhos onde convivem diferentes culturas. Mas, para jovens mulheres como nós, a liberdade muitas vezes vem acompanhada de problemas", disse à RFI. "Desde a infância, precisamos negociar nosso espaço, nossa aparência, nossa liberdade com os homens. Nossas músicas contam essa realidade: resiliência, pressão familiar, o corpo feminino, segurança, identidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, colocamos humor e alegria em nosso sofrimento para mostrar a mulher indiana de outra forma, não apenas como vítima ou em luta constante”, explica a artista. Wild Wild Women abre caminho para outras mulheres No palco e fora dele, o Wild Wild Women desafia uma ordem estabelecida que até então as excluía. Um sintoma que revela muito sobre os preconceitos ainda presentes na Índia, segundo MC Mahila, “a reação dos homens ao nosso grupo foi mista".  Leia tambémJuste Shani consolida ascensão no rap francês com técnica e feminismo "Mas também encontramos aliados no hip-hop indiano", sublinha a MC. "A música nos permitiu enxergar os desafios que as mulheres enfrentam em ambientes muito patriarcais. Como somos uma novidade feminina no universo do rap indiano, nosso sari rosa e nosso visual com tênis às vezes chamam mais atenção do que nossas músicas. Não tem problema. Todas essas histórias se tornam material valioso para nossas composições. E estamos avançando. Hoje há mais mulheres interessadas em hip-hop do que antes. Ainda há muito a fazer, claro. Mas vir a um palco internacional para levar a voz das mulheres indianas já é um pequeno sinal de mudança”, conclui. O festival terminou em 7 de junho de 2026. Mas algumas vozes continuam ecoando, dentro e fora da cena do rap mundial, como as das meninas selvagens de Mumbai.

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  4. 5 Jun

    Em tempos de guerras e conflitos, amor é o tema da Nuit Blanche, a 'noite em claro' de Paris

    Sob o signo do amor, Paris realiza neste final de semana a tradicional Nuit Blanche, ou “noite em claro”, com exposições, performances e instalações efêmeras na madrugada de sábado (6) para domingo (7). O evento acontece sob a égide do novo prefeito socialista de Paris, Emmanuel Grégoire, e celebra seus 25 anos com uma programação gratuita espalhada por toda a capital francesa, em museus, monumentos, espaços públicos e locais normalmente fechados ao público. Patrícia Moribe, da RFI em Paris A concepção artística desta edição foi confiada à DJ e produtora cultural Barbara Butch, nome conhecido da cena cultural parisiense, que escolheu o amor como eixo central da programação. "Num mundo marcado por relações de força, escolher o amor é um ato de compromisso", afirma a diretora artística. A proposta é transformar a cidade em um espaço de encontros e trocas, reunindo mais de uma centena de projetos artísticos em diferentes pontos da capital francesa. Barbara Butch também aparece no cartaz oficial do evento, fotografada pela dupla francesa Pierre e Gilles. Entre as exposições da Nuit Blanche 2026 está "Falando de Amor", que reúne trabalhos de 14 estudantes da Escola de Belas-Artes de Paris no Espace Niemeyer, sede histórica do Partido Comunista Francês projetada pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. A inspiração, explica a curadora independente Virginie Pringuet, nasceu da canção homônima de Antonio Carlos Jobim. Segundo ela, a escolha do título busca homenagear a amizade entre Niemeyer e o compositor brasileiro. A mostra foi concebida como um diálogo com a arquitetura do edifício e procura destacar a visão humanista e inovadora do arquiteto. E por falar de amor Criada especialmente para o local, a exposição apresenta esculturas, instalações sonoras e performances que utilizam a arquitetura modernista como ponto de partida. "Os estudantes observaram o prédio de muito perto, por dentro e por fora, explorando a cúpula, os jardins, as salas de reunião e os detalhes da construção", relata Pringuet. As intervenções ocupam principalmente o nível subterrâneo do edifício, uma área pouco conhecida pelo público. Segundo a curadora, as obras exploram o encontro entre linhas curvas e retas para propor uma experiência sensorial da arquitetura, destacando elementos como o concreto, a luz e os volumes do espaço. O percurso convida os visitantes a redescobrir uma das obras mais conhecidas da arquitetura brasileira em Paris durante a Nuit Blanche. Outro destaque da programação é "Sirénocturne", da artista francesa Annette Messager, apresentada na Piscine Château-Landon, antiga piscina pública do 10º distrito. Conhecida por trabalhos que abordam temas como memória, identidade e imaginário feminino, Messager transforma o espaço por meio de sons de sereias e intervenções visuais que dialogam com a água, a noite e o universo dos sonhos.  A programação inclui ainda instalações como "Liquid Mirror", de Mathias Kiss, no Petit Palais; "La Déclaration", proposta participativa conduzida por Barbara Butch diante do Hôtel de Ville; e "On s'aime" ("Nós nos amamos"), projeto audiovisual construído a partir de depoimentos e declarações de amor coletados entre moradores de Paris e da cidade portuária de Le Havre. Aniversário especial A edição de 2026 tem um significado especial por marcar os 25 anos da Nuit Blanche, criada em 2002 e posteriormente adotada como referência para eventos semelhantes em diversas cidades ao redor do mundo. O aniversário oferece uma oportunidade para refletir sobre a evolução da iniciativa, que nasceu com o objetivo de ampliar o acesso à arte contemporânea e se tornou um dos eventos culturais mais conhecidos de Paris. Mais do que uma sequência de exposições, a Nuit Blanche mantém a proposta de ocupar lugares pouco habituais da cidade. Piscinas públicas, praças, prédios administrativos, monumentos históricos e espaços normalmente fechados ao público tornam-se cenários para intervenções artísticas durante uma única noite. Nesse contexto, tanto a Piscine Château-Landon quanto o Espace Niemeyer ganham novas leituras ao receber obras que dialogam com a memória e a arquitetura dos locais. Ao escolher o amor como tema da celebração de seus 25 anos, a Nuit Blanche também procura dialogar com um contexto internacional marcado por guerras, tensões e polarização. A curadoria defende a arte como espaço de encontro e imaginação coletiva, reunindo artistas consagrados, jovens criadores e milhares de visitantes esperados para percorrer Paris durante algumas horas da madrugada.

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  5. 22 May

    Cem anos sem Monet: vilarejo francês que reinventou a pintura revisita nascimento do impressionismo

    No centenário da morte de Claude Monet, a França transforma Giverny, famoso vilarejo da Normandia que abrigou o pintor, em palco de revisões críticas sobre o nascimento do impressionismo. A exposição Antes das Ninféias: Monet descobre Giverny (1883–1890) desloca o foco das telas consagradas para o risco e as escolhas de um artista que rompeu com o academicismo. A mostra revela como paisagem, luz e técnica redefiniram a pintura moderna, num gesto que ainda hoje molda nosso modo de ver a arte. Há um século, morria Claude Monet, o mais famoso dos impressionistas. O pintor é homenageado em 2026 com várias exposições e eventos comemorativos que se multiplicam na França – em Paris, Le Havre e Giverny – , e também em outros países. Autor das mundialmente célebres Ninféias (série de pinturas de vitórias-régias e jardins aquáticos), ele sucumbiu em 5 de dezembro de 1926 a um câncer de pulmão. Monet fumava muito e era conhecido por manter hábitos alimentares bastante particulares – costumava comer andouillette no café da manhã, um tipo de embutido tradicional francês feito com tripas de porco ou de boi, acompanhado de uma taça de vinho branco. Ele morreu, aos 86 anos, em seu ateliê-jardim em Giverny, cercado por suas últimas telas e pelas flores que tanto amava. “Ele cai literalmente entre suas obras e o jardim, que era ao mesmo tempo espaço de vida e de trabalho”, observa Marie Delbarre, assistente de pesquisa do Museu dos Impressionismos de Giverny e co-curadora da mostra. Para ela, o dado biográfico não é anedótico, mas ajuda a entender a "fusão radical entre arte e natureza" que define Monet. Delbarre lembra que o pintor convivia com excessos e possuía uma notória instabilidade emocional. “Era alguém extremamente determinado, mas atravessado por momentos reais de desespero”, afirma, citando cartas em que Monet relata humilhações financeiras e até uma tentativa confusa de suicídio – por afogamento, sendo que ele era exímio nadador. Longe do gênio sereno das reproduções de calendário, emerge em Giverny um artista tenso, obsessivo e muito exigente consigo mesmo. Temperamento explosivo Esse temperamento explosivo também deixava marcas físicas. “Quando não estava satisfeito, ele destruía telas a golpes de bota ou queimava pinturas no jardim”, conta Delbarre. A fúria não era teatral, mas fazia parte de um método em que nada podia sobreviver sem atender ao rigor absoluto da luz certa. Para Marie Delbarre, há um consenso fundamental quando se observa a obra de Claude Monet: mais do que buscar uma reprodução fiel da realidade, o pintor se empenhou em apreender os efeitos da luz natural. “Essa foi a grande paixão de Monet, à qual ele dedicou toda a vida”, afirma. Definir o impressionismo, no entanto, é tarefa menos simples. Segundo ela, trata‑se de um movimento que não nasceu de um manifesto artístico, como ocorreu com o futurismo. "O grupo reunia personalidades artísticas muito distintas, o que torna difícil formular uma definição única e rigorosa que dê conta, ao mesmo tempo, de Monet e de seus pares", afirma. O que foi, afinal, o impressionismo Definir o impressionismo nunca foi, de fato, simples. “Não é um movimento teorizado pelos artistas”, explica Delbarre. O termo nasce do olhar crítico – muitas vezes hostil – de jornalistas e comentaristas da época, a partir do quadro Impression, soleil levant (1872), onde Monet representa o porto de Le Havre, cidade francesa onde o artista passou a infância. Mais do que um programa, havia afinidades e tensões entre personalidades muito diferentes. Monet, Renoir, Degas e Caillebotte nem sempre pintavam a mesma coisa. “Com Monet, o paisagem é central; com Renoir, as figuras humanas ocupam outro lugar”, diz a curadora. O ponto comum estava na recusa ao modelo acadêmico e na aposta na experiência direta do mundo visível, sem idealizações históricas ou mitológicas. Vale lembrar que até meados do século XIX, a grande pintura europeia exaltava cenas bíblicas, heróis antigos e narrativas literárias. O impressionismo rompe esse pacto. “Eles pintam o lazer moderno, o trem a vapor, a cidade, o campo visto como campo”, sintetiza Delbarre. A luz como problema central Se há um eixo incontornável no impressionismo, trata-se da luz. “Captar os efeitos da luz natural foi a grande paixão de Monet, à qual ele dedicou a vida inteira”, afirma a pesquisadora. Isso explica tanto as séries – como catedrais, fardos de feno ou, depois, as Ninféias – quanto a obsessão por pintar sob condições específicas, às vezes impraticáveis. As cores chocavam. “Eram mais puras, mais vivas, com uma pincelada visível que antes ficava restrita ao esboço”, explica Delbarre. Aos olhos dos contemporâneos, parecia descuido ou afronta. “O público recebia aquilo como um balde de tinta no rosto”, diz, sem exagero. Vista hoje em museus, a pintura impressionista ainda se impõe. “Quando colocada ao lado de uma obra acadêmica, parece irradiar luz da parede”, observa a curadora. O efeito não era acidental, mas fruto de uma escolha técnica e estética coerente. Fora do Salão de Arte, contra o sistema Ser recusado pelo Salão oficial de Paris significava quase desaparecer. “Era praticamente o único meio de se tornar conhecido por público e colecionadores”, lembra Delbarre, ao se referir à principal exposição artística organizada pela Academia francesa desde 1667, que ditava o gosto oficial e consagrava carreiras entre os séculos XVIII e XIX. Monet e seus amigos sabiam o risco que corriam ao desafiar o júri, dominado por professores ligados ao neoclassicismo. A pintura ao ar livre era vista como heresia. “Uma inconsistência total”, resume ela. Herdada em parte da Escola de Barbizon, pioneira na prática de pintar ao ar livre, valorizando paisagens comuns, campos, florestas e a vida rural, essa prática ganhava com Monet e seus pares um grau de radicalidade inédita, tanto pelo tema quanto pela execução. Um detalhe técnico foi decisivo: o tubo de tinta industrial. “Antes, pintar a óleo fora do ateliê era quase impossível”, explica Delbarre. Com o novo suporte portátil, a pintura pôde finalmente acompanhar o tempo, o vento e a mudança da luz – fatores centrais para a revolução impressionista. De Giverny ao mundo A exposição mostra justamente o momento em que esse caminho se consolida. Ao se instalar no pequeno vilarejo da Normandia, Monet encontra um laboratório a céu aberto. “É ali que ele começa a organizar a vida em função da pintura”, afirma Delbarre. Para além do encanto turístico, Giverny foi um campo de batalha estética. As escolhas feitas ali – de motivo, técnica e método – moldaram não apenas a obra tardia de Monet, mas a própria noção de pintura moderna. Cem anos depois, revisitar esse processo ajuda a separar o clichê do risco original que ainda sustenta o impressionismo. A mostra Antes das Ninféias: Monet descobre Giverny (1883–1890) fica em cartaz em Giverny até o dia 5 de julho de 2026.

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  6. 14 May

    Participação do Brasil na seleção de Cannes é discreta, mas expressiva no Mercado do Filme

    Até o próximo dia 23 de maio, as atenções dos cinéfilos do mundo todo se voltam para o Festival de Cinema de Cannes. A participação do Brasil neste ano é bem mais discreta do que em anos anteriores. Nenhum longa brasileiro foi selecionado, mas o curta Laser-Gato, de Lucas Acher, representa o país na mostra La Cinef. Adriana Brandão, enviada especial a Cannes O Brasil está presente neste ano no Festival de Cannes em quatro coproduções de longas-metragens. Paper Tiger, do veterano diretor americano James Gray, é produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos latino-americanos mais influentes de Hollywood. O thriller, estrelado por Adam Driver e Scarlett Johansson, concorre à Palma de Ouro. Na seleção Um Certo Olhar, voltada ao cinema emergente, o nepalês Elefantes na Névoa também é coproduzido pelo Brasil, assim como Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, do diretor mexicano Bruno Santamaría Razo, que integra a mostra paralela Semana da Crítica. O ator Selton Mello estará nas telas de Cannes como protagonista de La Perra. O longa da chilena Dominga Sotomayor estreia na seleção paralela Quinzena dos Cineastas. O paulistano Lucas Acher é o único cineasta do país selecionado. O curta-metragem Laser-Gato será exibido na mostra La Cinef, dedicada a filmes de escolas de cinema. Cinema do Brasil Como todos os anos, o Brasil marca presença no importante Mercado do Filme do Festival. Depois de ser o país convidado de honra no ano passado, mais de 200 profissionais, entre produtores e cineastas, além de várias instituições públicas e privadas, voltam a Cannes em busca de parcerias de produção e distribuição. A participação brasileira é organizada pelo Cinema do Brasil, programa de internacionalização do setor em parceria com a Apex, com apoio da Spcine e da RioFilme. A novidade deste ano é a “Matinée Brésil”, uma manhã inteira de debates e encontros, na segunda-feira (18), dedicada a mostrar como o país está se posicionando em relação ao cinema e ao audiovisual. “O que a gente está tentando consolidar é manter constante esse bom momento do cinema nacional que alcançamos, para poder aproveitá-lo por um longo período, evitando aqueles ciclos viciosos que existem no Brasil, com rupturas nas políticas públicas e na promoção do que se faz no país, dos nossos filmes e das nossas séries”, afirma Leonardo Edde, diretor-presidente da RioFilme. Ele avalia que, apesar da presença discreta do Brasil nas seleções competitivas de Cannes, o cinema brasileiro vive um bom momento. “Este ano tivemos uma participação pequena aqui em Cannes, ao contrário do ano passado, quando houve grande presença. Mas isso também se deve às quebras de ciclos nas políticas públicas. Muitas vezes, sentimos os efeitos disso apenas anos depois. Estamos vivendo momentos de glória por um lado, mas ainda enfrentamos os resquícios da crise da última gestão federal.” Leonardo Edde reforça que a participação no Mercado do Filme de Cannes, considerado o centro da produção cinematográfica mundial, “visa manter o cinema nacional no cenário global”. Elogios e críticas Apesar de elogiarem a política pública de cinema desde a criação da Ancine, que permitiu sucessos mundiais como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, alguns produtores presentes em Cannes reclamam da má distribuição de verbas no setor. A veterana Sara Silveira frequenta o Mercado do Filme de Cannes há mais de 20 anos. Nesta edição, participa com três filmes e um projeto. Ela pede mais apoio ao cinema autoral brasileiro. “Estou com 76 anos, sou uma produtora brasileira extremamente ativa, tenho muita vitalidade e tenho encontrado dificuldades para captar recursos para o meu cinema de porte médio, que é o cinema básico brasileiro, que faz história e diz o que precisa ser dito. Nosso cinema precisa ser reconhecido. É esse cinema de autor que forma a base”, salienta. Sara Silveira defende mais “dividendos, força e coragem” para esse tipo de cinema: “Para que possamos realizá-lo e trazer o Brasil para essas telas (de Cannes), é preciso que esse dinheiro, que é do próprio setor, seja revertido e volte para nós, sendo melhor gerido e distribuído.” Emocionada, ela também pede maior inclusão. “Há jovens, pessoas de meia-idade e também há o etarismo — eu sou etária. Quero que reconheçam a minha força. Quero ter energia, modernidade e a liberdade de fazer cinema em todas as idades, com todos os gêneros. Isso é fundamental para mim: inclusão. Contem comigo. Sou uma militante da arte e do cinema brasileiro”, afirma. Para o produtor Lucas Pelegrino, o grande problema é a imprevisibilidade dos editais. “A principal reclamação é que fazemos reuniões, fechamos acordos, o parceiro capta a parte dele, e nós, no Brasil, ficamos sem recursos porque não sabemos quando os editais serão abertos, o que nos impede de nos posicionar adequadamente. Foi o que aconteceu comigo: no ano passado tivemos reuniões, mas os editais que esperávamos não foram lançados”, conta. Segundo o jovem produtor de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, essa indefinição enfraquece os brasileiros. “Perdemos credibilidade na hora de negociar projetos. É mais uma questão de organização de prazos do que de dinheiro. Existe um volume considerável de recursos, especialmente no fundo setorial, além da Lei Aldir Blanc e do ProAC em São Paulo. São mecanismos incríveis, mas falta previsibilidade, e isso pesa mais”, reforça. Lucas Pelegrino produz principalmente filmes de gênero, como fantasia e terror. Ele busca recursos em Cannes para internacionalizar o projeto A Usina Atrás do Morro, baseado na obra do autor brasileiro de realismo mágico José J. Veiga. O Mercado do Filme termina no dia 20 de maio, três dias antes do 79º Festival Internacional de Cinema de Cannes.

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  7. 8 May

    Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

    A edição de 2026 da Bienal de Arte de Veneza, que abre ao público neste sábado (9) na cidade italiana, marca um momento inédito para a arte brasileira. Pela primeira vez, três mulheres lideram o projeto do Pavilhão do Brasil. A participação nacional também é marcada pela estreia de uma curadora negra, a baiana Diane Lima, que reúne as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão. Ana Carolina Peliz, da RFI, em Paris A temática da Bienal de Veneza deste ano é In Minor Keys (Em tons menores), concebida pela curadora camaronesa Koyo Kouoh, primeira mulher negra a assumir o posto. A proposta aposta em gestos sutis, afetos, ritmos lentos e atenção ao sensível, inspirando-se na ideia musical dos “tons menores” como espaços de nuance, vulnerabilidade e resistência silenciosa. Nesse sentido, a 61ª edição da Bienal privilegia improvisação, intimidade, memória, cuidado e reparação, abrindo espaço para vozes, histórias e formas de existência que frequentemente permanecem à margem das narrativas hegemônicas. A exposição do Pavilhão do Brasil tem como título Comigo Ninguém Pode, que também é o nome de uma planta tropical conhecida na cultura popular por suas propriedades protetoras contra energias negativas. “O título veio muito de uma intenção minha de propor não um título temático, mas que trouxesse uma energia — não só no sentido do que a planta é e carrega, na sua dimensão espiritual, mas também do ponto de vista discursivo de ‘comigo ninguém pode’”, explicou Diane Lima à RFI. “O que significa ter um pavilhão do Brasil, uma representação nacional em um momento como o que vivemos, em que temos uma formação inédita, com o encontro entre duas artistas — algo inesperado — e também entre três mulheres? É a primeira vez que temos uma curadora negra e uma artista negra. Havia muito essa ideia de pensar uma união de forças que, de fato, só a coletividade e a disposição para o diálogo poderiam propor”, acrescenta. As artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão têm trajetórias consolidadas, mas repertórios e abordagens distintas, e nunca trabalharam juntas em um projeto. A exposição coloca em diálogo obras históricas de suas produções, nas quais ambas se dedicam a refletir sobre feridas e traumas coloniais, reunindo pinturas, esculturas e desenhos. “O meu maior desafio nesse projeto foi ter coragem para propor um diálogo arriscado, porque nós três nunca havíamos trabalhado juntas. Eu já havia trabalhado com a Adriana e com a Rosana, conheço bem suas pesquisas e práticas, mas, em um projeto dessa envergadura, com essa responsabilidade e visibilidade, é preciso ter ainda mais convicção sobre o que se propõe”, afirma a curadora. “Foi muito interessante entender como conseguiríamos construir esse processo de criação. Acredito que isso só foi possível graças à extrema maturidade das duas artistas — muita experiência e domínio técnico, o que traz segurança — além da vontade de dialogar e trocar.” Adaptação A edição deste ano da Exposição Internacional de Arte de Veneza vai até 22 de novembro e ocorre em diversos espaços pela cidade italiana. Entre os destaques do Pavilhão do Brasil estão 12 telas inéditas de Adriana Varejão, produzidas especialmente para a Bienal, além da instalação Tecelãs, de Rosana Paulino, criada em 2003 e agora adaptada para o espaço expositivo em Veneza. A montagem, que contou com expografia desenvolvida por Daniela Thomas, também exigiu soluções técnicas, principalmente devido à umidade da cidade italiana, que pode comprometer parte dos materiais utilizados nas obras. Segundo a curadora, o projeto dialoga diretamente com o tema da Bienal ao evidenciar o compromisso da arte brasileira com questões ligadas às minorias. “Eu acho que o Brasil tem uma responsabilidade muito grande, uma dívida impagável em relação às comunidades indígenas e negras. Essa combinação de trabalhos novos e históricos das duas artistas mostra como a nossa arte sempre esteve comprometida com esse tema. Apesar das tentativas de apagamento e invisibilização, a arte esteve à frente do seu tempo, tentando apresentar à sociedade essas reflexões e possíveis caminhos de transformação”, afirma. “É uma oportunidade única, sobretudo considerando que o Brasil vive um momento importante no cenário artístico global, não só nas artes visuais, mas também no cinema e na música. É uma chance para o público que passou a se interessar — ou que já se interessa — pela cultura brasileira conhecer melhor a nossa história e entender o quanto esses temas nos inserem, desde sempre, em um contexto global”, conclui.

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  8. 1 May

    Van Gogh, ‘influencer’? Mostra no vilarejo francês onde pintor se suicidou ecoa poder de sua obra

    Antes de se tornar um dos artistas mais influentes da história, Vincent van Gogh foi o produto de um entrelaçamento improvável de fé rigorosa, mercado de arte, boemia parisiense e um pequeno vilarejo transformado em laboratório pictórico. Uma exposição no Castelo de Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, propõe revisitar esse percurso, mostrando como religião, autodidatismo, excessos e territórios específicos moldaram um pintor que, mesmo após mais de um século, continua impossível de ser ignorado.  Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Auvers-sur-Oise Antes de se tornar um “influenciador” — termo que hoje circula livremente para designar quem molda gostos, estilos e comportamentos — Vincent van Gogh foi, ele próprio, profundamente influenciado. A exposição Van Gogh, influencer, Heranças em Movimento, em Auvers‑sur‑Oise, nos arredores de Paris, parte justamente dessa inversão de perspectiva: a mostra recua no tempo para investigar o caldo cultural, religioso e artístico que moldou o pintor antes de ele se tornar o ícone incontornável da arte moderna. Misturando facsímiles raros de obras do gênio holandês (as obras do período francês estão em sua maior parte reunidas no Museu d'Orsay, na capital francesa) e obras de artistas vivos, a mostra contempla, em efeito de espelho, os ecos da força do pintor nas gerações futuras. “Entre as primeiras influências de Vincent van Gogh, há algo que costuma ser subestimado, mas que é fundamental: a religião”, afirma Wouter van der Veen, pesquisador holandês especializado em história da arte, um dos maiores especialistas internacionais em Vincent van Gogh e diretor científico do Instituto Van Gogh, sediado em Auvers‑sur‑Oise, além de curador da exposição. “Ele nasce filho de um pastor protestante, dentro de uma tradição marcada por uma profunda desconfiança em relação às imagens”. Na Holanda do século 19, o protestantismo calvinista ainda carregava os efeitos de um longo processo de iconoclastia. A produção e o culto às imagens eram vistos, nessas comunidades, como distrações perigosas da fé considerada verdadeira. “A lógica era eliminar as representações visuais, porque elas desviariam o fiel do essencial”, observa Van der Veen. “Isso era vivido de forma bastante concreta nas comunidades de onde Van Gogh veio”. Leia tambémExposição em Paris retraça últimos meses de Van Gogh em 'vilarejo dos impressionistas' Ao mesmo tempo, a família de Vincent reunia um paradoxo social e simbólico. “Os tios de Van Gogh eram marchands de arte. Três deles atuavam no mercado, todos em um nível social elevado”, destaca o curador. Em uma mesma linhagem conviviam, portanto, o rigor moral calvinista e a circulação constante de obras de arte. “As obras passavam de casa em casa, eles se visitavam, trocavam quadros e gravuras. Vincent cresce nesse ambiente”, diz. Desde cedo, Van Gogh demonstra uma relação intensa com a imagem. “Ele recebe uma educação muito sólida, bastante rígida, mas também extremamente completa: aprende quatro línguas, literatura, cultura geral, e, naturalmente, arte”, relata o diretor científico do Instituto Van Gogh. Essa formação cria um terreno fértil. “Ele manifesta muito cedo uma inclinação artística muito clara”, afirma. O aprendizado silencioso do mercado de arte Aos 16 anos, um dos tios aceita acolher Vincent como aprendiz em sua empresa. “Ele entra no mercado de arte muito jovem”, conta Van der Veen, retomando esse período pouco lembrado da biografia do pintor. Não se trata ainda de uma vocação como artista, mas de um trabalho. “Ele não será particularmente bom como marchand, mas passa sete anos nesse meio.” Durante esse período, algo decisivo acontece. “Milhares de gravuras passam pelas mãos dele. Centenas de pinturas”, enumera o curador. Van Gogh observa, compara, memoriza. “Ele tem uma memória visual extraordinária. Tudo isso constrói o que eu chamo de seu ‘catálogo interno’.” O olhar do artista começa a se formar antes mesmo de ele considerar a possibilidade de criar. “Entre os 16 e os 23 anos, ele trabalha nesse comércio de arte sem jamais pensar em se tornar artista”, prossegue o pesquisador holandês. O contato cotidiano com imagens cria um repertório denso, silencioso, acumulado. “Quando ele olha uma imagem mais tarde, ela nunca é neutra: está sempre atravessada por tudo o que ele já viu”. Depois de anos nesse universo, surge a frustração. “Ele passa a achar o mercado de arte um pouco vazio, sem sentido”, observa Van der Veen. Vincent busca outra trajetória. “Ele decide seguir os passos do pai e se tornar pastor”. Essa tentativa ocupa quatro anos de sua vida. “Ele tenta estudar teologia, mas não consegue. Procura trabalhos como evangelizador ou pregador, e não encontra”, relata o curador. Ao final desse percurso errático, a constatação se impõe: “É então que ele se diz: não, eu sou artista”. “Ele combina três coisas fundamentais: a cultura visual acumulada ao longo dos anos, o amor pela literatura e pelas línguas, e uma vontade profunda de dar sentido à existência”, analisa Van der Veen. Dessa combinação emerge o artista que conhecemos. “Mas é importante lembrar: ele começa a pintar seriamente aos 27 anos, o que é muito tarde”. Um autodidata contra todas as regras “A formação artística de Van Gogh é, em grande parte, autodidata”, afirma o curador da mostra. “Ele não entra no ateliê de um mestre, não segue uma escola.” Frequenta cursos esporádicos, aqui e ali, mas nada se sustenta. “O problema é o caráter: ele é absolutamente impossível”. O resultado é um aprendizado solitário, feito por tentativa e erro. “A imensa maioria da formação dele aconteceu sozinho”, diz Van der Veen. Até 1885 ou 1886, Van Gogh desenvolve um estilo muito pessoal, ainda ancorado no ambiente em que vive. Leia tambémNunca exibido em público, quadro de Van Gogh é leiloado por R$ 93 milhões em Paris Até então, ele praticamente não havia saído dos Países Baixos. “É uma região com um clima específico: céu baixo, luz difusa, tons mais fechados”, descreve o pesquisador. As cores de sua chamada fase holandesa refletem isso. “São tonalidades mais cinzentas, mais terrosas, e é isso que ele explora”. A virada ocorre quando Theo, seu irmão mais novo, já estabelecido em Paris como marchand de arte, convida-o a se mudar. “Theo seguiu o caminho que Vincent abandonou: o do mercado de arte”, lembra Van der Veen. Paris, naquele final do século 19, era o epicentro da vida artística europeia — e, em muitos sentidos, mundial. Vincent aceita o convite e passa dois anos vivendo com o irmão. Na capital francesa, ele é confrontado com um universo totalmente novo. “Ele descobre as gravuras japonesas, que o marcam profundamente”, observa o curador. O japonismo era uma moda entre artistas e intelectuais parisienses, mas, no caso de Van Gogh, a paixão assume outra escala. “Ele coleciona centenas e centenas dessas estampas”. Além disso, conhece pessoalmente figuras centrais da vanguarda. “Paul Signac, Émile Bernard, Paul Gauguin, Georges Seurat”, enumera Van der Veen. E vê de perto obras de Monet, Degas, Pissarro. “Há, de um lado, a força gráfica e cromática da arte japonesa; de outro, a abordagem científica da cor, como a de Signac.” Tudo isso se mistura. “Esse conjunto de influências vai construir o estilo Van Gogh.” Montmartre: a pintura mergulha no excesso Há, porém, outra influência decisiva, muitas vezes esquecida: a festa. “E todos os excessos que vêm com ela”, ressalta Van der Veen. Montmartre, naquele período, era um território híbrido. “Metade urbano, metade rural”, descreve o curador. Havia jardins, hortas e pequenos campos ainda ativos. “Van Gogh busca motivos tanto desse lado agreste quanto do outro”. Esse outro lado era o da vida noturna. “Os cabarés, os cafés: a Nouvelle Athènes, o Chat Noir, o Rat Mort”, lista Van der Veen. Espaços históricos onde a boemia parisiense se reunia. “A vida não parava, a festa não parava.” Esses lugares reuniam intelectuais, escritores, pintores, atores e poetas. “Era um mundo lendário”, diz o pesquisador holandês. Paris, à época, era amplamente reconhecida como a capital cultural do planeta. “E Montmartre funcionava como o lado alternativo desse grande palco: o espaço da ousadia, do risco, de ir longe demais.” Van Gogh estava no centro disso tudo. “Sua maneira de repensar a pintura, de romper fronteiras, deve muito a essa imersão no caldeirão cultural francês”, conclui o curador. Leia tambémProvável revólver usado em suicídio de Van Gogh é leiloado por € 162,5 mil Auvers‑sur‑Oise, o "país dos quadros" Ao se aproximar do fim da entrevista, o foco se desloca para Auvers‑sur‑Oise, pequena cidade a cerca de 30 quilômetros de Paris. Para o leitor brasileiro, o nome pode soar discreto. Mas, na história da arte, trata‑se de um território decisivo. “Muito antes de chegar a Auvers‑sur‑Oise, Vincent já conhecia a importância do lugar”, explica Van der Veen. “Quando trabalhava no comércio de arte, ele via constantemente obras criadas ali.” Isso se deve à presença, desde 1860, de Charles‑François Daubigny. “Ele era uma espécie de papa da pintura ao ar livre”, observa o curador. Ao se instalar em Auvers, Daubigny cria uma verdadeira colônia artística. “Isso acontece 30 anos antes da chegada de Van Gogh”. O efeito é duradouro. “Corot vem, depois Pissarro, Cézanne”, lembra Van der Veen. Grandes nomes se instalam naquele vilarejo para desenvolver suas pesquisas pictóricas. “São artistas hoje presentes nos maiores museus do mundo.” Auvers torna‑se um laboratório. “É ali que surgem manifestações iniciais

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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

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